terça-feira, 8 de junho de 2021

Este mundo tenebroso - parte 2 - capítulo 43


 Sally correu como uma gazela assustada, os pensamentos concentrados naquele portão de entrada, sua velocidade

nunca diminuindo. Ela saltou dentro do jardim de ervas e passou correndo bem ao lado do cantor loiro e seu grupinho.

— Ei, quem é aquela? — perguntou alguém. Então veio a voz de Sybil Denning.

— Ora...! Sally! Sally Roe! Sally, é você?

Sally não olhou para trás, não diminuiu a velocidade; somente conti­nuou a correr, seus longos cabelos voando ao vento atrás de si, os braços balançando vigorosamente, as pernas engolindo a distância. Ela atirou-se para fora do jardim de ervas, atravessou o gramado, desceu uma passagem de pedregulhos, e chegou ao estacionamento principal. Dava para ver o portão principal.

Goring estava acabando de conduzir os dois médiuns porta afora apesar de seus protestos, quando outra pessoa chegou correndo, cheia de per­guntas.

— Ei, quem era que vimos correndo? O que está acontecendo por aqui? Goring perguntou diretamente:

— Era uma mulher?

— Sim. Nossa, ela parecia apavorada ...— Para que lado ela foi?

— Estamos todos apavorados! O que está acontecendo?

— Para que lado ela foi?

— Bem, na direção do portão da frente. Ela estava dando o fora daqui!

— Verificarei o que está acontecendo.

Goring fechou a porta bem na cara deles e gritou para os homens de Kholl.

— Ela está lá fora, dirigindo-se ao portão da frente!

Os quatro desordeiros estavam acabando de trazer Kholl para cima. Goring ficou indignado.

— Não o tragam aqui! Vão pingar sangue no meu tapete!

— Peguem a mulher! — disse o Homem Forte.

Destruidor empurrou e socou os espíritos do Vidoeiro Quebrado em ação.

— Vocês ouviram-no! Peguem a mulher!

Kholl ordenou aos seus homens:

— Peguem-na! Tragam-me os pedaços!

Eles arremeteram rumo à porta dos fundos.

Ametista era apenas uma numa turba de demônios histéricos que convergiram sobre a Escola de Primeiro Grau de Baskon, mas tampouco ali havia socorro. O Exército Celestial já havia atacado o lugar, e havia demônios espalhando-se do telhado, do pátio, de toda a parte em volta da escola, como marimbondos deixando um enxame incendiado.

Ango, o orgulhoso senhor da escola, estava adejando pelo céu com metade de uma asa faltando, lastimando-se, xingando, cuspindo seu ódio e berrando por ajuda; mas todas as suas hordas o haviam abandonado e fugido. Descontrolado, ele adernou loucamente rumo a um grupo de guerreiros brilhantes, encontrou suas espadas, e explodiu em diversas direções, desvanecendo-se em trilhas de fumaça vermelha.

Na diretoria da escola, a Senhorita Brewer estava tendo uma confron­tação cara-a-cara com o Sr. Woodard, o diretor da escola.

— De jeito nenhum! — exclamou ela numa voz pouco mais baixa que um berro. — Não sou responsável pela escolha daquele currículo, não importa o que qualquer pessoa diga! O senhor me disse para ensiná-lo! O senhor e aquele bando do Círculo Vital estavam por trás dessa coisa toda, e contarei a quem quiser saber! Não vou assumir a responsabilidade por isto, nem por ninguém! O senhor é o diretor! O senhor é o responsável!Pode me despedir se quiser, mas não vou pagar o pato por vocês. Está claro?

— Averiguarei a questão — informou o Sr. Woodard, parecendo pálido.

A senhorita Brewer voltou à sua classe. O Sr. Woodard apanhou o telefone e discou para Betty Hanover, a detentora de poder Número Um no conselho escolar.

— Betty? Bruce Woodard. Escute, não sei o que está acontecendo por aqui, mas quero que você e o resto do conselho escolar estejam bem esclarecidos quanto à minha posição nessas questões. Não ficarei com essa coisa na mão, compreendeu? Posso usar de brutalidade se precisar...

