Mostrar mensagens com a etiqueta Foge Nick Foge. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Foge Nick Foge. Mostrar todas as mensagens

sábado, 24 de abril de 2021

Foge Nick Foge - 19 - Epílogo



Epílogo

Em uma tarde no fim da primavera, Nicky e Gló­ria descansavam nos degraus da frente do Centro, na Av. N. Broadway, 221, observando Ralphie e Karl cortando a grama, enquanto a noite se aproximava. Estava quase na hora do culto ao ar livre no gueto. No quintal, podiam-se ouvir os sons alegres de Davi Carter e Jimmy Baez rindo para Allen, Joly e Kirk, que jogavam bolinha. O jantar terminara, e lá den­tro Frances e Angie supervisionavam os outros me­ninos que tomavam o banho diário. Alicia e a peque­na Laura, agora com um ano e quatro meses, brinca­vam alegremente na grama recém cortada.
Glória estava sentada em um degrau mais baixo, olhando com afeto e pensativamente para o seu ma­rido, encostado numa coluna do balaustre com os olhos semi-serrados, como se estivesse perdido no mundo dos sonhos. Ela inclinou-se e colocou a mão no joelho dele.
“Querido, o que há? Em que está pensando?” “O que foi?” perguntou ele  distraído,  relutando em deixar seus pensamentos.
“Qual o seu sonho agora? Ainda está fugindo? Já temos o Centro para os “pequenos”. Israel e Rosa es­tão morando em Fresno e servindo ao Senhor. Sonny está pastoreando uma grande igreja em Los Angeles. Jimmy está trabalhando com você e Maria está ser­vindo a Deus em Nova York. Na semana que vem você vai para a Suécia e Dinamarca, para pregar. Por que ainda está sonhando? O que mais poderia pedir a Deus?”
Nicky endireitou-se e olhou bem no fundo dos olhos inquiridores da companheira. Sua voz tinha um tom distante, quando disse: “Não é o que eu pe­ço a Deus, querida, mas o que ele pede a mim. Com nosso trabalho estamos só arranhando a superfície.”
Houve uma longa pausa. Só os ruídos das ativi­dades alegres soavam em torno da casa. “Mas, Ni­cky”, disse Glória, mantendo os olhos fixos nele, “não é tarefa só para você. É a tarefa de todos os cris­tãos — em toda parte.”
“Sei disto”, respondeu Nicky. “Fico pensando em todas aquelas enormes igrejas, no centro da cidade, que ficam vazias durante a semana. Não seria mara­vilhoso se aquelas salas de aula inúteis pudessem ser transformadas em dormitórios para ser cheios de centenas de crianças e adolescentes dos guetos, que nunca souberam o que é amor? Cada igreja poderia tornar-se um Centro, dirigido por voluntários...”
“Nicky”, interrompeu Glória, apertando-lhe o joe­lho. “Você é um sonhador. Você acha que os mem­bros daquelas igrejas vão transformar os seus belos prédios em dormitórios para crianças perdidas e sem lar? Eles querem prestar ajuda, mas desejam que ou­tras pessoas o façam em seu lugar. Ficam irritados quando um bêbedo perturba o seu culto. Imagine o que diriam, se fossem à igreja certa manhã de do­mingo, e encontrassem seu “santuário” profanado com camas, catres, e um bando de ex-viciados em narcóticos e cheiradores de cola nos saguões do tem­plo? Não, Nicky, você é um sonhador. Essa gente não quer sujar as mãos. Não desejam ver seus tape­tes sujos com o pó de pés descalços.”
Nicky balançou a cabeça. “Você tem razão, é claro. Fico sempre imaginando o que Jesus faria. Será que ele sujaria as mãos?”
Ele parou e olhou para as montanhas distantes, refletindo: “Você se lembra da viagem que fizemos no ano passado a Ponta Loma, na baía de San Diego? Lembra-se daquele enorme farol? Durante muitos anos ele tem orientado os navios que entram no porto, mas agora os tempos mudaram. Li na semana passada que a fumaça das fábricas é tão espessa que eles precisam construir um novo farol bem perto da água, para que a luz possa passar por baixo das nu­vens de fumaça.”
Glória ouvia atentamente.
“É isto que está acontecendo hoje em dia. A igreja ainda continua com a sua luz brilhando, bem alto. Todavia, poucas pessoas conseguem vê-la, por­que os tempos mudaram, e há muita fumaça. Faz-se necessário que uma nova luz brilhe perto do chão — bem embaixo, onde o povo está. Não é suficiente ser o guarda do farol: eu preciso também ser o portador da luz. Não, eu não estou fugindo mais. Só quero estar onde há ação.”
“Eu sei”, disse Glória, refletindo profunda alegria e compreensão em sua voz. “É isto o que eu desejo para você. Mas você tem de prosseguir sozinho. Vo­cê sabe disso, não sabe?”
“Sozinho, não”, disse Nicky, abaixando-se, e co­locando as mãos sobre as dela. “Estarei andando no território de Jesus.”
As risadas dos garotos no quintal tornaram-se mais altas; eles terminaram o jogo e entraram. Karl e Ralphie tinham pegado suas Bíblias, e estavam sen­tados no meio-fio, defronte da casa.
Nicky baixou a cabeça, e olhou para Glória. “Ho­je de manhã recebi um telefonema de uma senhora de Pasadena.” Parou, esperando uma reação. Glória esperou que ele continuasse. “O filho de doze anos foi apanhado pela polícia, porque estava vendendo maconha. O marido dela quer que ele vá para a ca­deia.” Nicky fez uma pausa. “Mas não temos lugar para ele, nem dinheiro para sustentá-lo.”
Silêncio. Nicky observava um pardalzinho que pulava na grama. Seus olhos encheram-se de lágri­mas, enquanto pensava na criança desconhecida... uma entre milhares de outras... famintas de amor... disposta a enfrentar a cadeia, só para chamar a atenção de alguém... procurando alguma coisa real... procurando Jesus, mesmo sem o saber...
Glória interrompeu seus pensamentos. “Nicky”, disse ela suavemente, seus dedos entrelaçados com os dele, “o que é que você vai fazer?”
Nicky sorriu e olhou-a nos olhos, dizendo: Farei o que Jesus quer que eu faça. Vou me interessar.”
“Oh Nicky, Nicky...” disse Glória, enquanto en­laçava suas pernas com os braços. “Eu o amo! Sem­pre há lugar para mais um. E Deus vai suprir o que faltar.”
Jimmy tirou a Kombi da garage. Os meninos su­biram nela, para ir ao culto ao ar livre no gueto. Nicky pôs Glória de pé: “Vamos! Depressa! Está na hora de realizar a obra de Jesus.”
Eu estava para começar a gravação de um pro­grama no estúdio de rádio, ao lado do meu escritó­rio, quando Nicky Cruz entrou. Olhando à sua volta, para assegurar-se de que ninguém mais se achava ali, fechou a porta e ficou à minha frente silenciosamen­te, com os ombros curvados, as mãos enfiadas bem fundo nos bolsos da calça. Sua face quase não tinha expressão, embora, quando eu a estudei, percebesse sinais de que lutava para controlar suas emoções.
“Tome”, disse ele laconicamente, tirando vagaro­samente as mãos dos bolsos. Por alguns instantes, eu não sabia se devia ficar calma ou alarmada!
Então, sobre a mesa diante de mim, Nicky come­çou a colocar a mais estranha coleção de objetos que eu já vira. Ele os identificava à medida que os colo­cava na mesa: uma garrucha feita em casa, um par de soqueiras que me pareceram horríveis, um punhal de cabo de osso, duas bolinhas de chumbo engenho­samente amarradas na ponta de um chicote de cou­ro, e “os apetrechos” — uma agulha hipodérmica, um conta-gotas e uma tampinha de cerveja para ferver a droga — as ferramentas indispensáveis de um vi­ciado em psicotrópicos.
“Esta é a minha entrega final”, disse Nicky, com os olhos brilhantes de decisão. Olhou para a mesa, tocando cada um dos objetos com a ponta dos de­dos, como num adeus. “Eu vivi por eles. Minha vida dependeu deles. Mas agora minha necessidade ces­sou. Eu os entrego a ele.”
Ele os teria literalmente colocado nas mãos de Jesus, feridas pelos cravos, se isso fosse possível. Entregou-os a mim, como a uma espécie de deposi­tária. Agora era minha vez de ficar emocionada.
Ainda conservo aquela bizarra coleção. De vez em quando eu a tomo entre as mãos para recordar-me do que foi Nicky Cruz... e do Deus cuja miseri­córdia e graça fez dele o que ele é hoje em dia.

