Antes que Sally percebesse,
escrevia à luz da lâmpada acima do seu banco, e não à luz do dia que entrava
pela janela.
Entardecia. O rubro e difuso
crepúsculo desaparecia no cinza cada vez mais escuro da noite, e agora os
sítios e campos que passavam apressados no lado de fora começavam a esconder-se
atrás do reflexo de seu próprio rosto. O balançar ritmado do vagão do trem e o
clique-claque dos trilhos tinham um efeito calmante, um efeito entorpecente, e
ela começou a sentir-se sonolenta.
Demoraria mais ou menos um dia
até chegar ao seu destino e visitar de novo a velha Universidade Bentmore. Seu
estômago contorcia-se de medo toda a vez em que pensava sobre isso. Essas
seriam pessoas poderosas, as influentes, as que moldavam a educação e os
educadores. Se o pessoal do Ômega se lembrava dela, indubitavelmente se
lembrariam dela em Bentmore. Mas mesmo assim tinha de ir. Tinha de ver aquele
lugar novamente.
E existem também as Sally Roes
que são apanhadas no meio, desilusionadas com os sonhos idílicos das Dennings e
das Brewers e tentando permanecer fora do alcance da bota esmagadora dos
Steeles. Talvez elas sejam as que os Steeles mais temam; conhecem todos os
dogmas, mas não mais acreditam na fé. Podem atrapalhar mais eficazmente do que
ninguém.
Ela pausou, e olhou o seu
reflexo na janela, um rosto cansado, com o negror da noite atrás de si, e
ocorreu-lhe que tipos de alegorias ela teria tirado de tal quadro apenas uns
dias atrás, ou mesmo ontem. Poderia ter escrito acerca do negror em sua alma,
ou do grande vazio que ficava além da Sally Roe visível, ou a efemeridade de
sua vida, nada mais do que um reflexo passageiro num fino painel de vidro — ali
durante a noite, e desaparecido pela manhã.
Oh, eram coisas ótimas, mas,
por algum motivo, ela simplesmente não se sentia assim. Algo muito profundo em
seu íntimo mudava, como um desanuviar gradual e contínuo do tempo.
Tom, lembra-se de minha
última carta, quando falei a respeito de culpa? Não me esqueci de nenhum
daqueles pensamentos; de fato, eles ainda rodopiam em minha cabeça, e não sei
aonde terminarão por conduzir-me.
Desde a última vez em que
escrevi, produzi uma proposição desafiadora a respeito da culpa: a de que ela
pode ser um fato, e não apenas um sentimento.
Estou certa de que você sabe
quanto o resto de nos despreza esse aspecto do cristianismo: a clássica
"viagem de culpa". Se me lembro corretamente do jargão, todos somos
"pecadores", todos somos culpados. A religião sempre foi, em minha
percepção, uma grande viagem de culpa, e ninguém quer sentir-se culpado. É por
isso que meus amigos e eu gastamos tanto tempo e energia inventando um universo
no qual o certo e o errado não existiam — e se não existe certo ou errado, não
há necessidade de se sentir culpado acerca de coisa alguma.
Agora, quanto à coisa que fez
a coisa toda emperrar pela primeira vez hoje de manhã: a possibilidade da culpa
como um fato e não apenas um sentimento... Se, e enfatizo a palavra se, existir
um padrão fixo de certo e errado, uma cerca, como já disse, então é possível a
pessoa ser culpada de uma ofensa, independente de todos os sentimentos de
culpa. Posso estar no lado errado da cerca e estar errada independente de como
me sinta a respeito.
Por favor, tenha paciência se
eu declarar o óbvio; tenho o distinto medo de que você tenha tido tudo isto
claro em sua própria mente quando criança e que esteja ficando entediado, mas
por favor, tenha paciência comigo. Tenho de pensar a respeito até entender, e
ajuda se eu o fizer no papel
Digamos que eu roube um
banco. Isso me torna culpada de roubo. Digamos que eu não me sinta culpada a
respeito. Se um roubo puder ser estabelecido como errado, então ainda sou
culpada de roubo, independente de como me sinta.
O sentimento — ou falta de
sentimento — não altera o fato.
Então, refletindo sobre o que
aprendi através dos anos nos campos humanistas e místicos, vejo que muito disso
era uma tentativa de escapar à culpa por meio de filosofia, meditação, drogas,
etc., etc. Mas agora tenho de perguntar, de que exatamente tenho tentado
escapar: dos sentimentos ou do fato? Fui capaz de escapar dos sentimentos — por
uns tempos. Os sentimentos a gente pode enterrar, suprimir, negar, ou convencer
a si mesma de que não existem.
