terça-feira, 8 de junho de 2021

Este mundo tenebroso - parte 2 - capítulo 26

Antes que Sally percebesse, escrevia à luz da lâmpada acima do seu banco, e não à luz do dia que entrava pela janela.

Entardecia. O rubro e difuso crepúsculo desaparecia no cinza cada vez mais escuro da noite, e agora os sítios e campos que passavam apressados no lado de fora começavam a esconder-se atrás do reflexo de seu próprio rosto. O balançar ritmado do vagão do trem e o clique-claque dos trilhos tinham um efeito calmante, um efeito entorpecente, e ela começou a sentir-se sonolenta.

Demoraria mais ou menos um dia até chegar ao seu destino e visitar de novo a velha Universidade Bentmore. Seu estômago contorcia-se de medo toda a vez em que pensava sobre isso. Essas seriam pessoas poderosas, as influentes, as que moldavam a educação e os educadores. Se o pessoal do Ômega se lembrava dela, indubitavelmente se lembrariam dela em Bentmore. Mas mesmo assim tinha de ir. Tinha de ver aquele lugar novamente.

 Assim, minha estada no Quarto 302 em Fairwood terminou de repente, e estou na estrada, estrada de ferro, na realidade, mais uma vez, e apenas com a minha mochila e a minha vida como bens. Não tenho a intenção de parecer petulante, mas fugir para salvar a vida é uma experiência totalmente nova para mim. Antes de tudo, nunca fiz isso antes, e, em segundo lugar, jamais pensei que fugiria das pessoas em quem uma vez confiei e admirei tão profundamente. Uma das lições mais difíceis que tive de aprender é que o sonho utópico de uma nova ordem mundial não deixa de ter seu lado escuro, seus fomentadores de poder, maquinadores, manipuladores e assassinos. Por trás de todas as pessoas como a Sra. Dennings e a Srta. Brewer que sonham em refinar e guiar a humanidade, existe gente como o Sr. Steele que sonha em subjugar e controlar a humanidade. As Dennings e as Brewers traba­lham arduamente para preparar toda a humanidade para uma comu­nidade global; os Steeles esperam com ansiedade a hora de dominá-la.

E existem também as Sally Roes que são apanhadas no meio, desilusionadas com os sonhos idílicos das Dennings e das Brewers e tentando permanecer fora do alcance da bota esmagadora dos Steeles. Talvez elas sejam as que os Steeles mais temam; conhecem todos os dogmas, mas não mais acreditam na fé. Podem atrapalhar mais eficaz­mente do que ninguém.

Ela pausou, e olhou o seu reflexo na janela, um rosto cansado, com o negror da noite atrás de si, e ocorreu-lhe que tipos de alegorias ela teria tirado de tal quadro apenas uns dias atrás, ou mesmo ontem. Poderia ter escrito acerca do negror em sua alma, ou do grande vazio que ficava além da Sally Roe visível, ou a efemeridade de sua vida, nada mais do que um reflexo passageiro num fino painel de vidro — ali durante a noite, e desaparecido pela manhã.

Oh, eram coisas ótimas, mas, por algum motivo, ela simplesmente não se sentia assim. Algo muito profundo em seu íntimo mudava, como um desanuviar gradual e contínuo do tempo.

 

Tom, lembra-se de minha última carta, quando falei a respeito de culpa? Não me esqueci de nenhum daqueles pensamentos; de fato, eles ainda rodopiam em minha cabeça, e não sei aonde terminarão por conduzir-me.

Desde a última vez em que escrevi, produzi uma proposição desa­fiadora a respeito da culpa: a de que ela pode ser um fato, e não apenas um sentimento.

Estou certa de que você sabe quanto o resto de nos despreza esse aspecto do cristianismo: a clássica "viagem de culpa". Se me lembro corretamente do jargão, todos somos "pecadores", todos somos culpa­dos. A religião sempre foi, em minha percepção, uma grande viagem de culpa, e ninguém quer sentir-se culpado. É por isso que meus amigos e eu gastamos tanto tempo e energia inventando um universo no qual o certo e o errado não existiam — e se não existe certo ou errado, não há necessidade de se sentir culpado acerca de coisa alguma.

Agora, quanto à coisa que fez a coisa toda emperrar pela primeira vez hoje de manhã: a possibilidade da culpa como um fato e não apenas um sentimento... Se, e enfatizo a palavra se, existir um padrão fixo de certo e errado, uma cerca, como já disse, então é possível a pessoa ser culpada de uma ofensa, independente de todos os sentimentos de culpa. Posso estar no lado errado da cerca e estar errada independente de como me sinta a respeito.

