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segunda-feira, 9 de agosto de 2021

terça-feira, 8 de junho de 2021

A cruz e o punhal - capítulo 23


 Para a maioria dos moradores do Brooklyn, aquela manhã de 28 de agosto de 1961 era apenas mais uma límpida e quente manhã de verão. Mas para nós, no Centro Desafio Jovem, o dia parecia escuro.

Ao meio-dia deveríamos entregar aos ex-proprietários o che­que da prestação seguinte. Precisávamos de 15.000 dólares.

— Quanto dinheiro temos no banco? perguntei a Paul Di­Lena.

— Nem quero dizer.

— Quanto?

— Quatorze dólares.

Contara tanto com outro milagre! De alguma forma, eu sen­tia no coração a confiança de que não iríamos perder o Cen­tro; mas eis que chegávamos ao final do prazo estipulado, e não tínhamos o dinheiro.

Meio-dia chegou, e nada de milagre.

Comecei a fazer perguntas a mim mesmo sobre a minha confiança. Será que estava apenas tentando iludir a mim mes­mo? Será que esperara demais da parte de Deus, sem fazer alguma coisa, mesmo?

— Escute, disse eu a Júlio Fried, nosso advogado: Não vou me apresentar a eles sem um tostão. Será que você conseguiria um prorrogamento do prazo?

Júlio passou a tarde estudando documentos e assinando papéis e, quando terminou o trabalho, disse que havia conse­guido uma prorrogação.

— Concordaram em esperar até o dia 10 de setembro, David, mas se o dinheiro não estiver em suas mãos até esse prazo, tomarão as devidas providências. Você tem alguma idéia?

— Sim, respondi.

E ele ficou animado. Mas logo se desiludiu quando expli­quei qual era a minha idéia.

— Vou orar a respeito, disse.

Júlio estava acostumado ao sistema de oração do Centro, mas naquele momento, acho que ele gostaria de ter tido um diretor com mais senso prático.

Naquela mesma tarde, fiz uma coisa um tanto ousada. Reu­ni todos os jovens — membros de quadrilhas, viciados, estudan­tes, obreiros — e disse-lhes que o problema estava solucionado. Houve grande regozijo.

— Penso que devemos todos ir à capela agradecer a Deus, continuei.

Assim fizemos. Entramos, fechamos as portas, e começa­mos a agradecer e louvar a Deus por ter salvo a casa para o seu uso. Afinal, alguém perguntou:

— David, de onde veio o dinheiro?

— Não, ainda não veio.

Vinte e cinco jovens pasmados. Vinte e cinco sorrisos força­dos.

— Não chegou ainda, continuei. Mas antes do dia dez de setembro, o dinheiro estará em nossas mãos. Tenho certeza. Até a data marcada, terei um cheque de 15.000 dólares para mostrar-lhes. Mas pensei que deveríamos agradecer a Deus por antecipação.

Chegou o dia primeiro de setembro. Dia dois, três, quatro. Passei muito tempo ao telefone, procurando encontrar a solução do problema. Tudo indicava que era a vontade de Deus que continuássemos o nosso trabalho. Durante o verão, tivemos bastante êxito.

Nossos registros mostravam que 2.500 jo­vens de toda a cidade haviam tido um contato real com o amor — haviam entregado a vida a Cristo. Centenas de rapazes e moças haviam passado pelo Centro a caminho de novos empregos, novas ambições, novos ideais. Doze desses estavam se prepa­rando para o ministério.

— Tudo isso começou com aquele desenho na revista Life, disse eu a Gwen, certa noite, quando estávamos recordando o ano que se findava.

— Não é estranho que você nunca conseguiu ver aqueles rapazes do julgamento? disse Gwen.

Era mesmo estranho. Havia telefonado, escrito e batido em muitas portas durante quase quatro anos. Mas por razões que vão além da minha compreensão, não me foi permitido traba­lhar com os rapazes cuja tragédia me trouxera a Nova Iorque. O seu destino e o de Israel (Ex-presidente dos Mau Maus) per­manecia, pelo menos por enquanto, nas mãos do Estado. Tal­vez quando os rapazes saíssem da cadeia, eu poderia dizer-lhes da preocupação que sentia pelo futuro deles.

Havia um rapaz, entretanto, daqueles primeiros dias em Nova Iorque, com o qual ainda tinha contato — Ângelo Morales.

Certa manhã, Ângelo veio nos visitar. Juntos, recordamos aquele primeiro dia, quando nos encontramos na escada do prédio em que morava o pai de Luis Alvarez. E agora, o pró­prio Ângelo estava terminando o seu curso no seminário. Ele também iria trabalhar no Centro.

— Se ainda houver um Centro, Ângelo, disse eu, comparti­lhando com ele nossos problemas financeiros.

— Posso fazer alguma coisa? perguntou Ângelo.

— Sim, vá à capela com os outros, e ore. Enquanto vocês oram, nós estaremos no telefone.

Todos os membros da diretoria estavam ocupados dando telefonemas para os amigos do Centro. Recebemos auxílio, mas em quantidades pequenas que não resolveriam o problema dos 15.000 dólares.

Entre os telefonemas, um foi para o escritório de Clem Stone, em Chicago. Foi Harald Bredesen quem o fez, confessando que se sentia acanhado em fazê-lo. Clem já havia sido mais do que generoso com o Centro. Procurávamos mantê-lo sempre informado acerca do progresso de nosso trabalho, não apenas quando precisávamos de dinheiro; mas penso que quando Clem recebeu o telefonema vindo do Desafio Jovem, a sua reação natural foi colocar a mão sobre a carteira, protegendo-a.

Foi com o filho de Clem que Harald falou pelo telefone, no dia oito de setembro. Conversaram muito, e Harald contou o que já havia acontecido, e agradeceu à família Stone pela sua participação naquilo que já havia sido feito. Depois, não po­dendo rodear mais, finalmente chegou ao motivo principal do telefonema.

"Nós precisamos de 15.000 dólares até o dia dez, depois de amanhã", disse ele, e explicou por quê. "Não sei qual a sua posição no momento, e certamente não vou pedir uma respos­ta agora. Mas, converse com seu pai, diga-lhe muito obrigado pelo que ele já fez, e vamos ver o que acontece."

Chegou o dia dez de setembro.

O correio da manhã chegou. Abrimos as cartas ansiosamen­te, e recebemos muitos envelopes de jovens que mandavam seu dinheirinho.

"Obrigado, Senhor", disse eu. "Não poderíamos continuar sem estes trocados."

Mais nada.

Chegou a hora do culto da manhã. Estavam todos reunidos, e todos oravam e cantavam. Aqui e ali eu ouvia os jovens ainda agradecendo a Deus pelos 15.000 dólares.

Durante o culto, chamaram-me à porta. Era uma carta ex­pressa. Olhei o carimbo — Chicago, Illinois.

Abri o envelope, e dentro havia um cheque visado no valor de exatamente 15.000 dólares!

Eu nem podia falar, quando levei aquele pedaço de papel para a capela. Fiquei de pé diante da lareira que tinha aquele feixe de trigo esculpido em baixo-relevo. Sem dizer palavra, levantei a mão pedindo silêncio, e quando todos se calaram, Paul DiLena entregou o cheque ao rapaz que estava mais perto de mim.

"Quer mostrar aos outros, por favor?" disse Paul numa voz quase inaudível.

O cheque que Clem Stone agora tem no seu arquivo em Chicago, já compensado, conta a história da maravilhosa ope­ração de Deus entre os jovens de Nova Iorque. O cheque está endossado de forma correta, depositado corretamente, porém, mais do que isso. Se olharem bem para aquele cheque, verão que está manchado; posso dizer que está sujo, depois de ter passado pelas mãos de duas dúzias de jovens que aprenderam o que é crer. Sem dúvida, haverá sinais de algumas lágrimas também; lágrimas de gratidão a Deus, que age de maneira mis­teriosa para executar os seus milagres.

 EPÍLOGO

Esta história, é claro, está longe de ter chegado ao fim. Diariamente se escrevem novos capítulos na vida trans­formada de jovens, em toda Nova Iorque. Mas outro volume também está sendo escrito. Esse se refe­re a Chicago, e não a Nova Iorque. Um novíssimo Centro De­safio Jovem já existe, e está em franca operação naquela cida­de. Aprendendo dos nossos sucessos e erros, do nosso projeto-piloto aqui, o Centro de Chicago está progredindo.

Como o nosso Centro em Nova Iorque, terá despesas de aproximadamente 50.000 dólares durante o primeiro ano, possuindo saldos bancários de quatorze, quinze e dezesseis dólares. Quando fui a Chicago ajudar no início do Centro, podia ouvir ecos da pergunta de Paul DiLena:

"Onde está o dinheiro, onde estão os livros, quem é o res­ponsável?"

O Espírito Santo é o responsável.

