sexta-feira, 7 de maio de 2021

Este mundo tenebroso - volume 01 - Capítulo 40


 Marshall, Hank, Susan e Kevin caminharam silenciosos pelo corredor, à escuta, tentando ouvir qualquer som, e examinando os números em todas as portas. Susan gesti­culou na direção da sala de conferência, e eles se detiveram logo do lado de fora. Susan reconheceu a voz de Kaseph. Com a cabeça, acenou afirmativamente aos outros.

Marshall segurou a maçaneta. Com um gesto, indicou aos outros que esperassem. Então abriu a porta e entrou. Kaseph estava sentado à ponta da grande mesa de conferência, e os diretores e os quatro advogados em torno dela. Os demônios presentes na sala imediata­mente desembainharam suas espadas e encostaram-se às paredes. Não apenas era esse o inesperado jornalista, como também vinha acompanhado de dois guerreiros celestiais com cara de malvados, um enorme árabe e um africano feroz que pareciam mais do que prontos para a briga!

O Valente sabia que isso queria dizer encrenca, mas... nem tanta assim. Olhou os intrusos desafiadoramente, sorrindo, e disse:

— E afinal quem é você?

— O nome é Marshall Hogan — disse Marshall a Kaseph. — Sou o redator do Clarim de Ashton... isto é, assim que prove às pessoas certas que ainda tenho direitos de proprietário. Mas pelo que entendo você e eu temos muito a ver um com o outro, e já era hora de nos conhecermos.

Eugene Baylor não estava gostando nem um pouco da cara da coisa, nem tampouco o estavam os outros. Estavam mudos, e alguns pa­reciam ratos assustados que não tinham para onde correr. Todos sabiam onde Hogan devia estar, mas agora, de súbito, chocantemente, ele estava no pior lugar possível: ali!

Os olhos do Valente assumiram um olhar fixo e gelado, e os de­mônios que o assistiam fortaleceram-se com o pensamento de que o Valente era invencível e diabolicamente esperto. Ele saberia o que fazer!

— Como chegou aqui?— perguntou Kaseph por todos os presentes.

— Tomei o elevador! — foi a resposta brusca de Marshall. — Mas agora eu tenho uma pergunta a lhe fazer. Quero a minha filha, e a quero sã e salva. Façamos um trato, Kaseph. Onde está ela?

Kaseph e o Valente apenas riram zombeteiros.

— Trato, diz você? Você, um mero homem, deseja fazer um trato comigo? — Kaseph lançou umas olhadelas laterais à sua equipe de advogados e acrescentou:

— Hogan, você não tem idéia do tipo de poder com que está tra­tando.

Os demônios também deram risadinhas abafadas. Sim, Hogan, nin­guém pode se meter com o Valente! Natã e Armote não estavam rindo.

— Oh, não — disse Marshall. — É aí que você se engana. Sei, sim, com que tipo de poder estou lidando. Tive umas lições ótimas em todo este negócio, e umas boas palestras do meu amigo aqui.

Marshall abriu a porta e Hank entrou, juntamente com Krioni e Triskal, desta vez não sujeitos a ordens de manter a paz.

O Valente deu um pulo, o queixo pontudo caindo. Os demônios na sala começaram a tremer e tentaram esconder-se atrás das espadas.

— Calma, calma! — disse um dos advogados. — Eles nada são! Mas o Valente pôde sentir a presença do Senhor Deus entrar no aposento com esse homem. O demônio monarca sabia quem ele era.

— Busche! O homem de oração!

E Hank soube com quem se defrontava. O Espírito gritava muito alto no coração de Hank, e aquela cara...

— O Valente, presumo! — disse Hank.

 Sandy perguntou novamente a Madeline:

— Madeline, aonde estamos indo? Por que está me agarrando tanto?

Madeline não respondia mas continuava a puxar Sandy cada vez mais para dentro do túnel. Os amigos de Madeline cercavam Sandy, e não pareciam nada bonzinhos ou delicados. Empurravam-na, agar­rando-a, forçando-a a continuar. Suas unhas eram afiadas.

