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sexta-feira, 7 de maio de 2021

Este mundo tenebroso - volume 01 - Capítulo 42 - fim


 Zap! A espada de Rafar arrancou uma ponta da asa de Tal. Tal continuava arremetendo e desviando, negaceando e gin­gando, e picou o ombro e a coxa de Rafar. O ar estava repleto do mau cheiro de enxofre; a maligna escuridão era espessa como fumaça.

— O Senhor te repreenda! — gritou Tal. Clangor! Rasgão!

— Onde está o Senhor? — zombou Rafar. — Não o estou vendo! Tchuiiiimm!

Tal gritou de dor. Sua mão esquerda pendia inutilizada.

— Senhor Deus — bradou Tal — o nome dele é Rafar! Conte-lhes!

O Remanescente já não orava muito agora; em vez disso, obser­vavam todo o rebuliço e a polícia a correr, entrando e saindo do Prédio da Administração.

— Puxa vida! — disse John Coleman. — O Senhor está realmente respondendo às nossas orações!

— Louvado seja o Senhor! — replicou Andy. — Serve para mos­trar. .. Edith! Edith, o que há?

Edith Duster caiu de joelhos. Estava pálida. Os santos a rodearam.

— Devemos chamar uma ambulância? — perguntou alguém.

— Não! Não! — gritou Edith. — Conheço esta sensação. Já a tive antes. O Senhor está tentando falar comigo!

— O quê? — perguntou Andy. — O que é?

— Bem, parem de tagarelar e deixem-me orar que lhes contarei! Edith começou a chorar.

— Há um espírito maligno por aí — gritou ela. — Está causando grande dano. Seu nome é... Rafael... Rafin...

Bobby Corsi falou. — Rafar!

Edith fitou-o com olhos arregalados.

— Sim! Sim! Esse é o nome que o Senhor está-me transmitindo!

— Rafar! — disse Bobby outra vez. — É o chefão!

 Tal podia apenas afastar-se do temível ataque do demônio prín­cipe, sua mão ativa ainda segurando a espada em defesa. Rafar con­tinuava a brandir e a retalhar, as fagulhas voando das lâminas ao se chocarem. O braço de Tal abaixava mais a cada golpe.

— O Senhor. .. te repreenda! — encontrou o anjo fôlego para re­petir.

 Edith Duster estava em pé e pronta a gritá-lo aos céus.

— Rafar, seu perverso príncipe do mal, em nome de Jesus nós o repreendemos!

 A lâmina de Rafar zuniu acima da cabeça de Tal. Não acertou.

 — Nós o atamos! — gritou o Remanescente.

 Os grandes olhos amarelos estremeceram.

 — Nós o expulsamos! — disse Andy.

 Surgiu um tufo de enxofre, e Rafar dobrou-se ao meio. Tal ergueu-se de um salto.

 — Nós o repreendemos, Rafar! — gritou Edith novamente.

 Rafar berrou. A lâmina de Tal o havia rasgado.

A grande lâmina vermelha desceu com clangor contra a de Tal, mas a espada angelical cantava com nova ressonância. Cortava o ar em arcos flamejantes. Com a mão boa, Tal brandia, retalhava, cortava, empurrando Rafar para trás. Os olhos ardentes destilavam, a espuma borbulhava pela boca e efervescia pelo peito, o fôlego amarelo se tornara um tom escuro de carmesim.

Então, com uma horrível estocada movida pela fúria, a enorme espada vermelha veio chiando pelo ar. Tal revirou para trás como se fosse um brinquedo de pano jogado. Caiu ao chão atordoado, a cabeça girando, o corpo encharcado de dor abrasadora. Não se podia mover. Sua força se fora.

Onde estava Rafar? Onde estava a lâmina? Tal tentou voltar a cabeça. Esforçou-se por enxergar. Aquele era o seu inimigo? Aquele era Rafar?

Através do vapor e da escuridão, ele podia ver o vulto danificado de Rafar oscilando qual grande árvore ao vento. O demônio não se movia, não atacava. Quanto à espada, a enorme mão ainda a segurava, mas a arma agora pendia inerte, a ponta descansando no chão. Os fôlegos vinham em longos e lentos chiados. As narinas expeliam nuvens vermelho-escuras. Aqueles olhos, aqueles olhos cheios de ódio, eram como enormes e ardentes rubis.

O queixo, pingando e espumando, tremeu ao abrir-se, e as palavras gorgolejaram através do piche e da espuma.

— Se... não... fosse... pela... oração dos seus santos! Se não fossem os seus santos...!

A grande fera oscilou para a frente. Deixou escapar um último suspiro sibilante, e caiu com um baque surdo ao chão numa nuvem de vermelho.

E houve silêncio.

Tal não conseguia respirar. Não podia se mexer. Tudo o que podia ver era o vapor vermelho espalhando-se ao longo do chão como fina névoa e a escuridão que cercava aquele corpo enorme.

Mas... sim. Em algum lugar os santos oravam. Ele podia sentir. Estava sarando.

O que era aquilo? De algum lugar a doce música chegou até ele. Acalmou-o. Adoração. O nome de Jesus.

Erguendo a cabeça do chão, ele deixou que seus olhos explorassem o frio aposento de concreto. Rafar, o poderoso, detestável Príncipe da Babilônia, se fora. Nada restava além de uma nuvem de escuridão que se desvanecia. Acima da nuvem de escuridão a luz vinha pe­netrando, quase como uma aurora.

Ele ainda ouvia a música. Ela ecoava através dos seres celestiais, purificando-os, limpando a escuridão com a luz santa de Deus.

E seu coração foi o primeiro a lhe dizer: Você venceu... pelos santos de Deus e pelo Cordeiro.

Você venceu!

A luz aumentou cada vez mais, florescendo, enchendo o aposento, e a escuridão continuava a encolher e a recuar e a se desvanecer. Agora Tal podia ver a luz entrando pela janela. A luz do sol? Sim.

O Exército Celestial? Sim!

Tal ergueu-se com esforço e esperou até sentir mais forças. Elas chegaram. Ele deu um passo. Seu andar tornou-se firme e estável. Então, como o desfraldar de seda tecida em fulgurantes diamantes, ele estendeu as asas, dobra a dobra, centímetro a centímetro. Elas brotaram de seus ombros e costas, e ele deixou que se fortalecessem.

Respirando fundo, ele tomou o cabo da espada nas duas mãos, segurou-a à frente, e as asas assumiram o comando. Ele estava nos ares, subindo no céu fresco banhado de luz, olhando diretamente para cima sem ver nenhuma escuridão, nenhuma opressão, nenhuma nuvem.

O que viu foi luz: luz do Exército Celestial que varria o céu de um lado a outro até que ele ficasse límpido. O ar era tão fresco, os odores tão limpos.

Ele singrou acima da cidadezinha e voltou à faculdade bem em tempo de ver as muitas luzes piscando nas viaturas policiais e as ambulâncias e os carros oficiais estacionados por toda a parte.

Onde estava Guilo? Oh, onde estava aquele barulhento Guilo?

— Capitão Tal! — veio o brado, e Tal deixou-se cair rumo ao prédio Ames Hall onde seu corpulento amigo o aguardava com um abraço de quebrar costelas.

— Com certeza a batalha terminou? — rugiu Guilo feliz.

— Terminou? — quis saber Tal.

Ele olhou em redor a fim de se certificar. Sim, muito ao longe podia ver os últimos resquícios em fuga da nuvem espalhando-se em todas as direções, banidos pelas forças celestiais. O céu era de um azul muito lindo. Abaixo deles, Tal podia ver o Remanescente fiel ainda cantando e dando vivas. Parecia que a polícia estava fa­zendo uma limpeza final.

 Norm Mattily, Justin Parker e Al Lemley amontoavam-se em torno de Berenice e sua nova amiga.

— Bem, minha gente — disse Berenice — gostaria de apresentar-lhes Susan Jacobson. Ela tem muita coisa a lhes mostrar!

Norm Mattily apertou a mão de Susan e disse:

— Você é uma mulher muito corajosa.

Susan pôde apenas apontar para Berenice através de lágrimas de alívio e dizer:

— Sr. Mattily, olhe bem ali. Está vendo a coragem personificada.

Berenice olhou para a maca que dois enfermeiros tiravam do pré­dio. Juleen Langstrat estava coberta por um lençol branco. Atrás da maca ia Alf Brummel, algemado e escoltado por dois de seus próprios agentes.

Atrás de Brummel vinha o número um, Alexander M. Kaseph. Susan fitou-o por bom tempo, mas ele não ergueu o olhar. Entrou na viatura da polícia com um agente federal sem dizer palavra.

Hank e Mary estavam-se abraçando e chorando, pois tudo termi­nara... e contudo estava apenas começando. Olhe todos esses santos acesos! Aleluia! O que Deus podia fazer com um grupo desses!

Marshall segurava Sandy como se nunca a tivesse abraçado antes. Ambos haviam perdido a conta de quantas vezes pediram desculpas um ao outro. Tudo o que desejavam fazer agora era pôr em dia muito amor perdido.

E então. .. o que era isso, algum tipo de conto de fadas? Esqueça as dúvidas e esqueça as perguntas, Hogan, é mesmo Kate vindo em sua direção! O rosto dela resplandecia, e, puxa, que visão bonita!

Os três ficaram agarrados uns aos outros, e as lágrimas caíram em cima de todos.

