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segunda-feira, 3 de maio de 2021

Por esta cruz te matarei - Capítulo 24


 ALÉM DO HORIZONTE

Primeiramente fui a Bogotá e passei três dias com a mãe de Glória. O chamado tão insistente para descer o rio dera-me uma perspectiva de minha dor. Eu perdera Glória. Mas ainda tinha Bobby.

Em vez de voltar a Tibu, voei para os Estados Unidos, a fim de abordar o assunto deste livro. Passei três semanas lá. Quando voltei à América do Sul, Bobby encontrou-se comigo em Tibu. Eu estava cansado da civilização e feliz por estar de volta às selvas.

Mas a civilização ainda necessitava de mim. Os proscritos naquela região estavam conspirando a forçar os motilones a irem muito além de seu território. Em nossa viagem rio acima, fomos ameaçados por Humberto Abril. Tentei rejeitar isso, porém as suas palavras estavam continuamente se repetindo em minha mente.

"Por esta cruz, eu te matarei", ele dissera. Elas eram palavras tão frias e ameaçadoras.

Novas ameaças chegaram através de cartas — não apenas para mim, mas para Bobby também. Uma das cartas informava-o de que todos os motilones teriam que sair porque eles (os proscritos) iriam apossar-se da terra. Eles ameaçavam violência.

No dia seguinte, o sócio de Humberto Abril, Graciano, e mais cinco pessoas, chegaram numa canoa a Iquiacorora. Encontrei-me com ele na margem do rio.

— Quem são aquelas pessoas? — perguntei.

— Elas estão doentes e precisam de cuidados médicos — ele disse. — Um deles está com uma infecção muito ruim. Os outros precisam de algum cuidado, por isso vieram comigo.

— Oh, sim — ele acrescentou. — Eu lhe trouxe uma carta, também —. Ele ma entregou e depois se dirigiu ao centro de saúde com os outros companheiros.

Tirei a minha faca e abri o envelope. A carta era de Abril.

— "Saia daqui", ela dizia. "Esta terra deve ser colonizada e nós vamos matá-lo. Qualquer índio que fizer resistência, será eliminado."

Profundamente enraivecido subi a colina, indo ao centro de saúde. Meti a carta no rosto de Graciano.

— Leia-a — ordenei.

Ele sacudiu a cabeça. — Eu não sei ler.

— Pois bem, eu vou lê-la para você — . E eu a ü em voz alta.

— Até que ponto vocês pensam que somos bobos?

— perguntei. — Vocês nos ameaçam com morte, e no entanto esperam que curemos os seus doentes alegremente. Recebam o seu tratamento e saiam daqui em seguida. E não se preocupem em voltar aqui.

Naquela noite os chefes motilones se reuniram comigo, para discutirmos o problema.

— Nós resolvemos que lutaremos se eles usarem de violência — eles me disseram. — Estamos nos preparando agora. Tencionamos arranjar algumas armas e usá-las juntamente com as nossas flechas, para defendermos as nossas casas.

Eles me perguntaram o que eu pensava a respeito daquele plano.

— Eu não penso nada — disse. — Eu apóio o que vocês decidirem, como sempre.

Passaram-se dois meses de grande tensão. Mais e mais ameaças foram feitas, particularmente contra os motilones que haviam construído pequenas casas ao longo do rio.

Bobby e eu trabalhávamos na tradução de Filipenses. Era uma das ocasiões mais intensas, mais extraordinárias que já tivéramos. Parecia que as nossas mentes estavam preocupadas com a morte, por causa do inevitável conflito com os colonizadores. E Filipenses nos falava a respeito dessa morte!

Enquanto trabalhávamos no primeiro capítulo, chegamos ao versículo vinte, onde Paulo diz que a sua grande esperança é aquela de não se envergonhar, mas que Cristo seja exaltado nele, tanto na vida como na morte.

Eu precisava da palavra certa para esperança. Um motilone espera ir para a cama à noite, porém aquela palavra não dava muita força.

O centro de emoção para um motilone é o seu estômago. Ter estômago cheio é sentir o coração alegre. Qual era a maneira certa de ter um estômago cheio? Talvez fosse a de ter caçado e morto uma grande anta. Você come anta até não poder mais.

Então eu tomei o verbo que significava possuir uma anta, e inventei um novo tempo: eu o pus no tempo futuro de algo que houvesse acontecido, e depois eu fiz dele um superlativo.

Mostrei a palavra a Bobby. Isso o chocou. — Não — disse ele. — Essa palavra é grande demais. Ela tem muita força. Como é que você pode esperar uma coisa tão grande assim?

Nós a deixamos de lado, porém ela deve ter preocupado Bobby. Dois ou três dias mais tarde ele disse: — Bruchko, vamos voltar àquela palavra.

— Está certo — disse eu.

Ele esteve em silêncio por uns instantes, pensando, e depois disse: — Bruchko, Jesus é essa esperança para você, em sua vida? Realmente?

Aquilo me fez parar. Uma coisa é pensar na palavra certa a ser usada, e outra completamente diferente é ser indagado se ela é verdade em sua própria vida. Pensei na minha conversão, e em algumas das crises que eu suportara com os iucos e os motilones. Finalmente, depois de um longo silêncio, eu disse: — Sim.

Então assenti com a cabeça vigorosamente. — Sim, Bobby. Com todas as minhas forças e todo o meu desejo, quero dar-me a mim mesmo a essa esperança em Jesus Cristo.

Bobby olhou para os seus pés. — Sim — disse ele. — É uma boa palavra.

— Você tem certeza? — perguntei. Ele assentiu com a cabeça.

Continuando com a tradução, chegamos àquela parte onde Paulo diz que deseja conformar-se à imagem de Jesus Cristo, através de seu próprio sofrimento ou de sua morte. Bobby tomou aquela mesma construção gramatical forte que acabávamos de usar, — alguma coisa já realizada, no entanto ainda no futuro, numa forma superlativa — e aplicou-a ao verbo que dá a idéia de conformidade com Cristo.

— Eu estarei completo na conformidade com a morte de Cristo — ele disse.

Senti-me sobrecarregado, como se estivesse levando ambos os pesos, o de Bobby e o meu. Que é que eu fizera? Eu trouxera Jesus Cristo aos motilones, era verdade, mas estava eu pronto a trazer-lhes essa espécie de conformidade — conformidade com a morte de Cristo? Trouxera eu a morte, tanto quanto a vida? Eu estava ansioso por orar. Bobby estava ainda mais ansioso do que eu. Mas a oração de Bobby fez-me sentir arrepios pelo corpo todo.

— "Jesus Cristo, quero estar conforme à tua imagem. Tu és a minha expectativa."

Naquela atmosfera carregada de perigo, aquela oração parecia audaciosa. Bobby estava dizendo: Não me importa se eu vivo ou morro; quero ser semelhante a Jesus. Ele estava entregando a sua vida.

Durante as três semanas seguintes, tudo estava calmo. Esperávamos ouvir mais alguma coisa dos proscritos, mas não chegou palavra alguma. Talvez tivesse sido um jogo, uma ameaça desnecessária, que nunca seria levada a termo.

Bobby precisava descer o rio para vender alguns cachos de banana. Ele levou mais dois motilones consigo. Ele era esperado de volta lá pelas quatro horas do dia seguinte. O rio estava na sua altura normal; a canoa estava em boas condições e não havia razão alguma para que ela retardasse. Mas as quatro horas chegaram, e depois cinco horas, e ainda assim nenhum sinal de Bobby. Comecei a preocupar-me. Eu não gostara nada de vê-lo partir. Agora a minha mente estava cheia de coisas que poderiam ter acontecido a ele. Eram seis horas. O sol se pôs. Somente o rio é que brilhava fracamente na penumbra. Na selva, os barulhos noturnos começaram a surgir. Eles eram uma parte natural da vida e eu dificilmente os notava, mas naquela noite, cada um deles parecia um agouro.

Às seis e meia, Abacuriana, Asrayda, George Camiyocbara e eu tomamos uma canoa e descemos o rio em busca de Bobby e sua canoa. Os outros não estavam muito ansiosos em ir. Não é muito fácil viajar pelo rio à noite. Não havia lua, e as rochas podiam surgir no caminho de nosso barco, sem aviso algum. Depois de passar pelas primeiras correntezas, a canoa se encheu de água. Nós a esvaziamos e depois prosseguimos. Nas outras correntezas arranhamos a nossa hélice de encontro a uma rocha, porém pudemos consertá-la e continuamos a viagem.

Quando fizemos a curva do rio, uma outra canoa surgiu na escuridão. Nós quase a batemos. Iluminei-a com a minha lanterna e vi Aniano Buitrago, um dos homens de Humberto Abril, e mais alguns de seu bando. Não conversei com eles, mas mantive o foco de luz sobre os seus olhos, de modo que eles não pudessem nos reconhecer. Num instante o rio nos afastara rapidamente deles. Mas, que é que estavam eles fazendo, à noite, no rio?

Um pouco mais à frente, encontramos outra canoa que ia rio acima. Ela estava cheia de foragidos da lei. Os raios de luz de nossa lanterna vasculharam a praia, enquanto procurávamos Bobby ou a sua canoa. Não havia sinal algum dele.

Mais duas canoas passaram por nós, indo rio acima, cheias de homens que eu não conhecia. Então passamos junto à casa de um dos colonizadores. Havia ali, pelo menos, umas dez canoas amarradas ao desembarcadouro. A noite parecia cheia de ameaça.

Então George sussurrou: — Veja! Não é a canoa de Bobby?

— Ele estava apontando para o desembarcadouro. Firmei a vista para ver, mas não podia afirmar. Chegamos mais perto. Não poderia ser a de Bobby. Ele não iria parar na casa de um dos colonizadores, especialmente quando Saphadana, uma pequena casa motilone, estava localizada a poucos metros descendo o rio.

Resolvemos voltar para olhar pela segunda vez.

— Não é — disse eu. — Vamos até Saphadana e perguntemos a Aystoicana se ele viu Bobby.

Paramos a canoa junto à margem, perto da casa comunitária. Não havia fogo lá dentro, e tampouco som algum. Então ouvi uma voz de um motilone. "Bruchko?"

— Sim.

Aystoicana desceu correndo até à margem. Eu quase não podia ver o seu rosto. — Bruchko, eles mataram Bobarishora. Ele está morto.

Eu não podia compreender o que ele estava dizendo.

— Isso é impossível! — repliquei. — Nós o estamos esperando lá em Iquiacarora. Ele passou por aqui?

Aystoicana agarrou o meu braço. — Bruchko, ouça, Bobby está morto. Eles o assassinaram.

Aturdido, caí na praia de joelhos. — Onde estão os dois homens que estavam com ele?

— Eu não sei — disse ele. — Eles estavam muito feridos. Eles foram embora.

Estendi as mãos e agarrei os joelhos de Aystoicana, pondo-me de pé. A noite parecia coberta de manchas vermelhas e azuis, semelhantes a feridas. — "O que é que aconteceu?" sussurrei.

