terça-feira, 8 de junho de 2021

A cruz e o punhal - capítulo 15


 É incrível quanto lixo um velho sozinho pode ajuntar! Descobrimos cômodos que nós nem sabíamos existir, porque a porta estava tampada por trapos e papéis que iam até o teto.

"Como é que vamos tirar isso tudo daqui?" perguntou Gwen certa manhã, quando veio comigo para olhar a propriedade.

E a seguir ela mesma respondeu à pergunta.

"Por que você não pede a alguns dos pastores para fazerem um mutirão de jovens?"

E foi isso mesmo que fizemos. Num sábado nublado, lá pelo fim de janeiro, logo cedo, três carros pararam à porta e quinze rapazes e moças saíram deles, rindo, brincando e dizendo que acabariam num instante com qualquer quantidade de lixo. Isso diziam en­quanto contemplavam a casa por fora. Quando entramos, e os levei ao porão, podia ver o entusiasmo desaparecer de seus rostos.

A cada passo era preciso levantar o pé uns trinta centíme­tros, para conseguir passar. Eles deslizavam por cima de mon­tes de jornais e garrafas velhas, até ficarem sem fôlego, só de perceberem o tamanho da sua tarefa.

Mas os jovens trabalharam de verdade. Começaram na frente, primeiramente abrindo um caminho; depois, sala por sala, prosseguiram tenazmente, até que puseram tudo no quintal.

A essa altura, Paul DiLena tomou a direção. Havia pedido ao departamento de vigilância sanitária que mandasse pelo menos quatro caminhões para retirar o lixo dali.

Mais tarde, Paul contou-me do pequeno drama com o chefe dos motoristas que, para ele, falava mais alto sobre o espírito do nosso projeto, do que qualquer coisa até então — o Departamento de Higiene se recusou a receber a gorjeta.

Paul disse que os caminhões tinham chegado pontualmente, mas que os homens não começaram a trabalhar. O lixo aumentava no passeio e na rua, e ainda os homens permaneciam imóveis. Quando Paul viu o que estava acontecendo, entendeu imediatamente.

— Muito bem, disse ele, quanto é que vocês querem?

— Trinta dólares, foi a resposta rápida.

Paul, acostumado com a atitude dos moradores de uma grande cidade, concordou. Preferia pagar do seu próprio bolso depois de terminado o trabalho, do que ver a obra sendo atrasada. Horas mais tarde, o último caminhão saiu. Seis caminhões haviam descido a rua chiando sob o peso da carga. O chefe veio perguntar a Paul se tudo estava em ordem.

— Perfeito, disse Paul. Vocês trabalharam bem, agora decerto querem receber seu dinheiro, e levou a mão até a carteira.

— Que dinheiro? disse ele rindo nervosamente, uma risada que procura encobrir emoção maior. Olha, meu senhor, aque­les rapazes lá dentro me contaram o que vocês vão fazer aqui. Eu tenho um filho moço. O senhor acha que agora aceitaríamos o seu dinheiro?

Depois disso, entrou no caminhão, acelerou-o ruidosamente e saiu com pose de "forte"!

Ao fim de três semanas, estávamos finalmente prontos para começar o trabalho, na casa propriamente dita. Pintores de várias igrejas vieram ajudar, e pouco a pouco cobrimos as "obras de arte", com as quais os alunos do colégio já mencionado haviam enfeitado as paredes.

Depois, vieram os encanadores tinham de arrebentar as paredes para substituir canos furados. Tudo isso custou muito dinheiro, que eu tive de conseguir vo­ando por todo o país, fazendo apelos. Que decepção tivemos ao saber que antes de receber o "Habite-se", era necessário instalar um sistema completo de extinção de incêndios. Preço: 5.000 dólares.

Lá fui eu novamente, roubando tempo ao tra­balho que eu realmente queria fazer, para conseguir o dinhei­ro. Mesmo assim, sozinho nunca o teria feito. Todos os mem­bros da comissão ajudaram como puderam.

Um ministro, por exemplo, Grady Finnin, viajou pelo país, apresentando as nos­sas necessidades. Outro membro da comissão era Martin Karl, um cantor profissional de muito sucesso. Imagine quanto di­nheiro ele deixou de ganhar, para nos ajudar como embaixa­dor musical.

