terça-feira, 8 de junho de 2021

Este mundo tenebroso - parte 2 - capítulo 24


 — Ele foi severo, agressivo e assustou as crianças em muitas ocasiões — disse Irene Bledsoe, o rosto desafiador, a espinha reta como um pedaço de pau.

Ela estava ladeada por dois advogados da ACAL, Jefferson e Ames, sentados numa sala de conferências adjacente ao escritório de Wayne Corrigan. Do outro lado da mesa de conferência, à sua frente, sentavam-se Wayne Corrigan, Tom Harris e Mark Howard. Na ponta da mesa estava o taquígrafo do tribunal, anotando tudo o que era dito.

Wayne Corrigan passou os olhos por suas anotações. Essa mulher era uma tigresa, com certeza, e ele estava desejando ter mais com que prosseguir. Com a pouca informação de que dispunha até então, ia ter um depoimento breve.

— Mas isso é baseado exclusivamente na palavra de Amber Brandon, não é? — perguntou ele por fim.

— Sim, e ela é uma garotinha inteligente, confiável e responsável.

— Mas a senhora mesma nunca viu o Sr. Harris comportando-se dessa forma, viu?

Certamente que vi: a primeira vez em que ele veio visitar os filhos. Ele violou as regras com as quais havíamos concordado, foi rude e agressivo.

— Agressivo. A senhora usou essa palavra duas vezes. Agora, é uma palavra sua ou de Amber?

Jefferson interveio.

— Que espécie de pergunta e essa? Corrigan não precisava dizer-lhe, mas disse.

— Estou tentando chegar ao que Amber Brandon falou e contornar qualquer ornamentação da parte da Sra. Bledsoe. — Ele prosseguiu à próxima pergunta. — E o que me diz do testemunho de Amber para a senhora? O que especificamente ela disse que o Sr. Harris fazia?

Bledsoe inclinou-se só um pouquinho para a frente, mas manteve a espinha reta.

— Amber me disse que o Sr. Harris e as outras crianças caçoavam dela, perseguiam-na, e tentavam impor-lhe seus conceitos religiosos.

— A senhora poderia ser mais especifica? Como e que caçoavam dela? Bledsoe hesitou.

— Bem, elas...

— Elas a chamavam de nomes feios?

— Acho que sim.

— Bem, chamavam ou não?

— Amber não citou nenhum nome específico, mas estou certa de que se lhe perguntássemos, poderia dizer exatamente quais.

— Está bem, é o que faremos. — Corrigan prosseguiu. — Agora, e a perseguição? Como o Sr. Harris perseguia Amber?

Bledsoe riu ao ouvir a pergunta.

— Oh, como, deveras! Suponho que considere normal uma criança ser taxada de endemoninhada, ser proibida de brincar com as outras crianças...

— O Sr. Harris proibiu Amber de brincar com as outras crianças?

— Oh, sim. Ela foi forçada a ficar na classe durante o recreio e copiar uma página da Bíblia.

Corrigan anotou aquilo.

— E Amber disse qual foi o motivo disso? Bledsoe deu levemente de ombros.

— Oh, aparentemente o Sr. Harris não estava satisfeito com o ponto de vista de Amber numa questão em particular, e por isso resolveu que ela precisava de doutrinação mais intensa.

— São essas as palavras que Amber usou?

— Não...

— Essa é apenas a sua interpretação?

— Bem, sim.

— Exatamente o que Amber disse?

— Ela disse que o Sr. Harris não lhe permitiu sair para o recreio, mas fê-la ficar dentro e copiar da Bíblia.

— Ela sugeriu que estava sendo castigada por ter quebrado os regula­mentos da escola?

— Não inferi isso do que ela disse.

— Aconteceu uma vez, por um recreio, ou era uma prática constante, diária?

— Não tenho certeza.

— E mais uma vez, a senhora não foi testemunha direta de nada disso?

— Não, claro que não.— Alguém foi?

— Bem, o Sr. Harris, mas...

Mm-hm. — Corrigan voltou outra página de suas anotações. — Vamos falar de Ametista, o pônei. É o nome correto para esse... outro ego?

— Não sei. Ela de fato se identifica como Ametista, e pelo que sei é um pônei, um personagem mitológico.

