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segunda-feira, 10 de maio de 2021

O discipulo - Capítulo 18 - fim


 A Célula 

Durante três meses Paulo freqüentou a sinagoga onde falava ousadamente, dissertando e  persuadindo, com respeito ao reino de Deus... Durou isto por espaço de dois anos, dando ensejo a que todos  os habitantes da Ásia ouvissem a palavra do Senhor, tanto judeus como gregos. (At 19.8,10.) 

O que há de singular a respeito da célula? Em que ela difere de uma reunião de oração  num lar? Ela é constituída de cinco partes: adoração, discussão, programação, mobilização e  multiplicação. 

Naturalmente, não é necessário haver as cinco em todas as reuniões. Uma reunião pode  ser toda dedicada à devoção, enquanto que a seguinte pode ser só de discussão. Mas todos  estes elementos devêm estar integrados no funcionamento da célula. (Nós os encontramos em  Atos 19, quando Paulo fez alguns discípulos em Éfeso, e estes espalharam o evangelho por  toda a província da Ásia. Eles cultuavam ao Senhor; doutrinavam; planejavam como iriam  fazer a pregação; iam a vários lugares pregar e fundavam muitas igrejas novas — algumas das  quais são mencionadas em Apocalipse 2 e 3.) 

Creio não ser preciso explicar o termo adoração. Oração, adoração, louvor, confissão,  quebrantamento de alma perante o Senhor — todas estas coisas são parte da vida devocional  da célula. 

Discussão é o estudo da Palavra de Deus. 

Mas nós o realizamos de uma forma diferente. Não estudamos uma lição por semana.  Um estudo prolonga-se às vezes por dois ou três meses. Por quê? Porque não passamos para a  lição seguinte enquanto não estivermos praticando a primeira. Não diz a Bíblia que temos que  ser praticantes da Palavra e não somente ouvintes? 

Nossa geração é uma geração de ouvintes. A razão é óbvia: temos oradores em demasia.  Se nós apenas falamos, falamos, falamos, as pessoas não podem fazer outra coisa senão ouvir.  Estudos científicos nos dizem que as pessoas retêm apenas vinte por cento do que  ouvem, e aquilo que retêm, se não for repetido até dez dias depois, ficará perdido. Portanto,  logo que saímos da igreja, lembra-mos apenas vinte por cento do sermão — e, se não o  praticarmos, esqueceremos até estes vinte por cento. Ou se não ouvimos outro sermão sobre o  mesmo assunto, aquilo ficará esquecido. 

O que é que lembramos do que aprendemos na escola? Só sabemos ler, escrever, somar,  subtrair, multiplicar e dividir, porque continuamos a praticar estas coisas. Mas o que  lembramos sobre a geografia da China, por exemplo? 

Jesus não disse: "Ensinando-os a conhecer todas as cousas que vos tenho ordenado."  Mas o que ele disse foi: "Ensinando-os a guardar todas as cousas que vos tenho ordenado." É  por isso que, no trabalho da célula, a discussão inclui a prática. 

Antes fazíamos o seguinte em nossa igreja: tínhamos uma reunião de oração na terça feira. Pregávamos sobre oração. "Vamos orar, meus irmãos. A oração muda as coisas. A  oração é a coisa mais importante da vida cristã." E o povo ia para casa resolvido a orar mais  que nunca. 

Na quinta-feira, tínhamos estudo bíblico. Estávamos no meio do livro de Neemias, e  falávamos sobre as muralhas ruídas de Jerusalém, e como ele as reconstruiu. “Que homem  extraordinário! Precisamos de mais pessoas como Neemias, em nossos dias.” E o povo  esquecia da oração e resolvia imitar Neemias.

Depois vinha a escola dominical. Eles estavam estudando o tabernáculo e todas as belas  tipificações de Cristo nos seus átrios, no Lugar Santo — ah! tudo aquilo também era muito  importante. 

Mas logo depois passávamos para o culto da manhã, e eu pregava sobre santidade. "Sem  santidade ninguém pode agradar a Deus", dizia-lhes. "Deus quer um povo santo." E então eles  iam para casa pensando na santidade e se esqueciam de tudo que haviam ouvido sobre oração,  Neemias e o Tabernáculo. 

Domingo à noite, eles voltavam à igreja e ouviam: "O Senhor voltará brevemente.  Temos que preparar-nos para a segunda vinda de Cristo." 

E assim continuávamos pelos anos a fora. O que eles poderiam fazer, além de escutar?  Cinco mensagens por semana — cinqüenta e duas semanas por ano — 260 mensagens. Teria  sido melhor que eles tivessem dito para si mesmos: “Vou dar atenção a esta mensagem, e  depois não voltarei mais à igreja enquanto não a puser em prática na minha vida.” 

Pois, agora, nós temos quatro ou cinco mensagens por ano. Desde que começamos este  método de discipulação em 1971, estudamos menos de vinte lições. Mas a igreja está  completamente diferente. Por quê? Porque estamos procurando pôr em prática o que  aprendemos. Este é o verdadeiro sentido da Palavra de Deus. A doutrina que precisamos em  nossa vida não é tanto os itens de fé ou credo, mas a prática. 

Vejamos o que Paulo diz a Tito. "Tu, porém, fala o que convém à sã doutrina" (e a  seguir, expõe a doutrina da santíssima Trindade: certo? Errado.) "Quanto aos homens idosos,  que sejam temperantes, respeitáveis, sensatos, sadios na fé, no amor e na constância. Quanto  às mulheres idosas, semelhantemente, que sejam sérias em seu proceder, não caluniadoras,  não escravizadas a muito vinho; sejam mestras do bem, a fim de instruírem as jovens recém casadas a amarem a seus maridos e a seus filhos, a serem sensatas, honestas, boas donas de  casa, bondosas, sujeitas a seus próprios maridos, para que a palavra de Deus não seja  difamada. Quanto aos moços, de igual modo, exorta-os para que, em todas as cousas, sejam  criteriosos... Quanto aos servos, que sejam, em tudo, obedientes aos seus próprios senhores,  dando-lhes motivo de satisfação; não sejam respondões... Lembra-lhes que se sujeitem aos  que governam, às autoridades; sejam obedientes, estejam prontos para toda boa obra." (Tt 2.1- 6, 9; 3.1.) 

Que sã doutrina! Ela não tem grande relação com a tribulação, nem com o milênio, mas  é simplesmente fantástica. 

O que é credo? Uma declaração das definições filosóficas de nossa fé. 

O que é sã doutrina? Um empregado de uma firma que não discute ordens.  Existem muitos diáconos bons nas nossas igrejas que assinam os artigos de fé todos os  anos — eles acreditam no nascimento virginal de Cristo, e tudo o mais — mas não estão  praticando a sã doutrina. Eles ainda dirigem a uns vinte quilômetros acima do limite de  velocidade. Não têm a mínima intenção de serem sujeitos "aos que governam", se isto não for  de seu interesse. 

Pedro disse aos homens: "Vivei a vida comum do lar, com discernimento; e, tendo  consideração para com a vossa mulher como parte mais frágil, tratai-a com dignidade, por  isso que sois juntamente herdeiros da mesma graça da vida, para que não se interrompam as  vossas orações" (1 Pe 3.7). Muitos pastores e diáconos que são perfeitamente ortodoxos em  suas crenças não gostam muito desta sã doutrina. 

“Mulheres”, disse Pedro no primeiro verso do mesmo capítulo, “sede vós, igualmente  submissas a vossos próprios maridos.” Temos diaconisas que agem exatamente ao contrário  disso. 

Nós discutimos estes assuntos em nossas células. Digamos que estamos estudando uma  lição sobre os maridos. Na primeira semana, discutimos todo o material da lição. Na segunda  semana, recordamos a lição por meio de perguntas e respostas, para verificar se todos compreenderam como deve ser o marido cristão, e como deve ser seu relacionamento com  esposa e filhos. 

Na terceira semana começamos a discutir o primeiro ponto da lição: "O marido é o  cabeça da família." Discutimos a maneira de se colocar isto em prática. O dirigente vira-se  para Roberto e pergunta: "Roberto, você é realmente o cabeça de sua família?" 

"Bem", responde Pedro, "nós estamos enfrentando um sério problema na família. Acho  que não sou o cabeça da família porque não sei solucioná-lo." 

"O que aconteceu?" 

"Bem, meu sogro faleceu há pouco tempo. Ele tinha um cachorro grande de que gostava  muito. Nós tivemos que levar minha sogra para morar conosco, e naturalmente ela teve que  levar o cachorro consigo, já que ele é uma recordação do marido. 

"O problema é que nosso apartamento é muito pequeno para acomodar um cachorro. E  nós discutimos por causa disso. Eu acho que o cachorro não pode ficar lá. Minha esposa diz:  'Coitada da mamãe, ela está tão velha! O cachorro é uma recordação de papai. Por favor, seja  bonzinho com ela, deixe-o ficar.' E nós não estamos conseguindo uma solução. Eu nem sei se  quero continuar a viver lá." 

Uma pessoa do grupo diz: 

"Escute, Roberto, eu posso ajudá-lo. Moro na saída da cidade e tenho um quintal bem  grande. Deixe-me tomar conta do cachorro para vocês." Mas o dirigente intervém:  "Não, Roberto. Talvez Deus tenha mandado este cão para sua casa justamente para  ensinar a vocês uma lição. Você não está agindo como o cabeça da casa, mas não pelo motivo  que imagina. O cabeça não é somente uma pessoa que dá ordens a todo o mundo. O cabeça é  uma pessoa que sabe encontrar as soluções dos problemas e descobre o que tem de ser feito.  "Um cachorro não vale esta confusão toda. Ele está provocando divisão na família e é  apenas um animal." 

Outra pessoa diz: 

"Talvez o cachorro não deva mesmo ficar no apartamento; talvez você tenha razão. Mas  pode ser que Deus queira ensinar-lhe a amar aquele cão assim mesmo. Vamos e venhamos,  Roberto. Você está perdendo a esposa, está fazendo a velhinha infeliz. O problema não é o  cão, é você." 

"Oh, não. Eu não consigo solucionar isto." 

"Não se preocupe", diz o dirigente. "Vamos orar para que Deus lhe dê forças para  aceitar o cachorro. Venha aqui e sente-se no meio da sala."  

Nós todos nos chegamos a ele e impomos as mãos para orar. 

"Senhor, dá-lhe vitória nesta questão do cachorro. 