— Bobby estava com Satayra e Akasara. Eles estavam subindo o rio, passando pela fazenda de Israel. Israel estava lá na margem, fazendo sinal para que eles se aproximassem. Bobby estava atrasado. Ele não queria parar, mas visto que conhecia a Israel havia muito tempo, achou que talvez fosse uma emergência.

— Israel, nos últimos meses, esteve na clínica duas ou três vezes, para tratamento — disse eu, numa voz rouca. — Ele quebrara o braço, que eu costurei e concertei. E ele recebeu de nós os medicamentos de que precisava."

— Sim — disse Aystoicana.— Então Bobby julgou que ele fosse um amigo. Ele dirigiu a canoa para a margem. Enquanto estava debruçado sobre o motor, para desligá-lo, Satayra olhou para cima e viu um homem escondido atrás de uma árvore, com uma espingarda de caça. Satayra gritou para Bobby e Akasara, dizendo a eles que se atirassem ao rio. Ele não ouviu, porque estava muito perto do motor. Satayra se atirou a margem e agarrou a espingarda. Enquanto lutava com o homem, pela espingarda, ele pegou a sua faca de mato. Satayra deixou escapar a arma, para se proteger, e o homem usou a sua faca para cortar o braço de Satayra do pulso até ao cotovelo. Satayra caiu no rio, e Akasara se atirou para fora do barco para se proteger. Bobby tentou sair do barco, porém um tiro de espingarda pegou-o na virilha. Ele caiu no rio. Alguns dos grãos de chumbo atingiram a perna de Akasara, porém ele e Satayra nadaram para o outro lado do rio. Eles procuraram Bobby, mas tudo o que podiam ver era o vermelho sobre a água. E então viram o seu corpo flutuando. Viram também bandos de colonizadores na outra margem. Todos eles tinham armas. Eles estavam à espera de Bobby. Akasara e Satayra estavam amedrontados e correram. Eles chegaram aqui e nos contaram.

— Oh, não, não; não pode ser — disse eu baixinho.

Um motilone assobiou a certa distância. Visto que a sua linguagem é tonal, os motilones nem sempre usam palavras. Esse assobio dizia que duas canoas estavam navegando rio abaixo. Não havia barulho algum dos motores. Concluí que os que estavam nos barcos, tentavam ficar em silêncio. Deveriam ser os inimigos.

— Eu quero ir rio abaixo para ir buscar a força militar — disse eu enraivecido. — George, você vem comigo.

Entrei no barco. Enquanto eu puxava a corda, para dar partida ao motor, ouvi um barulho zunindo sobre a água. Eram espingardas de balas de chumbo, e os tiros vinham de uma longa distância, e não podiam nos fazer mal. Finalmente o motor pegou, na terceira tentativa, e rapidamente deixamos as espingardas para trás.

Foram necessárias várias horas para chegarmos ao posto militar no Rio de Ouro. Acordei o comandante do posto. Ele desceu de pijamas. Contei-lhe que se dera um atentado para assassinar Bobarishora, e que eu fora informado que ele morrera.

Ele ouviu a minha história, olhando para o ar com olhos sonolentos.

— Está bem, eu verificarei isso — disse ele, e abriu a porta para eu sair.

— Não quero que o senhor verifique — eu disse. — Quero auxílio agora. Preciso de alguém para proteger os motilones.

— Sinto muito — disse ele — , mas não posso fazer coisa alguma hoje à noite.

Fui à polícia. Eles tampouco iam fazer coisa alguma. Não creio que eles estivessem interessados no problema. Estavam com medo de que eles mesmos pudessem ser atacados.

Eu estava furioso e frustrado. Às quatro horas da manhã comecei a subir o rio juntamente com George. A alvorada estava começando a surgir. A luz cor de pérola cinzenta que se espalhava sobre as águas tornava-se cada vez mais brilhante, à medida que subíamos o rio. A folhagem tinha um tom verde opulento. Tudo parecia tão inocente. Ali estavam as árvores e o rio que eu amava. Isso era lar para mim.

Bobby não podia estar morto. Eu me recusava a crer. Comecei a pensar naquela ocasião há poucos meses, quando o nosso barco fora levado pelo remoinho. Eu pensara que ele estivesse morto. Porém ele sobrevivera. Milagrosamente, talvez, ele agora estivesse na selva, esperando por auxílio, escondendo-se dos foragidos.

Quando chegamos a Saphadana, o sol brilhava e não parecia possível que tivessem atirado em nós ali. Mas Aystoicana nos disse que os colonizadores e os foragidos da lei passaram a noite toda atirando nas casas dos motilones que estavam junto ao rio, e gritando que os motilones precisavam se retirar, e que a terra não lhes pertencia mais.

— Vocês procuraram Bobby? — perguntei.

— Nós o procuramos, porém não achamos nenhum vestígio.

— Precisamos procurar — disse eu. — Talvez ele esteja precisando de auxílio. Ele poderá estar ferido aí nas selvas.

Aystoicana olhou para os seus pés, um tanto quanto embaraçado. Passamos o dia todo nas selvas, procurando Bobby. Os outros queriam parar, porém eu não os deixei.

Fazia um dia e meio que eu não dormia, e já estava no fim de minhas forças físicas. As vezes, a minha voz falhava, e não havia nada mais senão o som do gorjeio suave dos pássaros cantando nas árvores. Não havia resposta alguma de Bobby.

Às cinco horas paramos a busca. Seria já bastante escuro quando chegássemos a Saphadana. Não conversávamos; estávamos exaustos, doentes.

Quando chegamos ao ponto onde o Rio Cano Tomas se reúne ao Rio de Ouro, vi alguma coisa boiando no rio. Parecia um tronco de árvore. Chegamos até perto para investigar. Era Bobby, que estava de bruços.

Não havia mais esperança, tudo se findara. Eu me senti totalmente vazio — como uma casca. Havia-me convencido de que esta seria semelhante àquela vez quando quase nos afogáramos. Bobby estaria vivo. Nós nos reuniríamos novamente.

O rio estava raso. Desci da canoa e virei Bobby. O seu rosto, completamente branco, estava todo enrugado por ter estado na água. Fechei-lhe os olhos com os meus dedos. Ele havia morrido imediatamente. A rajada do tiro havia estraçalhado a parte inferior de seu corpo.

— "Deus", exclamei, "oh, Deus, por quê?"

Ele havia sido o líder de seu povo, o primeiro a conhecer a Cristo, o primeiro a aprender a ler e a construir escolas, o primeiro a tomar uma posição contra os ladrões da civilização.

George me entregou um cobertor. Eu o enrolei em volta do corpo de Bobby, e depois ajudei a colocá-lo na canoa.

No dia seguinte, levamos o seu corpo para Iquiacarora. A minha mente não me deixava em paz. Eu havia chorado naquela noite até não ter mais lágrimas. E ainda assim, os meus pensamentos estavam girando num círculo. Por que todas essas mortes, Senhor? eu perguntava continuamente. O rio era morte. A selva era morte. A morte brotava pelos vales abaixo. Ela está sempre tocando alguém que eu amava ... Glória, Bobby. E entrelaçados em meus pensamentos estavam as palavras de Humberto: "Por essa cruz te matarei."

O rio estava baixo, e tivemos que gastar muito tempo para poder navegar nas partes mais baixas. Num desses lugares ouvi o zunido das balas batendo na água. Elas vinham de duas canoas do outro lado do rio. De repente um tiro abriu um dos lados de nossa canoa. Nós lutamos freneticamente para ultrapassar os foragidos, porém eles estavam nos alcançando.

Senti uma queimadura intensa em minha perna. Uma bala havia me atingido.

Finalmente conseguimos livrar a canoa. Enquanto nos dirigíamos a águas mais profundas, uma bala passou de raspão pelo meu peito. Isso fez-me sentir bem. Eu realmente queria ser ferido; queria sentir dor; queria a morte.

Porém, sofri apenas ferimentos superficiais. Fizemos parar o fluxo de sangue; os chumbos teriam que ser retirados mais tarde.

Navegamos lentamente durante muitas horas mais, rio acima, e finalmente chegamos à curva do rio que nos levava a Iquiacorara. Diversas centenas de motilones armados estavam ali na margem. Quando nos reconheceram, eles esperaram imóveis, até que desembarcássemos. A notícia da morte de Bobby já se havia espalhado, e as pessoas tinham vindo de muitos quilômetros ao redor daquela área. Elas cercaram o barco.

Eu vi Atacadara, a esposa de Bobby, de pé, ali sobre um pequeno outeiro. Ela estava me observando, esperando. Olhei para ela, acenando com a cabeça, para confirmar que realmente Bobby estava morto. Ela se virou e saiu andando, com uma de suas meninas agarrada à sua perna. Ela carregava em seus braços o filho mais novo de Bobby.

Pegamos a minha rede lá da casa comunitária, e a amarramos num mastro de três metros de comprimento. Retirando o corpo de Bobby do barco, nós o colocamos na rede, e depois o cobrimos com o meu cobertor, porque ele era o meu irmão de pacto. Depois levamos a rede através do rio, e rio abaixo, e o penduramos bem alto, nos galhos mais altos, de modo que os abutres pudessem comer o corpo de Bobby.

Voltando, encontrei Atacadara sozinha, de pé, junto à entrada da selva. Os seus olhos estavam escuros e vazios, como estiveram quando a sua filhinha falecera.

Ela olhou para mim, e eu desandei a chorar.

Ela agarrou o meu ombro. — Não, não — disse ela. Eu a segurei por uns instantes e depois deixei que fosse embora.

Fiquei ali sentado do lado de fora da casa o dia todo, olhando os abutres precipitando-se lá do céu. Eles começavam como pequenas manchas pretas. Circulando cada vez mais próximo sem bater as suas enormes asas, eles pousavam nas árvores com batidas curtas e compassadas.

Lembrei-me de quando eu pensara que aquela cerimônia era fria e cruel; eu pensara que colocar uma pessoa num caixão, e colocá-lo num buraco, era muito melhor do que atá-la bem alto numa árvore a fim de ser levada bem alto no céu. Eu sabia agora o que aquilo significava. Queria dizer que Bobby estava livre para ir além do horizonte.

Eu simplesmente desejava poder ir com ele.

Enquanto estava acocorado lá fora da casa, alguns dos motilones tentaram conversar comigo, tentaram me animar. Mas eu estava ali como uma pedra.

Naquela noite não pude aguentar mais, então fui até à selva, perto das árvores onde estava a rede de Bobby. Eu me deitaria ali, para dormir, sob a rede que guardava o corpo de Bobby, para lhe dizer o adeus final. Porém, quando eu saí, a casa toda me seguiu. Havia cerca de duzentas pessoas. Atravessamos o rio juntos. Estava bem escuro sob a rede. Não havia lua.

— Vamos nos dar as mãos, fazendo um círculo que não tem nem começo nem fim, e vamos conversar com Deus — disse eu.

Isso não era de acordo com a cultura dos motilones, mas parecia ser a coisa exata a ser feita.

Odo, o filho adotivo de Bobby, foi o primeiro a orar. Ele tinha apenas catorze anos, mas Deus lhe deu a oração profética mais linda que eu jamais ouvi.