— Então a senhora mesma já ficou conhecendo Ametista? Ames interveio bruscamente nessa hora.

— Desculpe-me, Sr. Corrigan ... não acho que essa pergunta esteja muito clara.

Corrigan perguntou à mulher

— A pergunta está clara para a senhora? — Não.

— A senhora alguma vez já lidou com a Amber quando ela estava agindo como Ametista?

Ela deu de ombros, tranqüila.

— Claro.

— E a senhora não estranhou nada?

— Não, claro que não. É sabido que as crianças se desassociam em personalidades alternativas, ou inventam amigos imaginários ao enfrenta­rem sério trauma. É muito comum.

— E de que trauma sério estamos falando?

A Sra. Bledsoe tentou compor uma resposta clara.

— Houve sério trauma em toda a experiência por que Amber passou na escola cristã: perseguição, discriminação, tensão, a imposição do dogma cristão... Tudo isso levou Amber a recorrer a uma falsa personalidade para poder enfrentar o problema. O Sr. Harris podia ter reagido de maneira apropriada e tratado da verdadeira fonte dos problemas de Amber, mas em vez disso complicou o trauma ao taxar Amber de endemoninhada, o que acho simplesmente horrendo.

A senhora não foi testemunha direta de nada disso? — Não.

— Tudo isto é segundo o que a senhora ficou sabendo através de Amber? — Sim.

Corrigan rabiscou algumas anotações e prosseguiu a uma nova página.

 — Vamos falar acerca dos filhos do Sr. Harris. Qual foi a primeira coisa que trouxe a situação na casa deles à sua atenção?

Ela hesitou.

— Creio que... recebemos uma queixa.

— Quer dizer uma queixa através do telefone de emergência para queixas?

—Sim.— Então a senhora não sabe quem ligou? — Não.

— Não foi um dos advogados da Sra. Brandon? Jefferson pulou para não deixar essa passar. — Protesto!

Corrigan apontou o dedo a Jefferson.

— Isto aqui não é um tribunal, e o senhor não é o juiz, Sr. Jefferson.

— Essa pergunta me ofende!

— O senhor quer respondê-la?

— Não seja atrevido!

Corrigan voltou-se para a Sra. Bledsoe.

— Sra. Bledsoe, por tudo o que a senhora sabe, recebeu a queixa de alguém ligado a esta ação judicial?

— De jeito nenhum! — disse ela com grande indignação.

— Nem de nenhum dos advogados da Sra. Brandon? — Não!

— Ou da própria Sra. Brandon? — Não!

— Muito bem. Agora, estou certo de que já teve abundante oportunida­de de conversar com Rute e Josias?

— Oh, sim.

— Eles relataram algum tipo de abuso por parte do pai?

— Sim, relataram.

Tom ergueu os olhos ao ouvir tal observação. Corrigan pressionou.

— Muito bem. Que abuso?

— Surras freqüentes com uma colher de pau.

— Pelo que posso depreender, a senhora teve razão para crer que essas surras não foram administradas de forma amorosa e controlada?

— Elas foram administradas, Sr. Corrigan, e isso para mim é abuso.

— Muito bem. Algum outro abuso para com as crianças?

— Ele não lhes permite assistir televisão.

O rosto de Corrigan continuou sem expressão, e ele anotou aquilo.

— Era do seu conhecimento que o Sr. Harris nem mesmo possui um aparelho de televisão?

— Sim. Seus filhos me contaram.

— Eles estavam reclamando a respeito?

Acho que sim. Foi o que depreendi. Eles ficam encantados com os programas mais simples como se jamais tivessem visto algo parecido antes. Eles conhecem muito pouco do que está acontecendo em nossa cultura. Suas vidas estão protegidas demais para um desenvolvimento social apro­priado.

— E essa é a sua opinião profissional?— Sim, naturalmente.

— E que me diz de evidência direta de qualquer abuso físico? Alguém viu alguma machucadura nas crianças, algum sinal de que alguma coisa estava errada?

— Sim, claro! Ruth tinha um grande galo na cabeça!

— Tom mal conseguiu manter-se quieto. Corrigan perguntou:

— Depreendo que o queixoso anônimo que usou o telefone de emer­gência reportou esse galo?

— Naturalmente.

— Rute chegou a dizer como foi que ficou com esse galo?