Enquanto ele for o responsável, os programas progredirão. No instante em que tentarmos resolver as coisas pelo nosso próprio poder, fracassaremos.

Esse é o princípio de direção do Centro aqui em Nova Iorque; é o princípio que dirigirá o nosso Centro em Chicago e o que está para começar em Filadélfia, em Boston, Los Angeles e Toronto.

O Espírito Santo é o responsável.

Deveríamos escrever essas palavras nos umbrais de nossas casas. Mas como palavras não podem significar muito, fare­mos melhor; nós as escreveremos em nossa vida, e na vida de todos aqueles que pudermos alcançar e inspirar com o Espírito do Deus Vivo.

 FIM

A cruz e o punhal - capítulo 22


 Não chegamos à conclusão de que o batismo do Espírito Santo sempre liberta um rapaz. Pelo contrário, às vezes, acontecia o oposto — prendia-o. Esse tem sido simultaneamente um dos resultados mais animadores e mais desanimadores do nosso trabalho. A princípio, estávamos esperançosos, pensando que o batismo livraria os rapazes do domínio das drogas, sempre e definitivamente.

Tínhamos boas razões para essa esperança. Tão logo passamos a suspeitar de que havia uma relação entre o batismo e a capacidade de um rapaz de conseguir largar o vício, começamos a fazer um esforço todo especial, no sentido de levar os jovens à experiência.

De início, experimentamos, um tanto cautelosamente, num fumante de maconha. Luis era um dos rapazes que usava essa erva que vicia a mente, e não o corpo. Recebeu o batismo do Espírito Santo, e viu-se livre, completamente.

Animados, passamos para uma experiência mais difícil. O que aconteceria com um rapaz como Roberto, o qual havia sido viciado em heroína, que vicia não apenas a mente mas também o corpo? O que aconteceria com Roberto? Começamos a vigiá-lo, procurando sinais de ter voltado às drogas, mas todos os dias ele voltava ao Centro, com os olhos brilhando e o ânimo fortalecido.

"Acho que venci, David. Tenho uma ferramenta que posso usar — venho aqui com os outros rapazes para orar."

Vezes seguidas, vimos os mesmos resultados. Haroldo veio sob recomendação da polícia; estivera profundamente viciado durante três anos, mas depois do batismo disse que a tentação desaparecera. Joãozinho usara heroína por quatro anos, e con­seguiu deixá-la depois do batismo. Lico usara a agulha dois anos, e depois do batismo não só se livrou da droga, mas resolveu ingressar no ministério.

Vicente usara heroína por dois anos até o seu batismo, quando a deixou completamente. Rubens fora viciado por quatro anos; depois do batismo, recebeu forças para deixar o vício. Eduardo começara a usar heroína quando tinha doze anos; quinze anos mais tarde ainda usava a droga. Estava quase morto devido aos efeitos causados pelo seu uso constante. O batismo do Espírito Santo libertou-o do vício.

Fiquei tão animado que fui falar com autoridades médicas, para saber sob que base poderíamos fazer algumas afirmações ousadas.

— Nenhuma, disseram. Em Lexington não se considera um viciado curado, até que se passem cinco anos. Há quanto tem­po os seus rapazes estão livres?

— Não muito.

— Alguns dias?

— Não, questão de meses. Em alguns casos, mais de um ano.

— Bem, isso já é animador. Conte-me mais sobre esse batis­mo de que você fala.

No final da nossa conversa, avisaram-me novamente que é quase impossível ajudar um viciado, e que eu deveria esperar algumas decepções. E me disseram:

— O pior é que, quando um rapaz volta, atola-se no vício muito mais do que antes. Se ele tomava injeções duas vezes por dia, começa a usar três. Se tomava três, passa para cinco. A degeneração é muito mais rápida depois de uma queda.

Foi aí que um dos rapazes caiu, mesmo depois do batismo do Espírito Santo. Não conseguira aprender que viver no Espí­rito é tão importante quanto receber o Espírito.

Rafael fumara maconha por dois anos, e usara heroína du­rante três. Estava bem viciado. Já tentara centenas de vezes libertar-se do vício. Tentara deixar a quadrilha onde seus colegas o ajudavam a injetar o líquido nas veias.

Falhou todas as vezes. Só havia uma saída: Rafael pensou em tirar a própria vida, antes que tirasse a vida de alguém numa noite escura, quando estivesse louco por uma picada. Certa noite, dois anos atrás, Rafael subiu num telhado. Ficou na beiradinha, pronto para pular na rua. Estava apenas esperando até que o local ficasse livre.

Naquele momento, ouviu vozes cantando. O som vinha de uma das nossas igrejas "quadrilheiras", que se reunia numa casa bem em frente ao prédio onde Rafael estava. Parou para ouvir. "Rude cruz se erigiu..."

Rafael desceu do telhado. Ouviu o resto do hino e depois, vindo pelas escadas, atravessou a rua. Uma placa do lado de fora trazia um convite para entrar e ouvir a história de como Deus estava agindo nas ruas do Brooklyn, ajudando rapazes viciados e presos a quadrilhas.

Entrou e nunca mais foi o mesmo. Entregou sua vida a Cristo, e mais tarde recebeu o batismo do Espírito. Sentíamos muito orgulho de Rafael, e ainda sentimos. Deixou a agulha por mais de um ano. Mudou-se de Nova Iorque e foi para a Califórnia, onde conseguiu se manter livre.

Depois voltou para fazer-nos uma visita. Por alguns dias tudo correu bem, mas comecei a notar um certo desânimo apoderar-se dele todas as vezes que voltava ao lugar onde havia residido. Soube que seus velhos amigos o estavam tentando para tomar uma picada outra vez. Rafael estava sendo tentado.

Procuramos ficar em contato constante com ele, mas ele se esquivava. Então, Rafael caiu. Conseguiu a droga, foi para o quarto e enfiou a agulha nas veias.

Cinco vezes antes de receber o batismo do Espírito Santo, ele havia tentado deixar as drogas. A cada vez ficava tão desgostoso consigo mesmo que, depois da queda, começava a tomar mais do que anteriormente. Agora, depois de um ano, estava novamente usando a droga.

Mas, dessa vez, aconteceu uma coisa estranha. A aplicação não teve o efeito costumeiro. No dia seguinte, Rafael entrou no Centro sorrateiramente e quis falar comigo. Quando en­trou no meu escritório, fechou a porta, e eu percebi o que ele estivera fazendo. Depois de achar coragem para contar o que havia feito, disse:

"Está acontecendo uma coisa estranha. Depois de aplicar a injeção, foi como se não tivesse tomado nada. Não é nada do que eu sentia antes; senti alguma coisa tão diferente, que nem sei explicar. Subitamente tive vontade de correr à igreja mais próxima e orar. E foi isso que eu fiz, David. Mas, dessa vez, não senti nojo de mim mesmo — fui perdoado. Em vez de ir de mal a pior, a tentação desapareceu."

Os olhos de Rafael brilhavam enquanto dizia:

"Você sabe o que penso? Acho que estou preso, de verdade. Não pela heroína. Acho que estou preso pelo Espírito Santo. Ele está dentro de mim, e não vai me deixar fugir."

Rafael voltou para nós humilhado, perfeitamente cônscio de que o Espírito Santo o tornara propriedade especial de Cristo. Não conseguia fugir dele, mesmo tentando fazê-lo.

O mesmo aconteceu com Beto, que era viciado havia quin­ze anos. Ele caiu também por um certo tempo, mas descobriu ser impossível voltar à agulha.

Também Sílvio que, depois de cair uma vez, voltou com tanto ânimo e convicção a ponto de agora querer ingressar no seminário.

A que conclusão chegamos?

Certamente não podemos afirmar ter uma cura mágica para o vício de entorpecentes. O diabo que se esconde naquela agu­lha é tão poderoso que uma afirmação dessas seria tolice. O que podemos dizer, talvez, é que achamos um poder que pode dominar um rapaz mais fortemente do que o narcótico. Esse poder é o próprio Espírito Santo que, ao contrário dos narcó­ticos, faz algo de estranho para os rapazes — prende, para libertar.

Ainda estamos no início do que consideramos uma experiên­cia ousada. Temos muito a aprender sobre o que essa experiên­cia religiosa pode e não pode fazer nas vidas infelizes. Todos os dias descobrimos coisas novas. Diariamente aprendemos como ter mais êxito em nosso trabalho, e como aumentar a porcentagem de curas permanentes.

Uma das promessas de Cristo é que o seu Espírito nos guia­ria a toda a verdade. É nessa promessa que nos baseamos, sabendo que um dia ele nos levará a descobrir princípios que poderão ser usados não apenas por nós aqui na Avenida Clinton, mas em todo o país, onde quer que a solidão e o desespero tenham levado rapazes e moças a procurar escapar de seus problemas com uma seringa, uma agulha suja e um fogareiro de tampinha de cerveja.

