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quarta-feira, 28 de abril de 2021

Torturado por sua fé - Capítulo 10



“Você é um homem morto, Haralan Popov!”

Depois de havermos sido condenados, fomos mandados de volta à Prisão Central e colocados em pequenas celas. Por algum tempo, a alimentação e as condições melhoraram. Na mesma cela onde eu estava, achavam-se os pastores Cherneff, Angeloff e Matteff. Ladim, meu irmão, também esteve conosco por breve tempo, mas foi logo transferido para outro lugar. Aquela era a primeira vez em que estávamos juntos desde o aprisionamento. Começamos a falar sobre o que acontecera e sobre o que havíamos passado. Estávamos saindo lentamente daquele estado em que éramos semi-robôs e gravadores humanos e recuperando o bom senso. Naquele período de recuperação, eu disse aos pastores que estavam comigo: “Não enfrentamos os homens, e sim o próprio Satanás. Embora ele tenha feito muito bem a sua obra, quanto a mim, mais do que em qualquer outra época, estou certo de que, no final, Deus triunfará. Irmãos, lembremo-nos: ‘Maior é o que está em vós do que o que está no mundo’. Eles ganharam a batalha, mas, com a ajuda de Deus, venceremos a guerra”. 

O pastor Angeloff replicou: “Haralan, isto é verdade. Se Deus é por nós, quem será contra nós?” Logo percebemos que o pastor Matteff agia de modo estranho. Ele aprovava a maneira como os comunistas tinham lidado com a questão e criticava nossas reivindicações de inocência. As conversas com o Matteff eram cautelosas e chegamos à percepção de que a Polícia Secreta o colocara entre nós para agir como informante. Por diversas vezes, ele era chamado para alguma entrevista com o superintendente da prisão. Tragicamente, ele fora quebrantado não apenas em seu físico, conforme aconteceu conosco, mas o seu próprio espírito ruíra, tornando-o um instrumento dócil nas mãos deles. O aprisionamento ou quebranta um homem em seu íntimo ou fortalece a sua determinação. Era lamentável ver o pastor Matteff quebrantado. Meu coração se entristecia por ele e orava fervorosamente em seu favor. 

O poder satânico fizera bem a sua obra. Fui levado a um pequeno escritório onde um dos membros mais cruéis da Polícia Secreta, o Camarada Aneff, esperava por mim. De pé, a seu lado, estava um homem que eu nunca vira antes. Era moreno e magro, com olhos extremamente ferozes e fisionomia de um alcoólatra. Quase imediatamente ele se lançou contra mim e começou a espancar-me em todo o corpo. Caí sob a chuva de golpes e, estando no assoalho, ele me chutou com todas as suas forças, gritando horríveis obscenidades. Ele exclamou: “Popov, nós o conhecemos! Você está tentando começar uma conspiração com os outros pastores. Vamos ensinar-lhe quem triunfará!” E ordenou que eu fosse transferido para a cela mais úmida e profunda da prisão. Enquanto eu era levado, ele gritou: “Você apodrecerá ali, sozinho! Nunca mais verá a luz do dia! Você é um homem morto, Haralan Popov!” 

O pastor Matteff desincumbira bem seu papel de informante. Dois guardas me levaram ao porão da prisão. Estava cerca de quinze metros abaixo da superfície. Empurraram-me brutalmente para além das celas, descendo por um corredor pouco usado. Ali, no fim do corredor, havia uma pesada porta de metal, enferrujada por conta da umidade. Quando fui empurrado através da porta, vi outro lance de escadas que descia quase verticalmente. Desci pelos degraus inclinados até à fria e escura umidade. A única luz que havia era a das lanternas dos guardas. Senti como se estivesse descendo aos abismos do inferno. Esperei no fim dos degraus, enquanto os guardas também desciam pela escada íngreme. Havia ali um frio desumano e uma escuridão mais profunda do que qualquer outra que eu já vira antes.

Cada guarda me tomou por um dos braços, e desceram-me, através de uma estreita passagem, até à porta de uma cela. Abrindo-a, empurraram-me violentamente para dentro e a trancaram. Ouvi os passos deles subindo pelas escadas para o mundo, lá em cima. Era um lugar de silêncio tumular, completamente escuro. Eu não podia ver a própria mão diante do rosto. Senti-me como um cego, achei a caneca de beber de metal e bati nas paredes, mas não recebi resposta de qualquer dos lados de minha cela. Eu estava completamente sozinho, nas entranhas escuras da terra. Então, as palavras do enraivecido comunista me vieram à memória: “Você nunca mais verá a luz do dia... 

Você apodrecerá ali!” Resignei-me a ser abandonado ali, naquela cavidade profunda e esquecida, muito abaixo do andar térreo, para apodrecer. Não demoraria muito para que um homem apodrecesse naquele lugar. Toquei nas paredes, que estavam molhadas com a umidade que pingava do alto. No fundo daquela cela esquecida, incrivelmente escura, caí de joelhos e orei: “Ó Deus, sei que não há cela profunda bastante, nem barras de ferro fortes o bastante que me separem de Ti. Ó Deus, sê comigo. Dá-me forças!” O assoalho da cela era tão úmido, por causa da umidade subterrânea, que eu não podia deitar-me. Apalpei ao redor, fui até um canto e me agachei ali, com os braços ao redor de mim mesmo, para aquecer-me, e dormir. Não sei dizer quando despertei. 

Em meio a trevas tão absolutas, perde-se o senso da passagem do tempo. É como estar suspenso em outro mundo. Tentei medir a passagem do tempo com a mente, mas isso começou a pregar-me peças. Sem alguma referência habitual, como as estrelas, a luz do dia e as sombras — sem qualquer coisa — um homem perde todo o senso de medida do tempo. Até os cegos têm relógios em braile ou outros meios. Aprisionado naquele vácuo absoluto de espaço negro, eu não tinha nada. Pela primeira vez, em mais de um ano, comecei a temer pela minha sanidade. Eu já me achava ali por um dia ou por vinte dias? Por uma hora ou por uma semana? Só ocasionalmente eu ouvia uma voz, uma grade de ferro se abria e um prato de metal era introduzido depressa pelo assoalho, trazendo um pouco de água e três ou quatro cenouras ou uma batata podre, com vermes. 

Já estava resignado a passar os últimos dias de minha vida ali. Mentalmente, eu aceitara tal sorte. Um dia, quando estava orando, o desespero de minha situação atingiu-me em cheio. Faminto, espancado, esquecido, eu sabia que não havia qualquer esperança de sair daquele lugar. Um oficial de alto escalão dissera que eu “apodreceria” ali; e parece que ele falava sério. Lágrimas surgiram em meus olhos. Durante semanas devo ter ficado naquele estado. “Oh! Deus!” — eu clamava. Então, aconteceu algo que jamais me havia acontecido. Uma luz esplendorosa começou a brilhar, e uma sensação de calor invadiu a cela, envolvendo meu corpo debilitado e faminto. Senti braços fortes ao meu redor, como se estivesse abrigado nos braços do próprio Cristo. 

Aquela mesma voz que eu ouvi, quando fiquei de pé em frente da parede por duas semanas, falou novamente. Nunca poderei descrever aquela voz. Com amor e compaixão, Cristo falou comigo: “Meu filho, nunca o abandonarei. Meus braços estão ao seu redor, e, neles, Eu te confortarei e te fortalecerei”. Lágrimas escorriam pelo rosto, enquanto eu estava seguro nos braços de Cristo. Sei que alguns leitores talvez considerem isto um exagero. Mas, quando eu estava quase no ponto de loucura e desespero, Cristo me fez saber que não me esquecera ali, envolto na escuridão de uma cela esquecida, nas entranhas da terra. Foi um belíssimo e amoroso abraço, um momento que tornou dignos todos os sofrimentos passados. Como eu O amo! Se ao menos todos homens deste mundo pudessem conhecer a Cristo, em sua beleza e amor! 

Agora eu estava com Cristo, contente por esperar a morte e partir para estar com Ele. Cristo falou comigo, consolou-me, e a sua presença encheu a cela quase que de maneira física. Ele segurou-me a mão em sua mão atravessada pelo cravo. Ele sabia o que é sofrer e compartilhava dos sofrimentos de seus filhos. Aqueles foram dias preciosos, muito preciosos. Desfrutei de comunhão com Cristo, ao mesmo tempo que, definhando cada vez mais, aguardava a morte. Então, algum tempo mais tarde, ouvi o barulho de passos e de homens que conversavam. A porta da cela foi aberta num movimento rápido, e um jato de luz brilhante resplandeceu em meu rosto. “Popov, saia daí! Você virá conosco!” — gritou uma voz. Eu quase não podia movimentar-me, depois de ter ficado em uma só posição por tanto tempo.

 Foram um tanto me carregando e um tanto me empurrando escadas acima. Quando vi a luz tão opaca das celas do porão, meus olhos se rebelaram contra o fulgor, pois estavam acostumados à completa escuridão! Finalmente, eu estava de volta ao bloco onde estivera antes. Jogado em uma cela, perguntei ao prisioneiro que ali se achava em que data estávamos. Fiquei lá embaixo por trinta e cinco dias e jamais teria sido tirado daquele lugar, se o oficial que me ordenara “apodrecer” não tivesse sido transferido. Evidentemente, Deus ainda tinha um propósito para mim, nesta vida. Mais tarde, no corredor, encontrei um homem ligeiramente encurvado. Era o pastor Ivan Angeloff, que passara pelo mesmo tratamento que recebi. O pastor Angeloff e eu fomos levados ao 8o Departamento da prisão e lançados em uma cela vazia. Encontramos algumas tábuas, com as quais fizemos camas, a fim de que, pelo menos, não tivéssemos de dormir sobre o chão de cimento. Naquela primeira noite, os inevitáveis percevejos nos aguardavam. Atacando em enxames, caíam do teto como gotas de chuva. 

Invadiam tudo, caindo especialmente sobre nós. Sem dúvida, éramos os primeiros prisioneiros naquela cela, que havia muito tempo não era ocupada; e os insetos sentiam falta das suas refeições. Jamais poderíamos dormir sob aquelas circunstâncias, pelo que passamos a noite andando pela cela, matando percevejos. Conseguimos dormir um pouco ao amanhecer, quando os percevejos não estavam mais ativos. À noite, dormíamos por turnos. Enquanto o pastor Angeloff dormia, eu permanecia como sentinela, matando os insetos e impedindo-os que chegassem até ele. Quando eu dormia, ele fazia o mesmo. Pela terceira noite, o número de percevejos já fora consideravelmente reduzido, mas as paredes da cela estavam decoradas com manchas vermelhas, que logo se tornaram negras. Em meados de junho, fomos transferidos para uma espaçosa cela de três cantos que continha vinte outros pastores, alguns dos quais vinham de um julgamento posterior ao nosso. 

Nosso julgamento fora apenas o início da guerra que visava a eliminar o apoio dado às igrejas. Agora, pela primeira vez, era-nos permitido um breve passeio do lado de fora, todos os dias. Era ótimo respirar novamente ar fresco, ver o céu azul e a luz do sol. Eu me sentia um novo homem, embora continuasse cercado pelos muros da prisão. Um dia, notei uma minúscula folha verde de grama que brotava de uma rachadura no cimento. Como nosso guarda olhava para outro lado, abaixei-me rapidamente e a apanhei. Ninguém pode imaginar o que aquela minúscula folha de grama significava para mim. Era verde e viva. Foi o primeiro contato que eu tive com o exterior, durante quase um ano. Segurar aquela pequena folha de grama que Deus criara fez meu espírito elevar-se. Alguns dias depois, o superintendente da prisão visitou a nossa cela. Ele parecia animado e informou-nos que todos receberíamos um trabalho para fazer, mas primeiramente era mister que nos tornássemos membros da Sociedade Cultural da prisão. A Sociedade Cultural era um movimento iniciado pela Polícia Secreta — a DS. Em todas as prisões, a Polícia Secreta resolvera doutrinar os prisioneiros. Na realidade, a Sociedade tinha a finalidade de submeter-nos a “lavagem cerebral” e fornecer à Polícia Secreta informações sobre todos os prisioneiros. A única coisa que os interessava era a atitude de cada prisioneiro para com o regime. Os prisioneiros também eram “treinados” no movimento. No fim do treinamento, eram classificados em uma de duas formas: ou “irrecuperáveis” ou “reformados”.

Classificado como não-reformado

A Sociedade Cultural desenvolveu-se em uma organização forte, com relatórios, cânticos de coral, peças teatrais e cursos (por exemplo, sobre o marxismo, o leninismo, o cultivo de vinhas ou agricultura). Os cursos mais importantes eram sobre o comunismo. Não importando o curso, os palestrantes sempre conseguiam introduzir algo sobre as duas figuras principais do comunismo: Marx e Lenin. O capitalismo era condenado: era um sistema intolerável que tinha de ser aniquilado.
O comunismo, por outro lado, era o melhor sistema político e o mais humanitário! É claro que tudo isso era tão idiota e falso, que o próprio palestrante não acreditava no que dizia. Suas palavras enfadonhas, indiferentes e vazias faziam-no parecer uma gravação. As mesmas palavras, as mesmas sentenças, as mesmas expressões, os mesmos relatos repetidos muitas e muitas vezes. Era enjoativo, mas tínhamos de tolerá-lo. No começo, não percebemos o propósito da Sociedade Cultural. 

Mas, quando percebemos seus objetivos, não havia meios de escapar. Permita-me falar novamente sobre a diferença entre quebrar a vontade e “lavar o cérebro”. Minha vontade cedeu após seis meses de espancamento, até ser levado ao desespero, até que meu corpo chegou aos seus limites, sucumbindo fisicamente. Mas foi temporário. A lavagem cerebral consiste em convencer “permanentemente” alguém de que o comunismo é bom. Eles poderiam quebrar minha vontade, porém jamais poderiam “lavar meu cérebro”. Durante o tempo em que tentaram “converter-me” e lavar meu cérebro, trabalhei como impressor de livros e compositor de tipos gráficos. Os outros pastores trabalhavam em uma fábrica de papelão. Dentro de dois meses, as autoridades da prisão perceberam que eu não poderia ser submetido à “lavagem cerebral” e desistiram de mim. 

