Ela estava ladeada por dois
advogados da ACAL, Jefferson e Ames, sentados numa sala de conferências
adjacente ao escritório de Wayne Corrigan. Do outro lado da mesa de
conferência, à sua frente, sentavam-se Wayne Corrigan, Tom Harris e Mark
Howard. Na ponta da mesa estava o taquígrafo do tribunal, anotando tudo o que
era dito.
Wayne Corrigan passou os
olhos por suas anotações. Essa mulher era uma tigresa, com certeza, e ele
estava desejando ter mais com que prosseguir. Com a pouca informação de que
dispunha até então, ia ter um depoimento breve.
— Mas isso é baseado
exclusivamente na palavra de Amber Brandon, não é? — perguntou ele por fim.
— Sim, e ela é uma garotinha
inteligente, confiável e responsável.
— Mas a senhora mesma nunca
viu o Sr. Harris comportando-se dessa forma, viu?
Certamente que vi: a primeira
vez em que ele veio visitar os filhos. Ele violou as regras com as quais
havíamos concordado, foi rude e agressivo.
— Agressivo. A senhora usou
essa palavra duas vezes. Agora, é uma palavra sua ou de Amber?
Jefferson interveio.
— Que espécie de pergunta e
essa? Corrigan não precisava dizer-lhe, mas disse.
— Estou tentando chegar ao
que Amber Brandon falou e contornar qualquer ornamentação da parte da Sra.
Bledsoe. — Ele prosseguiu à próxima pergunta. — E o que me diz do testemunho de
Amber para a senhora? O que especificamente ela disse que o Sr. Harris fazia?
Bledsoe inclinou-se só um
pouquinho para a frente, mas manteve a espinha reta.
— Amber me disse que o Sr. Harris
e as outras crianças caçoavam dela, perseguiam-na, e tentavam impor-lhe seus conceitos
religiosos.
— A senhora poderia ser mais
especifica? Como e que caçoavam dela? Bledsoe hesitou.
— Bem, elas...
— Elas a chamavam de nomes
feios?
— Acho que sim.
— Bem, chamavam ou não?
— Amber não citou nenhum nome
específico, mas estou certa de que se lhe perguntássemos, poderia dizer
exatamente quais.
— Está bem, é o que faremos.
— Corrigan prosseguiu. — Agora, e a perseguição? Como o Sr. Harris perseguia
Amber?
Bledsoe riu ao ouvir a
pergunta.
— Oh, como, deveras! Suponho
que considere normal uma criança ser taxada de endemoninhada, ser proibida de
brincar com as outras crianças...
— O Sr. Harris proibiu Amber
de brincar com as outras crianças?
— Oh, sim. Ela foi forçada a
ficar na classe durante o recreio e copiar uma página da Bíblia.
Corrigan anotou aquilo.
— E Amber disse qual foi o
motivo disso? Bledsoe deu levemente de ombros.
— Oh, aparentemente o Sr.
Harris não estava satisfeito com o ponto de vista de Amber numa questão em
particular, e por isso resolveu que ela precisava de doutrinação mais intensa.
— São essas as palavras que
Amber usou?
— Não...
— Essa é apenas a sua
interpretação?
— Bem, sim.
— Exatamente o que Amber
disse?
— Ela disse que o Sr. Harris
não lhe permitiu sair para o recreio, mas fê-la ficar dentro e copiar da
Bíblia.
— Ela sugeriu que estava
sendo castigada por ter quebrado os regulamentos da escola?
— Não inferi isso do que ela
disse.
— Aconteceu uma vez, por um
recreio, ou era uma prática constante, diária?
— Não tenho certeza.
— E mais uma vez, a senhora
não foi testemunha direta de nada disso?
— Não, claro que não.— Alguém
foi?
— Bem, o Sr. Harris, mas...
Mm-hm. — Corrigan voltou
outra página de suas anotações. — Vamos falar de Ametista, o pônei. É o nome
correto para esse... outro ego?
— Não sei. Ela de fato se
identifica como Ametista, e pelo que sei é um pônei, um personagem mitológico.
— Então a senhora mesma já
ficou conhecendo Ametista? Ames interveio bruscamente nessa hora.
— Desculpe-me, Sr. Corrigan
... não acho que essa pergunta esteja muito clara.
