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terça-feira, 8 de junho de 2021

Este mundo tenebroso - parte 2 - capítulo 46


 — Gostaria de saber o verdadeiro motivo pelo qual sou despedida — exigiu Irene Bledsoe.

Sua supervisora era uma mulher idosa com cabelos brancos esticados com força para a parte de trás da cabeça e presos ali como inumeráveis grampos; seus cabelos estavam esticados, sua expressão estava esticada, e devido à obesidade, suas roupas estavam esticadas. Tudo a respeito da mulher estava esticado, especialmente a sua paciência.

— Você conhece a sua ficha de motorista melhor do que eu — disse ela bruscamente, mal erguendo os olhos do serviço sobre a sua escrivaninha. — Tamanha irresponsabilidade na estrada, especialmente quando transpor­tando crianças, é um risco para esta organização e não pode ser tolerado. Bledsoe tentou manter a sua dignidade profissional, mas estava defini­tivamente indignada.

— Srta. Blaire, tenho aqui em mãos as fichas de motoristas de nada menos do que uma dúzia de outros funcionários do Departamento de Proteção à Criança; tenho até os resultados de alguns testes de aptidão...

— Já vi todos eles, e não quero vê-los novamente.

— Srta. Blaire, você se mete com a pessoa errada!

SLAM! A Srta. Blaire jogou com força os papéis e os lápis sobre a escrivaninha e perfurou a Bledsoe com olhos de frio aço.

— Acabou de dizer isso à pessoa errada, Sra. Bledsoe, está-se dirigindo, em essência, ao Estado. Não nos "metemos" com ninguém; estabelecemos a nossa pauta de atividades e julgamos nossos empregados pela eficiência com que as desempenham. A verdade e que você foi considerada um perigo para este departamento, e, como tal, foi despedida.

— É por causa do caso Harris, não é? Esse é o verdadeiro motivo? A Srta. Blaire respondeu fria e mecanicamente:

— É por causa da sua ficha de motorista, Sra. Bledsoe. A senhora...

— Eu estava apenas cumprindo as ordens que recebi!

— Simplesmente não se pode confiar na senhora para transportar crianças com segurança, e essa é a última coisa que vou dizer a respeito do assunto. Agora termine seus deveres apropriadamente, ou farei com que deixe de receber seu último pagamento!

— Não... não pode fazer isso!

A Srta. Blaire apenas deu o seu sorriso frio, calculista. Oh, sim, podia, e Bledsoe sabia.

— Está bem. Está bem. Já limpei a minha escrivaninha e entreguei os meus casos a Julie e Betty. O que falta ainda?

— Levar os filhos de Harris de volta a Baskon.

Ed e Mose ainda estavam sentados em seu posto na frente da Barbearia do Max, apenas observando qualquer coisa que passasse diante deles na rodovia Toe Springs-Claytonville.

Ed corria os olhos pelo último exemplar do Estrela do Condado de Hampton, assegurando-se de que Mose ficasse a par de tudo, quer Mose estivesse interessado, quer não.

— O Casarão Branco está à venda — avisou ele.

Mose observava uma poça de lama no outro lado da rua e pensava que talvez a Mercearia precisasse de novas calhas.

— Hein?— Eu disse que o Casarão Branco está à venda. Aquele casal que vivia em pecado finalmente decidiu mudar-se.

— O que? Separaram-se?

— É apenas o anúncio de venda da casa, Mose. Não fala nada a respeito disso.

Mose tirou um momento para dar uma cuspida na rua.

— É, provavelmente não diz nada a respeito do sargento Mullingan também. Ele também vivia em pecado, ouvi dizer, ele e aquela supervisora da fabrica de portas.

— Quer dizer um com o outro? — quis saber Ed.

— Os dois se foram, não é? Ambos se mandaram ao mesmo tempo. Alguém os viu juntos. Eu não nasci ontem, Ed.

Ed pensou por um momento.

— Eh... não me importo que se tenham ido. Eram um bando estranho, ele e seus amigos.

— Não era um tira muito bom também. — Jon Schmidt era um tira?

Mose ficou abismado com a burrice de Ed naquele dia.

— Não, amigo, Mulligan!

— Bem, alegro-me em vê-lo ir embora também.

— É, e aquele bando do Casarão Branco, estou contente de ver que se foram.

Todo o mundo está indo embora. Parece que a cidade inteira se demite.

— Quem se demite?

Ed entregou o jornal a Mose, e Mose ajustou os óculos.

— Está vendo aqui? Temos... umm... estes três fulanos do conselho escolar, umm, a Sra. Hanover, e John Kendall...

— John Kendall? Aquele teimoso! Quem finalmente o convenceu?

— E olhe aqui: Jerry Mason. Isso dá três. Mose estava pasmado.

— Bem... não foi ontem mesmo que Elvira disse que a escola primária ficou sem a professora de quarta série, a Srta. Beer?

— Brewer.

— Dá na mesma. Ela e aquele tal Woodard se meteram num bate-boca. — Woodard está ficando velho, esse é que é o problema. Ele se aposenta.

— O que foi que disse?

— Ele vai-se aposentar no fim deste mês.

— Ele não parecia tão velho assim.

— Você tem olhado demais no espelho, Mose. Mose empurrou o chapéu para trás.

— Ora essa. Você tem razão. Todo o mundo se demite! Talvez eles saibam alguma coisa que não sabemos! Ei! Ei, espere um minuto!— O quê?

— Ora, vire para a segunda página ali. Olhe aí.

— Bem, dê-me umas asas e me chame de anjo...

— Tem alguma coisa dando a volta por ai, Ed. Alguma coisa dando a volta.

Eles liam uma notícia:

JUIZ DO SUPREMO TRIBUNAL DEIXA O CARGO. Ed inclinou a cabeça para trás a fim de conseguir ler através de suas lentes bifocais.

— Quem é esse Owen Bennett?

— O último homem no Supremo Tribunal. Não faz muito tempo que foi nomeado.

— "Bennett atribui seu pedido de demissão a problemas de saúde e motivos pessoais." Mas ele parece bem moço, não acha?

— Você também tem estado olhando demais no espelho, Ed.

— Ora essa, pode ser... Mose caiu na risada.

— Ei, sabe de uma coisa, Ed? Talvez a gente também devesse pedir demissão.

Ed pensou a respeito por um momento e replicou com grande serieda­de:

— Mose, onde é que o mundo estaria sem a gente aqui para ficar de olho nele?

Então os dois caíram na risada, golpeando-se e cutucando-se mutua­mente e divertindo-se para valer; podia-se ouvi-los por diversos quarteirões de distância.

Sally continuou dirigindo rumo a Baskon, revirando vez após vez na cabeça como exatamente ela ia apresentar-se diante da Sra. Potter, como que voltando dos mortos, e pedir para continuar alugando a antiga sede do sítio. Isso, naturalmente, dependia de ela conseguir de volta seu emprego na fábrica de portas, e isso provavelmente dependia de eles aceitarem ou não sua desculpa para ter ficado fora tanto tempo sem ter dito nada, e isso levantava toda a questão do que ela ia dizer a todos eles, e isso dependeria de se ela poderia ou não falar sobre o assunto em público durante o decorrer da investigação, mas então, ela não sabia ainda se chegaria a haver uma investigação.

Ela diminuiu a velocidade ao aproximar-se da intersecção que ficava bem no meio dos milharais. Sentiu leve tensão no estômago. Essa era a mesma intersecção na qual aquela mulher Bledsoe quase se chocara contra ela com os filhos de Tom Harris no carro.

De qualquer forma, a primeira coisa era descobrir o que acontecia em Baskon, e como a ação judicial prosseguia, ou se ainda prosseguia. Bernice Krueger devia ter recebido aquela última carta a essa altura, e deve ter mandado todo aquele material a Tom Harris, por isso alguma coisa devia estar sendo tramada. Ela não tinha visto nenhum jornal nos últimos dias.

Bem! O que era isso, um tipo de retro-visão? Ela tinha de estar vendo coisas!

Lá estava aquele mesmo carro verde!

Irene Bledsoe assegurou-se de parar cuidadosa e seguramente no notório cruzamento que lhe havia custado o emprego. Josias e Rute estavam bem presos com os cintos dessa vez. O cruzamento parecia o mesmo, exceto que o milho estava mais alto. Era quase como tornar a ver algo já visto antes, sentar-se ali esperando por aquela... aquela caminho­nete azul... dirigida pela mulher de lenço xadrez na cabeça...!

Sally ficou a olhar petrificada. Não podia evitar. Aquela era Irene Bledsoe novamente! E lá estavam os dois filhos de Harris!