Eu tinha sido “reprovado no curso” e destinado a uma prisão de trabalhos forçados. Em 1º de dezembro, chegou a minha vez. Eu estava trabalhando na sala de impressão, quando recebi ordens de arrumar as minhas coisas e levá-las para o auditório. Eu tinha um colchão, um cobertor, dois acolchoados, um travesseiro, uma maleta, que continha minhas roupas íntimas, e uma cesta de alimentos. Eles nos deram muitas coisas durante a tentativa de lavar nosso cérebro. Essa foi a única coisa boa durante o período de “lavagem cerebral”! No auditório, encontrei trinta outros prisioneiros que aguardavam ordens posteriores. Evidentemente, nós havíamos sido considerados irrecuperáveis. Agora, o tratamento severo começaria novamente, como acontecera antes do julgamento. À noitinha, chegou um caminhão fechado, e recebemos ordem para embarcarmos com nossa bagagem.

Não havia janela na parte de trás, pelo que não tínhamos a menor idéia sobre aonde estávamos indo. Quando o caminhão parou, achamo-nos na estação ferroviária de Sofia. Fomos trancados em uma pequena sala que ficou lotada conosco; mas, nos sentamos no assoalho e procuramos dormir. Na manhã seguinte, fomos embarcados em um trem para nosso novo destino, Sliven. Há duas prisões em Sliven: a “prisão antiga”, que fica na própria cidade, e a “prisão nova”, para onde fomos levados, a quase um quilômetro da estação. A prisão era um edifício espaçoso, de cinco pavimentos, que anteriormente era uma fábrica de macarrão. Estava circundada por um muro de cinco metros de altura, com uma torre de vigia em cada canto. Era noite quando chegamos. Fomos levados para o 8o Departamento, que, como ocorre em todas as prisões, é o pior departamento. Visto que o edifício não era, originalmente, uma prisão, as celas eram pouco maiores do que as celas individuais da Prisão Central de Sofia. 

A nossa cela media cinco metros de comprimento por menos de dois metros de largura, mas havia quinze de nós ali. E tínhamos de achar um lugar para o balde, sempre presente. Por essa razão, havia menos espaço ali do que em qualquer outro lugar onde já estivéramos. Estávamos apertados como sardinhas em uma lata. A primeira coisa que fizemos foi medir as paredes; então, marcamos um espaço de trinta centímetros para cada homem dormir. Entre os prisioneiros, havia um famoso poeta búlgaro, Trifon Konieff. Era um homem maravilhoso, jovial. Todos gostávamos muito dele. Trifon era tão grande que lhe era impossível dormir mesmo naquela medida dobrada. Por isso, cada um de nós cedeu alguns centímetros de espaço, para que ele tivesse um pouco mais de espaço. Medimos com cuidado. Isso nos deu exatamente vinte e oito centímetros de largura. 

E, visto que não havia espaço no chão, para nossa bagagem, nossos sacos e maletas foram penduradas em pregos, nas paredes. Todas as outras celas eram iguais a essa. À noite, todos dormíamos do mesmo lado. Se alguém quisesse virar-se, todos tínhamos de nos virar ao mesmo tempo, em uníssono. Durante o dia, ficávamos assentados em nosso minúsculo espaço. Aquela ociosidade forçada dava-me excelente oportunidade de falar sobre Deus para aqueles homens. E quase todos ansiavam por ouvir mais. A única janela que havia naquela cela estava no teto. Embora estivesse sempre aberta, o ar era quente e abafado. Era verão, e a cela estava repleta de suor, com os homens que transpiravam sob um calor de 38o . Vestíamos somente calções, mas o suor continuava a jorrar de nós. 

O único alívio era a meia hora de passeio no pátio da prisão, uma vez por dia. Era horrível ter de voltar à cela úmida e de ar abafado, após nosso pequeno intervalo de alívio no lado de fora, mas ninguém oferecia resistência. Nunca pude saber se a prisão de Sliven era uma prisão de “disciplina”, mas o tratamento era mais severo do que em outras prisões. E agora que eu fora classificado como “não-reformado”, os outros prisioneiros e eu voltamos para a “Dieta de Morte”. Recebíamos somente duas fatias de pão, além da sopa, que tinha um sabor pior do que o da outra sopa que já tinha recebido. Era como beber óleo sujo. A sopa de peixe vinha cheia de olhos de peixes flutuando. Mas eu comia tudo, até os olhos.

Ruídos noturnos

Não existe nada mais assustador do que a insônia em uma prisão. Na quietude da noite extremamente quente, podíamos ouvir os ruídos da prisão. Havia a respiração desigual dos prisioneiros deitados um contra o outro. Era fácil dizer quais homens estavam tendo pesadelos, devido à sua respiração ofegante. Quem poderia saber que sonhos desanimadores eles tinham? Ouvíamos o rangido compassado, no assoalho do corredor, causado pelos sapatos de feltro dos guardas, que caminhavam para lá e para cá. Vez por outra, abria-se um cadeado, ouvíamos passadas e sussurros. Alguém estava sendo levado para ser interrogado ou espancado. Enquanto eu permanecia deitado, apertado em meus vinte e oito centímetros de espaço, no assoalho coberto de corpos que dormiam, minha mente se voltava para Rute, Paulo e a pequena Rode. Onde estariam eles? O que lhes teria acontecido? 

O rosto magro e exausto de Rute, que eu vira, quando nos encontramos antes do julgamento, me perseguia. Estariam eles famintos agora, quando permaneço deitado aqui? Teriam um lugar para abrigarem-se? O pior de tudo é que eu nada podia fazer para ajudá-los. Eu fora separado deles havia quase dois anos, e isso parecia uma eternidade. Mais treze anos de separação nos aguardavam à frente! Na tranqüilidade da noite de insônia, eu orava: “Oh! Deus! O que acontecerá com eles? Guarda-os, protege-os, ajuda-os”. Aquelas noites de insônia foram as piores. Por muitas vezes, eu fechava os olhos para não ver; tapava os ouvidos para não ouvir, mas não podia desligar os meus pensamentos. Alguém, em uma cela próxima, repleta como a nossa, soltava um gemido. Quais seriam os seus pesadelos, temores e sonhos desfeitos? 

O tremendo calor, o mau cheiro do balde, o odor dos corpos sem banho e o silêncio da noite, entremeado com gemidos e gritos de homens que dormiam, faziam o ar parecer carregado de desespero. Ouvia-se os ruídos de homens que tinham perdido tudo e cujas esperanças eram que a noite nunca terminasse, pois o sono oferecia o único meio de escape da realidade. Em Sliven, bem como nos anos por vir, a noite sempre era o pior momento. A noite era a ocasião favorita para espancamentos e tortura. As piores horas eram das onze até às três da madrugada. Um pavimento inteiro, de uma das alas, foi levado ao interrogatório noturno, que, sem dúvida, contava com o mais moderno “método”. Os gritos e imprecações dos torturadores se sobressaíam aos gritos dos homens torturados. 

Com freqüência, eu tentava pôr algodão nos ouvidos, para abafar a horrível cacofonia de gritos distantes. Era durante a noite que os homens tinham tempo para pensar e lembrar o que poderia ter acontecido. Era à noite que muitos homens enlouqueciam. Eu podia ouvir seus delírios, quando sua mente ruía, recusando-se a continuar funcionando. Então, chegavam os guardas e os levavam embora. Esses eram os ruídos de uma prisão, à noite. Eu procurava ajudar os homens, sobretudo naquelas noites tão difíceis. E, ajudando-os, eu ajudava a mim mesmo. Não demorou muito para que a Polícia Secreta viesse classificar-nos. A primeira classe consistia de prisioneiros políticos, pastores, sacerdotes, etc. 

A segunda classe consistia de criminosos, assassinos, estupradores. Além disso, cada uma dessas classes foi dividida em três categorias. Os piores “criminosos” eram os da primeira classe e da primeira categoria. Fui classificado nesta categoria. Éramos selecionados dentre todos para receber o pior tratamento. A cada ano éramos classificados novamente. Para que alguém fosse transferido a uma classe melhor, tinha de mostrar-se mais inclinado ao novo regime. Durante todo o meu tempo de encarceramento, fui mantido na primeira classe e na primeira categoria. Evidentemente, desistiram de tentar reformar-me, mas ainda parecia estranho o fato de ser classificado oficialmente como alguém mais perigoso do que um assassino de muitas vidas. No entanto, eu percebia a razão dos comunistas. Minha fé e meu testemunho eram perigosos para eles, que não são homens ignorantes. Reconhecem que a fé em Deus é o pior inimigo deles. Durante treze anos, tive de ficar assentado ouvindo palestras sobre o marxismo e o comunismo. Nunca “me formei”, mas permaneci na mesma classe. 

Deixei a prisão como um iletrado nestes assuntos. Parece que eu simplesmente não aprendia como se constrói uma sociedade comunista. Houve um grande número de homens que cedeu e passou a concordar com tudo. Eles não somente foram transferidos para uma classe melhor, mas também foram soltos muito antes dos outros. Tinham sido “reformados” e foram considerados como “treinados”. Algum tempo depois disso, um grande número de prisioneiros políticos e religiosos de Sliven, incluindo eu mesmo, recebeu ordem de arrumar seus pertences. Ao todo, éramos cerca de duzentas e oitenta pessoas. Fomos levados à estação ferroviária e colocados em três vagões de carga, enquanto nossa bagagem foi colocada em um caminhão aberto. 

Fomos levados ao entroncamento ferroviário mais próximo e ficamos curiosos para saber em que direção seguiríamos. No caminhão aberto, que levava nossa bagagem, havia um guardafreio que reconheci ser um antigo conhecido meu. Secretamente, fiz-lhe um sinal indagando se ele sabia para onde estávamos sendo levados. Ele respondeu escrevendo a letra “k” no vidro da janela coberta de geada. Então, compreendi que estávamos a caminho de Kolarovgrad.
A prisão de Kolarovgrad era recém-construída e, em algumas partes, ainda não estava bem terminada. Ela tinha não somente celas individuais, mas também celas para dois ocupantes. As janelas eram maiores que o tamanho habitual, e havia tábuas no assoalho. Foi-nos dito que aquela prisão estava reservada para prisioneiros políticos que tivessem problemas de disciplina e que o tratamento ali seria particularmente severo. Portanto, esperávamos receber um tratamento brutal. 

Todavia, os oficiais se mostraram mais humanos do que os de Sliven. Devem ter ignorado as ordens recebidas e dirigiam a prisão conforme eles mesmos queriam. Estávamos localizados na ala norte. Nossas celas eram limpas e bem ventiladas, e tudo era completamente novo. Os únicos percevejos existentes eram os que tínhamos levado em nossa bagagem. (E eram abundantes!) Nossa cela fora construída para conter doze pessoas, mas ali havia apenas oito; portanto, pela primeira vez, desde que fôramos aprisionados, tínhamos um lugar confortável. Nossa ração de alimentos ainda consistia de meia fatia de pão diário, mas a sopa era simplesmente deliciosa. Embora nunca pudéssemos dizer que estávamos satisfeitos, pelo menos não padecíamos as dores da fome que experimentávamos em Sliven.

 Alguns de meus colegas de prisão tinham sido oficiais de altas patentes. Um deles freqüentara uma escola americana, em Sofia, e sabia falar inglês muito bem. Outros podiam falar um pouco de inglês; por isso, todos os prisioneiros de nossa cela começaram a aprender inglês. Eu lhes ministrava como seu “pastor da prisão” e lhes ensinei um belo hino, que entoávamos em inglês, assim: Que comunhão, que gozo divino, descansando nos braços eternos, Que bênção, que paz é a minha, descansando nos braços eternos. Descansando, descansando, salvo e seguro de todo alarme, Descansando, descansando, descansando nos braços eternos. Depois de um ano de horror, em Sofia e Sliven, a permanência em Kolarovgrad era um belo testemunho sobre a maravilhosa graça do Senhor. Era como uma vida nova, embora eu soubesse que teria pouca duração.

No mês de outubro, tivemos permissão de ver nossos queridos pela primeira e única vez naquele ano. Rute veio visitar-me com nosso filhinho Paulo, que estava na idade em que as crianças perdem seus dentes da frente. Logo percebi que Rute perdera muito peso. Ela me contou que naquele tempo trabalhava como faxineira no jornal Trud (“Trabalho”). Para minha surpresa, foi-me permitido segurar o pequeno Paulo nos braços, através da dupla grade de ferro que havia entre nós. A visita deles foi um tônico para mim.

Um presente de Deus

Pouco depois daquela visita, recebi pelo correio todas as minhas roupas de baixo e todas as minhas camisas. Fiquei muito perturbado. Quando isso acontecia com um homem, geralmente significava que a esposa dele havia morrido. Quando isso acontecia a um prisioneiro, ele ficava horrorizado. Não me era permitido escrever e receber mais de uma carta a cada três meses; portanto, não pude descobrir a situação de minha família. Durante três meses, eu não sabia se Rute estava viva ou morta. Sentia-me em terrível tormento. Se Rute estivesse morta, o que ocorreria a Paulo e Rode? Meus colegas de prisão tentavam consolar-me e convencer-me de que haveria outra razão, mas o meu desespero aumentava cada vez mais. A idéia de que não havia ninguém para cuidar de meus filhos, que ainda eram pequenos, quase me fez perder a cabeça. 

Orei, pedindo graça, e deixei o assunto nas mãos do Senhor. Na manhã seguinte, ao levar o balde ao banheiro, um colega de prisão, chamado Dragan, veio até mim. Ele sussurrou: “Haralan, sua esposa e seus filhos foram para a Suécia”. Dragan trabalhava no escritório da prisão, estando em posição de saber das coisas que aconteciam fora da prisão; mas passara por grande risco ao contar-me aquela notícia dos acontecimentos exteriores. Ele não me diria mais do que aquela escassa informação. Demoraria algum tempo, até que eu descobrisse toda a história. Parece que o tesoureiro do escritório, que não era comunista, conhecia o pastor que ministrava em Kolarovgrad. O pastor contou ao tesoureiro que Rute e as crianças tinham conseguido chegar com segurança à Suécia; e lhe pedira que me desse a notícia. O tesoureiro não tinha permissão de entrar em contato com qualquer dos prisioneiros, por isso, ele transmitiu a mensagem a Dragan, cujo trabalho permitia contatos ocasionais conosco. Alguns dias depois desta notícia, recebi uma carta enviada por minha filha de doze anos, que dizia: “Com a ajuda de Deus chegamos à Suécia. Agora estamos em Estocolmo”. 