Certo dia, eu e Linda estávamos no meu escritório conversando sobre esse assunto, imaginando onde poderíamos chegar com tudo isso. Mas senti que nenhum de nós quis mencionar o nome de uma certa pessoa — Maria.

"Será que Maria poderia receber o batismo?" perguntei subitamente.

Vi nos olhos de Linda a afirmação de que ela estivera pensando a mesma coisa. Concordamos que o problema de Maria era sobremaneira difícil, sendo já viciada há muitos anos.

Depois de sua última visita, eu e Linda achamos que ela estava se deteriorando fisicamente e que não teria muito tempo de vida, Não conseguia me esquecer dela, e quantas vezes, até dormindo, eu via aquelas olheiras escuras e profundas, as mãos fechadas, e os lábios trementes.

Resolvemos orar para que se desse um milagre na vida de Maria. Nós dois alimentávamos o sonho de levá-la ao batismo aqui no Centro, mas não aconteceu assim.

Certo dia, no fim do verão, recebemos um telefonema. Era de Maria. Estava na igreja do Reverendo Ortez.

— Reverendo Wilkerson! ela quase gritou no fone. Tenho uma boa notícia para lhe dar! Ontem à noite, aqui, eu recebi o Espírito Santo!

Suas palavras eram incoerentes pela emoção em que se achava, por isso pedi que ela chamasse o Reverendo Ortez ao aparelho.

Enquanto ele descrevia o acontecimento, eu podia quase ver a cena — Maria entrando no que antigamente fora uma casa particular, espremida entre apartamentos onde se realiza­vam muitas festas barulhentas; Maria passando por entre outros homens e mulheres de origem latina, até achar uma cadei­ra desocupada e dirigindo-se ao altar. Podia até ouvir sua voz, rouca como na última vez em que nos visitou — agora implo­rando ao Senhor que enviasse o seu Espírito para habitar nela. Podia vê-la cair de joelhos e sentir no coração grande esperan­ça, enquanto mãos carinhosas pousavam na sua cabeça. De­pois a língua suave, macia e melodiosa que ela não entendia, saindo dos próprios lábios, como selo e sinal de que a oração fora respondida.

O Reverendo Ortez estava jubilante.

— Esperamos muito tempo por isso, não? disse ele.

— Nem diga. É mais uma vitória.

Intimamente, porém, eu me sentia apreensivo. Sabia que Maria tinha uma grande fraqueza. Quando ficava zangada, voltava à droga. E o padrão seguido por muitos viciados, e eu havia visto acontecer com ela muitas vezes, vezes demais. Sen­ti que se uma vez apenas Maria pudesse vencer esse problema da ira, estaria bem. Não demorou para que Maria fosse prova­da.

Certa noite, Maria desceu do ônibus numa rua aparente­mente deserta em Manhattan, perto do seu antigo domínio. Ao dar uns passos, três moças puseram-se à sua frente, saindo das sombras.

— Olá, Maria.

Maria olhou bem e reconheceu as meninas — membros de sua antiga quadrilha. Cumprimentou-as calorosamente. Nas sombras, atrás delas, podia distinguir o vulto de um rapaz. Uma das meninas disse:

— Ei, Maria, ouvimos dizer que você não está mais usando H. Ouvimos também que você virou crente.

— Certo, respondeu Maria.

— Que beleza! Que coisa boa! Então se você não está gas­tando todo o seu dinheiro com dinamite, deve estar podre de rica. Será que você emprestaria um dinheirinho para as velhas amigas?

Maria sabia muito bem o que fariam com o dinheiro. Quantas vezes estivera num quarto escuro com estas mesmas moças, amarrando um cinto no braço e enfiando nas veias a agulha de uma seringa cheia de heroína.

— Sinto muito, disse ela. Para a finalidade que vocês que­rem, não.

Maria nem viu quando foi atacada. Um soco na barriga fez com que se dobrasse de dor. Seu primeiro instinto foi devolver a pancada, e Maria era bem conhecida na redondeza por sua valentia e força numa briga. Mas ela ficou em pé, com as mãos na cintura, e não se mexeu. Como naquele primeiro dia em que passara pelo teste para a presidência da gangue, ela acei­tou o castigo sem murmurar.

Mas que diferença heróica entre as duas ocasiões! Dessa vez, Maria estava orando!

Continuou orando enquanto lhe enfiavam uma faca nas costelas. Continuou a orar enquanto as três se abaixaram so­bre o seu corpo caído, arrancaram-lhe a bolsa das mãos e saí­ram rindo.

Depois de algum tempo, Maria levantou-se, devagar, na rua deserta. Conseguiu chegar em casa, onde João ajudou-a a tirar a roupa manchada de sangue. Juntos examinaram a ferida. A faca furara-lhe a carne perto das costelas.

O ferimento não era muito profundo, e João achou que não era sério. Ficou preocupado, porém, sobre quais seriam as emoções de Maria diante do acidente. O que aconteceria agora? Quantas vezes já presenciara sua mulher conseguir caminhar uma certa distância no caminho da recuperação, e de repente cair e voltar atrás, quando alguma coisa a irritava.

Mas, naquela noite, depois de medicar os ferimentos, Maria dormiu em paz como uma criança.

Fiquei muitíssimo impressionado com essa história. Depois da surra, Maria foi visitar-nos no Centro, onde entrou com os sinais das contusões ainda bem roxos.

— Reverendo, deram-me uma boa, mas eu fiquei orando, e no fim deu tudo certo. O Espírito Santo estava comigo.

Olhei para Linda, que estava tão surpresa quanto eu, pela transformação.

— É só disso que precisamos saber, disse eu em voz alta.

A última ocasião em que a vi, ela e sua família estavam de partida para Porto Rico. João parecia orgulhoso, ao seu lado. Os três filhinhos de Maria se agarravam acanhados à sua saia limpa e engomada; apegavam-se a uma pessoa em quem já podiam confiar. O cabelo dela estava artisticamente penteado, o laquê brilhando à luz do sol. Usava sapatos novos, e suas pernas (talvez um ministro não devesse fazer observações como essa) estavam bem depiladas. Além disso (uma observação mais apropriada), suas mãos se mostravam repousadas e graciosas.

Maria contou-nos que ela e sua família iriam para Porto Rico, com a finalidade especial de freqüentar uma escola que preparará o casal para trabalhar de tempo integral na igreja. Depois de findo o estudo, voltará a Nova Iorque, e esperamos que trabalhe conosco aqui no Centro.

Enquanto estava ali, olhando para a família que partia, re­peti seguidas vezes as palavras de Jesus: "E conhecereis a ver­dade, e a verdade vos libertará" (Jo 8.32).

A cruz e o punhal - capítulo 21


 O QUE É O BATISMO DO ESPÍRITO SANTO?

Logo depois que começamos a nos interessar pela atuação do Espírito Santo em ajudar um rapaz a livrar-se do vício de narcóticos, recebemos a visita de um padre jesuíta. Ele também queria saber mais sobre o batismo. Ouviu nossos jovens pregando num culto ao ar livre e ficou tão impressionado, que quis saber qual era o segredo.

Passamos uma tarde com o Padre Gary, no Centro, discutindo com ele o profundo significado do batismo. A primeira coisa que fizemos foi mostrar-lhe referências a essa experiência na Bíblia católica.

"O batismo do Espírito Santo não é uma experiência denominacional", disse eu. "Temos membros das igrejas episcopais, luteranas, batistas e metodistas trabalhando conosco, e todos eles foram cheios do Espírito Santo."

Esse batismo, em sua essência, dissemos ao Padre Gary, é uma experiência religiosa que dá poder. "Recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo", disse Jesus ao apresentar-se aos discípulos, depois da sua morte.

No meu escritório, o Padre Gary e eu estudamos a Bíblia.

A primeira referência a essa experiência especial vem logo no começo da história do evangelho. Os judeus queriam saber se João Batista era o Messias. Mas João respondeu: "Após mim vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de, curvando-me, desatar-lhe as correias das sandálias". Depois continuou, fazendo esta importante profecia: "Eu vos tenho batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espí­rito Santo" (Mc 1.7,8).

Desde o começo do cristianismo, portanto, esse batismo do Espírito Santo tem tido um significado especial, porque marca a diferença entre o trabalho de um homem, embora fosse au­dacioso e bem-sucedido, e a missão de Cristo — Jesus batizaria seus seguidores com o Espírito Santo. Em suas últimas horas na Terra, Jesus passou muito tempo falando com seus discípu­los sobre o Espírito Santo que viria depois da sua morte, e estaria ao lado deles, para confortá-los, guiá-los e dar-lhes aque­le poder que permitiria levarem a missão de Cristo à frente.