— Marshall — disse Kate com lacrimejante estouvamento — não consegui ficar longe. Ouvi dizer que você foi preso.'

— Ora — disse Marshall, dando-lhe um aperto amoroso — de que outra forma Deus ia conseguir a minha atenção?

Kate achegou-se mais a ele e disse:

— Puxa, isso parece promissor!

— Espere só até eu lhe contar o que aconteceu. Kate olhou ao redor para as pessoas e atividade.

— É este o fim do seu... grande projeto?

Ele sorriu, abraçou as suas duas garotas favoritas, e disse:

— É, sim. Pode apostar que sim!

 O General tocou o ombro de Tal. Ele olhou e viu a grande trombeta dourada na mão do General.

— Bem, capitão — disse o anjo de cabelos prateados — quer dar-nos a honra? Dê o toque de vitória!

Tal tomou a trombeta e descobriu que não podia vê-la através de súbito jorro de lágrimas. Ele baixou o olhar a todos aqueles santos de oração e àquele pastorzinho de oração.

— Eles... eles jamais saberão o que fizeram — disse. Então, res­pirou a fim de moderar-se e voltou-se ao velho companheiro de armas. — Guilo, que tal você? — Empurrou a trombeta na direção do anjo grande.

Guilo relutou. — Capitão Tal, é sempre o senhor quem dá o toque de vitória. Tal sorriu, deu a trombeta a Guilo, e sentou-se ali mesmo no teto.

— Caro amigo... estou cansado demais.

Guilo remoeu aquilo um breve momento, e a seguir pôs-se a soltar gargalhadas, depois bateu nas costas de Tal e singrou pelos ares.

O sinal da vitória soou alto e claro, e Guilo até precipitou-se para cima num apertado rodopio para causar efeito.

— Ele adora fazer isso! — disse Tal.

O General riu.

 Assim, Hank ficou com Mary e sua igrejinha renascida; Marshall ficou com a família novamente reunida, pronta para consertar as coisas; Susan e Kevin estariam ocupados por algum tempo como testemunhas da promotoria; Berenice calculou que Marshall lhe per­mitiria cobrir a história até o final.

Mas Berenice ficou ali, machucada e exausta, sentindo-se muito separada, distante desse bando feliz. Alegrava-se por eles, e seu lado profissional, preocupado com o bem público fazia esse papel muito bem. Mas o resto dela, a verdadeira Berenice, não podia dispersar com um sorriso aquele mesmo antigo peso de profunda tristeza que havia sido seu mais íntimo companheiro por tanto tempo.

E agora ela sentia saudades de Pat. Talvez fosse o mistério de sua morte e a obsessão em encontrar as respostas que tivessem mantido Pat viva em seu coração por tanto tempo. Agora não havia nada que adiasse aquele último passo que Berenice jamais conseguira dar: dizer adeus.

E lá estava o estranho anelo no fundo do seu coração, algo que jamais sentira antes de encontrar aquela estranha mocinha, Betsy; será que havia realmente sido tocada por Deus de alguma forma? Se tivesse sido, o que deveria fazer a respeito?

Ela começou a andar. O céu estava vivo de novo, o ar cálido, o campus quieto. Talvez uma caminhada ao longo dos passeios de tijolo vermelho a acalmasse e ajudasse a pensar, ajudasse a encontrar o sentido de tudo o que estava acontecendo ao seu redor e dentro de si.

Ela se deteve embaixo de um grande carvalho, pensou em Pat, pensou em sua própria vida e o que iria fazer com ela, e então permitiu-se chorar. Achou que talvez devesse orar. "Querido Deus", sussurrou, mas então não conseguiu pensar em nada para dizer.

 Tal e o General estavam avaliando a situação abaixo deles.

— Eu diria que esse negócio todo deixou a cidade em petição de miséria — disse o General.

Tal assentiu com a cabeça.

— A faculdade não será a mesma por muito tempo, com a inves­tigação pelas autoridades estaduais e federais, sem falar no dinheiro que terá de ser achado.

— E então, temos um bom contingente para colocar a cidade nos eixos novamente?

— Estão-se reunindo para isso agora. Enquanto isso, Krioni e Tris-kal permanecerão com Busche; Natã e Armote ficarão com Hogan. A família de Hogan terá uma boa igreja onde poderá ser curada, e

— Tal notou de súbito uma figura abatida, sozinha, no outro lado do campus. — Espere —. Ele chamou a atenção de um anjo em particular. — Lá está ela. Não a deixemos escapar.

 Berenice finalmente conseguiu pensar em uma sentença para orar. "Querido Deus, não sei o que fazer."

Hank Busche. O nome surgiu em sua cabeça. Ela voltou o olhar ao Prédio da Administração. O pastor e seu povo ainda estavam lá.

Sabe, disse uma voz dentro dela, não faria mal conversar com aquele homem.

Ela olhou para Hank Busche, e depois para toda aquela gente que parecia tão feliz, tão em paz.

Você esteve clamando por Deus. Bem, talvez esse pregador possa apresentá-la a ele de uma vez por todas.

Ele bem que fez algo por Marshall, pensou Berenice.

Há algo Já atrás de que você precisa, mocinha, e se eu fosse você descobriria o que é.

 O General estava ansioso por partir.

— Estão precisando de nós no Brasil. O reavivamento vai indo bem, mas o inimigo está tramando algum plano. Você deve gostar desse tipo de desafio.

Tal pôs-se de pé outra vez e desembainhou a espada. Nesse exato momento, Guilo voltou com a trombeta. Tal lhe disse:

— Brasil.

Guilo riu-se animado e também puxou da espada.

— Espere — disse Tal, olhando para baixo.

Era Berenice, timidamente chegando perto do pastor e seu novo rebanho. Pela quieta entrega em seus olhos Tal podia ver que ela estava pronta. Logo os anjos se estariam regozijando.

Ele acenou sua aprovação ao anjinho de cabelos encaracolados que estava sentado na curvatura do grande carvalho, e ela sorriu e de­volveu o aceno, seus grandes olhos castanhos brilhando. As reful­gentes vestes brancas e sapatinhos dourados estavam muito mais de acordo com ela do que o macacão e uma motocicleta.

O General perguntou com prazer na voz:

— E então, vamos?

Tal estava olhando para Hank ao dizer:

— Um momento. Quero ouvir as palavras mais uma vez. Enquanto olhavam, Berenice chegou até Hank e Mary. Ela começou a chorar abertamente, e lhes disse palavras calmas mas apaixonadas. Hank e Mary ouviram, assim como outros que estavam por perto, e ao ouvirem, começaram a sorrir. Colocaram seus braços ao redor dela, falaram-lhe de Jesus, e então também puseram-se a chorar.

Finalmente, quando os santos se reuniram e Berenice foi cercada de braços amorosos, Hank disse as palavras:

— Vamos orar...

E Tal sorriu um longo sorriso.

— Podemos ir — disse ele.

Com uma explosão de asas fulgurantes e três rastos de faiscantes labaredas, os guerreiros arrojaram-se ao céu, rumo ao sul, tornando-se cada vez menores até sumir, deixando a agora tranqüila cidade de Ashton em competentes mãos.

Este mundo tenebroso - volume 01 - Capítulo 41


 Berenice saltou do seu lugar na escada da frente. Era Eldon Strachan com o próprio Norm Mattily, e Justin Parker, e aquele tinha de ser Al Lemley, e os três sujeitos trajando belos ternos tinham de ser do FBI! Oh, e lá vinha Harvey Cole com uma pilha de papéis debaixo do braço. Ela correu até eles, os olhos enegrecidos cheios de excitação.

— Olá! Vocês conseguiram!

Os olhos de Norm Mattily se arregalaram.

— O que aconteceu? Você está bem? Berenice pagara caro esses ferimentos; ia usá-los.

— Não, não, fui atacada! Por favor, corram lá dentro! Algo terrível está acontecendo!

Todos aqueles sujeitos importantes entraram correndo no prédio com sério propósito nos olhos e revólveres nas mãos.

Tal vira o suficiente. Gritando uma ordem a Guilo:

— Entre! — ele arremeteu para fora do prédio a fim de trazer reforços.

Fumaça e piche vermelho jorravam do lado de Rafar, mas sua fúria significava ruína certa para o rebelde Lucius. A luz de mil anjos brilhou através das janelas. Eles estariam na sala num instante, mas esse era todo o tempo de que Rafar precisava. Ele agitou a espada do tamanho de uma tábua em círculos furiosos acima da cabeça. Abaixou-a em golpe após golpe sobre Lucius enquanto a pequena espada do demônio desafiador aparava cada golpe com grande ala­rido e uma chuva de faíscas.

O estrondear das asas dos anjos no lado de fora tornou-se mais e mais alto. O chão e as paredes reverberavam com o barulho.

Rafar soltou um rugido e baixou a lâmina perpendicularmente. Lucius bloqueou o golpe, mas caiu debaixo da força dele. A lâmina cortou o ar num círculo plano e apanhou Lucius debaixo do braço. O braço saiu rodopiando pelo espaço, e Lucius gritou. A lâmina baixou de novo, passando em linha reta pela cabeça, ombros e torso de Lucius. O ar encheu-se de fervilhante fumaça vermelha.

Lucius desapareceu.

— Mate a menina! — gritou Rafar a Madeline.

Madeline tirou uma faca horrorosa, torta. Colocou-a com delica­deza na mão de Sandy.

— Essas correntes são as correntes da vida; são uma prisão de maldade, da mente mentirosa, da ilusão! Liberte seu verdadeiro eu! Junte-se a mim!