Kathryn Kuhlman
Pittsburg, Pensilvânia

Foge Nick Foge - 18 - No território de Jesus



Capítulo 18

NO TERRITÓRIO DE JESUS

A GRANDE OPORTUNIDADE surgiu pouco antes do Natal, quando recebi um convite de um grupo de leigos conhecido como “Full Gospel Business Men's Fellowship International”. Foi através desse grupo de comerciantes dedicados que começaram a chegar convites para falar em ginásios e universidades. Du­rante 1965 estive na maioria das cidades mais impor­tantes do país. Minhas concentrações e cruzadas, em sua maior parte patrocinadas por igrejas de todas as denominações, estavam obtendo maravilhoso êxito, e eu falei a multidões de mais de dez mil pessoas.
Agradecia diariamente a Deus por sua bondade. Porém, ainda estava impaciente e tinha um profundo anseio no coração. Não parecia encontrar a solução para o problema, e por isso tornava-me cada dia mais impaciente.
Foi então que fiquei conhecendo Daniel Mala­chuk, um negociante extrovertido, de elevada estatu­ra, que vivia em Nova Jersey, e que, sem o saber, trou­xe à tona o meu problema. Casualmente ele mencio­nou certa noite que sabia que o meu desejo original fora trabalhar com os “pequenos”. Não respondi à sua observação, mas suas palavras ficaram gravadas em minha mente.
Recordei minha própria infância. Se tão somen­te alguém tivesse se preocupado em me levar a Cris­to quando criança, talvez...
Conversei a esse respeito com Glória. Deus esta­va usando o meu testemunho em grandes cruzadas, mas cada vez que eu lia nos jornais um artigo sobre crianças presas por terem cheirado cola ou terem fu­mado maconha, meu coração doía. Continuávamos orando para que Deus nos mostrasse o caminho para nos aproximarmos dessas crianças.
Poucos meses depois, Daniel ajudou a preparar uma cruzada de quatro dias em Seattle. Durante to­do esse tempo, eu estivera falando através do intér­prete Jeff Morales. Jeff mudara-se para a Califórnia, a fim de viajar comigo para as grandes concentra­ções onde as pessoas tinham dificuldade em enten­der meu sotaque. Porém, cerca de meia hora antes de deixar o aeroporto, ele telefonou: “Nicky, estou de cama, com pneumonia. O médico não me deixou ir. Você terá que se virar sozinho.”
De pé na plataforma, diante de uma bateria de microfones e de câmaras de TV, examinei a enorme multidão. Será que eles seriam capazes de entender-me, apesar do sotaque porto-riquenho? Será que ri­riam do meu inglês arrevesado? Nervosamente, lim­pei a garganta e abri a boca para falar. As palavras não saíram — só um murmúrio enrolado. Limpei a garganta outra vez, e saiu uma coisa que parecia com  “uuuggghhhllkfg”.
A multidão mexeu-se nervosa, mas polidamente. Não adiantava. Eu já tinha me habituado à ajuda de Jeff. Curvei a cabeça e pedi poder: “Senhor amado, se podes dar-me uma língua desconhecida para lou­var o teu nome, confio em que podes dar-me uma língua conhecida para falar de ti a estes jovens.”
Levantei a cabeça e comecei a falar. As palavras vieram perfeitas, e fluíram de minha boca com poder sobrenatural. Jeff fora substituído por Jesus e, des­de aquele momento, tive a certeza de que sempre que estivesse falando dele, não precisaria mais de intér­prete.
Depois do último culto, Daniel foi ao meu quar­to, no hotel.
“Nicky, as bênçãos de Deus estão se derramando de maneira maravilhosa. Uma oferta de amor de três mil dólares foi levantada para você usar em seu mi­nistério.”
“Daniel, não posso aceitar esse dinheiro.”
“Nicky”, disse Daniel, enquanto se colocava à von­tade, esparramando-se no sofá e tirando o sapato, “o dinheiro não é para você. É para Deus operar atra­vés da sua pessoa.”
“E posso usá-lo de qualquer forma que sinta que Deus quer?” perguntei.
“Isso mesmo”, disse Daniel.
“Então vou usá-lo para os “pequenos”. Quero co­meçar um centro para ministrar a eles.”
“Maravilhoso”, explodiu Daniel, sentando no so­fá. “Dê-lhe o nome de “Esforço para a Juventude.”
E o nome foi “Esforço para a Juventude”. Voltei à Califórnia com os três mil dólares, resolvido a abrir um Centro onde pudesse tirar os pequenos das ruas, e ganhá-los para Cristo.
Estabelecemos o nosso Centro em Fresno, na Av. N. Broadway, 221. Requeremos o alvará oficial do Estado da Califórnia, e pendurei uma placa na porta da frente: “Esforço para a Juventude, Nicky Cruz, Diretor.”
Logo em seguida, comecei a vasculhar as ruas. No primeiro dia, encontrei um garoto de onze anos dormindo no vão de uma porta. Sentei-me ao seu la­do e perguntei como se chamava.
Ele me examinou com o canto dos olhos, e final­mente disse: “Rubem; por que quer saber?”
“Não sei”, respondi na mesma linguagem errada que ele usara. “Você me pareceu tão simpático que quis conversar com você.”
Espontaneamente ele me contou que o pai era viciado em tóxicos. Ele mesmo tinha cheirado cola no dia anterior. Deixara a escola no sexto ano. Es­cutei sua história, e depois contei-lhe que eu estava abrindo um Centro para garotos como ele, e pergun­tei-lhe se gostaria de ir morar comigo.
“Você quer mesmo que eu vá?”
“Claro”, respondi, “mas temos de falar primeiro com seu pai.”
“Com os diabos”, respondeu o garoto, “o meu ve­lho vai pular de alegria por se livrar de mim. O úni­co que vai se importar é o comissário de menores.”
O comissário ficou satisfeito com a notícia, e Rubem mudou-se para o Centro naquela mesma noi­te.
Poucas semanas depois, recolhemos mais dois meninos. Foram todos matriculados na escola, e fa­zíamos estudos bíblicos diários no Centro. A princí­pio, Rubem nos deu muito trabalho, mas no fim da segunda semana aceitou a Cristo durante um estudo bíblico. Na tarde seguinte, ao voltar da escola, diri­giu-se diretamente para o seu quarto e começou a estudar. Glória piscou para mim. “Que outra evidên­cia você quer, de que a sua conversão foi sincera?” disse ela. Eu não precisava de nenhuma outra. Senti-me bem, interiormente. A inquietude estava desapa­recendo .
À medida que os dias se passavam, começamos a receber telefonemas de mães aflitas, que diziam que os filhos estavam completamente impossíveis, e pediam que os recolhêssemos. Em questão de sema­nas, nossas acomodações estavam lotadas, e ainda continuávamos recebendo telefonemas. Glória e eu passamos muito tempo em oração, pedindo a Deus que nos guiasse.
Certa manhã, depois de apenas algumas horas de sono, o telefone tocou. Cambaleei até o aparelho. Era Daniel Smith, membro ativo da sociedade “Full Gos­pel Business Men's” de Fresno:
“Nicky, Deus está nos dirigindo por um miste­rioso caminho. Várias pessoas de nosso grupo têm orado em favor da obra que você está realizando. Deus colocou no meu coração o desejo de ajudá-lo a formar uma Junta de Diretores. Falei com Earl Dra­per, contador, com o Rev. Paulo Evans, e com H. J. Keener, gerente de uma estação de TV local. Estamos dispostos a trabalhar com você, se nos aceitar.”
Era outra resposta de oração, o fato daquele pe­queno grupo de negociantes e profissionais liberais se colocarem à disposição do Centro, para ajudar na direção.
Mais tarde, naquele mesmo mês, Davi Carter jun­tou-se à nossa equipe, para trabalhar com os meni­nos. Eu conhecera Davi, um rapaz de cor, alto, quie­to, quando era chefe de uma quadrilha em Nova York. Fora para o Instituto Bíblico depois da sua conversão, e como não tinha laços de família, podia passar muitas horas aconselhando pessoalmente os meninos famintos de amor. Havia também duas mo­ças mexicanas: Frances Ramírez e Angie Sedillos, que se juntaram a nós para promover o contato com as meninas, e ajudar no trabalho da secretaria.
O último membro da equipe era uma pessoa mui­to especial para mim. Tratava-se de Jimmy Baez. Jimmy acabara de diplomar-se na Escola Bíblica, e desposara uma jovem calma, de voz suave. Ele viria para trabalhar como nosso supervisor, mas para mim, era muito mais do que isso. Ele era uma prova viva do poder transformador de Jesus Cristo. Era difícil imaginar que aquele jovem de aparência culta, rosto simpático e óculos de aros escuros, fosse o mesmo garoto franzino, pálido, que ficara agachado horas a fio no Centro Desafio Jovem, tremendo devido à pri­vação de heroína, e suplicando que lhe dessem dro­gas.
Com o coração cheio de fé em Deus, e as mãos ocupadas com os “pequenos”, continuamos avançan­do. Deus estava abençoando, e eu pensava já ter recebido o máximo em surpresas maravilhosas. Contu­do, para os que amam a Deus, não há limite para as surpresas do amanhã.
Naquele outono, Daniel Malachuk escalou me pa­ra uma série de palestras em Nova York. Depois de me apanhar no aeroporto, entramos no seu carro e fomos para a cidade, passando por quilômetros e mais quilômetros de apartamentos, tipo cortiço. Recostei-me no banco, ao lado dele, e fiquei observando os velhos prédios passarem velozmente. Algo me to­cava o coração. Eu não fazia mais parte do gueto, mas ele ainda era uma parte de mim. Comecei a pen­sar nos velhos amigos, e nos membros da quadrilha — principalmente em Israel. “Jesus”, orei, “por fa­vor, dê-me outra oportunidade de dar meu testemu­nho em presença dele.”
Depois da reunião, naquela noite, Daniel foi co­migo para o quarto do hotel onde eu ia passar a noi­te. O telefone estava tocando quando entramos.
Atendi, e houve um longo silêncio do outro lado da linha, antes que eu ouvisse uma voz fraca, mas bem conhecida dizer: “Nicky, sou eu, Israel.”
“Israel!” gritei. “Glória a Deus! Minha oração foi respondida. Onde você está?”
“Estou em casa, Nicky, no Bronx. Acabei de ler no jornal que você estava na cidade, e telefonei para o seu irmão, Frank. Ele disse que eu poderia encon­trá-lo no hotel.”
Comecei a dizer algo, mas ele me interrompeu: “Nicky, eu-eu-eu estava pensando se poderia vê-lo en­quanto está na cidade. Só para conversar a respeito dos velhos tempos.”
Quase não podia crer nos meu ouvidos. Virei-me para Daniel: “Israel. Ele quer me ver.”
“Convide-o para se encontrar conosco no hotel, amanhã à noite, para jantar”, disse Daniel. O encon­tro longamente esperado foi marcado para as seis horas da tarde seguinte.
Orei por ele a noite inteira, pedindo a Deus para me dar as palavras certas, a fim de ganhar o seu co­ração para Cristo.
Daniel e eu ficamos medindo o saguão do hotel com nossos passos, das cinco e trinta às sete horas da noite. Ele não apareceu. O coração subiu-me à garganta, enquanto eu me lembrava daquela manhã, nove anos antes, quando nos tínhamos desencontrado da primeira vez.
De repente, eu o vi. Suas feições harmoniosas, olhos profundos, cabelo ondulado. Nada mudara. Não pude falar, pois as lágrimas vieram-me aos olhos. “Nicky”, disse ele com voz estrangulada, “nem posso crer.” Repentinamente, começamos a rir e falar ao mesmo tempo, completamente esquecidos do trânsito intenso ao nosso redor.
Passado algum tempo, Israel se afastou e disse: “Nicky, quero que você conheça minha esposa, Rosa.” Ao seu lado  estava uma jovem porto-riquenha, baixinha e simpática, com um  sorriso   que  tomava conta de todo o seu  bonito  rosto.   Curvei-me  para apertar-lhe a mão, porém ela me agarrou pelo pes­coço e beijou-me resolutamente na face.  “Está ale­gre de conhecer você”, piscou, falando um inglês arrevesado. “Tenho vivido perto de você todo este tem­po.  Israel fala muito de você estes três anos.”
Fomos até o salão Hay Market Room para jan­tar. Israel e Rosa ficaram para trás, e pude perce­ber que algo os preocupava. “Ei, Israel, qual é o pro­blema? Daniel vai pagar a conta.  Vamos!”
Israel olhou para mim embaraçado, e finalmente me puxou de lado. “Nicky, não posso entrar aí. É chique demais.  Não sei o que fazer.”
Rodeei-lhe os ombros com o braço. “Eu também não sei o que fazer”, respondi. “Olhe, peça o troço mais caro que encontrar na lista e deixe o “dono do ouro” aqui pagar”, sorri, apontando para Daniel.
Depois do jantar, tomamos  o  elevador  para  o meu   apartamento,   no   décimo - quarto   andar. Israel estava descontraído, e parecia o mesmo velho
Israel, quando nos falou da sua casa, no gueto “Não é um lugar muito agradável para se viver”, dis­se ele. “Precisamos guardar os pratos na geladeira, por causa das baratas. Mas poderia ser pior. No an­dar térreo, os ratos vêm dos esgotos e mordem as crianças enquanto dormem. É como se estivéssemos acorrentados ali”, disse. “Não podemos livrar-nos. É um lugar péssimo para criar os filhos. Na semana passada, três meninas do meu edifício, todas de cer­ca de nove anos, foram estupradas em uma viela, nos fundos do prédio. Não temos coragem de deixar as crianças saírem à rua, e eu estou doente de preo­cupação .  Quero sair de lá. Mas...”
A sua voz falhou, e ele levantou-se da cadeira, foi até a janela, e olhou para fora, em direção à tor­re reluzente do edifício “Empire State”. “Mas a gente precisa viver em algum lugar, e em qualquer outro lugar o aluguel é alto demais. Quem sabe no ano que vem... talvez no ano que vem nos mudemos para um lugar melhor. Até que eu não me saí tão mal. Come­cei lavando pratos, e prosperei. Agora sou contínuo em um edifício na Wall Street.”
“Mas depois que você conseguir mudar, o que acontecerá?” interrompi.
“O que foi que você disse?” perguntou.
Percebi que chegara a hora de me aprofundar no passado. “Israel, conte-me o que foi que saiu errado.”
Ele voltou para o sofá onde Rosa estava, sentou-se nervosamente ao seu lado. “Não me incomodo de falar nisso agora. Acho mesmo que preciso falar. Nunca contei, nem para Rosa. Você se lembra daque­la manhã, depois que saiu do hospital, quando você e aquele homem iam encontrar comigo?”
Acenei que sim.  A recordação era dolorosa.
“Esperei três horas. Fiquei como louco. Eu fi­quei danado com os crentes, e naquela noite voltei para a quadrilha.”
“Israel, sinto muito.  Nós procuramos você...”
“Não importa. Faz muito tempo. Talvez as coi­sas fossem diferentes se eu tivesse ido com vocês. Quem sabe?”
Fez uma pausa, e depois começou de novo. “De­pois, arranjamos uma encrenca com os Angels da Rua Sul. Aquele cara entrou em nosso território e dissemos que não queríamos nenhum “bicho de pé” por ali. Quis bancar o engraçadinho, e batemos nele. Correu, e cinco dos nossos foram atrás dele até os domínios da Rua Sul, e o agarramos na Arcada. Nós o puxamos para fora, e começamos a lutar com ele. A coisa de que me lembro a seguir, é que um dos nossos tinha um revólver na mão e começou a dar tiros. Paco pôs-se a segurar a barriga e dizer brin­cando: “Oh, peguei um tiro! peguei um tiro!” Todos os rapazes riam.”
“Então, o “bicho-do-pé” caiu no chão. Estava mesmo ferido. Estava morto. Eu vi o buraco da bala na sua cabeça.”
Israel fez uma pausa. O único som que se ouvia era o do trânsito, atenuado pela distância, lá embai­xo.
“Fugimos. Eu e mais três fomos agarrados. Os outros se safaram. O cara que puxou o gatilho to­mou vinte anos. O resto, de cinco a vinte anos.”
Ele parou de falar, e baixou a cabeça: “Foram cinco anos de inferno.”
Recuperando a serenidade, prosseguiu: “Tive de fazer um “acordo” para sair da prisão.”
“O que é um “acordo?” interrompeu Daniel. “A Junta de Livramento Condicional disse que eu seria solto, se pudesse provar-lhes que tinha um em­prego me esperando. Eles me disseram que eu teria de voltar para meu antigo lar. Eu não queria voltar para o Brooklin. Queria começar a vida de novo, mas disseram que eu tinha de voltar para casa. As­sim, eu fiz um “acordo” através de um viciado que estava lá dentro comigo. Ele conhecia um homem que tinha uma fábrica de roupas no Brooklin, e disse à minha mãe que, se ela lhe pagasse cinqüenta dólares, ele me prometeria um emprego. Ela deu ao ho­mem o dinheiro, e ele escreveu uma carta dizendo que eu tinha um emprego na sua fábrica, quando saísse da prisão. Foi a única maneira de arranjar emprego. Rapaz, quem é que vai querer um ex-preso como em­pregado?”
“Mas você conseguiu o emprego?” perguntou Da­niel.
“Nada” disse Israel, “eu disse a vocês que era um “acordo”. Não havia emprego nenhum. Era só um jeito para eu sair da cadeia.”
“Saí, então, e fui a uma agência de empregos, e menti sobre o meu passado. Você pensa que eles me teriam contratado, se eu contasse que saíra da cadeia no dia anterior? Arranjei um emprego de lavador de pratos, e depois uma dúzia de outros empregos. Des­de então, tenho mentido. A gente precisa mentir para conseguir um emprego. Se meu patrão soubesse que eu sou um ex-preso, ele me mandaria embora, apesar de eu estar fora da cadeia há quatro anos, e ser um bom empregado. Portanto, eu minto. Todo mundo faz isso.”
“O oficial de justiça responsável por você duran­te seu livramento condicional, ajudou-o?” perguntou Daniel.
“Sim ele foi o único sujeito que realmente ten­tou. Mas o que é que poderia fazer? Ele tinha mais de cem rapazes como eu para ajudar. Não, a respon­sabilidade era minha, e consegui tudo sozinho.”
O quarto ficou em silêncio. Durante todo o tem­po Rosa estivera sentada, quieta, ao lado de Israel. Ela não conhecia essa parte da vida de seu marido.
Depois eu falei: “Israel, você se lembra daquela vez em que estávamos procurando os Phantom Lords, e caímos em uma emboscada?”
“Lembro.”
“Você salvou a minha vida naquela noite, Israel. Esta noite eu quero retribuir aquele favor. Quero dizer-lhe algo que salvará sua vida.”
Rosa estendeu a mão e passou o braço pelo dele. Ambos viraram-se e me olharam com ar de expecta­tiva.