Martin levou esse desafio por quase todo o país, falando a respeito do Centro que estava se iniciando em Nova Iorque.

Finalmente o último pintor e o último encanador deixaram o Centro, e nós contemplamos a transformação realizada. Com menos de cem dólares no banco, o Senhor nos dera essa casa, que agora queríamos pôr em uso imediatamente. Queríamos enchê-la de filhos de Deus. Antes disso, seria preciso arrumar um lugar para seus filhos se assentarem. Tínhamos um belo prédio, mas não possuíamos nada para colocar dentro dele.

Foi a essa altura que eu reconheci que era a vontade de Deus que várias pessoas tomassem parte de nosso trabalho. No início era mais ou menos um trabalho das Assembléias de Deus, mas logo tínhamos na comissão um episcopal, um presbiteria­no, um batista e um membro da Igreja Holandesa Reformada. Também havíamos chamado a atenção de vários homens de negócio, de muita influência.

Um, por exemplo, era o Sr. Walter Hoving, presidente da Bonwit Teller e também da Tiffany"s, em Nova Iorque. O Sr. e a Sra. Hoving nos apresentaram a pessoas que nunca podería­mos ter conhecido, sem seu auxílio.

Certa tarde, a Sra. Hoving ofereceu um almoço no elegante River Club, ao qual convidou "apenas algumas pessoas que devem conhecer o seu trabalho". Apareceram cinqüenta pessoas. Um antigo viciado em drogas levantou-se, e contou simplesmente como a sua vida fora mudada. Não houve nem uma pessoa naquela sala que não se comovesse com a sua história.

Walter Hoving tornou-se o presidente da nossa junta de conselheiros.

"Já que o senhor agora é um dos nossos, Sr. Hoving", disse Paul DiLena, "gostaríamos de convidá-lo para uma refeição. Gosta de lasanha?"

Foi a Sra. Hoving quem respondeu. Gostava muito de lasanha, mas era tão difícil encontrar um lugar que servisse a lasanha original. E foi assim que os Hoving foram convidados à casa dos DiLena, para uma refeição realmente deliciosa de especialidades italianas feitas em casa. Sentados todos ao redor da mesa dos DiLena, eu não podia deixar de elevar a Deus uma oração de ação de graças, por estar trazendo pessoas de ambientes tão diferentes para esse trabalho.

Outro comerciante amigo do Centro Desafio Jovem era o Sr. Grant Simmons Jr., presidente da Companhia de Camas Simmons. Fomos apresentados ao Sr. Simmons pelo casal Hoving e fizemos a ele um pedido especial. Precisávamos de vinte camas.

Durante uma hora ficamos no escritório do Sr. Simmons, contando-lhe das nossas esperanças e do modo estranho pelo qual Deus estava agindo na cidade. O Sr. Simmons foi generoso, não apenas com o seu tempo, mas também com os seus bens.

Daquele dia em diante, muitos meninos acostumados a dormir nos bancos do metrô já dormiram no Centro, nas camas e colchões Simmons. Para mim, uma das verdadeiras funções do nosso ministério é fazer com que pessoas, como Walter Hoving, Grant Simmons e Clem Stone se interessem pelo trabalho dos pentecostais. Várias vezes, ouvi comentários como este:

"Devo confessar", disse um dos membros da nossa comissão, que fazia parte de uma Igreja Episcopal, "que fiquei um pouco chocado quando, a princípio, ouvi seus jovens "Louvando a Deus" e vi como levantavam as mãos quando oravam. Mas é preciso confessar também, que havia qualquer coisa muito real tocando nosso coração. Nós, episcopais, falamos da pre­sença real de Cristo. Ele está aqui nesta casa."

Esse foi o maior elogio que o nosso trabalho já recebeu. É esta Presença que torna possível o trabalho do Centro Desafio Jovem. O sentimento daquela Presença tem crescido constan­temente, mas seu crescimento maior se deu quando começa­mos a transformar nossos sonhos em realidade.