Depois de sua crucificação, também, ele apareceu-lhes e disse que não deixassem Jerusalém: "Determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, a qual, disse ele, de mim ouvistes. Porque João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias." (At 1.4-8)

Passamos então para o segundo capítulo de Atos, e eu disse ao padre Gary:

"Foi logo depois disso que os discípulos se reuniram em Jerusalém para a comemoração do Pentecostes. Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar; de repente, veio do céu um som, como de um vento impetuo­so, e encheu toda a casa onde estavam assentados. E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem." (At 2.1-4.)

"Essa experiência durante o Pentecostes deu a nós, pente­costais, o nosso nome. Damos muita importância ao batismo no Espírito Santo, como foi predito por João, prometido pelo Pai e experimentado durante o Pentecostes.

Tenho a certeza de que você já notou a grande mudança que se efetuou nos apóstolos depois dessa experiência. Antes, haviam sido homens tímidos e sem poder. Depois, receberam realmente o poder sobre o qual Cristo falara. Curaram doentes, expeliram demônios, ressuscitaram mortos. Os mesmos homens que fugiram e se esconderam durante a crucificação, saíram, depois dessa experiência, para enfrentar o mundo hostil com sua mensagem."

Depois, falei ao Padre Gary acerca do grande avivamento que varreu os Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e América do Sul, no começo do século XX. Como centro desse avivamento estava a mensagem de que o poder dado à igreja durante o Pentecostes, em grande parte, se havia tornado impotente, mas poderia voltar a atuar, mediante o batismo do Espírito Santo.

"O livro de Atos nos conta de cinco ocasiões em que diversas pessoas receberam essa experiência, e os pentecostais notaram que em quatro desses cinco casos, as pessoas batizadas, pelo Espírito Santo começaram a "falar em línguas"."

O Padre Gary quis saber o que era falar em línguas.

"É como falar em outra língua. Uma língua que a gente não entende."

Apontei então, um a um, os casos na Bíblia em que essa experiência vinha em seguida ao batismo do Espírito Santo.

— Os discípulos falaram em outras línguas no Pentecostes; Saulo ficou dominado pelo Espírito Santo, depois de sua conversão na estrada de Damasco, e conseqüentemente falou em línguas, dizendo mais tarde: "Dou graças a Deus, porque falo em outras línguas mais do que todos vós" (1 Co 14.18).

Os membros da família de Cornélio foram batizados, com o Espírito Santo e começaram a falar em línguas; os novos cristãos em Éfeso foram batizados da mesma forma, e também falaram em línguas. Mesmo na história do quinto batismo em Samaria, Simão, o mágico, viu algo tão extraordinário acontecer que quis obter esse poder para si, oferecendo dinheiro para que "Aquele sobre quem eu impuser as mãos, receba o Espírito Santo" (At 8.19).

Não lhe parece lógico, então, que a experiência presenciada pelo mágico seria o falar em línguas?

— Seria de se esperar, se foi isso que aconteceu em todos os outros batismos. E você, quando teve essa experiência?

— É tradicional em nossa família, por três gerações.

Conversamos um pouco, então, sobre o meu avô, a quem eu tanto admirava pela sua personalidade impetuosa. Ele ouviu essa mensagem pela primeira vez, em 1925, mas combateu-a por algum tempo em toda a ocasião possível.

— Certo dia, contei então ao padre, enquanto estava no púlpito pregando contra os pentecostais, ele mesmo começou a tremer, que é uma das coisas que freqüentemente acontecem quando as pessoas recebem esse poder. É algo que se sente como um choque, com a diferença que não é uma sensação desagradável. De qualquer maneira, ninguém ficou mais surpreso do que o meu avô mesmo, quando isso aconteceu com ele. Naquela hora, ele recebeu o batismo e começou a falar em línguas. Daquele dia em diante, ele pregou o Pentecostes onde e sempre que podia, porque viu pessoalmente o poder que dessa experiência advinha. Meu pai recebeu-o quando tinha vinte e cinco anos, e eu o recebi com apenas treze; essas três gera­ções pregam essa mensagem hoje.

O Padre Gary quis saber como era essa experiência.

— Por que não pergunta aos rapazes? sugeri.

Nós o convidamos para almoçar conosco, e enquanto co­míamos frango e salada, o Padre Gary ouviu de vários jovens o que haviam sentido quando foram batizados com o Espírito Santo.

A primeira foi uma menina de doze anos, chamada Neda. Nós a achamos em Coney Island, andando como se estivesse perdida. Linda Meisner ficou sabendo que sexo e álcool eram os motivos de sua revolta contra a família.

— Eu costumava beber muito, disse ela, também saía com qualquer rapaz que me olhasse "daquela maneira". Odiava meus pais, principalmente minha mãe. Linda me trouxe aqui para o Centro, e eu ficava lá na capela ouvindo os outros jovens con­tarem como Jesus os tinha ajudado quando eram tentados. Quando eu tinha algum problema, por exemplo, quando saía com algum rapaz, eu me desesperava e ficava desanimada. Mas esses viciados em drogas também tinham problemas, e piores do que os meus. Eles dizem: "Ainda somos tentados, mas quando somos, corremos para a capela e oramos".

— Chegando lá, se ajoelhavam e, finda a oração, levantavam-se e a tentação havia desaparecido. Por isso eu comecei a querer a mesma coisa. Fui à capela um dia, sozinha, para orar. Comecei contando a Deus todos os meus problemas e pedi-lhe que tomasse conta da minha vida, como havia feito com esses viciados. Como um relâmpago, Jesus tomou conta do meu coração. Alguma coisa controlou a minha língua. Senti como se estivesse sentada à margem de um rio que, de alguma forma, passava por dentro de mim e saía borbulhando da minha boca numa linguagem musical. Foi depois disso que um dos obreiros me mostrou no livro de Atos, o que significava tudo aquilo. Foi a coisa mais extraordinária que já aconteceu na minha vida.

O Padre Gary ficou ali ouvindo, acenando com a cabeça e, às vezes, dizendo "Sim, sim", em reconhecimento ao que ela estava dizendo.

O rapaz seguinte, em especial, conseguiu essa reação do Padre Gary.

— Em primeiro lugar, disse ele, eu sei que isso é real. Sabe por quê? Porque depois, Jesus Cristo parecia sair da Bíblia Tornou-se uma pessoa real e presente, que queria ficar ao meu lado em todos os meus problemas.

— Sim, é maravilhoso! disse o Padre Gary.

Um rapaz chamado José contou:

— Ele me ajudou a largar as drogas: eu usava bolinhas e fumava maconha, e já começava a tomar heroína no músculo Eu já tinha o vício mental e precisava, mesmo, fazer isso. Quando ouvi falar de Jesus, fiquei até chocado em saber que ele amava as pessoas, apesar dos seus pecados. Fiquei emocionado quando soube que Jesus cumpre suas promessas, entrando em nós através desse batismo do Espírito Santo; que é chamado também de o Consolador, disseram-me. Quando eu pensava em consolo, imaginava logo um frasco de vinho e algumas bolinhas. Mas esses rapazes falavam de um conforto do Céu que me faria sentir-me limpo, depois.

— Assim, comecei a desejar isso, como Neda. Na capela, disse ele, voltando a cabeça em direção à porta da capela, clamei a Deus pedindo ajuda, e foi então que ele se manifestou. Ele to­mou posse de meus lábios e da minha língua, e inesperadamen­te, vi-me a falar uma nova linguagem. A princípio, eu pensei que estivesse louco, mas, de repente, tive a certeza de que não podia ser, porque algo mais estava acontecendo; eu não me sentia mais solitário; percebi que não tinha mais necessidade de drogas; amava todo mundo; pela primeira vez em minha vida, eu me sentia limpo.

E assim os jovens, um a um, contaram o que havia aconteci­do na sua própria vida. Estavam tão animados que era preciso alguém obrigá-los a falar um de cada vez.

Quando o Padre Gary saiu, uma hora mais tarde, ainda estava dizendo: "Sim, sim!" Disse que desejava conversar sobre o assunto com alguns dos seus amigos da Universidade Fordham.

Gostaria que ele tivesse ficado mais um pouco, porque naquela mesma noite outro ra­paz recebeu o batismo, e ele poderia ter visto por si mesmo.

O nome desse rapaz era Roberto. Tinha dezesseis anos; havia dois anos tomava heroína, e fumara maconha antes. Estivera na cadeia quatro vezes, uma delas por esfaquear outro rapaz numa briga de rua. O esfaqueado não morreu, mas Roberto carregava consigo um temor de que um dia mataria alguém.

Diferente­mente de muitos dos rapazes que vinham ao Centro, Roberto tinha pais que o amavam e tentavam ajudá-lo. Haviam procura­do em todos os lugares algo que consertasse Roberto, mas, a cada tentativa, sua caminhada para baixo apenas se acelerava.

Naquela tarde, encontrei-me com Roberto na capela. Senti, observando sua atitude irrequieta, que ele estava prestes a sair para uma picada. Ele me disse:

— David, estou com um problema, enquanto nervosamente trançava e destrançava os dedos.

