terça-feira, 8 de junho de 2021

Este mundo tenebroso - parte 2 - capítulo 42


 O som da trombeta de Natã ainda ressoava aos ouvidos do Homem Forte. Ele sabia que alguma coisa tinha dado errado em algum lugar. Prossigam com isso! Cortem-na, queimem-na, façam o que for preciso, mas não se demorem mais!

Kholl falou baixinho aos homens dignificados, honrados, respeitáveis que lhe estavam pagando pelos serviços.

— Podemos fazê-la cantar alto e durante muito tempo. É só mandarem. Santinelli deu apenas uma olhadela furtiva, de soslaio a Sally, agora amarrada e presa numa cadeira dura de madeira no meio do porão, enfraquecida pela exaustão, dor e medo. Ela estava cercada por Kholl e seus quatro assassinos, que agora brandiam seus instrumentos de tortura ritualista e estavam mais que ansiosos por começar.

— Sally, pensar que chegaria a isto! — murmurou Santinelli. — Você jamais devia ter mencionado aquele Nome; jamais devia ter-se colocado ao lado de nossos inimigos!Goring relembrou Santinelli:

— Temos muito em jogo aqui, Carl. Eu diria que a situação nos força a isto.

Santinelli replicou em uma voz sufocada pela repugnância que sentia:

— Por isso, agora nos tornamos carniceiros! Kholl sorriu. Quase deu uma risada.

— Não, Sr. Santinelli. Vocês me pagam para fazer isso. Não sou tão dignificado e respeitável quanto os senhores. Sou apenas um simples e reles satanistazinho.

O Homem Forte deu um empurrão em Destruidor, e este falou depressa à mente de Steele. Steele ofereceu:

— Estamos falando aqui de uma mercadoria. O único valor de Sally Roe e no que nos poderá servir. Vamos extrair-lhe essa informação e nos livrar dela.

Kholl, dessa vez, caiu mesmo na risada.

— Que tal, Sr. Santinelli? A decisão e sua: quer que ela seja torturada? Santinelli fitou Kholl furioso.

— Se eu quero que ela seja torturada?

Kholl sorriu. Ele gostava muito de ver um homem da estatura de Santinelli contorcendo-se.

— Está bem, escute isto: Acrescente outros dois mil ao meu pagamento e farei de conta que não foi o senhor quem me contratou. — Então ele inclinou a cabeça para o outro lado, os olhos cheios de zombaria. — Talvez ainda seja um tanto cristão demais, hein?

Faça-o! gritou o Homem Forte. Apenas faça-o! Sally fechou os olhos e orou.

— Não posso ir trabalhar! — gritou Lucy no telefone. — É Amber de novo! Ela está fora de si! Ligarei mais tarde!

Bateu com força o aparelho e foi atrás da filhinha furiosa, seguindo uma trilha de caos e destruição: na cozinha, as gavetas haviam sido escancaradas e o conteúdo estava espalhado por todo o chão, inclusive as facas que Lucy havia tentado esconder, na sala de jantar, a toalha havia sido arrancada da mesa e o enfeite de azaléia do centro da mesa jazia quebrado agora no chão, a terra do vaso espalhada por todos os lados.

Da frente da casa, a voz estridente do pônei Ametista continuava a arengar e a vituperar contra inimigos invisíveis.

— Não! Não! Deixem-me em paz! Meu senhor os destruirá! Deixem-me em paz!

Lucy correu à sala de estar. A mesinha de centro estava de pernas para cima, os livros e revistas atirados por toda a parte.A voz de Ametista veio da entrada da frente.

— Ela é minha! Tenho o direito de estar aqui! Vão embora!

Lucy correu e encontrou a filha encolhida no canto do chão, os braços cobrindo a cabeça, berrando de susto.

— Deixem-me em paz, deixem-me em paz! — berrava o pônei.

Lucy estacou bruscamente e observou por um momento. Alguma vez já tinha visto Ametista amedrontada?

