Modificando as Tradições
Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós... pastoreai o
rebanho de Deus que há entre vós, não
porconstrangidos, mas espontaneamente, como Deus quer. (1 Pe
5.1,2.)
Quando Deus começou a renovar-nos, algumas de nossas
tradições precisaram ser modificadas.
A tradição do governo democrático era uma das mais fortes
que tínhamos. Começamos a ver que a
igreja primitiva não era democrática; era teocrática. Deus dava ordens aos apóstolos, e estes' as transmitiam ao povo.
Também nomearam anciãos para as igrejas, mas
todos eram obedientes.
Era uma igreja comandada pela cabeça e não pelos pés. O
poder fluía do alto, passando pelo meio
e ia até a base.
Numa democracia as coisas funcionam ao contrário. O poder
está na base. A cabeça tem que obedecer
as ordens dos pés.
Não existe registro algum de Paulo dizendo a Timóteo:
"Timóteo, será que você poderia
apresentar-se como obreiro voluntário para o ministério? Gostaríamos
muito que você se unisse a nós, se
desejar."
O texto de Atos 16.3 diz o seguinte: “Quis Paulo que ele
fosse em sua companhia”, e isto foi
tudo.
Os apóstolos tinham o direito até de definir a doutrina. O
Novo Testamento não fala da
"doutrina de Jesus", mas, sim, da "doutrina dos
apóstolos". Eles eram infalíveis.
Os problemas começaram a surgir quando esta igreja teocrática perdeu seu
carisma, o poder espiritual. Os líderes
se tornaram mais interessados no poder material e terreno do que no que vinha do alto. Eles conservaram a
mesma forma de governo, mas o espírito se fora.
Eram como um estojo de caneta sem a caneta. Exteriormente, pareciam os
mesmos, mas, por dentro, estavam
vazios.
O papa continuou a crer que era infalível, e eu entendo
perfeitamente a razão disso. Afinal de
contas, as cartas que Pedro escrevera, as cartas de João e as outras eram toda
a verdade. Por que não continuar assim?
E poderia ter continuado; mas sem o carisma, sem a revelação divina dos céus, a igreja se tornou
um elemento perigoso no mundo.
Alguns de seus filhos, como Savonarola, João Huss, Lutero e
outros, tentaram renová la, mas a Igreja não aceitou sua mensagem. Eles teriam
trazido uma nova vida à Igreja Católica,
mas em vez disso, foram afastados dela. É assim que age o poder sem a
revelação.
Então as igrejas protestantes reagiram e decidiram tornar-se
democráticas. E isto foi bom durante
algum tempo; reconduziu os leigos ao trabalho eclesiástico. Novamente,
eles tinham que pensar, votar e
trabalhar.
Mas não foi a solução. No decurso da Idade das Trevas, o
papa se tornou o substituto da Palavra
de Deus. E atualmente é o (voto da maioria que se constitui neste substituto. Q
povo continuava sem saber ao certo o que
Deus estava dizendo. E por isso dizia: "Vamos resolver esta questão pelo voto. A idéia que obtiver
mais da metade dos votos, deve ser a vontade de
Deus."
A maioria nem sempre está certa. Foi a maioria que construiu
o bezerro de ouro no deserto. Foi a
maioria que deu as costas para Jesus após suas palavras registradas em João
6. E nestes dias, quando Deus está
reestabelecendo ministérios e carismas iremos ter muitas dificuldades com a maioria. Não estou
argumentando em favor de um governo de
orientação episcopal, mas também não posso apoiar a forma democrática.
Sem o carisma nenhum dos dois é bíblico. Talvez quando Deus operar a renovação,
as pessoas de formação episcopal se
mostrem mais acessíveis a ela — não sei. Elas já estão acostumadas a
receber ordens de outras que não possuem
a plenitude do Espírito; o que farão se seus bispos realmente se puserem em contato com
Deus?
A questão do governo eclesiástico já foi exaustivamente
discutida através da História, e creio
que não pode ser resolvida, simplesmente por uma razão: uma forma de
governo estritamente bíblica não dará
certo numa igreja não bíblica.
A Bíblia fala da Igreja em duas dimensões: a universal e a
local. A igreja universal significa “a
igreja de toda a terra”. Igreja local significa “a igreja de uma certa
localidade”. Mas depois que ocorreu a
reforma protestante, nós passamos a ter um novo tipo de igreja que não é nem universal nem local. É a
igreja denominacional. As denominações já
experimentaram todo tipo de governo eclesiástico que se possa imaginar,
desde as rígidas formas episcopais, da
direita, às formas presbiteriais, do centro, e até às congregacionais, da esquerda.
Mas mesmo assim não se achou a solução. Por quê? Porque não se pode instalar peças de carro Ford em veículos de fabricação Chevrolet. Para autos de marca Chevrolet, só podemos usar peças Chevrolet. O conceito de denominação não é o mesmo da igreja local do Novo Testamento, e portanto, nenhuma de nossas formas experimentais de estrutura neo testa-mentária se encaixam nela.