“Israel, você é o meu melhor amigo. Você pode notar que houve uma transformação na minha vida. O velho Nicky morreu.  A pessoa que você vê agora não é realmente o Nicky, é Jesus Cristo vivendo em mim.   Você se lembra daquela noite, na Arena St. Nicholas, quando demos nosso coração ao Senhor?” Israel fez que sim, baixando os olhos para o chão. “Deus entrou no seu coração naquela noite, Israel. Eu sei disso. Deus fez um acordo com você e ainda mantém a sua parte do acordo. Ele não se esqueceu de você, Israel.  Você tem fugido todos estes anos, mas a mão dele ainda está sobre você.”
Peguei a Bíblia: “No Velho Testamento tem a história de um homem chamado Jacó. Ele também fugiu de Deus. Então, uma noite, exatamente como esta, ele teve uma luta com um anjo. O anjo venceu, e Jacó rendeu-se a Deus. Naquela noite Deus mudou o seu nome. Não era mais Jacó — mas Israel. E Is­rael significa “aquele que anda com Deus.”
Fechei a Bíblia e fiz uma pausa, antes de conti­nuar. Os olhos de Israel estavam molhados, e Rosa apertava o seu braço. “Durante todos estes anos, te­nho ficado acordado durante a noite, muitas vezes, orando por você — pensando como seria maravilho­so se estivesse trabalhando ao meu lado — não como fazíamos antes, mas na obra de Deus. Israel, esta noite eu quero que você passe a andar com Deus. Quero que entre no território de Jesus.”
Israel olhou-me com os olhos rasos de água. Virou-se e olhou para Rosa. Ela estava confusa, e falou-lhe em espanhol. Eu estivera falando em inglês, e vi que Rosa não compreendera tudo o que dissera. Ela perguntou-lhe o que eu queria. Israel explicou que eu queria que eles dessem o coração para Cristo. Ele falou rapidamente em espanhol, contando-lhe do seu desejo de voltar para Deus — como outrora Jacó teve vontade de voltar ao lar, e perguntou-lhe se ela iria com ele.
Ela sorriu, e os seus olhos brilharam, enquanto acenava que sim.
“Glória a Deus!” gritei. “Ajoelhem-se ao lado des­te sofá, enquanto oro.”
Israel e Rosa ajoelharam-se ao lado do sofá. Da­niel escorregou da cadeira e ajoelhou-se, do outro lado da sala. Coloquei as mãos sobre suas cabeças, e comecei a orar, primeiro em inglês, depois em es­panhol, oscilando entre as duas línguas. Senti o Es­pírito de Deus fluindo através de meu coração, meus braços, e meus dedos, e alcançando as suas vidas. Orei, pedindo a Deus para perdoá-los e abençoá-los e recebê-los na plenitude do seu reino.
Foi uma oração longa. Quando terminei, ouvi Is­rael começar a orar. Temerosamente a princípio, e depois com intensidade, ele clamou: “Senhor, perdoa-me. Perdoa-me. Perdoa-me.” Então a sua oração mu­dou, e eu pude sentir novas forças atuando em seu corpo, quando começou a dizer: “Senhor, muito obri­gado.”
Rosa uniu-se à sua oração: “Obrigado, Senhor, muito obrigado.”
Daniel pôs Israel e Rosa em um táxi, e pagou a corrida até o seu apartamento no Bronx. “Nicky” disse ele limpando os olhos, enquanto se afastavam, “esta foi a melhor noite da minha vida, e sinto que Deus vai mandar Israel para a Califórnia para traba­lhar com você.”
Concordei. Pode ser que sim. Deus tem sempre uma forma de cuidar de tudo.