Fá-lo amar a esposa, e a sogra, ajuda-o a..." Roberto começa a chorar. Por fim ele diz:  "Está bem. Agora eu creio que já posso resolver a questão." 

"Está certo", dizem todos. "Agora, quando você for para casa, passe numa loja e compre  uma coleira nova para ele. Se você não tiver dinheiro, nós lhe daremos. Mas você precisa  aprender a amar o cachorro. E assim você estará solucionando o problema que há em sua  casa." 

"O que Roberto não sabe é que, naquele momento, sua esposa está numa outra célula  com minha esposa. Ela também está relatando a história do cão. 

  E minha esposa lhe diz: "Escute, ele é o cabeça da família e você tem que se submeter a  ele. Até mesmo sua mãe tem que submeter-se a ele. 

"Se ele declara que o cachorro não pode ficar lá, então ele terá que ser tirado da casa.  Por que você não tenta encontrar um lugar para ele ficar, e você e sua mãe vão visitá-lo uma  ou duas vezes por semana?"

O discipulo - Capítulo 17

Mais que um Culto Dominical 

Ide, portanto, fazei discípulos... (Mt 28.19.) 

Agora chegou o momento de abordarmos as facetas práticas deste "fazei discípulos". Eu  hesito um pouco em fazê-lo. pelo receio de que alguém possa querer sair correndo e tentar pôr  em prática o que estou dizendo, sem antes ser renovado pelo Espírito. Se o fizer, logo se  sentirá frustrado. 

Antes de a Igreja poder colocar estas coisas em prática, ela deve renovar sua  conceituação do senhorio de Cristo e do papel de escravo — os princípios que expus na  primeira parte deste volume. Se não tivermos o vinho novo, não precisamos dos odres novos.  A coisa mais importante é conseguir o vinho novo, depois, então, podemos pensar na  estrutura que deverá contê-lo. 

Não recolhemos estas idéias em livros ou salas de aula. Elas brotaram da nossa própria  vivência em comum. Começamos a executá-las quase que sem pensar nelas; nós  simplesmente estávamos tentando nos ampliar para dar lugar à ação do vinho novo. 

Primeiramente, a discipulação tem que começar pelos pastores. Se os pastores não se  reunirem como expliquei no capítulo anterior, vendo a si mesmos como anciãos da Igreja de  Deus na cidade, nunca poderão fazer discípulos de seu povo. O discipulado não se propaga de  baixo para cima; ele tem que fluir de cima para baixo. Para podermos fazer discípulos,  precisamos ser discípulos. Discipular não é simplesmente ensinar, não é uma experiência de  sala de aula; é uma experiência de vida. Os pastores não podem pregar seus velhos sermões e  esperar conseguir discípulos com eles. Não dará certo. 

A vontade de Deus para nossos dias só é manifestada no grupo de seus ministros.  Quando eles se colocam diante do Senhor, oram juntos e amam uns aos outros, Deus revela  seus propósitos para a sua cidade. Por fim, Deus pode falar aos seus pastores como grupo. 

Se nós, pastores, não tivermos um espírito de submissão uns para com os outros, como  poderemos esperar que o povo se submeta a nós? 

O fato de existir um grupo de pastores nesta igreja única de Deus é uma garantia,  extremamente importante, de que as ovelhas não sofrerão os desmandos de um ditador. Elas  sabem que seu pastor também é discípulo, sujeito à liderança do presbitério da cidade. 

Leva algum tempo para que um grupo de pastores seja transformado em discípulos. Mas  isto tem que ser feito. É espantoso o quanto se pode aprender. Eu era um pentecostal  orgulhoso, que pensava não ter nada a aprender com os batistas, nem com os presbiterianos,  nem com os da Igreja dos Irmãos, nem com um irmão católico. Eu possuía o evangelho  "completo". Mas quando começamos a nos reunir, em 1967, descobri que eu e minha igreja  não éramos assim tão perfeitos, no final das contas. 

Nem todo ministro é um profeta ou evangelista. 

Mas juntos nós nos enriquecemos uns aos outros, exercitando cada um o seu ministério.  Agora somos cerca de vinte e cinco pastores. 

Este grupo acabou por tornar-se uma das células-mães de Buenos Aires. Depois que já  estava organizada, dedicamo-nos a selecionar alguns discípulos para cada ancião. Tivemos  que tomar cuidado para não escolhermos as pessoas de quem mais gostávamos, ou as pessoas  mais ricas, ou mais cultas — não, não. Os discípulos têm que ser escolhidos pela orientação  de Deus. Por si mesmo, Paulo nunca teria escolhido Timóteo. Era jovem demais. Além disso  era tímido. Paulo teve que escrever-lhe mensagens assim: "Não te envergonhes, portanto, do testemunho de nosso Senhor, nem do seu encarcerado que sou eu" (2Tm 1.8). E para  culminar, ele padecia de um mal crônico, do estômago. Que discípulo! 

Mas Timóteo foi escolhido por Deus. 

Jesus orou toda uma noite, antes de escolher seus doze discípulos (Lc 6.12,13). A  escolha dos discípulos é uma decisão espiritual muito séria. 

A partir daí as células começaram a multiplicar-se. E quanto mais nos expandíamos,  mais importante se tornava a questão do senhorio de Cristo — como se verá.  Cada discípulo tem sete noites por semana, certo? (Na Argentina, falamos muito em  noites, porque quase todo o mundo trabalha o dia todo.) 

Uma noite é dedicada à reunião da célula, onde o discípulo recebe. 

Duas noites são destinadas ao dar. Numa célula, ele está formando as vidas de novos  convertidos; na outra, está formando futuros dirigentes de células. Aqui vemos o princípio da  multiplicação sendo aplicado o tempo todo. 

Então, quando uma pessoa se torna crente, ela freqüenta somente uma célula, no início.  Trata-se de uma célula para bebês em Cristo. Mas, pouco depois, ela se transfere para a célula  em que receberá instruções para a liderança. Então, começa a atuar como discípulo completo  — recebendo do alto, e ao mesmo tempo, dando, tanto a novos convertidos como a discípulos  jovens. Ninguém fica continuamente dando, e portanto ninguém corre o perigo de se esvaziar.  Mas também ninguém fica só sentado, "engordando". 

Numa outra noite (geralmente domingo), nós nos reunimos em conjunto.  Uma outra noite é consagrada à família. Isto é um mandamento divino. Os solteiros  devem dedicar aquele tempo a seus pais. Afinal, as relações familiares são muito importantes  no discipulado. Isto se constitui em todo um novo modo de vida, e não um modo de falar,  apenas. 

A sexta noite é dedicada ao descanso. Isto também é um mandamento. Nós precisamos  disto, porque nas noites de reunião de célula raramente vamos dormir antes de uma da  madrugada. Portanto precisamos descansar, no interesse do próprio Reino. O Rei precisa de  nós repousados para efetuarmos nosso trabalho. Foi com esta finalidade que ele deu a Moisés  o quarto mandamento. 

Muitos crentes dizem que o domingo é seu dia de descanso. Como podem afirmar isto?  Domingo é o dia em que se cansam mais. Levantam-se cedo para irem à escola dominical;  depois vão para o culto; à tarde, distribuem folhetos; segue-se a reunião da união de jovens e  depois o culto noturno. Nós distribuímos as quatro atividades durante a semana. Eles  aglomeram tudo em um só dia. Isto não é dia de descanso. 

Quando Deus disse: "Não farás nenhum trabalho", foi exatamente isso que ele quis  dizer. Os fabricantes de roupas ou tecidos geralmente anexam ao seu produto etiquetas com  instruções para a lavagem dele: "Lave este tecido assim e assim; passe a ferro assim e assim",  e etc. Quando Deus nos criou, ele disse: "Esta máquina tem que descansar um dia por  semana." Os médicos e psiquiatras não ganhariam tanto dinheiro se estas instruções divinas  fossem obedecidas. 

Foi por isso que suspendemos os cultos de domingo pela manhã. Nós precisamos  dormir. Neste dia, todos ficam em casa e dormem até às dez ou onze horas. É diferente, mas  dá certo. 

A última noite é para reforço. A atividade da semana que precisar de um reforço a mais,  recebe-a nesta sétima noite. O discípulo vai ao seu dirigente para receber uma ajuda especial  em qualquer setor de sua vida que esteja mais fraco. Ou então ele visita um de seus discípulos.  Pode também reforçar seu relacionamento familiar, ou então descansar. 

Uma vez por mês todas as células se reúnem e passam um fim de semana no campo —  de sexta-feira à noite até domingo ao meio-dia. Nós conversamos, convivemos uns com os  outros, confessamos pecados, e assim edificamos o nosso relacionamento em comunidade.

Agora os leitores já podem entender por que nosso povo tem que ser totalmente  dedicado ao Reino de Deus. Todo o dia, enquanto trabalham, eles pensam naquilo que irão  fazer para o Reino após a jornada de serviço. Eles são discípulos nas vinte e quatro horas do  dia. (Eu não creio que tenha que me preocupar com as pessoas que procuram nos imitar, sem  estar plenamente submissas a Jesus. Aquilo simplesmente não dura muito.) 

O que é uma célula? Célula é um nome temporário com que designamos um grupo de  pessoas que se reúne com determinados propósitos. Não é um termo bíblico. O nome certo  seria "igreja que está na casa", mas muitos crentes não entendem bem esta expressão. Pensam  que irão a uma casa e realizarão um culto de igreja — um hino, leitura bíblica, mensagem,  oração, encerramento. E as células não operam assim. (Eventualmente passaremos a chamá

las a igreja na casa, depois que as pessoas esquecerem o velho conceito de igreja.)  Após um ano de uso do termo célula, mudamos para o de pequena comunidade, a fim  de dar mais ênfase ao espírito de compartilhar, que é tão importante. Temos nos esforçado  grandemente para acabar com a pobreza em nossa igreja. Afinal de contas, temos que ser a luz  do mundo. Como poderemos abordar os problemas sociais fora do âmbito eclesiástico,  quando não resolvemos os da igreja? Alguns pastores se empolgam muito com questões  políticas em favor da justiça social — mas não conseguem resolver o problema dentro da  própria igreja. Temos que começar num lugar onde nossas palavras são ouvidas e acatadas.  Comecemos com as pessoas que carregam a Bíblia debaixo do braço. Elas, mais que ninguém,  têm que praticar a justiça social. 

É incrível pensar que um irmão da congregação pode possuir dois televisores enquanto  outro não tem nem cama. É incrível que um tenha dois ou mais carros, enquanto outro tem  que andar a pé vinte quarteirões, e esperar ônibus uma hora por dia. Mas isto acontece demais  em nosso país. 