Corrigan perguntou à mulher
— A pergunta está clara para
a senhora? — Não.
— A senhora alguma vez já
lidou com a Amber quando ela estava agindo como Ametista?
Ela deu de ombros, tranqüila.
— Claro.
— E a senhora não estranhou
nada?
— Não, claro que não. É
sabido que as crianças se desassociam em personalidades alternativas, ou inventam
amigos imaginários ao enfrentarem sério trauma. É muito comum.
— E de que trauma sério
estamos falando?
A Sra. Bledsoe tentou compor
uma resposta clara.
— Houve sério trauma em toda a
experiência por que Amber passou na escola cristã: perseguição, discriminação,
tensão, a imposição do dogma cristão... Tudo isso levou Amber a recorrer a uma
falsa personalidade para poder enfrentar o problema. O Sr. Harris podia ter
reagido de maneira apropriada e tratado da verdadeira fonte dos problemas de
Amber, mas em vez disso complicou o trauma ao taxar Amber de endemoninhada, o
que acho simplesmente horrendo.
A senhora não foi testemunha
direta de nada disso? — Não.
— Tudo isto é segundo o que a
senhora ficou sabendo através de Amber? — Sim.
Corrigan rabiscou algumas
anotações e prosseguiu a uma nova página.
Ela hesitou.
— Creio que... recebemos uma
queixa.
— Quer dizer uma queixa
através do telefone de emergência para queixas?
—Sim.— Então a senhora não
sabe quem ligou? — Não.
— Não foi um dos advogados da
Sra. Brandon? Jefferson pulou para não deixar essa passar. — Protesto!
Corrigan apontou o dedo a
Jefferson.
— Isto aqui não é um
tribunal, e o senhor não é o juiz, Sr. Jefferson.
— Essa pergunta me ofende!
— O senhor quer
respondê-la?
— Não seja atrevido!
Corrigan voltou-se para a
Sra. Bledsoe.
— Sra. Bledsoe, por tudo o
que a senhora sabe, recebeu a queixa de alguém ligado a esta ação judicial?
— De jeito nenhum! — disse
ela com grande indignação.
— Nem de nenhum dos advogados
da Sra. Brandon? — Não!
— Ou da própria Sra. Brandon?
— Não!
— Muito bem. Agora, estou
certo de que já teve abundante oportunidade de conversar com Rute e Josias?
— Oh, sim.
— Eles relataram algum tipo
de abuso por parte do pai?
— Sim, relataram.
Tom ergueu os olhos ao ouvir
tal observação. Corrigan pressionou.
— Muito bem. Que abuso?
— Surras freqüentes com uma
colher de pau.
— Pelo que posso depreender,
a senhora teve razão para crer que essas surras não foram administradas de
forma amorosa e controlada?
— Elas foram administradas,
Sr. Corrigan, e isso para mim é abuso.
— Muito bem. Algum outro
abuso para com as crianças?
— Ele não lhes permite
assistir televisão.
O rosto de Corrigan continuou
sem expressão, e ele anotou aquilo.
— Era do seu conhecimento que
o Sr. Harris nem mesmo possui um aparelho de televisão?
— Sim. Seus filhos me
contaram.
— Eles estavam reclamando a
respeito?
Acho que sim. Foi o que
depreendi. Eles ficam encantados com os programas mais simples como se jamais
tivessem visto algo parecido antes. Eles conhecem muito pouco do que está
acontecendo em nossa cultura. Suas vidas estão protegidas demais para um
desenvolvimento social apropriado.
— E essa é a sua opinião
profissional?— Sim, naturalmente.
— E que me diz de evidência
direta de qualquer abuso físico? Alguém viu alguma machucadura nas crianças,
algum sinal de que alguma coisa estava errada?
— Sim, claro! Ruth tinha um
grande galo na cabeça!
— Tom mal conseguiu manter-se
quieto. Corrigan perguntou:
— Depreendo que o queixoso
anônimo que usou o telefone de emergência reportou esse galo?
— Naturalmente.
— Rute chegou a dizer como
foi que ficou com esse galo?
A Sra. Bledsoe assumiu uma
postura mais rígida ainda e respondeu:
— Ainda estamos investigando,
e até que a investigação seja completada, a questão é estritamente
confidencial.