 Shawn estava com a faca pronta. Ele a colocou na mão da moça mergulhada no transe.

 Rafar, cambaleando, passou por uma parede no exato momento em que a luz de um milhão de sóis explodiu no aposento com o ensurdecedor trovão de asas e os gritos de guerra do Exército Celes­tial.

Muitos demônios tentaram fugir, mas foram desintegrados no mesmo instante pelo golpe cortante das espadas. O aposento todo era um borrão enorme, bombástico, brilhante. O rugir das asas en­cobria qualquer outro som exceto o dos gritos dos espíritos que caíam.

 Kaseph saltou da cadeira e caiu sobre a mesa. Os diretores e ad­vogados se encolheram e encostaram-se às paredes. Alguns rumaram à outra porta da sala.

Hank, Susan e Kevin observavam a uma distância segura. Sabiam o que estava acontecendo.

O rosto de Kaseph parecia insensibilizado pela morte e a boca abriu-se quando o mais horrendo berro saiu de dentro dele.

O Valente estava face a face com o General. Seus demônios haviam sumido, levados por avassaladora maré de anjos que ainda rugiam pela sala qual avalanche. A espada do General se movia mais de­pressa do que o pesado Valente podia mesmo antecipar. O Valente rebateu os golpes, berrando, retalhando, girando. O General sim­plesmente continuava a atacá-lo.

 Marshall estava no corredor, à escuta de qualquer perturbação. Achou ter ouvido um rebuliço adiante no corredor.

 Sandy ainda segurava a faca, mas agora Madeline hesitava e olhava frenética ao seu redor. As correntes ainda prendiam Sandy com força, um casulo de ferro.

Guilo viu as correntes muito apertadas em torno de Sandy, o hor­rível cativeiro demoníaco que eles haviam usado para escravizá-la.

— Basta! — gritou ele.

Erguendo a espada acima da cabeça, ele a baixou, deixando um rasto largo de luz brilhante. A ponta passou através das muitas voltas daquelas correntes como uma série de pequenas explosões. As cor­rentes se arrebentaram para fora e para longe, contorcendo-se como cobras cortadas ao meio.

O grande punho de Guilo fechou-se no pescoço medonho de Ma­deline. Ele a sacudiu para trás, girou-a e cortou-a em pedacinhos evanescentes.

Sandy sentiu-se rodopiando, depois impelida para cima como se fosse um foguete num elevador. Seus ouvidos começaram a registrar sons. Ela conseguia sentir novamente seu corpo físico. Luz registrou-se em sua retina. Ela abriu os olhos. Uma faca caiu-lhe das mãos.

Caos reinava na sala. Havia gente gritando, correndo de um lado para o outro, tentando acalmar os outros, brigando, discutindo, ten­tando escapar da sala; diversos homens estavam forçando Alf Brum­mel ao chão. Havia uma névoa de fumaça azulada e um cheiro forte como o de fogos de artifício.

A professora Langstrat estava deitada no chão e diversas pessoas se amontoavam em cima dela. Havia sangue!

Alguém a agarrou. Não de novo! Ela olhou e viu Shawn segurando-lhe o braço. Ele estava tentando confortá-la, tentando mantê-la na cadeira.

O monstro! O enganador! O mentiroso!

— Solte-me! — berrou ela, mas ele não soltou.

Ela socou-lhe o rosto, e em seguida escapou dele. Pondo-se de pé em um salto, ela correu rumo à porta, dando encontrões com diversas pessoas e pisando em outras. Ele a seguiu, chamando-lhe pelo nome.

Ela explodiu pela porta e tropeçou no corredor. De algum lugar lá adiante, ouviu uma voz conhecida gritando seu nome. Ela berrou e correu na direção da voz.

Shawn foi atrás de Sandy. Ele tinha de segurar aquela mulher antes que todo o controle fosse pelos ares.

O quê! Diante dele, enchendo todo o corredor com suas asas faiscantes estava o mais apavorante ser que ele jamais vira, apontando uma terrível espada chamejante ao seu coração. Shawn deteve-se bruscamente, os sapatos escorregando no chão.

Marshall Hogan apareceu subitamente, atravessando a correr aquele ser. Um enorme punho atingiu o queixo de Shawn, e a questão foi resolvida.

— Venha, Sandy — disse Marshall — desceremos pela escada!

 Rafar, em algum lugar dentro do prédio sitiado, vacilante, sabia que tinha de escapar. Tentou mover as asas. Elas apenas estreme­ceram. Precisava acumular forças. Não podia ser derrotado na pre­sença desses guerreiros insignificantes; não iria para o abismo!

Caindo sobre um dos joelhos, as mãos segurando o lado que se esvaía, ele deixou sua fúria crescer no íntimo. Tal! Era tudo culpa de Tal! Não, esperto capitão, não ganhará sua vitória desta forma!

Os olhos amarelos queimaram com novo fogo. Ele tentou nova­mente. Dessa vez, as asas se moveram e se agitaram num torvelinho indistinto. Rafar segurou com força a espada e voltou os olhos ao céu. As asas se enfunaram com poder e começaram a erguê-lo através do prédio, cada vez mais depressa, até ele ser arrojado pelo teto a céu aberto... e encontrar-se face a face com o mesmo capitão que tantas vezes havia insultado e desafiado.

Em volta a batalha ardia em fúria; demônios, e a grande vitória de Rafar, caiam como chuva fumacenta e ardente do céu. Mas por um momento breve de espanto e horror mútuo, Tal e Rafar permaneceram paralisados.

Haviam-se encontrado afinal! E nem um dos dois podia evitar o amortecimento trazido pelas lembranças que tinha do outro. Nenhum se lembrava de que o outro tinha aparência tão feroz.

E nenhum podia estar absolutamente certo de que venceria.

Rafar arremeteu de um lado, e Tal preparou-se para o golpe, mas... Rafar estava fugindo! Ele se lançou pelo céu como um pássaro san­grando, deixando um rasto de emanação e vapor.

Tal seguiu-o, as asas céleres, arrojando-se através de demônios caindo e anjos atacando, olhando bem adiante através da furiosa agitação da batalha cujo fragor e trovejar o cercava. Lá! Ele divisou o demônio comandante mergulhando na direção da cidade. Seria difícil encontrá-lo naquele labirinto de prédios, ruas e vielas. Tal aumentou a velocidade e diminuiu a distância. Rafar devia tê-lo visto surgindo por trás; o príncipe maligno arremeteu adiante com sur­preendente velocidade e depois deixou-se cair súbita e perpendi­cularmente na direção de um prédio de escritórios.

Tal viu-o desaparecer através do teto do prédio e mergulhou atrás dele. O negro teto coberto de piche veio em sua direção, crescendo num instante do tamanho de um selo a mais do que o olho podia ver. Tal se lançou através dele.

Teto, cômodo, piso, cômodo, então erguer-se, passar por um cor­redor, atravessar uma parede, subir novamente, voltar, seguir a fu­maça, atravessar um escritório, seguir parede acima, mergulhar por um piso, arrojar-se adiante, as paredes passando esbofeteando, esbofeteando, esbofeteando os olhos e ficando para trás como vagões disparados de um trem de carga.

Um fumacento míssil preto seguido por chamejante cometa ver­melho rugiram corredor abaixo, através de diversos andares, subiram novamente, passando através do escritório e por cima de todas as mesas, elevando-se através dos painéis do teto, através do teto e saindo a céu aberto de novo.

Rafar arremetia, arrojava-se, descrevia círculos, ziguezagueava através de demônios cadentes, voltando atrás, desviando-se por ruas secundárias, mas Tal o seguia de perto e acompanhava cada volta com perfeição.

Por quanto tempo mais poderia aquele demônio que sangrava man­ter essa corrida?

 A outra porta da sala de conferência abriu-se de chofre e o corpo de Alexander Kaseph rolou pelo chão do corredor. Estava nauseado e berrava.

 

O General brandia a espada contra o Valente vez após vez, enfraquecendo-o, cortando-o cada vez mais freqüentemente enquanto o Valente continuava a perder as forças.

— Não me derrotará! — ainda gabava-se ele, e o mesmo fazia Ka­seph, mas a gabolice era vazia e fútil. Do Valente jorravam vapor vermelho e piche como de uma peneira miserável e quebrada. Seus olhos estavam cheios de maldade e ódio e ele retalhava com a grande espada, mas as orações...! As orações estavam-se fazendo sentir por toda a parte, e o General não podia ser derrotado.

 Berenice reuniu seu grupo de vindicadores no saguão inferior, e tentava descobrir por onde começar a explicar tudo, quando Marshall e Sandy explodiram pela porta que saía das escadas.

— Subam depressa! — gritou Marshall, segurando a filha chorosa. — Alguém foi baleado!

Os agentes da polícia federal, com Lemley, entraram imediata­mente em ação.

— Chamem a polícia! Isolaremos o prédio! Berenice comentou:

— Estou vendo alguns tiras lá fora...

A polícia tinha vindo apenas em resposta a um chamado acerca dos fanáticos religiosos reunidos no campus. Estavam tentado de­bandar o pessoal quando Norm Mattily e um agente da polícia federal correram até eles, identificaram-se e ordenaram-lhes que isolassem o prédio.

Os homens de Brummel não eram tolos. Obedeceram.