 As pessoas em volta da mesa de conferência estavam chocadas e perplexas, encontrando-se de súbito na presença de hedionda criatura; jamais haviam visto expressão como essa no rosto de Kaseph, e jamais haviam ouvido uma voz tão malévola. Kaseph ergueu-se da cadeira, a respiração sibilando através dos dentes, os olhos esbugalhados, as costas arqueadas, os punhos fechados.

— Você não me pode derrotar, homem de oração! — berrou o Valente, e os demônios ao seu redor agarraram-se com temerária esperança a essas palavras. — Você não tem poder! Eu já o derrotei!

Marshall e Hank fincaram pé, inflexíveis. Já haviam-se defrontado com demônios antes. Isto nada tinha de novo ou de surpreendente.

Os advogados de Kaseph não conseguiam pensar em nada para dizer.

Marshall estendeu a mão e abriu a porta. Com a cabeça erguida e o rosto cheio de determinação, Susan Jacobson, a Serva, entrou no aposento, seguida pelo irado Kevin Weed, e mais quatro guardas bem altos. A sala estava ficando lotada e tensa.

— Olá, Alex — disse Susan.

Os olhos de Kaseph estavam cheios de choque e temor, mas ainda assim arquejou e tartamudeou:

— Quem é você? Não a conheço. Nunca a vi antes.

— Não diga nada, Alex — aconselhou-o um advogado. Hank adiantou-se. Era hora da batalha.

— Valente — disse Hank em voz firme e resoluta — em nome de Jesus, eu o repreendo! Repreendo-o e ato-o!

 Madeline não a soltava! Suas mãos pareciam de aço gelado en­quanto ela ia puxando Sandy. O túnel estava ficando escuro e frio.

— Madeline! — gritou Sandy. — Madeline, o que está fazendo? Por favor, solte-me!

Madeline mantinha o rosto voltado para a frente e não fitava Sandy. Tudo o que a mocinha podia ver eram os longos e caídos cabelos loiros. As mãos de Madeline eram duras e frias. Estavam machucando os pulsos de Sandy, os dedos cravados na carne.

Sandy gritou desesperada:

— Madeline! Madeline, por favor, pare! — De súbito, os outros espíritos guias a comprimiram por todos os lados. Estavam prensando-a, e suas mãos de aço a feriam. — Por favor, não me está ouvindo? Faça-os parar!

Madeline voltou a cabeça afinal. Seu couro era cor-de-carvão e ressecado. Os olhos eram enormes globos amarelos. O queixo era como a queixada de um leão, e saliva pingava de suas presas. Um rosnado grave, gutural, rugiu-lhe da garganta.

Sandy gritou. De algum lugar nessa escuridão, nesse túnel, nesse nada, nesse estado alterado, nesse abismo de morte e engano, ela gritou da profundidade de sua alma torturada que morria.

Tal saltou da terra. Explodiu numa rajada de asas e luz. O chão ficou para trás e a cidade tornou-se um mapa lá embaixo, enquanto ele arremetia sobre Ashton qual cometa, perfurando as trevas espi­rituais como se fosse uma seta ardente, iluminando o vale todo como um prolongado relâmpago. Ele subiu, circulou; suas asas eram um borrão agitado de jóias.

A trombeta foi erguida aos lábios, e o chamado foi dado como uma onda de choque que fez tremer os céus. Ele ecoou através do vale, e voltou, e voltou, e voltou. Em onda após onda, ele rolou pelo chão, ensurdecendo os demônios, flutuando pelas ruas e rugindo pelas vielas, soando em cada ouvido em torrente após torrente de notas, cada vez mais altas e soando por mais tempo, e o ar pesado e parado foi despedaçado pelo som. Tal tocou e tocou enquanto voava sobre a cidade, as asas refulgindo, as vestes brilhando.

Chegara o momento.

 O Valente calou-se de repente. Seus grandes olhos rolaram de um lado para outro.

— O que foi isso? — sibilou ele.

Os demônios que o cercavam estavam trêmulos e fitavam-no à procura de respostas, mas ele não tinha nenhuma.

Os oito guerreiros celestiais desembainharam as espadas. Era res­posta suficiente.

