"Como é que vamos tirar isso tudo daqui?" perguntou
Gwen certa manhã, quando veio comigo para olhar a propriedade.
E a seguir ela mesma respondeu à pergunta.
"Por que você não pede a alguns dos pastores para
fazerem um mutirão de jovens?"
E foi isso mesmo que fizemos. Num sábado nublado, lá pelo fim
de janeiro, logo cedo, três carros pararam à porta e quinze rapazes e moças
saíram deles, rindo, brincando e dizendo que acabariam num instante com
qualquer quantidade de lixo. Isso diziam enquanto contemplavam a casa por
fora. Quando entramos, e os levei ao porão, podia ver o entusiasmo desaparecer
de seus rostos.
A cada passo era preciso levantar o pé uns trinta centímetros,
para conseguir passar. Eles deslizavam por cima de montes de jornais e
garrafas velhas, até ficarem sem fôlego, só de perceberem o tamanho da sua
tarefa.
Mas os jovens trabalharam de verdade. Começaram na frente,
primeiramente abrindo um caminho; depois, sala por sala, prosseguiram
tenazmente, até que puseram tudo no quintal.
A essa altura, Paul DiLena tomou a direção. Havia pedido ao
departamento de vigilância sanitária que mandasse pelo menos quatro caminhões
para retirar o lixo dali.
Mais tarde, Paul contou-me do pequeno drama com o chefe dos
motoristas que, para ele, falava mais alto sobre o espírito do nosso projeto,
do que qualquer coisa até então — o Departamento de Higiene se recusou a
receber a gorjeta.
Paul disse que os caminhões tinham chegado pontualmente, mas
que os homens não começaram a trabalhar. O lixo aumentava no passeio e na rua,
e ainda os homens permaneciam imóveis. Quando Paul viu o que estava
acontecendo, entendeu imediatamente.
— Muito bem, disse ele, quanto é que vocês querem?
— Trinta dólares, foi a resposta rápida.
Paul, acostumado com a atitude dos moradores de uma grande
cidade, concordou. Preferia pagar do seu próprio bolso depois de terminado o
trabalho, do que ver a obra sendo atrasada. Horas mais tarde, o último caminhão
saiu. Seis caminhões haviam descido a rua chiando sob o peso da carga. O chefe
veio perguntar a Paul se tudo estava em ordem.
— Perfeito, disse Paul. Vocês trabalharam bem, agora decerto
querem receber seu dinheiro, e levou a mão até a carteira.
— Que dinheiro? disse ele rindo nervosamente, uma risada que
procura encobrir emoção maior. Olha, meu senhor, aqueles rapazes lá dentro me
contaram o que vocês vão fazer aqui. Eu tenho um filho moço. O senhor acha que
agora aceitaríamos o seu dinheiro?
Depois disso, entrou no caminhão, acelerou-o ruidosamente e
saiu com pose de "forte"!
Ao fim de três semanas, estávamos finalmente prontos para começar o trabalho, na casa propriamente dita. Pintores de várias igrejas vieram ajudar, e pouco a pouco cobrimos as "obras de arte", com as quais os alunos do colégio já mencionado haviam enfeitado as paredes.
Depois, vieram os encanadores tinham de arrebentar as paredes
para substituir canos furados. Tudo isso custou muito dinheiro, que eu tive de
conseguir voando por todo o país, fazendo apelos. Que decepção tivemos ao
saber que antes de receber o "Habite-se", era necessário instalar um
sistema completo de extinção de incêndios. Preço: 5.000 dólares.
Lá fui eu novamente, roubando tempo ao trabalho que eu
realmente queria fazer, para conseguir o dinheiro. Mesmo assim, sozinho nunca
o teria feito. Todos os membros da comissão ajudaram como puderam.
Um ministro, por exemplo, Grady Finnin, viajou pelo país,
apresentando as nossas necessidades. Outro membro da comissão era Martin Karl,
um cantor profissional de muito sucesso. Imagine quanto dinheiro ele deixou de
ganhar, para nos ajudar como embaixador musical.