Os demônios do Círculo Vital e agora os sobrevivente da escola primária voltaram-se e fugiram diante dos anjos que os perseguiam. Terga, o Príncipe de Baskon! Ele controlava o conselho escolar! Certamente ele conseguiria deter essa maré e ficar firme contra esse ataque!

Ametista não fugiu depressa, mas ficou indecisa. Onde estava Ango?

Os demônios dispararam para longe, deixando-a para trás. Ela procurou Ango. Onde estava ele?

PICADA! Uma espada angélica apanhou-a debaixo do braço e ela saiu rodopiando, mergulhando na direção da escola. Dirigiu-se ao telhado de pixe preto, chegando mesmo a empurrar-se na direção dele com a força de suas asas. Era um lugar seguro. Ela havia vicejado nessas classes antes. Talvez alguém lá em baixo pudesse ajudá-la, escondê-la...

O telhado preto passou por ela com força, depois as vigas, o material isolante, o teto, a classe cheia de crianças.

PANCADA! Um guerreiro acabou com ela, e ela caiu dissolvendo-se ao chão, um monte fumegante logo atrás da Senhorita Brewer, logo abaixo de um desenho a crayon na parede, um maravilhoso quadro de um pônei roxo alado debaixo de um arco-íris.

Sally correu rumo ao enorme portão de pedras. Naquele momento, o portão parecia a entrada do próprio Inferno, mas ela estava saindo, estava escapando, estava se libertando! Vamos, menina, atravesse aquela coisa!

Os homens de Kholl correram através das sebes e desceram uma passagem obscura na direção da rodovia a fim de interceptá-la. Até então não haviam sido vistos por nenhum dos delegados, mas isso se devia mais à sorte do que à cautela.

— A mulher! — gritaram os espíritos, sua atenção desviada da batalha acima de suas cabeças para o vulto que fugia no chão. Aquela desatenção custou a muitos a sua presença neste mundo. Os anjos estavam lá, espadas coruscando, e ninguém pôde deter Sally Roe.

Ela chegou ao portão. Não havia nenhuma barreira invisível, nenhum capanga pesadão para detê-la, nenhuma mão suja agarrando-a. Ela passou por ele como um pássaro sai da gaiola. Oh, Senhor Deus, meu Salvador Jesus, o Senhor me salva? Está correndo comigo agora?

Ela atravessou a rodovia e meteu-se floresta adentro no outro lado. Primeiro colocaria certa distância atrás de si, depois talvez retornasse à cidadezinha, conseguisse uma carona, saísse caminhando, qualquer coisa. Apenas fique viva, Sally, apenas fique viva! Continue firme!

Os homens de Kholl viram-na atravessar a rodovia. Eles se espalharam. Os demônios do Vidoeiro Quebrado mantiveram-se perto do chão e os seguiram, espicaçando-os a continuarem, enchendo suas mentes enegre­cidas com pensamentos de sangue e assassinato.

A nuvem de espíritos começou a mudar de formato. A base principiou a desviar-se para o lado, rastejando encosta acima, espalhando um manto sobre o caminho daquele vulto solitário que fugia.

Tal bradou a seus comandantes:

— Mantenham-na coberta, mas deixem que a sigam!

Eles compreenderam e afastaram-se diante do avanço das hordas de­moníacas.

O espesso manto sobre o Instituto Summit começou a afastar-se, deixando-o exposto e vulnerável.

No que tange aos demônios, o Círculo Vital era uma ruína desolada, a escola primária havia sido tomada pelos anjos, e agora, enquanto as sobras murchas e sangrando dessas duas derrotas fugiam para os lares e os escritórios dos membros do conselho escolar de Baskon, descobriram Terga, seu poderoso príncipe, sozinho, voando em círculos doidos sobre a cidade, berrando de raiva.

— Covardes! — gania ele. — Desertores! Voltem e fiquem firmes!