Foge Nick Foge - 17 - No vale das sombras



Capítulo 17

NO VALE DAS SOMBRAS

É QUASE IMPOSSÍVEL colocar quarenta viciados em tóxicos debaixo do mesmo teto, e não ter pro­blemas — principalmente se supervisionados por pessoal inexperiente. A única coisa que impedia a organização do Centro Desafio Jovem de explodir era o Espírito Santo. Estávamos sentados num barril de pólvora, e qualquer um de nós podia acen­der o pavio na mente de algum psicopata, e fazer-nos ir todos pelos ares, caindo no esquecimento. A única esperança era conservar-nos tão perto de Deus quanto possível.
A maioria daqueles homens e mulheres era pe­rita na arte de enganar, tornando-se assim difícil distinguir quem era autêntico e quem era falso. Ganhavam a vida contando mentiras. Nós confiá­vamos naquelas pessoas tanto quanto podíamos.
Eu era intransigente quanto à disciplina, e logo descobri que a maior parte deles não se ressentia se fôssemos justos e razoáveis. De fato apoiavam-se na disciplina, porque lhes dava uma base firme de operação — um sólido sentimento de participa­ção. Contudo, eu sabia que nem todos tinham este sentimento.
Davi concordava com a minha filosofia. Porém a desagradável responsabilidade de precisar repreen­der a toda hora os delinqüentes começou a pesar demais sobre os meus ombros. Muitas vezes pre­cisava sair da cama, no meio da noite, para resolver uma querela, ou até mesmo, algumas vezes, para mandar alguém embora, por ter quebrado as regras.
Grande parte das decisões mais importantes cabia a mim, e precisávamos aumentar o nosso quadro de colaboradores, a maioria dos quais aca­bava de sair da universidade. Comecei a sentir profundamente minha falta de preparo, e a perceber a minha própria insegurança. Eu pouco ou nada sabia a respeito de processos administrativos, e ainda menos a respeito dos aspectos psicológicos das relações pessoais necessárias para manter a co­municação, e para me relacionar com os outros membros da equipe. Podia perceber inveja da parte de alguns dos que trabalhavam sob minha direção, e comecei a notar um estremecimento gradual em nossas relações.
Quando Davi passava pelo Centro, eu tentava explicar que tinha problemas grandes demais para mim, mas ele sempre me dizia: “Você saberá resol­vê-los, Nicky. Tenho grande confiança na sua capa­cidade.”
Os problemas, porém, continuaram a acumular-se como nuvens negras no horizonte, antes de uma tempestade.
No outono, fui com Davi até Pittsburg, para falar na cruzada de Kathryn Kuhlman. O minis­tério da Srta. Kuhlman é um dos mais abençoados pelo Espírito em todo o mundo. Sua obra, através da Fundação Kathryn Kuhlman, alcança todas as partes do globo Ela visitara o Centro Desafio Jovem, demonstrando um interesse especial pelo meu trabalho. Eu lhe havia mostrado a cidade e as favelas. “Agradeço a Deus por ter tirado você destes cortiços”, disse-me ela. “Se um dia tiver um pro­blema grande demais para resolver, pode me tele­fonar .”
Pensei que devia tentar falar com ela, enquanto estivesse em Pittsburg, porque meu coração estava cada vez mais pesado. Contudo, fui levado pela grandiosidade do programa. Naquela noite, falando através do meu amigo Jeff Morales, que me acom­panhara como intérprete, dei meu testemunho pe­rante milhares de pessoas, no grande auditório. Depois do culto, jantamos em um pequeno restau­rante, mas, até então, não tivera oportunidade de falar a sós com a Srta. Kuhlman. Deixei assim Pittsburg, ainda mais frustrado com minha incapa­cidade de resolver meus problemas pessoais.
Em janeiro de 1964, o trabalho havia crescido muito e já não podíamos conservar as mulheres alo­jadas no terceiro andar do casarão da Av. Clinton, 416. Fizemos negociações para arranjar uma casa do outro lado da rua, para acomodar as mulheres. Eu já percebera algumas conspirações, lideradas por al­guns viciados que me vira obrigado a disciplinar. Além disto, tínhamos recebido várias lésbicas no Centro, que estavam causando grandes problemas. Eu temia constantemente que qualquer delas tentas­se seduzir alguma das estudantes inexperientes que nos ajudavam como conselheiras.
Cuidar de viciados era como tentar apagar um in­cêndio na floresta com uma toalha de banho molha­da. Cada vez que eu conseguia controlar um pequeno problema, outro maior surgia. Percebi que estava me deixando envolver pessoalmente, e quando um vicia­do em narcóticos voltou para o mundo, tomei aquilo como fracasso pessoal.
Glória advertiu-me sobre o erro de levar todo o peso sozinho, mas a responsabilidade pesava grande­mente em meus ombros.
Foi nessa época que Quetta chegou ao Centro. Fazia o papel de “homem” e fora certa vez “casada” com outra moça.
Vestia roupas de homem, calças, camisa, sapa­tos e até sua roupa de baixo era masculina. Tinha pouco mais de trinta anos, era dona de uma bonita pele e com cabelos muitos negros cortados como de homem. Era uma garota magra, esbelta e atra­ente, com personalidade marcante.
Quetta era uma das maiores traficantes de nar­cótico da cidade. Durante anos dirigira uma “galeria de picadas” no seu apartamento. Homens e mulhe­res iam ali, não só para comprar heroína, mas tam­bém para participar de orgias sexuais. Ela fornecia tudo o que era necessário: agulhas, recipientes para ferver a droga, heroína, comprimidos, e para os se­xualmente depravados: homens e mulheres. Era uma situação confusa.
Quando a polícia deu uma batida no apartamen­to de Quetta, prendeu doze pessoas, inclusive algu­mas prostitutas profissionais, e descobriu dez “apetrechos” (colheres, agulhas, e conta-gotas). Os po­liciais demoliram literalmente o apartamento, arran­cando o reboco das paredes, levantando as tábuas do assoalho, etc., até descobrir o seu esconderijo de drogas, que valia milhares de dólares.
Quetta veio para o Centro, enquanto estava em liberdade condicional. Expliquei-lhe as regras, e dis­se-lhe que devia vestir roupas de mulher e deixar o cabelo crescer. Além disto, nunca poderia ficar a sós com qualquer das outras ex-viciadas, a não ser acompanhada de uma de nossas auxiliares. Ela es­tava demasiado doente para discordar, e parecia es­tar alegre por ter se livrado das grades. Em menos de uma semana aceitou a Cristo, e apresentou todas as evidências externas de uma verdadeira conversão.
Contudo, logo cheguei à conclusão de que mes­mo a conversão pode ser fingida. Embora usásse­mos Quetta para testificar em muitos trabalhos ao ar livre, eu sentia que havia algo de falso nela.
Duas semanas mais tarde, uma das conselheiras veio procurar-me logo de manhã. Estava branca co­mo um lençol, e tremendo como vara verde.
“O que foi, Diane? Entre e sente-se.”
Diane era a mais nova de nossa equipe, uma ga­rota provinciana de Nebraska, que acabara de diplo­mar-se na Escola Bíblica.
“Não sei como contar-lhe, Nicky”, disse ela. “É sobre Quetta e Lilly.”
Lilly era uma viciada que viera para o Centro havia apenas uma semana. Estava freqüentando os cultos, mas ainda não se entregara ao Senhor. Senti os lábios secos. “O que houve com elas?” perguntei.
Diane enrubesceu e baixou a cabeça.
“Estavam juntas na cozinha, ontem, por volta de meia-noite. Aproximei-me delas e, Nicky, elas es­tavam ... estavam...” Sua voz embargou-se, devido à vergonha e ao acanhamento. “Não fui capaz de dormir a noite toda. O que podemos fazer?”
Levantei-me da cadeira e comecei a andar, me­dindo o escritório a passos.
“Volte ao prédio e diga-lhes que quero vê-las no meu escritório imediatamente”, decidi. “Este lugar é dedicado ao Senhor. Não podemos admitir que coisas assim aconteçam aqui.”
Diane saiu, e eu me sentei novamente, com a cabeça entre as mãos, orando desesperadamente, pe­dindo sabedoria.  Em que ponto eu falhara? Havíamos permitido que Quetta testificasse em nome do Centro. Os jornais tinham publicado sua história e dado muita publicidade. Ela falara até em igrejas, a respeito da transformação ocorrida em sua vida.
Esperei mais de uma hora, e depois saí, para ver o que estava acontecendo. Encontrei Diane na esca­da.
“Elas saíram. As duas. Ficaram com medo, e disseram que iam embora. Não pudemos impedi-las.”
Virei-me e entrei vagarosamente no Centro. Sen­tia a derrota pessoalmente — fora um golpe duro. Durante três dias Glória orou e conversou comigo, enquanto eu me sentia completamente desiludido com a minha aparente incapacidade de alcançar aquelas viciadas com a verdadeira mensagem de transformação.
“Nicky, o próprio Jesus teve fracasso entre os seus seguidores”, disse ela. “Lembre-se de todos os que têm sido fiéis, e que têm tido êxito. Lembre-se de Sonny, que está no Instituto Bíblico, estudando para ser pastor. Pense em Maria, e na maravilhosa transformação de sua vida. Lembre se do que Deus fez por você. Esqueceu-se da sua própria experiên­cia de salvação? Como é que pode duvidar de Deus e ficar desanimado com esses fracassos isolados?”
Glória tinha razão, mas eu me sentia incapaz de livrar-me daquele desânimo. A medida que o verão avançava, a sensação de culpa se avolumava. Julga­va-me um completo fracasso. Não havia comunica­ção entre mim e a maioria dos outros membros da equipe. Davi ainda acreditava em mim. mas eu per­cebia, aguda e dolorosamente, as constantes falhas do Centro. A tensão crescia. Glória continuou ten­tando tirar-me daquela atitude derrotista, mas tudo o que eu fazia era inteiramente negativo.
O único ponto alto foi a chegada de Jimmy Baez. Ele vivera “fisgado” pelos narcóticos durante oito anos. Entrou no Centro pedindo remédios, pensando que era um hospital.
“Não tem outro remédio aqui a não ser Jesus”, disse-lhe.
Pensou que eu estivesse louco.
“Puxa, pensei que isto fosse uma clínica. Vocês são uma cambada de birutas.” Olhou ao seu redor, desesperadamente, procurando sair do meu escritó­rio.
“Sente-se, Jimmy. Quero conversar com você. Cristo pode transformá-lo.”
“Ninguém pode me transformar”, resmungou. “Já tentei, mas não consigo.”
Levantei-me e aproximei-me dele. Colocando as mãos sobre sua cabeça, comecei a orar. Senti que ele estremecia, e de repente caiu de joelhos, claman­do a Deus. Daquela noite em diante nunca mais sentiu necessidade de outra “picada” de heroína.
“Veja”, observou Glória, quando lhe falei da con­versão de Jimmy, “Deus está mostrando que ainda pode ajudá-lo. Como é que você pode continuar du­vidando dele? Por que não pensar positivamente? Há vários meses que você não sai para os cultos notur­nos ao ar livre. Ponha-se a trabalhar para Deus, e sentirá a orientação do Espírito Santo, como sentia antes.”
Aceitei o conselho, e concordei em dirigir os cul­tos ao ar livre na última semana de agosto. Na pri­meira noite, armamos nossa plataforma em Brooklin, e comecei a pregar. Era uma noite quente e abafa­da, mas a vasta multidão estava atenta. Preguei com todas as forças, e senti que me saíra bem. Quando me aproximava do fim, fiz um apelo.
De repente, levantei os olhos e, na extremidade da multidão eu o vi. Seu rosto era inconfundível. Era Israel. Todos aqueles anos, eu orara, procurara, inquirira... e, de repente, ali estava ele, um rosto na multidão.
Meu coração pulou. Talvez Deus o tivesse man­dado de volta.   Senti o velho fogo derramar se em meu coração, enquanto fazia o apelo. Parecia que prestava bastante atenção, esticando o pescoço para ouvir as minhas palavras. O órgão portátil começou a tocar, e um trio feminino começou a cantar. Vi Israel virar-se para se afastar.
Pulei da plataforma e, às cotoveladas, abri ca­minho furiosamente entre a multidão, tentando al­cançá-lo antes que ele desaparecesse. “Israel! Israel!” gritei-lhe. “Espere! Espere!”
Ele parou e virou-se. Não nos víamos há seis anos. Tinha ganhado corpo e amadurecido. Mas o seu rosto harmonioso tinha a aparência de mármore cinzelado, e os seus olhos estavam fundos e tristes.
Abracei-o com força, e procurei arrastá-lo de vol­ta para a reunião. Ele resistiu e permaneceu imóvel.
“Israel”, gritei, transbordando de alegria, “é você mesmo?” Dei um passo atrás, agarrei os seus om­bros, olhando para ele. “Por onde tem andado? Onde você está morando? O que está fazendo? Conte-me tudo. Por que não me telefonou? Tenho procurado você em todos os cantos de Nova York. Hoje é o me­lhor dia da minha vida.”
Seus olhos estavam distantes e frios; sua manei­ra, estranha e retraída. “Preciso ir, Nicky. Tive mui­to prazer em ver você de novo.”
“Precisa ir? Faz seis anos que não nos vemos. Tenho orado todos os dias por você. Você vai para casa comigo.” Comecei a puxá-lo, mas ele sacudiu a cabeça e retirou o braço. Pude sentir os músculos fortes enrijecendo sob a sua pele.
“Outro dia, Nicky. Hoje não.” Tirou minha mão do seu ombro, e começou a afastar-se.
“Ei, espere um minuto. O que é que há com você? Você é o meu melhor amigo. Não pode ir em­bora assim.”
Virou-se e quase me congelou com um olhar gé­lido daqueles olhos inflexíveis, cinzentos como o aço.
“Mais tarde, Nicky”, disse ele entre os dentes. Virou-se abruptamente e desceu rua abaixo, para a escuridão.
Piquei imóvel pela surpresa, e chamei-o desespe­radamente. Mas ele nem se virou. Continuou an­dando, e retornou à penumbra de onde viera.
Voltei alquebrado para o Centro. Arrastei-me es­cada acima, até o terceiro andar, e fechei a porta atrás de mim, em um dos quartos do sótão. “Se­nhor”, gritei com voz agoniada, “o que é que eu fiz? Israel está perdido, e a culpa é minha. Perdoa-me.” Caí no chão e passei muitos minutos chorando incontrolavelmente. Dava socos desesperados na pa­rede. Não recebi resposta. Durante duas horas fiquei no sótão abafado, exaurindo-me física, emocio­nal e espiritualmente.