Martin levou esse desafio por quase todo o país, falando a
respeito do Centro que estava se iniciando em Nova Iorque.
Finalmente o último pintor e o último encanador deixaram o
Centro, e nós contemplamos a transformação realizada. Com menos de cem dólares
no banco, o Senhor nos dera essa casa, que agora queríamos pôr em uso
imediatamente. Queríamos enchê-la de filhos de Deus. Antes disso, seria preciso
arrumar um lugar para seus filhos se assentarem. Tínhamos um belo prédio, mas
não possuíamos nada para colocar dentro dele.
Foi a essa altura que eu reconheci que era a vontade de Deus
que várias pessoas tomassem parte de nosso trabalho. No início era mais ou
menos um trabalho das Assembléias de Deus, mas logo tínhamos na comissão um
episcopal, um presbiteriano, um batista e um membro da Igreja Holandesa
Reformada. Também havíamos chamado a atenção de vários homens de negócio, de
muita influência.
Um, por exemplo, era o Sr. Walter Hoving, presidente da
Bonwit Teller e também da Tiffany"s, em Nova Iorque. O Sr. e a Sra. Hoving
nos apresentaram a pessoas que nunca poderíamos ter conhecido, sem seu
auxílio.
Certa tarde, a Sra. Hoving ofereceu um almoço no elegante
River Club, ao qual convidou "apenas algumas pessoas que devem conhecer o
seu trabalho". Apareceram cinqüenta pessoas. Um antigo viciado em drogas
levantou-se, e contou simplesmente como a sua vida fora mudada. Não houve nem
uma pessoa naquela sala que não se comovesse com a sua história.
Walter Hoving tornou-se o presidente da nossa junta de
conselheiros.
"Já que o senhor agora é um dos nossos, Sr.
Hoving", disse Paul DiLena, "gostaríamos de convidá-lo para uma
refeição. Gosta de lasanha?"
Foi a Sra. Hoving quem respondeu. Gostava muito de lasanha,
mas era tão difícil encontrar um lugar que servisse a lasanha original. E foi
assim que os Hoving foram convidados à casa dos DiLena, para uma refeição
realmente deliciosa de especialidades italianas feitas em casa. Sentados todos
ao redor da mesa dos DiLena, eu não podia deixar de elevar a Deus uma oração de
ação de graças, por estar trazendo pessoas de ambientes tão diferentes para
esse trabalho.
Outro comerciante amigo do Centro Desafio Jovem era o Sr.
Grant Simmons Jr., presidente da Companhia de Camas Simmons. Fomos apresentados
ao Sr. Simmons pelo casal Hoving e fizemos a ele um pedido especial.
Precisávamos de vinte camas.
Durante uma hora ficamos no escritório do Sr. Simmons,
contando-lhe das nossas esperanças e do modo estranho pelo qual Deus estava
agindo na cidade. O Sr. Simmons foi generoso, não apenas com o seu tempo, mas
também com os seus bens.
Daquele dia em diante, muitos meninos acostumados a dormir
nos bancos do metrô já dormiram no Centro, nas camas e colchões Simmons. Para
mim, uma das verdadeiras funções do nosso ministério é fazer com que pessoas,
como Walter Hoving, Grant Simmons e Clem Stone se interessem pelo trabalho dos
pentecostais. Várias vezes, ouvi comentários como este:
"Devo confessar", disse um dos membros da nossa
comissão, que fazia parte de uma Igreja Episcopal, "que fiquei um pouco
chocado quando, a princípio, ouvi seus jovens "Louvando a Deus" e vi
como levantavam as mãos quando oravam. Mas é preciso confessar também, que
havia qualquer coisa muito real tocando nosso coração. Nós, episcopais, falamos
da presença real de Cristo. Ele está aqui nesta casa."
Esse foi o maior elogio que o nosso trabalho já recebeu. É
esta Presença que torna possível o trabalho do Centro Desafio Jovem. O
sentimento daquela Presença tem crescido constantemente, mas seu crescimento
maior se deu quando começamos a transformar nossos sonhos em realidade.