Quando um viciado afirma que está com um problema, ele quer dizer que precisa arranjar droga e aplicá-la depressa. Co­mecei a falar a Roberto novamente sobre o batismo do Espírito Santo.

— Nicky irá falar sobre isso esta noite. Venha e deixe que o Espírito domine você também.

— Não sei, David. Preciso tomar um pouco de ar. Não estou me sentindo muito bem.

Tive de deixá-lo sair, e confesso francamente que não espe­rava vê-lo de volta; mas quando cheguei à noite ele já estava na capela. Percebi, pela sua atitude, que havia conseguido chegai até ali sem tomar a sua picada.

Sentei-me perto dele e observei-o atentamente, enquanto alguns dos nossos ex-membros de quadrilhas e viciados levantavam-se, e em linguagem simples contavam das coisas maravilhosas que haviam acontecido na vida deles. Nicky então falou da necessidade que cada viciado tem de receber o Espírito Santo, se quiser alcançar a vitória.

"Se vocês querem poder na vida... se estiverem no vício, e realmente quiserem deixá-lo, então prestem bem atenção. O Espírito Santo é o remédio para vocês. Depois de o receberem, receberão também dez presentes especiais com os quais pode­rão contar. Vamos falar disso agora, e, se tiverem lápis e papel, poderão anotar as referências bíblicas que mostram onde achei esses dez dons.

"Primeiramente, você tem poder. Isso se acha escrito em Atos 1.8. "Recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo".

"Em segundo lugar, você terá um Consolador — João 14:26. Um Consolador não é alguém que oferece conforto na vida, mas alguém que estará ao seu lado, para dar-lhe força.

"Terceiro, você terá proteção. Leia em Atos 16.6, como o Espírito Santo impediu que os apóstolos dessem um passo que teria sido trágico para eles. Ele o guiará da mesma forma.

"Agora uma coisa importante: Você não será mais perse­guido pela mentalidade da carne, mas terá valores espirituais Leia Efésios 2.3-6.

"Você terá vida. Agora você está andando para a morte, mas com o Espírito Santo, lemos em 2 Coríntios 3.5,6, você terá nova vida.

"Você estará vivendo com o Espírito da Verdade. A agulha lhe apresenta uma promessa que nunca é cumprida. Você nun­ca consegue se libertar numa sessão de picadas; fica ainda em pior situação. João 16.13 diz que você terá a Verdade.

"O acesso ao Pai será seu. Leia Efésios 2.18.

"E os três finais: Você terá esperança. Quantos têm esperança agora? Poucos, não é? Mas você terá esperança, diz Ro­manos 15.13.

"E o ponto culminante disso tudo se acha em 2 Coríntios 3.17. Vocês, vocês, rapazes, poderão ter liberdade!

"E como acontece isso? Através de uma experiência dra­mática, repentina e dominante. Leiam sozinhos Atos 10.44."

Nicky então fez uma pausa. Abaixou bem o tom de voz:

"É isso que está à sua espera nessa nova vida. Mas esta noite, penso que nós não queremos ler a respeito dessa experi­ência, nem falar a respeito dela, mas experimentá-la! Se você quiser essa mudança e esse poder na sua vida, juntamente com esperança e liberdade, levante-se e venha à frente. Vou pôr a mão na sua cabeça como Paulo fazia, e vai acontecer com você a mesma coisa que aconteceu com os cristãos daquela época. Você vai receber o Espírito Santo!"

Roberto deu-me uma olhada e levantou-se depressa. Meu coração levantou-se com ele.

— Desejo tudo o que Deus tem para mim, disse ele. Quero resolver o meu problema de uma vez, e nunca mais voltar atrás.

Roberto correu para a frente da capela. Pegou as mãos de Nicky, pondo-as na sua própria cabeça. Quase que imediata­mente aconteceu a esse rapaz a mesma coisa que havia aconte­cido ao meu avô; começou a tremer como se correntes elétri­cas passassem por ele. Ajoelhou-se, e os outros rapazes ao seu redor começaram a orar.

Foi tudo como se estivéssemos revivendo uma cena do livro dos Atos. Em menos de dois minutos, uma nova língua estava saindo dos lábios de Roberto. Jorrou como fonte borbulhante, numa terra seca. Naturalmente todos se regozijavam. Todos os outros viciados se agruparam ao lado de Nicky e Roberto di­zendo:

— Ele vai vencer.

Nicky repetia vez após vez:

— Obrigado, Senhor. Obrigado por ajudar esses rapazes. Logo outros começaram a falar junto com ele.

— Obrigado, Senhor. Obrigado por ajudar esses rapazes.

— Obrigado. Obrigado. Obrigado, Senhor.

A cruz e o punhal - capítulo 20


 O enorme poder que as drogas têm sobre o corpo hu­mano não se explica apenas em termos físicos. Meu avô dizia que o diabo se apodera desses jovens, e eu acho que ele estava certo. Os próprios rapazes dizem o mes­mo, só que de maneira diferente.

"David", disseram-me vários deles, "há dois hábitos que precisam ser quebrados, se você é viciado. O hábito do cor­po e o da mente. O do corpo não é problema assim tão gran­de; você apenas passa pelo inferno durante três dias, agüen­ta sofrimento um pouco menor durante um mês, depois está livre.

"Mas o hábito mental, David... isto é que é terrível! Há qualquer coisa dentro da gente que obriga a voltar. Parece uma voz de fantasma, falando com a gente. Temos nomes para esse camarada: ou é um macaco nas costas, ou um abutre nas veias. Não conseguimos nos livrar dele, David. Mas você é pregador. Quem sabe esse Espírito Santo, de quem você tanto fala, quem sabe ele pode ajudar?"

Não sei por que demorei tanto a reconhecer que essa era a direção que deveríamos seguir. Essa idéia foi como uma evolução; começando com um fracasso, e terminando com uma descoberta maravilhosa.

O fracasso foi um rapaz chamado José. Nunca me esqueci dos quatro dias traumáticos que passei ao seu lado, tentando ajudá-lo durante as dores que sentia, quando tentava se livrar do vício da heroína.

José era um rapaz simpático. Alto, loiro, já havia sido bom atleta, e não se viciara da maneira habitual.

— Suponho que os remédios que me deram contra dor foram necessários, disse José no escritório do Centro. Sei que quando precisava deles ficava contente com o alívio que traziam. Mas veja o que aconteceu depois. Nunca consegui me livrar.

José contou-me a sua história. Trabalhava para uma companhia de carvão. Certo dia caiu numa das máquinas, o que o levou ao hospital por vários meses, durante os quais sentia muita dor. Para aliviar um pouco a sua agonia, o médico receitou um narcótico. Antes de deixar o hospital, José estava viciado.

— Não podia comprar a droga, continuou ele, mas descobri que havia um xarope que continha também um narcótico. Então eu andava por toda a cidade para comprá-lo. Era preciso ir a diversas farmácias e usar também nome diferente, mas nunca tive dificuldade, e conseguia quanto queria. Comprava-o, entrava no primeiro banheiro que encontrava, e bebia o vidro todo de uma vez.

Depois de algum tempo, contudo, isso não satisfazia mais a necessidade crescente que José sentia de drogas. Ficou sabendo que alguns dos seus colegas de escola estavam usando hero­ína, e entrou em contato com eles. Dali para frente seguiu o mesmo caminho dos outros. Primeiro fumo, depois injeções no músculo e, finalmente, injeções na própria veia. Quando José veio à nossa procura, já tomava heroína havia oito meses, e estava profundamente viciado.

— Você pode ficar aqui no Centro uns três ou quatro dias? perguntei.

— Ninguém mais me quer.

— Você pode ficar lá em cima com os obreiros. José concordou.

— Não será fácil; você sabe. Será um "peru-frio"!

José sacudiu os ombros.

"Peru-frio" — o método instantâneo para deixar os alucinó­genos — é o sistema empregado nas cadeias para fazer um rapaz deixar as drogas. Nós o usávamos porque não tínhamos esco­lha; não poderíamos aplicar as drogas usadas nos hospitais. Preferimos esse método, também, pelos seus próprios méritos. Nos hospitais, com seu sistema mais suave, levam três sema­nas; com esse, apenas três dias. A dor é mais intensa, mas tam­bém passa mais rapidamente.

Assim trouxemos José ao Centro, e arranjamos um quarto para ele junto com os obreiros. Fiquei contente por termos uma enfermeira formada morando na casa. O quarto de Bár­bara Culver ficava bem embaixo do de José. Desse modo ela ficou de sobreaviso durante todo o tempo em que ele esteve conosco. Também um médico ficou de prontidão, caso José viesse a precisar dele.

Logo que ele se acomodou, eu lhe disse:

— José, deste momento em diante você abandonou a droga. Posso prometer-lhe que não ficará sozinho um minuto sequer. Quando não estivermos com você pessoalmente, estaremos orando por você.