Os senhores demoníacos sob seu comando não podiam ser vistos de forma alguma, mas haviam fugido diante do avanço da inundação dos exércitos celestiais. Signa, o oriental, estava bem nos calcanhares de Terga. Terga estava praticamente acabado e logo ficou doido.Mota já havia conduzido um poderoso contingente de guerreiros numa audaz repassada pela casa da presidente do conselho escolar, Betty Hano­ver, expulsando os demônios que governavam aquela casa e deixando a Sra. Hanover insegura de si, especialmente agora, quando um agente postal federal estava no telefone.

— Estamos tentando seguir a pista de certa informação — dizia ele. — Sabemos que sua escola primária usava um currículo escrito pela mulher em questão, uma tal Sally Beth Roe.

— Umm... bem, nada sei a respeito disso.

— Ficamos sabendo que Sally Roe morava bem na sua área.

— É mesmo? — Betty tentou aparentar surpresa, mas nunca havia sido boa atriz.

— Bem, estamos apenas tentando encontrá-la. Temos que investigar uma queixa.

— Queixa?

— Interferência na correspondência, entre outras coisas.

— Bem... você podia tentar falar com Claire Johanson. — Já falei. Ela me disse que falasse com a senhora.

— Ela... — Betty mordeu os lábios, mas mentalmente amaldiçoou Claire com todas as letras.

— Um momento — pediu o agente. — Tenho o nome do currículo aqui mesmo... Isso... Descobrindo o Verdadeiro Eu, Ele lhe faz lembrar alguma coisa?

— O Centro Ômega!

— Como é mesmo?

— O Centro Ômega para Estudos Educacionais em Fairwood, Massachu­setts! Foram eles que publicaram este currículo! Eles conheceriam a autora, com certeza. Não sabemos nada sobre a autora. Tudo o que fizemos foi comprar o currículo do Ômega. É com eles que você devia falar. Não sabemos nada.

— Está bem. A senhora tem o telefone deles, o endereço, todas essas coisas boas?

— Um momentinho só.

Ela lhe deu a informação e desligou o aparelho, incapaz de deixar de tremer.

O telefone tocou novamente. Era John Kendall, membro do conselho escolar.

— Betty, estou ligando para avisá-la...

— Tarde demais — lamentou ela.

Jerry Mason, membro do conselho escolar, chamou assim que ela desligou de John Kendall. Ele queria saber o que ela sabia a respeito desse negócio de Sally Roe/ interferência na correspondência/ação judicial/cur­rículo, e que não ela a Sally Roe quem se havia suicidado pouco tempo atrás? Ela queria saber o que ele sabia, ambos queriam saber o que Claire Johanson sabia, e ambos concordaram que nenhum deles sabia muita coisa e que todos queriam saber muito mais, especialmente o que os agentes federais sabiam.

Os poderes e autoridades demoníacos de Baskon estavam espalhados. Os melhores guerreiros de Terga fugiam para outras bandas a fim de encontrar um novo lar para as suas malfeitorias; Terga, sozinho exceto pelos desertores que se juntaram a ele pelo caminho, rumou para o Centro Ômega. Talvez houvesse tempo para avisar Barquit, o príncipe de Ômega. Talvez Barquit tivesse força para salvá-los e pôr um paradeiro nessa carnificina.

Longe de tudo aquilo, na cidade de Westhaven, o Tribunal de Recursos, com todos os envolvidos alheios à confusão espiritual que crescia e se espalhava continuamente para fora de Baskon, se reuniu às duas horas da tarde. Wayne Corrigan e Tom Harris tomaram seus lugares à mesa da defesa, no lado direito do tribunal, enquanto os advogados Ames e Jeffer­son tomaram seus lugares à esquerda.

— Levantem-se todos — disse o meirinho, e todos se levantaram, e para dentro da sala entraram três juizes de recursos, um homem mais moço, um mais velho, e uma mulher curvada. Eles se sentaram, os três advogados se sentaram, o funcionário e o meirinho se sentaram, e a taquígrafa do tribunal posicionou os dedos sobre as pequeninas teclas.