Por isso, estamos enfatizando o espírito comunitário em nossa igreja. Quando  eliminarmos a pobreza de nossa congregação, então teremos autoridade para falar ao mundo  acerca da justiça social. Estamos cuidando de arrumar nossa casa primeiro. 

Uma célula é constituída de cinco a oito pessoas. Se passar disso, ela começará a formar  uma igrejinha para si mesma. Queremos que a igreja permaneça unida, e cada pessoa esteja  bem cônscia de sua parte dentro do corpo. (Nem todos os componentes das células pertencem  à nossa congregação. Alguns deles são batistas, nazarenos, ou católicos, que moram na  mesma área, e desejam se desenvolver no discipulado.) 

O dirigente da célula não recebe nenhuma designação especial. Depois que Deus  começou a renovar-nos, ficamos muito cautelosos com títulos. Ainda não impusemos as mãos  sobre ninguém para eleger diáconos, anciãos, ou quaisquer outros encargos. Antes, fazíamos  isto freqüentemente. Eu era o Reverendo, um pastor ordenado. Mas agora entendo que, na  Igreja primitiva, eu não poderia ser nem diácono — eles possuíam iriais espiritualidade, mais  sabedoria, mais poder espiritual, mais dons, mais tudo, que os mais importantes prelados de  nossos dias. Meu único título é Servo Inútil. 

A força da autoridade decorre da espiritualidade de alguém, e não do fato de ele possuir  um título. Se agirmos de outro modo, é possível que fiquemos decepcionados e cheguemos a  desejar que nunca tivéssemos eleito certa pessoa como diácono ou ancião. Se o dirigente  cresce espiritualmente, os discípulos se submetem a ele sem qualquer título. Mas se ele não  tem a autoridade de Deus, nem o título de Reverendíssimo valerá coisa alguma. 

Não quero dizer que seja errado indicarmos líderes. Digo apenas que é mais sensato  esperar que Deus os leve a operar. Depois, podemos elegê-los facilmente.  As células podem reunir-se em qualquer lugar, em qualquer hora. Se faz muito calor no  apartamento, as pessoas podem ir para a praia ou para uma praça, já que são somente cinco a  oito elementos. A hora do dia também não importa. Não é como numa igreja, onde as portas,  em muitos casos, só são abertas às nove horas da manhã de domingo e às sete da noite, e quem não comparece nessas ocasiões, perdeu. (O caminho do Senhor é estreito, mas não tão  estreito.) 

A célula deve ter dois objetivos em mira: os grupos e sua tarefa. Eu costumava  preocupar-me muito com o trabalho. Desejava alcançar certos alvos e não podia perder tempo  preocupando-me com as pessoas que eu estava utilizando para alcançá-los. Eu era como um  executivo de uma grande empresa que vê cada empregado apenas como uma máquina, uma  ferramenta necessária à obtenção de lucros. 

Eu adquirira tal atitude no sistema em que fora criado. Quando jovem, eu saía para  pregar em cidades pequenas. E quando ia ao escritório central da denominação, quase nunca  era notado. Quando visitei a escola bíblica, ninguém me cumprimentou. Corri as salas, visitei  os estudantes, e foi só. 

Mas depois que me tornei pastor de uma grande igreja, a situação se modificou  enormemente. Todas as vezes que vou ao escritório da escola bíblica: "Olá, irmão Ortiz! Dê me seu casaco. Gostaria de tomar uma xícara de chá?" Agora eu era importante para o  negócio deles. 

Coitado do pobre pastor que cair no desagrado! De repente ele se torna um joâo ninguém, novamente. 

Mas nesta nova vida de discipulado, nós amamos as pessoas, qualquer que seja sua  contribuição. Cada membro da célula é importante. O dirigente compreende que cada um  deles tem suas aspirações e esperanças. A célula procura atender às necessidades de cada  pessoa. 

O resultado é que não temos que suplicar a ninguém para assistir às reuniões. Não  precisamos fazer chamadas telefônicas para dizer: "Olhe, não se esqueça da reunião da célula.  Por favor, esteja presente. Prometa-me que irá comparecer." Não. Eles vão porque não podem  deixar de ir. Neste grupo, eles se realizam. A célula atende às suas necessidades de contato  social, crescimento espiritual, e até as necessidades materiais. Ela os alivia de seus fardos e  problemas de modo que eles ficam aptos a assumir responsabilidades no Reino. 

Mas a célula não pode centralizar-se apenas no grupo, senão não passaria de um clube  de boas pessoas que fazem festas e piqueniques em conjunto. A célula também tem uma  tarefa a cumprir: a grande comissão do Senhor Jesus Cristo. Ela tem que fazer discípulos, pois  de outro modo não haveria razão para sua existência. 

Entretanto, a tarefa nunca será realizada se as pessoas do grupo não se amarem umas às  outras. As duas coisas se acham estreitamente associadas.  

O discipulo - Capítulo 16

Modificando as Tradições 

Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós... pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não  porconstrangidos, mas espontaneamente, como Deus quer. (1 Pe 5.1,2.) 

Quando Deus começou a renovar-nos, algumas de nossas tradições precisaram ser  modificadas. 

A tradição do governo democrático era uma das mais fortes que tínhamos. Começamos  a ver que a igreja primitiva não era democrática; era teocrática. Deus dava ordens aos  apóstolos, e estes' as transmitiam ao povo. Também nomearam anciãos para as igrejas, mas  todos eram obedientes. 

Era uma igreja comandada pela cabeça e não pelos pés. O poder fluía do alto, passando  pelo meio e ia até a base. 

Numa democracia as coisas funcionam ao contrário. O poder está na base. A cabeça tem  que obedecer as ordens dos pés. 

Não existe registro algum de Paulo dizendo a Timóteo: "Timóteo, será que você poderia  apresentar-se como obreiro voluntário para o ministério? Gostaríamos muito que você se  unisse a nós, se desejar." 

O texto de Atos 16.3 diz o seguinte: “Quis Paulo que ele fosse em sua companhia”, e  isto foi tudo. 

Os apóstolos tinham o direito até de definir a doutrina. O Novo Testamento não fala da  "doutrina de Jesus", mas, sim, da "doutrina dos apóstolos". Eles eram infalíveis.  Os problemas começaram a surgir quando esta igreja teocrática perdeu seu carisma, o  poder espiritual. Os líderes se tornaram mais interessados no poder material e terreno do que  no que vinha do alto. Eles conservaram a mesma forma de governo, mas o espírito se fora.  Eram como um estojo de caneta sem a caneta. Exteriormente, pareciam os mesmos, mas, por  dentro, estavam vazios. 

O papa continuou a crer que era infalível, e eu entendo perfeitamente a razão disso.  Afinal de contas, as cartas que Pedro escrevera, as cartas de João e as outras eram toda a  verdade. Por que não continuar assim? E poderia ter continuado; mas sem o carisma, sem a  revelação divina dos céus, a igreja se tornou um elemento perigoso no mundo. 

Alguns de seus filhos, como Savonarola, João Huss, Lutero e outros, tentaram renová la, mas a Igreja não aceitou sua mensagem. Eles teriam trazido uma nova vida à Igreja  Católica, mas em vez disso, foram afastados dela. É assim que age o poder sem a revelação. 

Então as igrejas protestantes reagiram e decidiram tornar-se democráticas. E isto foi  bom durante algum tempo; reconduziu os leigos ao trabalho eclesiástico. Novamente, eles  tinham que pensar, votar e trabalhar. 

Mas não foi a solução. No decurso da Idade das Trevas, o papa se tornou o substituto da  Palavra de Deus. E atualmente é o (voto da maioria que se constitui neste substituto. Q povo  continuava sem saber ao certo o que Deus estava dizendo. E por isso dizia: "Vamos resolver  esta questão pelo voto. A idéia que obtiver mais da metade dos votos, deve ser a vontade de  Deus." 

A maioria nem sempre está certa. Foi a maioria que construiu o bezerro de ouro no  deserto. Foi a maioria que deu as costas para Jesus após suas palavras registradas em João 6.  E nestes dias, quando Deus está reestabelecendo ministérios e carismas iremos ter  muitas dificuldades com a maioria. Não estou argumentando em favor de um governo de  orientação episcopal, mas também não posso apoiar a forma democrática. Sem o carisma nenhum dos dois é bíblico. Talvez quando Deus operar a renovação, as pessoas de formação  episcopal se mostrem mais acessíveis a ela — não sei. Elas já estão acostumadas a receber  ordens de outras que não possuem a plenitude do Espírito; o que farão se seus bispos  realmente se puserem em contato com Deus? 

A questão do governo eclesiástico já foi exaustivamente discutida através da História, e  creio que não pode ser resolvida, simplesmente por uma razão: uma forma de governo  estritamente bíblica não dará certo numa igreja não bíblica. 

A Bíblia fala da Igreja em duas dimensões: a universal e a local. A igreja universal  significa “a igreja de toda a terra”. Igreja local significa “a igreja de uma certa localidade”.  Mas depois que ocorreu a reforma protestante, nós passamos a ter um novo tipo de  igreja que não é nem universal nem local. É a igreja denominacional. As denominações já  experimentaram todo tipo de governo eclesiástico que se possa imaginar, desde as rígidas  formas episcopais, da direita, às formas presbiteriais, do centro, e até às congregacionais, da  esquerda. 

Mas mesmo assim não se achou a solução. Por quê? Porque não se pode instalar peças  de carro Ford em veículos de fabricação Chevrolet. Para autos de marca Chevrolet, só  podemos usar peças Chevrolet. O conceito de denominação não é o mesmo da igreja local do  Novo Testamento, e portanto, nenhuma de nossas formas experimentais de estrutura neo testa-mentária se encaixam nela. 

Certa vez fui ao Equador, e vi ali as bananas grandes e doces que aquele país produz. E  disse: "Que coisa boa! Será que posso levar uma muda dela e plantar em minha terra? As  nossas bananas são tão pequenas." 

E alguém me respondeu: "Bem, acho que não adiantará muito. O clima da Argentina é  muito frio, e lá não dará bananas grandes assim. O senhor teria que levar o nosso solo, a  chuva e a temperatura — teria que levar todo o Equador para o seu país." 

