domingo, 20 de junho de 2021

A isca de satanás 10 - Para o que não os escandalizemos


 Não julguemos mais uns aos outros; pelo contrário, tomai o propósito de  não  pordes  tropeço  ou escândalo ao vosso irmão (Rm 14:13).

 Acabamos de ver como Jesus ofendeu muitos durante suas viagens e ministração. Parece que em quase todos os lugares onde foi as pessoas se sentiram ofendidas. Neste capítulo, desejo analisar o lado irreverente disso.

Jesus e seus discípulos tinham acabado de retornar de Cafarnaum. Haviam completado um circuito ministerial e voltaram para um curto e necessário descanso. Se  havia algum lugar que pudesse ser considerado a base para seu ministério, Cafarnaum era esse lugar. Enquanto estava lá, Simão Pedro foi abordado pelos oficiais responsáveis por coletar as taxas do templo: "Não paga o vosso Mestre as duas dracmas?" (Mt 17:24)

Pedro respondeu que  sim  e  voltou  a  conversar  com Jesus.  Jesus  se  antecipou  à  pergunta  do  coletor  de  impostos e perguntou a Simão Pedro: “'Simão, que te parece? De quem cobram os reis da terra impostos  ou tributos:  dos  seus  filhos ou  dos  estranhos?'  Respondendo  Pedro:  'Dos  estranhos', Jesus lhe disse: `Logo, estão isentos os filhos`” (Mt 17:24)


Jesus argumenta com Pedro que "os filhos estão isentos". Eles  não são responsáveis pelas taxas. Aproveitam os benefícios delas, mas vivem no palácio, que é sustentado pelas taxas. Os filhos comem à mesa do rei e vestem roupas reais, tudo mantido pelas taxas. Eles estão isentos e são sustentados.

Esse oficial recebeu a taxa do templo. Mas quem era o rei ou o dono do templo? Em honra de quem ele foi construído? A resposta: Deus, o Pai. Pedro havia acabado de receber a revelação de Deus , que Jesus era "o Cristo, o Filho do Deus vivo".

Baseando-se nisso, Pedro perguntou: "Se sou filho daquele a quem pertence o templo, então não estou isento de pagar a taxa?" Certamente ele seria isento. Seria totalmente justificado em não pagar a taxa. Mesmo assim, Jesus responde a Simão Pedro:

 Mas, para que não os escandalizemos, vai ao mar, lança o anzol, e o primeiro peixe que fisgar, tira-o; e, abrindo-lhe a boca, acharás um estáter. Toma-o e entrega-lhes por mini ti. (Mt 17:27 - Destaque acrescido).

 Ele acabara de provar sua liberdade. Mas, para não escandalizar, Ele disse a Simão Pedro:  "Vamos  pagar-lhe!" Era outra confirmação da sua liberdade quando instruiu a Pedro que fosse pescar e pegasse o primeiro peixe; em sua boca acharia uma moeda. Deus, o Pai, até mesmo providenciara o dinheiro da taxa.

Jesus é Senhor da Terra. Ele é o Filho de Deus. A Terra e o que nela há foram criados por Ele e estão sujeitos a Ele. Assim, sabia que o dinheiro estaria na boca do peixe. Não teria de trabalhar por aquele dinheiro porque era o Filho. E mesmo assim, decidiu pagar para não escandalizar.


Este é o mesmo Jesus que vimos no capítulo anterior escandalizando as pessoas sem pedir desculpas? Ele provou que estava isento da  taxa do templo,  mas disse: "Para que não os escandalizemos, e pague!” Parece haver alguma inconsistência. Será? Nossa resposta encontra-se no próximo versículo:

 Naquela hora, aproximaram-se de Jesus os discípulos, perguntando: Quem é, porventura, o maior no reino dos céus? E Jesus, chamando uma criança, colocou-a no meio deles. E disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus. Portanto, aquele que se humilhar como esta criança, esse é o maior no reino dos céus (Mt 18:1-4).

 A expressão-chave aqui é "quem se humilhar”. Logo a seguir, Jesus desenvolve essa afirmação dizendo:

 Quem quiser tornar-se grande entre  vós,  será  esse  o que vos sirva... tal como  o  Filho  do  Homem,  que  não veio para ser servido,  mas  para servir e  dar  a sua vida em resgate por muitos (Mt 20:26-28).