"Ó Deus", ele disse em voz alta, olhando para a silhueta da rede de Bobby. "Deus, aqui está preto, está escuro. Eu não posso ver. Nós estamos perdidos."

Por um momento ele ficou em silêncio, depois continuou numa voz mais calma e diferente. "Deus, há uma árvore, com as suas raízes se aprofundando bem fundas no solo. Somos nós, Senhor, o povo motilone.

"Nós temos vivido nesta terra toda a nossa vida, gerações após gerações, e as nossas raízes são muito profundas, e nós nos erguemos muito alto.

"Nós tentamos seguir a Deus, porém nós o perdemos enquanto tentávamos segui-lo. Tentamos seguir os nossos próprios caminhos, e eles nunca nos levaram ao lugar onde deveriam nos levar; eles simplesmente iam ter a uma outra casa, ou outro rio. Eles nunca nos levaram além do horizonte, onde nós te encontraríamos.

"E então Bobarishora encontrou o teu caminho em Jesus Cristo, e ele andou nele, e nos mostrou como deveríamos andar nele. Nós nos sentimos felizes.

"Mas, Deus! Aonde é que esse caminho o levou? Por que é que esse caminho o levou a esse lugar? Deus, isso não pode ser!"

Ele parou. Houve um silêncio total.

"A árvore é linda", ele disse. "Ela é linda. Ela está coberta de flores grandes e perfeitas que se abriram ao sol. Cada um de nós é uma flor.

"Porém, há uma flor que é maior que todas e muito mais bonita do que todas as outras. Ela produziu o fruto mais perfeito. Esse é Bobarishora. Ele nos deu a agricultura, e os nossos estômagos ficaram satisfeitos. Estávamos morrendo por causa das doenças, e ele nos trouxe a cura por intermédio de Jesus Cristo, através dos medicamentos. Ele nos mostrou o caminho de como andar com Jesus Cristo, de modo que temos razões para viver. Todos nós estávamos entusiasmados com a sua nova vida.

"Mas, ó Senhor, está tão escuro. Um vento soprou, e o fruto, o fruto mais perfeito secou e murchou e caiu ao solo. Suas sementes foram chutadas e pisadas no solo escuro, bem escuro. Ele morreu ... Bobarishora morreu, e nos deixou.

"Deus, não deixes que a semente se perca. Faze com que as nossas vidas sejam um solo fértil de modo que a sua semente possa crescer em nós. Faze com que a sua morte seja uma grande árvore crescendo em nosso solo, de modo que possamos viver como ele viveu, ajudando-nos mutuamente, e aprendendo a amar. Faze com que isso cresça em nós por causa de sua morte. Nós te pedimos isso porque somos uma só pessoa hoje à noite, num círculo de mãos dadas, nascidos em Jesus Cristo, teu único Filho."

O nosso círculo se partiu e lentamente foi-se separando. Eu vi alguma coisa que nunca vira entre os motilones antes: as pessoas estavam escondendo os seus olhos e fungando.

Ocdabidayna caminhou em minha direção, tentando sorrir. — Olhe só para nós, todos nós estamos resfriados! — disse ele.

— Não — eu disse. — Não é resfriado o que eu tenho. Não é resfriado!

Então Ocdabidayna, um dos líderes dirigentes, agarrou a sua cabeça com suas duas mãos, e caiu ao chão. — Oh, Bruchko — disse ele, olhando para mim. — Eu não sou um homem. Eu sou um bebê, um bebê muito pequeno. Somente os bebês é que choram.

A sua tristeza abalou os motilones como eu nunca os vira tão abatidos. Eles correram para a selva a fim de esconder um do outro as suas lágrimas.

— Bruchko — disse Ocdabidayna — , Jesus Cristo morreu por todas as tribos do mundo. Bobby é quase semelhante a ele. Ele morreu pelos motilones.

Passei as três semanas seguintes recuperando-me de meus ferimentos. Eu ansiava por deixar a selva, deixar o cheiro de morte. Também queria informar às autoridades competentes a respeito da situação dos foragidos da lei. Mas eu não podia sair. O rio estava cheio de emboscadas. Qualquer pessoa que tentasse sair dali teria sido morta. Os caçadores também descobriram que nas picadas que saíam das selvas havia armadilhas com espingardas. Um dos homens conseguira sair e ir a Tibu, levando diversas cartas. Ele levou uma semana para chegar lá, andando apenas à noite, e sempre evitando as picadas.

O único caminho seguro era transpondo as montanhas — uma viagem que exigia cento e quarenta horas de marcha. Aminha perna havia sarado, e então comecei aminha viagem. Quando eu havia caminhado metade do percurso, ouvi um helicóptero. O Presidente da Colômbia havia mandado buscar-me. Logo eu estava fora das selvas.

Passei uma semana muito inquieto lá em Bogotá. Que é que tudo aquilo significava? Para os motilones, Bobby poderia crescer como uma árvore florida. Mas, para mim, que significava a morte de meu irmão de pacto?

Uma noite, enquanto eu conversava com um dos principais ministros do governo Colombiano, recebi a minha resposta. Ele conhecera Bobarishora pessoalmente e tinha um grande interesse pelo povo motilone. Eu acabara de descrever a morte de Bobby e havia lágrimas nos seus olhos.

— Mas Bruce — ele disse — , você continua falando como se desejasse que Jesus interviesse e pusesse um fim a todas essas perturbações. Você não pode ver que é justamente o oposto. Se não fosse Jesus, os motilones seriam empurrados de volta às selvas, até que fossem lenta, mas seguramente, exterminados! Se não fosse por Jesus, não haveria luta; Bobby nunca teria que morrer da maneira que ele morreu. Não, Bruce. Não é a despeito de Jesus que Bobby morreu. É por causa de Jesus.

Ele colocou a sua mão sobre o meu ombro. — Onde é que os motilones estariam se Bobby não tivesse sido o tipo de pessoa a quem os bandidos sentiam que precisavam matar? Onde é que você estaria se Bobby não tivesse sido aquele tipo de pessoa?

— Não estaria em parte alguma — eu disse. — Eu não estaria em lugar algum.

Portanto, a vida tem que ser semelhante a isso, pensei. Ela precisa ser luta e choro, e até mesmo a morte.

Repentinamente vi os meus pais, e todas as dores pelas quais passáramos ...

Vi os iucos, e os semblantes colonizadores ...

Vi os rostos dos motilones, para quem o resto do Novo Testamento ainda precisava ser traduzido.

Havia tanto serviço a ser feito ... tantas coisas que Cristo me chamara para fazer. Isso traria novas dores, mais solidão. E talvez a morte.

Por que é que estava sendo tão difícil? Por quê?

Então eu vi Jesus. Ele estava lutando para subir uma colina com uma grande carga. O seu rosto estava crispado de dor. As suas costas estavam curvadas.

Endireitei-me no encosto da cadeira, e olhei para o ministro.

— Creio que eu vejo — eu disse. — É a cruz.

Ergui a mão e pus o meu polegar sob o indicador. — É por esta cruz.

FIM

Por esta cruz te matarei - Capítulo 23


 O REMOINHO

Acordei com o cair suave da chuva. A casa comunitária estava cheia daquela luz suave da manhã, e todos os outros estavam dormindo. Deve ter chovido a noite toda, porque ninguém havia saído para caçar. Virei-me na minha rede e voltei a adormecer.

Algumas horas mais tarde acordei. Ainda estava chovendo. Isso é estranho eu pensei. Quase nunca chove na selva durante o dia.

Vários meses já se haviam passado desde aquela epidemia de sarampo. Tinha sido um período de descanso, e eu esperava pelo meu casamento com Glória, e a oportunidade de passar uma boa parte do tempo com Bobby. Eu também estivera trabalhando num material sobre linguística, que eu havia colecionado durante os dez anos que ficara com os motilones. Entre linguistas havia muito interesse pelo meu material, e eu estava planejando publicar alguns trabalhos a respeito da língua dos motilones.

Resolvi trabalhar nesse projeto. Não havia muita razão para eu tentar fazer outra coisa, enquanto estivesse chovendo. Fui até ao centro de saúde, que ficava a uma distância de quinhentos metros. Estava apenas garoando, mas havia poças de água em toda parte. Caminhei junto ao bananal e vi que as plantas mais novas estavam crescendo muito bem. Nenhuma delas havia sido derrubada pelo vento. Escorreguei no barro e caí; desandei a rir. Não podia me lembrar de quando vira tanta água assim.

Lá no centro de saúde eu me sentei à escrivaninha que nós fizéramos, cortando uma parte de uma árvore de mogno, que havia caído. Ela e um arquivo à prova de água e de inseto para os meus papéis, eram as minhas possessões mais valiosas.

A água caía alegremente no telhado de zinco do centro de saúde, e eu me preparei para trabalhar. Um pouco mais de uma hora depois, fui perturbado por vozes que falavam alto. Fui até à porta e olhei para fora. Dois homens motilones estavam gritando do outro lado do rio, pedindo uma canoa para trazê-los de volta. A canoa estava cheia de água e precisava ser esvaziada. Como a água estava muito alta, por causa de tanta chuva, levou algum tempo antes que os homens pudessem atravessar e voltar com os dois passageiros. Resolvi ir até a casa, para ouvir o que eles tinham a dizer. Eu sabia que eles eram de uma área que ficava não muito distante de Tibu, e achei que talvez tivessem um recado para mim.

Quando cheguei à casa comunitária, todos observavam os dois homens enquanto comiam. Eles estavam andando pelos caminhos havia vários dias, e estavam cansados e famintos. Riam-se de algumas das coisas que lhes aconteceram. Evidentemente havia sido uma viagem muito dura. Um bom número de árvores havia sido derrubado, e alguns dos rios foram difíceis de atravessar. Eu me abaixei junto a eles para ouvir. Alguns minutos depois, Bobby também chegou. Acenei com a mão para ele e sorri. Os dois homens falavam a respeito de uma caçada que fizeram e um deles contou uma história muito engraçada a respeito da topada que dera no dedo, durante a viagem. Aborrecido, levantei-me para sair. Eles não tinham nada para conversar, senão uma conversa fiada. Voltei ao centro de saúde e comecei a escrever novamente.

Uma hora mais tarde, levantando os olhos, vi os dois parados junto à porta. Eles me entregaram um pacote contendo cinco envelopes.

— De onde é que vem isso? — perguntei.

Eles encolheram os ombros. — George Camiyocbayra no-los deu para entregá-los a você — . George possuía uma procuração lá em Tibu.

— Obrigado — disse eu.

Eram telegramas. Abri o primeiro. "Ela foi enterrada", dizia.

Quem é que fora enterrada? Deveria ser a mãe de Glória. Mas não, fora a sua mãe que enviara o telegrama. Ela o havia assinado no final.

Rasguei os outros. Glória sofrera um acidente. O seu carro se lançara sobre um penhasco. "Venha em seguida", dizia um dos telegramas. "Estamos esperando por você. Venha imediatamente." E ele estava datado de duas semanas atrás. O outro telegrama dizia que Glória falecera e que seria enterrada dentro de três dias.