Não iríamos privar o rapaz das drogas e deixá-lo sofrer so­zinho. Durante quatro dias haveria uma intensa campanha de oração por ele. Dia e noite intercederíamos a seu favor, en­quanto outros estariam ao seu lado lendo porções das Escritu­ras.

Uma das primeiras coisas que tivemos de fazer com José foi acalmar sua expectativa de dor. O processo em si mesmo já era horrível, sem o sofrimento adicional de se esperar passar pelo inferno. Perguntei-lhe de onde tirara a idéia de que seria muito difícil.

— Bem... sabe... todos dizem...

— Isso mesmo. Todos dizem que é duro; então você fica aí suando só de pensar no que o espera. Quem sabe não será tão difícil assim?

Contei-lhe então o caso de um rapaz que conheci que usara maconha e heroína e parou de uma vez, sem nenhum dos sintomas costumeiros. Confessei que era um caso raro, e que de fato ele deveria estar preparado para enfrentar o pior, mas não havia razão de torná-lo pior ainda. Trabalhamos muito para ajudá-lo a separar os sintomas reais, dos sintomas psicológicos que vêm da preocupação.

Depois, ensinamos o Salmo 31 a José. É realmente um Salmo maravilhoso, ao qual demos o nome de Cântico do Viciado. Há certos versículos, em particular, feitos para condições como a dele.

"Tirar-me-ás do laço que, às ocultas, me armaram, pois tu és a minha fortaleza. Compadece-te de mim, Senhor, porque me sinto atribulado; de tristeza os meus olhos se consomem, e a minha alma e o meu corpo. Gasta-se a minha vida na triste­za, e os meus anos, em gemidos; debilita-se a minha força, por causa da minha iniqüidade, e os meus ossos se consomem. Tor­nei-me opróbrio para todos os meus adversários, espanto para os meus vizinhos e horror para os meus conhecidos; os que me vêem na rua fogem de mim. Estou esquecido no coração deles, como morto; sou como vaso quebrado." (Vv. 4,9-12.)

 Logo que as dores da privação se manifestaram, José ficou no seu quartinho, banhado em suor. Bárbara mantinha-se a par de sua condição. Como era horrível entrar naquele quartinho! José deitado na cama segurava o estômago, enquanto as dores o atacavam uma após a outra.

Seu corpo estava vermelho, e o suor corria, deixando a cama ensopada. Gritava de dor e batia na cabeça. Pedia água, depois vomitava. Suplicava para que eu o ajudasse, e a única coisa que eu podia fazer era segurar sua mão e garantir-lhe o nosso interesse.

À noite, colocamos, perto da cama do José, um gravador que repetia textos bíblicos. Eu fiquei no Centro durante aque­les dias. Várias vezes no silêncio da noite, ia até a capela para ter a certeza de que sempre havia alguém lá, depois subia ao quartinho de José.

O gravador repetia, suavemente, porções bíblicas para o rapaz, que se debatia na cama, num sono agitado. Durante aqueles três dias e noites, nem por um minuto o tormento cessou. Era terrível observá-lo.

No quarto dia, José parecia estar melhor. Andou pelo Centro, sorrindo francamente, e dizendo que o pior já deveria ter passado. Todos nos regozijamos com ele. Quando José disse que queria voltar para casa para ver seus pais, eu tive dúvidas, mas nada poderíamos fazer para detê-lo, se ele queria partir.

Assim, sorrindo e agradecendo-nos, José saiu pela porta da frente, e desceu pela Avenida Clinton.

Chegou a hora em que ele deveria voltar, mas nada do José. Soubemos, no dia seguinte, que ele havia sido preso por roubo e posse de narcóticos.

Essa foi a nossa falha.

— O que fizemos de errado? perguntei aos obreiros, numa reunião. O rapaz venceu o pior. Foi até o fim dos três piores dias que teria de passar. Só tinha a ganhar com tudo isso, no entanto jogou tudo fora.

— Por que não conversa com os rapazes que tiveram êxito em deixar a droga? Quem sabe eles terão uma resposta, disse Howard Culver.

Havia vários. Chamei-os um a um para ouvir sua história de libertação. Todos falaram de uma experiência comum.

Falei com Nicky, que usara bolinhas e fumara maconha. Perguntei-lhe quando sentiu que tinha alcançado o domínio sobre a vida antiga. Algo maravilhoso acontecera quando se convertera, disse ele. Naquele dia deparara com o amor de Deus. No entanto foi mais tarde que teve completa vitória.

— E quando foi isso, Nicky?

— Quando fui batizado com o Espírito Santo.

Chamei David, e lhe fiz a mesma pergunta. Quando sentira que dominara a si mesmo?

— Ah! isso é fácil de responder, disse-me ele. Foi quando recebi o batismo com o Espírito Santo.

Vezes seguidas ouvi a mesma resposta. Não posso descrever como fiquei animado. Parecia estar surgindo um padrão. Senti que estava no limiar de algo maravilhoso.

A cruz e o punhal - capítulo 19


 Ao nos aproximarmos da crise financeira, resolvi que de alguma forma haveria de arranjar o dinheiro, porque nos deparamos com outro desafio, num plano diferente dos que já havíamos enfrentado antes.

Certa tarde Maria telefonou-me, dizendo que queria falar comigo.

— É claro, Maria. Pode vir. Você tem o nosso endereço.

Chamei Linda e falei-lhe sobre Maria.

— É uma pessoa que você deve conhecer, disse-lhe eu. Tem um enorme potencial. Se pudéssemos canalizar a sua energia na direção certa! Ela é corajosa; mas com a coragem de quadrilha. Quando se tornou presidente da sua quadrilha, teve de ficar de pé com as costas contra a parede, e deixar que os outros jovens batessem nela, como quisessem. É uma organizadora brilhante; mas usou esse talento para aumentar a sua quadrilha, que constava de mais de trezentas meninas.

— Mas eu tenho a impressão de que não é por causa das quadrilhas que ela vem; penso que deve estar tomando heroína outra vez.

Contei então a Linda a batalha que Maria vinha travando com a droga. Disse-lhe que já estava viciada quando a encon­trara pela primeira vez, havia mais de quatro anos. Contei-lhe como abandonara o vício, depois de vir à frente na Arena São Nicolau; como casara, e tudo parecia correr bem por algum tempo. Maria deixou a quadrilha, João arranjou emprego e começaram a nascer as crianças.

Mas um dia Maria e João brigaram. A primeira coisa que ela fez foi entrar em contato com um traficante e começar a tomar a droga novamente. Depois de algum tempo ela a havia deixado por um longo período, mas eu tinha certeza de que voltara novamente.

Enquanto conversava com Linda, a secretária avisou que Maria estava à nossa espera. Que mudança trágica se efetuara nela desde a última vez que a vira! Linda e eu levantamo-nos quando ela entrou. Foi uma reação estranha, mais ou menos o que se sente quando se está na presença da morte.

Os olhos de Maria estavam vidrados. O nariz sujo, a pele áspera e gordurosa. O cabelo empastado e despenteado. O sa­pato completamente gasto de um lado; ela não estava de meias, e suas pernas estavam cobertas de pêlo escuro.

Mas o que mais me impressionou em Maria foram as suas mãos. Não caíam graciosamente ao seu lado, antes estavam fechadas, e um pouco levantadas. Ela as abria e fechava cons­tantemente, como se estivesse pronta a atacar ante a mínima provocação.

— Reverendo Wilkerson, disse ela, acho que não é preciso dizer-lhe que preciso de ajuda.

— Entre, Maria, disse eu. Puxamos uma cadeira para ela.

— Sente-se, disse Linda. Vou buscar uma xícara de chá para você.

Pobre Linda, ela não sabia que uma "rodada de chá" era gíria dos viciados em heroína, para indicar uma sessão de "picadas". Ela deve ter ficado surpreendida com a brusca reação de Maria.

— Não, disse ela, não quero nada!   E sentou-se.

— Como vão as crianças?

— Como vou saber?

— Você abandonou o João?

— Nós brigamos.

Olhei para Linda.

— Eu já falei com Linda a seu respeito, Maria. Contei-lhe tudo; o que há de bom e ruim. Quero que você a conheça melhor. Ela está trabalhando com muitas garotas na cidade. Escolhi-a porque ela é compreensiva. Você também vai gostar dela.

Maria e Linda conversaram. Depois Linda veio até o meu escritório, preocupada por não ter conseguido alcançá-la de forma nenhuma.

— São essas drogas, David, disse ela. Que veneno diabolicamente inspirado! É morte a prestações.

Poucos dias depois, as coisas pioraram. Maria telefonou para Linda, suplicando ajuda. Disse que estava prestes a meter-se em uma encrenca muito grande e não sabia como controlar-se. Acabara de tomar a terceira injeção de heroína e beber uma garrafa de uísque. Ela e sua antiga quadrilha estavam de saída para lutar com uma quadrilha rival.