 Rafar arremeteu e serpeou por todo o céu, ainda deixando um rasto de fumaça vermelha provindo do ferimento. Com esse indício re­velador era fácil segui-lo, e Tal mantinha implacável perseguição. Rafar voou rumo a um enorme depósito a diversos quarteirões de distância.

Ele se arrojou pela parede de fora mais ou menos na altura do terceiro andar, e Tal mergulhou no prédio atrás dele. Esse andar era aberto, sem lugar para esconder; Rafar mergulhou imediatamente a um andar inferior, e Tal seguiu o rasto de fumaça. Os pisos de con­creto cinzento subiam ao encontro deles.

Tal saiu no primeiro andar e pôde ver o rasto de fumaça desviando-se para um lado e retorcendo-se através de uma parede distante. Ele se arrojou atrás da fumaça. A parede bateu em torno dele quando a atravessou.

Cravado!

Um gume ardente cortou seu lado. Ele rodopiou e rodopiou com o impacto e a espada lhe voou da mão. O anjo caiu ao chão, dobrado de dor.

Lá estava Rafar, curvado e ferido, as costas contra a parede que Tal acabara de atravessar. Havia esperado de tocaia. A ponta de sua horrível espada ainda estava envolta em parte da túnica de Tal.

Não dava tempo de pensar! Não dava tempo de sentir dor! Tal mergulhou atrás da espada caída.

Craque! A espada de Rafar caiu com uma chuva de faíscas. Tal rolou e adejou, desviando-se. A grande espada vermelha cortou o ar novamente, e o gume afiado assobiou logo acima da cabeça de Tal. Tal bateu as asas e com um movimento brusco lateral desviou-se alguns metros.

Tchuiiiimm! A horrível espada retalhou o ar com brilhantes traços vermelhos. Os olhos de Rafar passaram de amarelos a vermelhos, sua boca borbulhava com espuma pútrida.

As enormes asas rugiram e Rafar atacou Tal com o bote de um gato. Seu poderoso braço ergueu a lâmina para golpear de novo.

Tal arremeteu para a frente e mergulhou abaixo do braço erguido de Rafar, metendo a cabeça no peito do adversário. O enxofre ex­plodiu dos enormes pulmões enquanto Tal rodopiava em torno do corpo de Rafar e além da ponta da lâmina vermelha enquanto ela retalhava o ar.

Era disso que Tal precisava: estava agora entre Rafar e sua espada caída. Ele mergulhou atrás dela, agarrou-a e voltou-se.

Clangor! A lâmina infernal desceu sobre a espada de Tal com um relâmpago chamejante. Eles se defrontaram, espadas erguidas em prontidão. Rafar sorria.

— Então, Capitão do Exército, estamos juntos, só os dois, e em pé de igualdade. Eu estou ferido, você está ferido. Trocaremos golpes por outros vinte e três dias? Terminaremos muito antes disso, hein?

Tal nada disse. Era assim que Rafar agia; palavras cortantes faziam parte de sua estratégia.

As espadas entrechocaram-se vez após vez. Uma coberta de es­curidão principiou a encher o aposento: o mal rastejante, crescente de Rafar.

— A luz está-se apagando? — zombou Rafar. — Talvez seja a sua força que vemos sumindo agora!

Santos de Deus, onde estão as suas orações?

Outro golpe! O ombro de Tal. Ele o devolveu com uma repassada que apanhou Rafar abaixo das costelas. O ar se estava enchendo de trevas, com vapor e fumaça vermelhos.

Diversos outros choques das lâminas chamejantes... abrindo pele, rasgando vestes, mais escuridão.

Santos! Orem! OREM!

 Quando os policiais chegaram ao terceiro andar, acharam primeiro que Kaseph era a vítima do tiro. Descobriram que estavam enganados quando esse animal selvagem atirou-os longe como se não pesassem nada.

— Não podem derrotar-me! — berrou.

 O General retalhou o Valente, e ele berrou novamente. As espadas se entrechocavam e soltavam labaredas.

— Não pode derrotar-me!

 A polícia apontou. O que ia esse maluco fazer a seguir?

Hank gritou:

— Não, cuidado! Não é ele!

Eles não entenderam patavina do que ele disse. Hank adiantou-se e tentou mais uma vez:

— Valente, sei que pode ouvir-me. Está derrotado, sim. O sangue derramado por Jesus o derrotou. Cale-se e saia dele e suma desta região!

Agora a polícia estava apontando as armas para Hank!

Mas o Valente já não agüentava as repreensões do homem de ora­ção. Ele murchou. Sua espada caiu. O General deu uma repassada com sua lâmina refulgente, e o Valente desapareceu.

 Kaseph caiu ao chão e ficou como morto. Os advogados e os di­retores gritaram da sala de conferência:

— Não atirem! — e saíram com as mãos ao alto quer tivessem recebido ordem para fazê-lo, quer não. A polícia ainda não sabia a quem prender.

— Aqui dentro! — gritou alguém da sala dos professores. A polícia correu lá e encontrou o deplorável desastre que Alf Brummel havia feito, e Juleen Langstrat morrendo.

Este mundo tenebroso - volume 01 - Capítulo 40


 Marshall, Hank, Susan e Kevin caminharam silenciosos pelo corredor, à escuta, tentando ouvir qualquer som, e examinando os números em todas as portas. Susan gesti­culou na direção da sala de conferência, e eles se detiveram logo do lado de fora. Susan reconheceu a voz de Kaseph. Com a cabeça, acenou afirmativamente aos outros.

Marshall segurou a maçaneta. Com um gesto, indicou aos outros que esperassem. Então abriu a porta e entrou. Kaseph estava sentado à ponta da grande mesa de conferência, e os diretores e os quatro advogados em torno dela. Os demônios presentes na sala imediata­mente desembainharam suas espadas e encostaram-se às paredes. Não apenas era esse o inesperado jornalista, como também vinha acompanhado de dois guerreiros celestiais com cara de malvados, um enorme árabe e um africano feroz que pareciam mais do que prontos para a briga!

O Valente sabia que isso queria dizer encrenca, mas... nem tanta assim. Olhou os intrusos desafiadoramente, sorrindo, e disse:

— E afinal quem é você?

— O nome é Marshall Hogan — disse Marshall a Kaseph. — Sou o redator do Clarim de Ashton... isto é, assim que prove às pessoas certas que ainda tenho direitos de proprietário. Mas pelo que entendo você e eu temos muito a ver um com o outro, e já era hora de nos conhecermos.

Eugene Baylor não estava gostando nem um pouco da cara da coisa, nem tampouco o estavam os outros. Estavam mudos, e alguns pa­reciam ratos assustados que não tinham para onde correr. Todos sabiam onde Hogan devia estar, mas agora, de súbito, chocantemente, ele estava no pior lugar possível: ali!

Os olhos do Valente assumiram um olhar fixo e gelado, e os de­mônios que o assistiam fortaleceram-se com o pensamento de que o Valente era invencível e diabolicamente esperto. Ele saberia o que fazer!

— Como chegou aqui?— perguntou Kaseph por todos os presentes.

— Tomei o elevador! — foi a resposta brusca de Marshall. — Mas agora eu tenho uma pergunta a lhe fazer. Quero a minha filha, e a quero sã e salva. Façamos um trato, Kaseph. Onde está ela?

Kaseph e o Valente apenas riram zombeteiros.

— Trato, diz você? Você, um mero homem, deseja fazer um trato comigo? — Kaseph lançou umas olhadelas laterais à sua equipe de advogados e acrescentou:

— Hogan, você não tem idéia do tipo de poder com que está tra­tando.

Os demônios também deram risadinhas abafadas. Sim, Hogan, nin­guém pode se meter com o Valente! Natã e Armote não estavam rindo.

— Oh, não — disse Marshall. — É aí que você se engana. Sei, sim, com que tipo de poder estou lidando. Tive umas lições ótimas em todo este negócio, e umas boas palestras do meu amigo aqui.

Marshall abriu a porta e Hank entrou, juntamente com Krioni e Triskal, desta vez não sujeitos a ordens de manter a paz.

O Valente deu um pulo, o queixo pontudo caindo. Os demônios na sala começaram a tremer e tentaram esconder-se atrás das espadas.

— Calma, calma! — disse um dos advogados. — Eles nada são! Mas o Valente pôde sentir a presença do Senhor Deus entrar no aposento com esse homem. O demônio monarca sabia quem ele era.

— Busche! O homem de oração!

E Hank soube com quem se defrontava. O Espírito gritava muito alto no coração de Hank, e aquela cara...

— O Valente, presumo! — disse Hank.

 Sandy perguntou novamente a Madeline:

— Madeline, aonde estamos indo? Por que está me agarrando tanto?

Madeline não respondia mas continuava a puxar Sandy cada vez mais para dentro do túnel. Os amigos de Madeline cercavam Sandy, e não pareciam nada bonzinhos ou delicados. Empurravam-na, agar­rando-a, forçando-a a continuar. Suas unhas eram afiadas.

 As pessoas em volta da mesa de conferência estavam chocadas e perplexas, encontrando-se de súbito na presença de hedionda criatura; jamais haviam visto expressão como essa no rosto de Kaseph, e jamais haviam ouvido uma voz tão malévola. Kaseph ergueu-se da cadeira, a respiração sibilando através dos dentes, os olhos esbugalhados, as costas arqueadas, os punhos fechados.

— Você não me pode derrotar, homem de oração! — berrou o Valente, e os demônios ao seu redor agarraram-se com temerária esperança a essas palavras. — Você não tem poder! Eu já o derrotei!