Nunca, em minha vida, havia experimentado tão grande alegria! Minha esposa e meus filhos estavam livres, salvos de outras perseguições e da pobreza. O longo braço da Polícia Secreta não poderia alcançá-los na Suécia. O pesado fardo que deprime e mata a muitos prisioneiros — as preocupações e inquietações com seus familiares – tinha caído de meus ombros. Quanto agradeci a Deus! Todo o bloco de celas se regozijou comigo. Até os prisioneiros que não eram crentes foram contaminados por minha alegria e deram graças a Deus comigo. Compartilharam da minha felicidade. Eu sabia que quase certamente nunca mais veria os meus queridos novamente, mas, pelo menos, eles estavam em segurança. Não posso dizer o que isto significou para mim. Os anos seguintes, na prisão, foram muito mais fáceis de suportar. Eu não tinha mais temor dos comunistas. Eles tinham a mim, mas não podiam tocar em minha família! Rute, Paulo e Rode estavam livres. 

Tendo sido retirado de meus ombros aquele imenso fardo esmagador, resolvi expandir meu ministério pastoral na prisão. O que poderiam eles fazer contra mim? Minha esposa e meus filhos estavam livres. Poderiam torturar-me, mas não podiam atingir-me no único ponto realmente vulnerável — a esposa e os filhos! Intenso sofrimento e tortura estavam à minha frente, devido ao meu testemunho por Cristo, na prisão. Contudo, eu não era mais um prisioneiro. Certamente, havia muros e barras de ferro em redor de mim, mas ninguém podia tirar de mim a liberdade interior. Posteriormente, soube que foi a intervenção do governo da Suécia em favor de minha esposa que lhes obteve a liberdade. Ela era uma cidadã sueca, casada com um cidadão búlgaro. Somente isso salvou Rute e nossas crianças. Aquela notícia foi um marco decisivo para mim. Foi o maior presente que Deus poderia dar-me. O último obstáculo — o temor de causar sofrimento a Rute e às crianças — fora afastado. Agora eu ensinaria, pregaria, testemunharia e trabalharia para Cristo em todas as prisões em que me colocassem. Eles tinham perdido o seu domínio sobre mim. Agora, tinham um Haralan Popov diferente! Pouco depois de haver recebido aquela notícia maravilhosa, fui enviado a Persin, com quatrocentos outros prisioneiros. Persin era uma ilha-prisão no rio Danúbio; era uma prisão com trabalhos forçados. Fomos postos em vagões tão apertados que tivemos de fazer a viagem inteira em pé. À noite, começamos nossa viagem para Belene, a estação ferroviária mais próxima da ilha. O oficial encarregado do transporte estava tão receoso da possibilidade de escaparmos, que insistiu em fechar até as janelas de ventilação dos vagões!

 Percorremos cerca de oitenta quilômetros naquela noite; depois, chegamos a um desvio no qual permanecemos até ao fim da tarde. O dia estava muito quente — mais de 38 graus centígrados dentro do vagão repleto de pessoas. Homens entraram em pânico e batiam nos lados do vagão, implorando por ar e água; mas ninguém vinha ajudar-nos. Os homens começaram a perder os sentidos devido ao calor e à sede. Mas estávamos tão apinhados que, ao desmaiar um homem, ele não caía no chão. Não havia espaço. Ele ficava de pé, embora inconsciente. O calor deve ter subido a mais de quarenta graus centígrados naquela tarde — e todos dentro daquele vagão fechado e sem ar. Finalmente, como resultado dos nossos gritos e batidas, o oficial permitiu que abrissem uma fresta das portas, para que nossas garrafas vazias fossem passadas para fora, a fim de serem enchidas com água. Percorremos cerca de mais cinqüenta quilômetros naquela noite. No dia seguinte, repetiu-se a história. 

Ficamos parados em um desvio das sete da manhã às cinco da tarde, sob um tremendo calor, com sede e exaustos — sempre de pé. No final do segundo dia, ficamos estacionados em um desvio a apenas dez quilômetros de Belene. Devido ao calor, outros prisioneiros perderam a consciência. Acontecendo isso, o oficial finalmente permitiu que as portas fossem abertas e que os homens inconscientes fossem levados e deitados na grama. Depois de haverem recebido respiração artificial, recuperaram a consciência. Esse incidente levou o oficial a permitir que as portas ficassem abertas alguns centímetros, e, quando o sol se pôs, nossa viagem continuou. Era noite, quando chegamos à estação de Belene; e por toda parte encontramos soldados armados. Apanhamos nossa bagagem e marchamos atravessando os campos até ao rio, escoltados pelos soldados. Curvados sob o peso de nossa bagagem, quase não agüentamos a caminhada; mas, os que caíam por terra, logo se levantavam novamente, para não serem pisados pelos que vinham marchando atrás. Molhados de transpiração, finalmente chegamos ao edifício de administração da prisão, que era cercado por arame farpado. Ali entramos.