Da traseira da caminhonete de Sally, Mota e Signa acenaram para seus dois camaradas, Chimon e Scion, que iam em cima do carro verde. Que bom esse encontro ter dado tão certo!

Irene hesitou. Ela estava no veículo à direita, por isso devia atravessar a intersecção primeiro, mas simplesmente não conseguia mover-se. Não podia acontecer!

Josias também viu a mulher e ficou maravilhado.

— Ei, olhe! Lá está aquela senhora da caminhonete azul!

— Isso mesmo — disse Rute. — Lembro-me dela!

Então não era alucinação! Irene pressionou o acelerador suavemente e começou a rastejar pelo cruzamento, apenas encarando a mulher.

— Ei — disse Josias, também encarando — ela está chorando.

Sally viu o carro verde passar em sua frente e aumentar a velocidade, e então enxugou os olhos.

Senhor, isto veio do Senhor! O Senhor usou isto para me contar!

Agora ela sabia. Esse encontro, essa cena diante dela, disse tudo: Em algum lugar, de alguma forma, as trevas haviam sido trespassadas; estavam desfeitas, caídas, seu poder se fora!

As crianças iam para casa.Bem do alto, Baskon parecia verdadeiramente prazenteira, cálida, convidativa, como a cidadezinha de um modelo de ferrovia, seus telhados marrons, vermelhos e pretos destacando-se contra a verde colcha de retalhos dos campos, e seus silos prateados esticando-se para o céu, brilhando ao sol.

O céu estava limpo, tanto de nuvens quanto de imundície espiritual, banhado com a luz dos Céus, refrescado com preces e louvores ao Criador de tudo aquilo. Era bom voltar, bom ver o lugar tão limpo. Essa era a recompensa da batalha.

Tal e Guilo iniciaram uma descida suave, as asas bem abertas e imóveis a fim de carregá-los preguiçosamente sobre a cidade, passando bem alto sobre a Rua Fronte com seus carros e caminhonetes se encontrando no único cruzamento, acima da Mercearia com sua chaminé fumegante e suas enxadas rotativas expostas na calçada, acima do pequeno agrupamento de casas e garagens no Círculo do Morango, logo acima do topo da grande torre prateada da caixa d' água com a luz vermelha na ponta, cada vez mais baixos sobre alguns pequenos sítios — dali de cima as galinhas pareciam pequeninos triângulos brancos, pretos e vermelhos — e por fim, a nível dos telhados, atravessando a Estrada do Lago e ao topo da casa de Tom Harris.

Eles chegaram sobre o jardim da frente de Tom, deram uma puxada para cima, detiveram-se logo acima do cume do telhado, pousando sobre ele. Podiam ouvir o café da manhã em andamento lá embaixo; muita conversa, muito compartilhamento, muito regozijo. Ótimo. Os outros chegariam a qualquer momento, e então aquela reunião quase feliz lá embaixo estaria completa.

Guilo apontou para o nordeste. Duas faixas de luz estavam descendo rapidamente do céu. Natã e Armoth, acabando de voltar de Ashton!

Outras duas trilhas de luz apareceram no céu ao ocidente; Cree e Si estavam voltando da debandada no Centro Ômega.

Dentro de minutos, Natã e Armoth passaram sobre a casa como duas águias fulgurantes, acenando com as espadas à guisa de saudação. Tal puxou sua espada coruscante e indicou-lhes que pousassem no lado esquerdo do jardim.

Cree e Si caíram perpendicularmente de cima e usaram as asas como conchas a fim de frear o mergulho, assentando como pára-quedistas ao lado da direita do jardim conforme Tal lhes indicava.

Então, esperaram, cada guerreiro em seu lugar.

— Ah, aí vêm eles — disse Tal, olhando pela Estrada do Lago na direção da cidade.

Era o carro verde, com Chimon e Scion ainda sentados na capota, suas asas arrastando-se como flâmulas cintilantes, tremeluzentes. Eles abanaram as espadas aos companheiros, que devolveram o gesto.

Irene Bledsoe foi encostando devagarinho até parar na estrada defronte da casa. Ela estava prestes a estender a mão para trás a fim de ajudar as crianças a soltar os cintos e apanhar suas coisas, mas não foi preciso; Josias e Rute jorraram para fora do carro como crianças saindo da escola e dispararam pela calçadinha da frente sem olhar para trás.

Bledsoe virou o nariz pontiagudo para diante, pisou no acelerador, e deu o fora dali. Chimon e Scion abriram as asas, ergueram-se da capota e deixaram que o carro disparasse de sob eles. Então, pousaram sobre o chão nos dois lados do portão de entrada.

As crianças não bateram para anunciar sua chegada, mas simplesmente abriram de sopetão a porta da frente e explodiram pela casa adentro, suscitando tamanha reação do pessoal que estava ali dentro que Tal e Guilo podiam sentir o barulho através dos pés.

Os guerreiros no jardim podiam enxergar através da porta da frente. Tom estava de joelhos, agarrado aos filhos, chorando de alegria. Seus amigos se reuniam ao redor, tocando-o, tocando as crianças, murmurando preces de gratidão e louvor, perguntando mas não recebendo nenhuma resposta em toda a confusão, e não se importando nem um pouco.

As asas dos anjos se elevaram com suas emoções, chegando ao alto, abrindo-se amplamente, brilhando com o gozo fulgurante que enchia a casa naquele dia. Eles se puseram a adorar.

— Podemos ficar em casa agora, paizinho? — perguntou Rute através das lágrimas.

Tom hesitou. Estava com medo de responder. Marshall tocou-o.

— Pode dizer que sim.

Os olhos de Tom brilharam com profundo gozo e certeza.

Realmente vencemos, não foi mesmo?

Marshall indicou os garotos com os olhos. De que outras provas precisavam? Tom disse:

— Podem crer! Jamais vamos ficar separados novamente! Mais abraços. Mais lágrimas.

Um rangido baixinho de breque. Pneus nos pedriscos. Um lampejo azul.

Tom não percebeu, por motivos óbvios, mas Marshall percebeu. Ele olhou através da janela aberta.Não podia ter certeza. Não podia acreditar. Ele se dirigiu à porta enquanto os outros permaneciam em seu pequeno e jubiloso ajuntamento.

Havia uma mulher lá fora, estacionada do outro lado da rua em uma caminhonete azul.

Sally tentava manter-se despercebida, tentava não parecer óbvia ao examinar a casa de Tom. Ela escutava, e podia ouvir o regozijo através da porta da frente que estava aberta. Tinha visto Irene Bledsoe indo embora, e tinha visto as crianças correrem para dentro. Estavam todos tendo um reencontro muito maravilhoso lá. Ela não sentiu que pertencia àquele grupo. Não sabia o que fazer.

Mota e Signa pularam da traseira e postaram-se ao lado da cabine, falando-lhe com urgência. Eles não vão machucá-la, Sally.

Ei, não se importarão com a sua aparência.

Estou horrível, pensou ela. Estou cheirando mal. E se eles nâo soube­rem quem sou? E se for a casa errada?

Vamos lá. Eles ficarão contentes em vê-la!

Ela desligou o motor e sentou-se ali por mais uns momentos, apenas olhando fixamente à frente e pensando. Suas mãos tremiam; ela estava tão nervosa que seu estômago doía.

Eles parecem tão felizes lá dentro! Parecem um bando amigável. Tenho de saber o que aconteceu. Podem rejeitar-me, suponho, mas tenho de saber.

Ela abriu a porta da caminhonete e desceu para o acostamento. Cami­nhou na direção da traseira do veículo; desse angulo podia espiar pela porta da frente e ver o que acontecia lá dentro.

Ora, bolas! Eles também me poderão ver! Acho que aquele grandalhão me viu!

Com aquele único, rápido vislumbre, Marshall achou que iria sair voando pelo telhado direto aos Céus! Isso era coisa do Senhor, sem dúvida! Oh, ele faz todas as coisas tão bem!

Ele saiu cuidadosamente à varanda como aproximando-se de um veado tímido, com medo de afugentá-lo.

Tal deixou-se cair na varanda e ficou ao lado dele. É ela, Marshall. Não a deixe fugir.

Sally apressou-se a voltar à cabine da caminhonete e começou a entrar. Ela ia desistir daquela idéia. Talvez pudesse escrever outra carta para Tom; aquilo era simplesmente desajeitado demais! — Sally!

Imobilizou-se, a mão no trinco da porta, o pé direito no estribo. Ela não sabia se devia ser Sally Roe ou não. Quem era aquele sujeito?

— Sally Roe?