Mas o que pode mudar ou
apagar o fato? Até agora não pensei em nada.
Wayne Corrigan estava confuso
quanto ao depoimento de quinta-feira; sentia-se preparado em alguns aspectos, e
em outros aspectos sabia que ele e sua equipe voluntária de investigadores
ainda não haviam nem arranhado a superfície do que realmente impulsionava Lucy
Brandon e sua ação judicial. Mas ali estava ela, a própria autora da queixa,
vestindo um terninho cinzento, ladeada por Ames e Jefferson, pronta para
arengar e parecendo nervosa.Mark e Tom estavam presentes de novo, e Corrigan
tinha notas mais do que suficientes às quais referir-se.
Eles cobriram informações
antigas primeiro, repisando as ofensas contra Amber na escola cristã. Lucy
parecia ter uma compreensão muito melhor dos detalhes do que Irene Bledsoe
demonstrara.
— Ele muitas vezes agarrava
Amber pelos ombros e a sacudia até ela produzir a resposta que ele queria —
disse ela.
— Pode dar um exemplo? —
perguntou Corrigan.
— Bem... ela me contou uma
vez que o Sr. Harris tentou fazer com que Amber "fosse salva", e que
ele foi bem insistente a respeito, sacudindo-a, insistindo em que ela dissesse
que Jesus era o seu Salvador. Ela queria dizer apenas que ele era o seu exemplo,
ou amigo, ou guia, mas isso não era suficientemente bom para ele. Ele a
sacudiu, gritou com ela, e realmente transtornou-a. Então ele a fez ficar na
sala durante o recreio até que ela mudasse de atitude. Foi horrível; ela chorou
por causa disso toda aquela noite. Foi com muita dificuldade que consegui
fazê-la voltar à escola no dia seguinte.
Tom rabiscou uma nota para si
mesmo. Esse testemunho era uma mentira deslavada, mas não era surpreendente.
Ela já ouvira Amber usar o mesmo método de distorcer a verdade toda a vez em
que fofocava.
— Isso, naturalmente, é o que
Amber contou? — perguntou Corrigan.
— Sim, é o que ela me contou.
— E a senhora não foi
testemunha disso?
— Não, mas acredito em minha
filha.
— Alguma vez discutiu o
assunto com o Sr. Harris?
— Não, não discuti.
— Por que não?
Ela teve de procurar por uma
resposta.
— Oh, acho que minha mente
estava em outras coisas, e não pareceu importante na ocasião.
— Mas agora parece
importante?
— Ora, parece.
Corrigan mostrou-lhe um
documento.
— Esta é a sua assinatura
neste Formulário de Consentimento dos Pais, certo?
Ela olhou o papel. — Sim.
— E se a senhora notar o
parágrafo nove neste formulário, ele declara que a senhora leu o Manual do
Aluno e dos Pais e concorda com tudo o que ele contém. A senhora leu o manual,
e concordou com tudo o que ele continha?
Lucy estava bem relutante em
responder. — Sim.Corrigan examinou uns assentamentos.
— É verdade que Amber apanhou
no dia... 25 de março e que o Sr. Harris informou-a a respeito por telefone
naquela noite?
— Sim.
— E é verdade que naquela
ocasião a senhora aprovou o fato de ela ter apanhado?
— Sim.
— De acordo com tudo o que
sabe, Amber apanhou mais alguma vez desde então?
— Não.
— Então, só para ter a
certeza de que entendo corretamente, a senhora move uma ação contra a escola
por violência física na forma de surra, mas tanto quanto pode saber houve
apenas um incidente de surra, e a senhora o aprovou de antemão quando assinou o
Consentimento dos Pais, e também na ocasião em que a surra foi ministrada? Entendi
certo?
Ela não gostava, mas
respondeu a verdade:
— Sim, está certo.
— A senhora tomou
conhecimento da infração pela qual Amber apanhou?
Lucy pensou por um momento. —
Acho que ela atrapalhava a aula. Corrigan não queria entrar no próximo assunto,
mas precisava fazê-lo.
— A senhora se lembra do que
ela fazia para atrapalhar? Lembra-se de como o Sr. Harris descreveu para a
senhora?