Tom olhou à volta do tribunal. Afora um repórter que havia aparecido e que parecia um tanto entediado com a tarefa que lhe fora confiada, a galeria estava vazia. Claro. O público estava esperando pelo verdadeiro espetáculo, o julgamento.

— Ah, bem — sussurrou Corrigan — vai ser um dia curto de qualquer forma.

— Nenhuma surpresa de sacudir a terra? — perguntou Tom.

— Para falar a verdade, não estou esperando nenhuma.

O juiz mais velho colocou seus óculos de leitura e consultou os seus papéis.

— Este é o caso de Brandon contra a Academia do Bom Pastor, e o acusado está apelando a decisão do tribunal inferior quanto a forçar uma testemunha infantil a ser examinada pelos peritos da defesa e a depor neste caso... Corrigan deu uma olhada de soslaio a Ames e Jefferson. Eles pareciam entediados. Puxa, isso é que era confiança!

Em Fairwood, Massachusetts, o Centro Ômega estava em plena ativi­dade, com classes em progresso, tempo agradável no campus, e, por seus padrões, nada estranho ou extraordinário acontecendo. Um bando de jovens adultos continuava seu jogo amistoso de futebol no campo de esportes; na praça Tai Chi, duas dúzias de praticantes moviam-se lenta­mente através do tempo, espaço e espírito; nas classes, meninada de colegial, adultos, e até mesmo pessoas idosas aprendiam a última versão ocidentalizada do misticismo hindu; e nas salas de meditação, silenciosas e forradas de almofadas, jovens transcendentalistas assistiam com olhos fechados enquanto demônios passavam filmes cósmicos em seus cérebros.

Cree e Si, com seus exércitos em posição, estavam prontos e esperan­do. A qualquer momento ...

Barquit, o Príncipe de Ômega, ficou inquieto quando começou a ouvir o zumbido e assobio de asas rasgadas e depois os gemidos e os lamentos angustiados dos espíritos distantes. Ele alçou aos ares e pairou sobre o Prédio da Administração de Ômega, espiando rumo ao oeste até que viu os espíritos de Baskon aproximando-se, berrando com alarme.

Alguma coisa estava acontecendo.

— Tropas!

FUOOOM! Ele cobriu a cabeça, ofuscado pela luz brilhante que explo­diu por todos os lados, obliterando as florestas e as montanhas, empalide­cendo o azul do céu, fazendo sumir as cores do Centro. Rodopiando no lugar, em pânico, ele desembainhou a espada, mas ela lhe foi tirada da mão antes mesmo que ele visse seu atacante.

Ele fugiu pelo céu, sentindo a luz ardente dos Céus em seus calcanha­res.

Telefones começaram a tocar em cada quarto do campus, e cada professor, cada líder de grupo, cada facilitador, recebeu o aviso: o jogo de futebol acabara, as aulas estavam canceladas, e qualquer pessoa que estivesse fora numa viagem astral teria de aterrisar. O Sr. Tisen, o chefe do corpo docente de Ômega, havia recebido um telefonema zangado de Betty Hanover, um chamado ameaçador de Claire Johanson, e por último mas não menos importante, um chamado intrometido e intimidador do FBI. Ele estava evacuando o campus, e isso queria dizer todo o mundo.Cree e Si conduziram suas tropas através do campus como uma enchente repentina, disparando através e ao redor de prédios, expulsando demônios dos quartos, perseguindo-os pelos bosques das cercanias, arran­cando-os do céu. Os enganadores demoníacos estavam assoberbados e confusos. Ele clamaram por Barquit, o esperto do seu líder, mas ele já se fora havia muito. Pouco tempo tiveram para lamentar isso antes que eles também se fossem.

Barquit olhou somente uma vez para trás, apenas o tempo suficiente para saber que Ômega, o seu império, havia caído.

Ó Homem Forte! Esta é sua derrota!

— As aulas estão canceladas — comunicou Tisen pelos alto-falantes. — Todos para os seus dormitórios. Coloquem suas coisas nos ônibus e estejam prontos para rodar!

