terça-feira, 8 de junho de 2021

A cruz e o punhal - capítulo 13


 Era uma fria e úmida manhã de fevereiro, quase que exatamente dois anos depois daquele outro dia de fe­vereiro em que eu havia vendido o aparelho de televi­são e mergulhado nesta aventura estranha.

Apreciando o panorama da baía, pela porta de vidro da barca de Staten Island, não podia compreender como era gigantesco o passo que havíamos dado em direção ao meu sonho. O mar agitado jogava espuma no convés, e a estibordo eu via a Estátua da Liberdade.

Olhando para ela, pensava no que eu iria fazer em Staten Island. Estava ocupado numa missão específica e esperançosa — alugar escritórios para o nosso progra­ma: libertar os jovens.

Trazia comigo um endereço que parecia apropriado: Alameda Vitória, 1.865. Fora sugerido como o centro das nossas atividades, mas quando cheguei ao nosso "quartel-general", tive de sorrir. Consistia de três salas um tanto escuras e sujas, num bairro que nada tinha de chique.

Eu disse: "Bem, Senhor, é bom que este lugar não seja luxuoso, pois se fosse, nem saberia como agir". O "Evangelismo Jovem" teve seu início nessas três salas.

Tínhamos um empregado assalariado — eu — e o meu salário não dava para alugar nem o quarto mais barato da pensão mais barata. Coloquei um sofá perto de minha mesa, na sala do meio, e comia o que podia fazer num fogareiro ou, em ocasiões especiais, com amigos que visitavam Nova Iorque e, olhando a minha magreza, convidavam-me para uma refeição.

Mas o pior de tudo era a família dividida. Gwen ficou em Pittsburg com a família, mas queria estar comigo, tão logo possível.

"Eu sei que você está fazendo o que é certo, David", disse ela em uma das nossas conversas por telefone, "mas tenho muita saudade de você, e Gary está crescendo sem nem saber como é o seu papai."

Combinamos mudar para Nova Iorque logo que o ano escolar terminasse para Bonnie e Debbie, mesmo que para isso fosse preciso dormir num banco de jardim. Mas, enquanto isso, descobri certas vantagens na minha existência monástica. O cubículo, que me servia de lar, era o lugar ideal para a oração não havendo nenhum conforto físico para distrair-me.

A pequena sala continha apenas minha mesa, uma cadeira de madeira e o sofá. Descobri que era um verdadeiro prazer orar nesse ambiente austero, e todas as noites esperava com ansie­dade o meu antigo horário de televisão — 24:00h às 2:00h — como um período de refrigério. Nunca me levantava sem me sentir revigorado, encorajado e cheio de novo entusiasmo.

Esses primeiros dias foram emocionantes. As igrejas de Nova Iorque nos deram mil dólares, para iniciar o nosso trabalho. Usei esse dinheiro com duas experiências. A primeira, chamada "Operação Saturação", era um programa de literatura que tinha como alvo alcançar cada aluno nas escolas dos bairros necessitados da cidade.

Em nossa literatura abordamos problemas como drogas, promiscuidade, bebida, masturbação e violência de quadrilhas, oferecendo ajuda na Bíblia. Trabalhamos muito nesse programa, levando centenas de jovens das igrejas locais a participar da operação, distribuindo folhetos.

Entretanto, ao final de três meses, tínhamos um número insignificante de rapazes e meninas realmente convertidos como resultado desse trabalho.

Voltamos a nossa atenção para outra experiência — televisão. Reuni cem rapazes e moças que haviam achado o cami­nho, e formamos um coro de jovens que fizeram uma apresen­tação todas as semanas, durante treze semanas. O programa era simples — os jovens cantavam, depois um dos rapazes ou moças contava a sua história.

Ficamos animados com a audição que essa apresentação recebeu, tornamo-nos bem populares entre os jovens da cidade. Mas havia um grande problema — apresentação na televisão custa caro. Os jovens de toda a redondeza mandavam-nos seu dinheirinho, para ajudar na apresentação do programa, mas mesmo assim, ao final das treze semanas, estávamos com uma dívida de 4.500 dólares.

— Parece que vai ser preciso cancelar a série antes de chegarmos a verificar os resultados, disse eu à nossa comissão reunida especialmente para considerar a crise.

Todos pareciam concordar. Gostaríamos de continuar a ex­periência por outras treze semanas, mas parecia simplesmente impossível.

De repente um homem pôs-se de pé, lá atrás. Nunca o vira antes, e pensei que fosse pastor da Igreja Episcopal, devido ao seu colete clerical.

— Gostaria de fazer uma sugestão, disse aquele senhor. Apresentou-se — era o Reverendo Harald Bredesen, ministo da Igreja Holandesa Reformada de Mount Vernon, Nova Iorque.

— Já vi o seu programa. Tem uma vitalidade que muito me atraiu. Antes de resolver cancelá-lo definitivamente, gostaria que viesse conversar com um amigo meu.