Ela continuou imóvel, apenas olhando fixamente para a frente. Se eu virar a cabeça, ele saberá. Quem é ele?

De dentro da casa, ela ouvia as crianças rindo.

— Puxa — dizia o garotinho — minha própria cama de novo! Estou a salvo? Chega de correr?

— Obrigada, Jesus — veio a voz de uma mulher negra. — Oh, obrigada, Jesus!

Você está a salvo, Sally.

Ela voltou a cabeça e olhou para o ruivo grandalhão na varanda. Os olhos dele eram meigos.

— Sim — afirmou ela, não muito alto. Tendo dito isso uma vez, ela disse alto o bastante para ele escutar. — Sim! Sou eu!

De repente, havia uma multidão naquela varanda, todos olhando para ela, uma encantadora ruiva, um bonito casal negro, um homem grisalho de aparência bondosa e sua esposa loira, e...

Sally encarou aquele homem tanto quanto ele a encarou. Ela havia visto a foto dele.

Tom também havia visto as fotos dela.

Podia-se cortar o silêncio com uma faca.

Marshall quebrou o silêncio com um convite.

— Sally, Tom Harris — e todos nós — gostaríamos muito de conhecê-la. Não quer entrar?

Ela se descontraiu apenas um pouquinho, mas tentou esconder-se atrás da porta aberta da caminhonete.

— Eu... não estou apresentável... Tom replicou:

— Você está entre amigos!

Tal teve de rir. Não estava apresentável! Não era estranho o modo como os seres humanos se viam pelos olhos da carne e não pelos do espírito? Era certo que aquela querida mulher havia passado por lama e sujeira de todo o tipo; estava marcada, exausta, esfarrapada e suja.

Mas aos anjos, ela aparecia da forma como o próprio Deus a via, exatamente como qualquer outro santo remido do Deus vivo: pura, refulgente, limpa, trajando vestes tão brancas quanto a neve.

Com um empurrãozinho amoroso de Mota e Signa, Sally atravessou a estrada, uma nômade cansada, vestida de brim, vindo para a casa. Ela passou pelo portão da frente, aproximou-se da varanda, e então, enquanto tanto anjos quanto santos observavam com tremenda reverência, estendeu a mão ao homem sozinho entre seus dois filhos felizes.

— Tom Harris? — Sim.

— Sou Sally Beth Roe.

Tal bateu as asas apenas o suficiente para voltar ao telhado, depois acomodou-se ali, sentando-se numa posição confortável, a espada descan­sando ao seu lado.

Guilo fez a pergunta por todos eles.

— E agora, capitão?

Tal olhou para o grupo que ria e louvava abaixo deles.

— Acho que ficaremos mais um pouco.

Os guerreiros alegraram-se ao ouvir isso, e se aproximaram a fim de ouvir toda aquela maravilhosa conversa, todo o compartilhamento e atualização.

Tal sorriu e meneou a cabeça maravilhado.

— A redenção. Ela jamais deixará de emocionar-me.

 FIM

Este mundo tenebroso - parte 2 - capítulo 45


 Em Westhaven, no tribunal quieto e apático, Wayne Corrigan concluía sua réplica aos argumentos de Gordon Jefferson.

— E assim, esperamos que o tribunal tenha o cuidado de proteger o direito constitucional do Sr. Harris ao devido processo e seu direito de defrontar seu acusador. Confirmamos mais uma vez que não temos inten­ção de prejudicar Amber Brandon ou causar nenhum outro trauma. Apenas desejamos chegar à verdade, e cremos ser esse o mínimo que nosso sistema judicial deva permitir a qualquer acusado. Obrigado.

Ele tomou o seu lugar ao lado de Tom Harris. Tom havia estado olhando para o relógio. Eram quase quatro horas da tarde.

Os três juizes também haviam estado a olhar para o relógio. O do meio, o mais velho, ajuntou seus papeis.

— Obrigado, Sr. Corrigan, e obrigado, Sr. Jefferson e Sr. Ames. Os argumentos foram completos e bem apresentados. O tribunal entrará em recesso por hoje. Teremos uma decisão para os senhores até quinta-feira, depois de amanhã.

BAM! O meirinho bateu o martelo e ordenou:

— Levantem-se todos! — e todos se levantaram, e os juizes saíram. Ames e Jefferson pareciam um pouco sombrios, raivosos mesmo; ao se levantarem, fuzilaram Corrigan e Tom com um olhar cuidadosamente esculpido, e deixaram o tribunal.

— Hum — murmurou Corrigan. — Não achei que me saí tão bem assim.

— Achei que se saiu otimamente — comentou Tom. Corrigan deu de ombros.

— Bem... temos estado orando. Está nas mãos do Senhor. — Ele deu um sorriso amarelo, olhou para o chão, e admitiu: — Mas não sei, Tom. Às vezes ponho-me a pensar se sou apenas uma porcaria de advogado ou se Deus prefere ficar fora dos tribunais. Não tenho tido muitos motivos para me sentir bem ultimamente.

O sorriso de Tom veio lá de dentro.

— Oh, aconteça o que acontecer, não se zomba de Deus. Ele é Senhor, Wayne. Seja como for que ele queira que isto seja resolvido, aceitarei. — Ele deu um tapa nas costas de Corrigan. — Vamos comer alguma coisa.

Corrigan remexeu-se um pouco.

— Espero que tenha algum dinheiro com você.

— Umm... tenho três dólares, eu acho.

— Está bem. Acho que esse tanto eu tenho.

— Iremos ao McDonald's!

O lago estava calmo, como um espelho, refletindo as árvores da margem com linhas distintas, sólidas e as cores vívidas da primavera,enquanto logo acima da superfície da água miríades de insetos dançavam ao sol como minúsculas faíscas douradas. O pescador solitário sentava-se em seu barco de alumínio, contente com o silêncio, contente por estar a sós. Ele tinha seus cinqüenta e tantos anos, cabelos pretos salpicados de branco e um rosto jovem; usava calças de brim e camisa de flanela, e um chapéu mole de pescador que tinha de ter sido o seu predileto por anos. Os peixes não estavam mordendo muito a isca, mas ele estava tendo a paz que havia ido buscar, e estava satisfeito. No momento, reclinava-se pregui­çosamente contra uma almofada do barco, apenas flutuando, relaxando, e não pensando muito.

Lá pelo meio do dia, ele ouviu um ruído e as suaves batidas de remos, e espiou por baixo da aba do chapéu. Sim, vinha vindo alguém na sua direção num pequeno bote de madeira.

Quando o visitante chegou mais perto, o pescador sentou-se ereto. Ele conhecia aquele homem levemente rotundo, de óculos e de chapéu de palha. Não eram exatamente amigos, mas já se haviam cruzado em diversas ocasiões. O que estava ele fazendo ali? Este era supostamente um escon­derijo de pescadores.

O visitante olhou por cima do ombro, sorriu, e continuou a remar para aproximar-se, sem dizer palavra alguma.

O pescador teve uma sensação sinistra a respeito desse encontro. Se o visitante não ia falar, então ele falaria.

— Jim?

Jim olhou por cima do ombro.

— Ei, Owen. — Com umas últimas pancadas dos remos, ele fez o botezinho encostar ao lado do outro. Owen usou um curto pedaço de corda para unir os dois barcos. — Ah, muito obrigado.

— A que devo esta visita? — perguntou Owen Bennett. — Espero que não sejam negócios. Estou fora do escritório no momento.

— Oh, achei que este seria um ótimo lugar para termos uma conver­sinha, só eu e você. — Jim voltou o olhar na direção do balneário. Algumas famílias faziam piquenique perto da margem do lago. — Mas falarei baixi­nho, Owen. O som está realmente se propagando hoje.

Owen abaixou a voz e falou:

— Então, diga a que veio. Estou muito ocupado fazendo nada hoje e gostaria de voltar a essa atividade.

Jim arrancou do peito um profundo suspiro, descansou os braços sobre os joelhos, e apenas ficou olhando para Owen por um momento.

— Irei direto ao assunto, mas mesmo isso levará algum tempo. Suponho que você tem-se mantido informado a respeito daquele caso em Baskon?

Owen fitou-o com olhar perplexo e depois meneou a cabeça.

— Nunca ouviu falar do lugar?

— Não, sinto muito.Bem... Eu também nunca tinha ouvido falar dele. Nem queria, exceto que a ACAL iniciou uma ação judiciai lá, e sei que estavam pensando em procurar você a respeito. Eles estavam indo atrás de uma escola cristã novamente, e acharam que tinham todos os seus patos enfileirados, inclusive você.

— Bem, se é um caso que está pendente, obviamente não posso discuti-lo...