O mesmo acontece conosco. Fizemos uma viagem à Igreja Primitiva e descobrimos o  batismo com o Espírito Santo. E tentamos transplantá-lo para nossa igreja atual sem trazer o  clima. Acabamos obtendo bananas pequenas e grossas. O que aconteceu? O Espírito Santo  ainda é o mesmo do primeiro século. Mas parece que foi diluído — um galão dele, para cem  galões de água fria. Nós o enfraquecemos. 

Nós simplesmente não podemos ter um bom governo eclesiástico bíblico numa estrutura  eclesiástica não bíblica. 

Qual é a igreja bíblica? A igreja da localidade. A igreja de cada área é uma só. Não  existem duas igrejas, ou três, ou dez; a igreja é uma só, assim como Deus é um.  Quando Deus se revelou a Moisés na sarça ardente, este quis saber qual era seu nome.  Em essência, Deus lhe respondeu o seguinte: "Moisés, você vem do Egito, onde existem  muitos deuses, e onde é preciso nomeá-los para se distinguir entre uns e outros. Mas existe  apenas um Deus. Além de mim não existem outros." 

Moisés não entendeu. Ele insistiu em saber o nome. E Deus disse: "Escute, se nós  fôssemos muitos, precisaríamos de nomes. Mas eu não preciso de nome — Eu sou quem sou.  Eu sou o único." 

"Mas quando eu chegar ao Egito terei que identificá-lo de algum modo. O que devo  dizer?" V 

"Bem, você terá que dizer apenas: Eu sou me enviou." Que nome estranho!  O mesmo se aplica à Igreja. Muitas pessoas me perguntam: “De que igreja você é?”  "Eu sou da Igreja", respondo. 

"De qual?" 

"Da Igreja." 

"Ora, deixe de brincadeira — você sabe o que quero dizer. De que igreja você é?"

Existe somente uma Igreja. No Novo Testamento, eles nunca tiveram que arranjar um  nome para a Igreja, porque havia somente uma. Quando eu me encontrava na cidade de  Charlotte, no Estado de Carolina do Norte, disseram-me que havia quatrocentas igrejas  naquele município. Isto não é verdade. Existe apenas uma Igreja em Charlotte, partida em  quatrocentos pedaços. Só pode haver uma Igreja em cada localidade. 

Precisamos descobrir um modo de ajuntar os pedaços novamente. Deveríamos ir ao  topo do edifício mais alto do lugar, e pedir a Deus o seguinte: "Senhor, mostra-me a Igreja  desta cidade, tal como tu a vês." Mas nós somos míopes. Pensamos que Deus está lá no céu  olhando apenas para a nossa congregação, através de um longo tubo, e dizendo: "Como tudo  está bonito! Que órgão bom eles compraram... que lindo tapete instalaram!". 

Olhe! A verdade é que ele está olhando para baixo, chorando. E com estas lágrimas está  dizendo o que Jesus disse quando chorou sobre Jerusalém: "Quantas vezes quis eu reunir os  teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!  Eis que a vossa casa vos ficará deserta." (Mt 23.37,38.) 

Ele vê os vários pastores da cidade, todos unidos como um só corpo de pastores, de sua  única Igreja. E se eles são uma corporação só, devem se reunir em grupo, ter comunhão uns  com os outros, amar uns aos outros. Devem viver quase como viviam os doze pastores da  Igreja de Jerusalém. Eles constituem o presbitério da cidade; os anciãos que estão  encarregados do rebanho de Deus. 

Em alguns lugares nossa estrutura é tão errada que chamamos os diáconos de "anciãos".  E assim, temos uma situação estranha — os "anciãos" se acham debaixo dos pastores. Não  entendemos que, no Novo Testamento, os dois são a mesma coisa. Jesus é a cabeça que, na  visão de João registrada em Apocalipse, caminha entre os candeeiros (as igrejas). A igreja de  cada localidade é diferente das de outras; suas características são específicas para as  necessidades locais, assim como a Igreja de Jerusalém desenvolveu-se de um modo e a de  Antioquia de outro. Mas todas se acham sob o senhorio de Cristo. E através da liderança dos  apóstolos e anciãos, o Reino de Deus deve ser estabelecido em cada lugar. 

Será que este conceito é muito estranho para nós? Será ele uma ameaça às nossas  tradições? É verdade que não podemos simplesmente estalar os dedos e consumir com as  denominações. Até o governo civil já espera que nós as tenhamos. Mas isto não deve impedir  que venhamos a discernir o verdadeiro corpo do Senhor de cada localidade. As santas  tradições protestantes não podem servir de barreira para o crescimento.  

O discipulo - Capítulo 15


 As "Santas Tradições Protestantes" 

Quem era eu para que pudesse resistir a Deus? (At 11.17.)  

Ainda me lembro de como fiquei orgulhoso no dia em que meu primeiro filho entrou  para a escola. Na Argentina, todas as crianças usam uniforme escolar, uma espécie de  macacão branco, e nós fôramos às melhores lojas da cidade, e compráramos para Davi o mais  caro macacão que encontramos. E ele ficara tão bem!

Seis meses depois, porém, já não nos sentíamos tão felizes. O macacão de boa qualidade  não servia mais. Davi crescera. Tivemos que pôr aquele uniforme de lado e comprar outro,  um pouco maior. 

Naturalmente, agora nós já sabemos como são estas coisas. E para nossos quatro filhos,  compramos os mais baratos macacões da loja, pois sabemos que dentro de seis meses não  servirão mais para eles. 

' É o que acontece com qualquer tipo de estrutura. Qualquer estrutura serve muito bem  enquanto as pessoas permanecem como estão. Depois que elas crescem, as estruturas não  servem mais. 

Isto sucedeu com a igreja. Quanto mais nos desenvolvíamos na questão do discipulado,  mais percebíamos que nossas estruturas estavam atravancando o livre curso do Espírito Santo.  Não que as estruturas em si fossem erradas. Nós não as desprezamos: apenas reconhecemos  que foram criadas para ontem, e não para hoje. 

Os líderes não devem se ofender quando falamos acerca de mudanças de estruturação.  Isto significa apenas que estamos crescendo. Se pudermos viver anos e anos acomodados  dentro das mesmas estruturas, isto demonstra que não estamos crescendo. Por exemplo, em  nossa igreja havíamos usado um certo hinário durante quarenta anos. Depois que Deus  começou a nos renovar, já mudamos de hinário cinco vezes. 

Vinho novo precisa de odres novos. A diferença não está no estilo; não é que um odre  novo seja mais atraente ou esteja mais em moda que o velho. Não nos descartamos dos odres  velhos simplesmente porque estivessem velhos; nós os abandonamos porque estavam  enrijecidos. O odre deve ser flexível e elástico para aceitar bem o vinho novo. 

Os odres velhos de que Cristo nos fala em Mateus 9.17 são as estruturas tradicionais  antigas, que às vezes são mais duras que qualquer outra coisa. Alguns de nós acham mais fácil  anular um verso das Escrituras, que abandonar uma tradição. Muitas vezes, entramos em  conflito com a Bíblia a fim de obedecermos à nossa estrutura. 

Certa vez indaguei a um católico:! 

“Escute aqui, onde é que se encontra a adoração de Maria na Bíblia?” Eu realmente  desejava convencê-lo de seu erro. 

Ele era muito humilde. Por isso respondeu-me: “Bem, é possível que a Igreja Católica  dê uma importância demasiada à Virgem Maria; mas pelo menos existe uma Maria na Bíblia;  não existe?” “Certamente”, respondi. 

“No entanto, onde é que se encontram na Bíblia as denominações que vocês tanto  defendem?” perguntou ele. 

Não obstante o que a Bíblia ensina, também temos nossas tradições: as denominações.  Jesus tem somente uma esposa, a Igreja. Ele não é polígamo. No entanto, chegamos até a  dizer que as denominações fazem parte da vontade de Deus. Assim, nós culpamos a Deus  pelas nossas divisões e falta de amor. E depois criticamos os católicos pelas suas tradições.

Pelo menos, suas tradições são mais antigas que as nossas. Não devemos tentar remover  o argueiro dos olhos dos católicos, enquanto não tirarmos a trave que se encontra diante do  nosso. (No início deste nosso avivamento, comecei a escrever um livro intitulado As Santas  Tradições da Igreja Protestante, mas percebi que não estava sendo movido pelo amor, e parei.) 

Já mencionei anteriormente nossa tradição de fechar os olhos para orar. Mais de uma  vez, a Bíblia ensina exatamente o contrário. 

Observei, também, que a Bíblia diz: "Quem crer e for batizado será salvo" (Mc 16.16).  Nossa tradição, porém, ensina que quem crer e for salvo, após alguns meses de teste, será  batizado. 

Jesus disse: "Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-as em nome  do Pai, e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as cousas que vos tenho  ordenado" (Mt 28.19, 20). Nossa tradição diz para sairmos e fazermos discípulos de todas as  nações, ensinando-os a obedecer tudo que Jesus ordenou, e depois batizá-los. E em alguns  casos, os membros da igreja ainda precisam votar para aprovar o batismo de qualquer pessoa. 

De onde foi que tiramos isto? Não sei. Faz parte das santas tradições protestantes. E nós  também excluímos pessoas da igreja quando elas não se ajustam direitinho aos padrões  propostos pela tradição, sob todos os seus aspectos. 

E as tradições e estruturas são tão fortes! As vezes, até me pergunto se elas não são  inspiradas por um espírito maligno. É interessante notar a força que tem a tradição, mesmo na  vida de um apóstolo como Pedro, quando foi enviado à casa de Cornélio. 

Pedro estivera presente no momento em que Jesus dissera: "Ide, portanto, fazei  discípulos de todas as nações" (Mt 28.19). Ele também ouviu Jesus ordenar-lhes claramente:  "Sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até aos  confins da terra." (At 1.8.) 

Mas quando se lhe apresentou o momento de testemunhar para Cornélio, um centurião  gentio, a tradição de Pedro o impediu. O Senhor precisou repetir a visão de animais imundos  suspensos por um lençol e dizer: "Ao que Deus purificou não consideres comum". E Pedro  insistia em responder: "De modo nenhum, Senhor..." (At 10.14,15). As tradições têm um  poder misterioso. As vezes, elas passam por cima até das palavras do próprio Deus. 

É a tradição que nos faz dizer: "Não, Senhor!" Nós lemos na Bíblia acerca da unidade  do Corpo de Cristo, e dizemos: "Não. Deus deseja que as denominações existam exatamente  como são!" Afirmamos que a Bíblia é nossa regra de fé e prática — a menos que entre em  conflito com nossa tradição. É fantástico! 