Lucy gaguejou com uma
resposta.
— Ela estava... fazendo
barulho... brincando na carteira... Corrigan mergulhou no assunto.
— Bem, vamos simplesmente
prosseguir e falar a respeito de Ametista. Lucy iluminou-se com a lembrança.
— Oh...
— A senhora se lembra agora
de que Amber apanhou porque fazia o papel de Ametista na classe e atrapalhava a
aula, não prestando atenção às ordens do Sr. Harris de parar com aquele
comportamento?
— Sim.
— Sra. Brandon, ouvimos uma
porção de opiniões a respeito de quem ou o que Ametista realmente é. Quem ou o
que Ametista é em sua opinião?
Lucy baixou os olhos à mesa,
pensou sobre a pergunta, chegou mesmo a dar uma risadinha, e depois meneou a
cabeça.
— Não tenho certeza. Acho que
e apenas um personagem que Amber inventou, mas... Bem, o Dr. Mandanhi diz que
possivelmente é uma personalidade alternativa, mas eu não sei...
— A senhora está associada de
alguma forma com um grupo de confraternização em Baskon chamado Círculo Vital?
— Umm... sim.— Não e verdade
que esse grupo acredita em canalização e em espíritos guias?
Ela riu, mas foi uma risada
nervosa.
— Bem, abraçamos uma porção
de crenças diferentes; todos nós temos as nossas opiniões acerca de
canalização. Acho que, em última analise, não a questionamos, apenas
experimentamos.
— A senhora diria que Amber
canalizava Ametista?
— Oh, ela poderia canalizar,
ou poderia fingir que canalizava, ou... não sei. Existem muitas opiniões
diferentes. É realmente algo a ser experimentado pelo bem que pode ser
derivado dele; não e para ser questionado.
— Já lhe passou pela cabeça
que Ametista poderia ser um espírito? O termo pareceu chocá-la.
— Um espírito?
— Sim, um espírito guia, ou
um senhor ascendido, ou um espírito desincorporado do plano astral. Esse termos
são familiares para a senhora, não são?
Ela sorriu, impressionada.
— O senhor conhece muito a
respeito desse tipo de coisa, não? Corrigan devolveu-lhe o sorriso,
prazenteiro.
— Bem, tento manter-me bem
informado. Mas a senhora acha que Ametista poderia ser um espírito guia? Isso é
possível?
Ela enrugou a testa e baixou
os olhos à mesa, lutando com essa idéia.
— Alguns acreditam isso. Eu
ainda não sei o que pensar. Corrigan rabiscou em seu bloco de anotações.
— De qualquer forma, no dia
28 de março, o Sr. Harris e Ametista tiveram uma confrontação. A senhora se
lembra de ter ouvido a respeito?
— Sim. O Sr. Harris ligou-me
no Correio. Parecia ser sério, por isso fui até lá.
— Ele lhe contou o que havia
acontecido?
— Sim. Ele disse que Amber
tinha sido... Oh, não consigo lembrar-me como foi que ele se expressou, mas
basicamente ele disse que eles achavam que ela tinha um demônio e tentaram
expulsá-lo dela. Fiquei chocada. Jamais ouvi falar de uma coisa dessas.
— A senhora nunca ouviu falar
da expulsão de demônios? Ela respondeu amargamente.
— Essa é uma idéia
estritamente cristã, uma invenção da religião organizada, e fico indignada com
o fato de ter sido imposta à minha filha! Canalizar é um dom, uma capacidade
especial; não tem nada a ver com religião!
— Mas a senhora entende que o
que a Bíblia ensina é diferente? Lucy ficou zangada e magoada.
— Sr. Corrigan, ela é apenas
uma criança, uma criança com um dom especial! Ela não tem de explicar-me
seu dom, ou defender o que experimente. Jamais a isolei ou atormentei; apenas a
amei, aceitei, e deixei que tivesse o seu dom por qualquer bem que possa fazer
a ela e a nós outros. Ela e apenas uma criança, não uma teóloga ou uma
estudiosa ou uma ministra ou advogada, e que poder tem uma criança de dez anos
para postar-se contra — ela hesitou, mas então despejou as palavras — contra
adultos religiosos, teimosos e preconceituosos naquela escola que abusam do seu
poder e do seu tamanho, que não têm tolerância nem compreensão, que apenas...
atacam-na, pulam sobre ela, berram com ela, e a acusam de estar possuída...