 Rafar berrou através de Langstrat:

— Eu estou falando aqui! Não prestem atenção a nada mais!

Os demônios tentaram prestar atenção novamente, como fizeram os médiuns que controlavam.

Pela fração de um momento, o aperto de Madeline se enfraqueceu. Mas apenas por um momento.

Mas todos sabiam que tinham ouvido algo.

 Os guerreiros malignos na nuvem foram caindo continuamente sobre a cidade, mas agora seus olhos estavam ofuscados pelo apa­recimento súbito de um único anjo traçando brilhantes riscos lu­minosos de um lado a outro do céu abaixo deles. E o que era essa trombeta horrivelmente alta? As forças celestiais já não estavam der­rotadas? Atreviam-se a pensar que podiam possivelmente defender a cidade?

Subitamente pequenas explosões de luz apareceram por toda a cidade lá embaixo, clarões que não se dissiparam mas permaneceram e cresceram em brilho. Eles engrossaram e aumentaram em número e em densidade. A cidade estava em chamas; estava desaparecendo sob miríades de pequeninas luzes, tão numerosas quanto grãos de areia. Era de cegar!

Os berros lúgubres começaram no centro da nuvem e ondularam na direção das orlas através de camada sobre camada de demônios:

— O Exército Celestial!

Gritos estrondosos começaram a soar no momento em que Tal pousou na sua colina e ergueu sua fulgurante espada bem alto acima da cabeça.

— Pelos santos de Deus e pelo Cordeiro!

Foi o que Tal bradou, foi o que Guilo bradou, foi o que miríades dos guerreiros celestiais bradaram, e toda a paisagem de um lado ao outro do vale, a cidade toda, e mesmo as colinas cobertas de matas que cercavam Ashton explodiram em brilhantes estrelas.

Dos prédios, ruas, vielas, esgotos, lagos, lagoas, veículos, salas, armários, escaninhos, frestas, árvores, moitas e todos os outros es­conderijos imagináveis, estrelas chamejantes romperam o ar.

O Exército Celestial!

 Sandy tremia, debatia-se. A coisa chamada Madeline se apoderara de seus braços; os outros espíritos lhe seguravam as pernas, o pes­coço, o tronco. Eles a mordiam. De algum lugar, a voz do Elevado Senhor, Rafar, dizia:

— Leve-a, Madeline! Nós a temos! Não podemos fracassar agora. Sandy tentava sair do transe, do estado alterado, do pesadelo, mas não conseguia lembrar-se de como fazê-lo. Ela ouviu o tinido me­tálico de correntes. Não! NAAÃÃÃO...

 — Não pode derrotar-me! — berrou o Valente, e seus demônios esperavam, ou melhor, desejavam que fosse verdade.

— Cale-se e saia dele! — ordenou Hank.

Suas palavras jogaram os demônios contra as paredes e atingiram o Valente como um soco.

Kaseph sibilou e cuspiu imprecações e obscenidades ao jovem ministro. Os diretores em torno da mesa estavam mudos; alguns se esconderam debaixo da mesa. Os advogados tentavam acalmar Ka­seph.

— Quero a minha filha! — disse Marshall. — Onde está ela?

— Está tudo acabado — disse Susan. — Dei-lhes os documentos certos! A polícia federal está vindo para pegá-lo, e vou-lhes contar tudo!

De trás dos outros três, Kevin gritou:

— Kaseph, você acha que é tão durão, vamos sair ali fora e resolver isto de homem para homem!

A nuvem descendente de demônios e a bola de fogo ascendente de anjos principiaram a colidir nos céus acima de Ashton. Trovão começou a fender o céu em resposta ao terrível embate de forças espirituais. Espadas chamejavam, e uma saraivada de berros e gritos ecoava pelo céu. Os guerreiros celestiais ceifavam as fileiras demo­níacas como borrões de foices. Os demônios principiaram a cair do céu como meteoros, rodopiando, esfumaçando, dissolvendo.

 Tal, Guilo e o General dirigiram-se qual relâmpagos à faculdade, as espadas prontas, a cidade um borrão em baixo deles. Um regimento muito forte dos exércitos celestiais havia forçado passagem através do ataque demoníaco e começado a isolar o campus da faculdade. Logo haveria um dossel angélico sobre a faculdade dentro do dossel demoníaco sobre a cidade. A destruição das forças inimigas come­çaria ali.