Atirei os telegramas ao chão e corri para a casa comunitária. Bobby estava fazendo suas flechas. Ele olhou para mim com o mesmo sorriso alegre que tivera quando menino.

— Bobby — solucei — , ela não virá. Ela não virá mais aqui.

— O quê? — disse ele.

— Ela não virá, Bobby. Glória não virá mais. Ela morreu. Ela está morta.

Um outro motilone se aproximou e pôs as mãos sobre o meu ombro, não sabendo que eu estava transtornado. Afastei-o de mim.

— Como é que você sabe que ela está morta? — Bobby perguntou.

— O papel diz isso. Aquelas cartas que vieram hoje de Tibu.

— Bobby — eu disse — , preciso ir a Bogotá. Nós precisamos ir agora mesmo.

— Pois bem, nós iremos — ele disse. — Assim que as águas baixarem, partiremos.

Aquele foi um dia muito longo. Às vezes a tristeza era muito maior do que eu podia suportar. Outras vezes, era quase irreal. Eu quase não podia acreditar que tivesse acontecido. Li e reli os telegramas várias vezes. Bobby conversou comigo e cantou para mim, falando sobre Glória, relembrando como fora ela a primeira mulher estrangeira a vir até à região dos motilones. Relembrando como havia pegado o seu peixe com o arpão.

A minha mente estava a todo momento envolvida com a morte de Glória, semelhante a uma máquina que não parava de trabalhar. Eu não podia chorar nem orar, apesar de tentá-lo. Mas orar para quê? Ela já estava morta. Ela já havia morrido fazia várias semanas.

Aquela noite eu acendi uma vela e fiquei na minha rede ouvindo a chuva. Ela continuou o dia todo e agora caía a cântaros. De repente senti que eu precisava sair dali. Eu precisava ir a Bogotá. Eu precisava ver, pelo menos, o túmulo de Glória e conversar com a mãe dela. Se eu não fosse, nunca saberia se realmente aquilo não fora um pesadelo.

Virei-me na rede a noite toda, esperando que amanhecesse. Às três horas da manhã acordei e fui sacudir Bobby.

— Bobby, quero ir agora. Eu preciso ir a Bogotá. Acho que já está amanhecendo, e nós podemos viajar.

Ele me disse que voltasse para a minha rede. Ainda estava escuro e chovendo. Depois, então, realmente começou a chover torrencialmente. Orei para que a chuva parasse. Ouvi o barulho das águas do rio correndo sobre as rochas e penhascos; depois o som parou, então eu sabia que as águas haviam transbordado sobre as margens. Quando amanheceu, elas haviam atingido três metros e meio, além do nível da inundação e estavam quase dois metros distantes da casa comunitária.

Mas eu precisava descer o rio. Era um impulso irresistível.

— Bobby — disse eu — , vamos!

— Bruchko, não podemos. Nós vamos nos afogar!

— Mas eu sei que você é um bom piloto, Bobby. Sei que você pode nos levar rio abaixo.

Ele sacudiu a cabeça. — É impossível. O rio está muito alto.

Eu não estava pedindo a ele. Eu estava ordenando. E, finalmente, entristecido, ele concordou. Empacotei o meu material de linguística numa sacola à prova d'água, engaiolei os dois ursinhos que desejava mandar para um amigo nos Estados Unidos. Mais ou menos às dez horas, partimos. Se bem que o rio já tivesse baixado perto de um metro e meio, mesmo assim ainda estava alto, as águas barrentas e feias, com remoinhos sorventes com uma espuma amarela, ao redor das rochas. Bobby estava preocupado.

— Você tem certeza de que precisa fazer isso, Bruchko?

— perguntou. — O rio está alto demais para tentarmos ir. Não respondi. Simplesmente continuei a pôr os pacotes na canoa.

Finalmente, partimos. Bobby, eu e mais dois outros homens. Outros motilones chegaram até à casa e ficaram ali na chuva a nos dizer adeus.

— Quando você for ver a mãe de Glória, diga a ela que o meu estômago sente dor por ela — disse Atacadara, a esposa de Bobby. — Diga a ela que quando ouvimos dizer que Glória havia morrido, nós não pudemos comer. Sabemos como ela se sente.

Dei um último olhar à casa e subi na canoa. Demos-lhe um empurrão e as águas nos envolveram e nos levaram rio abaixo.

Não tínhamos que lutar contra a corrente, nem mesmo com o motor do lado externo da canoa. Tudo o que tínhamos a fazer, era nos desviarmos dos maus lugares. O rosto de Bobby estava tenso. Ele conhecia o rio melhor do que qualquer outra pessoa viva, porém nem ele mesmo podia prever os troncos, quando as águas barrentas estavam correndo com uma velocidade duas vezes mais rápido do que o normal.

De repente um enorme tronco rolou ao lado de nossa canoa, à esquerda, Nós o observamos atentamente, para termos a certeza de que ele não iria virar e nos atingir. Enquanto nos aproximávamos de uma curva do rio, percebi que havia um remoinho à nossa direita. Aquele tronco nos levaria para lá, se não fôssemos cuidadosos.

— Bobby, cuidado aí na sua frente! — gritei. Porém ele estava debruçado sobre o motor. A linha de nylon que controlava o acelerador havia-se partido e ele estava tentando consertá-la.

De repente, um outro tronco surgiu, vindo do fundo do rio. Ele bateu no tronco maior, à nossa esquerda, fazendo-o bater em nossa canoa, o que fez com que ela fosse atirada direta¬mente na direção ao remoinho. Bobby tentou desligar o motor, para diminuir a marcha e se afastar do tronco. Mas não houve tempo. Podíamos ver o remoinho, bem perto e duas vezes maior do que o seu tamanho normal. Bobby tentou desviar a canoa ao redor, e ir contra a corrente de água, porém ela era muito forte. A canoa atingiu as bordas do remoinho. Todos nós fomos atirados para fora dela. Vi os tanques de gasolina flutuando na água. Eu tinha os meus papéis nas mãos, e os dois ursinhos debaixo de um braço. Eu queria me agarrar ao barco para me manter sobre as águas, e então deixei escapar os ursos. Em seguida eles começaram a nadar, e eu agarrei o barco com uma das mãos e segurei os meus papéis com a outra.

Então vi Bobby sendo levado para o centro do remoinho. Sem um borrifo qualquer ele foi levado para baixo e desapareceu. Eu não podia ver coisa alguma, senão o cone lamacento de água suja. A canoa começou a se aproximar do remoinho e começou a se mover rapidamente. Todo esse tempo estávamos girando e girando. De repente fui atirado para longe do barco e levado pela água. Eu ainda estava segurando os meus papéis. A água me carregou uma vez, num círculo, e depois mais outra, aproximando-me cada vez mais do olho do remoinho. Não havia jeito de evitá-lo.

Na terceira vez que dei a volta, vi um ramo de árvore estendido sobre a água. Fiquei pensando por que é que eu não o vira antes. Estendi a mão que estava livre e agarrei-o. Ele estava firme. Então olhei para cima e vi um dos motilones na outra extremidade. Ele me puxou para fora da água, com as mãos para cima, e depois eu gatinhei para a margem, no barro, tentando sorver o ar. Louvado seja Deus!

Mas onde estava Bobby? Então eu compreendi o que fizera, ao insistir nessa viagem tão maluca! Bobby morrera.

— Você viu Bobby? — perguntei freneticamente.

— Não. Ele desapareceu no remoinho.

Eu disse aos homens que eu ia saltar novamente e ir rio abaixo, até encontrar Bobby. Porém eles disseram que eu não poderia, pois o rio me sorveria e eu também morreria.

Um rochedo contornava o rio naquele local, e nós não podíamos ir rio abaixo sem escalá-lo, por isso começamos a nos arrastar para cima. Eu estava desvairado. Caí e cortei o dedo.

Eu preciso achar Bobby, disse a mim mesmo.

Deixei os papéis e continuei subindo. Tornei a cair novamente, e fiz um corte muito profundo na perna. Quando cheguei ao topo, um espinho espetou meu pé descalço. Penetrou uns dois centímetros, e tive que parar por causa da dor. O inferno todo se abriu contra mim, pensei. Mas fui-me arrastando, e assim que pude ficar de pé, olhei ao redor e sobre o rio, investigando as suas margens.

Vi a canoa, que parecia com uma agulha chata, ao longo de uma das margens. Então eu vi Bobby segurando-se a ela. Oh, Deus! Corri pela colina abaixo, caindo sobre as rochas. Cheguei até lá e ajudei-o a retirar a canoa; depois o ajudei a sair da água. Coloquei a minha mão no seu ombro.

— Eu achava que você havia morrido — disse ele.

— Eu achava que você havia morrido — disse eu.

Ele estava completamente nu: o remoinho havia estraçalhado toda a sua roupa.

— Veja — disse ele — , perdi toda a minha roupa que iria usar no mundo civilizado e o meu dinheiro estava nela.

— E que importância tem isso? — eu disse — Você está vivo. Jesus seja louvado!

Depois os outros dois homens se aproximaram. Eu estava tão aliviado, que quase não podia falar muita coisa. Sorri e os toquei. Depois, então, baldeamos a canoa e continuamos rio abaixo.

O resto da viagem correu sem nenhum incidente. Quando estávamos a poucos quilômetros do Rio de Ouro, paramos junto ao rio. Bobby fez um cordão-G de uma folha grande e fomos à cidade.

Quando eu entrei no avião, para ir a Tibu, Bobby colocou a sua mão no meu ombro. — Diga à mãe de Glória que estamos famintos por ela, que todos nós estamos tristes porque ela morreu — disse ele. — Cuide de você e volte logo.

— Eu voltarei — prometi.

Por esta cruz te matarei - Capítulo 22


 QUASE DERROTADO

Eu estava em Tibu, trabalhando na casa que Glória e eu iríamos usar, gozando a idéia de morar ali com ela, e sentindo certo prazer no trabalho de carpintaria do telhado. Por intermédio de uma das casas dos motilones, fui informado de que grassava uma doença que os médicos feiticeiros não eram capazes de tratar. Reuni todos os medicamentos que pude, pedindo ou tomando emprestado, e parti no dia seguinte.

Só cheguei àquela casa alguns dias mais tarde. Ninguém se aproximou da clareira ensolarada para me saudar. De dentro da casa eu podia ouvir gemidos e choros. Abaixei-me e entrei.

Havia corpos espalhados por toda parte. O único sinal de que eles estavam vivos eram os lamentos e lamúrias constantes que, uma vez ali dentro, pareciam um cântico de loucos. Havia ali um mau cheiro horrível, que fez com que o meu estômago baqueasse.

Corri de uma pessoa para outra, reconhecendo os amigos, incapaz de parar e ajudar uma pessoa, porque no momento que eu parava para ajudar, um gemido mais forte me fazia correr para outra pessoa. As pessoas estavam deitadas sobre o seu próprio vômito, incapazes de limpar-se. As suas fezes estavam espalhadas ao redor de suas redes. Algumas pessoas haviam caído da rede e estavam deitadas no chão sobre toda aquela sujeira.