As aulas terminaram tão abruptamente e os alunos foram mandados para fora com tamanha rapidez que muitos acharam que era treinamento para incêndio, ou mesmo para um ataque aéreo. Alguns ainda estavam colocando seus casacos enquanto saíam apressados; outros, ainda meio hipnotizados, tinham de ser levados pela mão. Os professores estavam apanhando seus casacos, agarrando suas maletas, material extra a ser distribuído, e currículos, apagando as luzes e trancando as salas.

O jogo de futebol foi interrompido, e os jogadores correram de volta a seus dormitórios cheios de perguntas.

Dentro de uma hora, os ônibus começaram a rolar pela entrada que levava à estrada principal, levando embora professores, alunos, o pessoal da manutenção, todos tagarelando e querendo saber o estava ocorrendo.

Somente alguns notaram um sedan simples verde-oliva estacionado na frente do Prédio da Administração. Não fazia muito tempo que ele estava ali.

— Sinto muito — lamentou Tisen aos dois agentes federais agora de pé em seu escritório. — Vocês vieram numa época de correria. Estamos acabando de fechar para o intervalo de meados da primavera. Não há quase ninguém aqui agora.

Os dois homens trocaram olhares.

— Intervalo de meados da primavera? — perguntou um deles. Tisen sorriu.

— Seguimos um calendário diferente aqui, senhores.

— Daremos uma olhada nele. O outro agente observou:— Vimos os ônibus indo embora. Parecia uma evacuação. Tisen deu um sorrisozinho encabulado.

— Bem, a maioria tem de tomar avião... Os agentes não perderam tempo.

— Conforme lhe perguntei pelo telefone, este aqui e o mesmo Centro Ômega que publicou o currículo Descobrindo o Verdadeiro Eu?

— Bem... sim, é.

— Então você deve conhecer a autora, Sally Beth Roe?

— Quer dizer eu, pessoalmente?

— Quero dizer você, pessoalmente ou de qualquer outra forma.

— Bem, claro que conheço o nome...

— Onde podemos entrar em contato com ela?

— Umm... Ora, temo que ela tenha falecido.

— Como sabe isso?

— Bem, eu...

Um agente consultou algumas notas.

— E uma instrutora aqui, uma senhora chamada Sybil Denning? Ainda está no campus?

Tisen meneou a cabeça com um pouco de tristeza.

— Não, temo que ela tenha partido.

— Você tem visto Owen Bennett muitas vezes ultimamente? Tisen pareceu chocado com a pergunta.

— Owen Bennett?

— Ele fazia parte do conselho consultivo do Ômega, certo?

— Isso foi há muito tempo.

— E o diretor deste lugar... umm... Steele?

— Ele não está.

— O diretor não está?

— Ele está fora, numa conferência.

— Que conferência, e onde?

— Bem, uhm... Preciso de fato responder a todas essas perguntas?

— Agora talvez, mais tarde com certeza. Faça como quiser. Aqueles sujeitos era intimidantes.

— Ele... ele e outras pessoas do nosso corpo docente estão no Instituto Summit.

Os dois homens fizeram sinal afirmativo de cabeça um ao outro. Aparentemente já tinham ouvido falar daquele lugar.

Goring, Steele e Santinelli formavam um grupo fechado perto da grande lareira, tentando formular um plano para aquela emergência. Pouca aten­ção prestavam a Kholl, ainda sentado no topo da escada do porão, tentando fechar seu corte com gaze, algodão e qualquer outra coisa que encontrasse no estojo de primeiros socorros de Goring. Até então, estava apenas fazendo uma bagunça.

— Você sabe o que ela disse nessas cartas! — exclamou Goring. — Ela não deixou de mencionar nada!

Steele perguntou a Santinelli:

— Que chances teríamos no tribunal?

Santinelli estava sombrio, mas determinado, e falou num resmungo baixo.