Por favor, tenha paciência se eu declarar o óbvio; tenho o distinto medo de que você tenha tido tudo isto claro em sua própria mente quando criança e que esteja ficando entediado, mas por favor, tenha paciência comigo. Tenho de pensar a respeito até entender, e ajuda se eu o fizer no papel

Digamos que eu roube um banco. Isso me torna culpada de roubo. Digamos que eu não me sinta culpada a respeito. Se um roubo puder ser estabelecido como errado, então ainda sou culpada de roubo, independente de como me sinta.

O sentimento — ou falta de sentimento — não altera o fato.

Então, refletindo sobre o que aprendi através dos anos nos campos humanistas e místicos, vejo que muito disso era uma tentativa de escapar à culpa por meio de filosofia, meditação, drogas, etc., etc. Mas agora tenho de perguntar, de que exatamente tenho tentado escapar: dos sentimentos ou do fato? Fui capaz de escapar dos sentimentos — por uns tempos. Os sentimentos a gente pode enterrar, suprimir, negar, ou convencer a si mesma de que não existem.

Mas o que pode mudar ou apagar o fato? Até agora não pensei em nada.

Wayne Corrigan estava confuso quanto ao depoimento de quinta-feira; sentia-se preparado em alguns aspectos, e em outros aspectos sabia que ele e sua equipe voluntária de investigadores ainda não haviam nem arranhado a superfície do que realmente impulsionava Lucy Brandon e sua ação judicial. Mas ali estava ela, a própria autora da queixa, vestindo um terninho cinzento, ladeada por Ames e Jefferson, pronta para arengar e parecendo nervosa.Mark e Tom estavam presentes de novo, e Corrigan tinha notas mais do que suficientes às quais referir-se.

Eles cobriram informações antigas primeiro, repisando as ofensas contra Amber na escola cristã. Lucy parecia ter uma compreensão muito melhor dos detalhes do que Irene Bledsoe demonstrara.

— Ele muitas vezes agarrava Amber pelos ombros e a sacudia até ela produzir a resposta que ele queria — disse ela.

— Pode dar um exemplo? — perguntou Corrigan.

— Bem... ela me contou uma vez que o Sr. Harris tentou fazer com que Amber "fosse salva", e que ele foi bem insistente a respeito, sacudindo-a, insistindo em que ela dissesse que Jesus era o seu Salvador. Ela queria dizer apenas que ele era o seu exemplo, ou amigo, ou guia, mas isso não era suficientemente bom para ele. Ele a sacudiu, gritou com ela, e realmente transtornou-a. Então ele a fez ficar na sala durante o recreio até que ela mudasse de atitude. Foi horrível; ela chorou por causa disso toda aquela noite. Foi com muita dificuldade que consegui fazê-la voltar à escola no dia seguinte.

Tom rabiscou uma nota para si mesmo. Esse testemunho era uma mentira deslavada, mas não era surpreendente. Ela já ouvira Amber usar o mesmo método de distorcer a verdade toda a vez em que fofocava.

— Isso, naturalmente, é o que Amber contou? — perguntou Corrigan.

— Sim, é o que ela me contou.

— E a senhora não foi testemunha disso?

— Não, mas acredito em minha filha.

— Alguma vez discutiu o assunto com o Sr. Harris?

— Não, não discuti.

— Por que não?

Ela teve de procurar por uma resposta.

— Oh, acho que minha mente estava em outras coisas, e não pareceu importante na ocasião.

— Mas agora parece importante?

— Ora, parece.

Corrigan mostrou-lhe um documento.

— Esta é a sua assinatura neste Formulário de Consentimento dos Pais, certo?

Ela olhou o papel. — Sim.

— E se a senhora notar o parágrafo nove neste formulário, ele declara que a senhora leu o Manual do Aluno e dos Pais e concorda com tudo o que ele contém. A senhora leu o manual, e concordou com tudo o que ele continha?

Lucy estava bem relutante em responder. — Sim.Corrigan examinou uns assentamentos.

— É verdade que Amber apanhou no dia... 25 de março e que o Sr. Harris informou-a a respeito por telefone naquela noite?

— Sim.

— E é verdade que naquela ocasião a senhora aprovou o fato de ela ter apanhado?

— Sim.

— De acordo com tudo o que sabe, Amber apanhou mais alguma vez desde então?

— Não.