— Eu acharia que o galo é uma
questão de conhecimento público — disse Corrigan. — A senhora tem ciência,
naturalmente, de que as crianças disseram ao pai, na sua presença, de onde
aquele galo veio.
— Mas lembre-se, Sr. Corrigan,
de que era com o pai que elas estavam falando. Por medo, a criança pode inventar
uma história a fim de evitar maiores abusos.
Corrigan permitiu-se um breve
suspiro de frustração.
— Sra. Bledsoe, por que tenho
a impressão de que a senhora realmente não tem um motivo concreto para manter
essas crianças sob guarda numa casa e num ambiente estranho, longe de seu
próprio lar e do seu pai?
A Sra. Bledsoe fez um esforço
visível para manter a calma.
— Temos suspeitas, Sr.
Corrigan, e suspeitas são razão suficiente. Ainda estamos trabalhando com as
crianças. Temos meios de acabar fazendo com que revelem a verdade. As crianças
de fato querem nos contar tudo, mas muitas vezes estão com medo.
— Então a senhora acredita
que Rute e Josias querem dizer a verdade? — Sim.
— Então por que a senhora não
aceita o relato de Rute e Josias da quase colisão que a senhora teve com uma
caminhonete azul, e alegação que fazem de que foi nesse quase-desastre que Rute
sofreu o galo na cabeça?
Ela fez uma careta de
desgosto ante a pergunta.
— Essa é uma questão
inteiramente diferente! Não se pode depender de crianças para serem testemunhas
confiáveis em coisas dessas.
— Então elas são testemunhas
confiáveis somente quando seu testemunho confirma suas suspeitas anteriores? —
Jefferson ameaçou encrespar. Corrigan falou primeiro. — Não precisa responder.
Corrigan tirou uma fotografia
e a colocou na frente da Sra. Bledsoe.
— A senhora já viu esta
mulher alguma vez?Bledsoe olhou a fotografia de Sally Roe e fez o melhor que
pode para permanecer impassível.
— Não, acho que não.
Alguma possibilidade de que
fosse ela quem estivesse dirigindo aquela caminhonete?
Protesto! — disse Ames. — O senhor
nem mesmo estabeleceu que havia uma caminhonete.
— Sra. Bledsoe, a senhora
teve uma quase colisão com uma caminhonete azul quando levava os filhos do Sr.
Harris da casa dele?
— Não, não tive!
— Com qualquer veículo de
qualquer cor? — Não!
Corrigan apontou ao retrato
de Sally Roe.
— A senhora disse que nunca
viu esta mulher antes. Já viu esta fotografia antes?
Ela hesitou.
— Pode ser.
— Onde?
— Não me lembro.
— A senhora se lembra de ter
rasgado algumas fotografias que estavam com Josias Harris durante a última
visita das crianças com o pai?
Ela estava claramente pouco à
vontade.
— Oh... eu rasguei alguma
coisa, não tenho certeza do que era. Corrigan pegou a foto de volta.
— Vamos falar a respeito da
sua ficha de motorista. Alguma infração de tráfego nos últimos três anos?
Agora ela hesitou.
— O que quer dizer?
— Multas de tráfego.
Intimações.
— Acho que sim.
— De acordo com o
Departamento de Veículos Motorizados, a senhora teve cinco multas por excesso
de velocidade nos últimos três anos. É verdade?
— Se é isso o que eles
dizem...
— A senhora também foi
intimada duas vezes por deixar de parar num sinal de pare, certo?
— Não vejo o que isso tem a
ver com coisa alguma! Corrigan insistiu:
— Certo? Ela suspirou. — Sim.
— A senhora teve de mudar
três vezes de seguradora?
— Não sei.Jefferson falou
abruptamente:
— Acho que está atormentando
a testemunha, Sr. Corrigan.
— Terminei com esta
testemunha, Sr. Jefferson. — Corrigan dobrou as anotações, descontraiu-se e
sorriu. — Muito obrigado por ter vindo, Sra. Bledsoe. Obrigado a todos.
Bledsoe e os dois advogados
não sentiram necessidade de ficar por ali socialmente, e o taquígrafo do
tribunal tinha outro compromisso. Não demorou nada para que Corrigan, Mark e
Tom ficassem sozinhos na sala de conferência.
— Que tal? — perguntou Tom.
Corrigan queria certificar-se
de que a mulher e os outros tinham partido. Inclinou-se para olhar pela porta.
