Durante os meus primeiros cinco ou seis anos com os motilones,
quase não tive contato com o mundo lá fora. No entanto, enquanto fazia a
tradução de Marcos, juntamente com Bobby, comprei um rádio transistorizado e o
trouxe comigo para a casa comunitária. Durante várias noites fiquei acordado
ouvindo o locutor falar de coisas que pareciam quase irreais. Eu podia me
lembrar muito bem de como era o outro mundo, porém ele parecia tão distante.
Uma noite eu estava deitado em minha rede, com arcos e
flechas para caçar ali por perto o jantar do dia seguinte, e ouvi a transmissão
sobre o primeiro homem que andara na lua. Uma parte de mim ansiava por
empacotar as minhas coisas e ir aonde carros, aviões e ônibus governavam, em
vez de panteras e javalis. Mas, ao mesmo tempo, eu estava profundamente
satisfeito comigo mesmo. Era como se eu tivesse um segredo que o mundo não
conhecia; um lugar secreto que não fora permitido a ninguém entrar ali.
Poucas pessoas creram que eu tivera contato com os motilones,
quando, pela primeira vez, reentrei no mundo lá fora. No entanto, alguns
jornais ouviram falar do que eu estava fazendo, e quando voltei à civilização,
novamente, diversos jornalistas e repórteres me procuraram e fizeram perguntas
a respeito de meu trabalho com os motilones. As suas reportagens despertaram
real interesse. Não demorou muito para que os motilones fossem os heróis da
Colômbia. Diversos homens motilones me acompanharam numa das viagens em busca
de provisões, e um deles, Axducatsyara, foi indicado como o "Homem do Ano
da Colômbia". Até então, todas as notícias dos jornais simplesmente
reforçavam o fato de que os motilones eram os que matavam os empregados das
companhias petrolíferas. Aos poucos, no entanto, os jornais começaram a compreender
que, no todo, os motilones estavam simplesmente defendendo o seu território
contra aqueles que desejavam roubar-lhes as terras e destruir a sua maneira de
viver. O sentimento público se transformou, e como geralmente acontece,
deixou-se levar e indiscriminadamente começou a culpar todos os colonizadores
que viviam naquela área, em vez de ver a diferença que havia entre aqueles que
estavam interessados em cultivar suas fazendas e aqueles que realmente haviam
invadido o território dos motilones.
Os colonizadores revidaram e me chamaram de embusteiro. Eu
estava nas selvas, e quando novamente voltei em busca de medicamentos, as
notícias dos jornais estavam repletas de ataques, dizendo que eu estava
explorando os índios, e transformando-os numa mina de ouro e diamante para mim.
Dei uma boa risada. Eu podia ver a mim mesmo descansando numa cadeira de vime
de espaldar alto, usando um terno branco, chapéu de panamá, tomando uma bebida,
enquanto os motilone me serviam.
Conversei com o Dr. Landinez a respeito disso. — O que é que
devo fazer? — perguntei.
— Ouça — disse ele — , não faça coisa alguma. É muito
natural q e haja muita conversa a respeito disso. Os motilones constituem um
grupo muito interessante de pessoas e ninguém tem jeito de provar qualquer coisa
dita a respeito deles. Faça o seu trabalho, seja honesto com os índios, e deixe
que cada um pense o que quiser. Se você passar o tempo a preocupar-se com o que
os outros pensam, nunca fará coisa alguma.
Então voltei para as selvas. O interesse em torno dos motilones
continuou, mas visto que não havia jeito algum de se conseguir informações a
respeito deles, todo o assunto cessou.
Então, em 1970, uma comissão do governo foi de helicóptero
àquela área, a fim de resolver problemas de limites de fronteira entre a
Colômbia e a Venezuela. Ficaram surpresos ao verem numa casa comunitária, um
centro de saúde e uma escola, mantidos pelos motilones. As notícias saídas nos
jornais não os haviam preparado para uma coisa assim. Eles conseguiram
perguntar aos motilones, quem era responsável por tudo aquilo — uma tarefa
muito difícil, visto que não falavam a língua dos motilones.
Naturalmente os motilones disseram "Bruchko".
Aquilo provou que eu era um falsário. O verdadeiro herói do
desenvolvimento, os jornais afirmavam, era alguém chamado "Bruchko".
Alguns meses mais tarde, outra comissão apareceu, de
helicóptero, naquela mesma área. Felizmente eles perguntaram a um motilone que
aprendera um pouco de espanhol.
— Queremos ver Olson — disse o chefe da Comissão.