Fizemos planos para usar o lar da seguinte maneira:
Teríamos vinte obreiros no Centro. Todos os dias esses jovens
se levantariam, tomariam café, passando a manhã em estudo bíblico e oração.
Seria uma parte importante do nosso trabalho. Há muito que eu descobrira que
muita correria, sem uma base de meditação silenciosa, produz muito pouco.
Depois do almoço, nosso trabalho na rua começaria. Dois ou
três sairiam juntos, andando por uma rota preestabelecida, prontos para observar
qualquer sinal de necessidade. Estariam preparados para conhecer os viciados
em drogas; procurariam os jovens alcoólatras, e as jovens prostitutas.
Conversariam com membros de quadrilhas, principalmente das quadrilhas de
briga.
Sairiam não com a intenção de converter alguém, mas com o
objetivo de ajudar em qualquer necessidade. As conversões viriam a seu tempo.
Se realmente satisfizéssemos uma necessidade humana, o mundo seguiria o
caminho até a nossa porta.
A maioria dos jovens que encontrássemos dessa maneira, jamais
moraria no Centro. Eles seriam levados a um pastor que morasse perto e
trabalharíamos por seu intermédio. Teríamos um registro cuidadoso e entraríamos
em contato com eles regularmente, até que ficasse claro que poderiam
prosseguir sozinhos.
Alguns, no entanto, precisariam de atenção especial. Seriam
levados ao Centro. Os rapazes ficariam no dormitório do último andar, com os
membros masculinos do nosso pessoal; as meninas, no do segundo andar, com as
obreiras e os membros casados do nosso pessoal. Pensávamos em trabalhar
principalmente com rapazes, mas se encontrássemos uma jovem em dificuldade,
certamente a receberíamos.
A chave para todo esse plano estava com os obreiros. Onde
achar vinte jovens alegres, dinâmicos, simpáticos, saudáveis e animados, que
trabalhassem a dez dólares por semana? (Que é o que permitia o orçamento.)
Por essa quantia irrisória, eles teriam de arriscar até a
própria vida. Quando ainda começava a pensar no problema dos obreiros, um dos
nossos rapazes foi esfaqueado na rua.
Seu nome era Carlos, e havia sido membro de uma das piores
quadrilhas de Nova Iorque, os Suicidas. Depois que sua vida foi transformada,
Carlos quis voltar à sua quadrilha, para contar-lhes o que acontecera com ele.
Certo dia, saiu com essa intenção. Logo que foi encontrado por membros de sua
antiga quadrilha, Carlos foi rodeado.
— Pois é, ouvi falar que você agora virou religioso, disse o
chefe dos Suicidas.
— Certo, disse Carlos.
— E ouvi falar que você não briga mais.
— Certo, disse Carlos.
— Pois então agora vai brigar, disse o chefe, tirando o
punhal, se não, eu apago você.
Anos de experiência haviam ensinado a Carlos que esse desafio
era verdadeiro. Pulou para o lado e arrancou a antena de um automóvel que
estava ali perto, e que é uma perigosa arma improvisada. Depois, subitamente,
Carlos mudou de idéia Quebrou a antena no joelho, e jogando-a no chão, disse:
— Não, não vou brigar.
Com isso o chefe dos Suicidas esfaqueou Carlos. Enfiou seu
punhal bem fundo entre as suas costelas. O sangue jorrou da ferida, enquanto
Carlos caía. Os Suicidas correram, deixando Carlos a gritar por socorro. Chegou
ao Hospital Cumberland em estado gravíssimo. Quando afinal recebeu alta, um
médico amigo aconselhou-o a não pregar a rapazes que carregavam armas.
Carlos não lhe deu atenção, e voltou imediatamente ao seu
trabalho nas ruas. Talvez por causa desse incidente tornou-se um dos
nossos obreiros mais bem-sucedidos.
Mas quem iria correr essa espécie de risco? Quantos rapazes
como Carlos encontraríamos?
Como em resposta a essa pergunta, certa manhã, logo depois da
compra da propriedade, recebi um telegrama da Escola Bíblica Central em
Springfield, Missouri, convidando-me para ir lá fazer uma palestra. Aceitei o
convite, fui até lá, e apresentei aos estudantes o desafio das nossas ruas. Foi
um culto maravilhoso, no qual todos sentiram a mesma influência suave do
Espírito Santo.