Eu sabia que iria deixar o Centro.   Sentia que o meu ministério estava terminado. Eu era um fra­casso em tudo o que tentava fazer.  Tudo em que eu tocava, terminava mal. Quetta. Lilly. Agora, Is­rael. Não adiantava ficar lutando contra os proble­mas crescentes que não podia vencer. Não adiantava continuar no ministério. Eu estava arrasado. Derro­tado. Fulminado. Pus-me de pé e fiquei olhando pela janelinha do sótão, para o céu escuro. “Senhor, estou derrotado.  Eu errei.   Tenho confiado em mim mesmo, e não em ti. Se é esta a razão pela qual tu permitiste que isto acontecesse, estou disposto a con­fessar o meu terrível pecado. Humilha-me. Mata-me, se necessário. Todavia, Deus querido, não me lances no lixo.”
Sacudia-me em soluços. Encostei-me à porta, olhando para o quarto. Silêncio. Eu não sabia se ele me ouvira ou não. Mas naquele momento, pouca diferença fazia. Eu já fizera tudo o que sabia.
Desci de novo as escadas, e fui para o meu apar­tamento. Glória já tinha posto o nenê na cama, e es­tava arrumando a cozinha. Fechei a porta e enca­minhei-me para a cadeira. Antes que eu pudesse sen­tar, ela estava à minha frente. Seus braços rodea­ram-me a cintura, e ela me atraiu para si. Não sa­bia nada do que acontecera na rua ou no sótão, mas porque somos uma só carne, ela pôde perceber que eu fora ferido, e estava ao meu lado para sustentar o meu espírito abatido, e me dar forças na hora da necessidade.
Apertei-a contra mim, e escondi o rosto no seu ombro, enquanto as lágrimas começavam a cair de novo. Durante muito tempo ficamos ali, abraçados um ao outro, meu corpo sacudido pelos soluços. Por fim o choro passou, e levantei-lhe o rosto com ambas as mãos, olhando profundamente nos seus olhos. Estavam cheios de lágrimas, como fontes pro­fundas, jorrando água, da terra pura. Mas, não cho­rava. Ela estava sorrindo, embora fracamente. E o amor que fluía do seu coração transbordava dos seus olhos, enquanto as lágrimas gotejavam e cor­riam em pequenos regatos pela face bronzeada.
Apertei o seu rosto com as mãos. Ela estava lin­da. Mais linda do que nunca. Glória sorriu, e então os seus lábios se abriram, quando ela se aconchegou a mim em um beijo suave e demorado. Pude sentir o sal das minhas próprias lágrimas, e a quentura úmida da sua boca contra a minha.
“Pronto, Glória, terminou. Vou embora. Pode ser que eu tenha ficado orgulhoso. Talvez tenha pecado. Não sei, mas sei que o Espírito afastou-se de mim. Estou como Sansão. ao sair para guerrear os filis­teus, sem o poder de Deus. Sou um fracasso. Arruíno todas as coisas em que toco.”
“O que é, Nicky?” Sua voz era macia e suave. “O que aconteceu?”
“Vi Israel hoje. Pela primeira vez depois de seis anos, vi o meu melhor amigo. Ele me deu as costas. A culpa dele ser o que é, cabe a mim. Se eu não o tivesse deixado sozinho na cidade, há seis anos atrás, ele estaria trabalhando hoje ao meu la­do. Em vez disso, passou cinco anos na prisão, e está perdido. Deus não se importa mais.”
“Nicky, isto é quase uma blasfêmia”, disse Gló­ria, com voz ainda suave. “Você não pode culpar-se pelo que aconteceu a Israel. Naquela manhã em que saiu da cidade, não passava de um garoto amedron­tado. Não foi sua a culpa de não ter encontrado Is­rael. Está errado ao culpar-se a si próprio. Como tem coragem de dizer que Deus não se importa mais? Ele se importa. Ele se importou o suficiente para salvá-lo."
"Você não compreende" disse eu, movendo a ca­beça. "Desde que Davi me contou que Israel voltou para a quadrilha, culpei-me a mim mesmo. Tenho carregado o peso da culpa em meu coração. Esta noite eu o vi, e ele virou-me as costas. Nem quis falar comigo. Se você tivesse visto a dureza do seu semblante!"
"Mas, Nicky, você não pode desistir agora, jus­tamente quando Deus está começando a operar..."
"Amanhã vou me demitir", interrompi. "Meu lu­gar não é aqui. Meu lugar não é no ministério. Não sou suficientemente bom. Se eu ficar, todo o Cen­tro Desafio Jovem vai ser destruído. Sou como Jonas. Pode ser que ainda esteja fugindo de Deus, e não saiba disso. Eles precisam lançar-me ao mar, para que um peixe me coma. Se não se livrarem de mim, o barco inteiro vai afundar."
"Nicky, que conversa louca! Satanás é quem está fazendo você ficar assim", disse Glória, quase cho­rando. Afastei-me dela.
"Tem razão, Satanás está em mim. Mas eu vou renunciar."
"Nicky, pelo menos fale com Davi primeiro."
"Já tentei, centenas de vezes. Mas ele sempre está ocupado demais. Acha que eu posso resolver tudo sozinho, mas está errado. Não agüento mais. Sou incapaz, e já é tempo de admiti-lo. Sou um fra­casso ...  um fracasso."
Depois que fomos deitar, Glória passou o braço em torno da minha cabeça e acariciou meu pescoço.
"Nicky, antes de renunciar você me promete uma coisa? Você telefona para Kathryn Kuhlman e con­versa com ela?"
Acenei que sim, com a cabeça. Meu travesseiro estava molhado de lágrimas, e ouvi Glória murmu­rar: "Nicky, Deus vai tomar conta de nós."
Enterrei a cabeça no travesseiro, pedindo a Deus que não me permitisse ver o sol despontar outro dia, em minha vida.
Naqueles dias de trevas e indecisão, só uma es­trela brilhante surgiu, na forma daquela senhora majestosa, que parecia transpirar a própria presença do Espírito Santo. Só o fato de conversar com a Srta. Kuhlman, pelo telefone, no dia seguinte, parece que ajudou. Ela insistiu para que eu fosse a Pittsburg, com as despesas pagas por ela, antes de tomar uma decisão final.
Na tarde seguinte, tomei o avião para Pittsburg. Fiquei surpreso quando ela não procurou forçar-me a ficar no Centro.  Em vez disso, declarou:
"Talvez Deus esteja dirigindo você para um mi­nistério diferente, Nicky. Pode ser que ele o esteja levando pelo vale das sombras, a fim de que possa sair ao sol, do outro lado. Tão somente, conserve os olhos em Jesus. Não fique amargurado nem desa­nimado. Deus pôs a mão sobre você, e não vai aban­doná-lo agora. Lembre-se, Nicky, quando passamos pelo vale da sombra, ele está conosco."
Oramos e ela pediu que, se fosse da vontade de Deus que eu deixasse o Centro Desafio Jovem, que ele conservasse aquela nuvem de desânimo ao meu re­dor. Se quisesse que eu permanecesse, dissipasse a nuvem, para que eu me sentisse disposto a ficar em Nova York.
Voltei à cidade na manhã seguinte, grato pela amizade e confiança daquela senhora cristã, gentil e dinâmica.
Naquela noite, depois que o nenê dormiu, sen­tei à mesa da cozinha e conversei outra vez com Gló­ria. Eu queria mesmo sair. Começaríamos tudo de novo, talvez na Califórnia. Glória disse que me se­guiria onde quer que eu fosse. O seu grande amor e  sua confiança davam-me novas  forças.  Antes de ir para a cama, peguei um pedaço de papel e uma caneta, e escrevi meu pedido de demissão.
Foi um fim de semana horrível. Na segunda-feira cedo, quando Davi chegou ao Centro, estendi-lhe meu pedido de demissão, e esperei enquanto ele lia.
Ele baixou a cabeça.
“Fui eu quem falhei com você, Nicky?” perguntou suavemente. “Será que eu estava tão ocupado que não fiquei aqui o tempo suficiente, quando você pre­cisou de mim? Venha ao meu escritório; vamos con­versar .”
Segui-o silenciosamente pelo saguão, e entramos no escritório. Ele fechou a porta, e encarou-me com um semblante profundamente aflito.
“Nicky, não sei o que está por trás de tudo isto. Mas sei que, em grande parte, sou culpado. Todos os dias tenho me repreendido por não passar mais tempo com você. Vivo correndo, levantando dinhei­ro para o Centro. Não tenho tido tempo nem para a minha família. Sinto em meus ombros o pesado fardo da responsabilidade. Então, antes de conver­sarmos, quero pedir-lhe que me perdoe por ter fa­lhado com você.  Você me perdoa, Nicky?”
Baixei a cabeça, e meneei-a silenciosamente. Davi suspirou fundo, e caiu na cadeira.
“Vamos conversar, Nicky.”
“É tarde demais para conversar, Davi. Várias vezes procurei falar-lhe. Sinto que é isto que eu de­vo fazer.”
“Mas, por que, Nicky? O que causou esta deci­são repentina?”
“Não é repentina, Davi. Está sendo preparada há muito tempo.” Aí, então, abri o coração diante dele.
“Nicky”, disse Davi, com os olhos penetrantes fixos em mim, “todos nós passamos por esses perío­dos de depressão. Eu já decepcionei algumas pes­soas, e já fiquei decepcionado com outras. Pensei em desistir várias vezes. Freqüentemente, tenho me sentido como Elias, debaixo de um zimbro, gritando:
“Basta; toma agora, Senhor, a minha alma.” Contu­do, Nicky, você entrou em lugares onde os anjos te­meriam andar. Não consigo imaginá-lo fugindo des­tas pequenas derrotas.”
“Elas não são pequenas para mim, Davi. Já re­solvi.  Desculpe.”
No dia seguinte, Glória e Alicia embarcaram de avião para Oakland, e dois dias depois voei até Houston, para cumprir o meu último compromisso, pre­gando naquela cidade. Estávamos em agosto de 1964. Eu passara dois anos e nove meses no Centro De­safio Jovem.
Em Houston, fiquei meio envergonhado de con­tar que saíra do Centro. A minha pregação, porém, foi fria e ineficaz. Estava ansioso para seguir para a Califórnia e encontrar-me com Glória.
Enquanto voava através do país, apercebi-me de que não estava mais viajando por conta do ministé­rio. Havíamos economizado muito pouco, e as pas­sagens de avião e despesas de mudança iriam deixar-nos sem dinheiro. Fiquei assustado. Inseguro. Com medo.
Lembrei-me das vezes em que pessoas tinham tentado colocar dinheiro em minhas mãos, quando pregara em concentrações e conferências. Eu agra­decia, e mandava que fizessem um cheque em nome do Centro Desafio Jovem. Nada queria para mim. Toda a minha vida fora dedicada ao Centro. Pare­cia irônico que até mesmo em Houston eu tinha con­tinuado a dizer, aos que queriam contribuir, que fi­zessem os cheques em nome do Centro Desafio Jo­vem, sabendo que eu mal tinha dinheiro para viver, nos dias seguintes.
Glória foi encontrar-se comigo no aeroporto. Ela alugara um apartamento pequeno. Estávamos “que­brados” e deprimidos. Eu dera a Deus quase seis anos da minha vida, e sentia que ele me voltara as costas. Pretendia desistir, deixar o ministério, e co­meçar da estaca zero, em alguma outra atividade. O sol mergulhou no Oceano Pacífico, e todo meu mun­do afundou na escuridão.
Não sabia para onde me voltar. Percebi que es­tava me afastando de tudo. Não queria ir à igreja com Glória, preferindo ficar sentado em casa, olhan­do para as paredes. Glória tentou orar comigo, mas eu me sentia desanimado e afastava-a de mim, di­zendo que ela podia orar, mas, quanto a mim, sentia-me vazio.
Dentro de algumas semanas, espalhou-se a notí­cia de minha volta à Califórnia. Começaram a che­gar convites para falar nas igrejas. Logo me cansei de dizer “não” e de inventar desculpas. Finalmente, disse a Glória para não atender mais interurbanos, e não responder às cartas.
Nossa situação financeira era, porém, desespera­dora. Havíamos gastado todas as economias, e Glória não conseguira achar emprego.
Como último recurso, aceitei um convite para pregar em uma cruzada para jovens. Estava espiri­tualmente frio. Pela primeira vez na vida, subi ao púlpito sem orar. Sentado na plataforma, admirei minha própria dureza e frieza. Fiquei chocado com a minha atitude mercenária. Não obstante, estava desesperado. Se Deus me deixara cair, como eu sen­tia que ele o fizera, em Nova York, então não me sentia obrigado a buscar a sua bênção para pregar. Se me pagassem, eu aceitaria. Era simplesmente isso.
O Senhor, todavia, não considerava as coisas as­sim tão simples. Ele tinha planos muito mais eleva­dos para mim, mais do que apenas receber um cheque como pagamento pela pregação. Pregar Cristo é coi­sa sagrada — e ele prometeu: “Minha palavra... não voltará para mim vazia.”
Quando fiz o apelo, algo aconteceu. Primeiro, um jovem saiu do meio da multidão e aproximou-se, ajoelhando-se diante do altar. Depois, outro veio do canto mais afastado do auditório. Outros ainda vie­ram à frente, e os corredores ficaram cheios de jo­vens dirigindo-se ao altar, ajoelhando-se defronte do gradil e entregando suas vidas a Cristo. Tão grande era o número de jovens ali na frente, que muitos precisaram ficar de pé, atrás dos que se ajoelharam diante do gradil superlotado. No fundo da igreja, vi gente caindo de joelhos e clamando a Deus. Outros continuavam se apresentando. Nunca estivera em um culto em que o Espírito de Deus caísse sobre a con­gregação com tanto poder.
O Senhor procurava dizer-me algo, não baixinho, sussurrando, mas com voz trovejante. Dizia-me que ainda estava no seu trono, relembrando-me que, em­bora eu o decepcionasse, ele não me decepcionava. Estava me dizendo, em termos inconfundíveis, que não terminara sua obra em minha vida... e que ain­da queria usar-me, embora eu não estivesse disposto a ser usado.
Senti os joelhos tremerem, e tentei segurar-me no púlpito. De repente, meus olhos encheram-se de lágrimas e eu, o pregador da noite, caí para a fren­te, de joelhos diante do gradil. Ali, com o coração cheio de arrependimento, derramei a alma perante o meu Deus, numa nova dedicação a ele.
Depois do culto, Glória e eu entramos no carro que estava estacionado no pátio da igreja. Havíamos planejado sair para lanchar e depois dar um passeio de carro. Em vez disso, concordamos em ir para ca­sa.
Quando entramos, caí de joelhos. Glória ajoe­lhou-se ao meu lado, e nós dois choramos e clama­mos a Deus. E eu sabia. Sabia que havia mais ain­da. Sabia que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus. Abri os olhos, e através das lágrimas, vi que ele estava ao meu lado. Podia sentir a sua presença. Quase podia ouvir as palavras: Sim, “ainda que eu ande pelo vale da sombra da mor­te, não temerei mal nenhum, porque tu estás comi­go: a tua vara e o teu cajado me consolam...” Salmo 23.
Havíamos atravessado o vale da sombra da mor> te, mas a sua graça nos guiara, e agora a luz do sol já coroava o pico das montanhas distantes, anuncian­do o alvorecer de um novo dia.