Comecei a limpar aqueles que estavam mais sujos e dar os remédios. Eu mal acabava de limpar um homem, quando em seguida ele defecava, ou vomitava, e todo o meu trabalho estava perdido. Eu tentava dar-lhes comprimidos, e estes eram vomitados em meu rosto. Não demorou muito para que a minha roupa e a minha pele estivessem duras por causa do vômito que havia secado.

A maior parte das pessoas ali estava sem alimento e sem água, havia mais de cinco dias; portanto, um dos maiores perigos era a desidratação. A pele sobre os seus corpos estava flácida. Visto como não podiam beber sem vomitar, os piores casos tiveram que ser alimentados através de injeções intravenosas.

Na primeira noite não dormi um instante sequer. Eu estava morrendo de sono, mas não podia me deitar enquanto as pessoas estavam às portas da morte. Continuei a movimentar-me; minhas pernas e meus pés doíam, e eles queriam desmoronar.

No dia seguinte, Bobby e mais alguns homens chegaram. Entre eles estava o meu velho amigo Adjibacbayra, o chefe que havia desafiado Bobby para cantar, no Festival das Flechas, quando pela primeira vez os motilones ouviram falar de Jesus. Coloquei minhas mãos sobre os seus ombros, dando-lhes as boas-vindas. Era como se eu fosse a única pessoa viva num mundo de fantasmas.

Naquele dia houve sinais de melhora. Os remédios e as injeções endovenosas estavam produzindo resultado. E ter outros para trabalhar conosco era animador. À medida que foi escurecendo, comecei a antecipar que poderia dormir. Quando acendemos o fogo e trabalhamos à luz de uma chama bruxuleante, aquela idéia se tornou uma obsessão. A única razão que fazia com que eu continuasse trabalhando, era a idéia de que logo estaria terminado.

Mas as horas foram-se arrastando, e cada minuto era tão doloroso como a espetada de uma faca.

Várias vezes eu dizia a mim mesmo, marcando um limite: "Às dez horas eu vou parar." Mas as dez horas passavam, e havia muito mais ainda para ser feito.

Às duas horas da manhã cheguei ao meu ponto máximo. Houve um alívio momentâneo com as doenças, e eu me levantei e procurei Bobby. Ele veio em minha direção.

— Vamos dormir — disse ele, e o meu coração respondeu, Oh sim! — Então, às cinco horas, será melhor nos dirigirmos a Iquiacorara.

Teria eu ouvido, "Iquiacorara?"

— Sim — disse ele. — Lá está tão ruim como aqui.

— Bobby — eu disse — , você quer dizer que esta não é a única casa?

— Oh, não — disse ele. — Todas as casas lá na área mais baixa foram atingidas pela doença. Eles não se acham tão doentes como estes aqui, mas todos estão muito doentes.

Fechei os olhos e parecia que a escuridão estava girando dentro deles. Mais doença! Mais vômito. Talvez, até, alguns já tivessem morrido. Oh, Senhor, livra-me.

A coisa que percebi, em seguida, é que eu estava sendo sacudido para acordar. Abri os olhos e percebi que estava deitado numa rede, e Bobby estava ali ao meu lado.

— Bruchko, você precisa se levantar — estava Bobby dizendo. — Nós precisamos ir a Iquiacorara.

Com muito esforço me levantei da rede.

Não perdemos tempo em nos lavar. Bobby já havia dito a alguns homens e mulheres que se haviam recuperado o suficiente para se levantarem e circularem, o que deveriam fazer para ajudar aos outros. E então partimos.

O pior daquela epidemia continuou cerca de três semanas. Durante aquele tempo, eu não conseguia dormir mais do que duas ou três horas, em cada vinte e quatro horas. Setecentas pessoas foram tratadas de sarampo ou dos efeitos dessa doença.

Milagrosamente, apenas uma pessoa faleceu — uma meninazinha. Quando a vi pela primeira vez, ela estava com Adjibacbayra. Ela havia diminuído por causa da desidratação, e estava do tamanho de um bebê. Adji estendeu a mão e tocou-lhe a pele. Ela estava solta e semelhante à borracha. Ele fez uma dobra num pouco de pele e ela ficou dobrada quando ele retirou a mão. Dois dias depois, apesar de todos os nossos esforços, ela faleceu.

Aquela noite eu não pude deitar-me. Estava cheio de rancor. Eu precisava andar, mover-me. Comecei a caminhar em direção a outra casa comunitária, sozinho. Acho que eu estava meio delirante, porque não me sentia cansado. Minha raiva ardia como brasa, forçando as minhas pernas exaustas a caminhar.

Chegado ao topo da colina, vi um par de olhos à minha frente, de um brilho amarelado. Pensei que fosse um sapo, pois que certos sapos têm olhos daquela cor. Então percebi que os olhos estavam muito separados. Pensei que talvez fossem dois sapos.

Então ouvi um silvo. Os olhos se moveram. E eu vi um corpo comprido, liso, movendo-se delicadamente. Era uma pantera, a primeira que eu já vira.

Parei. Toda a minha raiva se transferiu para os olhos frios, fixos, daquele animal. Eu o odiei. Tateei em volta de meu pé, e encontrei um pau. Peguei-o e gritando corri atrás da pantera. Ela grunhiu e se abaixou. Então quando eu estava cerca de trinta centímetros dela, ela se virou e num salto silencioso e rápido foi-se embora.

Fiquei ali, gritando. Então percebi o que havia feito. Meu coração começou a bater depressa e de repente fiquei com medo que a pantera voltasse.

"Obrigado, Senhor", murmurei ali no meio daquela escuridão.

No dia seguinte deixei a selva. Eu precisava de mais medicamentos, e a epidemia já havia abrandado o suficiente, de modo que eu não faria falta. Havia um bom número de motilones trabalhando sob as ordens de Bobby.

Durante uma semana e meia lidei com relatórios e balancetes financeiros, em vez de lidar com panteras, e não sabia bem qual deles eu preferia. Tentei conseguir auxílio do governo colombiano, e de tomar emprestado de qualquer pessoa que pudesse me emprestar. Quando julguei ter o suficiente, voltei às selvas.

Encontrei Adjibacbayra às portas da morte. Visto como havíamos trabalhado lado a lado durante três semanas, eu concluíra que ele tinha imunidade natural à doença. Porém, não somente havia contraído a doença, mas também estava com pneumonia, como resultado dela. Ele não podia comer. Dois dias após a minha chegada, ele caiu em estado de coma. Seu corpo estava amarelo, e as moscas lhe andavam sobre o peito, onde o vômito havia secado. Seu rosto estava coberto de pequenos pontos azuis, resultado da erupção. Era uma situação horrível para o homem que fora tão forte a ponto de cantar a Canção das Flechas durante catorze horas, quando o Espírito de Deus se derramara sobre os motilones.

Enquanto eu olhava para ele, ele piscou os olhos e acordou. Debrucei-me sobre ele. Seu rosto estava pintado como se fosse uma máscara e havia sulcos provocados pela dor.

— Bruchko — disse ele — , o meu corpo dói. Eu estou todo dolorido.

— Psiu — eu disse. — Você precisa ficar quieto. Queremos que você fique bom. Queremos que fique forte.

Ele sacudiu a cabeça, muito lentamente. — Não, Bruchko.

Eu não estou bem e não sou forte. Eu já fechei os olhos.

E realmente os seus olhos se fecharam, e ele desmaiou. Fiquei ali perto dele. Mais tarde ele voltou a abrir os olhos.

— Bruchko, eu ouvi uma voz semelhante à dos espíritos quando eles tentam matar.

Concordei com um aceno de cabeça.

— Mas essa voz me chamou pelo meu nome secreto, pelo meu verdadeiro nome. Não há nenhum ser vivo que saiba o meu verdadeiro nome, porém esse espírito me chamou pelo meu nome verdadeiro. Então eu respondi e disse: "Quem é você?" e ele disse, "Eu sou Jesus que andei com você na sua picada."

Diversos homens se reuniram ao redor dele, inclusive o pai daquela menina que havia falecido.

— Então contei a Jesus que eu estava sentindo dores em toda parte, da cabeça aos pés. E Jesus me disse que ele queria que eu voltasse para o lar.

A sua respiração estava entrecortada.

— Ajuda-me, irmão! — sussurrou ele, olhando para mim.

— Ajuda-me! — E depois virou os olhos para outro lado.

— Você não pode — disse ele — , a morte me abraçou. Estou partindo. Bruchko, eu vou indo. Não posso enxergar. Eu sinto uma dor. Só Deus está aqui e ele quer me conduzir no caminho que nós nunca pudemos achar nas nossas caçadas, o caminho que vai além do horizonte para o seu lar.

Então ele sorriu, e o seu rosto, por uns instantes, estava semelhante ao rosto que eu conhecera. — Não estou só — ele disse. — Não estou só. Eu não andarei naquele caminho sozinho. Há um Amigo que quer me levar. E ele conhece o meu nome, o meu verdadeiro nome.

Depois o seu corpo cedeu. Ele agarrou a minha mão, e aos poucos os seus dedos ficaram flácidos. Coloquei a sua mão junto ao seu corpo e saí para fora da casa.

Eu parei lá na clareira. O sol estava brilhando. Era inacreditável. Caminhei para a selva, onde era agradável, fresco e escuro, e encontrei uma picada e comecei a andar nela, sem saber e sem me incomodar para onde ela me levaria. Então comecei a cantar a canção de Adji, a canção que ele cantara na picada. Comecei a cantar suavemente, mas logo eu estava cantando a plenos pulmões, e estava chorando.

"Deus", eu cantei, "eu amava o meu irmão. Eu anseio por cantar a sua canção com ele novamente."

Senti o toque de uma mão sobre o meu ombro. Olhei ao redor, amedrontado. Era Atrara.

— Não chore — disse ele. — Não fique triste. A fala dele foi além do horizonte. Ela não está perdida nas selvas. Você não precisa cantar aqui. Ela foi para um outro lugar.

Por esta cruz te matarei - Capítulo 21


 GLÓRIA

Durante os meus primeiros cinco ou seis anos com os motilones, quase não tive contato com o mundo lá fora. No entanto, enquanto fazia a tradução de Marcos, juntamente com Bobby, comprei um rádio transistorizado e o trouxe comigo para a casa comunitária. Durante várias noites fiquei acordado ouvindo o locutor falar de coisas que pareciam quase irreais. Eu podia me lembrar muito bem de como era o outro mundo, porém ele parecia tão distante.

Uma noite eu estava deitado em minha rede, com arcos e flechas para caçar ali por perto o jantar do dia seguinte, e ouvi a transmissão sobre o primeiro homem que andara na lua. Uma parte de mim ansiava por empacotar as minhas coisas e ir aonde carros, aviões e ônibus governavam, em vez de panteras e javalis. Mas, ao mesmo tempo, eu estava profundamente satisfeito comigo mesmo. Era como se eu tivesse um segredo que o mundo não conhecia; um lugar secreto que não fora permitido a ninguém entrar ali.