Torturado por sua fé - Capítulo 09



A luta final

A data de meu “julgamento público” já estava marcada; tudo estava preparado, mas eu ainda não me rendera. Os oficiais, a essa altura dos acontecimentos, estavam ficando desesperados. Precisavam quebrar minha vontade naqueles poucos dias, senão... Eram exatamente oito horas da manhã quando fui levado para baixo, pelas escadas dotadas da tela de arame. Entrei novamente no escritório do camarada Manoff, o principal interrogador. Embora eu andasse como que sob os efeitos da grande bênção que acabara de receber, meu corpo estava extremamente debilitado. Minhas pernas quase cediam ante o meu peso, quando eu andava. Os efeitos acumulados do que eu estava experimentando cobravam seus juros. Mas a Palavra de Deus se cumpria em mim: o corpo estava enfraquecido, mas o espírito estava forte. Cumprimentei Manoff com polidez, mas ele virou a cabeça, sem responder. Na sala, havia uma outra pessoa a quem eu nunca vira antes. Com um grito feroz, ele me ordenou que virasse para a parede. Assim, coloquei-me novamente naquela posição familiar. Tudo começou de novo. Manoff tinha três interrogadores para o auxiliarem. Eu podia perceber que aquela era a provação final. A voz dos interrogadores estava carregada de ódio. Evidentemente, eles tinham sido repreendidos por não terem me quebrantado até àquele momento; e agora não queriam falhar. O mais idoso ordenara que me virasse para a parede. Seu nome era Dimitri Avrahamoff. Os outros dois jovens pareciam estar apenas no começo de seus vinte anos. O mais jovem dos dois era um rapaz cujos olhos estavam repletos de ira devoradora. Seu rosto estava contorcido de ódio contra mim. Tão jovem, mas já reduzido a um ódio e agitação animalescos! Como aquele homem precisava de Cristo!, eu pensei. Os três serviam em turnos de oito horas, enquanto, novamente, eu ficava olhando para a parede, sem qualquer oportunidade de dormir, mantendo os olhos abertos, tal como fizera naqueles outros catorze dias. Naquela primeira ocasião, entretanto, eu tinha alguma reserva de energia. Agora, não tinha nenhuma. A “Dieta de Morte” cobrara caro. À meia-noite, naquele primeiro dia, o jovem cheio de ódio começou o seu turno. Ele observava todos os meus movimentos, percebendo até se eu mudava o peso do corpo de um pé para outro, a fim de descansar um pouco ou se eu não ficava em posição de sentido. Ele me escarnecia e insultava. Conforme já mencionei, as horas depois da meia-noite são as mais difíceis para os prisioneiros, pois é naquele período que o corpo exige sono e tem de lutar para conservar-se desperto. Não importa o quanto tente permanecer acordado, mesmo estando em pé, o prisioneiro acaba cochilando, e cai. Quando isso acontecia, o jovem se arrastava silenciosamente por trás de mim e acertava uma pancada seca do lado da cabeça, que deixava o meu ouvido tinindo. Imediatamente depois do golpe, ele me chutava nas canelas, com suas pesadas botas e toda a força de que dispunha. Certa vez, quando caí, fui ordenado a levantar os braços verticalmente. Após cerca de dez minutos, ficaram tão cansados que caíram. Praguejando em voz alta, ele gritou que eu levantasse novamente os braços, mas não tive forças para cumprir sua ordem. Outra pancada. Outro chute. Então, ele ordenou que me apoiasse contra a parede utilizando dois dedos, o que é ainda pior. Aqueles homens conhecem toda a contorção dolorosa que pode ser imposta ao corpo humano. As últimas horas da noite foram indescritivelmente dolorosas. Era apenas a primeira noite, mas, pelo menos, eu conseguira resistir.
Chegando o novo dia, minhas forças se renovaram. É interessante observar que uma pessoa não se sente tão cansada durante o dia como se sente à noite. Naquele tempo, aprendi muito sobre o corpo humano e sua resistência. A tortura, os espancamentos e os chutes violentos continuaram durante o segundo, o terceiro e o quarto dia. O lado de minha cabeça estava inchado. Minhas canelas doíam constantemente, devido aos chutes. Fiquei mais fraco, sem receber alimentos e água. A minha fome desapareceu novamente, e, em lugar dela, surgiu a sede que eu experimentara antes. Uma vez mais, o sangue desceu da cabeça às pernas, que incharam até ficarem o dobro do tamanho normal. Meu rosto enrugou, minha barba cresceu muito, meus lábios racharam e o sangue correu novamente por sobre a barba. Eu estava experimentando aquilo por que já passara antes, mas dessa vez era muito mais doloroso. Um dia entrava no outro imperceptivelmente. Muitas vezes perdi os sentidos e caí no chão. Eles me reanimavam com um balde de água e me levantavam de novo, cobrindo-me com golpes e maldições. Eu não sentia coisa alguma senão ardor, ardor intenso, proveniente da sede e da dor. Então, a Palavra de Deus relampejou em minha memória: “Tudo isto, porém, vos farão por causa do meu nome, porquanto não conhecem aquele que me enviou” (João 15.21); “Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele” (Filipenses l.29). Por causa de Cristo! Por causa dEle! Este glorioso pensamento renovou minhas forças. Meu espírito começou a conversar com Deus. As horas mais difíceis — aquelas depois da meia-noite — chegavam e terminavam, e eu nem sabia para onde fora a noite. Logo chegou a manhã do sétimo dia. Manoff, o chefe dos interrogatórios, veio novamente e não se sentiu nem um pouco feliz por ver-me tão revigorado. Já era o sétimo dia de torturas, e ele esperava que eu me dobrasse. O julgamento estava marcado para breve, e eles estavam ficando desesperados. Ele deu uma ordem a Dimitri, que me segurou por trás, pelos ombros, e me sacudiu ferozmente. Senti que o Espírito do Senhor me encheu novamente. Dimitri virou-me para ele, fechou os punhos... então, algo me aconteceu.
Até hoje, não posso explicar o que aconteceu. Naquele momento, cada músculo de meu corpo tornou-se duro como uma pedra. A debilidade de momentos anteriores desapareceu completamente. Os efeitos de seis dias e seis noites de fome, do esforço para ficar em pé, das pancadas, das maldições e os três meses de tortura e desnutrição foram esquecidos num momento. Meu corpo enfraquecido e contraído reergueu-se. Cheguei perto de Dimitri totalmente ereto, reto como uma estátua. Dimitri me ultrapassava em estatura, pois era homem forte e enorme. Os seus três primeiros socos me acertaram diretamente entre os olhos. Meu nariz inchou e o sangue esguichou, mas eu não sentia qualquer dor. Meus músculos estavam firmes e meu corpo rígido. Nem balancei, nem caí de fraqueza. Outros golpes se seguiram, mas, incrivelmente, não senti dor alguma. A frente de minha camisa ficou coberta de sangue. Dimitri me golpeava cruelmente. Meu rosto tornou-se uma massa de sangue a escorrer, de cortes abertos e inchaços. No entanto, eu não sentia qualquer dor! Ao invés disso, senti um imenso poder vindo sobre mim e ofereci o rosto a Dimitri, para que ele tivesse um alvo melhor. Movimentei-me em direção a Dimitri, que começou a recuar. Segui-o. Meu rosto estava perto dele, novamente. E gritei: “Bata-me! Então você compreenderá! Bata em mim! Bata em mim!” Abalado e pálido, Dimitri voltou-se com lentidão e caiu pesadamente em uma cadeira. Eu o tinha seguido pela sala, exigindo que me espancasse, impelido por uma força que não era minha. Agora eu estava por sobre Dimitri, enquanto ele afundava na cadeira. Subitamente, a força sobrenatural que eu havia sentido desapareceu. Senti-me tão fraco que não pude manter-me de pé. Cai no chão em pedaços como um trapo molhado. A incrível experiência terminara. Eu estava caído, enquanto a sala se enchia de silêncio e de interrogadores perplexos. Finalmente, arrastaram-me e empurraram-me contra a parede. Encostei nela fracamente. Fiquei ali a noite inteira. O dia seguinte era 7 de novembro, o dia em que perdi a vontade própria. Lembro-me de ter caído como se alguém tivesse acertado minha cabeça com uma barra de ferro. Comecei a ter alucinações. A sala parecia repleta de serpentes. Elas se arrastavam pelo assoalho, paredes e móveis, vindo diretamente contra mim, deslizando pelo meu corpo. Os buracos na parede tornaram-se rostos — rostos loucos que riam histericamente de mim. Eu estava à beira da loucura. As serpentes, os rostos — tudo parecia girar, girar ao meu redor, enquanto eu sentia que estava afundando, afundando cada vez mais. Afundara até à beira da loucura. Passando por meses de espancamento, fome e tortura, eu havia combatido o bom combate. Resistira mais do que um corpo humano poderia resistir. Cheguei ao fim de minha resistência. Exclamei: “Ó Deus!” Sim, minha vontade fora finalmente quebrada. Eles ganharam daquela vez. Sob a influência desse tratamento psicológico e da tortura física, uma pessoa é transformada no que se assemelha a uma gravação, que fala e canta aquilo que nela houver sido gravado. Eles nos enchiam com as palavras, e, tal como máquinas, as repetíamos. Se me dissessem que eu assassinara minha própria mãe, eu teria repetido mecanicamente: “Sim, assassinei minha mãe”. Eu não era mais um ser humano, e sim um gravador humano. Fora espancado, brutalizado, sujeito à fome, até transformar-me em um robô humano. Estava pronto para confessar qualquer coisa. Tendo-me reduzido a uma massa, Dimitri começou a moldar-me conforme desejava. E parece que era especialista nisso. Aquela não era a primeira vez que ele conseguia fazer um prisioneiro curvar-se à sua vontade. Ele então me disse: “Você é um espião de primeira categoria”. “Sim”, respondi. “É disso que eu gosto em você. Você está no trilho certo. Sente-se. Esperaremos até à vinda de Manoff; então, você poderá ir descansar em sua cela.” Sentei-me em uma cadeira. Minha cabeça girava de tontura. Daquele momento em diante, acreditei e fiquei sabendo que eu era um espião. Foi assim que todos os quinze dentre nós, líderes eclesiásticos, nos tornamos “espiões”. Pela manhã Manoff chegou. Ao ouvir a notícia, sorriu de orelha a orelha. Fui levado à minha cela, recebi alimentos e fui deixado sozinho, para descansar. Fiquei deitado por longo tempo, enquanto se acalmavam meu corpo e meu sistema nervoso, e então caí em sono profundo. Uma elaborada série de “confissões” estava preparada pelos comunistas para que eu as assinasse. Eu as assinei. Se me tivessem ordenado que assinasse dizendo que Deus estava morto, eu o teria feito. Minha vontade própria havia ido tão longe, que não podia mais resistir. Em 31 de dezembro, às quatro horas da tarde, mandaram-me juntar minhas coisas. Eu tinha um colchão e um cobertor, que recebera de minha casa, após minha vontade ter-se dobrado, e os enrolei juntamente com minhas roupas e algumas outras coisas. Dois guardas me levaram até um carro que esperava do lado de fora. O dia estava tristemente frio. Nas ruas de Sofia, as árvores e os postes telefônicos estavam cobertos por uma grossa camada de geada. Pareciam-me tão bonitos. Rodamos por um bom número de ruas e chegamos às portas traseiras da Prisão Central de Sofia. A Polícia Especial tinha terminado sua obra. Eu deixara a “Casa Branca”. Eles já me tinham “preparado” para o julgamento.
O cântico dos tamancos
“Antes, porém, de todas estas coisas, lançarão mão de vós e vos perseguirão, entregando-vos às sinagogas e aos cárceres, levando-vos à presença de reis e governadores, por causa do meu nome; e isto vos acontecerá para que deis testemunho” (Lucas 21.12-13). Com essas palavras, Jesus preparou os seus discípulos para o que aconteceria. Durante toda a história do cristianismo, essas palavras têm se cumprido muitas e muitas vezes e continuam se cumprindo em nossos dias. As igrejas evangélicas da Bulgária experimentaram-nas em grau especialmente intenso. O “cárcere”, no meu caso, era um edifício de cinco andares, circundado por um grande pátio. Ao redor do pátio, havia um muro de pedras de cinco metros de altura e um metro de largura. Em cada um dos quatros cantos daquela fortaleza havia uma torre elevada, onde um guarda não afrouxava a vigilância. A Prisão Central é semelhante, em sua construção, a todas as demais prisões da Bulgária, porém é maior do que todas as outras. Construída muitos anos antes dos comunistas subirem ao poder, tinha mais de trezentas e cinqüenta celas individuais; em cada uma das celas, havia um cama, uma mesa e uma cadeira. O chão era de cimento; por isso, os prisioneiros tinham de usar tamancos. Naquela prisão, construída para acomodar trezentos ou talvez quatrocentos prisioneiros, agora havia mais de cinco mil! Uma ala inteira da prisão fora separada para acomodar os pastores e as testemunhas, que chegavam ao total de cento e setenta pessoas. Após o julgamento, algumas dessas pessoas foram postas em liberdade, outras foram enviadas para outra prisão, e outras, para campos de concentração. Minha cela ficava no fim de um corredor, ao lado de um banheiro. O banheiro era o lugar para onde os prisioneiros traziam seus baldes e os esvaziavam. Minha cela era como uma despensa fria, não parecia um lugar a ser ocupado por uma pessoa. O chão estava coberto de lixo. Coloquei meu colchão de palha e meu cobertor sobre o assoalho de cimento e me deitei ali. Era um dia extremamente frio, e, embora eu usasse cada peça do meu vestuário e me enrolasse no cobertor, não pude dormir devido ao frio. Era a véspera do Ano Novo, e fiquei caminhando pela cela, enrolado no cobertor e ouvindo o estalido dos tamancos dos prisioneiros no chão de cimento. Chamávamos isso de “cântico dos tamancos”. Era causado pelos tamancos de milhares de prisioneiros que andavam para lá e para cá, procurando aquecer-se. Durante os treze anos de meu aprisionamento, tive apenas um par de sapatos de couro, mas não posso nem contar quantos pares de tamancos eu gastei. Naquela noite eu ouvia o “cântico dos tamancos” pela primeira vez. Eu ouviria aquele estranho ruído por muitas e muitas vezes. Gelado até aos ossos, naquela noite terrivelmente fria, eu e cinco mil outros prisioneiros observamos a chegada do Ano Novo. Posteriormente, Rute falou sobre a primeira visita que me fez. Ela disse: “No começo de janeiro, um guarda da prisão veio falar comigo e esclarecer que eu e as crianças poderíamos ir visitar meu esposo, na prisão. Eu não tinha visto meu esposo desde que fora detido, em 24 de julho. Na prisão, fomos cumprimentados pelo superintendente, que se mostrou muito cordial. Então, fomos levados a uma sala de espera, e dois guardas conduziram Haralan até ali. Saudamo-nos, enquanto um oficial se assentava nas proximidades, para ouvir nossa conversa. Meu marido tinha as pernas, os braços — seu corpo inteiro — inchado no dobro do seu tamanho normal. Perguntei-lhe se estivera doente, visto que estava tão inchado. Ele olhou ao redor nervosamente e levou um dos dedos aos lábios; assim, fiquei sabendo que não podia fazer-lhe tal pergunta. Então ele disse em voz alta: ‘Minhas roupas estão um pouco apertadas. Se você pudesse me enviar calças mais frouxas, seria ótimo!’ Terminaram os dez minutos permitidos de visita — passaram-se rápido demais. Então, Haralan foi novamente levado embora.” Tendo visto Rute pela primeira vez, desde meu aprisionamento, eu lhe perguntei: “Você está vendo o que ganhou por ter-se casado comigo? Talvez fosse melhor se você tivesse ficado na Suécia. Eu só lhe trouxe sofrimentos”. Lágrimas jorraram de seus olhos; e ela respondeu: “Não, o meu lugar é junto de você”. Após aquela visita, comecei a receber alimento substancial, para que voltasse ao peso original. Também recebi atenções médicas para que os danos físicos fossem reparados. Eu não podia mostrar qualquer sinal do que havia sofrido. Durante seis meses, eu não tivera permissão de lavar o rosto, tomar um banho ou barbear-me. É fácil imaginar qual era o meu aspecto!
Quebrado, mas não derrotado