Por fim, o Senhor disse a Pedro: "Estão aí dois homens que te procuram; levanta-te,  pois, desce e vai com eles nada duvidando; porque eu os enviei" (vv. 19,20). (Ele não lhe  disse que os dois homens eram gentios, nem qual seria sua missão.) E afinal, Pedro  convenceu-se de que poderia obedecer, pelo menos nesta parte. \ 

Os homens lhe relatam o impressionante fato de que Cornélio estivera orando e recebera  a visita de um anjo, que lhe dissera para enviar mensageiros a Jope, exatamente àquela rua e  número, para encontrar um homem por nome Simão. O que o apóstolo poderia dizer? Ele é  obrigado a acompanhá-los. 

Mas durante todo o caminho ele vai contrariado. Entra na casa de Cornélio e quase que  a primeira coisa que diz é: "Vocês sabem que é abominação para nós visitarmos pessoas como  vocês." (Uma tradução livre da versão da Bíblia em espanhol.) 

Suponhamos que alguém entre em nossa casa e nos diga isto. Imediatamente, nós  responderíamos: “E ali é a porta da rua!” 

Podemos bem imaginar como Cornélio se sentiu. Ele convidara todos os seus parentes e  amigos para irem à sua casa. "Vocês irão conhecer um verdadeiro homem de Deus", disse lhes. "Um anjo me disse para chamá-lo. Ele é um santo homem, um varão perfeito, e ele nos  ensinará muitas coisas a respeito de Deus."

E então Pedro chega e os insulta. 

A seguir, o apóstolo menciona por que se deu ao trabalho de ir até ali, e depois diz:  “Pergunto, pois, por que razão me mandastes chamar?” (V. 29.) 

Um apóstolo de Jesus Cristo — e não sabe o que tem a fazer. Até mesmo uma  criancinha saberia. Pedro sabe que está fazendo uma pergunta tola; mas não parece disposto a  entregar-lhes a mensagem. Por quê? Tradição. 

Então Cornélio conta-lhe novamente sua história, repetindo o que seus mensageiros já  haviam dito a Pedro dois dias antes. Por fim, Pedro começa a pregar. Ele lhes fala de Jesus, de  seus milagres, de sua morte e ressurreição. 

Será que Pedro se atreverá a chegar ao ponto de apelar aos gentios para que se  arrependam? Acho que não. Acho que ele está somente rodeando... e finalmente, Deus  intervém, a despeito do que Pedro pensa, e o povo começa a louvar o Senhor, a falar em  línguas, a chorar, e, talvez, até a dançar — quem sabe? 

Pedro corre ao cômodo contíguo, onde estão seus companheiros judeus, e conferencia  com eles. 

“O que está havendo?” indaga um deles. “O que você fez, Pedro?” 

“Não fiz nada”, responde ele. “Eu não os batizei com o Espírito Santo — foi Deus. Eu  não posso fazer nada.” 

“Bem, e o que faremos agora? Será que devemos batizá-los nas águas?”  Enquanto isto, os gentios não enfrentam problema algum. Eles estão desfrutando  daquele derramamento do Espírito. Mas os tradicionalistas estão a braços com uma terrível  questão. A estrutura deles foi abalada. 

E eles discutem o assunto. Afinal, Pedro diz: "Bem, eu acho que devemos batizá-los.  Pois, se Deus..." 

"Pedro, o que você irá dizer à nossa cúpula em Jerusalém?" 

"Não sei; mas não encontro razão para não batizá-los." 

E quando eles regressam a Jerusalém, a notícia já lá chegara, antes deles. Pedro entra na  casa. 

"Olá, irmão. Como vai?" diz ele para alguém. 

"Vai haver uma reunião da mesa diretora às 6:00 horas." 

"Para quê?" 

"Quando chegar lá, ficará sabendo." A reunião inicia. 

"Muito bem, Pedro", diz um deles, "ouvimos dizer que você entrou na casa de um  gentio, comeu com eles. Não toque em nós; não toque em nós. Isto é verdade mesmo?"  E Pedro passa a relatar os fatos. 

"...e logo que comecei a falar caiu sobre eles o Espírito Santo..." 

"Não! Não!" 

"...exatamente como aconteceu conosco, no início..." "Não!" 

"...e se Deus concedeu a eles o mesmo dom que deu a nós, após crermos no Senhor  Jesus Cristo, quem era eu para me opor aos intentos de Deus?" 

Ouçamos agora o que a Bíblia diz: "E ouvindo eles estas cousas, apaziguaram-se e  glorificaram a Deus dizendo: Logo..." (At 11.15-18.) 

O poder da tradição é terrível. Deus fica impedido de realizar muitas das coisas que  deseja por causa das amarras que nos tolhem. E nós ficamos escandalizados todas as vezes  que ele quer modificar-nos um pouco. 

Nossa mente é como estas pequenas mesinhas de cabeceiras que comportam somente  uma lâmpada e alguns livros. Não poderíamos colocar um refrigerador sobre elas, pois se  quebrariam. É isto que acontece quando nossas mentes tradicionais recebem algum ensino  daquilo a que estamos acostumados. Ficamos quebrados em pedacinhos.

Lembro-me da primeira vez que fui a uma igreja da Assembléia de Deus, e vi as pessoas  batendo palmas. "Oh!" pensei, "Como estas pessoas são carnais." E eu lhes disse o que  pensava. Minha mentalidade simplesmente não tolerava aquilo. 

Mas depois eles mencionaram para mim todos os versos de Salmos que falam em bater  palmas perante o Senhor. 

A mesma coisa aconteceu na primeira vez que vi as pessoas começarem a dançar para o  Senhor. Ah! como eu me escandalizei. Minha tradição não permitia aquilo. E novamente,  Deus me fez saber que ele purificara tal coisa, e eu não podia declará-la imunda. 

Vejamos o fato da mulher que chegou diante de Jesus e quebrou o vaso com o perfume  sobre ele. Os discípulos ficaram contrariados e perguntaram: "Para que este desperdício?" (Mt  26.8.) Mas Jesus respondeu: "Ela praticou boa ação para comigo" (v. 10). Que coisa  maravilhosa! A mente dele não ficou nem um pouco transtornada! 

Devemos pedir a Deus para fortalecer nossas "mesinhas", para que elas possam  agüentar qualquer peso que ele queira colocar sobre nós. Ele quer realizar coisas maiores em  nossos dias, mas ele as retém por temer que sejamos esmigalhados. 

O que precisamos fazer para conhecer e realizar toda a vontade de Deus? Duas coisas,  diz Romanos 12.1,2. Primeiro, precisamos apresentar nosso corpo como sacrifício vivo e  santo. Um sacrifício vivo e santo é melhor que um sacrifício morto, pois o sacrifício vivo tem  um futuro. Deus pode fazer com ele o que desejar. 

Em segundo lugar, temos que ser transformados pela renovação de nossa mente. Temos  que estar preparados para mudanças. Estar no centro da vontade de Deus significa estar  continuamente pronto para sofrer mudanças. As vezes dizemos: "Senhor, mostra-me a tua  vontade!" Mas se ele mostrar, nós não faremos nada. Somos como um trem de ferro que diga:  "Por favor, dirija-me por estes trilhos." Para quê? Os trilhos já estão ali. 

Os trilhos são nossas tradições. Nós oramos assim: "Senhor, ajuda-nos a fazer tua  vontade", mas os trilhos que seguimos já estão pregados ao chão. 

Somos como as crianças num parque de diversões, guiando carrinhos. Elas giram o  volante para um lado e para outro, mas a despeito disso o carro segue sempre na mesma  direção. É assim que somos nas igrejas e nos concílios denominacionais. Fazemos vários tipos  de proposições (muita movimentação), mas tudo continua na mesma.

O discipulo - Capítulo 14

A Formação de Discípulos 

Mas. de preferência, procurai as ovelhas perdidas da casa de Israel; e, à medida que seguirdes,  pregai que está próximo o reino dos céus. Curai enfermos, ressuscitai mortos, purificai leprosos, expeli  demônios; de graça recebestes, de graça dai... E em qualquer cidade ou povoado em que entrardes, indagai  quem neles é digno; e aí ficai até vos retirardes. Ao entrardes na casa, saudai-a." (Mt 10.6-8; 10,11.) 

Na formação de seus discípulos, Jesus seguia sempre o mesmo padrão. Ao invés de  ensinar-lhes fórmulas para guardarem no cérebro, ele lhes dava tarefas concretas para  realizarem. E eles obedeciam. 

Ele não pregou sermões inspirativos para motivá-los. Ele não precisou fazer isto.  Sermões inspirativos são para pessoas desobedientes que precisam ser coagidas à ação. Tais  pessoas precisam ser ativadas em suas emoções para que possam sentir como seria belo  poderem fazer aquilo que Jesus lhes ordena. 

Se nós nos colocássemos realmente sob as ordens de Cristo, ele simplesmente diria o  que desejava, e não precisaríamos de música suave ao órgão, nem palavras tocantes do púlpito  — nós faríamos aquilo que ele nos ordenou. Jesus não disse aos doze: "Que tal fazermos uma  excursão missionária? Talvez possamos realizar uma viagenzinha por nossa região, agora."  Não. Ele ordenou e eles foram. Foi assim a formação daqueles discípulos. 

Para que haja formação de vidas cristãs, temos que parar de ser oradores e começar a ser  pais. Os pregadores têm apenas ouvintes. Os pais têm filhos. Q aprendizado não ocorre pelo  ouvir, e sim pelo obedecer. 

O que acontece ao orador quando acaba de falar? Os ouvintes dizem: "Obrigado, pastor.  Foi um ótimo sermão." E é tudo. 

Quando os setenta regressaram a Jesus após terem obedecido seu mandamento,  contaram para o Senhor acerca dos demônios que se lhes submetiam. E a réplica de Jesus não  foi: "Muito obrigado por terem feito o que eu disse!" Em vez disso, ele deu outra ordem:  "Alegrai-vos, não porque os espíritos se vos submetem, e, sim, porque os vossos nomes estão  arrolados nos céus" (Lc 10.20). 

Na ocasião em que Tiago e João quiseram invocar fogo dos céus sobre os samaritanos  hostis, a Bíblia diz claramente: "Jesus, porém, voltando-se os repreendeu" (Lc 9.55). Ao agir  assim, ele os estava formando. 