— Não conhecemos Olson — respondeu o motilone num espanhol
truncado.
O homem estava surpreso. — Olson não vive aqui?
— Não — disse o motilone, sacudindo a cabeça. — Os motilones
vivem aqui.
— Olson, um rapaz alto, loiro?
— "Oh, Bruchko".
Daquela hora em diante, tivemos publicidade favorável. Porém
publicidade favorável não cura os doentes. Ela não enche a boca dos famintos.
Ela não garante que ninguém irá enxotá-lo de sua própria casa. A única coisa
que ela conseguiu foi despertar e garantir maior hostilidade da parte de muitos
dos exploradores de terra.
Nessa ocasião houve uma grande fuga numa das prisões na
Colômbia. Muitos dos que fugiram se embrenharam naquela área selvagem, junto ao
território dos motilones porque ali seriam deixados em paz. Eles começaram a cultivar
a terra, e, naturalmente, viram os motilones como uma ameaça, tanto para o
controle de suas terras como para a sua liberdade, das forças do governo, pois
os motilones sentiam-se felizes em cooperar com o governo colombiano.
Foi crescendo um ressentimento, embora muitos dos fugtivos
recebessem cuidados médicos dos motilones. Os exploradores regulares das terras
mudavam de opinião a cada momento indo de um lado para outro, na sua
fidelidade. Eles não gostavam dos bandoleiros. Mas, ao mesmo tempo, eles se
ressentiram porque os jornais os haviam chamado de vilões, na luta pelas
terras. E era verdade que eles desejavam usurpar as terras dos motilones. A
maior parte das vezes o apoio deles era dado aos bandoleiros. Com isso,
desencadeou-se às claras uma hostilidade.
O contato com o mundo exterior, o qual havia destruído quase
que totalmente a cultura de muitas tribos primitivas, certamente era uma ameaça
aos motilones. Era uma ameaça que eles precisariam enfrentar. E simplesmente eu
apenas podia orar, para que quando chegasse a hora, eles estivessem tão firmes
em Jesus Cristo a fim de resistir a todo aquele que tentasse mudar os seus
costumes.
Para mim, pelo menos, surgiu algo muito precioso que veio
desse contato com o mundo lá fora. Glória. Seu irmão, tenente do exército
colombiano, estava encarregado do posto militar lá em Tibu. Um rapaz alto,
forte, interessado nas selvas, apesar de nunca haver passado tempo algum no
meio dela. Quando entrou de férias, planejou entrar pela selva, o mais longe
que pudesse. Eu me encontrara várias vezes com ele, lá em Tibu, e tentei fazer
com que desistisse da idéia. Parecia que ele julgava que as selvas fossem como
um parque, lindo, agradável, onde se podia penetrar a fim de se fazer ali um
piquenique. Não foi fácil convencê-lo de que a coisa era diferente.
Encontrei-me com Glória em 1965, depois de uma viagem
difícil a Tibu. Porque eu estava com pressa de conseguir os remédios para os
motilones, não parei para procurar alimento. E durante a viagem toda não vi
coisa alguma que pudesse comer. Simplesmente continuei andando. E tampouco
consegui muita água para beber.
Foi um erro. Comecei a me sentir enfraquecido. Na terceira
noite de caminho eu estava tão exausto que tive que parar mais cedo do que de
costume. Eu sabia que precisava me alimentar, mas nem sequer podia levantar-me
para ir procurá-lo. Caí num sono espasmódico.
Sonhei com a selva. Era muito linda e verde e cheia de
borboletas. Uma delas voou para dentro de minha boca e grudou ali, porque as
suas asas estavam molhadas. Eu podia sentir as asas batendo e a sua luta para
escapar. Acordei, mas não de todo; estava meio adormecido. Eu estava tonto.
Há uma borboleta na minha boca. Que coisa esquisita, pensei.
Será melhor eu retirá-la.
Coloquei a mão na boca — e realmente peguei em alguma coisa.
Comecei a puxá-la. Quanto mais eu puxava, mais ela saía.
Então, realmente acordei. Eu podia sentir aquela coisa
debatendo-se lá no fundo de minha garganta. Quando consegui retirá-lo, e olhei
para aquilo, fiquei nauseado.
Era um verme intestinal, de 45 centímetros de comprimento.
Ele estava tão faminto, que se arrastara até à minha garganta, procurando
alimento.
Com essa experiência, aprendi a sempre comer alguma coisa
enquanto andava pelas picadas, ainda que fosse simplesmente para deixar aqueles
parasitas satisfeitos.