Mota e Signa postavam-se na entrada perto de Lucy, espadas desem­bainhadas, em plena glória, sua luz diluindo qualquer escuridão ao seu redor. Ao longe, a trovoada surda de asas angelicais foi ficando cada vez mais alta, e a luz dos Exércitos Celestiais começou a jorrar pelas janelas.

Eles perseguiram e encurralaram o diabrete, o arreliador, o mentiroso chamado Ametista, e Ametista não era um pônei engraçadinho. Era uma lagartixa pequena, enrugada, verrugosa, com braços e pernas que pare­ciam palitos e uma cara de dragão, encolhida no mesmo canto, seu corpo sobrepondo-se ao de Amber, os braços cobrindo-lhe a cabeça.

— Ela é minha — insistiu e até implorou Ametista. — Ela me convidou a entrar!

Mota segurou a espada bem debaixo das ventas infladas de Ametista que bufavam.

— Os santos de Deus estão vindo, e eles cuidarão de você.

— Não... por favor...

A campainha tocou. O primeiro pensamento de Lucy foi: Não! Não bem numa hora destas! Deus, como pode ser tão cruel comigo?

Mas ela podia ver as silhuetas de seus visitantes através do vidro fosco da porta da frente. E escancarou a porta.

Marshall e Kate Hogan.

— Oi — cumprimentou Marshall — estamos... Ametista berrou:

— Não, vão embora! Vão embora! — Em seguida ela pôs-se a praguejar. Lucy afastou-se da porta e fez um gesto indicando-lhes que entrassem.

— É melhor que saibam de tudo! Eles passaram pela porta.

Ao vê-los, Ametista colocou-se de pé num canto, as costas grudadas na parede, os olhos saltando de terror.

— Fiquem longe de mim! Eu os matarei! Eu a matarei!

Foi preciso apenas uma fração de segundo para que o Espírito de Deus lhes dissesse o que confrontavam.

— Fique quieta! — ordenou Marshall.

A cabeça de Ametista bateu contra a parede como se ela tivesse levado um murro. Ela os fitou furiosa através de olhos esbugalhados, embaciados,sibilando através de dentes muito cerrados como um cão raivoso através da focinheira.

— Apenas fique aí agora, e fique quieta!

Kate colocou-se ao lado de Lucy e segurou-a. Lucy agarrou-se a ela sem reservas.

— Ametista? — perguntou Kate. Lucy assentiu com a cabeça.

Marshall e Kate não podiam deixar de fixar nela o olhar. Essa era a causa inicial daquilo tudo; a ação judicial, o sofrimento, o mistério, as fofocas e divisão, todo o problema começou com esse diabrete que agora tremia e se encolhia diante deles. Era como isolar um vírus, ou encurralar um rato.

— Ametista — disse Marshall — acabou-se. Ametista devolveu-lhe um olhar furioso.

— Ela é minha. Eu não a soltarei! Marshall falou com serenidade e firmeza.

— Espírito, meu Mestre derrotou o seu mestre. Ele desarmou todos os poderes e autoridades, certo?

Ametista babou em silêncio desafiador.

— O sangue vertido de Jesus Cristo tirou a sua autoridade, certo?

— Sim! — sibilou Ametista.

— E o meu Mestre, o Senhor Jesus Cristo, me concedeu a autoridade que ele tem sobre você, não concedeu?

— Sim!

— E você está derrotada, não está?

Ametista colocou a mão cheia de garras sobre sua própria boca e recusou-se a responder.

Mota empurrou-lhe a mão para longe.

— Responda-lhe!

Ametista podia ouvir anjos por toda a parte, podia sentir o calor da lamina de Mota, e não podia afastar-se da autoridade desse crente em Jesus. Não adiantava resistir.

— AUUU! — gritou Ametista. — Odeio vocês! Odeio todos vocês!

— Saia dela. — Não!

— Estou amarrando você agora mesmo, em nome de Jesus! Ametista gritou, retorcendo-se, lutando contra grilhões invisíveis que seguravam seus braços e pernas. Ela não se podia mover.