— Então, só para ter a certeza de que entendo corretamente, a senhora move uma ação contra a escola por violência física na forma de surra, mas tanto quanto pode saber houve apenas um incidente de surra, e a senhora o aprovou de antemão quando assinou o Consentimento dos Pais, e também na ocasião em que a surra foi ministrada? Entendi certo?

Ela não gostava, mas respondeu a verdade:

— Sim, está certo.

— A senhora tomou conhecimento da infração pela qual Amber apa­nhou?

Lucy pensou por um momento. — Acho que ela atrapalhava a aula. Corrigan não queria entrar no próximo assunto, mas precisava fazê-lo.

— A senhora se lembra do que ela fazia para atrapalhar? Lembra-se de como o Sr. Harris descreveu para a senhora?

Lucy gaguejou com uma resposta.

— Ela estava... fazendo barulho... brincando na carteira... Corrigan mergulhou no assunto.

— Bem, vamos simplesmente prosseguir e falar a respeito de Ametista. Lucy iluminou-se com a lembrança.

— Oh...

— A senhora se lembra agora de que Amber apanhou porque fazia o papel de Ametista na classe e atrapalhava a aula, não prestando atenção às ordens do Sr. Harris de parar com aquele comportamento?

— Sim.

— Sra. Brandon, ouvimos uma porção de opiniões a respeito de quem ou o que Ametista realmente é. Quem ou o que Ametista é em sua opinião?

Lucy baixou os olhos à mesa, pensou sobre a pergunta, chegou mesmo a dar uma risadinha, e depois meneou a cabeça.

— Não tenho certeza. Acho que e apenas um personagem que Amber inventou, mas... Bem, o Dr. Mandanhi diz que possivelmente é uma personalidade alternativa, mas eu não sei...

— A senhora está associada de alguma forma com um grupo de confra­ternização em Baskon chamado Círculo Vital?

— Umm... sim.— Não e verdade que esse grupo acredita em canalização e em espíritos guias?

Ela riu, mas foi uma risada nervosa.

— Bem, abraçamos uma porção de crenças diferentes; todos nós temos as nossas opiniões acerca de canalização. Acho que, em última analise, não a questionamos, apenas experimentamos.

— A senhora diria que Amber canalizava Ametista?

— Oh, ela poderia canalizar, ou poderia fingir que canalizava, ou... não sei. Existem muitas opiniões diferentes. É realmente algo a ser experimen­tado pelo bem que pode ser derivado dele; não e para ser questionado.

— Já lhe passou pela cabeça que Ametista poderia ser um espírito? O termo pareceu chocá-la.

— Um espírito?

— Sim, um espírito guia, ou um senhor ascendido, ou um espírito desincorporado do plano astral. Esse termos são familiares para a senhora, não são?

Ela sorriu, impressionada.

— O senhor conhece muito a respeito desse tipo de coisa, não? Corrigan devolveu-lhe o sorriso, prazenteiro.

— Bem, tento manter-me bem informado. Mas a senhora acha que Ametista poderia ser um espírito guia? Isso é possível?

Ela enrugou a testa e baixou os olhos à mesa, lutando com essa idéia.

— Alguns acreditam isso. Eu ainda não sei o que pensar. Corrigan rabiscou em seu bloco de anotações.

— De qualquer forma, no dia 28 de março, o Sr. Harris e Ametista tiveram uma confrontação. A senhora se lembra de ter ouvido a respeito?

— Sim. O Sr. Harris ligou-me no Correio. Parecia ser sério, por isso fui até lá.

— Ele lhe contou o que havia acontecido?

— Sim. Ele disse que Amber tinha sido... Oh, não consigo lembrar-me como foi que ele se expressou, mas basicamente ele disse que eles achavam que ela tinha um demônio e tentaram expulsá-lo dela. Fiquei chocada. Jamais ouvi falar de uma coisa dessas.

— A senhora nunca ouviu falar da expulsão de demônios? Ela respondeu amargamente.

— Essa é uma idéia estritamente cristã, uma invenção da religião organizada, e fico indignada com o fato de ter sido imposta à minha filha! Canalizar é um dom, uma capacidade especial; não tem nada a ver com religião!

— Mas a senhora entende que o que a Bíblia ensina é diferente? Lucy ficou zangada e magoada.

