segunda-feira, 3 de maio de 2021

Por esta cruz te matarei - Capítulo 21


 GLÓRIA

Durante os meus primeiros cinco ou seis anos com os motilones, quase não tive contato com o mundo lá fora. No entanto, enquanto fazia a tradução de Marcos, juntamente com Bobby, comprei um rádio transistorizado e o trouxe comigo para a casa comunitária. Durante várias noites fiquei acordado ouvindo o locutor falar de coisas que pareciam quase irreais. Eu podia me lembrar muito bem de como era o outro mundo, porém ele parecia tão distante.

Uma noite eu estava deitado em minha rede, com arcos e flechas para caçar ali por perto o jantar do dia seguinte, e ouvi a transmissão sobre o primeiro homem que andara na lua. Uma parte de mim ansiava por empacotar as minhas coisas e ir aonde carros, aviões e ônibus governavam, em vez de panteras e javalis. Mas, ao mesmo tempo, eu estava profundamente satisfeito comigo mesmo. Era como se eu tivesse um segredo que o mundo não conhecia; um lugar secreto que não fora permitido a ninguém entrar ali.

Poucas pessoas creram que eu tivera contato com os motilones, quando, pela primeira vez, reentrei no mundo lá fora. No entanto, alguns jornais ouviram falar do que eu estava fazendo, e quando voltei à civilização, novamente, diversos jornalistas e repórteres me procuraram e fizeram perguntas a respeito de meu trabalho com os motilones. As suas reportagens despertaram real interesse. Não demorou muito para que os motilones fossem os heróis da Colômbia. Diversos homens motilones me acompanharam numa das viagens em busca de provisões, e um deles, Axducatsyara, foi indicado como o "Homem do Ano da Colômbia". Até então, todas as notícias dos jornais simplesmente reforçavam o fato de que os motilones eram os que matavam os empregados das companhias petrolíferas. Aos poucos, no entanto, os jornais começaram a compreender que, no todo, os motilones estavam simplesmente defendendo o seu território contra aqueles que desejavam roubar-lhes as terras e destruir a sua maneira de viver. O sentimento público se transformou, e como geralmente acontece, deixou-se levar e indiscriminadamente começou a culpar todos os colonizadores que viviam naquela área, em vez de ver a diferença que havia entre aqueles que estavam interessados em cultivar suas fazendas e aqueles que realmente haviam invadido o território dos motilones.

Os colonizadores revidaram e me chamaram de embusteiro. Eu estava nas selvas, e quando novamente voltei em busca de medicamentos, as notícias dos jornais estavam repletas de ataques, dizendo que eu estava explorando os índios, e transformando-os numa mina de ouro e diamante para mim. Dei uma boa risada. Eu podia ver a mim mesmo descansando numa cadeira de vime de espaldar alto, usando um terno branco, chapéu de panamá, tomando uma bebida, enquanto os motilone me serviam.

Conversei com o Dr. Landinez a respeito disso. — O que é que devo fazer? — perguntei.

— Ouça — disse ele — , não faça coisa alguma. É muito natural q e haja muita conversa a respeito disso. Os motilones constituem um grupo muito interessante de pessoas e ninguém tem jeito de provar qualquer coisa dita a respeito deles. Faça o seu trabalho, seja honesto com os índios, e deixe que cada um pense o que quiser. Se você passar o tempo a preocupar-se com o que os outros pensam, nunca fará coisa alguma.

Então voltei para as selvas. O interesse em torno dos motilones continuou, mas visto que não havia jeito algum de se conseguir informações a respeito deles, todo o assunto cessou.

Então, em 1970, uma comissão do governo foi de helicóptero àquela área, a fim de resolver problemas de limites de fronteira entre a Colômbia e a Venezuela. Ficaram surpresos ao verem numa casa comunitária, um centro de saúde e uma escola, mantidos pelos motilones. As notícias saídas nos jornais não os haviam preparado para uma coisa assim. Eles conseguiram perguntar aos motilones, quem era responsável por tudo aquilo — uma tarefa muito difícil, visto que não falavam a língua dos motilones.

Naturalmente os motilones disseram "Bruchko".

Aquilo provou que eu era um falsário. O verdadeiro herói do desenvolvimento, os jornais afirmavam, era alguém chamado "Bruchko".

Alguns meses mais tarde, outra comissão apareceu, de helicóptero, naquela mesma área. Felizmente eles perguntaram a um motilone que aprendera um pouco de espanhol.