O tribunal de Sofia é o maior edifício isolado da Bulgária. E quão apropriado é que seja tão grande: é de muita utilidade. Ocupa um quarteirão inteiro na região central da cidade. Meu julgamento realizou-se no mais belo e importante dos salões de julgamento do tribunal — o Salão 11. Microfones e câmeras foram instalados em ambos os lados do auditório, para que o julgamento fosse filmado. Jornalistas de países estrangeiros encontravam-se entre os convidados especiais, estavam lá representados o The London Telegraph, The New York Times e outros grandes jornais. Aquele seria um julgamento histórico, no qual eu e outros catorze principais líderes eclesiásticos da Bulgária seríamos julgados ao mesmo tempo. Também estava presente o “Deão Vermelho” de Canterbury, H. Johnson, que fora trazido especialmente para o julgamento. Aos parentes foram dados cartões especiais de admissão. O salão, que tinha capacidade para mais de quinhentas pessoas, estava lotado. Um por um, fomos trazidos de nossas celas, escoltados por um policial de cada lado. Fomos levados a assentos sem qualquer comunicação uns com os outros. No entanto, não pudemos deixar de olhar uns para os outros, quando vimos os pastores “bem-vestidos”, usando terno limpo e passado. Que contraste com os imundos trapos que havíamos usado na prisão, durante os últimos seis meses! Como foi que isso aconteceu? Duas semanas antes de começar o julgamento, disseram-nos que escrevêssemos aos familiares pedindo camisas e ternos bem passados. Também lhes foi permitido que nos enviassem tanto alimento quanto pudessem. Além disso, a cozinha da prisão nos mandara alimentos nutritivos e calóricos, nas duas últimas semanas. Tudo para impedir que houvesse qualquer evidência do sofrimento pelo qual havíamos passado, visto que teríamos de comparecer diante de repórteres e diplomatas estrangeiros. Deveríamos parecer bem-alimentados, bem-vestidos e bem-tratados — o ludíbrio comunista estava em ação! O tribunal constituía-se de três juízes, que eram meros robôs. As verdadeiras decisões estavam nas mãos dos oficiais da Polícia Secreta, sentados na primeira fileira do auditório. Todo o texto do que seria dito fora escrito com bastante antecedência. As acusações foram lidas pelo Promotor-Chefe da Bulgária, que era auxiliado pelo promotor estadual Tsakoff. O primeiro a ser levado ao banco dos réus foi o pastor batista Nickola Michailoff. Seu julgamento durou seis horas. Era o mais transformado, o mais disposto a dizer o que os comunistas queriam que ele dissesse. Na realidade, o pastor Ziapkoff, que era o líder de todas as congregações evangélicas da Bulgária, deveria ter sido o primeiro a ser julgado, mas evidentemente a DS não confiava muito em que ele se humilharia. O pastor Michailoff mostrou-se uma “testemunha importante” contra todos os pastores, especialmente contra o pastor Ziapkoff. Bastaria o testemunho de Michailoff para condenar todos nós à morte. Contudo, visto que “tínhamos confessado”, a sentença de morte foi “revogada” e transformada em aprisionamento. O intuito disso era demonstrar a “misericórdia” dos comunistas. O segundo a ser levado ao banco de réus foi o líder dos metodistas, o pastor Janko Ivanoff. Ele repetiu o que dissera o pastor batista, confirmando o testemunho deste em todos os aspectos. No dia seguinte, os jornais estavam repletos das terríveis “confissões” de espionagem dos pastores, que haviam “vendido” a Bulgária aos ingleses e americanos. De acordo com os jornais, o “povo” exigia as penas mais severas. Evidentemente, toda a notícia dos jornais viera da Polícia Secreta. De fato, ficamos sabendo posteriormente que os artigos tinham sido escritos várias semanas antes! Cedo pela manhã, recebemos cópias dos jornais, a fim de percebermos que nossa situação era desesperadora, não havendo nada mais a fazermos, senão confessar, arrepender-nos e implorar clemência. Nossas confissões estavam escritas como sermões, e disseram-nos que, depois de lermos as confissões, deveríamos lamentar e clamar em “arrependimento”. Somente meu irmão, Ladim não fora quebrantado. Recusara-se até a usar gravata no tribunal, como sinal de sua resistência. Naquela noite, a British Broadcasting Company (BBC), em Londres, noticiou que Ladim Popov fora o único dos quinze pastores acusados de espionagem que se recusara a confessar. Os repórteres da BBC proclamaram-no o herói do julgamento; e ele realmente o era. Ladim era fisicamente muito vigoroso e foi capaz de resistir a boa parte das torturas. Não sendo casado, não tinha esposa ou filhos com quem se preocupar. E isso o ajudara mentalmente. O julgamento foi uma trágica comédia “negra”, escrita, produzida e dirigida pela Polícia Secreta. Nós, os pastores, tínhamos sido espancados, submetidos a regime de fome e nos tornamos gravadores. Antes do julgamento, fôramos destituídos dos dois mais importantes fatores da vida de um ser humano: a vontade e a razão. Na realidade, éramos apenas gravações usadas pelas autoridades da Polícia Secreta — gravações que reproduziam a vontade, os desejos, os pensamentos e as mentiras deles. Gravações reproduzem apenas aquilo que tiver sido registrado nelas. De acordo com a doutrina comunista, o fim justifica os meios. Isso permite aos comunistas usarem mentira, engano deliberado, assassinato e todas as medidas possíveis que os ajudem a conseguir os seus propósitos.
Em nosso caso, os comunistas tinham objetivos específicos. Em primeiro lugar, o caso contra os principais pastores da nação tinha por objetivo destruir as igrejas evangélicas. Em segundo lugar, visava a destruir os pastores fiéis com um só golpe, para que fossem substituídos por pastores-fantoches. Mas, quando os pastores foram levados ao banco dos réus, era Cristo e seus ensinos que estavam realmente sendo julgados. Novamente, o diabo arranjara falsas testemunhas e encontrara acusações falsas para livrar-se de Cristo, a Luz do Mundo. Ele foi julgado perante Pilatos, que recebia ordens de Roma; foi escarnecido, sentenciado à morte, crucificado e colocado em um túmulo selado. Estávamos apenas seguindo os passos dEle. No entanto, embora o diabo tenha se mostrado bastante astuto, esperto e maldoso, ele não obteve êxito. E a razão disso encontra-se nas palavras de Paulo a Timóteo: “A palavra de Deus não está algemada” (2 Timóteo 2.9). A Palavra de Deus não pode ser destruída. Mais cedo ou mais tarde, a verdade será vitoriosa. Exatamente quando o diabo pensava ter obtido a vitória, Cristo ressuscitou dentre os mortos. Uma mentira é sempre uma mentira. Nem marxistas, nem leninistas conseguirão criar um paraíso terrestre fundamentados na mentira. As testemunhas de acusação eram semelhantes aos principais sacerdotes que cuidaram para que Jesus fosse sentenciado à morte. As acusações feitas contra nós não se baseavam nos fatos, mas, apesar disso, as palavras vazias e as circunstâncias fabricadas eram repetidas vez após vez. Um engenheiro que trabalhava em uma fábrica de marmelada testemunhou que discutira com o pastor Ivanoff a respeito de como a marmelada era “enlatada a vácuo”. Mais tarde, esse engenheiro encontrou dinheiro em um de seus livros. O promotor lhe perguntou: “Como você acha que o dinheiro apareceu ali? Não acha que o pastor Ivanoff o colocou ali, como pagamento pela informação que recebeu de você?” Após gaguejar um pouco, a testemunha disse: “É claro que ele deve ter feito isso”. Esses eram os testemunhos apresentados contra nós! As testemunhas não disseram a verdade. Mas o perjúrio das testemunhas era involuntário. Declararam o que eram forçadas a dizer; eu não sentia nenhuma indignação contra elas. Os testemunhos prosseguiram por oito dias; o julgamento inteiro prolongou-se por doze dias. Tudo estava andando como um teatro de marionetes. Os fios eram puxados, e as marionetes se moviam. Após serem ouvidos os depoimentos das testemunhas, o promotor fez um discurso que durou quatro horas e continha mais assuntos políticos do que acusações. Ele descreveu a situação internacional e disse que o “imperialismo internacional” tentava impedir os trabalhadores de lutarem por seus ideais. Afirmou que, por meio de nós, os pastores, os imperialistas tentavam destruir o comunismo. Ao terminar, o assistente do promotor fez um discurso de condenações, vituperando pessoalmente cada um de nós. Durante toda a audiência, tanto a promotoria como a defesa salientaram quão perverso era o crime, exigindo a pena de morte para o que acusavam ser espionagem na política, nos assuntos econômicos e nas questões de defesa nacional. Contudo, nem a promotoria, nem a defesa puderam apresentar um exemplo sequer de qualquer coisa que tivéssemos praticado e que merecesse castigo tão severo. Nossos advogados, que ganhavam polpudas somas todos os dias, em nossa “defesa”, apoiavam ao promotor em sua propaganda política e nos condenavam. Somente dois dos advogados de defesa ousaram dizer a verdade. Um deles não era comunista; estava ali por ser um dos mais hábeis e dos mais conhecidos advogados de Sofia. Em seu discurso de defesa, ele disse: “Meritíssimo, estes pastores foram acusados de espionagem. Não é de nosso dever descobrir em que consistiu a espionagem deles?” E continuou: “O pastor Mishkoff traçou um mapa mostrando uma estrada de Plovdiv a Pestera. Segundo a acusação, esse mapa foi entregue aos norte-americanos. Os norte-americanos seriam tão bobos que não poderiam ir à livraria mais próxima e comprar um mapa da Bulgária, que mostra não somente todas as estradas da Bulgária, mas também as ferrovias? Esses mapas são vendidos abertamente”. O promotor saltou sobre os pés como se tivesse sido picado por uma abelha. E gritou: “Sr. Toumparoff, o senhor não tem o direito de falar isso! Não sabe que hoje tudo é secreto na Bulgária?” Toumparoff imediatamente percebeu a seriedade do tom de voz do promotor, bem como a ameaça sugerida, e, assim, mudou de tática, adotando a mesma atitude subserviente usada pelos outros advogados. O pastor Vasil Ziapkoff, o líder das congregações evangélicas, recebeu o tratamento mais severo. A despeito de sua inocência, em face das acusações lançadas contra ele, seus advogados aconselharam-no a confessar, arrepender-se e pedir misericórdia, pois, de outra maneira, seria impossível escapar da pena de morte. Quando testemunhou em defesa própria, aquele homem, que conhecêramos como firme e resoluto servo do Senhor, chorou profusamente. Ele também passara por sofrimentos indescritíveis. Todos olharam surpresos para o pastor Ziapkoff. Contudo, não era o pastor Ziapkoff que falava, e sim um “toca-fitas” que reproduzia o cântico composto pela Polícia Secreta. Nem mesmo o tom e o som de voz eram dele. Após o julgamento, não vimos mais o pastor Ziapkoff por três nos. As torturas pelas quais passara o tinham levado à beira da demência, e foram necessários três anos inteiros para que ele se recuperasse. Sob aquelas circunstâncias, a timidez e o temor tomaram conta das igrejas — o segundo plano da Polícia Secreta começava a funcionar. Um após outro, os principais líderes cristãos leigos foram chamados à sede da Polícia Secreta, sendo-lhes ordenado terminantemente que renunciassem a amizade e a comunhão com seus ex-pastores. Os jornais começaram a imprimir notas escritas por membros comuns das igrejas ou por seus líderes leigos, dizendo: “Expresso meu repúdio pelas atividades dos pastores e renuncio minhas relações com eles”. No entanto, assim como nos dias de Elias, houve um remanescente que se recusou a prostrar-se diante de Baal. Portanto, nas congregações, houve aqueles que permaneceram ao nosso lado. Houve pastores que não apresentaram notas de renúncia nos jornais. Mas, um por um desses pastores logo foram lançados no ostracismo e obrigados a abandonar o ministério. Alguns deles foram até enviados a campos de concentração. Outros passaram a ser varredores de ruas, nas próprias cidades onde tinham pastoreado. E muitos daqueles pastores, fiéis e caídos no ostracismo, iniciaram reuniões “secretas” em seus lares, correndo grande risco. Não demorou e os comunistas vieram para dentro da igreja na forma de “novos pastores” nomeados pela Polícia Secreta. Alguns dos jovens e dos membros mais ativos das igrejas eram levados à sede da Polícia Secreta, à noite. Ali eram violentamente espancados, de um modo que não deixasse marcas. Pela manhã eram soltos e forçados a prometer que não contariam nada a respeito de tudo quanto sucedera, nem mesmo a suas esposas. Um jovem crente foi convocado à sede da Polícia Secreta todas as noites, durante seis meses, para ser espancado. Por meio de vários recursos, os comunistas tentavam fazê-lo prometer que lhes contaria tudo quanto acontecia em sua congregação. Ele se recusava. Sua esposa notou as ausências noturnas, percebendo também que ele retornava pálido e trêmulo. Ele nunca contou seus sofrimentos para ela. Os mesmos métodos eram usados contra muitos jovens crentes em todo o país. Crentes fervorosos e membros ativos das igrejas eram especialmente procurados pela Polícia Secreta. Muitos deles não resistiam e se renderam à vontade das autoridades, talvez para permanecerem na congregação. O temor de ser delatado determinava a conduta do indivíduo. Em muitos casos, sabia-se quem era o informante, mas ninguém ousava dizê-lo abertamente, porque a Polícia Secreta podia alcançar a quem quisesse. Isso me faz lembrar a profecia bíblica de que o homem seria traído pelos de sua própria casa. Muitos crentes de outros países não conseguem entender quão astutos e malignos são os poderes das trevas, porque nunca estiveram assentados sozinhos, numa cela, completamente impotentes e sem esperança. Não importa quantos livros sejam escritos a esse respeito, somente aqueles que têm experimentado os caminhos e os meios usados podem compreender o que Satanás é capaz de inventar para torturar os homens. Nossas sentenças foram anunciadas em oito de março. As sentenças mais pesadas caíram sobre os líderes das várias denominações. O pastor Vasil Ziapkoff, representante das Igrejas Evangélicas Unidas; o pastor Janko Ivanoff, representante auxiliar das Igrejas Evangélicas Unidas; o pastor Georgi Chermeff, presidente-auxiliar das Igrejas Evangélicas Unidas; Nickola Michailoff, presidente das Igrejas Evangélicas Unidas — cada um deles foi sentenciado à prisão perpétua e ao confisco de todos os seus bens pelo Estado. Suas famílias foram destituídas de tudo, exceto as roupas do corpo. Os demais pastores e eu, membros do Supremo Concílio das Igrejas Evangélicas Unidas, fomos sentenciados a quinze anos de encarceramento. Os pastores Jontso Drenoff, Zakari Raicheff e Ivan Angeloff foram sentenciados a dez anos de encarceramento. O pastor Mitko Matteff foi condenado a seis anos e oito meses de encarceramento; Ladin, meu irmão, a cinco anos de encarceramento. (Ele nunca se rendeu, pelo que levantaram outra acusação falsa contra ele.) Os pastores Angel Dinoff e Alexander Georgieff receberam liberdade condicional. Angel Dinoff foi imediatamente escolhido pelos comunistas para ser o presidente das Congregações Evangélicas. Durante todo o período de detenção parece que a Polícia Secreta estava preparando-o para essa tarefa. Os comunistas sabiam que um ataque externo sobre as igrejas uniria e fortaleceria os crentes, como acontecera em toda a história do cristianismo. Portanto, resolveram destruí-las ou controlá-las internamente. Os comunistas encontraram em Angel Dinoff um instrumento bastante condescendente. É claro que ele apoiava fielmente os comunistas. Até hoje a tática comunista consiste em fechar algumas igrejas e instalar seus próprios homens naquelas que permanecem abertas.
O trágico sofrimento dos familiares
 Após o julgamento, fomos levados de volta à prisão, para desaparecermos da atenção pública. Agora, porém, eram as nossas famílias que também sofriam. A perseguição surgiu não somente dos inimigos da cruz, mas também dos recém-instalados “pastores”, incluindo Angel Dinoff. O povo foi advertido de que todo aquele que tentasse ajudar os pastores aprisionados ou as suas famílias desamparadas seria enviado a um campo de concentração Um dos pastores do Norte da Bulgária recolheu uma pequena importância que enviou a Rute e à esposa do pastor Cherneff. Ele foi abordado na rua, segurado pelo colarinho e indagado violentamente: “Quem lhe deu permissão para recolher dinheiro para as famílias dos pastores aprisionados?” O idoso irmão levantou a mão para os céus e disse: “Deus!” Em certa ocasião, Rute estava com seus últimos centavos. Paulo e Rode choravam de fome. Rute caiu de joelhos e orou: “Ó Deus, não temos qualquer alimento. Não temos dinheiro. Haralan está na prisão. Ó Deus, cheguei ao final de meus recursos. Ajuda-nos”. Um pouco mais tarde, naquele mesmo dia, chegou uma carta enviada por esse mesmo pastor, contendo um vale postal em valor suficiente para tirá-la daquela emergência! Posteriormente, Rute, Paulo e Rode foram despejados da casa em que morávamos. Este intenso sofrimento de famílias de prisioneiros crentes era cuidadosamente planejado, a fim de aumentar a agonia dos homens encarcerados. Rute estava preocupada com a possibilidade de seus familiares, que moravam na Suécia, não saberem a verdade sobre o julgamento. Devido ao serviço postal deficiente, não recebemos cartas deles por algum tempo, e não sabíamos se haviam recebido as cartas de Rute. Então, um dia ela foi consolada de maneira inesperada. Um de seus parentes lhe enviara um cartão postal simples, dizendo: “Ouvimos, lemos e compreendemos tudo”. O temor dos comunistas chegou ao ponto de os novos pastores exigirem que os membros das igrejas descobrissem quem tivera a ousadia de ajudar Rute e meus filhos. A família do pastor Cherneff foi obrigada a mudar-se para Svistov, uma pequena cidade perto do rio Danúbio. Certa vez a Sra. Cherneff foi a Sofia para transmitir um recado. À noite ela compareceu a um encontro na igreja onde seu marido servira como pastor durante vinte anos. Apesar de estar chovendo muito e apesar de ser conhecida por todos, ninguém pôde convidá-la para passar a noite em sua casa, pois os informantes estavam presentes. Assim, a Sra. Cherneff ficou andando pelas ruas a noite inteira. A princípio, Rute teve um emprego. Era irônico: ela devia limpar a igreja de Angel Dinoff, em dias alternados. Também recebia um pequeno salário mensal para tocar o órgão durante os cultos. Mas não demorou até que Dinoff fosse advertido de que dessa maneira estava ajudando as famílias de pastores aprisionados. Portanto, ele deixou claro para minha esposa que os seus serviços não eram mais necessários. Depois, uma irmã da igreja, que estava doente, pediu à minha esposa que a substituísse no trabalho. Foi assim que minha esposa encontrou um emprego como zeladora noturna. Ela permaneceu naquele emprego por um ano inteiro, antes de seus patrões descobrirem que ela era a esposa de Haralan Popov. Rute foi imediatamente despedida. Rute lutava todos os dias para manter nossos filhos alimentados. Era uma luta solitária e desesperada para manterem-se vivos. Mais tarde, descobri que nem mesmo nossos irmãos crentes do mundo livre faziam qualquer coisa para ajudar-nos. É uma vergonha para a consciência dos crentes do mundo livre o fato de que milhares de famílias evangélicas estejam sofrendo, agora, deste modo — sozinhas e desamparadas — em terras comunistas. Rute não recebia um centavo de ajuda. Ela e nossos filhos sobreviviam devido a algumas poucas cenouras que lhes eram dadas por um corajoso crente que desafiou as advertências dos novos pastores. Era uma existência precária e perigosa para Rute e as crianças. Os comunistas sempre fazem as famílias de crentes aprisionados sofrerem, pelo menos, tanto quanto os próprios prisioneiros. Isto visa intensificar o sofrimento mental e a preocupação dos prisioneiros. Não podemos descrever a agonia de um pai ou esposo trancado impotentemente atrás das grades de uma prisão, sabendo que sua esposa e seus filhos, naquele momento, passam fome, sendo expulsos de uma cidade para outra, como animais desarraigados. Para um homem, este é um fardo pior que a fome. Já vi homens fortes, capazes de resistir a quase qualquer espancamento físico, enlouquecerem ao saber o que a esposa e os filhos estavam sofrendo, enquanto eles eram incapazes de ajudá-los. Esta é a tragédia de nossos irmãos na fé aprisionados em países comunistas, hoje.