— Solte essa garotinha. Saia, e vá para onde Jesus lhe manda ir.

Uma garra de cada vez, Ametista começou a soltar a garotinha, os olhos disparando de um lado para outro, de Marshall aos anjos e de volta novamente. Mota e Signa principiaram a fechar o cerco.Com um berro angustiado, ela deixou cair a menina e tentou escapar, arremetendo pelo telhado da casa. Mota e Signa não fizeram nenhuma tentativa de persegui-la.

Não era necessário. Mal Ametista havia passado pelo telhado da casa, viu a chegada de uma onda de fogo branco rolando pela cidade, vindo em sua direção.

Os Exércitos Celestiais!

Ela soltou um guincho e precipitou-se pela cidade, dirigindo-se ao casarão branco. Os espíritos do Círculo Vital! Eles me meteram nisto!

Amber caiu para a frente na direção do chão como que desmaiada, mas Marshall a apanhou. Lucy e Kate ajoelharam-se ao lado deles.

— Mãezinha... — disse a menina, aturdida e exausta. Marshall entregou a menina à mãe.

— Ela está bem, mas teremos de orar a respeito. Teremos de falar de algumas coisas.

Amber caiu nos braços da mãe, e depois aninhou-se neles sem o menor desejo de deixá-los. Para Lucy, estava bem. Ela tinha a filha de volta, e não estava disposta a soltá-la.

Com olhos lacrimosos, cansados, Lucy olhou para esses dois salvadores e sussurrou:

— Sinto muito.

Marshall e Kate estavam com muita pressa, mas tinham de ser delica­dos.

Kate começou.

— Pode ajudar-nos?

Lucy não conseguia responder. Ela estava dividida e confusa, puxada em todas as direções.

Marshall disse com gentileza, mas rapidamente.

— Ouça-me, Lucy. Sabemos que Sally Roe está viva, que tem estado a escrever cartas, e que você tem interceptado essas cartas e as enviado para algumas pessoas que querem livrar-se dela. A última carta que ela escreveu indicava onde ela podia ser encontrada. Se já não estiver morta a esta altura, eles logo a matarão se você não nos ajudar.

Lucy baixou o olhar à filha, tranqüila embora abalada.

— Tem sido simplesmente horrível. Kate perguntou:

— Para onde você mandou aquelas cartas, Lucy? Por favor, diga-nos. A vida de Sally Roe pode depender disso.

Lucy olhou para eles, e depois para a filha. Sua mente estava muito confusa; era muito difícil saber o que fazer ultimamente.Destruidor enchia a cabeça de Kholl com inspirações "maravilhosas", enquanto Kholl segurava a faca bem à vista, sempre assegurando-se de que Sally pudesse ver seu gume liso, afiado.

— É melhor enfrentarmos a coisa, cavalheiros. Somos todos feitos do mesmo barro. Todas as nossas mãos estão sujas, e somos todos assassinos no coração. Vocês querem poder, nós queremos poder, e caminhamos sobre as pessoas dispensáveis a fim de obtê-lo. É essa a essência do que fazemos.

Santinelli olhou para Sally. O rosto dela ainda estava vermelho no lugar em que ele a havia esbofeteado.

— Não quero saber do seu sangue nas minhas mãos, Srta. Roe. O que se segue é culpa sua, não minha.

Sally falou pela primeira vez desde que a haviam amarrado na cadeira.

— A responsabilidade é sua, senhor. Apelo ao senhor em nome da própria decência, em nome de tudo o que é certo.

— A lei deriva do poder, Srta. Roe, não da moralidade. Poupe-me a crença que acabou de encontrar.

— As listas, Srta. Roe — instigou Goring. — Matem-na! — disse o Homem Forte.

— Ela deporá a favor da promotoria, John. Sim, e ela tem muita coisa a lhe contar.

Marshall estava sentado à mesa da sala de jantar de Lucy Brandon, no telefone com John Harrigan, seu amigo do FBI. Lucy, Kate e Amber estavam sentadas na sala de estar; Lucy ainda segurava Amber, que não havia emitido som algum. O pastor Mark Howard também se encontrava lá, a convite de Lucy.