— Eles já quase conseguiram conter o Valente! — gritou Guilo acima do rugido do vento e das asas.

— Encontre Sandy! — ordenou Tal. — Não há tempo a perder!

— O Valente fica por minha conta — disse o General.

— E logo Rafar conseguirá o que deseja — disse Tal.

Eles se espraiaram, arrojaram-se para diante com nova velocidade, e puseram-se a cortar caminho através dos demônios que ainda ten­tavam bloquear a faculdade. Os demônios guerreiros caiam sobre eles como avalanche, mas para Guilo aquilo era bom esporte. Tal e o General podiam ouvir suas vibrantes gargalhadas através do som dos baques da sua lâmina, que atravessava demônio após demônio.

O próprio Tal, sendo prêmio tão valioso para o demônio que o derrotasse, estava ocupado. Os mais horrorosos guerreiros vinham atrás dele, e não caíam facilmente. Ele deslizou de lado pelo ar, abateu um espírito com a espada, produziu uma nuvem com um rodopio e partiu o próximo guerreiro com a força de uma serra. Dois outros mergulharam sobre ele; ele arremeteu contra os dois, tres­passou o primeiro ao passar por ele, agarrou a ponta de sua asa e rodopiou em torno dele num círculo apertado, chegando por trás do Outro, sua lâmina como uma bala. Eles sumiram numa nuvem de fumaça vermelha. Escorregando pelas garras de diversos outros, ele mergulhou em seguida e ziguezagueou na direção da faculdade, des­troçando demônios na passagem. Podia ouvir Guilo ainda rugindo e rindo em alguma parte acima de seu ombro esquerdo.

 A sala de conferência perdia rapidamente a atmosfera calma. Delores Pinckston estava perturbada.

— Eu sabia! Sabia! Sabia que estávamos nos enterrando demais!

— Hogan — disse Eugene Baylor — você está apenas blefando. Não tem nada.

— Tenho tudo e você sabe disso.

Kaseph estava começando a parecer muito doente.

— Saiam! Saiam daqui! Eu os matarei se não saírem!

Era esse o verdadeiro Kaseph que Marshall havia procurado todo aquele tempo? Era esse o implacável bandido oculto que controlava um tão vasto império internacional? Estava ele na realidade com medo?

— Você está frito, Kaseph! — disse Marshall.

— Você está derrotado, Valente! — disse Hank.

O Valente começou a tremer. Os demônios na sala podiam apenas encolher-se.

— Então, façamos um trato — ofereceu Marshall novamente. — Onde está a minha filha?

 Brummel estava quase tendo uma síncope, e desejava realmente poder ter uma. Era horrível! Os outros estavam sentados à volta da sala ouvindo embevecidos essa besta falar através de Langstrat, e chegando ao ponto de saborear o que estava acontecendo a Sandy. Ela tremia e se sacudia na cadeira, gemendo, gritando, debatendo-se contra um assaltante invisível.

— Solte-me! — gritou ela. — Solte-me!

Seus olhos estavam muito abertos, mas o que ela via eram horrores indizíveis de outro mundo. Ela arfava, tentando respirar, pálida de terror.

Ela vai morrer, Brummel! Eles vão matá-la!

A criatura pesada, de olhos saltados, sentada na cadeira de Langs­trat estava berrando numa voz que fazia as entranhas de Brummel trepidarem.

— Você está perdida, Sandy Hogan! Está em nossas mãos agora! Você nos pertence, e somos a única realidade que conhece!

— Por favor, Deus — berrou ela. — Tire-me daqui, por favor!

— Venha conosco! Sua mãe fugiu, seu pai está morto! Ele se foi! Não pense mais nele! Você nos pertence!

O corpo de Sandy amoleceu na cadeira, como se ela tivesse sido baleada. De súbito, o desespero fez com que seu rosto se tornasse insensível.

Brummel não agüentou mais. Antes de ter tempo de perceber o que fazia, pulou da cadeira e correu até ela. Sacudindo-a delicada­mente, ele tentou falar-lhe.