Jim ergueu a mão.

Oh, não, não... não se preocupe com isso. Não precisamos discutir o caso, não senhor. Podemos falar a respeito de outras coisas.

— Está bem.

Jim olhou através do lago, reunindo seus pensamentos. — Podemos falar a respeito de alguns itens pessoais, suponho... como uma sociedade secreta em particular, a Ordem Real e Secreta da Nação? Owen sorriu.

— Ora essa, se eu falasse a respeito dela, não permaneceria secreta, não é mesmo?

Jim assentiu com a cabeça.

— É o que entendi. Sabe, estou abismado em ver quantos dos meus supostos amigos sabem tudo acerca desse bando, menos o que quero descobrir.

— É apenas uma sociedade, Jim. Nada com que se preocupar. Jim não estava disposto a deixar o assunto passar.

— Ehhhh... você tem de entender, um homem na minha posição fica meio assustado quando homens na sua posição começam a proteger-se mutuamente e manter pequenos segredos entre si. Bem, eu disse peque­nos segredos, mas não sei de que tamanho eles são, sei?

Owen manteve os lábios firmemente fechados. Essa reunião era de Jim; ele que se incumbisse da conversa. Foi o que Jim fez.

— Ouvi dizer que Carl Santinelli é membro, e isso me preocuparia, pelo tanto que o nome dele é mencionado em Washington. Pensar que vocês dois são amigos do peito na mesma sociedade secreta me arrepia um pouquinho os cabelos.

Owen ficou um tanto tenso, e sua voz adquiriu certa aspereza.

— Isso para mim levanta uma pergunta óbvia, embora eu duvide que venha a obter uma resposta: Como foi que descobriu?

— Estive lendo umas cartas, Owen. Uma porção de cartas. — Jim fitou-o diretamente.

— Cartas escritas por Sally Beth Roe.

Acertou em cheio. Jim podia ver uma reação inegável em todo o rosto de Owen. Owen abaixou a cabeça e resmungou:

— Caramba.— Ora, todos nós temos alguns esqueletos nos armários, Owen. Você sabe isso a meu respeito, e sei isso a seu respeito.

Owen não conseguiu conter a curiosidade.

— O quê... Ela escreveu a você?

— Oh, não. Escreveu ao diretor daquela escola cristã — acho que para dar-lhe umas informações confidenciais e ajudá-lo.

— Bem... espero que você possa reconhecer a diferença entre a verdade e mentiras vingativas.

— Mmmm... uma das primeiras coisas que ela escreveu foi que não estava morta, e fiquei impressionado com a sua veracidade.

— Jim, acho que você está falando por enigmas!

— Ora, está bem, faça-me parar se já tiver ouvido esta: Sally Roe escreveu toda uma pilha de cartas ao diretor daquela escola, acho que para ajudá-lo. O único problema foi que ele jamais recebeu as cartas porque alguém se intrometeu na correspondência dos Estados Unidos e surrupiou todas elas. E quem fez isso foi a chefe do correio local, que era também a acusadora na ação judicial, mas ela concordou em cooperar e nos disse aonde mandou todas as cartas. Você nem pode imaginar: o Instituto Summit! Alguns agentes do FBI foram lá e encontraram cada uma das cartas nas mãos de — está pronto para isto? — Carl Santinelli, o próprio Sr. ACAL. Ele está metido em grandes apuros no momento.

— Isso nada tem a ver comigo. Jim ficou um tanto chocado.

— Onde está o velho espírito de equipe, Owen? Achei que vocês dois eram irmãos na sociedade secreta.

— Não quer dizer nada.

— Está bem, está bem, tentaremos não culpar ninguém por associação.

— Eu apreciaria muito.

— Mas apenas para minha informação, todos vocês, sócios da Nação, não têm algum tipo de anel de membro, um anel de ouro esquisito com uma cara feia desenhada em cima dela, e com o seu nome secreto de código dentro?

— Eu não tenho nenhum anel desses.

— Ora, sei que não está com o seu. Sally Roe está com ele. Bem, estava com ela. Agora está conosco.

Owen apenas ficou olhando.

— Sim, é o seu mesmo. Verificamos seu nome secreto contra as listas oficiais dos membros da Nação. "Gawaine", não é verdade?

O rosto de Owen era como pedra fria.

— Que jogo está jogando aqui?

— O jogo que todos jogamos, Owen. Sally diz que o aprendeu com você. É por isso que ela guardou o anel todos esses anos. É um ás muito bom para ela jogar, e torna crível a sua história, especialmente visto que outroanel lhe caiu nas mãos, um que pertencia a um seu irmão mais novo na Nação, James Bardine, um advogado noviço metido a importante da firma de Santinelli. O anel de Bardine apareceu no dedo de uma satanista. — Jim acrescentou com um toque apropriado, sinistro. — Uma mulher que foi contratada para matar Sally Roe. — Ele acrescentou depressa: — A assassina deu-se mal. Ela própria foi morta, e agora temos esse anel também.

— Portanto, isso mais ou menos une vocês quatro nessa coisa: você, Carl Santinelli, James Bardine, e aquela senhora satanista.... pode dizer mulher, ou como a quiser chamar.

Jim tirou o chapéu e enxugou a testa.

— Owen, estou disposto a apostar que você já sabe o resto, toda a ação judicial a respeito de aquela garotinha ter tido algum tipo de colapso psicótico ou de personalidade, e da ACAL culpar a escola cristã apenas para meter o governo pela porta da escola, e... Bem, foi um belo plano, sim senhor. — Jim olhou diretamente para Owen ao fazer seu próximo comentário. — Para proteger esse plano valia a pena matar Sally Roe ... para proteger esse plano valia a pena encobrir o fato de que alguém tentou matar Sally Roe. Para proteger esse plano valia a pena intrometer-se na correspondência e sair caçando Sally Roe por aí.

Owen ocupou-se com sua vara de pescar, e não olhou para cima. — Jim, creio que estou ficando cansado da sua companhia.

— O nenê era seu, não era?

Owen ficou rígido por um momento. Se Jim estava tentando chocá-lo, a tentativa foi bem sucedida. Ele abaixou a mão e começou a desamarrar a corda que unia os dois barcos.

— Acho melhor você ir embora.

Jim colocou sua mão sobre a de Owen a fim de detê-lo.

— Você estava no conselho consultivo do Centro Ômega, e conseguiu-lhe aquela posição no Centro depois que ela se formou em Bentmore. Você passava uma porção de tempo com ela, não é mesmo, todas as vezes que voava até lá para reuniões com Steele e os outros?

— Até que ela teve aquele nenê em vez de abortar. Ora, essa era uma encrenca no meio da sua carreira! Ela podia ter movido uma ação contra você para obter sustento para a criança, exposto a coisa toda ao público, certo? Que jeito melhor de resolver o problema do que removendo o único elo tangente entre vocês dois — e destruir a mulher ao fazer isso?

Owen endireitou-se desafíadoramente.

— Você realmente pretende argumentar que sou eu o culpado pelas incríveis ilusões de Sally Roe?

Você acredita nesse negócio de espíritos, não acredita?

— Isso é coisa pessoal minha.

— E naquela época, ela acreditava neles — com bastante ajuda sua e daquele bando lá do Ômega.— Isso nada prova.

— Quem disse que os jornais e a televisão alguma vez precisaram provar algo tão suculento quanto isto? Eles publicarão agora e provarão mais tarde. Você mesmo lhes passou uns petiscos de tempos em tempos, você sabe disso.

— E podíamos passar-lhes outros mais — você devia saber disso! Jim assentiu com a cabeça.

— É, isso mesmo. Poderíamos tornar a vida bem difícil um para o outro, sem dúvida. — Então ele deu uma risada. — Mas realmente me divirto com o quadro que me vem à cabeça de você ouvindo um caso trazido pelos seus companheiros de irmandade na ACAL, sabendo que eles tentaram proteger seu caso matando uma mulher com quem já teve um caso. Veja se consegue algo melhor que isso, Owen!

Owen Bennett olhou através do lago e pensou por um momento.

— Então, o que quer? Jim sorriu.

— Será que consegui, Owen? Será que realmente tenho uma alavanca para mexer com você?

Owen retorquiu rispidamente:

— O que quer?

— Lembre-se de que o som se propaga. — Jim deteve-se a pensar por um momento. — Owen, acho que tenho sido um Ministro da Justiça bem bom, e acho que poderia fazer um trabalho melhor ainda se certas pessoas pegassem toda a sua influência e a fossem usar em outras partes. Quero tirar essa trela do meu pescoço.

Owen parecia sombrio.

— Não fui eu que a coloquei aí.