— Já ouviu falar alguma vez no Instituto Summit? Bem, deixe-me dar-lhe a localização. As cartas de Sally Roe foram para lá, e agora ela provavel­mente está lá também, se ainda estiver viva.

Lucy falou do sofá da sala de estar.

— Eles a matarão. Eles a querem por apenas esse motivo. Marshall gostou do que ouvia de Harrigan:

— É, certo, esses agentes não devem estar muito longe de lá agora. Isso é bom. Bem, mande-os para lá, e estou dizendo já!

— Sim, certo.

Lucy contou a Kate e a Mark baixinho e amarguradamente:

— O Círculo Vital! Eles me meteram nisto! A ação judicial toda foi idéia deles! Claire Johanson e Jon Schmidt, o bando todo! Eles nada fizeram além de ameaçar-me e coagir-me desde que toda essa encrenca começou, eagora onde estão? Bem, não vou afundar sozinha! — Ela gritou para Marshall: — Diga-lhes que estou pronta agora mesmo.

Marshall ouviu-a.

— John, pode mandar alguém aqui agora mesmo. Ela está pronta para falar.

Era isso ai! O incêndio se firmava. Dali em diante ele se ergueria para o alto, quente, faminto, inextinguível!

Mota tomou uma trombeta de ouro na mão e disparou através do telhado da casa, arremetendo pela luz branca de seus guerreiros que ainda rolava impetuosa sobre a cidade. Para o alto, para o céus, volteando lentamente, asas em chamas, ele levou a trombeta à boca.

Nas montanhas acima do Instituto Summit, o toque chegou alto e claro aos ouvidos de Tal.

— Pronto! — bradou ele, colocando-se de pé num salto. — Eles iniciaram o incêndio em Baskon!

— Antes tarde do que nunca — comentou Guilo dando de ombros.

— Ele chegará ao Summit cedo o suficiente — afirmou Tal, desembainhando a espada. — Preparem-se para atacar!

Ametista estava chegando perto do casarão branco, o lar do Círculo Vital. O rugido das asas dos Céus trovoavam-lhe aos ouvidos. Ela choramin­gou, chorou, e fugiu diante deles. Meus senhores no Círculo Vital! Eles me salvarão!

Santinelli deu um sorriso amargo ao olhar firmemente e por longo tempo o Sr. Kholl, ainda brandindo a faca.

— Creio que tem razão, Sr. Kholl. Começo a ver isto. — Ele olhou para Sally. — Poder é poder, quer seja exercido mediante decisões judiciais, quer... pelo gume de uma faca. Quanto aos nossos gentis seguidores... — Ele olhou para cima, pensando nas centenas de delegados que buscavam a paz e agora se reuniam, vindos de todas as partes do globo. — Somos iguais. Todos somos diabos, todos.

Afastou-se e tomou seu lugar próximo à parede, onde não atrapalharia. Goring e Steele se juntaram a ele. Ele cruzou os braços e com o queixo projetando-se para fora resolutamente, disse:

— Ensine-nos, Sr. Kholl. Aprenderemos.

Destruidor bateu suas garras, e os espíritos do Vidoeiro Quebrado moveram os cinco satanistas como marionetes.Kholl sorriu com prazer diabólico e fez um sinal afirmativo de cabeça aos seus homens. Dois deles imediatamente passaram uma corrente por uma viga e amarraram um gancho nela. Os outros dois soltaram Sally da cadeira e com um safanão colocaram-na de pé.

O Homem Forte, Destruidor, e todos os seus perversos senhores e comandantes ajuntaram-se, chegando mais perto, prontos para o triunfo.

Sally viu que não havia mais tempo.

— As listas estão em Ashton!

Tarde demais — lamentou Goring. — Por favor, prossigam, cavalhei­ros!

Eles lhe amarraram as mãos à frente do corpo.

— As listas estão em Ashton!

Onde? — rosnou o Homem Forte.

Onde, em Ashton? — exigiu Santinelli.