Torturado por sua fé - Capítulo 08



Levando Mitko a Cristo

Nickolai deixou a cela em fins de outubro, e fiquei sozinho para descansar — mas a “Dieta de Morte” ainda continuava. Embora eu estivesse faminto, tinha permissão de dormir; e, por isso, um pouco de minhas forças retornou. Deixei de lutar contra os percevejos e outras criaturas que, em multidão, invadiam-me o corpo, quando eu dormia. Precisava mais do sono do que do sangue que extraíam de mim. Eu passava em oração a maior parte das minhas horas despertas. Deste modo, eu não tinha tanta consciência da fome, e meu espírito sentia-se elevado. Alguns dias mais tarde, a porta da cela se abriu e um jovem, chamado Mitko, que tinha aproximadamente vinte e três anos de idade, foi trazido à cela. Pobre Mitko! Era tão jovem e estava tão assustado! Não parava de andar para lá e para cá, falando sem cessar: “Sou inocente. Sou inocente!”, embora não se dirigisse a alguém, em particular. Por quantas vezes aquelas paredes manchadas de vermelho escuro, devido a insetos esmagados, devem ter ouvido isso! Dava pena! Cada vez que passava um guarda nas proximidades, ele começava a gritar novamente: “Sou inocente!” Louvava a Lenin e ao comunismo em voz alta, esperando que os guardas o ouvissem falar como um “bom comunista” e o deixassem ir embora. Era um esforço desesperado e comovente (tinha visto, com freqüência, os prisioneiros fazerem isso). Meu coração se inclinava para ele, comecei a falar-lhe de Cristo e da esperança que podemos ter na salvação. Durante dias, esforcei-me por penetrar além do absoluto pânico de Mitko, a fim de chegar até ele. Um dia, o olhar assustado desapareceu do seu semblante, e ele começou a ouvir-me. Meu coração se alegrou. Eu estava, realmente, chegando até ele. Dois dias mais tarde, Mitko disse: “Pastor, ore por mim!” Ajoelhei-me juntamente com Mitko e oramos. Ele orava intensa e ansiosamente e, portanto, de todo o coração, de tal modo que o chão da cela, onde ele estava ajoelhado, ficou molhado com suas lágrimas. Ele teve uma admirável e verdadeira experiência com Cristo. Tornou-se tranqüilo, calmo, com profunda satisfação íntima da parte de Deus. Então, compreendi que, se nada resultasse de meu aprisionamento, a não ser aquela única alma conduzida aos pés de Cristo, valeria a pena. Um dia, abriu-se a porta da cela, e um guarda entrou. Ele trazia um papel que declarava que Mitko deveria ser libertado. Mitko não podia acreditar, mas o guarda mostrou-lhe os papéis de soltura. O guarda partiu a fim de buscar Mitko um pouco mais tarde. Enquanto esperava para ir embora, Mitko me disse: “Pastor, nesta cela me encontrei com Deus por meio de você. Seguirei a Cristo todos os dias de minha vida”. O guarda retornou, e Mitko despediu-se de mim com um aperto de mão. Nunca mais o vi, mas estou certo de que ele permaneceu fiel a Cristo. Fiquei sozinho por dez dias. Sentia-me tão perto de Deus, em minha prisão solitária, que passava o tempo louvando-O e adorando-O. Quão íntima é a comunhão com Deus! Eu conversava com Ele. Ele me consolava. Tudo foi um banquete espiritual para mim. Durante esse tempo, recebi novas forças, embora meu corpo estivesse reduzido a quase nada. Lágrimas de alegria me escorriam pelo rosto. Ali, na prisão da DS, sozinho e sem nada, eu tinha tudo — Cristo. Destituído de tudo, sem quaisquer distrações mundanas, encontrei uma profunda e bela comunhão com Deus. Alegria e paz inundaram a minha alma. Meu corpo doía devido à fome, meu espírito, porém, nunca se sentiu tão próximo de Deus. Caído de fome, sozinho e fraco demais para movimentar-me, senti que podia elevar-me até Deus e ser recebido em seus braços.
Sentia-me mais livre naquela cela do que já me sentira do lado de fora. Livre do mundo, de todas as suas pressões e anseios, senti uma proximidade com Deus como nunca antes sentira em meus dias atarefados. A prisão me destituiu de todas as incômodas distrações da vida, e senti profundeza espiritual e união com Cristo. A prisão ou destrói um homem no íntimo ou lhe outorga profundo vigor espiritual. A prisão, onde alguém fica desligado da vida, freqüentemente traz à luz os recursos mais genuínos e profundos. Estranhamente, quando os homens se acham em sua pior condição, podem dar o melhor e o mais sacrificial de si mesmos. Nos anos seguintes, vi prisioneiros cuidarem de outros, como se fossem seus irmãos mais achegados. Amizades eram forjadas no sofrimento comum. Com freqüência, vi um homem que morria de fome, na prisão, separar sua ração diária de migalhas de pão, para oferecê-la a outro prisioneiro mais fraco do que ele. A presença de Deus me cercava, fortalecia e enchia. Nunca me esquecerei daqueles dez dias. Cedo, pela manhã, no décimo dia, olhei para fora da janela, em direção da fábrica, do outro lado da rua. Para meu espanto, vi a forma clara de uma cruz sobre o telhado da fábrica! Penso que a sombra de duas grandes chaminés, causada pela luz do sol, provavelmente formava uma cruz. Para mim, entretanto, aquilo era um sinal da parte de Deus. Fiquei parado diante da janela da cela por longo tempo, contemplando aquela cruz e meditando sobre a cruz na qual Jesus morrera, bem como sobre seu amor e bondade. Subitamente, uma voz tão real como qualquer outra que eu já ouvira disse: “Meu filho, esta é a sua cruz, que você deve levar. Prepare-se para maiores sofrimentos”. Embora eu soubesse que algo de terrível estava prestes a acontecer, o sinal daquela cruz me deu um sentimento de confiança em Deus, e, olhando através das barras da janela da cela, comecei a entoar um hino favorito: À sombra da cruz de Jesus Contente tomo o meu lugar. Sombra da poderosa rocha, Em uma terra exausta:
Um lar no próprio deserto, Um abrigo no caminho Do calor intenso do meio-dia E da fadiga de todo o dia. Com lágrimas a escorrer pelo rosto, continuei entoando: Ó cruz, tomo a tua sombra Como meu lugar de habitação: Não desejo ter outra luz Senão a luz do teu rosto; Contente por deixar o mundo ir, para não conhecer ganho ou perda, O eu pecaminoso somente me envergonho, E a cruz é toda a minha glória. Entoei esse cântico até ao fim, e meu coração sentiu-se repleto de dulçor. Lágrimas escorriam pelo rosto. Não eram lágrimas amargas, e sim, como nós, crentes da Bulgária, costumamos dizer, “lágrimas doces”. Quando terminei o cântico, a porta da cela foi aberta e fui levado para os andares inferiores, para outro período de tortura. Meus dez dias de comunhão tranqüila com Deus haviam acabado. Chegava a minha maior provação, e se aproximava o meu “julgamento espetacular”.

Torturado por sua fé - Capítulo 07



Pregando o evangelho para a Polícia Secreta

No início de setembro de 1948, fui entregue aos cuidados de um advogado cujo nome era Peter Manoff, que deveria conduzir o interrogatório até que eu “confessasse”. Todas as noites eu era ordenado a escrever informações sobre mim mesmo, meu trabalho, meus amigos e os amigos de meus amigos — tudo quanto os comunistas quisessem saber a respeito de mim. Isso parecia inofensivo e me daria oportunidade de descansar, pelo que comecei a escrever. Resolvi incluir um testemunho sobre Cristo em todos os lugares possíveis. Queriam que eu registrasse, especialmente, tudo o que acontecera em minha vida. Isso se harmonizava, às mil maravilhas, com meu plano. Deu-me muitas oportunidades de contar aos meus interrogadores o que Cristo significava para mim! Eu sabia que eles tinham de ler o que eu escrevesse, pelo que preenchi tudo com a Palavra de Deus e com o meu testemunho. Manoff estava ocupado o dia inteiro no tribunal, trabalhando como promotor público; à noite, ele vinha passar-me novas tarefas e escolher novo guarda. O único sono que usufruí, durante um mês inteiro, foram “cochilos” rápidos. Eu tinha permissão de voltar à cela de manhã, ao meio-dia e à noite, talvez por quinze minutos em cada vez. Continuava recebendo as duas fatias de pão e a água temperada que chamavam de “sopa”, todos os dias.
Eu usava aquele breve período para descansar e dormir um pouco. Sentia-me extremamente fraco, por causa da falta de sono e da desnutrição. Seria interessante ler o que escrevi durante aquelas noites. Devo ter escrito mais de duas mil páginas ao todo, algumas vezes até quarenta páginas em uma única noite! A cada noite, eu recebia um assunto sobre o qual tinha de escrever. Tomar um assunto escolhido e encontrar um meio lógico de incluir um testemunho sobre Cristo tornou-se um jogo para mim. Realmente, tornei-me eficiente nisso. Em qualquer assunto que me dessem, eu encontrava uma maneira de incluir um testemunho! Não penso que eles apreciavam isso, mas tudo estava tão bem conectado, que parecia fazer parte do restante da história. Isso os enfurecia; mas, afinal de contas, Cristo se tornara parte de minha vida diária desde que me converti. Embora odiassem a Palavra de Deus esta era a Palavra de Deus e, eles mesmos eram os que mais precisavam dela. Tive uma das melhores oportunidades quando me ordenaram que escrevesse sobre o treinamento bíblico, em Danzig: contar que professores e amigos eu tive ali e que cursos me ensinaram. Aquela foi, realmente, uma notável oportunidade. Transcrevi as lições com detalhes, assim como os meus professores me haviam ensinado. Imagino que aqueles foram os primeiros interrogadores comunistas a receberem lições da Bíblia! Em seguida, perguntaram-me sobre os dias de instrução na Escola Bíblica, em Londres. Realmente arei com prazer aquele campo. Ali eu estava, em uma prisão comunista, usando papel e tinta comunistas para contar aos comunistas o que me fora ensinado da Palavra de Deus. Eles me tinham dito: “Popov, queremos todos os detalhes!” Eu lhes dava todos os detalhes. Aqueles foram alguns dos dias mais maravilhosos que tive na prisão. Escrever sobre as aulas bíblicas fez tudo voltar à memória. Um dia, eles me disseram: “Popov, já é o bastante. Não queremos saber mais nada sobre a sua vida na Escola Bíblica e sobre o seu Deus lendário!” Mas, agradeço a Deus por aquele tempo; em que eles foram expostos à Palavra, gostando ou não. Ordenaram que me limitasse à situação na Bulgária. Eu sempre tentava encontrar um meio de voltar à Palavra de Deus e ao que o Senhor significava para mim. Realmente “forcei” em alguns pontos, mas usualmente conseguia introduzir minha “mensagem do evangelho”. Com freqüência, me pergunto quantos comunistas foram alcançados por minha mensagem. No entanto, eles também eram espertos. O grande volume de meus escritos capacitou-os a selecionar incidentes isolados, aqui e acolá, para distorcê-los. Sem meu conhecimento, as pessoas mencionadas no manuscrito eram interrogadas e assediadas. Uma dessas pessoas era um irmão na fé, chamado Marko Kostoff, que trabalhava no cais de Burgas, um porto do Mar Negro. Perguntaram-lhe se tínhamos conversado no porto; e, nesse caso, o que havíamos conversado. Na Bulgária, um pastor visita habitualmente os membros de sua igreja em seus lares, pelo menos uma vez por mês. Durante as minhas visitas, eu falava sobre Deus, as necessidades da família e assim por diante. Se o chefe da família trabalhasse nos campos, eu conversava sobre a semeadura e a colheita. Se alguém trabalhasse na estrada de ferro, eu conversava com ele sobre o que fazia. Portanto, durante as minhas visitas pastorais, eu conversava com Marko sobre o porto e seu trabalho, bem como sobre assuntos espirituais. Meus interrogadores resolveram tirar proveito disso. Marko relembrou, nos interrogatórios a que foi sujeitado, que às vezes conversávamos sobre o trabalho dele, no porto. Mencionou que, em certa ocasião, falamos a respeito de um barril de queijo. Estavam embarcando barris cujos rótulos continham o nome “marmelada”, em um navio que se destinava à Rússia, e aconteceu que um dos barris caiu no cais e estourou, revelando que continha queijo. Na Bulgária, naquela época, não havia como alguém obter queijo em parte alguma, porque as autoridades estavam enviando secretamente todo o suprimento de queijo para a Rússia, sob o rótulo de “marmelada”. Marko me falara sobre aquela “marmelada” de aparência estranha. E também lembrou que tínhamos conversado sobre aquele incidente. Desta maneira, as autoridades afirmaram que eu “obtivera informações sobre atividades portuárias, passando-as aos ingleses e americanos”. De modo semelhante, os membros de minha igreja que eram operários da estrada de ferro ou de fábricas, relembraram que eu conversara com eles sobre o seu trabalho. Com muito cuidado, as autoridades estavam criando um caso contra mim, mostrando-se extremamente cautelosas para não transmitirem a impressão de que eu estava sendo perseguido por causa de minha fé em Deus. Certa noite, fui levado a uma sala, no quarto pavimento, onde recebi ordem para sentar e escrever. Nessa altura, eu era um esqueleto faminto, movimentando-me com estupor, em um mundo de semiconsciência. A janela daquela sala dava para um pátio; e, no outro lado deste pátio, havia uma ala ocupada pela Polícia Secreta. Notei uma janela iluminada, do outro lado da ala. Através daquela janela, vi um homem sendo torturado. Ele era mantido no chão, com os pés para cima. Dois homens o seguravam embaixo, enquanto um terceiro, armado de um cacete de borracha dura, batia com toda a sua força nas solas nuas dos pés do pobre homem. Através das janelas fechadas, eu podia ouvir distintamente o ruído das pancadas, vindo do outro lado do pátio. O homem urrava de agonia e dor. Os golpes continuaram, até que o homem caiu em inconsciência; mas, apesar disso, os golpes não cessaram. Certamente, aquele homem nunca mais conseguiu andar com os próprios pés e sem ajuda. A cena ficou gravada em mim. Naquele momento e em incontáveis noites que viriam, eu fechava os olhos, para não ver, e tapava os ouvidos, para não ouvir. E orei: “Ó Deus, ajuda-me a desligar o meu cérebro e não pensar!” Mais tarde, reiniciei minha lenta e dolorosa escrita, porém os meus pensamentos não se afastavam daquele homem. Sentia-me profundamente triste por causa dele. Contudo, o invejava. Voluntariamente eu teria trocado de lugar com ele. Sua provação durou apenas algumas horas, mas, ainda que a tortura continuasse por dois dias, tudo teria terminado para sempre. Teria morrido e seu sofrimento, acabado. Desejei, de todo o coração, que me tratassem daquela maneira, para que meus sofrimentos terminassem. Agora eu entendia por que razão haviam colocado telas de arame por sobre o poço da escada e barras nas janelas dos andares superiores; não era para impedir fugas, mas suicídios. Se alguém morresse, os comunistas queriam que morresse do modo deles, não conforme as pessoas desejassem. Contudo, meu desejo não se cumpriu. Os pensamentos de Deus não são os nossos pensamentos, e o Senhor tinha um outro plano para mim. Não o compreendia, mas o aceitava.