Concordei, sem saber o que estava acontecendo, mas conhecendo bastante os métodos, às vezes estranhos, do Espírito Santo, para ter um pressentimento de que talvez novas portas se estivessem abrindo.

No dia seguinte, Harald e eu fomos visitar Chase Walker, redator de uma revista. O Sr. Walker ouviu atentamente a história do nosso trabalho e de como começou. Parecia interessado, mas ao final da conversa parecia também perplexo.

— E o que é que vocês querem que eu faça? perguntou ele.

— Serei sincero com você, respondeu Harald. Queremos 10.000 dólares.

O Sr. Walker empalideceu e eu também, mas logo ele começou a rir e disse:

— Bem, aprecio o elogio, mas certamente não tenho essa quantia; e não sei fazer campanha. Mas afinal, por que pensou em mim, em conexão com essa necessidade?

— Na verdade, não posso responder a essa pergunta, disse Harald. Mas desde que soube que esse programa talvez fosse cancelado, sinto, sem saber por que, que você teria a chave para o caso. Cada vez que penso no problema, penso também: Chase Walker! Não há nada mais específico; só isso.

Harald fez uma pausa esperançosa. O Sr. Walker nada disse.

— Bem, disse Harald desconsolado, desta vez errei, mas esses pressentimentos, principalmente quando tão insistentes, geralmente significam alguma coisa.

O Sr. Walker levantou-se, dando por terminada a entrevista,

— Se tiver alguma idéia, eu os avisarei. Por enquanto, obrigado por terem me contado sua história.

Já havíamos saído do escritório, quando subitamente o Sr. Walker nos chamou:

— Ei, Harald, David, esperem. Voltamos para o escritório de Walker.

— Lembrei-me agora de uma coisa engraçada. Recebi hoje um telegrama que não entendo.

Procurou entre os seus papéis e achou-o. Era de W. Clement Stone, Presidente da Companhia de Seguros de Chicago, e amigo de Walker. Dizia: "Cancelado telegrama anterior, estarei no Savoy Hilton, quarta-feira".

— É hoje, disse o Sr. Walker, mas acontece que não recebi nenhum telegrama anterior, e por que haveria ele de me informar que está na cidade, quando não havíamos feito nenhum plano para nos encontrarmos? Será que sua secretária confundiu o meu nome com o de alguma outra pessoa?

Walker olhou para Harald, curiosamente, por um instante, depois, tomando uma caneta, escreveu um bilhete.

— Vão até o Savoy, disse ele, entregando-me o bilhete. Peçam para falar com o Sr. Clement Stone. Se ele estiver lá, use o bilhete como apresentação e vamos ver o que acontece. Leia-o, se quiser.

Lemos enquanto esperávamos o elevador. Dizia o seguinte: "Caro Clem, apresento-lhe David Wilkerson, que está fazendo um trabalho notável entre os jovens, nesta cidade. Ele precisa de 10.000 dólares. Ouça a sua história atenciosamente e, se ela o interessar, ajude-o. Chase".

— Nunca ouvi falar de situação mais tola, disse eu para Harald. Você pensa que devemos mesmo visitar esse homem?

— Claro, disse Harald.

Não havia a mínima dúvida em sua mente.

Vinte minutos depois, estávamos batendo à porta de um apartamento no Savoy. Já eram 5:30h da tarde. Um senhor atendeu à porta, colocando uma gravata borboleta. Estava aparentemente vestindo-se para o jantar.

— Sr. Stone?

O homem acenou que sim.

— Com licença, temos um bilhete de Chase Walker para o senhor.

O Sr. Stone leu o bilhete antes de nos convidar para entrar. Parecia tão perplexo quanto eu, diante da situação. Disse que dispunha de apenas alguns minutos, mas que se quiséssemos falar, enquanto ele acabava de se vestir, gostaria de ouvir.

Quinze minutos mais tarde, o Sr. Stone estava pronto para sair e eu nem tinha começado a falar direito sobre o "Evange­lismo Jovem".

— Preciso sair agora, disse o Sr. Stone cortesmente, mas se você tem o apoio de Chase Walker, para mim é o suficiente. Gostei do que me contou a respeito do seu trabalho. Mande-me suas contas. Pagarei até 10.000 dólares.

Harald e eu nos entreolhamos estupefatos.

— E agora, vocês vão me dar licença. O Sr. Stone caminhava para a porta. Por que você não termina a sua história num gravador e manda-me a fita? Da próxima vez que estiver em Nova Iorque vou visitá-lo... acertaremos os pormenores. E saiu.

Esse dinheiro deu para pagar nossa dívida, mais treze sema­nas de televisão, e ainda para um filme Um Abutre em Minhas Veias, sobre o vício de entorpecentes entre os jovens de Nova Iorque.

Mas esse dinheiro comprou muito mais do que apenas filme e horário na televisão — criou um novo respeito por esse ministério. Estava se tornando cada vez mais óbvio que a mão do Senhor estava no nosso trabalho. Se realmente deixássemos que ele nos dirigisse, veríamos grandes milagres em todo nosso caminho.