— Sr. Corrigan, ela é apenas uma criança, uma criança com um dom especial! Ela não tem de explicar-me seu dom, ou defender o que experimente. Jamais a isolei ou atormentei; apenas a amei, aceitei, e deixei que tivesse o seu dom por qualquer bem que possa fazer a ela e a nós outros. Ela e apenas uma criança, não uma teóloga ou uma estudiosa ou uma ministra ou advogada, e que poder tem uma criança de dez anos para postar-se contra — ela hesitou, mas então despejou as palavras — contra adultos religiosos, teimosos e preconceituosos naquela escola que abusam do seu poder e do seu tamanho, que não têm tolerância nem compreensão, que apenas... atacam-na, pulam sobre ela, berram com ela, e a acusam de estar possuída...

Ela enterrou o rosto nas mãos por um momento. Corrigan estava prestes a anunciar um intervalo, mas então ela se recuperou e terminou a declaração.

— Eles simplesmente não tinham o direito de tratar a minha filha daquela forma, de isolá-la e persegui-la apenas por ser diferente.

Corrigan percebeu que estava na hora de prosseguir à próxima pergun­te.

— Quando a senhora chegou à escola, o que encontrou? Como estava Amber?

Lucy pensou por um momento, relembrando.

— Ela estava... estava sentada na secretaria da escola, e tinha uma aparência horrível. Muito cansada. Lembro-me de que estava molhada de suor e o cabelo todo despenteado. Parecia transtornada... mal-humorada. Quando a levei para casa, descobri que o corpo dela estava machucado em diversos lugares como se ela tivesse estado numa terrível luta. Fiquei simplesmente em estado de choque.

As emoções de Lucy começaram a elevar-se.

— Eu não podia acreditar que uma coisa dessas pudesse acontecer com a minha filha, e numa escola cristã onde... Bem, já houve uma época em que achei que, se havia um lugar bom para Amber, um lugar seguro, esse lugar seria uma escola cristã. Não achei que os cristãos se rebaixassem a um comportamento desses. Mas foi o que fizeram.

Corrigan falou-lhe suavemente.

— Sra. Brandon, foi Amber como Amber quem se lembrou do incidente? Ela conseguiu contar-lhe o que aconteceu?

Lucy ainda se compunha.

— Não acho que ela jamais tenha sido capaz de falar diretamente comigo a respeito disso. Ela tem de ser Ametista para falar no assunto.

— Então foi Ametista quem lhe contou o que aconteceu?

— Amber fingindo ser Ametista, ou canalizando Ametista, sim. Corrigan pensou por um momento.

— Sra. Brandon, toda a vez em que Amber se torna Ametista, depois que deixa de ser Ametista, ela se lembra de alguma coisa que Ametista disse ou fez?Lucy sorriu um tanto encabulada.

— Bem... ela diz que não.

— Muito bem. De qualquer forma, esse incidente ocorreu em 28 de março, mas a senhora não tirou Amber da escola até o dia 20 de abril. Pode explicar por que, após um incidente tão chocante, e um comportamento tão seletivo e prejudicial com relação a Amber, a senhora ainda manteve a sua filha matriculada na escola?

— Eu...

— Obviamente a senhora consultou um advogado durante esse ínterim? — Sim.

Corrigan apresentou a fotocópia de um documento escrito a mão.

— Parte do material de revelação foi esta fotocópia de um diário que a senhora mantinha. Reconhece-o?

— Sim.

— Então, entre 28 de março e 20 de abril, a senhora manteve detalhados apontamentos sobre a escola... — Corrigan folheou as muitas páginas copiadas. — A senhora anotou todas as lições, os versículos bíblicos para cada dia, os problemas de disciplina, os projetos bíblicos... um relatório bem detalhado.

— Sim.

— Não é verdade que a senhora continuou registrando tudo esse tempo todo, com Amber ainda matriculada, porque a senhora tinha toda a intenção de mover essa ação judicial contra a escola?

Jefferson pulou sobre essa pergunta.

— Protesto, senhor. É uma questão de especulação e conjetura; existe total ausência de base.

— Então vamos estabelecer uma base. Sra. Brandon, algum tempo depois de 28 de março, a senhora não consultou uma amiga do Círculo Vital a fim de obter conselho judicial com relação a esses problemas?

Lucy chegou mesmo a dar levemente de ombros. — Sim.

— Foi Claire Johanson, assistente legal do Sr. Ames e do Sr. Jefferson? — Sim.

— E qual foi o resultado dessa conversa?

— O resultado?

— A senhora não resolveu naquela ocasião mover uma ação judicial contra a escola?

— Acho que sim.

— Acha que sim?