— Sandy! — implorou. — Sandy, não lhes dê ouvidos! É tudo mentira! Está-me ouvindo? Sandy não podia ouvi-lo.

Mas Rafar podia. Langstrat ergueu-se com um salto e berrou com Brummel na mesma voz profunda, demoníaca:

— Quieto, seu diabinho, e saia daí! Ela me pertence! Brummel ignorou-a.

— Sandy, não dê ouvidos a esse monstro mentiroso. É Alf Brummel quem está falando com você. Seu pai está bem.

A fúria de Rafar cresceu tanto que o corpo de Langstrat quase explodiu com a intensidade dela.

— Hogan está derrotado! Está na cadeia!

Brummel olhou bem nos olhos enlouquecidos de Langstrat, e de Rafar, e gritou:

— Marshall Hogan está livre! Hank Busche está livre! Eu mesmo os soltei! Eles estão livres, e vêm para destruir vocês!

Rafar foi detido por um momento. Simplesmente não podia crer nos disparates desse fracote, desse insignificante fantoche que nunca havia agido de forma tão atrevida quanto agora. Mas estão Rafar ouviu uma risadinha abafada muito imprópria vindo de trás de Brummel, e viu uma cara familiar e zombeteira.

Lucius!

 Tal e Guilo mergulharam rumo ao Prédio da Administração, mas de repente Tal se deteve bruscamente.

— Espere um pouco! O que é isso?

 Lucius puxou a espada e disse:

— Você não é tão poderoso, Rafar! Seu plano fracassou, e sou o único e verdadeiro Príncipe de Ashton!

A espada de Rafar retiniu ao sair da bainha.

— Atreve-se a me enfrentar?

A espada de Rafar cortou os ares com uma rajada de vento, mas Lucius deteve a grande lâmina com a sua; a força do golpe quase o fez rolar.

Os muito demônios na sala ficaram assustados e confusos. Solta­ram seus hospedeiros. O que era isso?

 Kaseph estava indignado com seus advogados e chegou mesmo a dar alguns socos na direção deles.

— Parem com isso! Não me dirão o que hei de fazer! Este mundo é meu! Quem manda aqui sou eu! Eu digo o que é e o que não é! Essa gente toda é um bando de idiotas e mentirosos, cada um deles!

Susan falou diretamente a Kaseph.

— Você, Alexander Kaseph, é responsável pelo assassínio de Pa­trícia Krueger e pela tentativa de assassínio da minha pessoa e do Sr. Weed aqui presente. Tenho muitas listas que o ajudei a compilar, listas de pessoas que acabaram mortas por ordem sua.

— Assassínio! — exclamou um dos diretores. — Sr. Kaseph, é verdade?

— Não responda — disse um advogado.

— Não! — berrou Kaseph.

Diversos outros diretores se entreolharam. A esta altura, conhe­ciam Kaseph bem o suficiente. Não acreditaram nele.

— O que diz, Kaseph? — perguntou Marshall sombriamente.

O Valente desejava de todo o coração maligno investir sobre esse cão de caça atrevido e dar cabo dele, e era o que teria feito, com guardas ou sem guardas, se não fosse por aquele horroroso homem de oração que lhe barrava o caminho.

 Langstrat dirigiu-se como um leão na direção de Brummel, en­quanto muitos dos médiuns, tendo perdido seus espíritos guias, saí­ram dos transes a fim de ver o que cargas d'água havia acontecido.

— Acabarei com você por esta traição! — sibilou ela a Brummel.

— O que é isto? — exigiu Oliver Young. — Vocês dois ficaram loucos?

Brummel fincou o pé e apontou um dedo trêmulo a Langstrat.

— Não mandará mais em mim. Este plano não dará certo para a sua glória. Não o permitirei!

— Cale-se, seu idiota! — ordenou Langstrat.

— Não! — gritou Brummel, instigado pelo endoidecido e atrevido Lucius. — O Plano está condenado. Fracassou, como eu sabia que fracassaria.