Poucas pessoas creram que eu tivera contato com os motilones, quando, pela primeira vez, reentrei no mundo lá fora. No entanto, alguns jornais ouviram falar do que eu estava fazendo, e quando voltei à civilização, novamente, diversos jornalistas e repórteres me procuraram e fizeram perguntas a respeito de meu trabalho com os motilones. As suas reportagens despertaram real interesse. Não demorou muito para que os motilones fossem os heróis da Colômbia. Diversos homens motilones me acompanharam numa das viagens em busca de provisões, e um deles, Axducatsyara, foi indicado como o "Homem do Ano da Colômbia". Até então, todas as notícias dos jornais simplesmente reforçavam o fato de que os motilones eram os que matavam os empregados das companhias petrolíferas. Aos poucos, no entanto, os jornais começaram a compreender que, no todo, os motilones estavam simplesmente defendendo o seu território contra aqueles que desejavam roubar-lhes as terras e destruir a sua maneira de viver. O sentimento público se transformou, e como geralmente acontece, deixou-se levar e indiscriminadamente começou a culpar todos os colonizadores que viviam naquela área, em vez de ver a diferença que havia entre aqueles que estavam interessados em cultivar suas fazendas e aqueles que realmente haviam invadido o território dos motilones.

Os colonizadores revidaram e me chamaram de embusteiro. Eu estava nas selvas, e quando novamente voltei em busca de medicamentos, as notícias dos jornais estavam repletas de ataques, dizendo que eu estava explorando os índios, e transformando-os numa mina de ouro e diamante para mim. Dei uma boa risada. Eu podia ver a mim mesmo descansando numa cadeira de vime de espaldar alto, usando um terno branco, chapéu de panamá, tomando uma bebida, enquanto os motilone me serviam.

Conversei com o Dr. Landinez a respeito disso. — O que é que devo fazer? — perguntei.

— Ouça — disse ele — , não faça coisa alguma. É muito natural q e haja muita conversa a respeito disso. Os motilones constituem um grupo muito interessante de pessoas e ninguém tem jeito de provar qualquer coisa dita a respeito deles. Faça o seu trabalho, seja honesto com os índios, e deixe que cada um pense o que quiser. Se você passar o tempo a preocupar-se com o que os outros pensam, nunca fará coisa alguma.

Então voltei para as selvas. O interesse em torno dos motilones continuou, mas visto que não havia jeito algum de se conseguir informações a respeito deles, todo o assunto cessou.

Então, em 1970, uma comissão do governo foi de helicóptero àquela área, a fim de resolver problemas de limites de fronteira entre a Colômbia e a Venezuela. Ficaram surpresos ao verem numa casa comunitária, um centro de saúde e uma escola, mantidos pelos motilones. As notícias saídas nos jornais não os haviam preparado para uma coisa assim. Eles conseguiram perguntar aos motilones, quem era responsável por tudo aquilo — uma tarefa muito difícil, visto que não falavam a língua dos motilones.

Naturalmente os motilones disseram "Bruchko".

Aquilo provou que eu era um falsário. O verdadeiro herói do desenvolvimento, os jornais afirmavam, era alguém chamado "Bruchko".

Alguns meses mais tarde, outra comissão apareceu, de helicóptero, naquela mesma área. Felizmente eles perguntaram a um motilone que aprendera um pouco de espanhol.

— Queremos ver Olson — disse o chefe da Comissão.

— Não conhecemos Olson — respondeu o motilone num espanhol truncado.

O homem estava surpreso. — Olson não vive aqui?

— Não — disse o motilone, sacudindo a cabeça. — Os motilones vivem aqui.

— Olson, um rapaz alto, loiro?

— "Oh, Bruchko".

Daquela hora em diante, tivemos publicidade favorável. Porém publicidade favorável não cura os doentes. Ela não enche a boca dos famintos. Ela não garante que ninguém irá enxotá-lo de sua própria casa. A única coisa que ela conseguiu foi despertar e garantir maior hostilidade da parte de muitos dos exploradores de terra.

Nessa ocasião houve uma grande fuga numa das prisões na Colômbia. Muitos dos que fugiram se embrenharam naquela área selvagem, junto ao território dos motilones porque ali seriam deixados em paz. Eles começaram a cultivar a terra, e, naturalmente, viram os motilones como uma ameaça, tanto para o controle de suas terras como para a sua liberdade, das forças do governo, pois os motilones sentiam-se felizes em cooperar com o governo colombiano.

Foi crescendo um ressentimento, embora muitos dos fugtivos recebessem cuidados médicos dos motilones. Os exploradores regulares das terras mudavam de opinião a cada momento indo de um lado para outro, na sua fidelidade. Eles não gostavam dos bandoleiros. Mas, ao mesmo tempo, eles se ressentiram porque os jornais os haviam chamado de vilões, na luta pelas terras. E era verdade que eles desejavam usurpar as terras dos motilones. A maior parte das vezes o apoio deles era dado aos bandoleiros. Com isso, desencadeou-se às claras uma hostilidade.

O contato com o mundo exterior, o qual havia destruído quase que totalmente a cultura de muitas tribos primitivas, certamente era uma ameaça aos motilones. Era uma ameaça que eles precisariam enfrentar. E simplesmente eu apenas podia orar, para que quando chegasse a hora, eles estivessem tão firmes em Jesus Cristo a fim de resistir a todo aquele que tentasse mudar os seus costumes.

Para mim, pelo menos, surgiu algo muito precioso que veio desse contato com o mundo lá fora. Glória. Seu irmão, tenente do exército colombiano, estava encarregado do posto militar lá em Tibu. Um rapaz alto, forte, interessado nas selvas, apesar de nunca haver passado tempo algum no meio dela. Quando entrou de férias, planejou entrar pela selva, o mais longe que pudesse. Eu me encontrara várias vezes com ele, lá em Tibu, e tentei fazer com que desistisse da idéia. Parecia que ele julgava que as selvas fossem como um parque, lindo, agradável, onde se podia penetrar a fim de se fazer ali um piquenique. Não foi fácil convencê-lo de que a coisa era diferente.

Encontrei-me com Glória em 1965, depois de uma viagem difícil a Tibu. Porque eu estava com pressa de conseguir os remédios para os motilones, não parei para procurar alimento. E durante a viagem toda não vi coisa alguma que pudesse comer. Simplesmente continuei andando. E tampouco consegui muita água para beber.

Foi um erro. Comecei a me sentir enfraquecido. Na terceira noite de caminho eu estava tão exausto que tive que parar mais cedo do que de costume. Eu sabia que precisava me alimentar, mas nem sequer podia levantar-me para ir procurá-lo. Caí num sono espasmódico.

Sonhei com a selva. Era muito linda e verde e cheia de borboletas. Uma delas voou para dentro de minha boca e grudou ali, porque as suas asas estavam molhadas. Eu podia sentir as asas batendo e a sua luta para escapar. Acordei, mas não de todo; estava meio adormecido. Eu estava tonto.

Há uma borboleta na minha boca. Que coisa esquisita, pensei. Será melhor eu retirá-la.

Coloquei a mão na boca — e realmente peguei em alguma coisa. Comecei a puxá-la. Quanto mais eu puxava, mais ela saía.

Então, realmente acordei. Eu podia sentir aquela coisa debatendo-se lá no fundo de minha garganta. Quando consegui retirá-lo, e olhei para aquilo, fiquei nauseado.

Era um verme intestinal, de 45 centímetros de comprimento. Ele estava tão faminto, que se arrastara até à minha garganta, procurando alimento.

Com essa experiência, aprendi a sempre comer alguma coisa enquanto andava pelas picadas, ainda que fosse simplesmente para deixar aqueles parasitas satisfeitos.

No dia seguinte resolvi caçar alguma coisa para comer, e alguns dias mais tarde cheguei a Tibu, completamente exausto. E foi ali que me encontrei com Glória. Ela estudava Direito em Bogotá, e fora passar uns dias com o irmão. Esbelta e linda, usava "jeans" e uma jaqueta de couro. O seu cabelo estava amarrado à moda de rabo de cavalo, Não dei muita atenção a ela, visto que eu estava com muita pressa de voltar com os medicamentos.

Contudo, o seu irmão ainda não havia desistido de ir até às selvas. Ele ia tirar cinco dias de férias e desejava que eu o levasse comigo, juntamente com Glória. Eu estava fazendo uma refeição com eles, quando ele fez a pergunta. Eu olhei para Glória. Ela estava olhando para o seu prato.

— Acho que você não compreende — eu disse. — A selva não é lugar para piquenique.

Glória levantou a cabeça num impulso. — Eu não compreendo — ela disse —; que é que o faz pensar que é a única pessoa que pode sobreviver ali?

Repliquei às suas palavras: — A selva não é lugar para mulheres. Você não aguentaria dois dias de caminho.

— Experimente-me — ela disse.

Fiquei um tanto zangado. — Pois bem — eu disse. — Vocês podem ir, enquanto puderem. Mas eu não tenho tempo para bancar babá. Se não puderem me acompanhar, voltarão sozinhos.

No dia seguinte, quando estávamos prontos para partir, resolvi que seria uma bobagem tentar levá-los de volta comigo à casa comunitária de onde eu viera. Então, em vez disso, eu os levei à casa comunitária dos motilones, perto de Tibu. Era uma viagem de barco de dois dias. Quando vi como estavam, senti-me envergonhado de não lhes mostrar como a selva realmente poderia ser árdua.

Chegamos à casa comunitária num dia de pesca. Já haviam construído os diques, e os homens estavam começando a lançar o arpão nos peixes, atirando o arpão rio abaixo e rio acima, gritando e espadanando. Glória quis ir ter com eles. Eu tive que rir. Dei-lhe um arpão. Ela entrou no rio com a água até à cintura e desceu rio abaixo, espiando por baixo da superfície, como uma profissional. Meia hora mais tarde ela voltou, pingando água, sorrindo, e com um peixe grande debatendo-se na ponta de seu arpão. Os motilones ficaram encantados com ela, por causa disso. Nenhuma outra mulher jamais havia ido pescar sozinha, e muito menos pegara um peixe tão grande.

Naquela noite sentamo-nos ao redor da fogueira dentro da casa comunitária, e contamos histórias a respeito dos motilones. Uma das mulheres se aproximou de Glória, tocou-lhe no cabelo, e elogiou-o. Depois ela sorriu e disse: — Você é a esposa de Bruchko?

Eu corei, e Glória quis saber o que ela havia dito. Disse-lhe que a mulher perguntara se ela era uma jovem. Foi tudo o que pude pensar no momento.

— Está claro que eu sou uma jovem — Glória replicou, sorrindo. — Mas o que foi que ela realmente perguntou?

Corei novamente, e recusei-me a dizer, mas os dois insistiram tanto, até que eu lhes disse. — Ela queria saber se você era a minha esposa.

Ela olhou para o irmão e ambos sorriram. "Sim", ela disse.

Foi uma semana maravilhosa. Glória ajudou as mulheres a tecerem e a fazerem o trabalho que elas faziam. Ela estava apaixonada com a maneira de viver dos motilones, e os motilones gostaram dela.