 Que afirmação! Ele não veio para ser servido, mas para servir. Ele era o Filho; era livre; não devia nada a ninguém; não estava sujeito a nenhum outro homem. Mesmo assim decidiu usar sua liberdade para servir.

 Liberado para servir

Somos exortados no Novo Testamento  de  que,  como filhos, devemos imitar nosso irmão,  ter  as  mesmas  atitudes que vemos em Jesus.


Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar  ocasião  à carne; sede, antes, servos uns  dos  outros,  pelo  amor (Gl 5:13).

 Uma outra palavra para liberdade é privilégio. Não devemos usar nossa liberdade ou privilégio como filhos do Deus vivo para nossos próprios interesses. A liberdade é usada para servir aos outros. liberdade em servir e cativeiro na escravidão. O escravo é aquele que precisa servir, mas o servo é aquele que vive para servir. Vejamos algumas diferenças entre a atitude do servo e do escravo:

 -  o escravo precisa - O servo tem oportunidade.

-  o escravo faz o mínimo requerido - O servo alcança o potencial máximo.

-  o escravo anda uma milha - O servo anda uma milha extra.

-  o escravo se sente roubado - O servo dá.

-  o escravo é cativo - O servo é livre.

-  o escravo luta por seus direitos - O servo abre mão dos seu direitos.

  vi muitos crentes servirem com uma atitude de ressentimento. Dão com amargura e reclamam quando pagam os impostos. Eles ainda vivem como escravos de uma lei da qual foram libertos. Permanecem escravos em seu próprio coração.

O mais alarmante é que esta lei é feita a partir do Novo Testamento. Eles não possuem o"espírito" dos mandamentos que Jesus deu. Não perceberam que foram liberados para servir. Dessa forma, continuam a lutar por seus próprios interesses, e não pelos interesses dos outros.


Paulo nos dá um exemplo vívido de confronto com essa atitude nas cartas aos Romanos e Coríntios. A liberdade para esses crentes foi desafiada pela comida. Paulo começa exortando-os: "Acolhei ao que é débil na fé, não, porém, para discutir opiniões. Um crê que de tudo pode comer, mas  o débil come legumes" (Rm 14:1, 2).

Jesus esclareceu que o que corrompe não é o que entra pela boca, mas o que sai da boca. Quando Ele faz essa afirmação, todos os alimentos se tornam limpos para os crentes (Mc 7:18, 19).

Paulo diz que havia alguns crentes que eram fracos na fé e ainda não comiam carne com medo de estarem comendo alimentos sacrificados aos ídolos. Embora Jesus tivesse abordado o assunto, essas pessoas não comiam carne com a consciência limpa.

 No tocante à comida sacrificada a  ídolos,  sabemos que o ídolo, de si mesmo, nada é no mundo  e  que não há senão um só Deus [... 1 todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são, todas as coisas e para quem existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também, por ele. Entretanto, não esse conhecimento em todos; porque alguns, por efeito da familiaridade até agora com o ídolo, ainda comem dessas coisas como a ele sacrificadas; e a consciência destes, por ser fraca, vem a contaminar-se (1 Co 8:4, 6, 7).

 Naquelas igrejas os crentes mais fortes na estavam comendo carne de origem  questionável  diante  dos  crentes mais fracos. Isso  estava  causando  um  problema,  muito embora Jesus houvesse purificado aquele alimento.

Os mais fracos não podiam abalar a imagem da carne no altar de um ídolo. Os crentes mais fortes sabiam  que  um ídolo não era nada, e não tinham problema de consciência quando comiam.


Mas parecia que eles estavam mais preocupados em exercer seus direitos como crentes neotestamentários do que com o escândalo que poderiam causar aos seus irmãos. Sem perceber, colocaram uma pedra de tropeço no caminho dos irmãos mais fracos. Essa atitude não está presente no coração do servo. Veja como Paulo se dirige a eles:

 Não nos julguemos mais uns aos outros; pelo contrário, tomai o propósito de não pordes tropeço ou escândalo ao vosso irmão [...] Porque  o  reino  de  Deus não é comida nem bebida, mas justiça,  e  paz,  e  alegria no Espírito Santo (Rm 14:13, 17).