No dia seguinte resolvi caçar alguma coisa para comer, e
alguns dias mais tarde cheguei a Tibu, completamente exausto. E foi ali que me
encontrei com Glória. Ela estudava Direito em Bogotá, e fora passar uns dias
com o irmão. Esbelta e linda, usava "jeans" e uma jaqueta de couro. O
seu cabelo estava amarrado à moda de rabo de cavalo, Não dei muita atenção a
ela, visto que eu estava com muita pressa de voltar com os medicamentos.
Contudo, o seu irmão ainda não havia desistido de ir até às
selvas. Ele ia tirar cinco dias de férias e desejava que eu o levasse comigo,
juntamente com Glória. Eu estava fazendo uma refeição com eles, quando ele fez
a pergunta. Eu olhei para Glória. Ela estava olhando para o seu prato.
— Acho que você não compreende — eu disse. — A selva não é
lugar para piquenique.
Glória levantou a cabeça num impulso. — Eu não compreendo —
ela disse —; que é que o faz pensar que é a única pessoa que pode sobreviver
ali?
Repliquei às suas palavras: — A selva não é lugar para
mulheres. Você não aguentaria dois dias de caminho.
— Experimente-me — ela disse.
Fiquei um tanto zangado. — Pois bem — eu disse. — Vocês
podem ir, enquanto puderem. Mas eu não tenho tempo para bancar babá. Se não
puderem me acompanhar, voltarão sozinhos.
No dia seguinte, quando estávamos prontos para partir,
resolvi que seria uma bobagem tentar levá-los de volta comigo à casa
comunitária de onde eu viera. Então, em vez disso, eu os levei à casa
comunitária dos motilones, perto de Tibu. Era uma viagem de barco de dois dias.
Quando vi como estavam, senti-me envergonhado de não lhes mostrar como a selva
realmente poderia ser árdua.
Chegamos à casa comunitária num dia de pesca. Já haviam
construído os diques, e os homens estavam começando a lançar o arpão nos
peixes, atirando o arpão rio abaixo e rio acima, gritando e espadanando. Glória
quis ir ter com eles. Eu tive que rir. Dei-lhe um arpão. Ela entrou no rio com
a água até à cintura e desceu rio abaixo, espiando por baixo da superfície,
como uma profissional. Meia hora mais tarde ela voltou, pingando água,
sorrindo, e com um peixe grande debatendo-se na ponta de seu arpão. Os
motilones ficaram encantados com ela, por causa disso. Nenhuma outra mulher
jamais havia ido pescar sozinha, e muito menos pegara um peixe tão grande.
Naquela noite sentamo-nos ao redor da fogueira dentro da
casa comunitária, e contamos histórias a respeito dos motilones. Uma das
mulheres se aproximou de Glória, tocou-lhe no cabelo, e elogiou-o. Depois ela
sorriu e disse: — Você é a esposa de Bruchko?
Eu corei, e Glória quis saber o que ela havia dito.
Disse-lhe que a mulher perguntara se ela era uma jovem. Foi tudo o que pude
pensar no momento.
— Está claro que eu sou uma jovem — Glória replicou,
sorrindo. — Mas o que foi que ela realmente perguntou?
Corei novamente, e recusei-me a dizer, mas os dois insistiram
tanto, até que eu lhes disse. — Ela queria saber se você era a minha esposa.
Ela olhou para o irmão e ambos sorriram. "Sim",
ela disse.
Foi uma semana maravilhosa. Glória ajudou as mulheres a
tecerem e a fazerem o trabalho que elas faziam. Ela estava apaixonada com a
maneira de viver dos motilones, e os motilones gostaram dela.
No final da semana, Glória ficou no meio da clareira e
acenou com os braços ao redor, indicando tudo aquilo.
— O que é que eu posso fazer? — ela perguntou.
— O que você quer dizer?
— O que eu quero dizer? Como é que eu posso ajudar? Eu não a
tomei muito a sério. Todo mundo quer ajudar.
— Você pode estudar medicina — disse eu levianamente — , e
voltar aqui para trabalhar no posto de saúde.
Eu não a vi mais durante cinco anos, e posso afirmar que eu
quase a esquecera completamente. Havíamo-nos correspondido algumas vezes, mas
depois, principalmente por minha causa, a correspondência cessara.
Em 1970 eu estava em Bogotá, andando por uma das ruas
movimentadas, quando alguém me tocou nas costas com um livro. Virei-me. Era
Glória. Ela era a mesma jovem da qual eu me lembrava, porém parecia mais velha
e mais amadurecida.