Torturado por sua fé - Capítulo 06



A “Dieta de Morte”

Essa dieta começou com a fome. Os sentimentos de fome — tal como os de amor — são impossíveis de descrever. Minha ração alimentar diária consistia de duas fatias de pão e seis colheres de “sopa”, que, na realidade, não passava de água temperada, viscosa e pútrida. A dieta era cuidadosa e cientificamente designada para sustentar escassamente a vida — e nada mais. Os prisioneiros chamavam-na “Dieta de Morte”. Consistia principalmente de água, sendo suficiente apenas para manter um pulso fraco. Ao mesmo tempo, era suficiente para estimular os sucos gástricos, fazendo com que a pessoa sentisse fome com mais intensidade do que se nada tivesse para comer. Se uma pessoa não come nada, ela morre gradualmente, mas as suas papilas gustativas ficam neutralizadas, e a pessoa é misericordiosamente poupada das dores infernais da fome. Não fui poupado disso. As duas fatias de pão e as seis colheres de “sopa” chegavam às seis horas da tarde. Desapareciam em dois minutos e não havia mais alimento até ao dia seguinte, à mesma hora. O alvo era “quebrantar-me”, e confesso que a fome é um instrumento terrível e eficaz. E, por causa da fome, sentia-me como atacado por malária. Tais sensações me acompanharam, dia e noite, durante os cinco anos seguintes. Deve ser entendido que os comunistas não procuravam aplicar-me uma “lavagem cerebral”. Sabiam que nunca conseguiriam isso. A lavagem cerebral implica em modificar completa e permanentemente o caráter de uma pessoa, fazendo com que sua mente torne-se totalmente dedicada a uma maneira de pensar diferente. Os comunistas sabiam que nunca conseguiriam fazer isso comigo e nem o tentaram. O intuito deles era quebrar a minha vontade — ameaçando, insistindo, torturando, abusando e submetendo-me à fome, até que minha vontade ficasse totalmente vencida, e arruinada. Eles sabiam que, depois de minha vontade ter sido completamente quebrada e de haverem arrancado de mim tudo quanto desejassem, eu recuperaria a vontade e voltaria ao bom senso. Portanto, a tática deles não foi a de aplicar-me uma lavagem cerebral, e sim a machucar-me e levar-me tão além do limite da resistência humana, que, por algum tempo, eu simplesmente perderia a vontade própria. A lavagem cerebral exige um tratamento alternadamente bom e mau. Destruir a vontade de uma pessoa é mais simples — requer apenas espancamentos brutais e incansáveis, fome e tortura que aumente progressivamente em intensidade de horror, até chegar a um clímax em que a pessoa não mais tenha vontade própria. Essa foi a tática deles... e começaram-na com fúria e brutalidade. Fome, insônia e ficar de pé com a face voltada para a parede, semana após semana, são os principais “instrumentos” no quebrantamento da vontade de um homem. Este tratamento pode transformar uma pessoa racional e inteligente em um animal. A única coisa que resta, depois desse tratamento, é o instinto animal de procurar algo para comer. Meu guarda costumava dizer que eu “deveria tornar-me mais quieto do que a água e mais baixo que a grama”.

A cela de punição

Em 5 de agosto, sob a “dieta de morte”, fui posto em prisão solitária e sujeitado a um interrogatório ininterrupto de vinte e quatro horas por dia. Havia três interrogadores, cada qual trabalhando por oito horas. Isso lhes permitia conservar a tortura física e psicológica por vinte e quatro horas diárias. A cela de confinamento solitário tinha uma aparência bastante incomum. As paredes eram branquíssimas, pintadas com uma tinta de esmalte branco lustroso. Foi-me ordenado que permanecesse em frente da parede, à distância de vinte centímetros, e que conservasse os olhos abertos, bem abertos. Meu interrogador começou gritando: “Não se mova um centímetro!” “Não feche os olhos por um momento sequer!” “Não divida seu peso numa perna por vez!” “Não mova um músculo!” “Não faça isto... Não faça aquilo...” Assim ele gritava, enquanto eu permanecia em frente da parede. Após alguns momentos, meus olhos queimavam como se houvesse ferros quentes encostados neles. A vinte centímetros, eu estava tão perto daquela parede branquíssima que os meus olhos não conseguiam mais centralizar-se. Sugiro que os leitores experimentem isso por alguns momentos apenas. Os olhos da pessoa se rebelam. Lutam para fechar-se ou para focalizar-se em algo, mas não podem. É algo terrivelmente doloroso; e, quando eu somente piscava, meu interrogador batia no lado de meu rosto. A dor em meus olhos se tornava insuportável. “Fale-me sobre as suas atividades como espião!”, gritava o interrogador. “Sou pastor”, eu respondia, “tenho trabalhado para Cristo durante toda a minha vida. Nunca espionei”. O interrogador me dava outro golpe no lado da cabeça. Meus ouvidos tiniam com o impacto da pancada; ele gritava novamente: “Conte-me como você espionava para os americanos”. Novamente eu retrucava: “Sou pastor, um servo de Deus. Tenho trabalhado somente para Ele. Nada sei a respeito de suas acusações de espionagem”. Mais tarde, no decorrer dos anos de brutalidade, fiquei tão insensível a tais espancamentos, que eles me afetavam apenas fisicamente. Todavia, no começo de meu aprisionamento, aqueles golpes me afetavam e desorientavam, tanto física como psicologicamente. O interrogador que me espancava era um homem enorme e severo. Nos anos seguintes, encontrei tempo para refletir sobre aqueles guardas e interrogadores. Sempre procurava orar mais por um guarda quando ele me espancava. Percebia que, em certo sentido, eles eram casos mais tristes do que nós, a quem eles espancavam.
Que tragédia imensa era a deles! Pouco a pouco, enquanto brutalizavam os prisioneiros e os maltratavam, desciam a escala de humanidade até chegarem ao nível das feras. Seus rostos, após certo tempo, desafiavam a descrição e tornavam-se como animais. Nós, os prisioneiros, eventualmente nos recuperávamos, mas os guardas sofriam um aleijamento permanente de sua humanidade. Assim, durante os espancamentos, eu procurava conservar minha perspectiva e orava em favor deles. Descobri que, verdadeiramente, isso diminuía a dor dos golpes. “Fale-me sobre o seu trabalho como espião!”, gritava o interrogador. “Sou pastor e...” — antes que eu pudesse terminar a sentença, outro golpe violento me atingia o lado do rosto. Surgiu um padrão de procedimento durante aquele primeiro longo dia. Eu era forçado a permanecer absolutamente parado, sem mover um músculo, os olhos queimando como bolas de fogo, a olhar fixamente para a parede rebrilhante, a vinte centímetros de distância. Por detrás de mim, a voz de meu interrogador continuava gritando: “Fale-nos sobre suas atividades como espião!” Eu respondia: “Sou apenas um pastor. Nunca fiz outra coisa, senão pregar o evangelho”. Recebia um golpe violento na cabeça, seguido de alguns minutos de silêncio. Novamente, era feita a pergunta; em seguida, havia a minha resposta e, outra vez, recebia a pancada. À medida que as horas se passavam, as perguntas se tornavam menos freqüentes. Eu perguntava a mim mesmo por que motivo o interrogador esperava tanto entre as perguntas. Após uma hora ou duas, a verdade brilhou em meu cérebro: o próprio tempo era uma arma deles. O tempo estava do lado deles, que contavam com o seu efeito fatigante para quebrantar-me. Hora após hora, naquele primeiro dia, repetiu-se aquele padrão de pergunta: resposta, golpe, pausa, pergunta, resposta, golpe. Perdi todo o senso de passagem do tempo. Eu sentia apenas aquele fogo em meus olhos, e fechá-los, ao menos por um minuto, tornou-se uma obsessão para mim. Meu corpo estava entorpecido. Eu perdera todo o senso do tempo, e só era trazido de volta à realidade pelo som diferente da voz de um novo interrogador; isso indicava que se haviam passado oito horas e que um novo turno se iniciara.
Agora as pausas entre as perguntas eram mais longas; às vezes, chegavam a uma hora inteira. Eles não tinham pressa. A noite chegava e passava como uma eternidade. O sono me fazia pesar as pálpebras, mas, se as fechasse momentaneamente, eu recebia um golpe. Minhas pernas doíam. Meu corpo inteiro se rebelava; mas eu não podia mover um músculo sequer. Tudo se tornava enevoado, e o próprio tempo parecia cessar. Entorpecido, repentinamente ouvi a voz aguda e nova de meu primeiro interrogador, que gritava: “Então, Popov, você continua aqui! Pois bem, estou descansado. Começaremos tudo de novo!” Então, percebi que um dia inteiro se passara, e o primeiro de meus interrogadores voltara à sua tarefa. A fome brotava em meu estômago. Antes eu já fora sujeitado à fome, recebendo apenas migalhas de pão. Agora, porém, eu não tinha nem mesmo migalhas. Quando eu recebera a ração, aquelas migalhas pareciam tão pouco. Agora, não tendo nada, até as migalhas pareciam um banquete!

O quarto dia diante da parede

Hora após hora se passou. Os dias chegavam e terminavam. O período da meia-noite até à manhã era o pior. Agora, fazia quatro dias em que eu não dormia, não comia, nem me mexia. O interrogador me observava com especial cuidado para apanhar-me quando a cabeça inclinava ou os olhos fechavam. Os interrogadores se deleitavam especialmente quando me apanhavam movendo um músculo ou piscando os olhos, como desculpa para me darem um golpe. Além disso, usavam sapatos de feltro, de modo que eu não sabia dizer se estavam bem atrás de mim ou do outro lado da sala. No quarto dia, a fome desapareceu, e uma profunda sede tomou o seu lugar. O sangue começou a descer para as pernas, que começaram a inchar. Meus lábios ficaram ressequidos, rachados e sangrentos. Então, iniciou-se outro nível de punição. Os interrogadores começaram a comer ruidosamente e a beber água perto mim, para aumentar minha sede. A tortura não era somente física, mas também mental.
A sede profunda e intensa não se comparava a nada que eu já houvesse experimentado ou ouvido antes. Era como uma bola de lava incandescente queimando o estômago e rachando os lábios. Uma terrível febre consumia e destroçava o meu corpo. Estabeleceu-se a desidratação, e a agonia tornou-se quase insuportável. Até hoje, quando leio sobre um homem que morre de sede no deserto, as intensas dores da sede atingem-me novamente e, onde quer que eu esteja, preciso beber grandes goles de água. Outra pessoa sorvia água prazerosamente a pouca distância de mim. Mas bastava um leve tremor em meus lábios partidos e ressecados, para que eu fosse espancado sem qualquer aviso. A sede assolava dentro de mim, como se fosse uma febre intensa. Até hoje não sei explicar como pude permanecer de pé, durante todos aqueles dias e noites. Tinha de ser Deus comigo, pois ninguém possui tal força dentro de si mesmo. Lentamente, o interrogatório cessou e se transformou em um jogo de espera, em que os interrogadores aguardavam meu colapso. Em minha condição febril, comecei a ter alucinações. Pequenas manchas, na parede branca, à minha frente, tornaram-se vivas. Eu via rostos de pessoas: de Rute, Paulo e Rode; e, depois, dos guardas. Padrões girantes de cores vivas assemelhavam-se a um caleidoscópio maluco diante de mim. Eu tinha certeza de que estava ficando louco.