Fizemos planos para usar o lar da seguinte maneira:

Teríamos vinte obreiros no Centro. Todos os dias esses jo­vens se levantariam, tomariam café, passando a manhã em es­tudo bíblico e oração. Seria uma parte importante do nosso trabalho. Há muito que eu descobrira que muita correria, sem uma base de meditação silenciosa, produz muito pouco.

Depois do almoço, nosso trabalho na rua começaria. Dois ou três sairiam juntos, andando por uma rota preestabelecida, prontos para observar qualquer sinal de necessidade. Estariam prepa­rados para conhecer os viciados em drogas; procurariam os jo­vens alcoólatras, e as jovens prostitutas. Conversariam com mem­bros de quadrilhas, principalmente das quadrilhas de briga.

Sairiam não com a intenção de converter alguém, mas com o objetivo de ajudar em qualquer necessidade. As conversões viriam a seu tempo. Se realmente satisfizéssemos uma necessi­dade humana, o mundo seguiria o caminho até a nossa porta.

A maioria dos jovens que encontrássemos dessa maneira, ja­mais moraria no Centro. Eles seriam levados a um pastor que morasse perto e trabalharíamos por seu intermédio. Teríamos um registro cuidadoso e entraríamos em contato com eles regular­mente, até que ficasse claro que poderiam prosseguir sozinhos.

Alguns, no entanto, precisariam de atenção especial. Seriam levados ao Centro. Os rapazes ficariam no dormitório do últi­mo andar, com os membros masculinos do nosso pessoal; as meninas, no do segundo andar, com as obreiras e os membros casados do nosso pessoal. Pensávamos em trabalhar principal­mente com rapazes, mas se encontrássemos uma jovem em dificuldade, certamente a receberíamos.

A chave para todo esse plano estava com os obreiros. Onde achar vinte jovens alegres, dinâmicos, simpáticos, saudáveis e animados, que trabalhassem a dez dólares por semana? (Que é o que permitia o orçamento.)

Por essa quantia irrisória, eles teriam de arriscar até a própria vida. Quando ainda começava a pensar no problema dos obreiros, um dos nossos rapazes foi esfaqueado na rua.

Seu nome era Carlos, e havia sido membro de uma das piores quadrilhas de Nova Iorque, os Suicidas. Depois que sua vida foi transformada, Carlos quis voltar à sua quadrilha, para contar-lhes o que acontecera com ele. Certo dia, saiu com essa intenção. Logo que foi encontrado por membros de sua antiga quadrilha, Carlos foi rodeado.

— Pois é, ouvi falar que você agora virou religioso, disse o chefe dos Suicidas.

— Certo, disse Carlos.

— E ouvi falar que você não briga mais.

— Certo, disse Carlos.

— Pois então agora vai brigar, disse o chefe, tirando o punhal, se não, eu apago você.

Anos de experiência haviam ensinado a Carlos que esse desafio era verdadeiro. Pulou para o lado e arrancou a antena de um automóvel que estava ali perto, e que é uma perigosa arma improvisada. Depois, subitamente, Carlos mudou de idéia Quebrou a antena no joelho, e jogando-a no chão, disse:

— Não, não vou brigar.

Com isso o chefe dos Suicidas esfaqueou Carlos. Enfiou seu punhal bem fundo entre as suas costelas. O sangue jorrou da ferida, enquanto Carlos caía. Os Suicidas correram, deixando Carlos a gritar por socorro. Chegou ao Hospital Cumberland em estado gravíssimo. Quando afinal recebeu alta, um médico amigo aconselhou-o a não pregar a rapazes que carregavam armas.

Carlos não lhe deu atenção, e voltou imediatamente ao seu trabalho nas ruas. Talvez por causa desse incidente tornou-se um dos nossos obreiros mais bem-sucedidos.

Mas quem iria correr essa espécie de risco? Quantos rapazes como Carlos encontraríamos?

Como em resposta a essa pergunta, certa manhã, logo depois da compra da propriedade, recebi um telegrama da Escola Bíblica Central em Springfield, Missouri, convidando-me para ir lá fazer uma palestra. Aceitei o convite, fui até lá, e apresentei aos estudantes o desafio das nossas ruas. Foi um culto maravilhoso, no qual todos sentiram a mesma influência suave do Espírito Santo.