Foge Nick Foge 16 - Com Cristo no Harlem



Capítulo 16

COM CRISTO NO HARLEM

DAVI VIAJAVA A MAIOR parte do tempo, recru­tando obreiros para trabalhar durante o verão, e levantando dinheiro para o Centro. À medida que o tempo passava, ele tinha cada vez menos contato pessoal com os viciados, e descobriu que estava fa­zendo o papel de administrador — papel esse que não queria assumir, mas que lhe fora imposto pelas circunstâncias.
A maior parte do nosso trabalho era feito atra­vés dos cultos ao ar livre, e de encontros casuais na rua. Quase todas as tardes armávamos nossa plataforma e nosso serviço de alto-falantes em algum bairro pobre da cidade.
Certa tarde, Mário e eu levamos um pequeno grupo em nossa Kombi, até o coração do Harlem Espanhol. Distribuíamos folhetos, procurando reu­nir uma multidão para um culto ao ar livre, mas estávamos  tendo pouco  êxito.
Mário me disse: “Vou buscar gente.”
“Hoje não dá”, respondi. “Ninguém está inte­ressado. Acho que é melhor desarmar tudo e ir para casa.”
“Não”, disse Mário, “nós vamos conseguir gente para ouvir. Você e os outros podem começar a colocar os alto-falantes nos lugares. Em menos de uma hora vamos ter o maior culto ao ar livre.”
“Rapaz, como é que você pensa que vai realizar um culto, sem gente? Hoje eles não estão mesmo interessados.”
“Não se preocupe. Deixe que eu resolvo isto”, disse Mário.
Rindo timidamente, ele saiu correndo rua abaixo e virou a esquina.
Começamos a montar o equipamento. Era uma verdadeira aventura de fé. Eu me sentia como Noé, construindo a arca no alto da montanha seca. Mas continuamos a trabalhar, esperando que Deus pro­videnciasse a chuva.
E ele providenciou. Quinze minutos depois ha­víamos terminado, e eu estava de volta à esquina. distribuindo folhetos, quando vi um enorme grupo de rapazes correndo pela rua, na minha direção. Estavam agitando porretes e tacos de beisebol, e gritavam com todas as forças. Virei me e ia voltar para a plataforma, quando vi novo grupo de rapa­zes vindo de outra direção, gritando e agitando por­retes. “Preciso cair fora daqui”, pensei, “esses ra­pazes vão ter um “quebra-pau.” Mas era tarde de­mais! Fui rodeado pela turma que gritava e dava cotoveladas.   Fiquei esperando pela briga.
De repente, vi Mário correndo por uma travessa que havia no meio do quarteirão, gritando a plenos pulmões: “Ei turma, o chefe da terrível quadrilha dos Mau-Maus, de Brooklin, vai falar dentro de quinze minutos. Venham ouvi-lo. Venham ouvir o grande Nicky Cruz, o sujeito mais perigoso de Brooklin. Venham preparados. Ele é um matador, e ainda é perigoso.”
Os rapazes derramavam-se dos apartamentos, descendo pelas escadas de emergência, e correndo em minha direção. Enxameavam ao meu redor, e gritavam: “Onde está o Nicky? Quero vê-lo. Onde está o chefe dos Mau-Maus?”
Mário   chegou, com  um sorriso   que ia até as orelhas. “Você viu? Eu disse que conseguiria uma multidão.”
Olhamos ao nosso redor. Ele havia reunido uma turba de tamanho respeitável. Devia haver uns trezentos rapazes rodeando-nos, no meio da rua.
Balancei a cabeça. “Só espero que não sejamos todos mortos. Puxa, esses rapazes parecem ter­ríveis .”
Mário ainda estava rindo, ofegante, por causa da corrida. “Vamos, pregador, sua congregação está esperando.”
O suor escorria-lhe pelo rosto, mas ele trepou até a plataforma, agarrou o microfone e levantou a mão, pedindo silêncio. Os rapazes ouviram-no falar, à semelhança de um camelô de feira, “enro­lando” o auditório antes de apresentar o show.
“Senhores e senhoras. Hoje é um grande dia. O chefe da terrível e famosa quadrilha Mau-Mau vai falar a vocês... O homem mais perigoso de Nova York. Ele é temido tanto por moços como por velhos. Só que agora não é mais o chefe. É ex-chefe. Esta tarde vai contar-lhes porque não está mais na gang, e porque está associado a Jesus. Apre­sento a vocês NICKY CRUZ, o primeiro e único, ex-chefe dos Mau-Maus.”
Estava gritando quando terminou. Pulei para a plataforma, ficando por trás do microfone. Os garotos na multidão começaram a gritar e bater palmas. Fiquei de pé na plataforma, sorrindo e acenando com a mão, enquanto eles aplaudiam. Muitos deles me conheciam ou haviam lido a meu respeito nos jornais. Cerca de duzentos adultos ti­nham-se reunido por trás da multidão de adoles­centes. Dois carros da polícia pararam, um de cada lado do povo.
Levantei os braços. Os gritos, assobios e aplau­sos diminuíram. Em um instante a turba estava silenciosa.
Senti-me fortemente ungido pelo Espírito Santo, quando comecei a pregar. As palavras saíram livre­mente, sem dificuldade. “Eu era o chefe dos Mau-Maus. Estou percebendo que vocês já ouviram falar de mim.” Outra vez a multidão irrompeu em aplau­sos espontâneos. Levantei os braços, e pedi silêncio. “Quero contar-lhes porque sou ex-chefe dos Mau-Maus. Sou ex-chefe porque Jesus transformou meu coração! Um dia, em uma reunião de rua exata­mente igual a esta, ouvi um pregador falar de alguém que podia transformar minha vida. Ele me disse que Jesus me amava. Eu não sabia quem era Jesus, e sabia que ninguém me amava. Mas Davi Wilkerson disse que Jesus me amava. Agora a minha vida está mudada. Eu me entreguei a Deus, e ele me deu uma nova vida. Eu era igual a vocês: vivia cor­rendo pelas ruas. Dormia nos telhados. Fui expulso da escola por causa de briga. A polícia estava atrás de mim, e fui preso muitas vezes, e muitas vezes dormi na cadeia. Eu estava com medo. Mas, então, Jesus transformou minha vida. Ele me deu um alvo para o qual eu agora vivo. Ele me deu esperança. Ele me deu um novo objetivo na vida. Eu não fumo mais maconha, nem brigo, nem mato. Não fico mais acordado de noite, com medo. Não tenho mais pesadelos. Agora as pessoas conversam comi­go quando eu passo. A polícia me respeita. Estou casado, e tenho uma filhinha. Porém, o que é mais importante de tudo, sou feliz e não vivo mais fu­gindo de tudo e de todos.”
A multidão estava silenciosa e atenta. Terminei a mensagem e fiz um apelo para os que queriam aceitar a Cristo.
Vinte e dois atenderam ao apelo, e ajoelharam-se defronte à multidão, enquanto eu orava.
Terminei a oração, e levantei os olhos. Os poli­ciais tinham saído dos carros, e estavam de pé, com os quepes na mão, e as cabeças curvadas. Virei o rosto para o céu.   O sol brilhava no Harlem...
O Harlem Espanhol tornou-se nosso lugar pre­dileto para cultos ao ar livre.  Parecia que ali éramos capazes de atrair multidões maiores, e a necessida­de do evangelho era mais aparente do que em qual­quer outro lugar em que havíamos pregado. Eu não me cansava de lembrar à nossa equipe que “onde abundou o pecado, superabundou a graça”.
Glória teve dificuldades em aceitar o Harlem Espanhol. Ela não conseguia acostumar-se com o cheiro. Procurava não agir de forma antipática, mas algumas das feiras livres eram quase demais para o seu estômago. Até para mim, era difícil acostu­mar-me com as moscas que enxameavam sobre a carne, as frutas e vegetais.
Além disto, havia o cheiro dos viciados. Pare­ciam desprender um mau cheiro. E quando agru­pados, principalmente sob o calor do verão, era quase insuportável ficar perto deles.
Aprendemos muito durante aqueles primeiros meses de pregação nas ruas. Aprendemos que as pessoas que tinham mais êxito eram as que haviam saído das ruas, e podiam apresentar um testemunho de primeira mão a respeito do poder transformador de Jesus Cristo. Eu não tinha tanto êxito, ao pregar para viciados em entorpecentes quanto os que tinham sido viciados. Descobrimos que esses eram nossos melhores pregadores. Seus testemunhos, honestos e minuciosos, causavam um impacto tremendo nos outros viciados. Começamos a levá-los conosco sempre que íamos pregar nas ruas. Contudo, isto também trouxe problemas.
Muitas vezes, durante os cultos de pregação nas ruas, os viciados que se aglomeravam procuravam tentar e provocar nossos auxiliares. Acendiam um “pacau” em frente deles, e deliberadamente sopra­vam a fumaça em seus rostos. Cheguei a ver um homem tirar uma agulha e um pacote de heroína, e agitá-los na cara de um de nossos obreiros que se livrara das drogas, dizendo: “Ei, menino, não sente falta disto? Rapaz, isto é que é vida. Precisa expe­rimentar.” A tentação era quase  irresistível,  mas aquelas vidas   estavam  protegidas  pelo  escudo da força de Deus.
Descobri que Maria, particularmente, não tinha acanhamento de levantar-se diante de um grupo dos seus antigos colegas, prostitutas e viciados, e dar testemunho da graça de Deus. O seu testemunho simples levou, várias vezes, os ouvintes até às lá­grimas, quando falava de um Deus que é um amigo íntimo e pessoal. Um Deus que, na pessoa do seu filho Jesus Cristo, palmilhou as duras estradas da Palestina, tocando nos pecados do povo e libertando-o deles. A maior parte daquela gente jamais soubera da existência de um Deus assim. O Deus de quem ouviam falar, se é que conheciam algum, era um juiz severo que abomina o pecado e fustiga as pessoas, colocando-as na linha, como um policial. Ou, talvez, identificavam Deus com as igrejas frias e  formais que  tiveram oportunidade  de  observar.
Certo dia, um ex-membro de quadrilha, um jovem de cor que fora viciado em heroína, estava dando testemunho a respeito da sua infância. Con­tou que fora obrigado a fugir de casa aos treze anos, porque o apartamento era muito apertado. Falou dos diversos homens que viveram com sua mãe. Contou como dormira nos telhados e no metrô. Afirmou que precisara surrupiar comida, mendigar e roubar. Ele não tinha casa de espécie alguma, e usava os telhados ou ruelas como latrina. Estava vivendo como um animal selvagem, na selva das ruas.
Enquanto falava, uma velha senhora, na extre­midade da multidão, começou a chorar. Seu choro tornou-se quase histérico, e eu rodeei o povo para chegar até ela. Quando conseguiu dominar-se, ela me disse que aquele rapaz poderia ser seu filho. Ela tivera cinco filhos que haviam abandonado o lar, e viviam exatamente conforme a descrição dele, nas ruas da cidade. O seu sentimento de culpa era maior do que podia suportar. Reunimo-nos ao seu redor, e oramos a seu favor.    Ela  levou a cabeça para trás e olhou para os céus, pedindo que Deus a perdoasse e protegesse seus filhos, onde quer que eles estivessem. A pobre mulher encontrou paz junto a Deus naquela tarde, mas o dano causado aos filhos já estava feito. Em milhares de outros casos, ocorria o mesmo. Sentíamos como se esti­véssemos procurando esvaziar o oceano com uma colher de chá. Não obstante, sabíamos que Deus não esperava que ganhássemos o mundo — apenas que testificássemos e fôssemos fiéis. E esse era o nosso alvo.
Na quinta-feira, tarde da noite, preparamos um culto ao ar livre na esquina de uma escola, no Harlem Espanhol. O verão estava quente, e uma grande multidão reuniu-se para ouvir os alegres corinhos em espanhol, e a música evangélica de ritmo acele­rado  que fluía de nossos  alto-falantes.