— Queremos ver Olson — disse o chefe da Comissão.

— Não conhecemos Olson — respondeu o motilone num espanhol truncado.

O homem estava surpreso. — Olson não vive aqui?

— Não — disse o motilone, sacudindo a cabeça. — Os motilones vivem aqui.

— Olson, um rapaz alto, loiro?

— "Oh, Bruchko".

Daquela hora em diante, tivemos publicidade favorável. Porém publicidade favorável não cura os doentes. Ela não enche a boca dos famintos. Ela não garante que ninguém irá enxotá-lo de sua própria casa. A única coisa que ela conseguiu foi despertar e garantir maior hostilidade da parte de muitos dos exploradores de terra.

Nessa ocasião houve uma grande fuga numa das prisões na Colômbia. Muitos dos que fugiram se embrenharam naquela área selvagem, junto ao território dos motilones porque ali seriam deixados em paz. Eles começaram a cultivar a terra, e, naturalmente, viram os motilones como uma ameaça, tanto para o controle de suas terras como para a sua liberdade, das forças do governo, pois os motilones sentiam-se felizes em cooperar com o governo colombiano.

Foi crescendo um ressentimento, embora muitos dos fugtivos recebessem cuidados médicos dos motilones. Os exploradores regulares das terras mudavam de opinião a cada momento indo de um lado para outro, na sua fidelidade. Eles não gostavam dos bandoleiros. Mas, ao mesmo tempo, eles se ressentiram porque os jornais os haviam chamado de vilões, na luta pelas terras. E era verdade que eles desejavam usurpar as terras dos motilones. A maior parte das vezes o apoio deles era dado aos bandoleiros. Com isso, desencadeou-se às claras uma hostilidade.

O contato com o mundo exterior, o qual havia destruído quase que totalmente a cultura de muitas tribos primitivas, certamente era uma ameaça aos motilones. Era uma ameaça que eles precisariam enfrentar. E simplesmente eu apenas podia orar, para que quando chegasse a hora, eles estivessem tão firmes em Jesus Cristo a fim de resistir a todo aquele que tentasse mudar os seus costumes.

Para mim, pelo menos, surgiu algo muito precioso que veio desse contato com o mundo lá fora. Glória. Seu irmão, tenente do exército colombiano, estava encarregado do posto militar lá em Tibu. Um rapaz alto, forte, interessado nas selvas, apesar de nunca haver passado tempo algum no meio dela. Quando entrou de férias, planejou entrar pela selva, o mais longe que pudesse. Eu me encontrara várias vezes com ele, lá em Tibu, e tentei fazer com que desistisse da idéia. Parecia que ele julgava que as selvas fossem como um parque, lindo, agradável, onde se podia penetrar a fim de se fazer ali um piquenique. Não foi fácil convencê-lo de que a coisa era diferente.

Encontrei-me com Glória em 1965, depois de uma viagem difícil a Tibu. Porque eu estava com pressa de conseguir os remédios para os motilones, não parei para procurar alimento. E durante a viagem toda não vi coisa alguma que pudesse comer. Simplesmente continuei andando. E tampouco consegui muita água para beber.

Foi um erro. Comecei a me sentir enfraquecido. Na terceira noite de caminho eu estava tão exausto que tive que parar mais cedo do que de costume. Eu sabia que precisava me alimentar, mas nem sequer podia levantar-me para ir procurá-lo. Caí num sono espasmódico.

Sonhei com a selva. Era muito linda e verde e cheia de borboletas. Uma delas voou para dentro de minha boca e grudou ali, porque as suas asas estavam molhadas. Eu podia sentir as asas batendo e a sua luta para escapar. Acordei, mas não de todo; estava meio adormecido. Eu estava tonto.

Há uma borboleta na minha boca. Que coisa esquisita, pensei. Será melhor eu retirá-la.

Coloquei a mão na boca — e realmente peguei em alguma coisa. Comecei a puxá-la. Quanto mais eu puxava, mais ela saía.

Então, realmente acordei. Eu podia sentir aquela coisa debatendo-se lá no fundo de minha garganta. Quando consegui retirá-lo, e olhei para aquilo, fiquei nauseado.

Era um verme intestinal, de 45 centímetros de comprimento. Ele estava tão faminto, que se arrastara até à minha garganta, procurando alimento.

Com essa experiência, aprendi a sempre comer alguma coisa enquanto andava pelas picadas, ainda que fosse simplesmente para deixar aqueles parasitas satisfeitos.