— Por onde é que você andou? — perguntou-me num ar de
insistência.
— Nas selvas, naturalmente — disse eu.
— Por que você não me escreveu mais?
— E quem é que tem tempo para escrever? Eu ando muito
ocupado.
— Ninguém está tão ocupado assim.
Caminhamos juntos pela rua abaixo. Perguntei-lhe como ia de
estudos na faculdade de Direito. Ela parou e quase chorou.
— O que há com você? — perguntei, pensando que talvez ela
tivesse sido reprovada e estivesse envergonhada.
— Agora eu estou na faculdade de Medicina — ela disse.
— Você me falou que se eu quisesse ajudar os motilones, eu
deveria ir para a faculdade de Medicina. Então eu desisti da faculdade de
Direito.
Eu me lembrava muito levemente de lhe haver dito aquilo e
fora apenas um conselho casual. Porém, de repente, percebi que ela na verdade
estava interessada em ajudar os motilones.
Desse dia em diante, todas as vezes que ia a Bogotá, ia
visitá-la e à sua mãe. (Seu pai havia falecido alguns anos antes.) Glória e eu
íamos a um restaurante húngaro, do qual nós dois gostávamos e bebíamos café e
conversávamos durante várias horas. Quando eu não podia ir a Bogotá, conversava
com ela pelo rádio, e quase sempre sobre os motilones. Também falávamos sobre
Jesus.
Glória estava entusiasmada porque o Evangelho havia dado
esperança aos motilones, porém não tinha certeza de como aquilo se aplicaria a
ela. — Minhas idéias não são as mesmas dos motilones — disse ela um dia,
enquanto estávamos no pequeno café.
— Eu não posso compreender Jesus. Não sinto que realmente eu
possa conhecê-lo.
— Mas você não pode ver como ele é maravilhoso? — perguntei.
— Você não pode ver o quanto ele a ama? Ela sacudiu a cabeça violentamente. —
Posso identificar-me com os seus sofrimentos. Eu tenho sofrido. Vi meu pai e
meu irmão morrerem, e então sei o que é o sentimento da morte. Mas Jesus — ele
ressuscitou. Não é verdade? Ele ressuscitou novamente. Porém eu não posso me
erguer de meus sofrimentos.
Ela se debruçou sobre a mesa. Estendi a mão e coloquei-a no
seu pescoço. — Você pode — eu disse. — Eu não sei exatamente como. Todas as
vezes é diferente. Porém você pode erguer-se. Todo aquele que quiser, pode
fazer isso, porque Deus fará isso com você e por você.
Ela simplesmente continuou ali debruçada e não disse mais
nada.
Mais tarde, fomos a uma das catedrais de Bogotá. De repente,
no meio da missa, Glória que estivera orando, me envolveu com os seus braços e
me deu um grande beijo. Ela estava chorando: — Como é maravilhoso! Como ele é
maravilhoso! — ela dizia.
Uma senhora, ao nosso lado, ficou muito preocupada. — Que é
que há? — perguntou ela.
Eu ri. — Não há nada errado — eu disse. — Nós estamos
simplesmente adorando a Deus.
Não demorou muito tempo, depois disso, para que a mãe de
Glória também se encontrasse com Jesus, e houve uma cena muito familiar, pois
ambas choravam e se abraçavam, enquanto eu estava ali olhando e sentindo-me um
tanto embaraçado.
Glória ia formar-se na faculdade de Medicina. E na Colômbia,
os médicos recém-formados precisam dar um ano de serviço gratuito na zona
rural. Eu conhecia o Ministro da Saúde da Colômbia, e lhe perguntei se haveria
a possibilidade de Glória prestar os seus serviços em Tibu, durante um ano,
numa pequena casa que havia sido preparada ali para os motilones que
necessitavam de mais cuidados médicos do que aqueles que recebiam, nos centros
de saúde, nas casas comunitárias.
— Sinto muito Bruce — disse ele — , mas não há nenhuma
possibilidade de mandarmos uma jovem solteira ali. É uma área muito difícil.
Fiquei parado por um segundo. Era como se o ar ao meu redor,
os carros lá fora nas ruas, e até mesmo o mundo tivessem parado. Foi um momento
daqueles! Então, eu sabia, e foi fácil dizê-lo.
— Isso não será problema. Nós vamos nos casar.
Acho que eu estava mais surpreso ao ouvir a mim mesmo dizer
aquelas palavras do que ela, quando, mais tarde lhe pedi para se casar comigo.