No final da semana, Glória ficou no meio da clareira e acenou com os braços ao redor, indicando tudo aquilo.

— O que é que eu posso fazer? — ela perguntou.

— O que você quer dizer?

— O que eu quero dizer? Como é que eu posso ajudar? Eu não a tomei muito a sério. Todo mundo quer ajudar.

— Você pode estudar medicina — disse eu levianamente — , e voltar aqui para trabalhar no posto de saúde.

Eu não a vi mais durante cinco anos, e posso afirmar que eu quase a esquecera completamente. Havíamo-nos correspondido algumas vezes, mas depois, principalmente por minha causa, a correspondência cessara.

Em 1970 eu estava em Bogotá, andando por uma das ruas movimentadas, quando alguém me tocou nas costas com um livro. Virei-me. Era Glória. Ela era a mesma jovem da qual eu me lembrava, porém parecia mais velha e mais amadurecida.

— Por onde é que você andou? — perguntou-me num ar de insistência.

— Nas selvas, naturalmente — disse eu.

— Por que você não me escreveu mais?

— E quem é que tem tempo para escrever? Eu ando muito ocupado.

— Ninguém está tão ocupado assim.

Caminhamos juntos pela rua abaixo. Perguntei-lhe como ia de estudos na faculdade de Direito. Ela parou e quase chorou.

— O que há com você? — perguntei, pensando que talvez ela tivesse sido reprovada e estivesse envergonhada.

— Agora eu estou na faculdade de Medicina — ela disse.

— Você me falou que se eu quisesse ajudar os motilones, eu deveria ir para a faculdade de Medicina. Então eu desisti da faculdade de Direito.

Eu me lembrava muito levemente de lhe haver dito aquilo e fora apenas um conselho casual. Porém, de repente, percebi que ela na verdade estava interessada em ajudar os motilones.

Desse dia em diante, todas as vezes que ia a Bogotá, ia visitá-la e à sua mãe. (Seu pai havia falecido alguns anos antes.) Glória e eu íamos a um restaurante húngaro, do qual nós dois gostávamos e bebíamos café e conversávamos durante várias horas. Quando eu não podia ir a Bogotá, conversava com ela pelo rádio, e quase sempre sobre os motilones. Também falávamos sobre Jesus.

Glória estava entusiasmada porque o Evangelho havia dado esperança aos motilones, porém não tinha certeza de como aquilo se aplicaria a ela. — Minhas idéias não são as mesmas dos motilones — disse ela um dia, enquanto estávamos no pequeno café.

— Eu não posso compreender Jesus. Não sinto que realmente eu possa conhecê-lo.

— Mas você não pode ver como ele é maravilhoso? — perguntei. — Você não pode ver o quanto ele a ama? Ela sacudiu a cabeça violentamente. — Posso identificar-me com os seus sofrimentos. Eu tenho sofrido. Vi meu pai e meu irmão morrerem, e então sei o que é o sentimento da morte. Mas Jesus — ele ressuscitou. Não é verdade? Ele ressuscitou novamente. Porém eu não posso me erguer de meus sofrimentos.

Ela se debruçou sobre a mesa. Estendi a mão e coloquei-a no seu pescoço. — Você pode — eu disse. — Eu não sei exatamente como. Todas as vezes é diferente. Porém você pode erguer-se. Todo aquele que quiser, pode fazer isso, porque Deus fará isso com você e por você.

Ela simplesmente continuou ali debruçada e não disse mais nada.

Mais tarde, fomos a uma das catedrais de Bogotá. De repente, no meio da missa, Glória que estivera orando, me envolveu com os seus braços e me deu um grande beijo. Ela estava chorando: — Como é maravilhoso! Como ele é maravilhoso! — ela dizia.

Uma senhora, ao nosso lado, ficou muito preocupada. — Que é que há? — perguntou ela.

Eu ri. — Não há nada errado — eu disse. — Nós estamos simplesmente adorando a Deus.

Não demorou muito tempo, depois disso, para que a mãe de Glória também se encontrasse com Jesus, e houve uma cena muito familiar, pois ambas choravam e se abraçavam, enquanto eu estava ali olhando e sentindo-me um tanto embaraçado.

Glória ia formar-se na faculdade de Medicina. E na Colômbia, os médicos recém-formados precisam dar um ano de serviço gratuito na zona rural. Eu conhecia o Ministro da Saúde da Colômbia, e lhe perguntei se haveria a possibilidade de Glória prestar os seus serviços em Tibu, durante um ano, numa pequena casa que havia sido preparada ali para os motilones que necessitavam de mais cuidados médicos do que aqueles que recebiam, nos centros de saúde, nas casas comunitárias.

— Sinto muito Bruce — disse ele — , mas não há nenhuma possibilidade de mandarmos uma jovem solteira ali. É uma área muito difícil.

Fiquei parado por um segundo. Era como se o ar ao meu redor, os carros lá fora nas ruas, e até mesmo o mundo tivessem parado. Foi um momento daqueles! Então, eu sabia, e foi fácil dizê-lo.

— Isso não será problema. Nós vamos nos casar.

Acho que eu estava mais surpreso ao ouvir a mim mesmo dizer aquelas palavras do que ela, quando, mais tarde lhe pedi para se casar comigo.

Por esta cruz te matarei - Capítulo 20


 COMO DAVI E JÔNATAS

George Camibocbayra encontrou-se comigo no lado de fora da casa e me levou a um lado. — Será melhor que você vá já ver Bobby — ele disse. — A sua filhinha está muito doente, e eles a levaram ao hospital em Tibu.

Entrei na casa e encontrei Bobby sentado numa esteira, olhando para os pés. Seu rosto estava triste; coloquei a mão sobre o seu ombro. Ele olhou para cima, e depois novamente para os seus pés.

— Ouvi dizer que sua filha está doente — disse-lhe.

Ele assentiu com a cabeça. — Nós a levamos a Tibu, há três dias.

— Por que você voltou para cá?

— Eu tinha de cuidar de minha esposa. Ela está grávida, você sabe. E eu tenho outros trabalhos a fazer, trazer o mantimento e levar as coisas para vender. E que poderia eu fazer lá em Tibu?

— E no entanto — eu disse, sorrindo levemente — parece-me que tampouco você está sendo muito útil aqui.

Ele olhou para mim novamente. Seu rosto parecia cansado e envelhecido.

— É, isso é verdade — disse ele. — Eu não posso deixar de pensar nela.

Ele se levantou e ficou ao meu lado. Olhei para Atacadara, sua esposa. Ela estava em pé, olhando para Bobby, com uma grande preocupação. O seu ventre estava grande, por causa da gravidez, no entanto, ela ainda conservava o seu rosto fino, e os olhos escuros de uma mulher muito linda. Ela amava Bobby. Mesmo com a filhinha doente, e longe, lá no hospital, ela estava muito mais preocupada com Bobby.

Voltei a olhar para Bobby. — Vamos orar juntos a favor de sua filha — eu disse. — E depois irei a Tibu para ver se posso auxiliar em alguma coisa. Você deve ficar aqui e cuidar de Atacadara.

Quatro dias depois eu estava junto ao leito daquela criança. Seu corpo parecia diminuído. Estava que era pele e ossos, e os olhos tinham uma membrana fina sobre eles.

O médico estava ali junto de mim. — Que doença ela tem? — perguntei.

Ele era um rapaz recém-formado. — Não sabemos — ele disse. — Talvez seja uma combinação de diversas coisas. Não sei se poderemos fazer muita coisa a seu favor.

Um arrepio gelado me percorreu todo o corpo, até à ponta dos dedos. — O senhor quer dizer que ela vai morrer?

— Quem é que sabe? — ele disse. — Se não descobrirmos o que há de errado com ela, provavelmente morrerá.

Saí do hospital lembrando-me de como Bobby costumava erguê-la até à minha rede. Eu costumava sentá-la no meu estômago e cantar canções para ela, enquanto ela sorria e balbuciava, na tentativa de falar.

Lembrei-me de quando Bobby se casara com Atacadara. Fora logo depois que ele aceitara a Cristo. Atacadara fora a moça mais linda e mais inteligente da casa comunitária. Bobby a fizera saber, através de um amigo, que gostava dela. Todas as vezes que se viam e se encontravam, ambos enrubesciam. Atacadara sentia-se apaixonada por Bobby. Era um jovem guerreiro, forte, vistoso, e que era, pode-se dizer, um prêmio valioso da tribo.

Um dia ela mudou a rede para junto da de Bobby, e eles se casaram. O pai dela ficara muito zangado. Ele não estava interessado num genro. Ele queria que a filha ficasse junto à família. Mas ela se recusara.

Ri quando me lembrei de como me sentira na ocasião. Eu tivera receio de que o casamento pudesse trancar a nossa amizade, e que nunca poderíamos nos sentir tão perto novamente. Porém, tudo se deu de modo diferente. Atacadara e eu havíamo-nos tornado irmão e irmã, e quando a sua primeira filha nasceu, de acordo com os costumes motilones, eu era o seu segundo pai. Nós nos havíamos tornado numa só família.

Bobby era um pai e esposo devotado. Não era muito comum entre os homens motilones partilhar muita coisa com suas esposas, porém Bobby e Atacadara, desde o início de seu casamento, eram muito chegados um ao outro. Fora a conversa de Bobby, antes mesmo do Festival das Flechas, que a levara a conhecer a Cristo. Eles não eram apenas marido e mulher, mas amigos. Muitas vezes eles se deitavam na mesma rede e conversavam por horas seguidas. Podia-se ouvir as suas vozes, bem baixinho, sussurrando através da casa comunitária, até altas horas da noite.

E agora a filhinha deles estava às portas da morte. Deus tinha que curá-la. Ela significa muita coisa para Bobby e Atacadara.

No dia seguinte, quando o médico me informou que ela falecera durante a noite, foi como se eu recebesse um soco no rosto.

Eu precisava contar isso a Bobby. Quando lhe contei, o seu rosto empalideceu. Sem dizer uma palavra sequer, ele caminhou em direção à selva, e não voltou até à noite. E assim mesmo, ele não conversou, e não mostrou sinal algum de afeto por Atacadara ou por mim. Dois dias mais tarde, Atacadara deu à luz outra menina, mas Bobby simplesmente fez um leve reconhecimento. Todos os dias ele fazia uma grande caminhada pela selva. Quando voltava, não fazia menção de onde estivera. Se eu conversasse com ele, geralmente não respondia.

Era, na verdade, sua primeira prova como cristão e estava sendo muito difícil. Continuava a não mostrar nenhum sinal de amor por Atacadara e pela outra filhinha. Orávamos por ele, porém durante duas longas semanas havia somente uma grande tristeza.

Então ele começou a observar a nova filha. Eu a peguei e a coloquei nos seus braços. Ele a segurou e a balançou. Dentro de uma semana, ele a estava levando a toda parte, e ele e Atacadara eram mais amigos do que nunca. Todos observavam essa união. O sogro de Bobby, que ficara zangado com aquele casamento, começara a tomar as refeições junto com eles. Ele podia ver que estivera errado. Mais tarde ele se tomou cristão, principalmente por causa do relacionamento matrimonial de sua filha.