— Vamos matar uma mocinha chamada Diva, disse Maria Você precisa impedir-nos de fazer isso.

Linda e duas companheiras correram até a Rua 134, em Manhattan. Entraram correndo no local onde estava reunida a quadrilha. Ficaram lá mais de uma hora, mas antes de saírem, a briga havia sido suspensa.

— David, disse Linda quando voltou, isso é horrível. Simplesmente temos de fazer alguma coisa por essas meninas.

O que é vício de entorpecentes?

Demorei quatro anos para fazer uma idéia correta da grande ameaça que se esconde atrás da simples palavra "narcóticos". O quadro é realmente assustador.

De acordo com estatísticas oficiais, há mais de 30.000 viciados só na cidade de Nova Iorque, e essas estatísticas se baseiam apenas nos registros daqueles que são hospitalizados, presos ou internados em alguma instituição. Milhares de pessoas estão se viciando devagar, fumando um "pacau", experimentan­do uma "picada" de heroína. Milhares de homens, mulheres e crianças, condenados àquilo que Linda descreveu tão apropri­adamente como sendo "morte a prestações".

Entre os viciados há um número suficiente de adolescentes para povoar uma cidade pequena; no mínimo quatro mil! Ain­da mais significante e assustador, é o fato de que a porcenta­gem de adolescentes viciados está aumentando.

E isso, natu­ralmente, levando em conta que cada ano, centenas de vicia­dos deixam a categoria de adolescentes pelo processo simples do passar do tempo. Para compreender a ameaça e o desafio desse vício entre os nossos jovens, foi preciso que eu primeiro buscasse uma compreensão dos lucros fantásticos que a venda de narcóticos dá aos traficantes.

A droga mais usada em Nova Iorque é a heroína, um deri­vado do ópio. Um quilo de heroína pode ser comprado em Beirute, no Líbano, por três mil dólares.

Contrabandeado des­se país, vendido, revendido e dividido, o quilo será vendido, nas ruas da cidade, por 300.000 dólares!

Em tempos de escas­sez do produto, o mesmo investimento de 3.000 dólares pode­rá render um milhão! Qualquer comércio que tenha lucros como esse (livre de impostos), certamente prosperará.

Alie aos lucros o fato de ser quase impossível evitar o tráfi­co, e aí temos o quadro do comércio de narcóticos em Nova Iorque.

Um grupo de doze homens leva a maior parte de um dia para revistar um navio, à procura de narcóticos. Chegam anualmente ao porto de Nova Iorque, vindos de outras terras, 12.500 navios, juntamente com 18.000 aviões. Para controlar esses trinta mil transportadores, a Alfândega de Nova Iorque tem apenas 265 homens.

O resultado é que um homem que não é conhecido como vendedor pode entrar na cidade quase que livre de risco, carregando enormes quantidade de heroína, em saquinhos de seda costurados à roupa.

E como esses vendedores acham mercado? Aqui está a his­tória:

  Os jornais noticiaram em letras garrafais, há pouco tempo, que os traficantes estavam agindo às portas de um dos colégios da cidade. Para o departamento de educação de Nova Iorque, isso não era novidade. Eles sabiam muito bem que a maioria dos viciados experimenta narcótico, pela primeira vez, nas imediações de uma escola.

Os alunos do Ginásio 44, do Brooklyn, foram recentemente privados do privilégio de sair do colégio durante o recreio. Os responsáveis sentiam que era necessária essa medida para a proteção das crianças, por causa da audácia dos traficantes na vizinhança. Eles esperavam bem à porta do colégio, e em algumas ocasiões chegaram a entrar no pátio!

Esses traficantes oferecem amostras grátis da sua mercadoria. Um certo rapaz (José), a quem fiquei conhecendo muito bem, contou-me como isso funciona.

"Um traficante convida você para dar uma voltinha no seu carro, provavelmente com um ou dois colegas da sua classe que já fumam maconha. "A maconha não faz mal", dizem. Depois continuam dizendo que a maconha não vicia, o que na realidade é verdade — mas a maconha leva a outras drogas que viciam. O traficante então oferece um "pacau", e se a gente hesitar, os outros rapazes começam a rir e a chamar-nos de covarde, até que afinal a gente cede e aceita um dos seus cigarros. Foi assim que eu comecei."

A história de José é um exemplo típico. A criança dá uma fumadinha no banco de trás do carro de algum traficante. Aprende que não se traga a maconha como se faz com um cigarro comum; cheira-se a fumaça até ficar meio tonto.

Naquele primeiro dia, quando o rapaz volta para a escola, seus problemas diários não mais o preocupam. A maioria dos viciados são frustrados, revoltados, solitários, e muitas vezes são filhos de pais separados. Ante a primeira amostra da erva maravilhosa, o rapaz acha que descobriu como seria a felicidade permanente. Esquece-se do pai alcoólatra, e da mãe que nunca está em casa, não se preocupa com a falta de amor em sua vida, nem com a pobreza extrema que o obriga a dormir na mesma cama com duas irmãs, e no mesmo quarto dos pais. Esquece-se de tudo isso. Sente-se livre, o que para ele não significa pouco.

No dia seguinte, o simpático traficante está por ali para oferecer outra amostra do céu. Quando o rapaz está pronto, é apresentado a algo mais forte — a heroína — seguindo-se o mes­mo processo anterior.

O traficante oferece a droga como pre­sente um dia, dois dias, satisfeito em aplicar assim o seu di­nheiro, porque sabe que apenas quinze dias de uso contínuo da heroína, são suficientes para produzir mais um viciado!

E agora vem a parte mais vil da história. A heroína custa de três a quinze dólares por aplicação. Vem numa embalagem de papel celofane, em quantidade suficiente para uma injeção endovenosa. Certa vez, durante um período de escassez de heroína, uma jovem de vinte e um anos me disse:

"David, eu preciso de sessenta dólares por dia para manter o meu vício. Sei de viciados que gastam cem dólares por dia." O normal, entretanto, é uma média de vinte e cinco a trinta dólares por dia. Onde é que um jovem que recebe vinte e cinco centavos de seus pais para comprar lanche, pode arranjar vinte e cinco dólares?

É possível que ele se volte para o crime. Um dos maiores problemas de Nova Iorque são os crimes cometidos por ado­lescentes — roubos de carteiras, furtos em lojas, em casas, assal­tos à mão armada, furtos de carros — e a polícia diz que a razão é o vício de entorpecentes. Contudo, o rapaz só recebe um terço do valor do seu furto, ao vendê-lo aos receptadores de objetos roubados. Assim, para financiar um vício de vinte e cinco dólares por dia, ele tem de roubar setenta e cinco.

O diretor do departamento de narcóticos em Nova Iorque, Ins­petor Eduardo Carey, calcula que os entorpecentes são a causa de 200.000.000 de dólares em roubos por ano, apenas nessa cidade. O roubo, entretanto, não é a solução ideal para um jovem que se vicia. E preciso muito esforço e inteligência, além do grande risco que corre. Muito mais simples é tornar-se tra­ficante.

Um rapaz chamado Carlos contou-me certa noite, enquanto estávamos numa esquina escura, como isso aconteceu com ele. Ele tem dezoito anos e já é viciado há três anos. Quando reconheceu que esse vício iria custar-lhe quinze dólares por dia, depois vinte, depois vinte e cinco dólares, foi ao seu ven­dedor e ofereceu-se para ajudá-lo a vender.

"Ah! não, seu moço. Se você quiser vender, terá de descobrir os seus próprios fregueses."

E nessa frase está a razão da grande disseminação desse vício.

Carlos, então, para poder comprar para si mesmo, começou a vender para rapazes mais novos, usando a mesma técnica que fora aplicada nele. Dizia que o seu vício "valia o trabalho que dava". Escolhia os jovens mais sensíveis, revoltados e introvertidos, para pressionar. Chamava-os de "covardes" quando se recusavam a experimentar maconha, até que finalmente conseguiu uma clientela. A essa corrente sempre crescente do vício foram acrescentados, não um, mas dez rapazes.

Perguntei a alguns desses moços:

"Por que vocês não param simplesmente?"

Suponhamos que um rapaz resolvesse fazer isso mesmo. Cerca de duas horas depois de terminado o efeito da última picada, o rapaz começa a se sentir mal. Primeiro, sente uma ânsia que domina todo o seu corpo. Em seguida, começa a transpirar, treme de frio, enquanto a temperatura do corpo se eleva mais e mais. Começa a vomitar com ânsias horas a fio. Seus nervos tremem com dores excruciantes, da ponta dos pés até ao couro cabeludo. Sofre alucinações e pesadelos muito piores do que um alcoólatra pode imaginar.

Durante três dias, esse sofrimento continua. A não ser que alguém venha em seu auxílio, ele não consegue vencer. Mesmo com auxílio, nove entre dez não conseguem deixar o vício.

