terça-feira, 8 de junho de 2021

A cruz e o punhal - capítulo 21


 O QUE É O BATISMO DO ESPÍRITO SANTO?

Logo depois que começamos a nos interessar pela atuação do Espírito Santo em ajudar um rapaz a livrar-se do vício de narcóticos, recebemos a visita de um padre jesuíta. Ele também queria saber mais sobre o batismo. Ouviu nossos jovens pregando num culto ao ar livre e ficou tão impressionado, que quis saber qual era o segredo.

Passamos uma tarde com o Padre Gary, no Centro, discutindo com ele o profundo significado do batismo. A primeira coisa que fizemos foi mostrar-lhe referências a essa experiência na Bíblia católica.

"O batismo do Espírito Santo não é uma experiência denominacional", disse eu. "Temos membros das igrejas episcopais, luteranas, batistas e metodistas trabalhando conosco, e todos eles foram cheios do Espírito Santo."

Esse batismo, em sua essência, dissemos ao Padre Gary, é uma experiência religiosa que dá poder. "Recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo", disse Jesus ao apresentar-se aos discípulos, depois da sua morte.

No meu escritório, o Padre Gary e eu estudamos a Bíblia.

A primeira referência a essa experiência especial vem logo no começo da história do evangelho. Os judeus queriam saber se João Batista era o Messias. Mas João respondeu: "Após mim vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de, curvando-me, desatar-lhe as correias das sandálias". Depois continuou, fazendo esta importante profecia: "Eu vos tenho batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espí­rito Santo" (Mc 1.7,8).

Desde o começo do cristianismo, portanto, esse batismo do Espírito Santo tem tido um significado especial, porque marca a diferença entre o trabalho de um homem, embora fosse au­dacioso e bem-sucedido, e a missão de Cristo — Jesus batizaria seus seguidores com o Espírito Santo. Em suas últimas horas na Terra, Jesus passou muito tempo falando com seus discípu­los sobre o Espírito Santo que viria depois da sua morte, e estaria ao lado deles, para confortá-los, guiá-los e dar-lhes aque­le poder que permitiria levarem a missão de Cristo à frente.

Depois de sua crucificação, também, ele apareceu-lhes e disse que não deixassem Jerusalém: "Determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, a qual, disse ele, de mim ouvistes. Porque João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias." (At 1.4-8)

Passamos então para o segundo capítulo de Atos, e eu disse ao padre Gary:

"Foi logo depois disso que os discípulos se reuniram em Jerusalém para a comemoração do Pentecostes. Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar; de repente, veio do céu um som, como de um vento impetuo­so, e encheu toda a casa onde estavam assentados. E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem." (At 2.1-4.)

"Essa experiência durante o Pentecostes deu a nós, pente­costais, o nosso nome. Damos muita importância ao batismo no Espírito Santo, como foi predito por João, prometido pelo Pai e experimentado durante o Pentecostes.

Tenho a certeza de que você já notou a grande mudança que se efetuou nos apóstolos depois dessa experiência. Antes, haviam sido homens tímidos e sem poder. Depois, receberam realmente o poder sobre o qual Cristo falara. Curaram doentes, expeliram demônios, ressuscitaram mortos. Os mesmos homens que fugiram e se esconderam durante a crucificação, saíram, depois dessa experiência, para enfrentar o mundo hostil com sua mensagem."

Depois, falei ao Padre Gary acerca do grande avivamento que varreu os Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e América do Sul, no começo do século XX. Como centro desse avivamento estava a mensagem de que o poder dado à igreja durante o Pentecostes, em grande parte, se havia tornado impotente, mas poderia voltar a atuar, mediante o batismo do Espírito Santo.

"O livro de Atos nos conta de cinco ocasiões em que diversas pessoas receberam essa experiência, e os pentecostais notaram que em quatro desses cinco casos, as pessoas batizadas, pelo Espírito Santo começaram a "falar em línguas"."

O Padre Gary quis saber o que era falar em línguas.

"É como falar em outra língua. Uma língua que a gente não entende."