Em seguida, o presidente da escola levantou-se e fez uma afirmação surpreendente, dizendo que considerava o nosso tra­balho o que havia de mais semelhante ao desafio da era apostólica. Ofereceu auxílio financeiro a qualquer aluno que quisesse ir a Nova Iorque trabalhar conosco, nas ruas. Os interessados deveriam encontrar-se comigo na biblioteca da escola.

Quando cheguei à biblioteca alguns minutos depois, setenta jovens estavam à minha espera, em fila!

Desses setenta, eu sabia que só poderíamos usar vinte, por­tanto comecei a pintar um quadro realmente negro. Não pro­meti nenhum dinheiro. Até a passagem para Nova Iorque eles mesmos teriam de pagar. O que poderíamos oferecer era um lugar para morar e alimentação.

Disse que arriscariam a pró­pria vida. Contei-lhes acerca de Carlos e outros dois rapazes que haviam sido espancados nas ruas. Contei-lhes que haveria muito trabalho manual, como lavar pratos, esfregar o chão e acabar de aprontar o Centro.

Para minha grande surpresa, apenas vinte desistiram. Afi­nal, tive de deixar a escolha com os professores da escola.

Quando deixei Springfield, havíamos escolhido dezesseis jovens que iriam a Nova Iorque como obreiros. Os outros quatro foram escolhidos do Colégio Lee, em Tennessee. Algumas semanas depois, eles começaram a chegar, um por um, carre­gando suas malinhas, e cheios de curiosidade.

Pareciam todos um pouco amedrontados pelas coisas novas que viam em Nova Iorque; e quando levei-os ao quarto austero e desprovido de conforto, sei que muitos pensaram: "Onde é que eu vim parar!" Aqui estão trechos de uma carta escrita por uma das nossas jovens, logo depois da sua chegada:

"Querida família:

"Cumprimentos da cidade de Nova Iorque! Cheguei à gran­de cidade às 20:15h, ontem à noite. O lugar estava cheio de gente, mas Deus me ajudou. O telefone do Centro ainda não está na lista, mas consegui descobrir o número, e vieram me buscar. Não tive problemas no caminho. Nenhum ônibus me atrasou. De Chicago a Nova Iorque paramos para três refei­ções, além de mais duas paradas; foi bastante confortável.

"Meus planos de serviço aqui são os seguintes:

"1. Evangelismo pessoal entre moças.

"Segunda — Livre.

"Terça — Evangelismo nas ruas e cultos ao ar livre.       

"Quarta — Visitas a hospitais de adolescentes.

"Quinta — Visitas a moças presas.

"Sexta — Evangelismo nas ruas e cultos ao ar livre.

"Sábado — Trabalho com igrejas denominacionais.

"Domingo — Trabalho com igrejas pentecostais.

 "2. Encarregada do dormitório feminino como conselheira. Ver se tudo está limpo, trabalho feito, etc.

 "3. Diretora de música.

 "Estamos orando por uma jovem que inicie a evangeliza­ção comigo.

"Houve três assassinatos na seção de José, esta semana.

"Preciso ajudar a fazer o jantar. Não se esqueçam de ir à igreja. Eu amo vocês."

 Nunca me esqueci da noite quando, afinal, pude dizer a Gwen:

— Bem, querida, estamos prontos para começar. Estávamos na pequena capela do Centro. Era a antiga sala de visitas da casa, e havia uma grande lareira com uma linda cornija entalhada. Enquanto conversava com Gwen, eu me apoiava na cornija.

Falamos daquela noite, apenas um ano e meio atrás, quando eu ficara no quintal da Igreja em Philipsburg, observando o trigo balançar ao vento. Agora, o Senhor nos trouxera ao campo de colheita, e já havia fornecido as ferramentas — vinte jovens dispostos, e confiança no poder do Espírito Santo para mudar vidas.

— Querido, disse Gwen, olhe aqui!

Endireitei-me e olhei para ver o que ela apontava na cornija. Logo vi.

Maravilhosamente entalhado na lareira da nossa capela, estava o baixo-relevo de um feixe de trigo, colhido, amarrado, e pronto para ser armazenado.