— Bem, sim, resolvi.

— E em preparação para a ação judicial, a senhora começou a manter esses apontamentos detalhados de tudo o que acontecia na escola, corre­to?Lucy ficou mortificada. — Sim.

— Muito bem. Agora, estabelecido isso, deixe-me fazer-lhe esta pergun­ta: Visto que a senhora manteve Amber matriculada na escola apesar do comportamento chocante demonstrado contra ela, é possível que obter mais material para a sua ação judicial fosse mais importante para a senhora do que o bem-estar de sua própria filha?

— Definitivamente protesto contra isso! — disse Jefferson.

— E eu desistirei da pergunta — disse Corrigan, impassível. Ele olhou as suas notas. — Amber ainda se torna Ametista de vez em quando?

Lucy sorriu enquanto admitia relutante.

— Sim, ainda o faz.

— Ela exibia esse tipo de comportamento mesmo antes de ser matricu­lada na escola cristã?

— Sim.

— É verdade que ela aprendeu a... criar ou visualizar Ametista na classe da quarta séria da Escola de Primeiro Grau de Baskon, uma classe cuja professora é uma Srta. Brewer?

— Sim. A Srta. Brewer é uma professora maravilhosa. Corrigan pausou.

— Então por que a senhora transferiu Amber para a escola cristã? Lucy pareceu um tanto encabulada.

— Oh... achei na ocasião que a escola de primeiro grau havia cumprido a sua finalidade. Amber realizava o seu potencial, e descobrindo-se, sim, mas... não aprendia muito mais.

— Um tanto fraca nas outras matérias?

— Um tanto. Achei que um pouco que equilíbrio seria bom para ela; uma área mais ampla de experiência.

— Compreendo. — Corrigan passou a outro assunto. — A senhora se recorda de um incidente no Correio diversas semanas atrás quando Amber, como Ametista, teve uma confrontação com uma freguesa no saguão?

Lucy ficou visivelmente perturbada por essa pergunta.

— Como foi que descobriu a respeito disso?

— A senhora se recorda? — Sim.

— E Amber se recorda?

— Não. Ela era... Bem, era Ametista na ocasião, e agora não se lembra de nada do que aconteceu.

— Ela não se lembra? — Não.

— É verdade que Amber, como Ametista, tornou-se muito agressiva para com a freguesa?

Lucy sentiu-se nauseada pela lembrança, e talvez pela pergunta.— Sim.

— Ela deu a volta em torno da freguesa, bateu-lhe diversas vezes?

— Eu... eu realmente a vi bater na senhora, sim.

— E Amber, como Ametista, fez acusações altas, berradas, contra a mulher?

— Sim.

— A senhora diria que o comportamento de Amber foi violento, descontrolado?

Ela não queria admitir. — Sim.

— Tão violento que aquela senhora foi forçada a fugir do saguão? Lucy se perturbava; a recordação era ferida dolorosa, desconcertante.

— Foi o que aconteceu. Eu não conseguia fazer Amber parar. Fiquei muito envergonhada.

— Amber conhecia essa mulher?

— Não. Não sei como poderia conhecê-la.

— Pelo que a senhora sabe, a mulher nada fez para provocar o ataque? — Não.

— A senhora se lembra do que Amber berrava?

Os olhos de Lucy caíram sobre a mesa; ela descansou a testa nos dedos.

— Ela dizia... algo sobre o nenê da mulher... dizia: "Você matou o seu nenê".

— A senhora sabe quem era a mulher?

— Não sei... acho que sim.

Corrigan tirou uma fotografia e mostrou-lhe.

— É esta a mulher? Jefferson interveio depressa.

— Realmente, não vejo o que isto tenha a ver com coisa alguma! Corrigan apenas lançou-lhe um olhar repreensivo e ele permaneceu quieto.

— Esta é a mulher?

Lucy fitou a fotografia granulada. Seu rosto respondeu à pergunta antes que ela falasse. — Sim.

— A senhora sabe quem é esta mulher? Ela pareceu desistir.

— O nome dela é Sally Roe. Ela era freguesa do Correio. Mas isso é tudo que sei a seu respeito.

— E ela se suicidou há apenas poucas semanas, não é verdade? Lucy revidou com fúria:

— Não foi por culpa de Amber!

Corrigan pausou apenas um pouquinho ante a explosão, depois disse:— Não dizemos que foi. Agora, a senhora ouviu Ametista — Amber, seja lá quem for — acusar Sally Roe de ter matado o seu nenê, certo?