 Ele estava dizendo: "Vamos nos lembrar do que o reino realmente é formado: justiça, paz e alegria  no  Espírito Santo". Todos esses benefícios estavam causando tristeza no novo crente. Os crentes mais fortes não estavam usando sua liberdade para servir, mas como plataforma para os seus "direitos". Tinham conhecimento da liberdade que o Novo Testamento lhes dava. Mas o conhecimento sem amor destrói.

Eles não tinham o  coração  de  Jesus  nesse  assunto. Jesus provou seus direitos relativos às taxas do templo a Pedro e ao restante dos discípulos para exemplificar a importância de se abrir mão da vida para servir. Ele nunca quis que a liberdade fosse uma licença para requerer nossos direitos e fazer com que o outro seja escandalizado e tropece.

Paulo deu esse alerta àqueles que tinham conhecimento de direitos em Cristo sem ter seu coração para servir.

 E assim,  por  causa  do  teu saber,  perece  o  irmão fraco, pelo Cristo morreu. E deste modo, pecando contra os irmãos, golpeando-lhes a consciência fraca, é contra Cristo que pecais (1ªCo 8:11,12).

Podemos usar nossa liberdade para pecar. Como? Ferindo os fracos de consciência, fazendo com que os pequeninos de Cristo se escandalizem e tropecem.

 Renunciando aos nossos direitos

Após Jesus ter estabelecido sua liberdade em relação à taxa templo, foi cuidadoso em cobrar dos seus discípulos a importância humildade.

 Qualquer, porém, que fizer tropeçar a um destes pequeninos que  crêem em mim,  melhor lhe fora que  se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e fosse afogado na profundo do mar. Ai  do mundo, por causa dos escândalos;  porque  é  inevitável que venham escândalos, mas  ai  do  homem  pelo  qual vem escândalo! Portanto, se a tua  mão  ou  o  teu  pé  te faz tropeçar, corta-o e lança-o fora de ti; melhor  é entrares na vida manco aleijado  do  que,  tendo  duas mãos  ou  dois  pés,  seres  lançado  fogo  eterno.  Se  um dos teus olhos  te  faz  tropeçar,  arranca-o  lança-o  fora de ti; melhor é entrares na vida com um dos te olhos do que, tendo dois, seres lançado  no  inferno  de  fogo. Vede não desprezeis a qualquer destes pequeninos; porque eu vos afirmo que os seus anjos nos céus vêem incessantemente a face meu Pai celeste (Mt 18:6-10).

 Este capítulo inteiro de Mateus é sobre ofensas, escândalos. Jesus está claramente falando para nos livrarmos de qualquer causa de pecado, mesmo que seja um dos privilégios do Novo Testamento. Se alguma coisa faz seu irmão mais fraco pecar, corte-a pela raiz.

Você deve estar se perguntando por que Jesus ofendeu tantos, conforme vimos no capítulo anterior deste livro. A resposta é simples: Jesus ofendeu algumas pessoas como


resultado da obediência ao Pai e no servir aos outros. Suas ofensas não vieram da imposição de seus direitos.

Os fariseus ficaram escandalizados quando Ele curou no sábado. Seus discípulos ficaram escandalizados com a verdade que seu Pai lhe mandou pregar. Maria e Marta ficaram ofendidas quando Ele se demorou para ir até onde Lázaro estava. Mas você não verá Jesus ofendendo e escandalizando outros quando o serviam.

Paulo, em sua carta aos Coríntios,  deu  este  alerta: "Vede, porém, que esta vossa liberdade não venha, de algum modo, a ser tropeço para os fracos” (1 Co 8:9).

Nossa liberdade nos foi concedida para que servíssemos e renunciássemos a nossa vida. Fomos chamados para construir, e não para destruir. Nem a liberdade nos foi dada para que colhêssemos para nós mesmos. Temos agido desse modo, por isso muitos se escandalizam com nosso estilo de vida cristã.

Novamente, ouça o alerta que nos é dado em 1 Coríntios 8:9: “Vede, porém, que vossa liberdade não venha, de algum modo, a ser tropeço para os fracos".

Eis um exemplo de como tenho visto esse mandamento ser quebrado. Na minha segunda viagem à Indonésia, pude levar Lisa e meus filhos, acompanhados de uma babá. Chegamos em Denpasar, Báli, uma ilha turística.