— Mas você tem influência com o pessoal que colocou. É um de seus melhores jogadores.

— Não posso traí-los, Jim. Você sabe disso. Jim deu de ombros.

— Bem, suponho que sempre poderia demitir-se.

— Também não posso fazer isso. Jim estava resoluto.

— Estou-lhe dando uma escolha, Owen.

Tom Harris agarrou o jornal Estrela do Condado de Hampton na varanda da frente da sua casa e voltou para dentro saudado pelo aroma de pãezinhos quentes, ovos, fritada de batatas, toicinho defumado, uma refeição daquelas.

— O que há de novo? — perguntou Marshall.— Oh, muita coisa — disse Tom, examinando atentamente a primeira página.

Era a manhã de sexta-feira; tinha sido uma semana como nenhuma outra, e o grupo central, os jogadores principais, estavam reunidos na casa de Tom para um grande café da manhã, apenas para estarem juntos: Ben e Bev Cole, Mark e Cathy Howard, Marshall e Kate Hogan, e Tom. Apenas Tom. Se a assistente social Irene Bledsoe tinha ouvido falar de toda essas mudanças, não estava admitindo, e até então não estava atendendo aos chamados de Tom.

Ben perguntou:

— Algum discurso dos rapazes da ACAL a respeito da decisão do tribunal?

— Uma questão meio irrelevante agora, de qualquer maneira — disse Mark. — A ação judicial foi cancelada. Está tudo encerrado de vez.

— Que pena — brincou Tom. — Eu estava com hora marcada para depor na semana que vem. Agora perderei essa experiência maravilhosa.

— Mas ainda não está terminado, pelo menos por enquanto — disse Bev. — Isto é, estamos falando de uma grande investigação aqui. Estamos falando de algumas pessoas irem parar na cadeia!

Marshall sorriu um sorrisinho amarelo e meneou a cabeça.

— Provavelmente não.

— Você está louco?

— Às vezes, fico sem saber... Mark perguntou:

— Ora, as autoridades irão examinar isso?

— Meu amigo do FBI, John Harrigan, acha que não. Existem casos e casos. Alguns você investiga, outros, não. Uma coisa como esta... bem, uma embrulhada muito complexa; existe muita coisa relacionada a ela ocorrendo em muitos lugares, e não se pode prender todo o mundo.

— Ei, escutem isto — disse Tom. — Aqui está uma declaração de Gordon Jefferson. Tem até uma foto dele aqui, de pé no lado de fora do tribunal...

— Espere — disse Ben. — Quero sentar. Tom leu a declaração do advogado da ACAL.

— Sinceramente lamentamos esta monumental falha da justiça e dos direitos das crianças em toda a parte. O relógio do progresso foi atrasado severamente por essa decisão. Se o tribunal tivesse decidido em favor da criança, esta ação judicial poderia ter continuado, e poderíamos ter lutado contra o flagelo do fanatismo e da intolerância religiosa contra nossos filhos. A Sra. Brandon deseja que eu expresse seu profundo pesar e seus agradecimentos a todos os que a apoiaram em toda a parte, e seu sonho querido de que a luta por nossos filhos continue. No momento, ela pediu, e concordamos, que a ação seja cancelada, que apanhemos o que sobrou, e que continuemos com nossas vidas da melhor maneira possível.Kate ficou abismada.

— Que monte de mentiras!

— Mas que golpe publicitário! — disse Marshall. — Política oficial da ACAL: Não importa o que aconteça, dê uma de herói!

— Deixe-me ver isso — veio uma voz lá da cozinha. Tom entregou o jornal à própria Lucy Brandon quando ela chegou à sala. Ela examinou atentamente a história e apenas meneou a cabeça. — Cancelei aquela ação na terça-feira, antes da audiência! — Ela passou o jornal para Ben e disse enraivecida: — Mas eles jamais contarão isso, não é mesmo?

Tom comentou:

— Wayne Corrigan e eu estávamos sem saber porque Ames e Jefferson nos fuzilaram com o olhar. Eles sabiam que a ação havia sido cancelada!

— Mas mesmo assim queriam aquela decisão — disse Marshall. — Cada passinho ajuda.

— Bem, para falar a verdade — disse Mark — acho que eles se saíram muito bem. Os juizes passaram umas diretrizes bem restritas.

Ben vasculhou o jornal sombriamente.

— Nada mais a respeito de Joey e Carol Parnell. Bev colocou a mão no ombro de Ben.

— Ben, você acabou de conseguir seu emprego de volta. Não vá sair atrás de outro suicídio falso. Deixe isso para os tiras de Claytonville.

Mas Ben estava obviamente frustrado.

— É que estou achando muito difícil ser paciente com toda essa falta de ação que estou vendo!

— Eu deveria tê-lo avisado sobre essa parte — disse Marshall. — É difícil fazer as autoridades agirem quando o caso é tão vago e inexplicável... e quando as autoridades fazem parte do problema.

Ben passou o jornal para Marshall, ainda furioso.

— Ora, este é policial que vai fazer por merecer o que ganha. Tem de haver uma forma de detê-los!

Marshall examinou rapidamente as primeiras páginas e então sorriu.

— Acho que conseguimos.

— Conseguimos, coisa nenhuma! Não houve investigação, nenhuma prisão, nem mesmo a história verdadeira nos jornais acerca do que de fato aconteceu. Todos nós sabemos o tipo de coisa com que essa gente se está safando!

— Oh... nós os ferimos, Ben. Nós os ferimos. Ganhamos esta rodada. — Marshall passou o jornal para Kate. — E... bem, acho que temos uma boa chance de recuperar os nossos prisioneiros de guerra também.

— Josias e Rute? — perguntou Tom.

Marshall fez um gesto afirmativo com a cabeça.

— Se socar uma toupeira em seu quintal, terá matado a toupeira do quintal do seu vizinho também. Veremos.— E a nossa desaparecida em ação? — perguntou Kate.

— Sally... — disse Marshall. O pensamento era doloroso.

— O que Harrigan disse?

Marshall hesitou um pouco antes de responder a essa pergunta.

— É uma situação difícil. Kholl e sua gente aparentemente estavam no meio de um ritual satânico no porão de Goring quando os agentes federais chegaram lá. Eles precisavam ter tido uma vítima, mas não havia sinal de Sally, e Kholl não está falando. A única coisa que encontraram foram as cartas de Sally. Ela podia ter escapado, ou talvez os satanistas — Kholl e seu bando — a tivessem matado e dado um sumiço no corpo antes que os agentes federais chegassem. Simplesmente não sabemos.

Tom ficou muito sombrio.

— Devemos-lhe tudo. Ela tem de estar viva em algum lugar.

— Vamos estar orando por aquela garota, com toda a certeza — disse Bev.

— E quero vê-la — disse Tom. — Depois de ler todas as suas cartas, sinto-me como se a conhecesse. Não. De fato a conheço.

— Uma mulher incrível — disse Kate.

— Era mesmo — disse Marshall.

Nos arredores de Claytonville, um pintor de paredes encostou seu furgão amassado e carregado de escadas no acostamento da rodovia e saltou alguém que lhe havia pedido carona.

— Está certa de que não quer que eu a leve mais adiante? Não tem nada aqui por perto.

— Não, obrigada — disse Sally Roe.

Ela ficou ali no acostamento, uma nômade muito cansada, suja, man­chada, de calças de brim, jaqueta azul enodoada, e lenço xadrez, vendo o velho furgão afastar-se, fazendo ruído, o escapamento soltando fumaça, as molas curvando-se debaixo de todas as escadas e latas de tinta.

Sentia-se exatamente como o furgão. Seus rosto estava sulcado com os quilômetros, sua alma estava exausta de dor, seu corpo estava contundido e amolgado pelos maus tratos. Mas... ela ainda estava rodando, ainda resfolegando pelo caminho, e pelo menos agora sabia que tinha um bom motivo.

Atravessou a rodovia assim que teve uma chance e meteu-se no mato, seguindo a velha estrada sulcada dos topógrafos que ela havia percorrido na escuridão da noite... Quando tinha sido isso? Parecia que fazia anos. Quase duvidou que fosse a mesma estrada, pois tinha um aspecto muito diferente à luz do dia — convidativa, tranqüila, debaixo de um dossel formado pelas folhas frescas, recém-nascidas da primavera, e de forma alguma o inferno horripilante, infestado de demônios que tinha sido na última vez em que ali estivera.

Ela andou certa distância, seguindo a estrada sinuosa pelas subidas e baixadas que a trilha fazia através da espessa floresta, da galharia emara­nhada e dos galhos baixos. Não se lembrava de ter sido tão longe assim. Talvez tivesse perdido uma volta em algum lugar. Talvez tivesse escondido aquela caminhonete um pouco bem demais.