Marshall e Hank fincaram pé, inflexíveis. Já haviam-se defrontado com demônios antes. Isto nada tinha de novo ou de surpreendente.

Os advogados de Kaseph não conseguiam pensar em nada para dizer.

Marshall estendeu a mão e abriu a porta. Com a cabeça erguida e o rosto cheio de determinação, Susan Jacobson, a Serva, entrou no aposento, seguida pelo irado Kevin Weed, e mais quatro guardas bem altos. A sala estava ficando lotada e tensa.

— Olá, Alex — disse Susan.

Os olhos de Kaseph estavam cheios de choque e temor, mas ainda assim arquejou e tartamudeou:

— Quem é você? Não a conheço. Nunca a vi antes.

— Não diga nada, Alex — aconselhou-o um advogado. Hank adiantou-se. Era hora da batalha.

— Valente — disse Hank em voz firme e resoluta — em nome de Jesus, eu o repreendo! Repreendo-o e ato-o!

 Madeline não a soltava! Suas mãos pareciam de aço gelado en­quanto ela ia puxando Sandy. O túnel estava ficando escuro e frio.

— Madeline! — gritou Sandy. — Madeline, o que está fazendo? Por favor, solte-me!

Madeline mantinha o rosto voltado para a frente e não fitava Sandy. Tudo o que a mocinha podia ver eram os longos e caídos cabelos loiros. As mãos de Madeline eram duras e frias. Estavam machucando os pulsos de Sandy, os dedos cravados na carne.

Sandy gritou desesperada:

— Madeline! Madeline, por favor, pare! — De súbito, os outros espíritos guias a comprimiram por todos os lados. Estavam prensando-a, e suas mãos de aço a feriam. — Por favor, não me está ouvindo? Faça-os parar!

Madeline voltou a cabeça afinal. Seu couro era cor-de-carvão e ressecado. Os olhos eram enormes globos amarelos. O queixo era como a queixada de um leão, e saliva pingava de suas presas. Um rosnado grave, gutural, rugiu-lhe da garganta.

Sandy gritou. De algum lugar nessa escuridão, nesse túnel, nesse nada, nesse estado alterado, nesse abismo de morte e engano, ela gritou da profundidade de sua alma torturada que morria.

Tal saltou da terra. Explodiu numa rajada de asas e luz. O chão ficou para trás e a cidade tornou-se um mapa lá embaixo, enquanto ele arremetia sobre Ashton qual cometa, perfurando as trevas espi­rituais como se fosse uma seta ardente, iluminando o vale todo como um prolongado relâmpago. Ele subiu, circulou; suas asas eram um borrão agitado de jóias.

A trombeta foi erguida aos lábios, e o chamado foi dado como uma onda de choque que fez tremer os céus. Ele ecoou através do vale, e voltou, e voltou, e voltou. Em onda após onda, ele rolou pelo chão, ensurdecendo os demônios, flutuando pelas ruas e rugindo pelas vielas, soando em cada ouvido em torrente após torrente de notas, cada vez mais altas e soando por mais tempo, e o ar pesado e parado foi despedaçado pelo som. Tal tocou e tocou enquanto voava sobre a cidade, as asas refulgindo, as vestes brilhando.

Chegara o momento.

 O Valente calou-se de repente. Seus grandes olhos rolaram de um lado para outro.

— O que foi isso? — sibilou ele.

Os demônios que o cercavam estavam trêmulos e fitavam-no à procura de respostas, mas ele não tinha nenhuma.

Os oito guerreiros celestiais desembainharam as espadas. Era res­posta suficiente.

 Rafar berrou através de Langstrat:

— Eu estou falando aqui! Não prestem atenção a nada mais!

Os demônios tentaram prestar atenção novamente, como fizeram os médiuns que controlavam.

Pela fração de um momento, o aperto de Madeline se enfraqueceu. Mas apenas por um momento.

Mas todos sabiam que tinham ouvido algo.

 Os guerreiros malignos na nuvem foram caindo continuamente sobre a cidade, mas agora seus olhos estavam ofuscados pelo apa­recimento súbito de um único anjo traçando brilhantes riscos lu­minosos de um lado a outro do céu abaixo deles. E o que era essa trombeta horrivelmente alta? As forças celestiais já não estavam der­rotadas? Atreviam-se a pensar que podiam possivelmente defender a cidade?

Subitamente pequenas explosões de luz apareceram por toda a cidade lá embaixo, clarões que não se dissiparam mas permaneceram e cresceram em brilho. Eles engrossaram e aumentaram em número e em densidade. A cidade estava em chamas; estava desaparecendo sob miríades de pequeninas luzes, tão numerosas quanto grãos de areia. Era de cegar!

Os berros lúgubres começaram no centro da nuvem e ondularam na direção das orlas através de camada sobre camada de demônios:

— O Exército Celestial!

Gritos estrondosos começaram a soar no momento em que Tal pousou na sua colina e ergueu sua fulgurante espada bem alto acima da cabeça.

— Pelos santos de Deus e pelo Cordeiro!

Foi o que Tal bradou, foi o que Guilo bradou, foi o que miríades dos guerreiros celestiais bradaram, e toda a paisagem de um lado ao outro do vale, a cidade toda, e mesmo as colinas cobertas de matas que cercavam Ashton explodiram em brilhantes estrelas.

Dos prédios, ruas, vielas, esgotos, lagos, lagoas, veículos, salas, armários, escaninhos, frestas, árvores, moitas e todos os outros es­conderijos imagináveis, estrelas chamejantes romperam o ar.

O Exército Celestial!

 Sandy tremia, debatia-se. A coisa chamada Madeline se apoderara de seus braços; os outros espíritos lhe seguravam as pernas, o pes­coço, o tronco. Eles a mordiam. De algum lugar, a voz do Elevado Senhor, Rafar, dizia:

— Leve-a, Madeline! Nós a temos! Não podemos fracassar agora. Sandy tentava sair do transe, do estado alterado, do pesadelo, mas não conseguia lembrar-se de como fazê-lo. Ela ouviu o tinido me­tálico de correntes. Não! NAAÃÃÃO...

 — Não pode derrotar-me! — berrou o Valente, e seus demônios esperavam, ou melhor, desejavam que fosse verdade.

— Cale-se e saia dele! — ordenou Hank.

Suas palavras jogaram os demônios contra as paredes e atingiram o Valente como um soco.

Kaseph sibilou e cuspiu imprecações e obscenidades ao jovem ministro. Os diretores em torno da mesa estavam mudos; alguns se esconderam debaixo da mesa. Os advogados tentavam acalmar Ka­seph.

— Quero a minha filha! — disse Marshall. — Onde está ela?

— Está tudo acabado — disse Susan. — Dei-lhes os documentos certos! A polícia federal está vindo para pegá-lo, e vou-lhes contar tudo!

De trás dos outros três, Kevin gritou:

— Kaseph, você acha que é tão durão, vamos sair ali fora e resolver isto de homem para homem!

A nuvem descendente de demônios e a bola de fogo ascendente de anjos principiaram a colidir nos céus acima de Ashton. Trovão começou a fender o céu em resposta ao terrível embate de forças espirituais. Espadas chamejavam, e uma saraivada de berros e gritos ecoava pelo céu. Os guerreiros celestiais ceifavam as fileiras demo­níacas como borrões de foices. Os demônios principiaram a cair do céu como meteoros, rodopiando, esfumaçando, dissolvendo.

 Tal, Guilo e o General dirigiram-se qual relâmpagos à faculdade, as espadas prontas, a cidade um borrão em baixo deles. Um regimento muito forte dos exércitos celestiais havia forçado passagem através do ataque demoníaco e começado a isolar o campus da faculdade. Logo haveria um dossel angélico sobre a faculdade dentro do dossel demoníaco sobre a cidade. A destruição das forças inimigas come­çaria ali.

— Eles já quase conseguiram conter o Valente! — gritou Guilo acima do rugido do vento e das asas.

— Encontre Sandy! — ordenou Tal. — Não há tempo a perder!

— O Valente fica por minha conta — disse o General.

— E logo Rafar conseguirá o que deseja — disse Tal.

Eles se espraiaram, arrojaram-se para diante com nova velocidade, e puseram-se a cortar caminho através dos demônios que ainda ten­tavam bloquear a faculdade. Os demônios guerreiros caiam sobre eles como avalanche, mas para Guilo aquilo era bom esporte. Tal e o General podiam ouvir suas vibrantes gargalhadas através do som dos baques da sua lâmina, que atravessava demônio após demônio.

O próprio Tal, sendo prêmio tão valioso para o demônio que o derrotasse, estava ocupado. Os mais horrorosos guerreiros vinham atrás dele, e não caíam facilmente. Ele deslizou de lado pelo ar, abateu um espírito com a espada, produziu uma nuvem com um rodopio e partiu o próximo guerreiro com a força de uma serra. Dois outros mergulharam sobre ele; ele arremeteu contra os dois, tres­passou o primeiro ao passar por ele, agarrou a ponta de sua asa e rodopiou em torno dele num círculo apertado, chegando por trás do Outro, sua lâmina como uma bala. Eles sumiram numa nuvem de fumaça vermelha. Escorregando pelas garras de diversos outros, ele mergulhou em seguida e ziguezagueou na direção da faculdade, des­troçando demônios na passagem. Podia ouvir Guilo ainda rugindo e rindo em alguma parte acima de seu ombro esquerdo.