Ela enterrou o rosto nas mãos
por um momento. Corrigan estava prestes a anunciar um intervalo, mas então ela
se recuperou e terminou a declaração.
— Eles simplesmente não
tinham o direito de tratar a minha filha daquela forma, de isolá-la e
persegui-la apenas por ser diferente.
Corrigan percebeu que estava
na hora de prosseguir à próxima pergunte.
— Quando a senhora chegou à
escola, o que encontrou? Como estava Amber?
Lucy pensou por um momento,
relembrando.
— Ela estava... estava
sentada na secretaria da escola, e tinha uma aparência horrível. Muito cansada.
Lembro-me de que estava molhada de suor e o cabelo todo despenteado. Parecia
transtornada... mal-humorada. Quando a levei para casa, descobri que o corpo
dela estava machucado em diversos lugares como se ela tivesse estado numa
terrível luta. Fiquei simplesmente em estado de choque.
As emoções de Lucy começaram
a elevar-se.
— Eu não podia acreditar que
uma coisa dessas pudesse acontecer com a minha filha, e numa escola cristã
onde... Bem, já houve uma época em que achei que, se havia um lugar bom para
Amber, um lugar seguro, esse lugar seria uma escola cristã. Não achei que os
cristãos se rebaixassem a um comportamento desses. Mas foi o que fizeram.
Corrigan falou-lhe
suavemente.
— Sra. Brandon, foi Amber
como Amber quem se lembrou do incidente? Ela conseguiu contar-lhe o que
aconteceu?
Lucy ainda se compunha.
— Não acho que ela jamais
tenha sido capaz de falar diretamente comigo a respeito disso. Ela tem de ser
Ametista para falar no assunto.
— Então foi Ametista quem lhe
contou o que aconteceu?
— Amber fingindo ser
Ametista, ou canalizando Ametista, sim. Corrigan pensou por um momento.
— Sra. Brandon, toda a vez em
que Amber se torna Ametista, depois que deixa de ser Ametista, ela se lembra de
alguma coisa que Ametista disse ou fez?Lucy sorriu um tanto encabulada.
— Bem... ela diz que não.
— Muito bem. De qualquer forma,
esse incidente ocorreu em 28 de março, mas a senhora não tirou Amber da escola
até o dia 20 de abril. Pode explicar por que, após um incidente tão chocante, e
um comportamento tão seletivo e prejudicial com relação a Amber, a senhora
ainda manteve a sua filha matriculada na escola?
— Eu...
— Obviamente a senhora
consultou um advogado durante esse ínterim? — Sim.
Corrigan apresentou a
fotocópia de um documento escrito a mão.
— Parte do material de
revelação foi esta fotocópia de um diário que a senhora mantinha. Reconhece-o?
— Sim.
— Então, entre 28 de março e
20 de abril, a senhora manteve detalhados apontamentos sobre a escola... —
Corrigan folheou as muitas páginas copiadas. — A senhora anotou todas as
lições, os versículos bíblicos para cada dia, os problemas de disciplina, os
projetos bíblicos... um relatório bem detalhado.
— Sim.
— Não é verdade que a
senhora continuou registrando tudo esse tempo todo, com Amber ainda matriculada,
porque a senhora tinha toda a intenção de mover essa ação judicial contra a
escola?
Jefferson pulou sobre essa
pergunta.
— Protesto, senhor. É uma
questão de especulação e conjetura; existe total ausência de base.
— Então vamos estabelecer uma
base. Sra. Brandon, algum tempo depois de 28 de março, a senhora não consultou
uma amiga do Círculo Vital a fim de obter conselho judicial com relação a esses
problemas?
Lucy chegou mesmo a dar
levemente de ombros. — Sim.
— Foi Claire Johanson,
assistente legal do Sr. Ames e do Sr. Jefferson? — Sim.
— E qual foi o resultado
dessa conversa?
— O resultado?
— A senhora não resolveu
naquela ocasião mover uma ação judicial contra a escola?
— Acho que sim.
— Acha que sim?
— Bem, sim, resolvi.
— E em preparação para a ação
judicial, a senhora começou a manter esses apontamentos detalhados de tudo o
que acontecia na escola, correto?Lucy ficou mortificada. — Sim.
— Muito bem. Agora,
estabelecido isso, deixe-me fazer-lhe esta pergunta: Visto que a senhora
manteve Amber matriculada na escola apesar do comportamento chocante
demonstrado contra ela, é possível que obter mais material para a sua ação
judicial fosse mais importante para a senhora do que o bem-estar de sua própria
filha?