— Enviei-as a uma Caixa Postal!

Santinelli ergueu a mão. Kholl pareceu desapontado, mas fez um gesto indicando a seus homens que parassem. Santinelli adiantou-se um passo.

— Que Caixa Postal?

Sally tentou de verdade, mas ...

— Não consigo lembrar-me do número.

— Prossigam, cavalheiros.

Eles agarraram-lhe os braços e começaram a erguê-la.

— Escrevi todas aquelas cartas executando um plano!

Santinelli ergueu a mão novamente, e os homens de Kholl a colocaram no chão. Santinelli trocou olhares animados com Goring e Steele.

— Nossa, como as revelações estão começando a fluir! Destruidor não gostou do assunto. Ele cutucou Steele.

— Ela está mentindo — disse Steele.

— Eu me lembro da sala de correspondência, Sr. Steele! — bradou Sally com voz tremula.

Steele apenas encarou-a maldosamente. Não sabia do que ela falava.

— Eu costumava trabalhar na sala de correspondência do Centro Ômega, lembra-se?

Dessa vez, Steele não a encarou maldosamente. Ele se lembrava. Sally soltou tudo, depressa, desesperadamente.

— O senhor me disse como interceptar correspondência que não desejava que sua equipe lesse. Disse que não era errado porque isso protegia os nossos objetivos. Disse que o seu pessoal fazia aquilo o tempo todo! Lembra-se, Sr. Steele?

Goring e Santinelli olharam para Steele. Ele estava silencioso porque de fato se lembrava.O Homem Forte repentinamente agarrou Destruidor pelo pescoço, mas não começou a apertar. Ainda não. Ele esperava para ouvir o resto.

— Continue — ordenou Santinelli.

— Era a única maneira de encontrar vocês. Achei que fosse lá quem fosse que havia tentado matar-me teria de impedir qualquer um de desco­brir que eu ainda vivia, por isso teriam de interceptar as minhas cartas; e eu sabia pelos jornais que vocês usavam a chefe do correio de Baskon para a ação judicial, por isso foi para lá que as enviei, e...

— E você endereçou-as todas ao acusado na ação judicial, Tom Harris...

— Eu sabia que não podiam permitir que ele visse as cartas. Santinelli sorriu. Estava impressionado.

— Portanto, suas cartas deveriam ser uma trilha que conduzisse às pessoas que em última instância eram responsáveis pela sua... suposta morte!

— O professor Lynch sabia a respeito da minha preocupação com Tom Harris, e Kholl sabia exatamente onde me encontrar, e todos vocês sabiam sem que eu lhes contasse que eu havia abraçado o cristianismo. Isso já era confirmação suficiente de que haviam roubado as minhas cartas, mas naturalmente... agora já mas mostraram. Vocês as têm. Todas elas.

Destruidor tentou forçar um sorriso maldoso, atrevido, enquanto en­gasgava e gorgolejava: — E daí? Goring interveio.

— Maravilhoso! Sim, as cartas estão todas aqui, e você também. Agora você tem a satisfação de saber quem são os que tencionaram assassiná-la. Mas como deve-se lembrar, ninguém mais viu essas cartas, e o mundo a perdeu totalmente de vista.

— Foi por isso que fiz cópias.

Houve um estranho atraso, como se aquela sentença demorasse alguns segundos para chegar-lhes aos ouvidos e registrar-se em suas mentes. Todos a fitaram apalermados.

Ela respirou fundo e deu a última cartada.

— As cópias também estão na Caixa Postal, juntamente com as listas e o anel de James Bardine, o que tirei do dedo da mulher que tentou matar-me. O anel que me tiraram do pescoço é um que consegui muitos anos atrás de Owen Bennett. Podem verificar seu nome de código, Gawaine, dentro do anel se quiserem.

Santinelli aproximou-se, e estava mesmo tremendo um pouquinho.

— Que Caixa Postal, Srta. Roe?

— A esta altura vai estar vazia, de qualquer forma. Mandei uma carta à senhora que trabalha no Clarim de Ashton, e incluí a chave.