 A sala de conferência perdia rapidamente a atmosfera calma. Delores Pinckston estava perturbada.

— Eu sabia! Sabia! Sabia que estávamos nos enterrando demais!

— Hogan — disse Eugene Baylor — você está apenas blefando. Não tem nada.

— Tenho tudo e você sabe disso.

Kaseph estava começando a parecer muito doente.

— Saiam! Saiam daqui! Eu os matarei se não saírem!

Era esse o verdadeiro Kaseph que Marshall havia procurado todo aquele tempo? Era esse o implacável bandido oculto que controlava um tão vasto império internacional? Estava ele na realidade com medo?

— Você está frito, Kaseph! — disse Marshall.

— Você está derrotado, Valente! — disse Hank.

O Valente começou a tremer. Os demônios na sala podiam apenas encolher-se.

— Então, façamos um trato — ofereceu Marshall novamente. — Onde está a minha filha?

 Brummel estava quase tendo uma síncope, e desejava realmente poder ter uma. Era horrível! Os outros estavam sentados à volta da sala ouvindo embevecidos essa besta falar através de Langstrat, e chegando ao ponto de saborear o que estava acontecendo a Sandy. Ela tremia e se sacudia na cadeira, gemendo, gritando, debatendo-se contra um assaltante invisível.

— Solte-me! — gritou ela. — Solte-me!

Seus olhos estavam muito abertos, mas o que ela via eram horrores indizíveis de outro mundo. Ela arfava, tentando respirar, pálida de terror.

Ela vai morrer, Brummel! Eles vão matá-la!

A criatura pesada, de olhos saltados, sentada na cadeira de Langs­trat estava berrando numa voz que fazia as entranhas de Brummel trepidarem.

— Você está perdida, Sandy Hogan! Está em nossas mãos agora! Você nos pertence, e somos a única realidade que conhece!

— Por favor, Deus — berrou ela. — Tire-me daqui, por favor!

— Venha conosco! Sua mãe fugiu, seu pai está morto! Ele se foi! Não pense mais nele! Você nos pertence!

O corpo de Sandy amoleceu na cadeira, como se ela tivesse sido baleada. De súbito, o desespero fez com que seu rosto se tornasse insensível.

Brummel não agüentou mais. Antes de ter tempo de perceber o que fazia, pulou da cadeira e correu até ela. Sacudindo-a delicada­mente, ele tentou falar-lhe.

— Sandy! — implorou. — Sandy, não lhes dê ouvidos! É tudo mentira! Está-me ouvindo? Sandy não podia ouvi-lo.

Mas Rafar podia. Langstrat ergueu-se com um salto e berrou com Brummel na mesma voz profunda, demoníaca:

— Quieto, seu diabinho, e saia daí! Ela me pertence! Brummel ignorou-a.

— Sandy, não dê ouvidos a esse monstro mentiroso. É Alf Brummel quem está falando com você. Seu pai está bem.

A fúria de Rafar cresceu tanto que o corpo de Langstrat quase explodiu com a intensidade dela.

— Hogan está derrotado! Está na cadeia!

Brummel olhou bem nos olhos enlouquecidos de Langstrat, e de Rafar, e gritou:

— Marshall Hogan está livre! Hank Busche está livre! Eu mesmo os soltei! Eles estão livres, e vêm para destruir vocês!

Rafar foi detido por um momento. Simplesmente não podia crer nos disparates desse fracote, desse insignificante fantoche que nunca havia agido de forma tão atrevida quanto agora. Mas estão Rafar ouviu uma risadinha abafada muito imprópria vindo de trás de Brummel, e viu uma cara familiar e zombeteira.

Lucius!

 Tal e Guilo mergulharam rumo ao Prédio da Administração, mas de repente Tal se deteve bruscamente.

— Espere um pouco! O que é isso?

 Lucius puxou a espada e disse:

— Você não é tão poderoso, Rafar! Seu plano fracassou, e sou o único e verdadeiro Príncipe de Ashton!

A espada de Rafar retiniu ao sair da bainha.

— Atreve-se a me enfrentar?

A espada de Rafar cortou os ares com uma rajada de vento, mas Lucius deteve a grande lâmina com a sua; a força do golpe quase o fez rolar.

Os muito demônios na sala ficaram assustados e confusos. Solta­ram seus hospedeiros. O que era isso?

 Kaseph estava indignado com seus advogados e chegou mesmo a dar alguns socos na direção deles.

— Parem com isso! Não me dirão o que hei de fazer! Este mundo é meu! Quem manda aqui sou eu! Eu digo o que é e o que não é! Essa gente toda é um bando de idiotas e mentirosos, cada um deles!

Susan falou diretamente a Kaseph.

— Você, Alexander Kaseph, é responsável pelo assassínio de Pa­trícia Krueger e pela tentativa de assassínio da minha pessoa e do Sr. Weed aqui presente. Tenho muitas listas que o ajudei a compilar, listas de pessoas que acabaram mortas por ordem sua.

— Assassínio! — exclamou um dos diretores. — Sr. Kaseph, é verdade?

— Não responda — disse um advogado.

— Não! — berrou Kaseph.

Diversos outros diretores se entreolharam. A esta altura, conhe­ciam Kaseph bem o suficiente. Não acreditaram nele.

— O que diz, Kaseph? — perguntou Marshall sombriamente.

O Valente desejava de todo o coração maligno investir sobre esse cão de caça atrevido e dar cabo dele, e era o que teria feito, com guardas ou sem guardas, se não fosse por aquele horroroso homem de oração que lhe barrava o caminho.

 Langstrat dirigiu-se como um leão na direção de Brummel, en­quanto muitos dos médiuns, tendo perdido seus espíritos guias, saí­ram dos transes a fim de ver o que cargas d'água havia acontecido.

— Acabarei com você por esta traição! — sibilou ela a Brummel.

— O que é isto? — exigiu Oliver Young. — Vocês dois ficaram loucos?

Brummel fincou o pé e apontou um dedo trêmulo a Langstrat.

— Não mandará mais em mim. Este plano não dará certo para a sua glória. Não o permitirei!

— Cale-se, seu idiota! — ordenou Langstrat.

— Não! — gritou Brummel, instigado pelo endoidecido e atrevido Lucius. — O Plano está condenado. Fracassou, como eu sabia que fracassaria.

 — E você está condenado, Rafar! — gritou Lucius, desviando-se das investidas letais da espada de Rafar. — Está ouvindo a batalha lá fora? Os Exércitos Celestiais estão por toda a parte!

— Traição! — sibilou Rafar. — Pagará por sua traição!

— Traição! — gritaram alguns demônios.

— Não, Lucius fala a verdade! — gritaram outros em resposta.

 Sandy forçou-se a olhar naqueles malignos olhos amarelos e im­plorou:

— O que... o que lhe aconteceu, Madeline? Por que mudou? Madeline apenas cacarejou e respondeu:

— Não acredite no que vê. O que é o mal? Nada mais que ilusão. O que é a dor? Nada mais que ilusão. O que é o medo? Nada mais que ilusão.

— Mas você mentiu para mim! Enganou-me!

— Jamais fui diferente do que sou. Foi você quem enganou a si mesma.

— O que vai fazer?

— Vou libertá-la.

No exato momento em que Madeline proferiu essas palavras, os braços de Sandy caíram subitamente puxados por peso tão enorme que ela quase foi ao chão.

Correntes! Elo após elo de correntes brilhantes e pesadas, pen­duradas à volta de seus pulsos e braços. Mãos retorcidas envolviam-na rapidamente. Os elos frios e contundentes batiam contra as suas pernas, seu corpo, seu pescoço. Ela já não podia debater-se. Tentou gritar, mas seu fôlego se fora.

— Agora você está livre! — disse Madeline exultante.

 

Brummel começou a falar por si.

— As autoridades... o procurador geral do estado... Justin Par­ker. .. a polícia federal! Eles sabem de tudo!

— O quê? — gritaram alguns médiuns, pulando das cadeiras. Co­meçaram a fazer perguntas, a entrar em pânico.

Young tentava manter a ordem, mas não estava conseguindo.

 Rafar soltou Langstrat a fim de melhor poder cuidar desse presunçoso traidor.

 Langstrat saiu bruscamente do transe e sentiu a energia psíquica na sala debandando.

— Voltem aos seus lugares, todos! — gritou ela. — Não cumprimos o nosso propósito aqui! — Ela fechou os olhos e chamou:

— Rafar, por favor, volte! Promova ordem!

 Mas Rafar estava ocupado. Lucius era menor, mas era muito rápido e muito decidido. As duas espadas relampejavam pela sala como fogos de artifício, queimando e retinindo. Lucius esvoaçava em torno da cabeça de Rafar como um marimbondo irritante, investindo, gi­rando e retalhando. A sala toda encheu-se das asas rodopiantes de Rafar e das explosões de seus arquejos, e sua grande espada traçava labaredas rubras no ar.

— Traidor! — berrou Rafar. — Eu o despedaçarei!

 Langstrat moveu-se na direção de Brummel com olhos tresloucados.

— Traidor! Eu o despedaçarei!

— Não — murmurou Brummel com os olhos esbugalhados, a mão indo ao lado.

— Não desta vez... não mais! Young gritou com os dois:

— Parem com isso! Não sabem o que estão fazendo!

 

Os demônios dividiam-se em facções.

— O Príncipe Lucius fala a verdade! — diziam alguns. — Rafar nos levou à ruína!

— Não, é Lucius quem está ajudando o inimigo!