Anualmente são internados 3.500 viciados no Hospital do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos, em Lexington. Mais de seiscentos médicos e auxiliares tentam ajudar o viciado a livrar-se do hábito, mas um estudo de vinte anos, efetuado entre 1935 e 1955, mostra que sessenta e quatro por cento dos viciados retornaram ao hospital!

Muitos outros voltavam às drogas sem que fossem novamente hospitalizados! O Dr. Murray Diamond, médico-chefe do hospital, diz que entre oitenta e cinco por cento e noventa por cento dos viciados acabam voltando ao vício,

"Uma vez "fisgado", moço, "fisgado" para sempre", disse-me um rapaz que havia estado em Lexington. "Eu arranjei uma picada cinco minutos depois de sair daquele lugar."

E o que acontece aos nove, entre dez, que não conseguem deixar o hábito? Uma deterioração física repugnante e doloro­sa começa a manifestar-se.

Carlos, mesmo tentando vender drogas a rapazes mais novos, carregava consigo um boletim oficial do departamento de polícia de Nova Iorque, descreven­do o resultado que se efetua no corpo sujeito aos efeitos contí­nuos das drogas:

"Ser um viciado em drogas é ser um cadáver ambulante. Há muitos sintomas que revelam um viciado — qualquer um destes pode manifestar-se.

"Os dentes apodrecem; o apetite desaparece; o estômago e intestinos não funcionam bem. A vesícula se inflama; os olhos e a pele ficam amarelados. Em alguns casos, as membranas do nariz ficam vermelhas; a cartilagem que separa as narinas de­saparece — a respiração é difícil. O oxigênio do sangue dimi­nui; aparecem bronquites e tuberculoses. As boas característi­cas do caráter desaparecem e tendências más tomam o seu lugar. Os órgãos genitais são afetados. Algumas veias entram em colapso, deixando cicatrizes roxas. Tumores e abscessos infestam a pele; dores cruciantes torturam o corpo. Os nervos não resistem; cacoetes nervosos começam a aparecer. Temo­res imaginários e fantásticos dominam a mente, e às vezes re­sultam em insanidade.

"É comum serem essas vítimas escolhidas pela morte.

"Em comparação com pessoas normais, de acordo com uma autoridade citada em um folheto do Departamento do Tesou­ro dos Estados Unidos, os viciados em drogas morrem de tu­berculose numa relação de quatro para um; de pneumonia, dois para um; velhice prematura, cinco para um; bronquite, quatro para um; hemorragia cerebral, três para um, e mais de dois para um, de uma grande variedade de outras doenças. Esse é o tormento de ser um viciado; esse é o destino destes cadáveres ambulantes."

Carlos sabia muito bem o que o aguardava, o que não impe­diu que ele continuasse. O Baixinho também. Este veio à mi­nha procura, buscando auxílio, e ensinou-me uma lição trágica.

Baixinho tinha dezenove anos, e era viciado em heroína, Desde os quinze anos usava drogas. Zazá era namorada de Baixinho, e era uma linda moça de dezessete anos. Seus pais eram conhecidos nos altos círculos comerciais e sociais de Nova Iorque, e freqüentavam uma igreja elegante.

Baixinho veio pedir que eu ajudasse Zazá a "deixar o troço", e eu concordei em visitar a moça.

Quando Baixinho e eu batemos na porta de um porão escuro e cheio de ratos, numa ruazinha do Brooklyn, ouvimos o som de alguém que se movia rapidamente. Esperamos enquanto o Baixinho, impaciente, resmungava. Foi Zazá mesmo quem abriu a porta, e ficou boquiaberta ao ver-nos.

Naquele antro escuro havia mais dois jovens; ambos tinham a manga esquerda da camisa arregaçada. Na mesa, diante de­les, estavam os "apetrechos": uma agulha, uma tampinha de cerveja que serviria de fogareiro, um copo de água e um saquinho de celofane contendo uma substância branca — "dinami­te", H ou heroína.

— Quem é esse? perguntou Zazá apontando com a cabeça para mim.

— Não tem problema, respondeu o Baixinho. Ele é um pregador. Eu pedi a ele que viesse aqui.

— Bom, se quiser falar comigo, precisa esperar.

Assim dizendo, Zazá deu-nos as costas, e voltou à ocupação que nós havíamos interrompido. O Baixinho deve ter lido meus pensamentos, porque voltou-se para mim e murmurou:

— Não tente impedi-los. Pregador, se você atrapalhar a pre­paração da "picada", estes rapazes o matam. Estou falando sé­rio. Se você sair para chamar a polícia, quando voltar não achará ninguém. Fique por aí, é bom aprender alguma coisa.

Então, eu fiquei por ali e, de fato, aprendi o que é ser ado­lescente viciado.

Enquanto a injeção era preparada, o Baixinho contou-me a história de Zazá. Ela também tomava heroína desde os quinze anos. Seus pais não sabiam da dupla vida que ela levava, incluin­do as noites que passava com homens. Só sabiam que Zazá saíra de casa e agora estava morando em Village. Ela os visita­va nos fins de semana, e embora um pouco chocados com a vida boêmia de Zazá, pensavam que todas as garotas tinham de passar por uma fase de rebeldia, e assim não a perturbavam.

A fase de rebeldia de Zazá consistia num apego crescente à heroína, e numa situação cada vez mais envolvida em sexo-por-dinheiro.

— Ela tem de fazer isso para financiar seu vício, disse o Bai­xinho. Tem uma lista de clientes certos, a maioria deles ho­mens de negócio da Avenida Madison, que tem famílias legíti­mas em Westchester.

Depois disso, o Baixinho falou em tom de voz mais baixo ainda:

— Mas o que me preocupa agora é que ela está andando com umas garotas esquisitas. Está se tornando lésbica. É assim que ela se diverte.

Não tive coragem de perguntar ao Baixinho onde ele se encaixava nesse quadro. Ele era realmente baixinho e mulato. Zazá era alta e loira. Não fiz nenhuma pergunta. Baixinho já estava ficando impaciente.

Nunca mais fui o mesmo, depois da cena que presenciei nos minutos seguintes. A preparação levara algum tempo e agora todos, inclusive o Baixinho, estavam se empurrando, cada um querendo ser o primeiro. O mais doente tinha direito ao pri­meiro lugar, e de repente o Baixinho teve um acesso e come­çou a tremer, teve ânsias e gemia.

Suponho que fez isso para ser o primeiro. Com olhares famintos, os quatro jovens obser­vavam, enquanto um dos rapazes tirou um pouco de heroína do saquinho de celofane e colocou-o na tampinha. Não se des­perdiçava nem um grãozinho.

— Ande depressa, diziam todos, junto ao seu ouvido. Com as mãos trêmulas, o rapaz acendeu dois fósforos debaixo da tampinha de cerveja e ferveu o conteúdo. O outro rapaz tirou o cinto e amarrou-o no braço do Baixinho. Os outros já esta­vam ficando agitados.

Rangiam os dentes, e cerravam os pu­nhos para não arrancarem a seringa das mãos do Baixinho. Lágrimas escorriam-lhes pelas faces, enquanto praguejavam em voz baixa e mordiam os lábios. Depois, um a um, experimenta­ram a picadinha final que lhes parecia tão emocionante — agu­lha contra veia distendida.

Nunca me senti tão perto do inferno. Então eles entraram numa espécie de euforia. Por muito tempo fiquei ouvindo sua conversa tola e sem sentido. O Baixinho contou-me de um sonho no qual via a montanha branca de H, muitas seringas prontas, e um fogo eterno onde poderia ferver a mistura. Para ele isso parecia o céu, um lugar onde ele poderia injetar montanhas de heroína nas veias.

— Como é pregador? Você vai fazer a Zazá largar o negócio? perguntou o Baixinho, lembrando-se, de repente, do motivo de minha presença ali.

Eu respondi que certamente tentaria, e procurei conversar com ela ali mesmo.

Zazá olhou-me com olhos vidrados, e mandou que eu fosse para o inferno. Eu nada poderia oferecer-lhe, que ela não tivesse naquele momento, dizia. Estava no céu, e eu nem sabia direito como era o céu. Ela sabia muito bem controlar a sua vida sem o auxílio de nenhum pregador biruta.

Depois de tomar a sua dose, Baixinho também se arrependeu de ter me chamado. Quando eu lhe disse que não tinha nenhuma cura mágica, apenas oferecia toda a ajuda possível quando ele passasse pela experiência de se curar da droga, olhou-me e, coçando a cabeça, disse:

— Bem, então por que você veio aqui?

Falhei.

Falhei, como falhei com Maria. Deixei o apartamento. Quando voltei para tentar ajudá-los, Zazá e Baixinho haviam desaparecido. Também os seus pertences não estavam lá. Haviam sumido. Ninguém sabia onde estavam. Aliás, ninguém se importava muito com eles.