segunda-feira, 10 de maio de 2021

O discipulo - Capítulo 16

Modificando as Tradições 

Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós... pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não  porconstrangidos, mas espontaneamente, como Deus quer. (1 Pe 5.1,2.) 

Quando Deus começou a renovar-nos, algumas de nossas tradições precisaram ser  modificadas. 

A tradição do governo democrático era uma das mais fortes que tínhamos. Começamos  a ver que a igreja primitiva não era democrática; era teocrática. Deus dava ordens aos  apóstolos, e estes' as transmitiam ao povo. Também nomearam anciãos para as igrejas, mas  todos eram obedientes. 

Era uma igreja comandada pela cabeça e não pelos pés. O poder fluía do alto, passando  pelo meio e ia até a base. 

Numa democracia as coisas funcionam ao contrário. O poder está na base. A cabeça tem  que obedecer as ordens dos pés. 

Não existe registro algum de Paulo dizendo a Timóteo: "Timóteo, será que você poderia  apresentar-se como obreiro voluntário para o ministério? Gostaríamos muito que você se  unisse a nós, se desejar." 

O texto de Atos 16.3 diz o seguinte: “Quis Paulo que ele fosse em sua companhia”, e  isto foi tudo. 

Os apóstolos tinham o direito até de definir a doutrina. O Novo Testamento não fala da  "doutrina de Jesus", mas, sim, da "doutrina dos apóstolos". Eles eram infalíveis.  Os problemas começaram a surgir quando esta igreja teocrática perdeu seu carisma, o  poder espiritual. Os líderes se tornaram mais interessados no poder material e terreno do que  no que vinha do alto. Eles conservaram a mesma forma de governo, mas o espírito se fora.  Eram como um estojo de caneta sem a caneta. Exteriormente, pareciam os mesmos, mas, por  dentro, estavam vazios. 

O papa continuou a crer que era infalível, e eu entendo perfeitamente a razão disso.  Afinal de contas, as cartas que Pedro escrevera, as cartas de João e as outras eram toda a  verdade. Por que não continuar assim? E poderia ter continuado; mas sem o carisma, sem a  revelação divina dos céus, a igreja se tornou um elemento perigoso no mundo. 

Alguns de seus filhos, como Savonarola, João Huss, Lutero e outros, tentaram renová la, mas a Igreja não aceitou sua mensagem. Eles teriam trazido uma nova vida à Igreja  Católica, mas em vez disso, foram afastados dela. É assim que age o poder sem a revelação. 

Então as igrejas protestantes reagiram e decidiram tornar-se democráticas. E isto foi  bom durante algum tempo; reconduziu os leigos ao trabalho eclesiástico. Novamente, eles  tinham que pensar, votar e trabalhar. 

Mas não foi a solução. No decurso da Idade das Trevas, o papa se tornou o substituto da  Palavra de Deus. E atualmente é o (voto da maioria que se constitui neste substituto. Q povo  continuava sem saber ao certo o que Deus estava dizendo. E por isso dizia: "Vamos resolver  esta questão pelo voto. A idéia que obtiver mais da metade dos votos, deve ser a vontade de  Deus." 

A maioria nem sempre está certa. Foi a maioria que construiu o bezerro de ouro no  deserto. Foi a maioria que deu as costas para Jesus após suas palavras registradas em João 6.  E nestes dias, quando Deus está reestabelecendo ministérios e carismas iremos ter  muitas dificuldades com a maioria. Não estou argumentando em favor de um governo de  orientação episcopal, mas também não posso apoiar a forma democrática. Sem o carisma nenhum dos dois é bíblico. Talvez quando Deus operar a renovação, as pessoas de formação  episcopal se mostrem mais acessíveis a ela — não sei. Elas já estão acostumadas a receber  ordens de outras que não possuem a plenitude do Espírito; o que farão se seus bispos  realmente se puserem em contato com Deus? 

A questão do governo eclesiástico já foi exaustivamente discutida através da História, e  creio que não pode ser resolvida, simplesmente por uma razão: uma forma de governo  estritamente bíblica não dará certo numa igreja não bíblica. 

A Bíblia fala da Igreja em duas dimensões: a universal e a local. A igreja universal  significa “a igreja de toda a terra”. Igreja local significa “a igreja de uma certa localidade”.  Mas depois que ocorreu a reforma protestante, nós passamos a ter um novo tipo de  igreja que não é nem universal nem local. É a igreja denominacional. As denominações já  experimentaram todo tipo de governo eclesiástico que se possa imaginar, desde as rígidas  formas episcopais, da direita, às formas presbiteriais, do centro, e até às congregacionais, da  esquerda. 

Mas mesmo assim não se achou a solução. Por quê? Porque não se pode instalar peças  de carro Ford em veículos de fabricação Chevrolet. Para autos de marca Chevrolet, só  podemos usar peças Chevrolet. O conceito de denominação não é o mesmo da igreja local do  Novo Testamento, e portanto, nenhuma de nossas formas experimentais de estrutura neo testa-mentária se encaixam nela. 