Quando Pedro levantou aquela objeção à idéia da crucificação, Jesus lhe disse: "Arreda!  Satanás; tu és para mim pedra de tropeço" (Mt 16.23). Será que podemos imaginar um pastor  moderno dizendo isto para uma pessoa de seu rebanho? Gostemos ou não, a repreensão é  parte do processo de formação no disci-pulado. 

A primeira lei do discipulado é a seguinte: sem submissão não há formação. Membros  de igreja que 

^ão do tipo sócio de clube não se submetem. Na realidade, tudo funciona exatamente ao  contrário — eles querem que o pastor se submeta a eles, pois eles têm o direito de voto dentro  do "clube". Aqui novamente vemos a coisa funcionando às avessas. No Evangelho Segundo  os Santos Evangélicos o pastor é submisso aos membros. No evangelho do Reino, o braço  controla os dedos, e não o inverso. 

A submissão está tão patente na Bíblia. "Sujei-tando-vos uns aos outros no temor de  Cristo", diz o texto de Efésios 5.21. "Obedecei aos vossos guias, e sede submissos para com  eles; pois velam por vossas almas, como quem deve prestar contas" (Hb 13.17).

Eu só posso formar o caráter de meus filhos se eles se submeterem a mim. Suponhamos  que a cada vez que eu precisar corrigi-los eu esteja correndo o risco de vê-los correr para  outro homem e dizer: "Não quero mais ser filho de Juan Carlos Ortiz. Quero ser seu filho." E  suponhamos que aquele homem diga: "Ah, entrem! Podem vir!" Eu teria que parar de corrigir  meus filhos, pois não desejo perdê-los. Eu os amo. Mas eu os corrijo porque tenho certeza de  que eles ficarão em casa, não importa o que aconteça. Eles são submissos. 

Na igreja, o pastor não pode formar vidas porque se ele endurecer um pouco com um  dos filhos, a .criança foge para outro orfanato. Paulo disse a Tito o seguinte: "Dize estas  cousas; exorta e repreende também com toda a autoridade. Ninguém te despreze" (2.15). Nós,  os pastores, primeiramente, temos que falar a nossos filhos. Se eles não atenderem, então  precisaremos exortá-los. Se apesar disso eles ainda não se corrigirem, temos que repreendê

los com autoridade. Se não agirmos assim, teremos filhos mal criados. 

Suponhamos que criássemos nossos filhos pelo sistema da igreja. Eu diria a meus  filhos: 

"Venham aqui. Está na hora do culto. Hoje o sermão versará sobre a higiene do rosto e  das orelhas. Assentem-se. Primeiro, vamos cantar um corinho muito bonito. Ele diz o  seguinte: O sabonete é maravilhoso, maravilhoso, maravilhoso! E quando misturado com  água, ele faz bolhas que voam, voam, voam!" Não é lindo? Gostaram do corinho? 

"Agora passemos à mensagem. O sabonete foi inventado na China, cerca de quatro  séculos antes de Cristo. Ele é distribuído em barrinhas de tamanhos variados, e apresenta  diversas cores e perfumes. Ele é feito de vários minerais e óleos vegetais ou animais, o que  determina o seu preço. E, quando misturamos água com sabonete e passamos a espuma  produzida no rosto e orelhas, ela nos torna limpos e bonitos. 

"Naturalmente, se deixarem cair sabão nos olhos, vai arder um pouco. Mas não demora  muito e aquilo passa, e se forem bem cuidadosos, poderão evitar este transtorno.  "Portanto, este é o modo de se manter o rosto e as orelhas bem limpos. Agora, enquanto  o órgão toca uma música suave e o coro entoa o hino 'Tal qual estou' , se qualquer um de  vocês se sentir profundamente tocado, e quiser lavar o rosto e as orelhas, por favor, ergam a  mão." 

Não é este o método certo para se formar vidas. Pelo menos, não foi este o método que  minha mãe empregou. Ela dava uma ordem e eu obedecia; agora, eu lavo o rosto e as orelhas  sem que ela tenha que se preocupar com isto. 

A segunda lei do discipulado diz o seguinte: sem submissão, não existe submissão." (O  leitor pode pensar que cometi um engano aqui, mas não.) A pessoa que dá ordens para seus  discípulos deve estar, ela própria, sob o comando de outrem. Ela repreende seus discípulos —  mas quem a repreende? Se não houver submissão em todos os degraus da cadeia de comando,  não há submissão alguma. 

Lembremo-nos do centuriâo romano que pediu a Jesus que curasse um de seus servos.  Jesus respondeu-lhe: "Eu irei curá-lo." 

Então o centuriâo disse: "Senhor, não sou digno de que entres em minha casa; mas  apenas manda com uma palavra, e o meu rapaz será curado. Pois eu também sou homem  sujeito à autoridade, tenho soldados às minhas ordens, e digo a este: Vai, e ele vai; e a outro:  Vem, e ele vem; e ao meu servo: Faze isto, e ele o faz" (Mt 8.7-9). 

Ele compreendia que ter autoridade significava estar sob autoridade. Eu, por mim  próprio, não posso criar minha autoridade. Ela vem de fora de mim. O verso de Romanos 13.1  diz: "Não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele  instituídas." E se Deus colocar mais dois ou três níveis de autoridade acima do meu? ótimo. A  autoridade só pode passar de mim para outros, se eu fizer parte da cadeia.

Imaginemos um sargento do exército. Ele diz a um soldado para fazer algo, e o soldado  obedece. O sargento fica muito feliz e diz consigo mesmo: Como eu sou poderoso! Acho que  vou abandonar o exército e formar meu próprio exército, em minha comunidade. 

Então ele volta para casa, reúne sua antiga turma, e diz: "Muito bem, rapazes. Agora  façam isto!" E eles se riem dele. 

O que aconteceu? Ao rejeitar a autoridade que estava acima dele, ele perdeu a  autoridade que possuía. O grande problema nosso, na igreja, é que desejamos ter autoridade e  ainda ser independentes. E isto é impossível. Ninguém pode ser independente e ainda ter  autoridade. Se alguém deseja possuir o direito de comandar outros, ele próprio precisa estar  sob o controle de outrem. Isto é uma lei eterna de Deus. 

E tal verdade é sumamente importante. O processo de formação de caracteres não  somente requer submissão, mas também uma inter-submissãC'. 

Como foi que aplicamos estas coisas em Buenos Aires? A primeira medida que tomei  foi colocar-me sob a autoridade dos pastores da cidade. (Explicarei isto mais adiante.) Aí  então, eu estava em posição de começar a fazer discípulos em minha própria igreja. 

Resolvemos deixar de empregar a palavra membro, pois ela traz consigo a idéia de um  clube, situação em que não há o conceito de submissão. Decidimos passar a usar a palavra  discípulo. Todos compreendiam bem o significado do vocábulo, e sabiam que ainda não se  enquadravam nele. 

E se alguém perguntasse a qualquer pessoa: "Você é membro desta igreja?" ela  responderia: "Sim, sou. Aqui estão minhas credenciais. Sou o membro de n.° 234."  Mas se ele perguntasse: "Você é um discípulo?" o outro responderia: "Não. Ainda não.  Nem sei se o pastor é realmente um discípulo. Ele ainda não me colocou sob a orientação de  um mestre para ser disci-pulado." 

Continuei pregando sobre o assunto durante um ano e meio, pois estava sem saber como  começar a prática. Todos já compreendiam bem o conceito certo de discipulado. Mas não  sabíamos realizar a transição. Por fim, sentindo-me grandemente frustrado, eu disse: "Olhem,  Jesus escolheu doze discípulos e começou dai. Eu sou o Rev. Juan Carlos Ortiz e tenho que  continuar a servir meu clube, mas também vou fundar uma igreja clandestina." 

E assim o Joãozinho começou as reuniões em sua casa. Roubou os diáconos do clube do  Rev. Juan Ortiz, e passou a tentar fazer deles discípulos. (Nesta nova estrutura, não sou mais o  Reverendo; sou apenas o Joãozinho. Antes, eu tinha que ser respeitado. Agora quero apenas  ser amado.) 

Dediquei-me àqueles discípulos. Eu os servi. Saímos em passeios pelo campo, em  grupo. Eles dormiam em minha casa e eu na deles. Tornamo-nos como uma família.  Após um período de mais ou menos seis meses, (isso não aconteceu da noite para o dia),  o clube todo começou a notar que meus discípulos estavam mais interessados em ajudá-los,  em amá-los, em testemunhar, em aconselhar. Então permiti que meus discípulos roubassem  mais alguns membros e passassem, eles próprios, a fazer discípulos. 

Levamos quase três anos, mas, finalmente, conseguimos transformar todo o clube em  uma família de discípulos de mais de mil e quinhentas pessoas. 

Isto significou, naturalmente, que tivemos de organizar um certo número de células.  Durante o período de transição, outras pessoas estavam sendo salvas nestas células, e nós as  proibimos de freqüentar a igreja-clube, pois não queríamos que se contaminassem com a  estrutura antiga. Eventualmente, esta estrutura velha deixou de existir. Glória a Deus! 

Sabem o que fizemos em seguida? Encerramos uma perseguição imaginária. Fizemos de  conta que nosso templo nos fora tomado por um mês. Reuníamos apenas em casas de família,  e aos domingos visitávamos outras igrejas — católicas, batistas, quaisquer igrejas. Cada um  dos cinco discípulos ficou como cabeça de um grupo, num bairro da cidade. Cacho, por  exemplo, que trabalha como mecânico-lanternei-ro, tem trezentos discípulos em células que se acham sob sua supervisão. Ele trabalha nove horas por dia na oficina, e depois dedica-se à  formação de vidas, e consegue formar mais discípulos que muitos pastores de tempo integral.  Cacho e seus trezentos foram visitar uma igreja batista que contava apenas com cem  assistentes. 

Já imaginaram? Lá vem trezentos visitantes. "De onde são?" 

"Somos da igreja do irmão Ortiz." "Por que vieram aqui?" "Viemos apenas visitá-los."  "E o seu culto?" 

"Bem. nós suspendemos nosso culto, para virmos visitá-los." 

Entenda-se; com esta nova estrutura de trabalho, podemos fazer o que quisermos.  Podemos convocar o grupo todo para uma reunião, e é possível fazê-lo em questão de horas,  caso seja necessário. Da próxima vez que realizarmos uma encenação de perseguição,  faremos no inverno, para ver como funciona. Talvez algum dia possamos muito bem  dispensar totalmente o uso do templo. Contudo, não iremos vendê-lo. 