No dia seguinte resolvi caçar alguma coisa para comer, e alguns dias mais tarde cheguei a Tibu, completamente exausto. E foi ali que me encontrei com Glória. Ela estudava Direito em Bogotá, e fora passar uns dias com o irmão. Esbelta e linda, usava "jeans" e uma jaqueta de couro. O seu cabelo estava amarrado à moda de rabo de cavalo, Não dei muita atenção a ela, visto que eu estava com muita pressa de voltar com os medicamentos.

Contudo, o seu irmão ainda não havia desistido de ir até às selvas. Ele ia tirar cinco dias de férias e desejava que eu o levasse comigo, juntamente com Glória. Eu estava fazendo uma refeição com eles, quando ele fez a pergunta. Eu olhei para Glória. Ela estava olhando para o seu prato.

— Acho que você não compreende — eu disse. — A selva não é lugar para piquenique.

Glória levantou a cabeça num impulso. — Eu não compreendo — ela disse —; que é que o faz pensar que é a única pessoa que pode sobreviver ali?

Repliquei às suas palavras: — A selva não é lugar para mulheres. Você não aguentaria dois dias de caminho.

— Experimente-me — ela disse.

Fiquei um tanto zangado. — Pois bem — eu disse. — Vocês podem ir, enquanto puderem. Mas eu não tenho tempo para bancar babá. Se não puderem me acompanhar, voltarão sozinhos.

No dia seguinte, quando estávamos prontos para partir, resolvi que seria uma bobagem tentar levá-los de volta comigo à casa comunitária de onde eu viera. Então, em vez disso, eu os levei à casa comunitária dos motilones, perto de Tibu. Era uma viagem de barco de dois dias. Quando vi como estavam, senti-me envergonhado de não lhes mostrar como a selva realmente poderia ser árdua.

Chegamos à casa comunitária num dia de pesca. Já haviam construído os diques, e os homens estavam começando a lançar o arpão nos peixes, atirando o arpão rio abaixo e rio acima, gritando e espadanando. Glória quis ir ter com eles. Eu tive que rir. Dei-lhe um arpão. Ela entrou no rio com a água até à cintura e desceu rio abaixo, espiando por baixo da superfície, como uma profissional. Meia hora mais tarde ela voltou, pingando água, sorrindo, e com um peixe grande debatendo-se na ponta de seu arpão. Os motilones ficaram encantados com ela, por causa disso. Nenhuma outra mulher jamais havia ido pescar sozinha, e muito menos pegara um peixe tão grande.

Naquela noite sentamo-nos ao redor da fogueira dentro da casa comunitária, e contamos histórias a respeito dos motilones. Uma das mulheres se aproximou de Glória, tocou-lhe no cabelo, e elogiou-o. Depois ela sorriu e disse: — Você é a esposa de Bruchko?

Eu corei, e Glória quis saber o que ela havia dito. Disse-lhe que a mulher perguntara se ela era uma jovem. Foi tudo o que pude pensar no momento.

— Está claro que eu sou uma jovem — Glória replicou, sorrindo. — Mas o que foi que ela realmente perguntou?

Corei novamente, e recusei-me a dizer, mas os dois insistiram tanto, até que eu lhes disse. — Ela queria saber se você era a minha esposa.

Ela olhou para o irmão e ambos sorriram. "Sim", ela disse.

Foi uma semana maravilhosa. Glória ajudou as mulheres a tecerem e a fazerem o trabalho que elas faziam. Ela estava apaixonada com a maneira de viver dos motilones, e os motilones gostaram dela.

No final da semana, Glória ficou no meio da clareira e acenou com os braços ao redor, indicando tudo aquilo.

— O que é que eu posso fazer? — ela perguntou.

— O que você quer dizer?

— O que eu quero dizer? Como é que eu posso ajudar? Eu não a tomei muito a sério. Todo mundo quer ajudar.

— Você pode estudar medicina — disse eu levianamente — , e voltar aqui para trabalhar no posto de saúde.

Eu não a vi mais durante cinco anos, e posso afirmar que eu quase a esquecera completamente. Havíamo-nos correspondido algumas vezes, mas depois, principalmente por minha causa, a correspondência cessara.

Em 1970 eu estava em Bogotá, andando por uma das ruas movimentadas, quando alguém me tocou nas costas com um livro. Virei-me. Era Glória. Ela era a mesma jovem da qual eu me lembrava, porém parecia mais velha e mais amadurecida.