Oh! Ali, através dos galhos e das folhas, ela entreviu uma tinta azul conhecida. Bem! Ainda estava ali!

Mota e Signa postavam-se perto da velha caminhonete Chevrolet, as mãos nas espadas, olhos alertas, esperando a chegada de Sally. Seus guerreiros haviam guardado de perto aquela máquina desde que Sally a deixara ali. A criançada nas bicicletas sujas, os caminhantes, os que praticavam a equitação, e quaisquer pretensos vândalos tinham todos passado por ela sem a ver, por isso o veículo permanecia intocado, levemente fechado no meio do mato crescido, mas pronto para rodar.

Sally afastou as plantas novas para passar, tirando as chaves do bolso da jaqueta. A porta abriu-se com o conhecido rangido; o cheiro da cabine era o mesmo; ela ainda se lembrava de evitar aquele pequeno rasgo no banco para que ele não ficasse maior. Seu coração dançou um tantinho. Essa velha caminhonete era uma bênção porque era familiar, era sua, era um pedaço de sua casa.

O motor gemeu um pouco, hesitou, girou algumas vezes, e então, com a bombada bem acostumada de Sally no acelerador — algo que tinha de ser feito bem certinho — ele pôs-se a funcionar!

Mota e Signa deram-lhe um empurrão, e com pouca dificuldade, ela fez a caminhonete virar na direção oposta. Os dois guerreiros pularam na rabeira, e puseram-se todos a caminho de Baskon.

Este mundo tenebroso - parte 2 - capítulo 44


 O coração de Sally martelava e doía em seu peito enquanto ela corria e tropeçava sobre as úmidas folhas pontiagudas de pinheiro e rodelas de neve endurecida, se agarrava e tateava por espinhentos galhos mortos, e tentava com toda a força que rapidamente se esvaia manter-se adiante dos estalidos, dos bufos, do farfalhar e das passadas dos demônios que a perseguiam.

Dois deles estavam diretamente abaixo, mas invisíveis por trás de troncos e do mato cerrado; um terceiro estava à sua esquerda, e ela já o tinha visto duas vezes, tão perto que ela podia ver o demônio em seus olhos. O quarto estava silencioso e invisível a não ser pelo assobio sinistro, intermitente, que permitia aos outros saber onde ele estava.

Estavam chegando mais perto. Ó Senhor Jesus, ajude-me a correr!

— Ei, quem é aquele lá? — perguntou um dos três visitantes.

Seus amigos esperavam ver outra celebridade. O que viram foi um homem de cabelos prateados, de terno e gravata, correndo como um louco através do jardim das ervas.

— Caras, estou apenas com uma impressão...

Kholl, o peito ainda avermelhado do corte, tinha a maleta de Goring cheia com as cartas de Sally numa das mãos e as chaves do furgão na outra. Ele estava em pé ao lado do furgão, incapaz de encontrar a chave certa para abri-lo. Podia ver a chave da porta, mas ela ficava a cair de seus dedos e balançando da argola do chaveiro.

Guilo estava ao lado dele, dando piparotes nas chaves com a ponta do dedo, fazendo-as dançar, escorregar, revirar, e voltar-se em todas as direções menos na que Kholl queria que fossem.

Tal precipitou-se numa rasante sobre o estacionamento com uma mensagem:

— Eles estão vindo!

— Esplêndido! — exclamou Guilo.

Santinelli estava arquejante e quase perdendo os sentidos quando chegou ao estacionamento, mas a visão de Kholl segurando a maleta de Goring alimentou-lhe a fúria e sua fúria o fez continuar em frente. Ele chegou ao furgão em questão de segundos, apontando seu dedo trêmulo.

— Ficarei... com... elas! — arquejou ele. Kholl sorriu zombeteiro.

— Huh? Está falando destas? — Era uma grande piada para ele.Santinelli estava perdendo a aparência de dignidade.

— Seu diabo! Como se atreve a nos trair? Kholl ergueu a mão.

— Ei, quem é que ia trair quem? Somos todos diabos, certo? O senhor  mesmo o disse. Estou levando estas como garantia: número um, para garantir que serei pago, e número dois, para garantir que o senhor e eu permaneçamos sempre amigos íntimos, de confiança!

Santinelli estava com mais fúria que juízo, e agarrou a maleta. Kholl não estava disposto a soltá-la.

Guilo deixou que continuassem em frente e se atracassem. Estava esperando o momento certo.

— Muito bem. Já bastava.

Com a rebatida de sua mão enorme, ele soltou a maleta. Ela bateu no asfalto, revirou duas vezes, depois escancarou-se, atirando as cartas por toda a parte.

Santinelli, o advogado dignificado, honrado, distinto e muito poderoso, agachou-se a fim da agarrar as cartas, mas o mesmo fez o assassino Kholl, sedento de sangue, endemoninhado, satanista. Eles caíram de joelhos, jogando um contra o outro, empunhando mais depressa, empunhando mais, empurrando, acotovelando, agarrando, rasgando...

Até que chegaram aos pés. Três pares de pés. Sapatos bonitos. Ternos bonitos. Três homens.

Um dos homens estendeu seu distintivo. FBI.

Destruidor preparou-se para ouvir, mas dessa vez o Homem Forte não rugiu. Nem mesmo esmurrou Destruidor pelo aposento. Em vez disso, com a derrota nos olhos, ele olhou para cima e por toda a volta, apenas observando seu império ruir.

A nuvem de demônios estava tão esfacelada a essa altura que a luz dos Céus estava recaindo sobre o Instituto Summit em manchas alarmantemen­te grandes, transformando a Conferência de Consciência Global em um desastre. Os médiuns não estavam conseguindo fazer nenhuma leitura, as entidades espirituais dos canalizadores não estavam falando, os cartoman­tes não se lembravam do que suas cartas estavam dizendo, e cada "eu superior" no campus estava almoçando fora e não atendia.

Enquanto isso, a notícia corria pelo campus de que três agentes federais haviam acabado de prender alguém e ainda estavam examinando os arredores. Algo grande estava caindo, e poucos delegados tinham as mentes voltadas para seu próprio potencial oculto e sua divindade, um encorajamento que os demônios podiam ter usado.Tudo isso já era suficientemente inquietante, mas então outros espíritos começaram a chegar de Baskon, do Centro Ômega, da Universidade Bentmore, e de outros centros de poder demoníaco desintegrados pelas ondas espirituais de choque. Um a um, em várias fases de desmembramen­to e machucadura, eles reviraram adentro do porão do chalé, berrando, arranhando, usando as garras em busca de socorro, respostas, alguém a quem culpar.

Terga, o Príncipe de Baskon, estava murchando lentamente, e apontou ao Homem Forte com a mão que ainda prestava.

— Você trouxe isso sobre nós. Você e o seu Plano ridículo! Corruptor, com apenas metade do tamanho original, rolou pelo chão como um rato manco e proferiu sua acusação.

— Será que construímos nosso império em Bentmore apenas para entregá-lo ao Exército dos Céus?

Barquit mantinha as asas apertadas em torno de si, humilhado pela derrota e agora desarmado.

— Seu Plano! Sempre o seu Plano! É por isso que jamais me avisaram de que a mulher viria aqui, ou que havia uma emboscada armada contra meu principado?

Então, de toda a volta, das bocas colmilhadas que babavam e cuspiam, veio a grande pergunta:

— Que providência tomou com relação à mulher?

O Homem Forte tinha uma resposta simples para todas as perguntas. Ele apontou Destruidor.

está o seu traidor! Se ele a tivesse matado quando devia, não estaríamos nesta condição hoje! Foi dele a idéia de capturar suas cartas, e agora o testemunho dela está por escrito e nos derrota! Ele é o autor das perseguições que não a destruíram, mas empurraram-na à Cruz.

A Cruz! Era tudo o que os espíritos precisavam ouvir. Espadas aparece­ram.

— Você pagará por isto!

Destruidor encontrou seus olhos assassinos com os olhos deles, desem­bainhou sua espada chamejante, e retalhou o ar com fitas de luz vermelha.

— Então são melhores do que eu? Mostrem-no agora!

Eles se deixaram ficar em seus lugares, cuspindo nele e xingando-o de uma distância segura.

Ele esbravejou contra eles enraivecido.

— Ao Abismo com todos vocês! Eu terminarei o que comecei! O Homem Forte meneou a cabeça.

— Não vai, não, Destruidor. Ela pertence ao Cordeiro. Ele a redimiu de nossas garras!