— Vocês é que estão fazendo isso, mas nós salvaremos a nossa pele!

Outras espadas rebrilharam à vista.

Rafar sabia que estava perdendo o controle.

— Tolos! — rugiu ele. — Isto é um truque do Inimigo! Ele está tentando nos dividir!

Bastou apenas aquele breve instante em que os olhos de Rafar se fixaram na briga de seus demônios e não na espada de Lucius.

 Bastou apenas aquele único momento de terror para Brummel se descontrolar. Ele apontou o revólver policial para a furiosa Langstrat.

 A lâmina de Lucius cantou pelo ar e deslizou logo abaixo da espada do adversário. A ponta penetrou profundamente no couro de Rafar e abriu seu flanco com um corte profundo, borbotoante.

 Langstrat fez um único movimento errado e a bala entrou-lhe com um baque no peito.

 Na sala de conferência, todos ouviram o tiro. Numa fração de segundos, Marshall estava no corredor.

Este mundo tenebroso - volume 01 - Capítulo 39


 Seguindo as instruções de Juleen Langstrat, todos os mé­diuns sorridentes, juntamente com Sandy e Shawn, aco­modaram-se confortavelmente nas cadeiras e sofás macios, dispostos em tosco círculo em volta da sala.

— Este é um dia significativo — disse Langstrat calidamente.

— Sim, é verdade! — disse Young.

Os outros também concordaram. Sandy devolveu-lhes os sorrisos. Estava muito impressionada com a reverência que todos pareciam ter por essa extraordinária mulher, essa extraordinária pioneira.

Langstrat assumiu a posição de loto na grande cadeira em que estava sentada à testa do grupo. Diversos outros que tinham o desejo e a flexibilidade imitaram-na. Sandy apenas descontraiu-se onde estava, acomodando-se no sofá e reclinando a cabeça de encontro ao encosto.

— Nosso propósito aqui é o de combinar nossas energias psíquicas a fim de garantir o sucesso do empreendimento de hoje. Nossa tão esperada meta breve será realizada: o campus da Faculdade Whit­more, e depois dele toda a cidade de Ashton, vão tornar-se parte da Nova Ordem do Mundo.

Todos na sala começaram a aplaudir. Sandy também aplaudiu, embora não soubesse de fato de que Langstrat falava. Não obstante, era algo que parecia vagamente familiar. Fora seu próprio pai quem havia dito algo acerca da existência de gente que desejava tomar a cidade? Oh, mas ele não podia ter falado sobre a mesma coisa!

— Tenho um maravilhoso novo Mestre Elevado para lhes apre­sentar — disse Langstrat, e os rostos em toda a volta da sala se iluminaram com excitação e expectativa. — Ele viveu muito e viajou a lugares longínquos, e adquiriu a sabedoria de diversas eras. Veio a Ashton a fim de supervisionar este projeto.

— Damos-lhe as boas vindas — disse Young. — Como se chama?

— Seu nome é Rafar. É um príncipe da Antigüidade, e já reinou sobre a antiga Babilônia. Viveu muitas vidas, e agora retorna com o propósito de nos permitir beneficiar com a sua sabedoria —. Langstrat fechou os olhos e respirou profundamente. — Chamemo-lo, e ele nos falará.

Sandy podia sentir um mal-estar na boca do estômago. Achou que estava gelada. Os arrepios nos braços eram suficientemente reais. Mas ela colocou essas sensações sob controle, fechou os olhos, e começou sua própria descontração, ouvindo atenta o som da voz de Langstrat.

Os outros também se descontraíram e entraram em transe pro­fundo. Durante um momento, a sala ficou em silêncio exceto pelos profundos fôlegos inalados e exalados por todos os presentes. Então o nome se formou nos lábios de Langstrat.

— Rafar. . . Todos ecoaram:

— Rafar. . .

Langstrat chamou o nome outra vez, e continuou chamando, e os outros deixaram que seus pensamentos se afunilassem àquele único nome enquanto o repetiam baixinho.

 Rafar estava em pé ao lado da grande árvore morta, observando exultante a nuvem espalhar-se sobre a cidade. Ao som do chamado, seus olhos se entrefecharam com uma expressão muito astuciosa e sua boca distendeu-se lentamente num riso que pôs as presas à mos­tra.

— As peças estão-se encaixando agora — disse. Voltando-se para um auxiliar, perguntou:

— Alguma notícia do Príncipe Lucius? O auxiliar relatou satisfeito:

— O Príncipe Lucius diz que averiguou todas as frentes e não encontrou nenhum problema ou resistência.

Rafar agitou dez demônios monstros com um repassar da asa, e eles se reuniram ao seu lado num instante.

— Venham — disse ele — terminemos este negócio.

As asas de Rafar agitaram-se para baixo, e ele arremeteu ao ar, seus dez capangas seguindo-o como guarda de honra real. Bem acima, a nuvem estendia-se pelo céu como um dossel opressivo a bloquear a luz, sua sombra do mal e das trevas espirituais caindo sobre a cidade. Enquanto Rafar deslizava sobre Ashton num arco elevado, podia olhar para cima e ver as miríades de olhos amarelos e as espadas rubras acenando em saudação. Ele acenou de volta com a própria espada, e eles soltaram brados de júbilo, suas incontáveis espadas agitando-se para baixo como um campo invertido de trigo rubro agitado pelo vento. Eles encheram o ar de enxofre.

À frente e muito abaixo, encontrava-se o campus Whitmore, a mais madura das ameixas. Rafar diminuiu a rotação das asas e começou a descer na direção do Prédio da Administração.

Enquanto descia, viu a grande limusine que levava o Valente subir pela entrada circular e parar em frente da porta do prédio. O quadro encheu-o de excitação. Chegara o momento! Ele e os demônios acom­panhantes sumiram através do teto do prédio no exato momento em que o Valente e seu hospedeiro humano emergiam do carro.. . e um pouco antes da hora em que veria uma fila de carros não muito distantes daquela limusine, agora encontrando lugares de estacio­namento aqui, ali e em toda a parte.

Alf Brummel saiu de chofre do seu carro. Postou-se apenas um instante, criando coragem, e em seguida dirigiu-se à porta principal do prédio com passos rígidos, nervosos.

Marshall estacionou seu carro, e os cinco ocupantes desceram. À volta toda podiam ouvir portas de carros batendo enquanto o Re­manescente encontrava lugares para estacionar e então se reuniam.

— Brummel não parece muito contente — observou Marshall. Os outros quatro olharam a tempo de ver Brummel entrar pela porta da frente.

— Talvez ele vá avisar Kaseph — disse Berenice.

— E então, onde estão os nossos amigos poderosos? — perguntou Marshall.

— Não se preocupe... pelo menos não muito. Eles disseram que estariam aqui.

Susan disse:

— Estou certa de que a reunião deverá ocorrer na sala de confe­rência do terceiro andar. É onde o conselho diretor geralmente se reúne.

— E onde posso encontrar Sandy? — perguntou Marshall. Susan meneou a cabeça.

— Isso não sei.

Eles se apressaram na direção do prédio, e de todos os lados o Remanescente convergiu à escadaria da frente.

 Lucius podia sentir a tensão no ar, como se fosse uma enorme argola de elástico esticada ao limite e prestes a arrebentar-se. Enquanto descia silenciosamente do céu e pousava no teto do prédio Ames Hall, do outro lado do pátio do Prédio da Administração, ele podia ver que a nuvem ainda estava abaixando seu perímetro, estirando espessa cortina em volta de toda a cidade. A atmosfera tornava-se pesada e sufocante com a presença de tantos espíritos fétidos.

De súbito, ele ouviu frenético adejar atrás de si e voltando-se, viu um demoniozinho sentinela, vil criatura, um fofoqueiro, alçando vôo a fim de lhe falar.

— Príncipe Lucius, há gente reunindo-se lá embaixo! Eles não são dos nossos! São santos de Deus! — arquejou a coisinha.

Lucius irritou-se.

— Eu tenho olhos, insetozinho! — sibilou ele. — Não lhes preste atenção.

— Mas e se eles começarem a orar?

Lucius agarrou o demoniozinho por uma asa, e ele pôs-se a esvoaçar em patéticos e diminutos círculos da ponta do braço do prín­cipe.

— Você, fique calado!

— Rafar precisa saber!

— Silêncio!

A criaturinha aquietou-se, e Lucius a levou à orla do teto para breve lição.

— E daí se eles orarem? — disse Lucius em tom paternal. — Isso os ajudou até agora? Atrapalhou um pouco que seja o nosso pro­gresso? E você já viu o poder e a força de Baal Rafar, não viu? — Lucius não pôde evitar o tom sarcástico com o qual acrescentou:

— Você sabe que Rafar é todo-poderoso, e imbatível, e não precisa da nossa ajuda! — O demoniozinho ouvia com os olhos esbugalhados. — Não amolemos o grande Baal Rafar com nossas preocupações insignificantes! Ele pode cuidar deste empreendimento... sozinho!

 Tal permaneceu firme e continuou a vigiar. Guilo foi ficando cada vez mais irrequieto, andando de um lado para outro, olhando de uma ponta da cidade à outra.

— Logo o perímetro estará inteiramente circunscrito — disse ele. — Eles terão envolvido a cidade toda, e não haverá escape.

— Escape? — disse Tal, o sobrolho erguido.

— Puramente uma consideração tática — replicou Guilo, dando de ombros.