Agora o Homem Forte aplicou pressão, e Destruidor teve de lutar para respirar.

— Jamais ouvi falar dessa carta! O que você sabe sobre ela?

Destruidor tentou responder. — Mandei os doze capitães a Ashton para averiguar...

O Homem Forte pôs-se a sacudi-lo, fazendo com que os olhos de Destruidor parecessem borrões horizontais, amarelos.

— Onde estão esses doze?

— Eles... eles...

— Não foi sua a idéia de interceptar essas cartas?

De súbito, Destruidor achou que estava revivendo seus primeiros sentimentos de perdição; estava ouvindo o toque de uma trombeta nova­mente, exatamente como antes. Mas desta vez estava mais alto. Estava reverberando em toda a sua volta. E tão alto que ele não podia estar imaginando.

Não estava. O Homem Forte também o ouviu, e soltou um rosnado que sacudiu o recinto.

Então eles ouviram um grito retumbante de tantas vozes que parecia como as ondas do oceano.

— Pelos santos de Deus, e pelo Cordeiro!

O Homem Forte rosnou novamente e jogou Destruidor ao chão.

— O inimigo! Fomos descobertos!

As centenas de demônios no aposento — os auxiliares do Homem Forte, os assassinos manchados de sangue do Vidoeiro Quebrado, os altivos e convencidos enganadores que controlavam Santinelli, Goring e Steele — fugiram em pânico, em busca de suas espadas, empurrando-se, gritando e ganindo.

O chão e as paredes começaram a tremer com o ribombar de asas celestiais desabando como uma tempestade violenta.

Era esfuziante, vibrante, revivificante, recompensador — a razão de ser de um guerreiro angelical!

O Exército Celestial havia esperado tanto tempo e erigido tanto fervor, que quando o toque finalmente veio, ele rebentou por sobre as cristas das montanhas por todos os lados como uma onda do oceano, violenta, tremeluzente, e choveu como granizo sobre a escura nuvem de demônios no vale, espalhando-os como poeira diante do vento, expondo, batalhan­do, golpeando e empurrando para baixo, para baixo, para baixo na direção do Instituto Summit.

Tal, na crista da onda, mergulhou como um falcão, as asas retas para trás, a espada uma agulha de luz na ponta de seu braço estendido. Seu brado de guerra podia ser ouvido acima do tumulto, e sua espada foi a primeira a golpear.

Eles mergulharam no coração da nuvem negra, como que trespassando um negro e fervilhante cúmulo de trovoada. As espadas dos espíritos se chocaram, asas esbofetearam e adejaram, fumaça vermelha enevoou o ar. Tal chutava, cortava, rodopiava como uma foice, e lutando abriu caminho para baixo, para baixo. Ele podia ouvir o rugido de Guilo, a Força de Muitos, logo acima e para a esquerda, rebatendo demônios e exterminan­do-os, virando-os de lado a fim de enfrentar outras lâminas, chutando e agarrando os couros que podia encontrar, abrindo uma clareira cada vez mais ampla, destripando a nuvem em seu cerne.

O Homem Forte chutou seus príncipes demoníacos pelo aposento a fim de fazê-los recobrar o juízo.

— Vocês são comandantes ou não? A seus postos! Defendam-nos!

Os demônios espalharam-se a seus postos, deixando o aposento quase vazio exceto pelos demônios do Vidoeiro Quebrado. O Homem Forte fitou furioso Destruidor.

— A mulher acendeu um fogo que nos consumirá. Não há nada mais que precisemos da parte dela. Extermine-a antes que nós sejamos exter­minados.

Destruidor disparou um olhar aos demônios de Kholl.

Kholl ergueu a faca.

— Sr. Goring! — veio um grito do andar superior. — Sr. Goring! Algo terrível está acontecendo!

Passos! Havia gente no chalé!

Kholl agarrou Sally por trás, tapou-lhe a boca com a mão, e encostou-lhe a faca à garganta. Sua mensagem era clara.