Um membro do conselho da igreja que estávamos visitando era dono de um hotel modesto, numa parte muito barulhenta da cidade. Havíamos viajado uma grande distância e ainda não tínhamos conseguido dormir. Estávamos exaustos. Naquela noite, fomos acordados por barulhos muito altos e cães latindo. Só passamos uma noite naquele hotel e não conseguimos dormir.

No dia seguinte, seguimos para Java e trabalhamos nas duas semanas seguintes, numa rotina estafante. Tivemos só um dia livre naquelas duas semanas e aproveitamos para


viajar. Num período vinte e quatro horas, pregávamos cinco vezes numa igreja de trinta mil membros.

Ao final da viagem, teríamos de voltar por Báli. O pastor nos informou que ficaríamos no mesmo hotel do membro do conselho. Não estávamos muito animados em ficar naquelas mesmas condições novamente, após duas semanas sem parar.

No café da manhã do dia em que partiríamos, uma querida senhora nos ofereceu para pagar nossa estada num luxuoso hotel em Bali. Fiquei muito animado, porque poderíamos descansar e ficar num lindo lugar.

Quando saímos do restaurante para arrumar as malas, Lisa me disse que não se sentiu bem em aceitar a oferta daquela senhora. intérprete e eu discutimos o assunto e chegamos à conclusão de que não havia problema em aceitar. Novamente, no avião de Java a Báli, ela disse que não achava que estávamos fazendo a coisa certa.

Fui tolo em não ouvi-la. Disse-lhe que não haveria custo para igreja e que tudo ficaria bem. Quando chegamos a Báli, ela implorou mais uma vez e eu a ignorei. Quando encontramos o pastor, eu lhe disse que não precisaríamos ficar no hotel do membro do conselho por causa da oferta de uma senhora. Ele pareceu incomodado com o que eu disse, então lhe perguntei o que estava errado.

Felizmente, ele foi sincero para comigo e disse: "John, isso ofenderá o senhor e sua família. Eles já reservaram o quarto para vocês e o hotel está lotado".

Eu, aparentemente, havia ofendido o pastor porque não gostei do que havia arrumado para nós. Finalmente, eu lhe disse que ficaríamos no hotel do senhor e não aceitaríamos a oferta da senhora.

O Senhor teve de lidar com minha atitude. Sabia que o pastor estava magoado. Percebi que exigir meus  direitos havia ofendido o irmão e que isso era pecado. Eu lhe perdi


perdão. Ele me perdoou. Espero não ter de aprender  essa lição outra vez.

 O teste que edifica

O apóstolo Paulo, na carta aos Romanos, resumiu o coração de Deus sobre isso:

 Assim, pois, seguimos as coisas da paz e  também  as da edificação de uns para com os outros (Rm 14:19).

 Este deve ser nosso alvo: não fazer com que o outro tropece por causa de nossa liberdade.  O que fazemos pode até ser permissível segundo a Bíblia. Mas devemos perguntar-nos: isso edifica os outros ou a mim?

 Todas as coisas são lícitas, mas nem  todas  convêm; todas são lícitas, mas nem todas edificam.  Ninguém busque o seu próprio interesse, e sim o de outrem [...] Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para  a  glória  de  Deus.  Não vos torneis causa  de  tropeço  nem  para  judeus,  nem para gentios, nem tampouco para  a  igreja  de  Deus, assim como também eu procuro, em tudo, ser agradável a todos, não buscando o meu próprio interesse, mas o  de  muitos,  para  que  sejam  salvos  (1 Co 10:23-33 - Destaque acrescido).

 Quero encorajar  você  a  deixar  o  Espírito  Santo  filtrar sua vida  por  meio  desta  passagem.  Deixe  que  Ele  mostre seus motivos escondidos  que buscam  o  seu  próprio  interesse e não o de outros. Não importa qual área na vida  você  vai seguir; aceite o seu desafio de viver como um servo de todos.

Use sua liberdade em Cristo para libertar os outros, não para reivindicar seus direitos. Esta era uma das diretrizes do ministério de Paulo, que escreveu: "Não dando vós nenhum motivo de escândalo em coisa alguma, para que o ministério não seja censurado".