— O momento está-se aproximando muito rápido agora — disse Tal, olhando na direção da faculdade. — Em apenas alguns minutos, todos os jogadores estarão em seus lugares.

 Os demônios na sala de conferência podiam senti-lo chegando, e prepararam-se. Os pêlos de seus braços, nucas e costas se arrepiaram. Uma escuridão, uma rastejante nuvem de maldade vinha descendo pelo corredor. Rapidamente, cada qual se inspecionou a fim de as­segurar-se de que nada estivesse fora do lugar, que sua aparência estivesse impecável.

A porta se abriu. Em respeito e homenagem, eles se postaram rígidos.

E lá estava ele, o Valente, que nada ficava a dever ao mais horrendo pesadelo.

— Boa tarde a vocês — disse ele.

— Boa tarde ao senhor — responderam a Alexander Kaseph os diretores e advogados enquanto ele entrava na sala e começava a apertar-lhes as mãos.

 Alf Brummel não tinha o menor desejo de encontrar-se com Alex­ander Kaseph. Até esperou a fim de tomar um elevador diferente. Quando o elevador se deteve no terceiro andar, ele espiou para ver se havia alguém por lá antes de sair. Somente depois de ter ouvido o estalido que a grande porta da sala de conferências mais adiante no corredor fez ao fechar-se foi que se pôs a caminhar pelo corredor, dirigindo-se muito silencioso à Sala 326.

Ele se deteve por um momento à porta, escutando atentamente. Estava muito quieto lá dentro. A sessão devia estar em progresso. Muito devagar, ele girou a maçaneta e abriu a porta apenas o sufi­ciente para enxergar dentro do aposento. Sim, lá estava a Langstrat meditando, os olhos cerrados. Era a única com quem Brummel se preocupava, e no momento ela não estava olhando.

Entrando na sala silenciosamente, ele encontrou uma cadeira na metade do círculo que rodeava Langstrat. Correu os olhos à sua volta, avaliando a situação. Sim, estavam chamando um certo guia espírito. Ele jamais ouvira esse nome específico antes. Essa entidade devia ser um novo personagem trazido ao projeto desse dia.

Oh, não. Lá estava Sandy Hogan, também meditando. Ela também estava chamando o nome. Bem, Brummel, o que você faz agora?

 No lado de fora, o Remanescente estava pronto para receber ordens. Hank e Marshall deram-lhes um muito resumido relatório da presente situação, e a seguir Hank concluiu:

—   Nós de fato não sabemos o que vamos encontrar lá dentro, mas sabemos que precisamos entrar, ao menos para ver se conseguimos localizar Sandy. Não há dúvida de que esta é uma batalha espiritual, por isso sabem o que todos têm de fazer.

Todos sabiam, e estavam prontos. Hank continuou:

— Andy, gostaria que você, Edith e Mary tomassem conta aqui e dirigissem as orações e a adoração. Eu entrarei com Marshall e os outros.

Marshall conferenciou com Berenice.

— Fique aqui para ver quando os nossos visitantes chegarem. Nós outros entraremos e tentaremos descobrir onde essa reunião está ocorrendo.

Marshall, Hank, Kevin e Susan entraram no prédio. Berenice di­rigiu-se a um lugar vazio nos degraus e sentou-se para vigiar e esperar. Não podia deixar de observar o Remanescente. Havia algo a respeito daquelas pessoas que lhe trazia uma sensação muito familiar, e muito... bem, muito maravilhosa.

 Rafar e seus dez acompanhantes haviam estado na sala por um bom tempo a esta altura, apenas ouvindo e observando. Afinal, Rafar chegou por trás de Langstrat e cravou bem fundo as garras no crânio da mulher. Ela se contorceu e pareceu sufocada por um instante e então, aos poucos, de forma horrenda, sua fisionomia assumiu indubitavelmente as expressões do próprio Príncipe da Babilônia.

— Deveeeeras! — disse a voz grave e gutural de Rafar saindo da garganta de Langstrat.

Todos no aposento se estremeceram. Diversos olhos se abriram com um sobressalto, e depois se arregalaram ao darem com Langstrat, os olhos esbugalhados, os dentes à mostra, as costas arqueadas como um leão de bote armado. Brummel só podia encolher-se e desejar poder desaparecer na cadeira antes que aquela coisa o notasse. Mas ela estava fitando Sandy, babando.

— Deveeeeras! — disse novamente a voz. — Vocês se reuniram a fim de verem seu sonho verdadeiramente realizado? Será feito! — A criatura sentada na cadeira apontou um dedo torto a Sandy. — E quem é essa nova participante na busca da sabedoria oculta?

— S... Sandy Hogan — respondeu ela, os olhos ainda fechados. Estava com medo de abri-los.

— Fiquei sabendo que você tem andado por muitos caminhos com sua instrutora Madeline.

— Sim, Rafar, é verdade.

— Desça dentro de si de novo, Sandy Hogan, e Madeline a encon­trará aí. Esperaremos.

Sandy teve apenas uma fração de segundo em que perguntar-se como conseguiria descontrair-se o suficiente para chegar a um estado alterado. Então um espírito limboso atrás dela, com cara de morte, agarrou-lhe a cabeça com a mão ossuda, e ela afundou imediata­mente. Seus olhos rolaram para cima, ela murchou na cadeira, e sentiu seu corpo se dissolvendo, juntamente com seus pensamentos racionais e os temores que a incomodavam. Todas as sensações ex­ternas começaram a se desvanecer, e ela flutuava em puro e extático nada. Ouviu uma voz, muito conhecida.

— Sandy — chamou a voz.

— Madeline — respondeu ela. — Já vou!

Madeline apareceu das profundezas de um túnel sem fim, flu­tuando em sua direção, os braços estendidos. Sandy dirigiu-se ao túnel a fim de encontrar-se com ela. Madeline entrou em foco, os olhos brilhantes, o sorriso como cálida luz do sol. Suas mãos se encontraram e se agarraram com força.

— Bem-vinda! — disse Madeline.

Alf Brummel viu tudo acontecer. Podia ver a expressão aboba­lhada, extática no rosto de Sandy. Eles iam tomá-la! Tudo o que podia fazer era sentar-se a remexer-se e tremer e suar.

 Lucius flutuou silenciosamente através do teto do Prédio da Ad­ministração e pousou no terceiro andar, recolhendo as asas atrás de si. Podia ouvir Rafar berrando e se vangloriando na sala dos professores; podia ouvir o Valente repassando os comentários preliminares na sala de conferência. Até aí, nenhum temor ou suspeita.

Ouviu o elevador se abrir adiante no corredor e depois os passos de diversas pessoas. Sim, devia ser Hogan, o cão de caça, e o homem de oração, Busche, e a pessoa que o Valente mais detestaria ver com vida: a Serva.

De repente houve um agitar de asas e frenético arquejar. Um de­mônio arremeteu pelo corredor em sua direção, as asas vibrando, a cara cheia de terror.

— Príncipe Lucius! — gritou ele. — Traição! Fomos logrados! Ho­gan e Busche estão livres! A Serva está viva! Weed está vivo!

— Silêncio! — advertiu Lucius.

Mas o demônio apenas continuou a arenga:

— Os santos estão reunidos e orando! Precisa avisar o Baal...

O palavrório do demônio cessou abruptamente em um gorgolejar sufocado, e ele fitou Lucius com os olhos cheios de horror e per­guntas. Ele começou a encolher. Suas garras tentavam alcançar Lu­cius no esforço de manter-se reto. Lucius puxou a espada da barriga do demônio e revolveu-a num arco chamejante através do seu corpo evanescente. O demônio desintegrou-se, dissolvido numa lufada de fumaça vermelha.

 Do lado de fora, nos degraus da frente, enquanto transeuntes olha­vam e pasmavam, o Remanescente orava.

 Sandy podia ver outros belos seres saindo do túnel atrás de Ma­deline.

— Oh... — perguntou ela — quem são?

— Novos amigos — disse Madeline. — Novos espíritos guias que a levarão cada vez mais alto.

 Alexander Kaseph começou a trocar documentos e contratos im­portantes com os diretores e advogados. Estavam discutindo os pe­queninos detalhes que precisavam ser acertados. A maioria era de pouca importância. Não demoraria muito.

 A nuvem enfim completou o cerco em torno da cidade de Ashton. Tal e sua companhia encontraram-se presos debaixo de espessa e impenetrável tenda de demônios. As trevas espirituais tornaram-se profundas e opressivas. Era difícil respirar. O zumbido constante de asas parecia permear todas as coisas.

De repente, Guilo sussurrou:

— Estão descendo!

Todos os olhares se ergueram e puderam divisar o teto de demô­nios, aquele cobertor negro tinto de fervilhante vermelho e amarelo, começando a assentar, chegando cada vez mais perto da cidade. Logo Ashton estaria soterrada.

Diversos carros estavam dobrando a Rua da Faculdade. O primeiro deles levava o Promotor Municipal Justin Parker, o segundo Eldon Strachan e o Secretário da Justiça Norm Mattily, o terceiro Al Lemley e três agentes da polícia federal. Quando passavam por uma intersecção, um quarto veículo dobrou à direita e juntou-se ao cortejo. Esse era o carro que transportava o fiel e leal contador Harvey Cole, com considerável pilha de papéis ao seu lado no assento.

 Tal segurava agora uma trombeta dourada na mão, agarrando-a com muita força, cada músculo e cada tendão retesados. — Preparem-se! — ordenou ele.