— Por onde é que você andou? — perguntou-me num ar de insistência.

— Nas selvas, naturalmente — disse eu.

— Por que você não me escreveu mais?

— E quem é que tem tempo para escrever? Eu ando muito ocupado.

— Ninguém está tão ocupado assim.

Caminhamos juntos pela rua abaixo. Perguntei-lhe como ia de estudos na faculdade de Direito. Ela parou e quase chorou.

— O que há com você? — perguntei, pensando que talvez ela tivesse sido reprovada e estivesse envergonhada.

— Agora eu estou na faculdade de Medicina — ela disse.

— Você me falou que se eu quisesse ajudar os motilones, eu deveria ir para a faculdade de Medicina. Então eu desisti da faculdade de Direito.

Eu me lembrava muito levemente de lhe haver dito aquilo e fora apenas um conselho casual. Porém, de repente, percebi que ela na verdade estava interessada em ajudar os motilones.

Desse dia em diante, todas as vezes que ia a Bogotá, ia visitá-la e à sua mãe. (Seu pai havia falecido alguns anos antes.) Glória e eu íamos a um restaurante húngaro, do qual nós dois gostávamos e bebíamos café e conversávamos durante várias horas. Quando eu não podia ir a Bogotá, conversava com ela pelo rádio, e quase sempre sobre os motilones. Também falávamos sobre Jesus.

Glória estava entusiasmada porque o Evangelho havia dado esperança aos motilones, porém não tinha certeza de como aquilo se aplicaria a ela. — Minhas idéias não são as mesmas dos motilones — disse ela um dia, enquanto estávamos no pequeno café.

— Eu não posso compreender Jesus. Não sinto que realmente eu possa conhecê-lo.

— Mas você não pode ver como ele é maravilhoso? — perguntei. — Você não pode ver o quanto ele a ama? Ela sacudiu a cabeça violentamente. — Posso identificar-me com os seus sofrimentos. Eu tenho sofrido. Vi meu pai e meu irmão morrerem, e então sei o que é o sentimento da morte. Mas Jesus — ele ressuscitou. Não é verdade? Ele ressuscitou novamente. Porém eu não posso me erguer de meus sofrimentos.

Ela se debruçou sobre a mesa. Estendi a mão e coloquei-a no seu pescoço. — Você pode — eu disse. — Eu não sei exatamente como. Todas as vezes é diferente. Porém você pode erguer-se. Todo aquele que quiser, pode fazer isso, porque Deus fará isso com você e por você.

Ela simplesmente continuou ali debruçada e não disse mais nada.

Mais tarde, fomos a uma das catedrais de Bogotá. De repente, no meio da missa, Glória que estivera orando, me envolveu com os seus braços e me deu um grande beijo. Ela estava chorando: — Como é maravilhoso! Como ele é maravilhoso! — ela dizia.

Uma senhora, ao nosso lado, ficou muito preocupada. — Que é que há? — perguntou ela.

Eu ri. — Não há nada errado — eu disse. — Nós estamos simplesmente adorando a Deus.

Não demorou muito tempo, depois disso, para que a mãe de Glória também se encontrasse com Jesus, e houve uma cena muito familiar, pois ambas choravam e se abraçavam, enquanto eu estava ali olhando e sentindo-me um tanto embaraçado.

Glória ia formar-se na faculdade de Medicina. E na Colômbia, os médicos recém-formados precisam dar um ano de serviço gratuito na zona rural. Eu conhecia o Ministro da Saúde da Colômbia, e lhe perguntei se haveria a possibilidade de Glória prestar os seus serviços em Tibu, durante um ano, numa pequena casa que havia sido preparada ali para os motilones que necessitavam de mais cuidados médicos do que aqueles que recebiam, nos centros de saúde, nas casas comunitárias.

— Sinto muito Bruce — disse ele — , mas não há nenhuma possibilidade de mandarmos uma jovem solteira ali. É uma área muito difícil.

Fiquei parado por um segundo. Era como se o ar ao meu redor, os carros lá fora nas ruas, e até mesmo o mundo tivessem parado. Foi um momento daqueles! Então, eu sabia, e foi fácil dizê-lo.

— Isso não será problema. Nós vamos nos casar.

Acho que eu estava mais surpreso ao ouvir a mim mesmo dizer aquelas palavras do que ela, quando, mais tarde lhe pedi para se casar comigo.