— Há muitas variáveis e contingências. Deveríamos inventariar e elimi­nar quaisquer riscos imediatamente. — Goring e Steele não puderam evitar uma olhadela rápida de soslaio a Kholl. Santinelli pigarreou a fim de corrigi-los. — Qualquer conexão que seja com o caso em Baskon precisa ser erradicada. Posso ligar ao meu escritório para isso. Quanto à evidência material... — Ele disparou uma olhada à mesinha de centro. — Sugiro enfaticamente que queimemos essas cartas!

Kholl fingiu nada ter ouvido.

O telefone tocou. Goring praguejou, mas resolveu atender na cozinha. Ele saiu do aposento.

— Poder nos lugares certos também será um fator crucial — continuou Santinelli. — Este será um teste de quanto realmente temos.

— Sr. Steele! — chamou Goring. — É o chefe do seu corpo docente, o Sr. Tisen!

Steele fez sinal a Santinelli para que o acompanhasse, e eles se reuniram a Goring na cozinha.

— Parece urgente — sussurrou Goring.

Kholl viu sua oportunidade, e levantou-se com esforço.

Um sedan azul, lustroso, encostou no estacionamento, e três homens vestindo terno e gravata saíram, dando uma boa olhada no lugar e pare­cendo um tanto confusos.

— Eles vão achar que somos loucos — sugeriu um deles.

— Vamos depressa — disse outro. — Quero voltar em tempo de ver o jogo de futebol.

Eles encontraram uma linda mulher loira que acabava de sair do seu Mercedes.

— Com licença, senhora — disse o líder do grupo. — Estamos procuran­do... umm... — Ele perdeu o fio da meada.

O segundo homem interveio.

— Precisamos falar com o pessoal responsável por este lugar.

— Oh — disse a mulher. — Por que não tentam falar com o Sr. Goring? O chalé dele fica bem daquele lado lá, depois do jardim de ervas, estão vendo?Ela lhes deu apenas algumas outras indicações e depois foi embora. Um dos homens estava pronto para dirigir-se ao chalé, mas os outros dois ficaram olhando fixamente a mulher que se afastava.

— Venham — disse o primeiro — vamos lá.

— Você sabe quem ela era?

— Vamos!

— Era... você sabe, a Como-se-chama, daquele programa da televisão...

A queimada de Tal continuava a arder furiosamente.

Bem longe, no campus da Universidade Bentmore, havia muito zunzum sobre o fato de a Faculdade de Educação fechar-se tão de repente. Havia pouca informação. Havia conversas isoladas aqui e ali a respeito da morte repentina do Professor Samuel W. Lynch. Ninguém parecia saber como ele tinha morrido, ou pelos menos ninguém estava disposto a falar sobre o assunto. A única notícia continuamente repetida entre os profes­sores e os alunos era a de que ele fora encontrado morto em sua sala e que a Faculdade de Educação estava suspendendo as aulas indefinidamente. Havia boatos, naturalmente: Lynch podia ter sido assassinado, e podia haver algum tipo de escândalo em ação. Poderia haver uma investigação. Os alunos de jornalismo do Bentmore Register estavam com esperança que surgisse uma revelação comprometedora.

Corruptor, o inchado demônio Príncipe da Universidade Bentmore, foi destronado enfim, e foi Chimon, o europeu, e seu amigo britânico, Scion, que o rebateram de sua posição como uma bola de praia por cima da cerca. As tropas angelicais haviam feito seu trabalho depressa, e agora demônios desabrigados encontravam-se a flutuar, lamentando-se, a maioria dirigin­do-se ao Summit. Logo, desabariam sobre o Homem Forte com todos os outros espíritos despejados e destronados, exigindo salvamento, respos­tas, lenitivo.

Imediatamente, com a batida do telefone no gancho, Goring, Santinelli e Steele saíram correndo da cozinha e voltaram à sala de estar com um objetivo em mente.

Mas um enorme choque os aguardava: a mesinha de centro estava vazia, e nada do Sr. Kholl.

— As cartas! — exclamou Goring.

— Kholl! — gritou Steele.

— Aquele diabo! — praguejou Santinelli, atirando-se porta afora.