— Definitivamente protesto
contra isso! — disse Jefferson.
— E eu desistirei da pergunta
— disse Corrigan, impassível. Ele olhou as suas notas. — Amber ainda se torna
Ametista de vez em quando?
Lucy sorriu enquanto admitia
relutante.
— Sim, ainda o faz.
— Ela exibia esse tipo de
comportamento mesmo antes de ser matriculada na escola cristã?
— Sim.
— É verdade que ela aprendeu
a... criar ou visualizar Ametista na classe da quarta séria da Escola de
Primeiro Grau de Baskon, uma classe cuja professora é uma Srta. Brewer?
— Sim. A Srta. Brewer é uma
professora maravilhosa. Corrigan pausou.
— Então por que a senhora
transferiu Amber para a escola cristã? Lucy pareceu um tanto encabulada.
— Oh... achei na ocasião que
a escola de primeiro grau havia cumprido a sua finalidade. Amber realizava o
seu potencial, e descobrindo-se, sim, mas... não aprendia muito mais.
— Um tanto fraca nas outras
matérias?
— Um tanto. Achei que um
pouco que equilíbrio seria bom para ela; uma área mais ampla de experiência.
— Compreendo. — Corrigan
passou a outro assunto. — A senhora se recorda de um incidente no Correio
diversas semanas atrás quando Amber, como Ametista, teve uma confrontação com
uma freguesa no saguão?
Lucy ficou visivelmente
perturbada por essa pergunta.
— Como foi que descobriu a
respeito disso?
— A senhora se recorda? —
Sim.
— E Amber se recorda?
— Não. Ela era... Bem, era
Ametista na ocasião, e agora não se lembra de nada do que aconteceu.
— Ela não se lembra? — Não.
— É verdade que Amber, como
Ametista, tornou-se muito agressiva para com a freguesa?
Lucy sentiu-se nauseada pela
lembrança, e talvez pela pergunta.— Sim.
— Ela deu a volta em torno da
freguesa, bateu-lhe diversas vezes?
— Eu... eu realmente a vi
bater na senhora, sim.
— E Amber, como Ametista, fez
acusações altas, berradas, contra a mulher?
— Sim.
— A senhora diria que o
comportamento de Amber foi violento, descontrolado?
Ela não queria admitir. —
Sim.
— Tão violento que aquela
senhora foi forçada a fugir do saguão? Lucy se perturbava; a recordação era
ferida dolorosa, desconcertante.
— Foi o que aconteceu. Eu não
conseguia fazer Amber parar. Fiquei muito envergonhada.
— Amber conhecia essa mulher?
— Não. Não sei como poderia
conhecê-la.
— Pelo que a senhora sabe, a
mulher nada fez para provocar o ataque? — Não.
— A senhora se lembra do que
Amber berrava?
Os olhos de Lucy caíram sobre
a mesa; ela descansou a testa nos dedos.
— Ela dizia... algo sobre o
nenê da mulher... dizia: "Você matou o seu nenê".
— A senhora sabe quem era a
mulher?
— Não sei... acho que sim.
Corrigan tirou uma fotografia
e mostrou-lhe.
— É esta a mulher? Jefferson
interveio depressa.
— Realmente, não vejo o que
isto tenha a ver com coisa alguma! Corrigan apenas lançou-lhe um olhar
repreensivo e ele permaneceu quieto.
— Esta é a mulher?
Lucy fitou a fotografia
granulada. Seu rosto respondeu à pergunta antes que ela falasse. — Sim.
— A senhora sabe quem é esta
mulher? Ela pareceu desistir.
— O nome dela é Sally Roe.
Ela era freguesa do Correio. Mas isso é tudo que sei a seu respeito.
— E ela se suicidou há apenas
poucas semanas, não é verdade? Lucy revidou com fúria:
— Não foi por culpa de Amber!
Corrigan pausou apenas um
pouquinho ante a explosão, depois disse:— Não dizemos que foi. Agora, a senhora
ouviu Ametista — Amber, seja lá quem for — acusar Sally Roe de ter matado o seu
nenê, certo?
— A pergunta foi feita e
respondida — disse Jefferson.
— Apenas tentando
certificar-me — disse Corrigan.
— Sim, ouvi — disse Lucy.