Destruidor cerrou os dentes e rosnou:

Terminarei!O Homem Forte estendeu as asas à frente de Destruidor.

— Estamos nos retirando, Destruidor, e os capangas de Kholl não irão com você. Sem homens para matar por você, a mulher terá poder sobre você!

— Ela não sabe disso! — Destruidor apontou a espada bem ao ventre do Homem Forte. — Terminarei o que comecei!

O Homem Forte estudou Destruidor com olhos perscrutadores, e depois deu um passo para o lado. O demônio endoidecido de ódio disparou para fora do chalé.

Não o veremos mais — disse o Homem Forte. Ele voltou-se para o ajuntamento ferido, esfarrapado.— Príncipes, estamos restringidos! Aguar­daremos uma ocasião melhor.

Numa explosão de asas negras, jatos de enxofre e trilhas de fumaça vermelha, o Homem Forte e seus príncipes espalharam-se em todas as direções saindo do Instituto Summit, abandonando-o como um navio que afundava, deixando o clamor e a fumaça se encolherem na distância atrás de si.

Sigam a mulher, sigam a mulher, peguem-na! Os espíritos do Vidoeiro Quebrado só pensavam na mulher e mantinham-se perto do chão em perseguição encarniçada, guiando e dando forças aos quatro assassinos que agora caminhavam debatendo-se e agarrando-se pela floresta à procura de sua presa fugitiva.

Lá! Os assassinos descobriram-na, subindo com esforço um íngrime aterro, perdendo as forças, tropeçando, caindo.

Lágrimas escorriam pelo rosto de Sally; sua camisa estava grudada às costas, ensopada de suor. Ela trepou por sobre umas pedras e depois deixou-se cair no chão, os pulmões arfando. Cada músculo em seu corpo tremia e estremecia; suas pernas e braços já não conseguiam mover-se. Ela não podia ver, não podia pensar; sentiu que estava sonhando.

Os demônios pularam nas costas dos assassinos. Matem-na! Matem-na! Piquem-na em pedacinhos!

Um som fragoroso fez-se ouvir atrás deles. A floresta estava inundada de luz.

Atrás deles?

Alguns olharam para trás. Berraram, e os outros também olharam para trás.

Eles já não podiam ver o Instituto Summit, seu abrigo, sua fortaleza, tudo o que podiam ver era o Exército Celestial!

Isolados! Presos numa cilada!— Peguem-nos! — ordenou Tal.

Fumaça vermelha.

O assassino Número Um desmoronou ao chão, sem poder respirar. Não podia continuar subindo a montanha.

O assassino Número Dois, pouco mais acima na subida, voltou-se ao ouvir o Número Um bater no chão.

— Ei, vamos lá!

O Número Um não respondeu. Apenas queria respirar. O Número Três havia acabado de chegar a uma clareira e podia ver o Instituto. Ele assobiou para os outros.

— Olhem! Parecem os agentes federais lá embaixo! Eles pegaram Kholl! O Número Quatro viu a mulher cair atrás de umas pedras. Ele tomou a

faca na mão. Estava quase lá. Pausou apenas um momento para olhar para trás, e então praguejou. É Kholl mesmo!

Dali de cima, o Instituto Summit parecia um modelo de si próprio, com fileiras certinhas de carros de brinquedo alinhados no estacionamento de asfalto e telhados rústicos de fasquias de madeira aninhados entre as árvores. Kholl não era difícil de reconhecer, cambaleando entre dois homens de terno, com a frente da camisa toda vermelha e as mãos às costas. Aquele sujeito atrás dele tinha de ser Santinelli, sendo empurrado pelo terceiro homem. Não havia sinal de Goring, mas só ver aquilo já era o suficiente.

— Até logo — disse o Número Três, voltando a descer a montanha. O Número Um seguiu-o.

— Vamos à cidade. Roubarei um carro. Houve acordo imediato.

Sally não os ouviu partir. Ela ficou deitada entre as pedras num desmaio total. Os satanistas haviam chegado a apenas um metro e pouco do seu esconderijo antes de voltar.

Em Claytonville, o ex-sargento de polícia Haroldo Mulligan trancou a porta da frente da casa do legista Joey Parnell e colocou as chaves da casa de Parnell no bolso. Ele havia apenas passado pela residência de Parnell numa visita de negócios, mas não de negócios da policia. Mulligan estava vestido à paisana, e dirigia seu veículo particular, um Ford meio velho. Ele não se demorou por ali, mas entrou naquele Ford, saiu de ré pela entrada de carro, e afastou-se daquela vizinhança, daquela cidade, e, para todos os fins práticos, da existência. Jamais seria visto de novo.

Dentro de alguns dias, os jornais noticiariam as misteriosas mortes a tiros de Parnell e sua esposa, ambos encontrados mortos na residência Parnell, aparentemente de um pacto mútuo de suicídio. literatura satânica seria encontrada na casa, juntamente com evidência que ligava Parnell a diversos assassinatos não solucionados naquela parte do estado.

Sally despertou sobressaltada e ficou rígida. Não se mova! Eles podem estar perto de você! Ela sufocou a respiração e permaneceu imóvel, ouvindo.

Não havia som algum exceto o da brisa fria. As sombras estavam mais longas. Era a única maneira pela qual ela podia saber que algum tempo se havia passado. Estava deitada entre umas grandes pedras, as costas no chão. Ergueu a cabeça um tantinho. Estava com frio.

Então sentiu medo. Inflexível. Triturante. Crescente. Como passos atrás de si no escuro, como alguma... alguma coisa escondida atrás da próxima curva fechada, como um monstro rastejante, impossível de ser detido, que se aproximava enquanto ela era incapaz de mover-se.

Ela sussurrou tão baixinho que apenas os lábios formaram as palavras:

— Quem está aí?

OLHOS! Escamas! Negror, poder, enxofre, ódio!

Ele postou-se alto diante dela, um pesadelo tornado realidade, uma silhueta preta, muito elevada contra um céu surrealista vermelho-sangue, os olhos amarelos esbugalhados olhando-a maliciosamente, sem jamais piscar, sem jamais vacilar.

Ela sabia que ele estava ali. Não era material, e olhos físicos não o podiam ver, mas ela havia recebido visitações como essa antes, e sabia que era real. Ficou tensa, ergueu-se sobre os cotovelos, elevando o olhar para ele enquanto ele baixava o olhar para ela, o enxofre soprando em mechas sedosas de suas ventas, as presas à mostra enquanto ele ria com deleite diabólico.

Ele falou com ela em sua mente. Você me conhece.

Ela conhecia, e agora tinha boa razão para estar aterrorizada. Ela empurrou-se para longe, contorcendo-se para trás, usando as mãos e os cotovelos, muda, tremendo.

As palavras da coisa latejavam-lhe na cabeça. Você me conhece, Sally Roe, e não escapará!

A enorme espada vermelha desceu como um cutelo de açougueiro.

Tal ouviu o berro de Sally acima da batalha e gritou: — Guilo!

IAHHH! veio a resposta de Guilo enquanto ele arremetia do centro da nuvem desvanescente. Ele também o ouvira.

Lado a lado, com asas totalmente desfraldadas e deixando um rasto luminoso, eles mergulharam como meteoros na montanha, rolaram abrup­tamente à direita, e então deixaram-se cair dentro da floresta, iluminando os topos das árvores.

Sally revirou por cima das pedras e foi rolando pela encosta íngreme, os braços se debatendo, mandando para o alto folhas de pinheiro, terra e pedregulhos. O chão estava banhado de vermelho com a luz daquela enorme espada enquanto a coisa deslizava pela encosta atrás dela, asas abertas como um dossel. Ela podia ouvir seu resfolegar, o ondular de suas asas secas.

Ela parou, detida por uma árvore.

VUUUPT! A espada cortou os ares mais uma vez. Sally desviou-se, foi as trambolhões pela montanha, caiu e rolou novamente.

Tal inclinou-se à esquerda, Guilo à direita; eles golpeariam de lados opostos. Tal arremeteu encosta acima, o peito logo acima das pedras e do matagal, depois pôs as asas em concha, estirou os pés para diante à sua frente, e voltou atrás.

Ele podia ver Sally revirando pela encosta com o espírito negro atacan­do-a como um abutre assassino, a espada vermelha rebrilhando vez após vez. Além do espírito, ele viu Guilo como uma bola de luz aproximando-se à toda. Tal içou a espada para trás, pronto para atacar.