— Sr. Goring! — veio o grito de novo. Santinelli empurrou Goring.

— Responda! Detenha-os antes que nos encontrem!

— Minha nossa — disse Goring. — Aquelas cartas! Estão bem lá em cima da mesa!

Ele dirigiu-se apressado às escadas, desligando as luzes do porão.

— Sr. Goring, está aí?

Ele subiu correndo as escadas.

— Sim, estou aqui! O que há?

Ametista abriu as asas em concha e conseguiu deter-se bruscamente antes de chegar ao casarão branco. O Círculo Vital estava sob ataque! Havia anjos por toda a parte! Os espíritos de lá, seus senhores, estavam fugindo!

Claire e Jon disparavam pelo escritório, em busca de documentos, papéis, qualquer coisa e tudo o que pudesse ligá-los a essa miserável ação judicial e tudo a ela vinculado. Negariam a coisa toda, naturalmente. Era tudo o que podiam fazer. Talvez se safassem bem, talvez não — eles não sabiam, não podiam pensar a respeito, mal podiam pensar de forma alguma; estavam apavorados demais.

Haviam recebido o aviso: Lucy estava falando; havia cópias das cartas de Roe em mãos erradas. A tampa estava sendo tirada!

Jon enfiou papéis numa lata de lixo até ela ficar cheia, resmungando raivosamente:

— Eu sabia que devia ter saído disto há muito tempo! Fomos mais longe do que podíamos! — Ele saiu correndo a fim de encontrar outro recipiente.

Claire tinha o telefone apoiado ao ombro. Ela estava falando com a Senhorita Brewer, a professora da quarta série de Amber Brandon.

— Isso mesmo. É melhor você arranjar uma boa explicação para o que aconteceu a Amber. Lucy Brandon deu uma reviravolta e está pondo toda a culpa em você. Ei, não ponha a culpa em nós! Você não precisava selecionar aquele currículo; foi inteiramente sua própria escolha, e nada tivemos a ver com ela! Não, nunca ouvi falar de nenhuma Sally Roe; isso é com você, não conosco!

Bateu o telefone no gancho no momento em que Jon ia entrando apressado na sala com uma lata de lixo.

— Jon, e aquele currículo? Pode ser ligado ao Círculo Vital?

Jon encontrou alguns documentos e ergueu-os para que Claire visse.

— Não depois que eu queimar estes aqui!

Acima, o enxame dos que sobreviveram à debandada do Círculo Vital viraram as costas e fugiram diante da muralha de anjos. Eles fugiram na direção da escola primária. Ango, o Terrível, estaria lá com todas as suas hordas poderosas! Ele saberia o que fazer!

Goring chegou ao andar de cima e encontrou dois médiuns do grupo matutino de discussão muito agitados.

— Ei, olhem — disse ele — qual é o motivo de toda essa agitação?

— Má energia — disse a advogada. — Não posso explicar, mas toda a energia psíquica por aqui está terrivelmente perturbada!O professor de quinta série fez um gesto de aquiescência com a cabeça, os olhos arregalados de horror.

— Estamos sendo invadidos! Essa é a única palavra em que posso pensar para descrevê-lo!

No porão, Sally, Kholl e os outros postavam-se no escuro, escutando a conversa. Sally tentou não se mexer; podia sentir a lâmina de Kholl contra sua garganta.

Goring estava tentando acalmá-los.

— Bem, apenas acalmem-se. Deixem-me encorajá-los a combinar a sua percepção com outros à volta do campus. Talvez todos possamos aprender e nos beneficiar com essa experiência.

— É apavorante! — disse a mulher.

— Estou desorientado — disse o homem.

Kholl puxou a cabeça de Sally para trás com tanta força que ela achou que seu pescoço se arrebentaria. Ele soprou-lhe no ouvido:

— Eles estão sentido você, moça! Você e o imundo do seu Jesus!