A Sra. Bledsoe assumiu uma postura mais rígida ainda e respondeu:

— Ainda estamos investigando, e até que a investigação seja completa­da, a questão é estritamente confidencial.

— Eu acharia que o galo é uma questão de conhecimento público — disse Corrigan. — A senhora tem ciência, naturalmente, de que as crianças disseram ao pai, na sua presença, de onde aquele galo veio.

— Mas lembre-se, Sr. Corrigan, de que era com o pai que elas estavam falando. Por medo, a criança pode inventar uma história a fim de evitar maiores abusos.

Corrigan permitiu-se um breve suspiro de frustração.

— Sra. Bledsoe, por que tenho a impressão de que a senhora realmente não tem um motivo concreto para manter essas crianças sob guarda numa casa e num ambiente estranho, longe de seu próprio lar e do seu pai?

A Sra. Bledsoe fez um esforço visível para manter a calma.

— Temos suspeitas, Sr. Corrigan, e suspeitas são razão suficiente. Ainda estamos trabalhando com as crianças. Temos meios de acabar fazendo com que revelem a verdade. As crianças de fato querem nos contar tudo, mas muitas vezes estão com medo.

— Então a senhora acredita que Rute e Josias querem dizer a verdade? — Sim.

— Então por que a senhora não aceita o relato de Rute e Josias da quase colisão que a senhora teve com uma caminhonete azul, e alegação que fazem de que foi nesse quase-desastre que Rute sofreu o galo na cabeça?

Ela fez uma careta de desgosto ante a pergunta.

— Essa é uma questão inteiramente diferente! Não se pode depender de crianças para serem testemunhas confiáveis em coisas dessas.

— Então elas são testemunhas confiáveis somente quando seu teste­munho confirma suas suspeitas anteriores? — Jefferson ameaçou encres­par. Corrigan falou primeiro. — Não precisa responder.

Corrigan tirou uma fotografia e a colocou na frente da Sra. Bledsoe.

— A senhora já viu esta mulher alguma vez?Bledsoe olhou a fotografia de Sally Roe e fez o melhor que pode para permanecer impassível.

— Não, acho que não.

Alguma possibilidade de que fosse ela quem estivesse dirigindo aquela caminhonete?

Protesto! — disse Ames. — O senhor nem mesmo estabeleceu que havia uma caminhonete.

— Sra. Bledsoe, a senhora teve uma quase colisão com uma caminho­nete azul quando levava os filhos do Sr. Harris da casa dele?

— Não, não tive!

— Com qualquer veículo de qualquer cor? — Não!

Corrigan apontou ao retrato de Sally Roe.

— A senhora disse que nunca viu esta mulher antes. Já viu esta fotografia antes?

Ela hesitou.

— Pode ser.

— Onde?

— Não me lembro.

— A senhora se lembra de ter rasgado algumas fotografias que estavam com Josias Harris durante a última visita das crianças com o pai?

Ela estava claramente pouco à vontade.

— Oh... eu rasguei alguma coisa, não tenho certeza do que era. Corrigan pegou a foto de volta.

— Vamos falar a respeito da sua ficha de motorista. Alguma infração de tráfego nos últimos três anos?

Agora ela hesitou.

— O que quer dizer?

— Multas de tráfego. Intimações.

— Acho que sim.

— De acordo com o Departamento de Veículos Motorizados, a senhora teve cinco multas por excesso de velocidade nos últimos três anos. É verdade?

— Se é isso o que eles dizem...

— A senhora também foi intimada duas vezes por deixar de parar num sinal de pare, certo?

— Não vejo o que isso tem a ver com coisa alguma! Corrigan insistiu:

— Certo? Ela suspirou. — Sim.

— A senhora teve de mudar três vezes de seguradora?

— Não sei.Jefferson falou abruptamente:

— Acho que está atormentando a testemunha, Sr. Corrigan.

— Terminei com esta testemunha, Sr. Jefferson. — Corrigan dobrou as anotações, descontraiu-se e sorriu. — Muito obrigado por ter vindo, Sra. Bledsoe. Obrigado a todos.

Bledsoe e os dois advogados não sentiram necessidade de ficar por ali socialmente, e o taquígrafo do tribunal tinha outro compromisso. Não demorou nada para que Corrigan, Mark e Tom ficassem sozinhos na sala de conferência.