A multidão estava inquieta e nervosa. Quando a música chegou a um ritmo mais acelerado, alguns de nossos rapazes e moças colocaram-se defronte ao microfone e começaram a cantar, bater palmas, e marcar o ritmo. A um lado, todavia, eu notei uma perturbação. Um grupo de “pequenos” estava dan­çando ao som da música. Eram cerca de cinco ou seis “pequenos”, gingando em plena rua, bamboleando as cadeiras e sapateando. Algumas pessoas tiveram sua atenção desviada para eles e começa­ram a aplaudi-los, rindo e batendo palmas com eles, acompanhando o ritmo. Deixei o lugar onde esta­va, e rodeei o povo, em direção ao grupo. “Ei, me­ninos, por que vocês estão dançando aqui? Aqui é território de Jesus!”
Um deles disse: “Aquele homem lá pagou para nós dançarmos. Veja, ele nos deu dez centavos.” Apontaram para um moço magro, de cerca de vinte e oito anos de idade, que estava na extremidade da multidão. Dirigi-me a ele para conversar. Ele viu que eu me aproximava e começou a saracotear, no ritmo da música.
Procurei falar com ele, mas continuou  dançando, sapateando, e sacudindo   as   cadeiras,   dizendo: “Meu chapa, isso é música pra frente, cha-cha-cha.”
Girava em torno de si mesmo, e batia com as mãos nos quadris. Cantava sacudindo as cadeiras e a cabeça como um louco: “Bi-bop, cha-cha-cha... dum-di-dum-dum... dança, meu chapa, dança.”
Finalmente consegui sua atenção: “Ei, cara, quero perguntar-lhe  uma  coisa.”
Ele continuou da mesma forma, dançando no ritmo da música: “Sim, paizinho, o que é que você quer? O que é que você quer?... Bi-bop, di-dum-dum... o que é que você quer?”
Eu disse: “Você deu dinheiro àqueles garotos para que eles dançassem e atrapalhassem nossa reunião?” Minha paciência estava começando a acabar.
Girando ainda, respondeu: “É isso mesmo, meu chapa; você está falando com o cara certo. Sou o homem... da-da-di-da...” Dava estalos com a língua e sapateava, levantando os pés à sua frente, en­quanto girava.
Pensei que ele estivesse louco. “Por quê?” gritei-lhe.   “O que há de errado com você, afinal?”
“Porque não gostamos de vocês. Não gostamos de crentes. Não. Não. Não. Não gostamos de crentes.   Da-da-dum-di-dum.”
Perdi a calma. “Pois bem, seu”, disse, cerrando os punhos e avançando para ele, “vamos continuar este culto, e você vai calar a boca, ou então eu vou lhe dar uma surra, e você vai ficar quieto a força.”
Ele viu que eu falava sério, mas seu orgulho não lhe permitia acabar com a brincadeira imedia­tamente. Pôs a mão na boca fingindo surpresa, e arregalou os olhos, fingindo terror. Mas parou de dançar e  calou-se.
Voltei ao microfone e preguei naquela tarde a respeito das minhas experiências de adolescente em Nova York. Testifiquei a respeito da sujeira, da pobreza, da vergonha e do pecado que existiram em minha vida.   Em seguida, preguei sobre a culpa dos pais que permitem que seus filhos cresçam em tal pecado. Roguei-lhes que dessem um bom exemplo para os filhos.
Enquanto eu falava, alguns tiraram o chapéu. Este é um dos melhores sinais de reverência e res­peito. Notei lágrimas nos olhos de muitas pessoas, e vi alguns lenços aparecerem. Percebi que o Espí­rito e o poder de Cristo estavam operando de ma­neira especial, mas não previ o impacto que ele pro­duziria alguns momentos depois.
Enquanto pregava, notei um velho, claramente embriagado, chorando no meio de todo aquele povo. Uma mocinha, que estava na frente, escondeu a face nas mãos e ajoelhou-se na rua, com os joelhos nus sobre o pavimento duro e sujo. Uma de nossas auxiliares deixou o grupo e ajoelhou-se ao lado da menina, orando com ela. Quanto a mim, continuei a pregar.
Era evidente que o poder do Espírito de Deus estava naquela reunião. Quando terminei a prega­ção e fiz o apelo, notei um viciado em narcóticos, na extremidade da multidão, em grande agonia es­piritual . Ele enfiou a mão no bolso da camisa, tirou vários pacotinhos, e atirou-os na rua, aos seus pés. Começou a gritar, sapateando nos pequenos envelo­pes brancos. “Maldito, pó imundo. Você arruinou a minha vida. Levou minha esposa embora. Matou meus filhos. Mandou minha alma para o inferno. Maldito! Maldito!”
Caiu de joelhos no chão, chorando e balan­çando-se para a frente e para trás, com o rosto nas mãos. Um de nossos obreiros correu para o lado dele. Dois dos nossos ex-viciados rodearam-no, um com a mão sobre a sua cabeça, e o outro ajoelhado, todos orando em voz alta enquanto ele gritava pe­dindo perdão.
Oito ou nove viciados em entorpecentes vieram à frente e ajoelharam-se na rua, diante do microfo­ne. Fui de um para o outro impondo as mãos em suas cabeças e orando por eles, completamente esquecido do barulho do trânsito intenso e dos olha­res dos transeuntes curiosos.
Depois do culto, demos uma palavra em parti­cular a cada um dos que haviam aceitado a Cristo, e falamos a respeito do Centro. Nós os convidamos para morar conosco, enquanto se livravam do vício. Sempre havia alguns que se dispunham a nos seguir imediatamente. Outros hesitavam e recusavam-se. Outros apareciam dentro de uma semana ou mais, e pediam para serem admitidos.
Quando a multidão se dissolveu, reunimos nosso equipamento e começamos a guardá-lo na Kombi. Um dos meninos que estivera dançando na rua, co­meçou a puxar a manga do meu paletó. Perguntei-lhe o que queria, e ele disse que o “dançador” queria falar comigo. Perguntei-lhe onde estava o homem, e ele apontou para um beco escuro, do outro lado da rua.
A noite já caíra, e eu não sentia vontade de entrar num beco escuro onde se escondia um louco. Disse ao garoto para avisar ao homem que eu teria prazer em conversar com ele — ali, debaixo das luzes da rua.
O garoto saiu correndo, e voltou dentro de ins­tantes. Já havíamos quase terminado de desmontar nosso equipamento. Ele balançou a cabeça e disse que o homem precisava conversar comigo, mas es­tava muito envergonhado para encontrar-me no claro.
Comecei a dizer ao garoto: “Nada feito”, mas, repentinamente, lembrei-me de Davi Wilkerson procurando-me no porão onde eu fora esconder-me, depois do primeiro culto ao ar livre. Lembrei-me de como ele entrou sem medo e disse: “Nicky, Jesus ama você”. Aquela coragem e compaixão me leva­ram a aceitar a Cristo como meu salvador.
Assim, olhando para o céu escuro, disse ao Se­nhor que, se ele queria que eu fosse conversar com aquele “dançador” selvagem, faria a sua vontade. Mas ia no seu Espírito, e não em minha própria força e poder, e estava esperando que ele fosse adiante de mim — principalmente por ser naquela ruela escura.
Atravessei a rua e parei na entrada do beco. Era como a entrada de um túmulo. Murmurei uma oração: “Senhor, espero que tenhas entrado aqui antes de mim”, e entrei. Apalpando as paredes de alvenaria, mergulhei na escuridão.
Ouvi então o som amortecido de alguém solu­çando. Avancei, e na penumbra pude ver o homem agachado no meio de algumas latas de lixo mal­cheirosas. Tinha a cabeça entre as pernas e o seu corpo era sacudido por soluços convulsivos. Apro­ximei-me e ajoelhei-me a seu lado. O cheiro rançoso das latas de lixo era insuportável. Mas havia ali um ser humano em desespero, e o desejo de ajudá-lo foi maior do que a podridão reinante no beco.
“Ajude-me. Por favor,  ajude me”, soluçava  ele. “Li a seu respeito no jornal.   Ouvi falar que você se converteu e foi para a Escola Bíblica. Por favor, ajude-me.”
Não podia crer que aquele era o mesmo homem que apenas alguns minutos antes estava dançando e cantando na rua, procurando atrapalhar nossa reunião. “Será que Deus me perdoa? Diga-me, será que eu me distanciei demais dele? Será que ele me perdoa?   Por favor, ajude-me.”
Disse-lhe que Deus o perdoaria. Eu sabia. Ele havia me perdoado. Fiz algumas perguntas a res­peito de sua vida. Contou-me sua história, enquan­to permanecia ajoelhado ali, em meio à sujeira do beco.
Há muito tempo atrás, ele sentira que Deus o estava chamando para o ministério. Deixara o em­prego e se matriculara em uma escola bíblica para estudar, preparando se para o serviço do Senhor. Voltando a Nova York, porém, encontrou uma mulher que o seduziu, afastando-o de sua esposa. Esta,   com   seus dois   filhos, implorou-lhe que não os abandonasse. Lembrou-lhe os votos feitos a Deus, e os votos do casamento, mas ele estava possesso de um demônio: deixou a esposa e foi morar com a outra mulher. Dois meses depois esta o deixou dizendo que estava cansada dele e que sua compa­nhia já não lhe agradava. Ficou desesperado, e caiu no vício, fumando maconha e tomando “bolinhas”. Perguntei-lhe que tipo de comprimido estava to­mando, e respondeu que eram “bombitas”, nembies, tuinal e seconal (barbitúricos). Sentia que estava ficando louco. “Eu estava tentando afastar você”, gemeu ele. “Foi por isto que agi daquela forma no meio da rua. Estava com medo. Medo de Deus e medo de enfrentá-lo. Quero voltar para Deus. Quero voltar para minha esposa e meus filhos, mas não sei como. Você pode orar por mim?” Levan­tou a cabeça, e vi seus olhos cheios de angústia e culpa, pedindo ajuda.
Ajudei-o  a levantar-se e saímos do beco, atra­vessamos a rua e entramos na Kombi.  Éramos seis. Ele sentou-se no banco do meio, com a cabeça en­costada nas costas do banco à sua frente.   Come­çamos a orar por ele, todos em voz alta.   Ele tam­bém começou a orar.  De repente, percebi que estava citando versículos da Bíblia. Do fundo da sua me­mória,  e do  seu treinamento no Instituto Bíblico, estavam-se derramando as palavras do Salmo 51 — o salmo que o Rei Davi pronunciou depois de ter cometido adultério com Bate-Seba, enviando o ma­rido dela para a frente de batalha.   Jamais sentira o poder de Deus tão próximo de mim, como quando aquele ex-ministro, que  se tinha tornado  servo de Satanás, recebeu o Espírito de Cristo e repetiu cho­rando a sua confissão, pedindo perdão nas palavras das Santas Escrituras:
“Compadece-te de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; e, segundo a multidão das tuas misericórdias, apaga as minhas trans­gressões .
Lava-me completamente da minha iniqüi­dade, e purifica-me do meu pecado.
Pois eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim.
Pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o que é mal perante os teus olhos, de maneira que serás tido por justo no teu falar, e puro no teu julgar.
Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe.
Eis que te comprazes na verdade no ínti­mo, e no recôndito me fazes conhecer a sa­bedoria.
Purifica-me com hissopo, e ficarei limpo; lava-me, e  ficarei mais  alvo que  a neve.
Faze-me ouvir júbilo e alegria, para que exultem os ossos que esmagaste.
Esconde o teu rosto dos meus pecados, e apaga todas as minhas iniqüidades.
Cria em mim, ó Deus, um coração puro, renova dentro de mim um espírito inabalável.
Não me repulses da tua presença, nem me retires o teu Santo Espírito.
Restitui-me a alegria da tua salvação, e sustenta-me com um espírito voluntário.
Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos, e os pecadores se converterão a ti.
Livra-me dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação, e a minha língua exaltará a tua justiça.”