— A senhora sabia que Sally
Roe tinha antecedentes criminais? Obviamente, isso era novidade para Lucy
Brandon. — Não. Corrigan mostrou alguns documentos.
— Esta é uma cópia da ficha
criminal de Sally Roe, e aqui estão alguns recortes noticiosos. A senhora perceberá
as áreas destacadas: ela foi condenada por homicídio culposo há dez anos. Como
pode ver aqui, e nesta notícia aqui, ela foi declarada culpada da morte por
afogamento da sua filhinha.
Ele esperou até tudo aquilo
penetrar, e observou o sangue fugir do rosto de Lucy Brandon.
— Obviamente sua filha, como
Ametista, estava certa nas acusações que fez contra Sally Roe no saguão do
Correio. Pelo que a senhora sabe, havia alguma forma pela qual Amber poderia
ter sabido a respeito do passado de Sally Roe?
Lucy mal podia falar.
— Não. Nem eu sabia
disso.
— A senhora pode explicar,
então, como Ametista sabia a respeito? Lucy demorou para responder
apenas por ser difícil.
— Não. — Ela tentou dar uma
resposta melhor. — Habilidade psíquica, talvez.
— Da parte de quem, de Amber
ou de Ametista? Lucy sacudiu a cabeça, muito atrapalhada.
— Não sei Não compreendo
essas coisas. Mas pode acontecer em canalização.
— Então Amber canalizava?
— Sim, acho que sim.
— E aparentemente esse dom
especial dela tem um lado um tanto violento?
— Não sei...
— A senhora teve uma luta
daquelas com Ametista, não teve? Demorou diversos minutos para poder controlar
a sua filha?
— Sim.
— E quando o incidente enfim
terminou, a senhora diria que a sua filha estava molhada de suor, provavelmente
descabelada, cansada, mal-humorada, talvez até um tantinho machucada?
Lucy mostrou-se relutante em
responder. Corrigan pressionou.
— Não era esse o seu estado
geral?— Suponho que sim.
— E durante o tumulto, a
senhora não se referiu à sua filha como Ametista?
Ela pareceu confusa. Corrigan
reformulou a pergunta.
— A senhora não lutou com a
sua filha, e disse palavras mais ou menos como: "Ametista, pare com
isto... Ametista, acalme-se"? A voz de Lucy era quase inaudível.
— Suponho que disse.
— E exatamente com quem a
senhora falava? Lucy não gostou da pergunta.
— Com minha filha!
— Qual delas? — Lucy hesitou,
e por isso Corrigan alongou a pergunta. — A senhora já declarou que Amber não
tem a menor recordação do incidente, e normalmente não se lembra de nada que Ametista
diz ou faz. A senhora admitiu que Amber canalizava. Seria correto dizer que era
Ametista, e não Amber, que exibia todo aquele comportamento agressivo?
— Mas era a minha filha...
— Mas uma personalidade
diferente e separada, certo?
Lucy fitou-o fixamente. Ela
pensava a respeito. Corrigan podia sentir que Ames e Jefferson ficavam cada vez
mais tensos.
— Certo? — perguntou Corrigan
novamente.
— Sim — disse ela por fim. —
Acho que está certo.
— Então... se alguém — mesmo
a senhora — chegasse a confrontar Ametista algum dia, estaria de fato
confrontando uma personalidade que não era a sua filha?
— Acho que sim. Talvez.
Ames e Jefferson não gostaram
dessa resposta. Sem dúvida teriam uma conversa dura com Lucy Brandon quando o
interrogatório tivesse terminado.
Corrigan achou que era hora
para uma provocante bênção de encerramento.
— Então, parece-lhe tão estranho agora que o Sr. Harris também tenha tido um encontro parecido, não com a sua filha Amber, mas com Ametista, uma personalidade separada: uma contenda violenta, uma luta livre, uma confrontação demonstrativa? A senhora pode imaginar como deve ter sido para ele ter Ametista comportando-se na classe como ela se comportou no Correio, berrando, batendo, e produzindo informação que Amber, como Amber, não podia possivelmente saber? A senhora pode compreender agora a que conclusão um cristão que segue a Bíblia chegaria quando confrontado com uma personalidade alternativa violenta e incontrolável numa criança pequena, inocente?Ele não precisava de uma resposta e não esperou por uma. — Obrigado, Sra. Brandon. Sei que isto foi difícil para a senhora. É só, por enquanto.