Apontei então, um a um, os casos na Bíblia em que essa experiência vinha em seguida ao batismo do Espírito Santo.

— Os discípulos falaram em outras línguas no Pentecostes; Saulo ficou dominado pelo Espírito Santo, depois de sua conversão na estrada de Damasco, e conseqüentemente falou em línguas, dizendo mais tarde: "Dou graças a Deus, porque falo em outras línguas mais do que todos vós" (1 Co 14.18).

Os membros da família de Cornélio foram batizados, com o Espírito Santo e começaram a falar em línguas; os novos cristãos em Éfeso foram batizados da mesma forma, e também falaram em línguas. Mesmo na história do quinto batismo em Samaria, Simão, o mágico, viu algo tão extraordinário acontecer que quis obter esse poder para si, oferecendo dinheiro para que "Aquele sobre quem eu impuser as mãos, receba o Espírito Santo" (At 8.19).

Não lhe parece lógico, então, que a experiência presenciada pelo mágico seria o falar em línguas?

— Seria de se esperar, se foi isso que aconteceu em todos os outros batismos. E você, quando teve essa experiência?

— É tradicional em nossa família, por três gerações.

Conversamos um pouco, então, sobre o meu avô, a quem eu tanto admirava pela sua personalidade impetuosa. Ele ouviu essa mensagem pela primeira vez, em 1925, mas combateu-a por algum tempo em toda a ocasião possível.

— Certo dia, contei então ao padre, enquanto estava no púlpito pregando contra os pentecostais, ele mesmo começou a tremer, que é uma das coisas que freqüentemente acontecem quando as pessoas recebem esse poder. É algo que se sente como um choque, com a diferença que não é uma sensação desagradável. De qualquer maneira, ninguém ficou mais surpreso do que o meu avô mesmo, quando isso aconteceu com ele. Naquela hora, ele recebeu o batismo e começou a falar em línguas. Daquele dia em diante, ele pregou o Pentecostes onde e sempre que podia, porque viu pessoalmente o poder que dessa experiência advinha. Meu pai recebeu-o quando tinha vinte e cinco anos, e eu o recebi com apenas treze; essas três gera­ções pregam essa mensagem hoje.

O Padre Gary quis saber como era essa experiência.

— Por que não pergunta aos rapazes? sugeri.

Nós o convidamos para almoçar conosco, e enquanto co­míamos frango e salada, o Padre Gary ouviu de vários jovens o que haviam sentido quando foram batizados com o Espírito Santo.

A primeira foi uma menina de doze anos, chamada Neda. Nós a achamos em Coney Island, andando como se estivesse perdida. Linda Meisner ficou sabendo que sexo e álcool eram os motivos de sua revolta contra a família.

— Eu costumava beber muito, disse ela, também saía com qualquer rapaz que me olhasse "daquela maneira". Odiava meus pais, principalmente minha mãe. Linda me trouxe aqui para o Centro, e eu ficava lá na capela ouvindo os outros jovens con­tarem como Jesus os tinha ajudado quando eram tentados. Quando eu tinha algum problema, por exemplo, quando saía com algum rapaz, eu me desesperava e ficava desanimada. Mas esses viciados em drogas também tinham problemas, e piores do que os meus. Eles dizem: "Ainda somos tentados, mas quando somos, corremos para a capela e oramos".

— Chegando lá, se ajoelhavam e, finda a oração, levantavam-se e a tentação havia desaparecido. Por isso eu comecei a querer a mesma coisa. Fui à capela um dia, sozinha, para orar. Comecei contando a Deus todos os meus problemas e pedi-lhe que tomasse conta da minha vida, como havia feito com esses viciados. Como um relâmpago, Jesus tomou conta do meu coração. Alguma coisa controlou a minha língua. Senti como se estivesse sentada à margem de um rio que, de alguma forma, passava por dentro de mim e saía borbulhando da minha boca numa linguagem musical. Foi depois disso que um dos obreiros me mostrou no livro de Atos, o que significava tudo aquilo. Foi a coisa mais extraordinária que já aconteceu na minha vida.