A família de Bobby crescera também. Dentro de um ano, o seu primeiro filho nasceu, e isso o fez muito feliz. Porém, ele não era egoísta em relação à sua família. Pensei que talvez ele fosse passar o tempo todo trabalhando para os seus, em vez de cooperar com os outros motilones. Mas parece que se deu o oposto; seu amor pela sua família parecia transbordar para todos, e estava, mais do que nunca, interessado no bem-estar alheio.

Numa de nossas viagens ao território dos motilones, que ficava montanha acima, encontramos um menino de oito anos, mais ou menos, que se chamava Odo. Toda a família daquele menino havia morrido numa epidemia; não tendo ninguém, estava crescendo como um jovem delinquente. Ele passava de uma casa comunitária para outra, sempre encontrando alguma coisa para comer, porém nunca era totalmente aceito.

Ele não era um menino muito agradável. Achava, pelas suas condições, que deveria ser alimentado e que deveriam cuidar dele; mas nunca era grato, quando alguém o fazia. Frequentemente estava em apuros e transtornava as coisas.

Bobby e eu já havíamos observado aquele garoto, porém, como estávamos simplesmente de passagem, não pensei muito no caso. Contudo, Bobby não deixava de preocupar-se. Um dia ele me disse que iria levar Odo consigo, quando partíssemos.

— Para que, Bobby? Ele só vai nos atrapalhar.

— Ele precisa de alguém — disse Bobby. — Quem sabe, se ele nos acompanhar, poderá ajudar-nos e nós poderemos ajudá-lo.

Quando sugerimos a Odo que nos acompanhasse, ele ficou desconfiado.

— Por que vocês querem que eu vá com vocês?

Bobby não deu atenção à sua suspeita. — Nós precisamos de um auxílio extra. Há tanto trabalho para ser feito, e é demais para nós dois. Todo mundo pode ver que você é esperto, portanto achamos que você aprenderá rapidamente.

Odo olhava ora para um e ora para outro, para descobrir o que realmente queríamos com ele; finalmente, fez sinal que sim com a cabeça. — Está bem — disse ele.

A princípio não foi fácil aguentá-lo. Bobby me surpreendia pela sua paciência. Ele nunca se zangava e aparentemente não parecia estar perturbado. Dentro de algumas semanas comecei a observar certa mudança nas atitudes de Odo. Ele estava constantemente perto de Bobby. Em vez de nos atrapalhar, pelo contrário, ele realmente estava começando a nos ajudar. Quando voltamos para a nossa casa comunitária, Odo nos acompanhou e se tornou parte da família de Bobby. Quando, antigamente, ele estava sempre sujo, agora começara a se lavar, apesar de que Bobby nada comentara a esse respeito.

Dentro de alguns meses, ele estava sendo notado pelas pessoas, não por causa de seu mau comportamento, mas pelo fato de que era um jovem valioso. Ao imitar Bobby, ele se preocupava pelos outros.

Essa foi a época mais feliz e agradável que eu já tivera. Bobby e eu estávamos constantemente juntos. Não havia segredo algum entre nós. Eu podia notar que ele estava-se tomando um líder jovem de projeção entre os motilones. Eu nunca precisava dizer-lhe o que tinha que fazer. Na verdade, quando ele vinha a mim, em busca de conselhos, eu lhe dizia que ele precisava decidir por si mesmo. Outros jovens que também haviam aceitado a Cristo, e que sentiam certa preocupação pelos outros, começaram a trabalhar conosco. Desenvolveu-se um sistema de liderança. Era extraordinário ver o trabalho progredir. Novas colheitas foram desenvolvidas, as pessoas doentes foram curadas, e cada vez mais, outros motilones encontravam a sua verdadeira identidade em Cristo.

Porém, o melhor de tudo, eram as horas que eu passava com Bobby. A Bíblia diz que Davi, em seu amor a Jônatas, "era muito maior do que o amor que tinha por qualquer mulher". Eu nunca compreendera isso. Mas há um perfeito amor fraternal, e à medida que esse amor a Bobby crescia, deixei de me preocupar para onde ele nos levaria. Eu simplesmente queria passar o tempo com ele, com sua família, e gozar as coisas que Deus nos dera.

Talvez as nossas melhores horas fossem aquelas após a refeição da noite, quando nos sentávamos ao redor do fogo ou ficávamos deitados em nossas redes, Bobby e Atacadara juntos, Odo e eu ali perto, com os filhos de Bobby passando de um para outro, rindo alegremente. Cantávamos as canções dos motilones e conversávamos sobre os acontecimentos do dia. Se tivéssemos comido uma boa refeição, alisávamos os nossos estômagos, ou eu ia até à rede de Bobby e batia no seu estômago e ríamos juntos. Contávamos histórias e lendas do passado dos motilones, e sempre as histórias de Jesus e das coisas que ele fizera quando homem e quando andara no trilho dos motilones. Às vezes eu tirava a minha Bíblia e conversava a respeito de uma passagem. Finalmente os fogos se extinguiam, o ar ficava silencioso e a chuva noturna começava a cair. E um a um, caímos no sono.

Um dia Bobby me perguntou se não podíamos traduzir a Bíblia, de modo que os motilones pudessem entendê-la por si mesmos. Eles queriam saber mais a respeito de Jesus. Até então, eu passara uma boa parte do tempo contando a eles a respeito de Jesus, e respondendo as suas perguntas. Eu sabia que sozinho não poderia traduzir a Bíblia no idioma deles, porque ainda não dominava completamente a língua e não tinha uma compreensão total das lendas dos motilones. Porém, com o auxílio de Bobby, seria possível, porque não havia barreira alguma em nossa comunicação.

E então começamos a traduzir o livro de Marcos. Uma coisa é aprender a falar uma nova língua, porém outra totalmente diferente é colocar um livro todo, semelhante ao de Marcos, num novo idioma. Nas minhas viagens, fora das selvas, adquirira vários volumes sobre linguística e como fazer traduções, e encontrei-me com um jovem de Caracas que estava interessado em usar um computador para auxiliar na tradução. Desde que havia muito tempo me interessava pela linguística, foi animador e excitante estar envolvido nisso.

Porém, a parte mais excitante do trabalho foi a parte concreta da tradução que eu fiz com Bobby. Uma vez determinado como escrever a linguagem dos motilones, ainda havia o problema de fazer com que as frases bíblicas fossem compreensíveis. E era aí que Bobby auxiliava.

Como é que se pode falar a uma tribo primitiva a respeito de coisas como graça, quando no seu vocabulário não há tal palavra? Às vezes eu tentava adaptar uma idéia cristã à cultura dos motilones. Eu já tivera sucesso com a palavra/é que eu relacionara com "suspender a sua rede em Cristo", e a palavra encarnação que eu relacionara à lenda do homem motilone que se tornara numa formiga. Se a minha tentativa fosse boa, Bobby o confirmava. Outras vezes, ele dizia: "Não, isso não está certo, Bruchko. Jesus não é assim"; e eu precisava tentar novamente.

Ele, também, me esclarecia a respeito de certos aspectos da cultura em que eu falhara compreender completamente. Os motilones, por exemplo, sempre usam nomes que tenham um significado. Não há nomes como Kent ou Kim que são apenas nomes e nada mais. Então, os personagens bíblicos precisavam receber nomes que tivessem sentido. Abraão, tornou-se no "O Homem que Conhece a Deus". João Batista ficou sendo chamado o " Anunciador" e "Habitante das Selvas", e Jesus "O único Filho de Deus conosco".

Todas as vezes que tínhamos que dar um nome, ficávamos longas horas ao redor do fogo discutindo a pessoa e qual seria o melhor nome para ela. Muitas vezes, outros motilones se reuniam conosco e nos ajudavam na decisão.

Algumas das parábolas pareciam também que não se adaptavam à cultura dos motilones. Tomemos, por exemplo, a parábola do homem que construiu a sua casa sobre a rocha, de modo que ela fosse firme. Quando Bobby a ouviu pela primeira vez, ele sugeriu que ela fosse suprimida.

— Isso não está certo, Bruchko. Para que uma casa fique firme, ela precisa ser construída sobre a areia. Pois de outro jeito, os mastros não ficarão muito profundos e a casa se desmanchará.

Então demos um arranjo na parábola. Afinal de contas, Jesus havia escolhido aquela parábola para esclarecer a verdade aos seus ouvintes. Portanto, não queria ele que os motilones também a compreendessem?

Ficamos ambos tão orgulhosos quando terminamos a tradução. No entanto, o nosso trabalho estava apenas se iniciando. Eu era o único que podia lê-lo. Bobby começou a ensinar algumas das crianças. Todas as tardes, fora da casa comunitária, onde era mais agradável, tínhamos as nossas classes.

Mas começamos a ouvir certas queixas dos homens mais velhos. Depois de um mês de termos começado o nosso ensino, Bobby me disse que teríamos que pará-lo.

Fiquei chocado. — Mas por quê? Nós apenas o iniciamos — disse eu.

— É por causa dos mais velhos, dos chefes. Eles acham que não é direito ensinar as crianças coisas que os seus pais não conhecem.

Por um instante fiquei zangado.

— Então deveríamos parar de ensinar o Evangelho simplesmente por que um punhado de velhos está enciumado? — falei abruptamente.

Bobby não respondeu. Ele simplesmente estava triste.

Eu poderia ter-me matado por ter dito aquelas palavras. Não era o meu Evangelho. Era o Evangelho dos motilones. Nenhuma notícia boa deveria estraçalhar o sistema social deles.

Deixamos de ensinar as crianças e em seu lugar convidamos os homens mais velhos. Havia uma grande competição entre eles. Eles não aprendiam tão depressa quanto as crianças, porém tentavam.

Depois de um mês e pouco, eles se sentiam bastante à vontade, para deixar que as crianças aprendessem também. Em vez de viverem em mundos totalmente diferentes, como em geral acontece em toda parte entre as gerações, os homens mais velhos e as mulheres compartilhavam o seu novo conhecimento com seus filhos. Isso favoreceu a união da tribo em vez de destruí-la.

Dentro de pouco tempo, um bom número de motilones sabia ler e escrever. Eles repetiam o evangelho de Marcos como uma metralhadora, e as sílabas, num staccato; saíam de suas bocas tão depressa quanto podiam falar. Porém, não havia compreensão alguma.

Então, um dos chefes mais velhos sugeriu uma regra, que é usada agora, onde quer que as classes sejam ensinadas. Todas as vezes que alguém lê um versículo, outra pessoa faz uma pergunta a respeito dele.

Por exemplo, um motilone poderá ler, "Pois Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu unigênito Filho, para que todo aquele que nele crê não pereça ..."

Um outro motilone perguntará: "Quem é que amou o mundo?"

Se o primeiro homem não puder responder, ele lê o versículo novamente, tentando compreendê-lo. Quando ele o compreende, começa a perguntar a si mesmo: "E como é que isso pode me afetar?"

E assim o trabalho foi progredindo. Porém, eu já estava ficando impaciente de novo. Quanto tempo Deus iria me conservar ali?