— Que tal? — perguntou Tom.

Corrigan queria certificar-se de que a mulher e os outros tinham partido. Inclinou-se para olhar pela porta. Não havia ninguém. Ele sentou-se e pensou por um momento, correndo os olhos pelas anotações.

— Bem, ela está mentindo, e não deve ser muito difícil apanhá-la numa armadilha quando estiver depondo no tribunal.

Mark perguntou:

— E o que diz da teoria de Marshall? Ela está ligada a essa coisa toda, não está? Está trabalhando para eles.

Corrigan pensou sobre isso por um momento, e depois assentiu com a cabeça.

— A evidência ainda é circunstancial, mas existe uma ligação, isso existe, e ela está dando duro para escondê-la. Esse é um dos motivos pelos quais ela está sendo tão teimosa com relação aos seus filhos, Tom. Eles são testemunhas. Se quiserem ouvir minha mais recente teoria, eu diria que ela foi trazida nisso somente para desacreditá-lo, mas então cruzou o caminho de Sally Roe com as crianças como testemunhas, o que complicou tudo. Agora ela não apenas tem de manter as crianças quietas a respeito de terem visto Sally Roe, como também tem de mantê-las quietas acerca de ter tido aquele quase-acidente em primeiro lugar, e o galo de Rute não vai facilitar a coisa.

— Meus filhos estão como reféns! — disse Tom enraivecido. Mark também estava furioso.

Ela está ligada ao Mulligan, então; está ajudando-o a proteger toda essa história de suicídio.

Corrigan folheou suas anotações.

— Quanto mais entrarmos nisso, acho que mais vamos descobrir que todo o mundo está ligado a todos os outros. E não se esqueçam de Parnell, o legista. Para poder fazer a coisa toda ser descartada como suicídio, ele teria de estar participando também.

Mark olhou o relógio.

— É melhor orarmos por Marshall e Ben. Eles estão conversando com ele neste minuto.

***

Joey Parnell não ficou nada contente ao abrir a porta da frente e encontrar Marshall Hogan e o recentemente desempregado Ben Cole de pé ali.

Oi — disse Marshall. — Desculpe incomodá-lo em casa. Parece que se esqueceu da nossa entrevista.

Ele estava com dificuldade para olhá-los nos olhos.

— Sinto muito. Minha secretária devia ter ligado para você. Estou doente hoje.

— Ela nos disse isso — disse Ben — mas apenas depois que ficamos sentados lá esperando meia hora.

— Oh, sinto muito. Bem, talvez em outra ocasião...

— É melhor fazer sua secretária ligar para a Associação Médica de Westhaven também — disse Marshall. — Vi o anúncio no jornal, e acabei de falar com eles. Ainda estão esperando você para falar em sua conferên­cia dentro de uma hora.

— É por isso que está usando sapatos e calças finos? — perguntou Ben. Parece que está se vestindo para ir a algum lugar.

Parnell ficou bravo.

— Que direito têm vocês de xeretar em minhas atividades diárias? Marshall enfiou a mão num envelope amarelo.

— Isto poderia ajudar a responder.

Ele tirou uma fotografia e a mostrou a Parnell.

— Dr. Parnell, por tudo o que sabe e conhece, esta é a mulher que cometeu suicídio no sítio dos Potters há diversas semanas?

Ele não queria olhar a foto.

Escutem, caras, tenho outras coisas a fazer e preciso me aprontar. Agora, se me derem licença...

Marshall mostrou-lhe o retrato novamente.

— Dê uma boa olhada. Averiguamos por aí com diversas testemunhas que a identificaram; temos impressões digitais, uma ficha criminal, a coisa toda. Esta é Sally Roe?

Ele olhou a fotografia por um minuto.

— É, claro que é. Lembro-me dela. Morte por estrangulamento. Ela se enforcou.

— Apenas verificando — disse Marshall. Parnell afastou-se da porta.

— Agora, se isso é tudo...

— Dr. Parnell — disse Marshall — aquele era um retrato da minha irmã. O rosto de Parnell ficou desconcertado e subitamente pálido. Suas mãos começaram a tremer. Marshall continuou:

— Achei que já que mora aqui em Westhaven provavelmente não saberia que cara teria a verdadeira Sally Roe, e agora esta óbvio que nunca a viu morta também.