 — E você está condenado, Rafar! — gritou Lucius, desviando-se das investidas letais da espada de Rafar. — Está ouvindo a batalha lá fora? Os Exércitos Celestiais estão por toda a parte!

— Traição! — sibilou Rafar. — Pagará por sua traição!

— Traição! — gritaram alguns demônios.

— Não, Lucius fala a verdade! — gritaram outros em resposta.

 Sandy forçou-se a olhar naqueles malignos olhos amarelos e im­plorou:

— O que... o que lhe aconteceu, Madeline? Por que mudou? Madeline apenas cacarejou e respondeu:

— Não acredite no que vê. O que é o mal? Nada mais que ilusão. O que é a dor? Nada mais que ilusão. O que é o medo? Nada mais que ilusão.

— Mas você mentiu para mim! Enganou-me!

— Jamais fui diferente do que sou. Foi você quem enganou a si mesma.

— O que vai fazer?

— Vou libertá-la.

No exato momento em que Madeline proferiu essas palavras, os braços de Sandy caíram subitamente puxados por peso tão enorme que ela quase foi ao chão.

Correntes! Elo após elo de correntes brilhantes e pesadas, pen­duradas à volta de seus pulsos e braços. Mãos retorcidas envolviam-na rapidamente. Os elos frios e contundentes batiam contra as suas pernas, seu corpo, seu pescoço. Ela já não podia debater-se. Tentou gritar, mas seu fôlego se fora.

— Agora você está livre! — disse Madeline exultante.

 

Brummel começou a falar por si.

— As autoridades... o procurador geral do estado... Justin Par­ker. .. a polícia federal! Eles sabem de tudo!

— O quê? — gritaram alguns médiuns, pulando das cadeiras. Co­meçaram a fazer perguntas, a entrar em pânico.

Young tentava manter a ordem, mas não estava conseguindo.

 Rafar soltou Langstrat a fim de melhor poder cuidar desse presunçoso traidor.

 Langstrat saiu bruscamente do transe e sentiu a energia psíquica na sala debandando.

— Voltem aos seus lugares, todos! — gritou ela. — Não cumprimos o nosso propósito aqui! — Ela fechou os olhos e chamou:

— Rafar, por favor, volte! Promova ordem!

 Mas Rafar estava ocupado. Lucius era menor, mas era muito rápido e muito decidido. As duas espadas relampejavam pela sala como fogos de artifício, queimando e retinindo. Lucius esvoaçava em torno da cabeça de Rafar como um marimbondo irritante, investindo, gi­rando e retalhando. A sala toda encheu-se das asas rodopiantes de Rafar e das explosões de seus arquejos, e sua grande espada traçava labaredas rubras no ar.

— Traidor! — berrou Rafar. — Eu o despedaçarei!

 Langstrat moveu-se na direção de Brummel com olhos tresloucados.

— Traidor! Eu o despedaçarei!

— Não — murmurou Brummel com os olhos esbugalhados, a mão indo ao lado.

— Não desta vez... não mais! Young gritou com os dois:

— Parem com isso! Não sabem o que estão fazendo!

 

Os demônios dividiam-se em facções.

— O Príncipe Lucius fala a verdade! — diziam alguns. — Rafar nos levou à ruína!

— Não, é Lucius quem está ajudando o inimigo!

— Vocês é que estão fazendo isso, mas nós salvaremos a nossa pele!

Outras espadas rebrilharam à vista.

Rafar sabia que estava perdendo o controle.

— Tolos! — rugiu ele. — Isto é um truque do Inimigo! Ele está tentando nos dividir!

Bastou apenas aquele breve instante em que os olhos de Rafar se fixaram na briga de seus demônios e não na espada de Lucius.

 Bastou apenas aquele único momento de terror para Brummel se descontrolar. Ele apontou o revólver policial para a furiosa Langstrat.

 A lâmina de Lucius cantou pelo ar e deslizou logo abaixo da espada do adversário. A ponta penetrou profundamente no couro de Rafar e abriu seu flanco com um corte profundo, borbotoante.

 Langstrat fez um único movimento errado e a bala entrou-lhe com um baque no peito.

 Na sala de conferência, todos ouviram o tiro. Numa fração de segundos, Marshall estava no corredor.