Colocaremos camas, e instalaremos nele uma cantina para abrigar os pobres da  comunidade. Será também um centro para acolhermos visitantes e apóstolos itinerantes.  Mas nunca mais será uma caverna onde os crentes se escondam do mundo. Jesus nunca  disse: "Pecadores, venham para a igreja!" O que ele disse foi: "Crentes, saiam pelo mundo, e  façam discípulos." 

A igreja se assenta nos bancos e canta: "Vem já! Vem já! Alma cansada, vem já!" Mas  em vez disso, deveríamos cantar: "Vão já! Vão já! O assentados, vão já!" Realmente, nós  fazemos tudo ao contrário. Os pecadores estão mortos, perdidos, surdos, e cegos. No entanto,  nós instalamos cartazes para estes cegos lerem. Se não conseguimos mobilizar os crentes que  supostamente estão vivos, como podemos ter esperanças de mobilizar os não-salvos? 

Por outro lado, nossas células estão no mundo. Seus membros se reúnem em qualquer  lugar — num lar, numa praça, num restaurante, na praia. Alguns se reúnem às seis da manhã.  Outros, à meia-noite, pois as pessoas trabalham até tarde. É um organismo de funcionamento  bem flexível. 

Mais tarde, nós voltamos a usar a palavra membro, mas com um novo significado: o  membro do corpo. 

O membro do corpo é: 

(1) Dependente — Ninguém vê um nariz andando pela rua sozinho. O corpo precisa  estar todo interligado, como um só bloco. Se um membro é independente, não é parte do  corpo. 

(2) Uma parte do corpo que faz a ligação entre duas outras partes. O antebraço liga a  mão ao braço. 

(3) Uma parte que conduz alimentos — Ela recebe a nutrição para si mesma e para as  outras que se situam abaixo dela. 

(4) Um elemento que sustenta, que está fixo — Um membro do corpo não pode ser  atirado para fora do corpo. Por acaso, quando um homem chega em casa, a esposa lhe  pergunta: "Onde você perdeu sua perna direita?" Impossível! Ninguém perde um de seus  membros assim. 

(5) Um elemento que transmite ordens — A cabeça emite uma ordem para a mão, mas  esta ordem tem que atravessar os membros que se acham entre uma e outra. A mão nunca fica  aborrecida com o antebraço e diz: "Acho que vou me desligar de você e instalar um cabo de  ligação direta para a cabeça." Não. Nós somos um só corpo. 

(6) Elástico — O corpo é flexível. As organizações, em geral, caminham como robôs.  No passado, qualquer pessoa que tivesse uma idéia nova ou um talento novo, geralmente,  tinha que deixar a igreja, e ir trabalhar em outra. As pessoas que tinham uma chamada  missionária, precisavam dirigir-se à Cruzada Estudantil Para Cristo, ou à Mocidade Para Cristo, ou juntar-se aos Navegadores, ou a outra missão qualquer, a fim de se entregar a um  trabalho missionário. 

Mas quando a Igreja é um corpo de discípulos, ela é flexível. A Igreja está espalhada  por todas as partes do mundo; está livre para ser o sal da terra e a luz do mundo.  

O discipulo - Capítulo 13


 Membros ou Discípulos? 

Também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio  santo. (1 Pe 2.5.) 

Se ao menos esta declaração de Pedro pudesse ser aplicada aos crentes de hoje em dia.  E em alguns lugares talvez possa, mas o mais comum é a igreja não ser uma casa espiritual —  mas apenas uma pilha de tijolos soltos. Existe uma grande diferença entre uma e outras 

Cada membro da congregação é um tijolo, e todos I nós nos esforçamos arduamente  para conseguir mais tijolos. Até o pastor trabalha em evangelismo, no intento de levar mais  tijolos para o local da construção. 

Mas existe um problema com este material solto — os tijolos podem ser roubados. O  pastor e o pessoal da igreja têm que estar sempre atentojs, pois alguém de outra igreja pode  vir e roubar alguns tijolos de seu lote. E, na verdade, estão todos tão atarefados nisso, que o  edifício nunca é construído. 

Nós somos a alvenaria de Deus, mas ainda não fomos assentados no lugar devido, em  seu edifício, para que possamos sustentar nossa parte da responsabilidade, e, fortalecer a  estrutura. Se tivéssemos sido colocados no lugar, saberíamos quais os tijolos que estão abaixo  de nós e quais os que estão acima, e saberíamos como nos relacionar uns com os outros. 

Mas, atualmente, o que fazemos é ficar o tempo todo vigiando uns aos outros. Temos  tanto medo que alguém possa escapulir! E enquanto isso, esquecemo-nos dos perdidos que se  encontram lá fora, ao frio, procurando uma casa aquecida que os abrigue. 

Se o pastor pensa em nos pegar e colocar em nosso lugar do edifício, resistimos. A  igreja tem que funcionar democraticamente, dizemos. Não nos submetemos a pessoa alguma.  Submetemo-nos somente ao voto da maioria (e, por vezes, nem a ele). Já ouvi crentes dizerem  orgulhosamente: "Não sigo homem algum — sigo a Cristo." Tal afirmação pode parecer  muito espiritual, mas, na realidade, é um terrível engano. Ela significa que a pessoa quer fazer  a própria vontade; ela nem sabe o que significa seguir a Cristo. 

Paulo disse: "Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo" (1 Co 11.1). Nós,  os pastores, às vezes, tememos dizer isto, porque não estamos vivendo como devíamos. E, por  isso, o que falamos é: "Não olhe para mim, irmão. Siga a Bíblia." 

Sabe o que isto quer dizer? Isto quer dizer o seguinte: "Eu já tentei e não consegui.  Agora tente você." Não admira que os leigos se sintam desencorajados. Se o pastor não  consegue fazer aquilo que a Bíblia diz, quem conseguirá? 

Paulo não tinha medo de colocar-se como modelo a ser imitado. Ele disse o seguinte aos  filipenses: "O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso  praticai; e o Deus da paz será convosco" (Fp 4.9). Isto pode não ser muito democrático, mas  dá como resultado a edificação de um prédio forte. 

A razão por que isto dá certo é que se baseia no princípio da multiplicação. Certa vez  uma senhora idosa apresentou-me uma moça. 

"Esta jovem é minha neta", disse ela. 

"É mesmo?" indaguei. 

"É. E eu já tenho bisnetos", informou ela. "E uma delas já tem quinze anos. Se ela se  casar breve, eu posso até chegar a ver meus trinetos." 

"Quantos filhos a senhora teve?" perguntei. 

"Seis." 

"E quantos netos?" i| "Trinta e seis."

"E quantos bisnetos?" 

"Não sei", respondeu ela. "Nunca contei." 

Nas mesmas proporções, ela poderia ter 216 bisnetos e 1296 trinetos. E a sua família era  realmente notável. Um dos filhos era médico; outro, advogado. Dois eram fazendeiros. Um  deles era motorista de praça. Entre seus netos contavam-se engenheiros e muitos outros  profissionais liberais. 

Se eu lhe perguntasse: "E como foi que a senhora conseguiu criar uma família tão  numerosa — isto é, alimentar bem todos eles, vesti-los, dar-lhes boa educação escolar?" ela  teria respondido: "Mas eu não criei todos. Criei apenas seis." 

Nós não aplicamos este processo de multiplicação na igreja. O pobre do pastor tem que  tomar conta de todos, e aí é que está o problema. 

Se quisermos crescer e expandir e assentar os tijolos para edificar o edifício, temos que  modificar este estado de coisas. Temos que fazer discípulos para que estes possam fazer  outros discípulos. Temos que ser pais, e não diretores de orfanatos. 

Foi assim que Jesus agiu. E não foi ele o melhor pastor que já existiu? Entretanto, ele  cuidou apenas de doze homens. O verso de Mateus 9.36 diz: "Vendo ele as multidões,  compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor." 

Por quê? Não era ele o bom pastor? Sim, era. Mas um pastor não pode ocupar-se de um  ilimitado número de ovelhas, mesmo que este pastor seja Jesus. Se ele não pôde fazer mais  que doze discípulos de uma vez, como é que eu posso fazê-lo? 

Jesus colocou-os no edifício. Quando partiu, eles já sabiam o que fazer: sair para formar  outros discípulos, assim como Jesus fizera com eles. 

Então eles partiram e começaram a ensinar e a testemunhar de casa em casa, em  pequenos grupos. Nós não fazemos assim na igreja moderna. Aos domingos, nós reunimos  todos no refeitório do orfanato e dizemos: "Atenção! Abram todos a boca. Aí vai o almoço!"  E depois, atiramo-lhes o alimento, a todos eles de uma vez, e no final dizemos: "Adeus. Estão  dispensados, e até o próximo domingo!" 

Isto não é modo de alimentar crianças. Temos que tomar cada uma no colo, uma a uma,  e colocar o bico da mamadeira em sua boca. Depois que ela cresce um pouco mais, já começa  a alimentar-se sozinha, e por fim, poderá até ajudar-nos a preparar a mamadeira para os mais  novinhos. Ela já ocupa sua própria posição de desenvolvimento dentro da família. 

Assim, trata-se de um ministério de edificação, de construção, e não de ama-seca.  Naturalmente, temos que perguntar a nós mesmos o que é que estamos edificando. Uma  denominação? Descobri que eu havia feito isto por vários anos. Nas convenções, eu tinha  muito orgulho das realizações de meu grupo: era um outro reinozinho pequeno.  Então eu compreendi que Paulo nos conclama a trabalhar em prol da edificação do  "corpo de Cristo" (Ef 4.12). Nós não entendemos isto hoje em dia. Não pensamos em termos  do corpo de Cristo como um todo. Pensamos em termos de partes do corpo — a parte batista,  a parte presbiteriana, a parte das Assembléias de Deus, etc. E temos a pretensão de pensar que  aquela parte é o todo. 

Paulo disse aos coríntios que era um erro muito grave comer e beber sem "discernir o  corpo" (1 Co 11.29). O pão único da Ceia do Senhor significa que apesar de sermos muitos,  somos um. 

Mas, como podemos edificar algo que não entendemos? Não podemos, e não estamos  edificando. Em vez disso, estamos edificando nossos próprios reinos, denominações e  programas às expensas de outras partes do corpo. 

Nós estamos loucos! Se alguém vir um homem cortando o próprio pé com uma faca, ele  dirá: 

"Que loucura é esta que você está fazendo?" 

"Estou cortando meu pé."

"Por quê?" 