Certa vez fui ao Equador, e vi ali as bananas grandes e
doces que aquele país produz. E disse:
"Que coisa boa! Será que posso levar uma muda dela e plantar em minha
terra? As nossas bananas são tão
pequenas."
E alguém me respondeu: "Bem, acho que não adiantará
muito. O clima da Argentina é muito
frio, e lá não dará bananas grandes assim. O senhor teria que levar o nosso
solo, a chuva e a temperatura — teria
que levar todo o Equador para o seu país."
O mesmo acontece conosco. Fizemos uma viagem à Igreja
Primitiva e descobrimos o batismo com o
Espírito Santo. E tentamos transplantá-lo para nossa igreja atual sem trazer
o clima. Acabamos obtendo bananas
pequenas e grossas. O que aconteceu? O Espírito Santo ainda é o mesmo do primeiro século. Mas
parece que foi diluído — um galão dele, para cem galões de água fria. Nós o
enfraquecemos.
Nós simplesmente não podemos ter um bom governo eclesiástico
bíblico numa estrutura eclesiástica não
bíblica.
Qual é a igreja bíblica? A igreja da localidade. A igreja de
cada área é uma só. Não existem duas
igrejas, ou três, ou dez; a igreja é uma só, assim como Deus é um. Quando Deus se revelou a Moisés na sarça
ardente, este quis saber qual era seu nome.
Em essência, Deus lhe respondeu o seguinte: "Moisés, você vem do Egito,
onde existem muitos deuses, e onde é
preciso nomeá-los para se distinguir entre uns e outros. Mas existe apenas um Deus. Além de mim não existem
outros."
Moisés não entendeu. Ele insistiu em saber o nome. E Deus
disse: "Escute, se nós fôssemos
muitos, precisaríamos de nomes. Mas eu não preciso de nome — Eu sou quem
sou. Eu sou o único."
"Mas quando eu chegar ao Egito terei que identificá-lo
de algum modo. O que devo dizer?"
V
"Bem, você terá que dizer apenas: Eu sou me
enviou." Que nome estranho! O mesmo
se aplica à Igreja. Muitas pessoas me perguntam: “De que igreja você é?” "Eu sou da Igreja", respondo.
"De qual?"
"Da Igreja."
"Ora, deixe de brincadeira — você sabe o que quero
dizer. De que igreja você é?"
Existe somente uma Igreja. No Novo Testamento, eles nunca
tiveram que arranjar um nome para a
Igreja, porque havia somente uma. Quando eu me encontrava na cidade de Charlotte, no Estado de Carolina do Norte,
disseram-me que havia quatrocentas igrejas
naquele município. Isto não é verdade. Existe apenas uma Igreja em
Charlotte, partida em quatrocentos
pedaços. Só pode haver uma Igreja em cada localidade.
Precisamos descobrir um modo de ajuntar os pedaços
novamente. Deveríamos ir ao topo do
edifício mais alto do lugar, e pedir a Deus o seguinte: "Senhor, mostra-me
a Igreja desta cidade, tal como tu a
vês." Mas nós somos míopes. Pensamos que Deus está lá no céu olhando apenas para a nossa congregação,
através de um longo tubo, e dizendo: "Como tudo está bonito! Que órgão bom eles compraram...
que lindo tapete instalaram!".
Olhe! A verdade é que ele está olhando para baixo, chorando.
E com estas lágrimas está dizendo o que
Jesus disse quando chorou sobre Jerusalém: "Quantas vezes quis eu reunir
os teus filhos, como a galinha ajunta os
seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes! Eis que a vossa casa vos ficará
deserta." (Mt 23.37,38.)
Ele vê os vários pastores da cidade, todos unidos como um só
corpo de pastores, de sua única Igreja.
E se eles são uma corporação só, devem se reunir em grupo, ter comunhão
uns com os outros, amar uns aos outros.
Devem viver quase como viviam os doze pastores da Igreja de Jerusalém. Eles constituem o
presbitério da cidade; os anciãos que estão
encarregados do rebanho de Deus.
Em alguns lugares nossa estrutura é tão errada que chamamos
os diáconos de "anciãos". E
assim, temos uma situação estranha — os "anciãos" se acham debaixo
dos pastores. Não entendemos que, no
Novo Testamento, os dois são a mesma coisa. Jesus é a cabeça que, na visão de João registrada em Apocalipse,
caminha entre os candeeiros (as igrejas). A igreja de cada localidade é diferente das de outras;
suas características são específicas para as
necessidades locais, assim como a Igreja de Jerusalém desenvolveu-se de
um modo e a de Antioquia de outro. Mas
todas se acham sob o senhorio de Cristo. E através da liderança dos apóstolos e anciãos, o Reino de Deus deve ser
estabelecido em cada lugar.
Será que este conceito é muito estranho para nós? Será ele uma ameaça às nossas tradições? É verdade que não podemos simplesmente estalar os dedos e consumir com as denominações. Até o governo civil já espera que nós as tenhamos. Mas isto não deve impedir que venhamos a discernir o verdadeiro corpo do Senhor de cada localidade. As santas tradições protestantes não podem servir de barreira para o crescimento.