Não havia ninguém. Ele sentou-se e pensou por um momento, correndo os olhos
pelas anotações.
— Bem, ela está mentindo, e
não deve ser muito difícil apanhá-la numa armadilha quando estiver depondo no
tribunal.
Mark perguntou:
— E o que diz da teoria de
Marshall? Ela está ligada a essa coisa toda, não está? Está trabalhando para
eles.
Corrigan pensou sobre isso
por um momento, e depois assentiu com a cabeça.
— A evidência ainda é
circunstancial, mas existe uma ligação, isso existe, e ela está dando duro para
escondê-la. Esse é um dos motivos pelos quais ela está sendo tão teimosa com
relação aos seus filhos, Tom. Eles são testemunhas. Se quiserem ouvir minha
mais recente teoria, eu diria que ela foi trazida nisso somente para desacreditá-lo,
mas então cruzou o caminho de Sally Roe com as crianças como testemunhas, o que
complicou tudo. Agora ela não apenas tem de manter as crianças quietas a
respeito de terem visto Sally Roe, como também tem de mantê-las quietas acerca
de ter tido aquele quase-acidente em primeiro lugar, e o galo de Rute não vai
facilitar a coisa.
— Meus filhos estão como
reféns! — disse Tom enraivecido. Mark também estava furioso.
— Ela está ligada ao Mulligan, então; está ajudando-o a
proteger toda essa história de suicídio.
Corrigan folheou suas
anotações.
— Quanto mais entrarmos
nisso, acho que mais vamos descobrir que todo o mundo está ligado a todos os
outros. E não se esqueçam de Parnell, o legista. Para poder fazer a coisa toda
ser descartada como suicídio, ele teria de estar participando também.
Mark olhou o relógio.
— É melhor orarmos por Marshall
e Ben. Eles estão conversando com ele neste minuto.
***
Joey Parnell não ficou nada
contente ao abrir a porta da frente e encontrar Marshall Hogan e o recentemente
desempregado Ben Cole de pé ali.
Oi — disse Marshall. —
Desculpe incomodá-lo em casa. Parece que se esqueceu da nossa entrevista.
Ele estava com dificuldade
para olhá-los nos olhos.
— Sinto muito. Minha
secretária devia ter ligado para você. Estou doente hoje.
— Ela nos disse isso — disse
Ben — mas apenas depois que ficamos sentados lá esperando meia hora.
— Oh, sinto muito. Bem,
talvez em outra ocasião...
— É melhor fazer sua
secretária ligar para a Associação Médica de Westhaven também — disse Marshall.
— Vi o anúncio no jornal, e acabei de falar com eles. Ainda estão esperando
você para falar em sua conferência dentro de uma hora.
— É por isso que está usando
sapatos e calças finos? — perguntou Ben. Parece que está se vestindo para ir a
algum lugar.
Parnell ficou bravo.
— Que direito têm vocês de
xeretar em minhas atividades diárias? Marshall enfiou a mão num envelope
amarelo.
— Isto poderia ajudar a
responder.
Ele tirou uma fotografia e a
mostrou a Parnell.
— Dr. Parnell, por tudo o que
sabe e conhece, esta é a mulher que cometeu suicídio no sítio dos Potters há
diversas semanas?
Ele não queria olhar a foto.
Escutem, caras, tenho outras
coisas a fazer e preciso me aprontar. Agora, se me derem licença...
Marshall mostrou-lhe o
retrato novamente.
— Dê uma boa olhada.
Averiguamos por aí com diversas testemunhas que a identificaram; temos impressões
digitais, uma ficha criminal, a coisa toda. Esta é Sally Roe?
Ele olhou a fotografia por um
minuto.
— É, claro que é. Lembro-me
dela. Morte por estrangulamento. Ela se enforcou.
— Apenas verificando — disse
Marshall. Parnell afastou-se da porta.
— Agora, se isso é tudo...
— Dr. Parnell — disse
Marshall — aquele era um retrato da minha irmã. O rosto de Parnell ficou
desconcertado e subitamente pálido. Suas mãos começaram a tremer. Marshall
continuou:
— Achei que já que mora aqui
em Westhaven provavelmente não saberia que cara teria a verdadeira Sally Roe, e
agora esta óbvio que nunca a viu morta também.