— A pergunta foi feita e respondida — disse Jefferson.

— Apenas tentando certificar-me — disse Corrigan.

— Sim, ouvi — disse Lucy.

— A senhora sabia que Sally Roe tinha antecedentes criminais? Obviamente, isso era novidade para Lucy Brandon. — Não. Corrigan mostrou alguns documentos.

— Esta é uma cópia da ficha criminal de Sally Roe, e aqui estão alguns recortes noticiosos. A senhora perceberá as áreas destacadas: ela foi condenada por homicídio culposo há dez anos. Como pode ver aqui, e nesta notícia aqui, ela foi declarada culpada da morte por afogamento da sua filhinha.

Ele esperou até tudo aquilo penetrar, e observou o sangue fugir do rosto de Lucy Brandon.

— Obviamente sua filha, como Ametista, estava certa nas acusações que fez contra Sally Roe no saguão do Correio. Pelo que a senhora sabe, havia alguma forma pela qual Amber poderia ter sabido a respeito do passado de Sally Roe?

Lucy mal podia falar.

— Não. Nem eu sabia disso.

— A senhora pode explicar, então, como Ametista sabia a respeito? Lucy demorou para responder apenas por ser difícil.

— Não. — Ela tentou dar uma resposta melhor. — Habilidade psíquica, talvez.

— Da parte de quem, de Amber ou de Ametista? Lucy sacudiu a cabeça, muito atrapalhada.

— Não sei Não compreendo essas coisas. Mas pode acontecer em canalização.

— Então Amber canalizava?

— Sim, acho que sim.

— E aparentemente esse dom especial dela tem um lado um tanto violento?

— Não sei...

— A senhora teve uma luta daquelas com Ametista, não teve? Demorou diversos minutos para poder controlar a sua filha?

— Sim.

— E quando o incidente enfim terminou, a senhora diria que a sua filha estava molhada de suor, provavelmente descabelada, cansada, mal-humo­rada, talvez até um tantinho machucada?

Lucy mostrou-se relutante em responder. Corrigan pressionou.

— Não era esse o seu estado geral?— Suponho que sim.

— E durante o tumulto, a senhora não se referiu à sua filha como Ametista?

Ela pareceu confusa. Corrigan reformulou a pergunta.

— A senhora não lutou com a sua filha, e disse palavras mais ou menos como: "Ametista, pare com isto... Ametista, acalme-se"? A voz de Lucy era quase inaudível.

— Suponho que disse.

— E exatamente com quem a senhora falava? Lucy não gostou da pergunta.

— Com minha filha!

— Qual delas? — Lucy hesitou, e por isso Corrigan alongou a pergunta. — A senhora já declarou que Amber não tem a menor recordação do incidente, e normalmente não se lembra de nada que Ametista diz ou faz. A senhora admitiu que Amber canalizava. Seria correto dizer que era Ametista, e não Amber, que exibia todo aquele comportamento agressivo?

— Mas era a minha filha...

— Mas uma personalidade diferente e separada, certo?

Lucy fitou-o fixamente. Ela pensava a respeito. Corrigan podia sentir que Ames e Jefferson ficavam cada vez mais tensos.

— Certo? — perguntou Corrigan novamente.

— Sim — disse ela por fim. — Acho que está certo.

— Então... se alguém — mesmo a senhora — chegasse a confrontar Ametista algum dia, estaria de fato confrontando uma personalidade que não era a sua filha?

— Acho que sim. Talvez.

Ames e Jefferson não gostaram dessa resposta. Sem dúvida teriam uma conversa dura com Lucy Brandon quando o interrogatório tivesse terminado.

Corrigan achou que era hora para uma provocante bênção de encerramento.

— Então, parece-lhe tão estranho agora que o Sr. Harris também tenha tido um encontro parecido, não com a sua filha Amber, mas com Ametista, uma personalidade separada: uma contenda violenta, uma luta livre, uma confrontação demonstrativa? A senhora pode imaginar como deve ter sido para ele ter Ametista comportando-se na classe como ela se comportou no Correio, berrando, batendo, e produzindo informação que Amber, como Amber, não podia possivelmente saber? A senhora pode compreender agora a que conclusão um cristão que segue a Bíblia chegaria quando confrontado com uma personalidade alternativa violenta e incontrolável numa criança pequena, inocente?Ele não precisava de uma resposta e não esperou por uma. — Obrigado, Sra. Brandon. Sei que isto foi difícil para a senhora. É só, por enquanto.