O espírito odioso os viu chegando e ficou firme, pronto para o encon­tro. Eles vieram sobre ele como dois trens em colisão. Com força incrível, ele os rebateu para o lado. Guilo foi revirando encosta acima, tentado sair de um rodopio, enquanto Tal desceu a montanha como uma bala de canhão, passando através de pinheiros e entre eles, desaparecendo na espessa floresta lá em baixo.

Você é minha, disse o espírito, e terminarei o que comecei!

— Não! — implorou Sally. Era a única palavra que lhe vinha à mente.

ZING! A espada apanhou-a na perna. Ela caiu contra uma árvore e depois ao chão. A espada desceu novamente, passando pertinho do seu ombro.

Luz brilhante! Dois cometas! Guilo, vindo de cima, e Tal, vindo de baixo, chegando de novo!

Guilo golpeou primeiro. O espírito rebateu-o para o lado, mas levou nas costas uma pancada estonteante da espada de Tal e oscilou para diante antes de rodopiar e aparar a espada de Tal com um golpe violento que mandou Tal adejando para dentro da floresta novamente.

Guilo mergulhou e atingiu o pescoço da coisa. Ela deu-lhe uma coto­velada que o mandou a diversos quilômetros de distância.Tal endireitou-se, agarrou com força a espada, e gritou: Sally Roe! Enfrente-o! Mande-o embora!

Sally não pareceu ouvir. Estava gritando, tentando colocar-se de pé. A coisa saltou sobre ela, enterrando nela as garras. Ela podia senti-las dilace­rando-lhe a carne. Estava engasgando com o hálito fétido. A coisa ergueu a espada de novo.

UUF! Um raio de luz passou por cima, e a coisa caiu para a frente. Guilo volteou num círculo fechado e deu outra passada, e lá vinha Tal, descendo do alto em linha reta.

O espírito colocou-se de pé e enfrentou-os de cabeça, olhos desvaira­dos, espada pronta. Guilo veio por baixo; a coisa chutou-o para o lado. Tal caiu de cima; ela rebateu-o para dentro dos topos das árvores.

Manifeste-se, Sally! disse Tal.

— Saia da frente — rugiu a coisa. — A mulher me pertence!

Dito isso, ele pisoteou com seu pé preto, escamoso, a perna da mulher que fugia, prendendo-o ali.

Tal gritou:

— Ela é nossa — e mergulhou em cima do demônio de novo, pelo menos para mantê-lo distraído.

Dessa vez suas espadas se encontraram numa chuva de fagulhas. O choque fez Tal sair rodopiando.

Assuma a autoridade! disse Tal.

Você é minha, Sally Roe! disse o demônio.

— Não! — disse Sally. Ela havia encontrado algumas palavras. — Eu pertenço a Jesus, o Filho de Deus!

Isso mesmo, isso mesmo, isso mesmo! rugiu Guilo, arremetendo através das árvores com fúria incrível.

Seu golpe derrubou o demônio para trás. A coisa brandiu a espada ao redor, mas Guilo tirou o pé bem a tempo e escapou.

Você não pertence a Jesus! berrou o monstro. Ele jamais poderia amá-la!

Sally estava agitada, tateando em busca das palavras certas.

— Jesus me ama! A Bíblia assim o diz! — Um corinho infantil da escola dominical. Era tudo o que ela sabia.

Tal marcou um ponto e mandou o demônio revirando para dentro das árvores.

Sally saiu correndo para salvar a vida, clamando:

— Jesus, ajude-me! Ajude-me!

O demônio recuperou-se e rugiu atrás dela, as asas trovejando. Você arderá no Inferno comigo! Eu mesmo a arrastarei para lá! Ele girou a espada para atingi-la, mas não conseguiu alcançá-la.

Ela caiu, retorceu-se, ergueu o olhar para aqueles olhos amarelos.Ele aterrissou sobre ela, fazendo-a estirar-se no chão com os joelhos, prendendo-a.

Seus olhos se encontraram

— Jonas! — berrou ela.

Ele abriu-se em um sorriso amplo, hediondo, as presas pingando, a fronte enrugada com risada maldosa. A espada ergueu-se bem alto sobre a sua cabeça.

— Jonas — disse ela, estendendo a mão aberta na direção da cara retorcida — PARE!

A espada permaneceu acima da cabeça do demônio. Os olhos se estreitaram. Você é minha!

Ela ergueu-se sobre um cotovelo. Estava adquirindo nova coragem.

Não sou sua! Pertenço a Jesus! Não... não, Sally Roe!

Ela ficou pasmada. A espada oscilou acima da cabeça do demônio. Ele não conseguia abaixá-la. Ela falou novamente.

Eu pertenço a Jesus agora; ele pagou por meus pecados com o seu sangue, e você já não pode atormentar-me!

Farei o que quiser! Vou matá-la! De repente, o demônio não parecia muito convincente.

— O meu Senhor o derrotou!

Destruidor colocou-se de pé num tropeção, segurando frouxamente a espada, seus olhos perdendo o seu fogo.

— Saia da minha vida, Jonas! Para sempre! Está ouvindo?

BUM! Tal veio com um golpe que fez Destruidor sair rodopiando. O demônio negro endireitou-se e segurou a espada de prontidão. Guilo veio do lado e atacou-o novamente com um choque de lâminas e explosões de luz.

— A mulher me pertence! — rugiu Destruidor.

— Ela e nossa! — disse Tal.

A voz de Sally veio num berro desesperado, cortando a distancia:

— Eu pertenço a Jesus! Jonas, eu renuncio a você! Você não tem direitos sobre mim! Saia da minha vida!

As palavras atingiram Destruidor como setas envenenadas. Então uma revelação o atingiu como uma salva de artilharia, e Destruidor ficou imóvel, enfrentando seu arquiinimigo, o Capitão do Exército.

— Você sabia, Capitão do Exército! Sabia que ela faria isso comigo, conosco!

Tal segurou a espada de prontidão, mas respondeu:

— Eu sabia o que você faria com ela; que você fora designado para destruí-la.

A boca de Destruidor escancarou-se, e as presas se secaram.

Você a colocou lá, em Baskon?— E você tentou matá-la, como sempre! Destruidor começou a murchar.

— Ela... era minha, desde a sua juventude!

— Nossa, do nosso Senhor — disse Tal — desde o ventre de sua mãe.

— Saia da minha vida, Jonas! — bradou Sally. — Jesus o venceu — portanto, dê o fora!

A espada tremeu na mão de Destruidor.

— Ela me tomou o nome!

Com um rugido agoniado e uma última explosão de fúria, o demônio enfraquecido mergulhou sobre Tal, trazendo a espada para baixo num arco flamejante. Tal aparou o golpe, espetou, deixou que ele continuasse vindo. A espada vermelha arqueou pelo lado, veio novamente, cortou os ares. Tal desviou-se, golpeou-a para o lado com força suficiente para desequilibrar o demônio. Então atirou um chute estonteante ao flanco do demônio, sacudindo-o, derrubando-o. O demônio retorceu-se no lugar, atacou-o; Tal revidou aquele ataque desajeitado facilmente, depois abaixou sua própria lâmina num arco fulgurante.

O ar encheu-se de fumaça vermelha. Destruidor gemeu como uma sirene lúgubre, agarrando a abertura em seu lado, flutuando, murchando, sumindo. Ele empurrou-se para trás com um pé, pairando sobre asas erráticas. Tal voltou-se para mais um golpe, mas não seria necessário. Enquanto os olhos do demônio se fixavam sobre ele, vermelhos-rubi, esbugalhados de ódio, as asas silenciaram-se.

Com os lábios moribundos, tateantes, formando uma maldição silen­ciosa, a coisa caiu para a frente, expirando enxofre, e deslizou para o esquecimento.

A floresta estava subitamente quieta. Agora Tal podia ouvir o choro sufocado de Sally Roe. Ele embainhou a espada.

Ela estava ali perto, deitada de bruços na terra, chorando, fisicamente exausta e emocionalmente esgotada. Guilo estava sentado ao seu lado, as asas abertas sobre ela, acariciando-lhe a cabeça e falando-lhe palavras tranqüilizantes à alma. Tal aproximou-se em silêncio, ajoelhou-se ao lado deles, e abriu bem as asas ao alto, unindo-as às de Guilo a fim de formar um dossel para manter o mundo fora por algum tempo.

— Mais uma era de restrição — disse ele. — Ela a conseguiu por todos nós. — Ele tocou-lhe a cabeça, agora arranhada e suja, e disse suavemente: Acabou, Sally. Você venceu.

No vale abaixo, os sons de batalha continuavam — roncos, guinchos, choques, raios de luz como relâmpagos distantes. Mas eventualmente se acalmariam. O resultado era certo e apenas uma questão de tempo. No momento, eles permaneceram com ela.