Ele terminou a oração. A Kombi estava em silêncio. Então Glória levantou a voz — bela, suave — terminando as palavras do salmo:

“Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; cora­ção compungido e contrito não o desprezarás, ó Deus.”

Levantamo-nos todos. Ele enxugou o rosto com o lenço, e assoou o nariz. Nós outros também está­vamos fungando e limpando os olhos.
Virou-se então para mim: “Dei meu último cen­tavo para aqueles meninos malucos dançarem na rua. Será que você pode me dar vinte centavos para eu telefonar para minha esposa e pegar o me­trô?   Vou para casa.”
Tínhamos estabelecido a praxe de nunca dar di­nheiro a viciados em narcóticos ou bêbedos. Sabía­mos que quase sem exceção, o dinheiro seria gasto em entorpecentes ou bebida. Mas aquela era uma exceção. Enfiei a mão no bolso e tirei o meu último dólar. Ele pegou a nota, e atirou-se ao meu pes­coço, com o rosto ainda molhado de lágrimas. Depois, aproximou-se de cada um dos outros e tam­bém abraçou-os.
“Terão notícias minhas”, disse ele, “eu voltarei.”
E voltou mesmo. Dois dias depois. Levou sua esposa e os dois filhos ao Centro, para que os co­nhecêssemos. Sua fisionomia estava radiante; tinha um brilho que jamais poderia ser produzido por drogas ou comprimidos.   Era a luz do Senhor.