O Padre Gary ficou ali ouvindo, acenando com a cabeça e, às vezes, dizendo "Sim, sim", em reconhecimento ao que ela estava dizendo.

O rapaz seguinte, em especial, conseguiu essa reação do Padre Gary.

— Em primeiro lugar, disse ele, eu sei que isso é real. Sabe por quê? Porque depois, Jesus Cristo parecia sair da Bíblia Tornou-se uma pessoa real e presente, que queria ficar ao meu lado em todos os meus problemas.

— Sim, é maravilhoso! disse o Padre Gary.

Um rapaz chamado José contou:

— Ele me ajudou a largar as drogas: eu usava bolinhas e fumava maconha, e já começava a tomar heroína no músculo Eu já tinha o vício mental e precisava, mesmo, fazer isso. Quando ouvi falar de Jesus, fiquei até chocado em saber que ele amava as pessoas, apesar dos seus pecados. Fiquei emocionado quando soube que Jesus cumpre suas promessas, entrando em nós através desse batismo do Espírito Santo; que é chamado também de o Consolador, disseram-me. Quando eu pensava em consolo, imaginava logo um frasco de vinho e algumas bolinhas. Mas esses rapazes falavam de um conforto do Céu que me faria sentir-me limpo, depois.

— Assim, comecei a desejar isso, como Neda. Na capela, disse ele, voltando a cabeça em direção à porta da capela, clamei a Deus pedindo ajuda, e foi então que ele se manifestou. Ele to­mou posse de meus lábios e da minha língua, e inesperadamen­te, vi-me a falar uma nova linguagem. A princípio, eu pensei que estivesse louco, mas, de repente, tive a certeza de que não podia ser, porque algo mais estava acontecendo; eu não me sentia mais solitário; percebi que não tinha mais necessidade de drogas; amava todo mundo; pela primeira vez em minha vida, eu me sentia limpo.

E assim os jovens, um a um, contaram o que havia aconteci­do na sua própria vida. Estavam tão animados que era preciso alguém obrigá-los a falar um de cada vez.

Quando o Padre Gary saiu, uma hora mais tarde, ainda estava dizendo: "Sim, sim!" Disse que desejava conversar sobre o assunto com alguns dos seus amigos da Universidade Fordham.

Gostaria que ele tivesse ficado mais um pouco, porque naquela mesma noite outro ra­paz recebeu o batismo, e ele poderia ter visto por si mesmo.

O nome desse rapaz era Roberto. Tinha dezesseis anos; havia dois anos tomava heroína, e fumara maconha antes. Estivera na cadeia quatro vezes, uma delas por esfaquear outro rapaz numa briga de rua. O esfaqueado não morreu, mas Roberto carregava consigo um temor de que um dia mataria alguém.

Diferente­mente de muitos dos rapazes que vinham ao Centro, Roberto tinha pais que o amavam e tentavam ajudá-lo. Haviam procura­do em todos os lugares algo que consertasse Roberto, mas, a cada tentativa, sua caminhada para baixo apenas se acelerava.

Naquela tarde, encontrei-me com Roberto na capela. Senti, observando sua atitude irrequieta, que ele estava prestes a sair para uma picada. Ele me disse:

— David, estou com um problema, enquanto nervosamente trançava e destrançava os dedos.

Quando um viciado afirma que está com um problema, ele quer dizer que precisa arranjar droga e aplicá-la depressa. Co­mecei a falar a Roberto novamente sobre o batismo do Espírito Santo.

— Nicky irá falar sobre isso esta noite. Venha e deixe que o Espírito domine você também.

— Não sei, David. Preciso tomar um pouco de ar. Não estou me sentindo muito bem.

Tive de deixá-lo sair, e confesso francamente que não espe­rava vê-lo de volta; mas quando cheguei à noite ele já estava na capela. Percebi, pela sua atitude, que havia conseguido chegai até ali sem tomar a sua picada.