"Porque este pé pisou no outro, e o outro disse: 'Corte-o'." 

Este homem perdeu o juízo. Ele não tem discernimento para ver que os dois pés  pertencem a um mesmo corpo. 

As vezes quando estamos comendo, mordemos a língua. Ah, que dor! Mas ninguém  resolve, por isso, extrair todos os dentes. A língua, embora ela possa falar, não se vira para  nós e diz: "Vamos nos livrar de todos estes dentes." Está claro que os dentes pertencem ao  corpo. 

Ouçam-me: nós precisamos compreender o que o Corpo de Cristo é. Temos que parar  de fazer loucuras com nós mesmos, falando uns contra os outros. Não é de se surpreender que  soframos tanto. Não é de se admirar que a Igreja esteja tão fraca e perdendo sangue. 

Os homens que mataram o corpo físico de Cristo — Pôncio Pilatos, os executores  romanos e os sacerdotes judeus — pelo menos tinham um objetivo em mira. Foi um ato  terrível, mas pelo menos resultou no fato de Jesus pagar pelos nossos pecados. 

Mas qual é nosso propósito ao perseguir o corpo espiritual de Cristo? Qual é nosso  motivo para crucificar, ferir e dividir o corpo? Não o temos, e nosso castigo por fazermos tal  coisa será mais severo que o de Pilatos ou Judas. 

Talvez a Ceia do Senhor possa ensinar-nos a amar e respeitar e edificar o Corpo de  Cristo — todo o corpo. Se não aprendemos isto, estamos loucos. 

O corpo todo precisa, como dizem os americanos, "ficar junto". Os braços e pernas  precisam estar solidamente interligados. "Porque, assim como num só corpo temos muitos  membros, mas nem todos os membros têm a mesma função; assim também nós, conquanto  muitos, somos um só corpo em Cristo, e membros uns dos outros." (Rm 12.4,5). 

Já mencionei anteriormente a passagem de Efésios 4.11-15. O verso 16 fala de Cristo:  "de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado, pelo auxílio de toda junta, segundo a  justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo  em amor." 

Deixem-me enfatizar bem isto: se os membros não estão ajustados e consolidados, eles  não formam um corpo. São apenas um conjunto de vários membros. 

O que significa ser membro da igreja hoje em dia? Quase todas as igrejas fazem três  exigências: 

(1) O membro deve freqüentar as reuniões. 

(2) O membro deve contribuir. 

(3) O membro deve ter um bom caráter. 

Se estes três requisitos são satisfeitos, ele é considerado um bom membro da igreja.  Então ele é como um sócio de um clube qualquer — freqüenta a sede, paga as mensalidades e  procura não envergonhar sua agremiação. 

Mas quando nós, lá em Buenos Aires, começamos a procurar estas coisas nos  Evangelhos e em Atos dos Apóstolos, não encontramos nada. Na verdade, não encontramos a  palavra membro em lugar algum. Não encontramos em nenhum dos registros da Igreja  primitiva um lugar onde se narrasse que eles aceitaram membros na igreja, ou tivessem  realizado uma cerimônia especial, ou coisa semelhante. 

Mas no livro de Atos, encontramos outra palavra que realmente revolucionou nossa vida  e nossa igreja — a palavra discípulo. E indagamos de nós mesmos: "O que era um discípulo?"  Não era o que chamamos "membro de igreja". Um discípulo é uma pessoa que aprende  a viver do mesmo modo que seu mestre. E depois, ele próprio comunica a outros a vida que  tem. 

Portanto, o discipulado não consiste em uma transmissão de conhecimentos ou de  informações. É uma transmissão de vida. Foi por isto que Jesus disse: "As palavras que eu vos  tenho dito são espírito e são vida" (Jo 6.63).

Ser discipulado não_é_apenas aprender o que o mestre sabe — e chegara ser  como_gle_á1 Y É por isso que a Bíblia diz que temos que fazer discípulos. Isto implica em  algo mais do que apenas falar com eles, ou ganhá-los ou instruí-los. Fazer um discípulo  significa formar uma duplicata de outrem. 

Obviamente, então, o mestre tem que ser, ele também, um discípulo. A visão atual do  significado de discipular permite brigar com a esposa à mesa do café, e depois ir para a igreja  e pregar a respeito do amor no lar. Mas no método de fazer discípulos, não podemos agir  assim. Os discípulos ficam mais tempo conosco; eles entram em nossa casa, vêem como é que  nós vivemos e é deste modo que passam a imitar-nos.

Suponhamos que uma pessoa viajasse comigo durante uma semana e depois dissesse:  "Olhe aqui, Juan Carlos, você é um mestre. Por favor, marque comigo uma hora para ensinar me algumas coisas." Eu responderia: "Se você não aprendeu nada estando em minha  companhia estes sete dias, não tenho nada para ensinar-lhe.".Discipular não é tanto falar; é  mais vjxex. 

Vamos pensar um pouco acerca das três dimensões do ensino: revelação, formação e  informação. 

A revelação é algo que somente Deus pode dar. Eu poderia descrever para meus  ouvintes a cidade do Rio de Janeiro, falando da atmosfera do lugar, da Baía de Guanabara, do  Pão de Açúcar — e mesmo assim eles não poderiam dizer que conheciam o Rio. Eles  saberiam alguma coisa a respeito dele, mas, realmente, só conheceriam a cidade quando  fossem lá, e ela se revelasse para eles. 

Da mesma forma, Deus tem que revelar-se a nós, face a face, para que possamos dizer  que o conhecemos. 

Na realidade, qualquer descrição que eu fizesse do Rio de Janeiro representaria apenas a  menor dimensão do ensino: a informação. É o modo que usávamos para ensinar em nossa  escola dominical e na igreja. 

P. Quantos livros contém a Bíblia? 

R. Sessenta e seis. 

P. Qual é o salmo que fala do bom pastor? R. O Salmo 23. 

E assim por diante. Recebemos informações acerca de Abraão, Moisés, sobre o céu e o  inferno, sobre anjos e demônios, sobre a queda de Satanás e a segunda vinda de Cristo. Dar  informação em si não é errado, mas é a mais elementar forma de ensino. Tudo que ela faz é  despertar nosso interesse para conhecer experimentalmente as coisas de que nos fala. 

Infelizmente, nós fizemos da informação um fim em si mesma. Conhecer e memorizar  as palavras da Bíblia tornou-se nosso único objetivo. 

O mais estranho é que Jesus quase nunca usou este método. Nunca vemos Jesus dando  aos discípulos um estudo bíblico. Não conseguimos imaginá-lo dizendo: "Não se esqueçam de  que amanhã teremos um culto de oito às nove. De nove às dez, estudaremos os profetas  menores. E das dez às onze, veremos os livros poéticos, e depois, de onze até meio-dia,  teremos aula de homilética e hermenêutica. 

No entanto, ele estava preparando os melhores ministros que a história já viu. Como é  que ele pôde ignorar matérias tão importantes? 

Será que alguém pode imaginá-lo dizendo: "Agora vamos estudar o livro de Jeremias.  De acordo com a alta crítica Jeremias é um mito; ele realmente não existiu. Ou, então, se ele  existiu, não foi o autor deste livro..."? 

Nunca! Jesus não tinha tempo a perder. Ele usava de linguagem simples, clara e  concreta. Muitos de nós querem ser assim em nossos estudos bíblicos, mas sempre acabam  confundindo as coisas. 

Certa vez convidaram-me para ensinar o livro de Romanos na Escola Bíblica Argentina.  Como considero o livro de Romanos grandemente importante, achei que ele deveria ser analisado verso por verso. E foi o que fiz. Levei o ano todo para estudar o livro até o fim.  Quando terminamos, não creio que eles soubessem o que a epístola aos Romanos tencionava  dizer. 

Suponhamos que eu escreva ao pastor uma carta assim: "Prezado Bill, estou escrevendo  de Roma, onde acabo de chegar com minha esposa e filhos. Até o momento já vimos..." e por  aí vou eu, e acabo escrevendo uma longa carta. 

Ele recebe a carta, e no domingo seguinte vai à igreja e diz: "Amigos, recebemos uma  carta do irmão Juan Carlos, e agora dedicaremos os próximos três meses ao estudo dela.  "A carta começa dizendo: "Prezado Bill". No grego a palavra "prezado" significa uma  pessoa a quem amamos. Ele se dirige a mim como uma pessoa que ele preza. Posso imaginar  o irmão Juan pegando a pena e escrevendo "prezado". Seu coração está transbordante de  amor. Sua esposa, que se acha a seu lado, também compartilha de seus sentimentos.  "Prezados irmãos, como é que os irmãos escrevem suas cartas? Iniciam com a palavra  "prezado"? Vamos todos, de hoje em diante, agir sempre assim. 

"Prezado Bill" — ele me chama pelo meu nome. Ele me conhece. Está interessado em  mim pessoalmente. E você? Você chama ai pessoas pelo nome, demonstrando assim que você  as reconhece? 

"Estou escrevendo de Roma..." Ele próprio escreve para nós. Não está-nos escrevendo  através de uma secretária, mas escreve para nós de seu próprio punho. 

"Bem, hoje vamos parar por aqui. No domingo que vem. continuaremos a estudar a  carta de Juan Carlos." 

E no domingo seguinte: 

"Estou escrevendo de Roma." Ah, é a cidade fundada por Rómulo e Remo, dois homens  que na infância foram amamentados por uma loba. É a capital do Império Romano, onde  viveram os césares. Todos se lembram de que mais tarde o império se dividiu em duas partes:  oriental e ocidental, e por fim, desintegrou-se. 

"Passemos agora ao verso seguinte..." 

E o povo da igreja dirá: "Como nosso pastor é profundo. Ele passa dois ou três  domingos somente em um verso. Que maravilha!" 

E três meses depois terão terminado o estudo da carta, mas ninguém saberá o que eu  disse. 

É assim que ensinamos a Bíblia. Vai ser interessante quando chegarmos ao céu e Paulo  agarrar pelo braço alguns de nós, professores e mestres, e disser: "Venha cá. Quero ter uma  conversa com você. Eu nunca escrevi aquilo que você disse que eu escrevi." 

Nós gostamos de impressionar os outros com o montante de conhecimentos que  possuímos acerca de um verso bíblico. Pensamos estar sendo "profundos". Mas será que  alguém realmente entende o que estamos dizendo? Duvido. 

Nós estamos preocupados em passar informação. Mas Jesus estava mais interessado em  formação. Precisamos aprender com ele a fazer discípulos.