— Parnell estava sem fala.
Ele ficou olhando para baixo, depois para a porta, depois para dentro da casa,
e depois a Marshall e Ben. O pobre sujeito estava agindo como um animal
encurralado.
Ben perguntou:
— Pode nos dizer quem de fato
era a morta?
— Não posso dizer nada! —
explodiu ele por fim. — Apenas vão embora — dêem o fora daqui!
Ele bateu a porta.
Marshall e Ben caminharam de
volta ao carro.
— Você viu isso? — perguntou
Marshall.
— Aquele sujeito está apavorado!
— disse Ben.
A tarde de Kate tinha sido, de certa forma, informativa; pelo menos, ela estava sendo informada da maneira mais frustradora possível quanto era difícil chegar a ver um exemplar fidedigno do currículo Descobrindo o Verdadeiro Eu para a quarta série.
Ela passou pela secretaria da
escola primária a fim de encontrar-se com o Sr. Woodard, o diretor, e dar uma
olhada no currículo. O Sr. Woodard não se encontrava. Ela o encontrou mais
adiante no corredor, quando ele subitamente lembrou-se da hora que havia
marcado para ela.
Então o currículo não se
encontrava em parte alguma e ele não conseguia entender o que podia ter
acontecido com o material. Ele lhe disse que falasse com a Srta. Brewer. A
Srta. Brewer estava com a classe e não podia ser incomodada, mas a chamaria. A
Srta. Brewer não chamou.
Então Kate ligou para Jerry
Mason, um membro do conselho de educação e muito provavelmente membro do
Círculo Vital.
— Ora, acho que a professora
deveria ter um exemplar — disse ele.
Kate estava ficando cansada de
ouvir isso.
— Não, ela não tem. Já
verifiquei com ela e ela me mandou falar com o Sr. Woodard, que me mandou de
volta para falar com a Srta. Brewer.
— Bem, eu não tenho um
exemplar.
— Eu estava apenas pensando
se por acaso não teria, já que o senhor aprovou o currículo para as séries de
primeiro grau.
— Mas a senhora tem algum
filho fazendo esse currículo?
— Não, estou apenas tentando
ver um exemplar dele.
— Bem, não há muitos deles
por aí, e não acho que alguém que deseje possa simplesmente aparecer a qualquer
hora para vê-lo. Preferimos trabalhar apenas com os pais. A senhora
provavelmente devia marcar uma hora.Kate deu mais umas voltas na ciranda com
Jerry Mason, e depois ligou para Betty Hanover, outro membro do conselho de
educação.
— Ei, olhe — disse Betty — já
passamos por tudo isso antes com ... os marginais religiosos. A cidade resolveu
que gosta do currículo, e preferiríamos ter um pouco de sossego agora, está
bem?
John Kendall não foi melhor.
— Perguntou à Srta. Brewer?
São os professores que supostamente são responsáveis por ele. Eles deveriam
poder ajudá-la.
Kate desligou o telefone e
riscou outro nome. Então, ela soltou um berro simulado.
Se não houvesse outro motivo,
esse currículo tinha de merecer ser visto apenas porque tantas pessoas estavam
fazendo tanta força para mantê-lo escondido.
Outra carta! Era igualzinha às outras — o mesmo envelope, a mesma letra, a mesma espessa carta dentro em papel pautado de caderno! Lucy agarrou-a da pilha de correspondência que chegava e fê-la deslizar depressa para dentro de seu bolso. De onde estavam vindo todas essas cartas? Se isso era uma piada, era certamente uma piada duradoura e nada engraçada.
Se não fosse uma piada, e
essas cartas realmente fossem de Sally Roe...
Ela não queria pensar a
respeito; era mais fácil nem considerar a possibilidade, e continuar confiando
em todas as pessoas em quem agora confiava.
Debbie estava por perto,
separando a correspondência de outra sacola. Ela havia parado de trabalhar, e
parecia estar olhando atentamente a etiqueta de endereço de uma revista, mas...
Para Lucy, parecia que Debbie a estava observando, mas tentando fingir que não.
— Algo errado? — perguntou
Lucy.
— Oh, não... nada — respondeu
Debbie, voltando-se e enfiando a revista numa das caixas postais.
Elas continuaram separando a
correspondência, e nada mais foi dito. Mas Debbie tinha visto tudo.