O décimo dia

O colapso ainda não chegara. Perdi todo o senso do tempo. Um dia se obscurecia em outro. Minhas pernas inchadas tornaram-se imensas, entupidas de sangue, devido à completa imobilidade. Meus lábios abriram-se em grandes rachaduras e sangravam. Minha barba estava longa, pois, desde que fora aprisionado, não me fora permitido lavar-me ou barbear-me. Meus olhos eram bolas de fogo. No entanto, de alguma maneira, eu continuava de pé. Na décima noite, algum tempo depois da meia-noite, ouvi que meu interrogador roncava, enquanto dormitava involuntariamente. Movimentei meu pescoço endurecido para a direita e para a esquerda. À esquerda, a menos de dois metros, havia uma janela. Visto que estava escuro do lado de fora, pude ver o reflexo na janela, como num espelho. Recuei, horrorizado. Era o reflexo de um monstro! Vi uma figura horrível, enfraquecida, pernas inchadas, olhos como buracos vazios na cabeça, uma longa barba coberta de sangue, escorrido de lábios partidos, sangrentos e horrendamente inchados. Era uma figura grotesca, horrorosa. Fui repelido por ela. Subitamente, ocorreu-me: aquela figura horrenda, sangrenta e grotesca, era eu mesmo! Eu era aquele “monstro”. Minha mente entorpecida absorveu lentamente aquele fato, e lágrimas me vieram aos olhos. Repentinamente, senti-me esmagado, tão sozinho, tão desamparado. Senti-me próximo de como Cristo deve ter se sentido quando exclamou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Eu não podia derramar lágrimas, mas o meu corpo suspirava com lágrimas não derramadas. Então, naquele momento de desespero completo e esmagador, ouvi uma voz tão clara e distinta como qualquer voz que costumava ouvir. Dizia: “Nunca te deixarei, nem te abandonarei”. Foi uma voz tão audível que olhei para meu interrogador, que cochilava, certo de que ele também a ouvira; mas ele continuava dormindo. A presença de Deus encheu a Cela de Punição e um calor divino me envolveu, infundindo forças à casca que era o meu corpo. Isso produziu um efeito físico definido e surpreendente sobre mim. Meu interrogador acordou num sobressalto. Chegou ao meu lado e pôde sentir que algo tinha acontecido. Ele não sabia dizer o que era, mas estava tão cônscio da diferença que correu para fora e voltou com outro oficial. Não podiam compreender. Ouvi as vozes ansiosas e murmurantes dos interrogadores, por trás de mim, procurando descobrir o que acontecera. Parecia que eu estava tão revigorado e vivo, inspirado com força nova. Em minha vida, nunca me sentira tão próximo de Deus como naquele momento. Ele se tornou tão próximo de mim; meu coração anelava por vê-Lo. Senti a presença de Deus tão perto e era tão maravilhoso, superior a qualquer outra sensação que já tive. Foi um prelúdio de como será estar com Deus na eternidade; e eu não queria que acabasse.
Orei pedindo a morte. Anelava pela morte, que era uma porta bendita mediante a qual eu veria a Cristo, a quem amava e servia há muito tempo.

O décimo quarto dia

A presença de Deus enlevou-me por longo tempo, mas, no décimo quarto dia, a fome, a sede e o ardor intenso em meus olhos tornaram-se excessivos. Era claro que eu estava morrendo. Eu me sentia desligado de tudo. Então, é assim que se morre, eu pensei. A qualquer minuto verei a Cristo. O guarda percebeu que alguma coisa estava acontecendo e saiu correndo, tendo voltado com um médico. O médico olhou para mim e disse ao oficial: “Este homem está morrendo!” Suas vozes pareciam vir de longe. Evidentemente, não estavam preparados para deixar-me morrer, porque senti que estavam me levando para algum lugar. O que deve ter sido uma hora depois, voltei à consciência, em minha cela. A julgar pelo olhar de horror, estampado na face de Tsonny, penso que minha aparência era horrível. Eu não podia mover-me. Minhas pernas estavam inchadas como as de um elefante. Meus lábios estavam rachados e sangravam. Meus olhos eram profundos buracos negros na cabeça, e as pupilas estavam vermelhas como o fogo. Durante uma semana não pude focalizar os olhos nem usá-los adequadamente. Quando a consciência retornou lentamente, Tsonny me disse em que data estávamos. Eu não podia acreditar. Eu estivera de pé, sem alimentos e sem água por catorze dias! Não posso explicar como aquilo fora possível. Mais tarde, naquele mesmo dia, trouxeram-me alimentos e água e me permitiram descansar. Em meio a muita dor, meu colega de cela ajudou-me a levantar minhas imensas pernas inchadas, amparando-as contra a parede, para que o sangue diminuísse a pressão. Caí em profundo sono e pensei que o pior já tinha passado. Mas não tinha. Na noite seguinte, depois da meia-noite, fui chamado outra vez ao andar térreo, para ser interrogado, dessa vez por um oficial de nome Eleas. Havia quatro ou cinco homens esperando por mim, na sala. Quando entrei, fui recebido com zombaria, escárnio e humilhações. Então, começaram a esmurrar-me. Rodei pelo cômodo e caí; fui levantado do chão e esmurrado novamente. É óbvio que eles tinham resolvido adicionar mais torturas físicas à tortura mental. Durante todas essas coisas, permaneci em silêncio. Embora eu tivesse adquirido um pouco de forças, com o descanso, ainda estava muito fraco, e o menor empurrão me fazia cair. Não me batiam severamente, pois isso me teria feito cair inconsciente. Finalmente, Eleas carregou sua pistola, segurou-me pelo colarinho e foi me puxando para o corredor. Eu sangrava profusamente no nariz. O ambiente estava escuro como carvão. Ele foi me empurrando à sua frente até ao fim do corredor, onde havia uma pequena luz que brilhava. Eleas mantinha a sua pistola pressionada contra as minhas costas em todo o tempo. Quando chegamos na luz, ele gritou: “Pare! Fique de frente para a parede!” Fiquei na posição habitual, observando respingos de sangue e perfurações do impacto das balas no reboco da parede. É óbvio que o escuro fundo daquele corredor subterrâneo era o lugar onde muitos tinham encontrado a morte. Eleas apagou a luz. Estava frio e muito escuro. A morte pairava pesadamente na atmosfera opressiva. Eleas pressionou a pistola na parte de trás de meu pescoço. “Popov”, ele disse, “já toleramos bastante a sua teimosia. Esta é a sua última noite. Você terá de morrer devido à sua obstinação por ser recusar a confessar sua espionagem. Estou lhe dando a última oportunidade. Enquanto eu conto até cinco, você poderá pensar de novo e confessar que é um espião. Se você for sensato, viverá, mas, se não, atirarei ao contar cinco”. Eu estava certo de que ele atiraria em mim, pois milhares haviam sido mortos a tiros na “Casa Branca” da DS, antes de mim. Eu sabia que aquela gente cumpria suas ameaças. O pensamento da morte como uma ponte para a eternidade relampejou em minha mente. Eu veria a Jesus! Eu estava certo de que aquele tormento infernal logo acabaria. Era como se a eternidade já estivesse começando para mim e restasse apenas a formalidade da morte. Mentalmente, eu estava preparado e já me achava “com Cristo”. Agora esperava somente que o tiro ecoasse, e eu seria levado ao céu, nas asas dos anjos — para Jesus, meu Salvador. Havia um imenso anseio no coração por aquele magnificente momento em que eu veria a Jesus. Quão atraente tudo aquilo era para mim. Toda aquela tortura terminada. Ver a Jesus! Estar com Cristo! Muitas pessoas não gostam de pensar sobre a morte. Temem e tremem diante dessa palavra, porquanto encaram a morte como uma figura terrivelmente negra. Por que as pessoas temem a morte? Primeiramente, porque não crêem em Deus. Para aqueles que ainda não aceitaram a Jesus Cristo como seu Salvador, a morte é a mais terrível das experiências. As pessoas temem a morte porque não têm certeza de sua salvação. Seu pecado as torna cônscias de que terão de prestar contas após a morte. No entanto, para aquele que crê em Jesus e está certo de sua fé e de sua salvação, por meio do sangue purificador de Cristo, não existe morte. Não cremos na morte porque ela não existe para aqueles que estão em Cristo Jesus. Em João 11.26, Jesus disse a Marta, irmã do falecido Lázaro: “Todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente”. Em seguida, dirigiu a Marta uma notável pergunta: “Crês isto?” Se existe uma certeza neste mundo incerto, esta certeza é a Palavra de Deus. Passarão os céus e a terra, mas a Palavra de Deus nunca passará. Até aquele momento eu não imaginava como seria a morte; contudo, para mim a morte não era um espectro obscuro, e sim um anjo que viria libertar-me. Para mim a morte não parece escura e repugnante. Pelo contrário, é cheia de luz e alegria, visto que Apocalipse 14.13 nos diz: “Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor”. E Salmos 116.15 nos diz: “Preciosa é aos olhos do SENHOR a morte dos seus santos”. Verdadeiramente, para aqueles que são salvos, a morte não somente é um portal para os céus, mas também um arco de triunfo pelo qual marchamos com alegria triunfante e um cântico glorioso. Eleas começou a contar vagarosamente, fazendo uma longa pausa entre cada número, para dar-me chance de gaguejar a minha confissão. “Um...” — uma longa pausa; “dois...” — outra longa pausa; “três...” Ele contava muito demoradamente, pressionando, em todo o tempo, a pistola em minha cabeça, para que eu pudesse senti-la. Ele acreditava que a morte me assustaria. Mas Eleas não podia ver o que acontecia dentro de mim! Não sabia que eu estava aguardando o momento em que eu veria o meu Mestre, a quem eu amava mais do que qualquer outra coisa, a quem eu servia e a respeito de quem eu havia pregado. Quando Eleas continuou com um longo e arrastado q-u-a-t-r-o, algo quase inacreditável aconteceu. O Espírito Santo desceu sobre mim em maior medida do que antes. Aconteceu comigo o mesmo que aconteceu com Gideão, relatado em Juízes 6.34: “Então, o Espírito do SENHOR revestiu a Gideão”. E tornei-me tão corajoso quanto Gideão, e tão forte como Sansão. Não me considero um homem corajoso, mas o Deus de Gideão é o meu Deus; Ele estava comigo naquele escuro corredor. Eleas fez uma pausa, depois de haver contado até “quatro”, mas fez uma pausa longa demais para mim. Ouvi uma voz que vinha de dentro de mim — sem temor, forte, exigente. Gritava: “Não espere, não espere. Atire, direto na cabeça”. Eleas deu um salto para trás, tomado de pânico e terror. Ele nunca esperara aquilo, nem eu o tinha esperado! Ele não conseguia entender (nem eu) de onde me viera aquela força! Eu estava tão fraco e debilitado que dificilmente podia andar. Eleas, porém, ficou ainda mais surpreso do que eu. Eu me preparei para receber o tiro mas, em vez disso, recebi uma pancada seca contra a parte de trás do crânio. Naquele momento fugaz, antes que a inconsciência tomasse conta de mim, percebi que Eleas apenas tentara me enganar, para arrancar uma confissão, e não quisera realmente matar-me. Uma dor de desapontamento — tão real quanto a dor física — brotou em meu coração, uma dor muito maior do que a dor que rachava a minha cabeça. Fiquei profundamente, profundamente desapontado. Estava pronto para enfrentar a morte, porém ainda me encontrava nesta vida... tão pronto para encontrar-me com Cristo, mas ainda estava com Eleas. Por que a morte me fora negada? Antes de a inconsciência toldar-me os sentidos, clamei no profundo de meu coração: “Deus, fui fiel até à morte, mas ela não veio”. Fui levado de volta à cela, onde me jogaram, inconsciente. Quando acordei, Tsonny havia me empurrado contra a parede e estava enxugando o sangue que escorria atrás de minha cabeça. Ter estado tão perto de Deus e despertar em uma cela da DS! Isso foi um desapontamento esmagador. Mas consegui balbuciar uma oração: “Senhor, não seja feita a minha vontade, e sim a tua”. Caí em profundo e demorado sono. Mais tarde, a porta da cela foi aberta e um novo prisioneiro ali colocado. Sentou-se em um canto da cela, como se estivesse envergonhado, e não disse uma palavra sequer. Gradualmente, tornou-se mais conversador. Disse que seu nome era Nickolai Gantchef, que servira por muitos anos na guarda do palácio real de nosso anterior rei Boris e que fora detido sob a acusação de ser monarquista e haver tomado parte em conspirações. Tsonny suspeitou dele, mas eu, em minha credulidade, e ainda sofrendo dos espancamentos, acreditei em todas as declarações de Nickolai como verdadeiras. Mais tarde, fiquei sabendo que aquele homem fora colocado em nossa cela para espionar Tsonny e a mim. Pouco tempo depois, Tsonny foi retirado da cela. Um ano mais tarde, encontrei-o novamente em outra prisão. Ele me contou que Nickolai fora aos líderes e disse que Tsonny lhe parecia esperto e desconfiara dele. Por isso, os líderes deveriam tirar Tsonny da cela, a fim de que ele, Nickolai, continuasse seu trabalho de tentar quebrantar-me. Nickolai e eu ficamos sozinhos na cela. Ele conseguiu muitas informações a meu respeito, informações que, em minha inocência, lhe dei. Mais tarde, fiquei sabendo que colegas da prisão eram obrigados a espionar seus companheiros de celas, por meio de ameaças de dano a seus familiares. Depois, percebi que a aparência desanimada de Nickolai, quando o vi pela primeira vez, era de vergonha. Mas a Polícia Secreta aprendia rapidamente quais eram os pontos mais vulneráveis de um prisioneiro — seus filhos, sua esposa, por exemplo; e usava essa arma sem misericórdia. O trabalho de Nickolai consistia em descobrir o meu ponto vulnerável. Não tardou em descobri-lo. Naturalmente, era minha esposa e meus filhos. Eu me sentia extremamente preocupado a respeito deles. Rute estava sozinha, com dois bebês para alimentar e cuidar, e, eu estava incapacitado de ajudá-la.
No entanto, até aqueles informantes que conheci na prisão e que ocasionalmente me causaram tanto castigo, eu procurava amar e compreender, ao invés de odiar. Eles também eram vítimas, tal como eu. Era comovente o fato de que os prisioneiros tentavam freqüentemente falar com dureza sobre sua esposa e seus filhos, para que a Polícia Secreta imaginasse que não se importavam com os familiares, deixando-os, assim, em paz e sem danos. Muitas vezes, ouvi homens amaldiçoando sua esposa e seus filhos, como quem não se importava com eles; em seguida, tais homens, se voltavam, ocultavam o rosto entre as mãos e choravam em soluços. Os informantes não se encontravam somente onde campanhas sistemáticas eram planejadas (como aquela que fizeram contra mim). Estavam em todos os lugares: prisões, acampamentos, casas, empresas e igrejas. A fim de melhorar sua situação nas prisões e aliviar os próprios sofrimentos, muitos prisioneiros se ofereciam para tornarem-se informantes. Os comunistas não dormem tranqüilos, enquanto não sabem a respeito de todos: o que as pessoas pensam sobre eles ou o que dizem sobre eles. Conseqüentemente, em toda a Bulgária, dificilmente existia uma cela, um quarteirão, uma empresa ou uma igreja sem um informante que denunciasse tudo o que era dito. Isto é tão ruim hoje como o foi naqueles dias.