— Parnell estava sem fala. Ele ficou olhando para baixo, depois para a porta, depois para dentro da casa, e depois a Marshall e Ben. O pobre sujeito estava agindo como um animal encurralado.

Ben perguntou:

— Pode nos dizer quem de fato era a morta?

— Não posso dizer nada! — explodiu ele por fim. — Apenas vão embora — dêem o fora daqui!

Ele bateu a porta.

Marshall e Ben caminharam de volta ao carro.

— Você viu isso? — perguntou Marshall.

— Aquele sujeito está apavorado! — disse Ben.

A tarde de Kate tinha sido, de certa forma, informativa; pelo menos, ela estava sendo informada da maneira mais frustradora possível quanto era difícil chegar a ver um exemplar fidedigno do currículo Descobrindo o Verdadeiro Eu para a quarta série.

Ela passou pela secretaria da escola primária a fim de encontrar-se com o Sr. Woodard, o diretor, e dar uma olhada no currículo. O Sr. Woodard não se encontrava. Ela o encontrou mais adiante no corredor, quando ele subitamente lembrou-se da hora que havia marcado para ela.

Então o currículo não se encontrava em parte alguma e ele não conseguia entender o que podia ter acontecido com o material. Ele lhe disse que falasse com a Srta. Brewer. A Srta. Brewer estava com a classe e não podia ser incomodada, mas a chamaria. A Srta. Brewer não chamou.

Então Kate ligou para Jerry Mason, um membro do conselho de educação e muito provavelmente membro do Círculo Vital.

— Ora, acho que a professora deveria ter um exemplar — disse ele.

Kate estava ficando cansada de ouvir isso.

— Não, ela não tem. Já verifiquei com ela e ela me mandou falar com o Sr. Woodard, que me mandou de volta para falar com a Srta. Brewer.

— Bem, eu não tenho um exemplar.

— Eu estava apenas pensando se por acaso não teria, já que o senhor aprovou o currículo para as séries de primeiro grau.

— Mas a senhora tem algum filho fazendo esse currículo?

— Não, estou apenas tentando ver um exemplar dele.

— Bem, não há muitos deles por aí, e não acho que alguém que deseje possa simplesmente aparecer a qualquer hora para vê-lo. Preferimos trabalhar apenas com os pais. A senhora provavelmente devia marcar uma hora.Kate deu mais umas voltas na ciranda com Jerry Mason, e depois ligou para Betty Hanover, outro membro do conselho de educação.

— Ei, olhe — disse Betty — já passamos por tudo isso antes com ... os marginais religiosos. A cidade resolveu que gosta do currículo, e preferi­ríamos ter um pouco de sossego agora, está bem?

John Kendall não foi melhor.

— Perguntou à Srta. Brewer? São os professores que supostamente são responsáveis por ele. Eles deveriam poder ajudá-la.

Kate desligou o telefone e riscou outro nome. Então, ela soltou um berro simulado.

Se não houvesse outro motivo, esse currículo tinha de merecer ser visto apenas porque tantas pessoas estavam fazendo tanta força para mantê-lo escondido.

Outra carta! Era igualzinha às outras — o mesmo envelope, a mesma letra, a mesma espessa carta dentro em papel pautado de caderno! Lucy agarrou-a da pilha de correspondência que chegava e fê-la deslizar depres­sa para dentro de seu bolso. De onde estavam vindo todas essas cartas? Se isso era uma piada, era certamente uma piada duradoura e nada engraçada.

Se não fosse uma piada, e essas cartas realmente fossem de Sally Roe...

Ela não queria pensar a respeito; era mais fácil nem considerar a possibilidade, e continuar confiando em todas as pessoas em quem agora confiava.

Debbie estava por perto, separando a correspondência de outra sacola. Ela havia parado de trabalhar, e parecia estar olhando atentamente a etiqueta de endereço de uma revista, mas... Para Lucy, parecia que Debbie a estava observando, mas tentando fingir que não.

— Algo errado? — perguntou Lucy.

— Oh, não... nada — respondeu Debbie, voltando-se e enfiando a revista numa das caixas postais.

Elas continuaram separando a correspondência, e nada mais foi dito. Mas Debbie tinha visto tudo.