Em seguida, o presidente da escola levantou-se e fez uma
afirmação surpreendente, dizendo que considerava o nosso trabalho o que havia
de mais semelhante ao desafio da era apostólica. Ofereceu auxílio financeiro a
qualquer aluno que quisesse ir a Nova Iorque trabalhar conosco, nas ruas. Os
interessados deveriam encontrar-se comigo na biblioteca da escola.
Quando cheguei à biblioteca alguns minutos depois, setenta
jovens estavam à minha espera, em fila!
Desses setenta, eu sabia que só poderíamos usar vinte, portanto
comecei a pintar um quadro realmente negro. Não prometi nenhum dinheiro. Até a
passagem para Nova Iorque eles mesmos teriam de pagar. O que poderíamos
oferecer era um lugar para morar e alimentação.
Disse que arriscariam a própria vida. Contei-lhes acerca de
Carlos e outros dois rapazes que haviam sido espancados nas ruas. Contei-lhes
que haveria muito trabalho manual, como lavar pratos, esfregar o chão e acabar
de aprontar o Centro.
Para minha grande surpresa, apenas vinte desistiram. Afinal,
tive de deixar a escolha com os professores da escola.
Quando deixei Springfield, havíamos escolhido dezesseis
jovens que iriam a Nova Iorque como obreiros. Os outros quatro foram escolhidos
do Colégio Lee, em Tennessee. Algumas semanas depois, eles começaram a chegar,
um por um, carregando suas malinhas, e cheios de curiosidade.
Pareciam todos um pouco amedrontados pelas coisas novas que
viam em Nova Iorque; e quando levei-os ao quarto austero e desprovido de
conforto, sei que muitos pensaram: "Onde é que eu vim parar!" Aqui
estão trechos de uma carta escrita por uma das nossas jovens, logo depois da
sua chegada:
"Querida família:
"Cumprimentos da cidade de Nova Iorque! Cheguei à grande
cidade às 20:15h, ontem à noite. O lugar estava cheio de gente, mas Deus me
ajudou. O telefone do Centro ainda não está na lista, mas consegui descobrir o
número, e vieram me buscar. Não tive problemas no caminho. Nenhum ônibus me
atrasou. De Chicago a Nova Iorque paramos para três refeições, além de mais
duas paradas; foi bastante confortável.
"Meus planos de serviço aqui são os seguintes:
"1. Evangelismo pessoal entre moças.
"Segunda — Livre.
"Terça — Evangelismo nas ruas e cultos ao ar livre.
"Quarta — Visitas a hospitais de adolescentes.
"Quinta — Visitas a moças presas.
"Sexta — Evangelismo nas ruas e cultos ao ar livre.
"Sábado — Trabalho com igrejas denominacionais.
"Domingo — Trabalho com igrejas pentecostais.
"Houve três assassinatos na seção de José, esta semana.
"Preciso ajudar a fazer o jantar. Não se esqueçam de ir
à igreja. Eu amo vocês."
— Bem, querida, estamos prontos para começar. Estávamos na
pequena capela do Centro. Era a antiga sala de visitas da casa, e havia uma
grande lareira com uma linda cornija entalhada. Enquanto conversava com Gwen,
eu me apoiava na cornija.
Falamos daquela noite, apenas um ano e meio atrás, quando eu
ficara no quintal da Igreja em Philipsburg, observando o trigo balançar ao
vento. Agora, o Senhor nos trouxera ao campo de colheita, e já havia fornecido
as ferramentas — vinte jovens dispostos, e confiança no poder do Espírito Santo
para mudar vidas.
— Querido, disse Gwen, olhe aqui!
Endireitei-me e olhei para ver o que ela apontava na cornija.
Logo vi.
Maravilhosamente entalhado na lareira da nossa capela, estava
o baixo-relevo de um feixe de trigo, colhido, amarrado, e pronto para ser
armazenado.