Certa vez fui ao Equador, e vi ali as bananas grandes e doces que aquele país produz. E  disse: "Que coisa boa! Será que posso levar uma muda dela e plantar em minha terra? As  nossas bananas são tão pequenas." 

E alguém me respondeu: "Bem, acho que não adiantará muito. O clima da Argentina é  muito frio, e lá não dará bananas grandes assim. O senhor teria que levar o nosso solo, a  chuva e a temperatura — teria que levar todo o Equador para o seu país." 

O mesmo acontece conosco. Fizemos uma viagem à Igreja Primitiva e descobrimos o  batismo com o Espírito Santo. E tentamos transplantá-lo para nossa igreja atual sem trazer o  clima. Acabamos obtendo bananas pequenas e grossas. O que aconteceu? O Espírito Santo  ainda é o mesmo do primeiro século. Mas parece que foi diluído — um galão dele, para cem  galões de água fria. Nós o enfraquecemos. 

Nós simplesmente não podemos ter um bom governo eclesiástico bíblico numa estrutura  eclesiástica não bíblica. 

Qual é a igreja bíblica? A igreja da localidade. A igreja de cada área é uma só. Não  existem duas igrejas, ou três, ou dez; a igreja é uma só, assim como Deus é um.  Quando Deus se revelou a Moisés na sarça ardente, este quis saber qual era seu nome.  Em essência, Deus lhe respondeu o seguinte: "Moisés, você vem do Egito, onde existem  muitos deuses, e onde é preciso nomeá-los para se distinguir entre uns e outros. Mas existe  apenas um Deus. Além de mim não existem outros." 

Moisés não entendeu. Ele insistiu em saber o nome. E Deus disse: "Escute, se nós  fôssemos muitos, precisaríamos de nomes. Mas eu não preciso de nome — Eu sou quem sou.  Eu sou o único." 

"Mas quando eu chegar ao Egito terei que identificá-lo de algum modo. O que devo  dizer?" V 

"Bem, você terá que dizer apenas: Eu sou me enviou." Que nome estranho!  O mesmo se aplica à Igreja. Muitas pessoas me perguntam: “De que igreja você é?”  "Eu sou da Igreja", respondo. 

"De qual?" 

"Da Igreja." 

"Ora, deixe de brincadeira — você sabe o que quero dizer. De que igreja você é?"

Existe somente uma Igreja. No Novo Testamento, eles nunca tiveram que arranjar um  nome para a Igreja, porque havia somente uma. Quando eu me encontrava na cidade de  Charlotte, no Estado de Carolina do Norte, disseram-me que havia quatrocentas igrejas  naquele município. Isto não é verdade. Existe apenas uma Igreja em Charlotte, partida em  quatrocentos pedaços. Só pode haver uma Igreja em cada localidade. 

Precisamos descobrir um modo de ajuntar os pedaços novamente. Deveríamos ir ao  topo do edifício mais alto do lugar, e pedir a Deus o seguinte: "Senhor, mostra-me a Igreja  desta cidade, tal como tu a vês." Mas nós somos míopes. Pensamos que Deus está lá no céu  olhando apenas para a nossa congregação, através de um longo tubo, e dizendo: "Como tudo  está bonito! Que órgão bom eles compraram... que lindo tapete instalaram!". 

Olhe! A verdade é que ele está olhando para baixo, chorando. E com estas lágrimas está  dizendo o que Jesus disse quando chorou sobre Jerusalém: "Quantas vezes quis eu reunir os  teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!  Eis que a vossa casa vos ficará deserta." (Mt 23.37,38.) 

Ele vê os vários pastores da cidade, todos unidos como um só corpo de pastores, de sua  única Igreja. E se eles são uma corporação só, devem se reunir em grupo, ter comunhão uns  com os outros, amar uns aos outros. Devem viver quase como viviam os doze pastores da  Igreja de Jerusalém. Eles constituem o presbitério da cidade; os anciãos que estão  encarregados do rebanho de Deus. 

Em alguns lugares nossa estrutura é tão errada que chamamos os diáconos de "anciãos".  E assim, temos uma situação estranha — os "anciãos" se acham debaixo dos pastores. Não  entendemos que, no Novo Testamento, os dois são a mesma coisa. Jesus é a cabeça que, na  visão de João registrada em Apocalipse, caminha entre os candeeiros (as igrejas). A igreja de  cada localidade é diferente das de outras; suas características são específicas para as  necessidades locais, assim como a Igreja de Jerusalém desenvolveu-se de um modo e a de  Antioquia de outro. Mas todas se acham sob o senhorio de Cristo. E através da liderança dos  apóstolos e anciãos, o Reino de Deus deve ser estabelecido em cada lugar. 

Será que este conceito é muito estranho para nós? Será ele uma ameaça às nossas  tradições? É verdade que não podemos simplesmente estalar os dedos e consumir com as  denominações. Até o governo civil já espera que nós as tenhamos. Mas isto não deve impedir  que venhamos a discernir o verdadeiro corpo do Senhor de cada localidade. As santas  tradições protestantes não podem servir de barreira para o crescimento.