Sentei-me perto dele e observei-o atentamente, enquanto alguns dos nossos ex-membros de quadrilhas e viciados levantavam-se, e em linguagem simples contavam das coisas maravilhosas que haviam acontecido na vida deles. Nicky então falou da necessidade que cada viciado tem de receber o Espírito Santo, se quiser alcançar a vitória.

"Se vocês querem poder na vida... se estiverem no vício, e realmente quiserem deixá-lo, então prestem bem atenção. O Espírito Santo é o remédio para vocês. Depois de o receberem, receberão também dez presentes especiais com os quais pode­rão contar. Vamos falar disso agora, e, se tiverem lápis e papel, poderão anotar as referências bíblicas que mostram onde achei esses dez dons.

"Primeiramente, você tem poder. Isso se acha escrito em Atos 1.8. "Recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo".

"Em segundo lugar, você terá um Consolador — João 14:26. Um Consolador não é alguém que oferece conforto na vida, mas alguém que estará ao seu lado, para dar-lhe força.

"Terceiro, você terá proteção. Leia em Atos 16.6, como o Espírito Santo impediu que os apóstolos dessem um passo que teria sido trágico para eles. Ele o guiará da mesma forma.

"Agora uma coisa importante: Você não será mais perse­guido pela mentalidade da carne, mas terá valores espirituais Leia Efésios 2.3-6.

"Você terá vida. Agora você está andando para a morte, mas com o Espírito Santo, lemos em 2 Coríntios 3.5,6, você terá nova vida.

"Você estará vivendo com o Espírito da Verdade. A agulha lhe apresenta uma promessa que nunca é cumprida. Você nun­ca consegue se libertar numa sessão de picadas; fica ainda em pior situação. João 16.13 diz que você terá a Verdade.

"O acesso ao Pai será seu. Leia Efésios 2.18.

"E os três finais: Você terá esperança. Quantos têm esperança agora? Poucos, não é? Mas você terá esperança, diz Ro­manos 15.13.

"E o ponto culminante disso tudo se acha em 2 Coríntios 3.17. Vocês, vocês, rapazes, poderão ter liberdade!

"E como acontece isso? Através de uma experiência dra­mática, repentina e dominante. Leiam sozinhos Atos 10.44."

Nicky então fez uma pausa. Abaixou bem o tom de voz:

"É isso que está à sua espera nessa nova vida. Mas esta noite, penso que nós não queremos ler a respeito dessa experi­ência, nem falar a respeito dela, mas experimentá-la! Se você quiser essa mudança e esse poder na sua vida, juntamente com esperança e liberdade, levante-se e venha à frente. Vou pôr a mão na sua cabeça como Paulo fazia, e vai acontecer com você a mesma coisa que aconteceu com os cristãos daquela época. Você vai receber o Espírito Santo!"

Roberto deu-me uma olhada e levantou-se depressa. Meu coração levantou-se com ele.

— Desejo tudo o que Deus tem para mim, disse ele. Quero resolver o meu problema de uma vez, e nunca mais voltar atrás.

Roberto correu para a frente da capela. Pegou as mãos de Nicky, pondo-as na sua própria cabeça. Quase que imediata­mente aconteceu a esse rapaz a mesma coisa que havia aconte­cido ao meu avô; começou a tremer como se correntes elétri­cas passassem por ele. Ajoelhou-se, e os outros rapazes ao seu redor começaram a orar.

Foi tudo como se estivéssemos revivendo uma cena do livro dos Atos. Em menos de dois minutos, uma nova língua estava saindo dos lábios de Roberto. Jorrou como fonte borbulhante, numa terra seca. Naturalmente todos se regozijavam. Todos os outros viciados se agruparam ao lado de Nicky e Roberto di­zendo:

— Ele vai vencer.

Nicky repetia vez após vez:

— Obrigado, Senhor. Obrigado por ajudar esses rapazes. Logo outros começaram a falar junto com ele.

— Obrigado, Senhor. Obrigado por ajudar esses rapazes.

— Obrigado. Obrigado. Obrigado, Senhor.