A nuvem de espíritos malignos se uniu e fechou-se, espadas prontas, enquanto à volta toda os guerreiros angelicais continuavam a trovejar pelas encostas das montanhas como uma avalanche e rodopiar ao seu redor como um ciclone. O Exército Celestial atacou a nuvem na base, e ela fechou-se para baixo a fim de encher o buraco; ele assaltou o pináculo e ela murchou, sangrando uma chuva de demônios esfolados; ele atirou-se como balas fatais através do centro, e a massa da nuvem começou a afinar. Ele a assolou, golpeou, retalhou em segmentos mais fracos. A nuvem era espessa, dura e tenaz, mas estava começando a enfraquecer.

Tal retalhou um atacante, cortou quatro outros, rodopiou e chutou outro espírito para o lado, e depois divisou uma lacuna súbita, instantânea no manto demoníaco logo acima do chalé de Goring. Ele fechou as asas acima da cabeça e deixou-se cair por ela.

Sally e os outros podiam ouvir que Goring estava tendo um pouco de trabalho com seus médiuns agitados.

— Agora, se me dão licença — disse Goring — tenho uns negócios urgentes dos quais preciso cuidar.

— O que poderia ser mais urgente do que isto? — disse o homem, sua voz chegando perto da escada do porão.— Por favor! — disse Goring, indo atrás dele. — Use a porta da frente! Saiam por onde entraram!

Talvez, somente talvez, aquele homem pudesse ouvi-la. Sally encheu firmemente os pulmões.

— Puxa! — disse a mulher. — O que são todas estas cartas? Correspon­dência de admiradores?

Sally berrou, empurrando o som contra a mão de Kholl com toda a força que seu diafragma conseguiu reunir. O grito atravessou a mão grossa de Kholl como um gemido insignificante, abafado. Ninguém o ouviu.

Kholl tinha a sua desculpa. Enterrou a faca.

— AUUU!

— Kholl! — disse Santinelli. — O que é? Kholl apenas gemeu algo ininteligível.

— Acendam a luz!

— Onde fica o interruptor?

Pragas, esbarrões no escuro, tropeções, batidas, Kholl rosnando, xin­gando, dando encontrão com coisas, a cadeira de madeira revirando.

— O que foi isso? — disse o homem lá em cima.

— Fora! — disse Goring. — Dêem o fora desta casa!

Steele encontrou o interruptor.

— Kholl! — disse um dos homens de Kholl.

Kholl estava segurando o peito; sua camisa estava retalhada, vermelha de sangue. Ele havia feito um profundo corte sobre seu próprio tórax.

— Onde está a mulher? — gritou ele, os olhos selvagens de fúria.

O Homem Forte e Destruidor ficaram cegos por um instante. Algo os havia atingido. Eles piscaram e entrecerraram os olhos, tentando recobrar-se.

— Onde está a mulher? — uivou o Homem Forte.

Destruidor fitou horrorizado os espíritos do Vidoeiro Quebrado; esta­vam jogados pelo recinto como se pela explosão de uma bomba, tontos, desorientados. Os auxiliares do Homem Forte olhavam de um lado para outro, mas nada viam.

— Ali — gritou um espírito.

A luz do dia feria os olhos de Sally. Ela estava fora, ao ar matinal. Podia ver o jardim das ervas e as pessoas reunidas ali.

Um homem enorme a segurava, seu rosto como bronze, seus cabelos como ouro. Ele a colocou sobre o chão e apontou na direção das mon­tanhas.

— Corra, Sally! CORRA!

Novas forças fluíram por suas pernas, e ela correu.

Os demônios atiraram-se contra Tal com abandono suicida, os olhos enlouquecidos pela sede de sangue. Ele disparou, desviou-se, negaceou, aparando-lhes as espadas com a sua, chutando a quem podia, girando, arrojando-se, espetando, mandando-os para trás.

IAHAAA! veio a voz de Guilo atrás dele. Agora Tal tinha certa ajuda. Demônios golpeados começaram a atravessar voando o seu campo de visão, murchos e dissolvendo-se.

Ele podia ver Sally Roe, ainda desimpedida, ainda correndo. Corra, menina! CORRA!