Apreciando o panorama da baía, pela porta de vidro da barca
de Staten Island, não podia compreender como era gigantesco o passo que
havíamos dado em direção ao meu sonho. O mar agitado jogava espuma no convés, e
a estibordo eu via a Estátua da Liberdade.
Olhando para ela, pensava no que eu iria fazer em Staten
Island. Estava ocupado numa missão específica e esperançosa — alugar
escritórios para o nosso programa: libertar os jovens.
Trazia comigo um endereço que parecia apropriado: Alameda
Vitória, 1.865. Fora sugerido como o centro das nossas atividades, mas quando
cheguei ao nosso "quartel-general", tive de sorrir. Consistia de três
salas um tanto escuras e sujas, num bairro que nada tinha de chique.
Eu disse: "Bem, Senhor, é bom que este lugar não seja
luxuoso, pois se fosse, nem saberia como agir". O "Evangelismo
Jovem" teve seu início nessas três salas.
Tínhamos um empregado assalariado — eu — e o meu salário não
dava para alugar nem o quarto mais barato da pensão mais barata. Coloquei um
sofá perto de minha mesa, na sala do meio, e comia o que podia fazer num
fogareiro ou, em ocasiões especiais, com amigos que visitavam Nova Iorque e,
olhando a minha magreza, convidavam-me para uma refeição.
Mas o pior de tudo era a família dividida. Gwen ficou em
Pittsburg com a família, mas queria estar comigo, tão logo possível.
"Eu sei que você está fazendo o que é certo,
David", disse ela em uma das nossas conversas por telefone, "mas
tenho muita saudade de você, e Gary está crescendo sem nem saber como é o seu
papai."
Combinamos mudar para Nova Iorque logo que o ano escolar
terminasse para Bonnie e Debbie, mesmo que para isso fosse preciso dormir num
banco de jardim. Mas, enquanto isso, descobri certas vantagens na minha
existência monástica. O cubículo, que me servia de lar, era o lugar ideal para
a oração não havendo nenhum conforto físico para distrair-me.
A pequena sala continha apenas minha mesa, uma cadeira de
madeira e o sofá. Descobri que era um verdadeiro prazer orar nesse ambiente
austero, e todas as noites esperava com ansiedade o meu antigo horário de
televisão — 24:00h às 2:00h — como um período de refrigério. Nunca me levantava
sem me sentir revigorado, encorajado e cheio de novo entusiasmo.
Esses primeiros dias foram emocionantes. As igrejas de Nova
Iorque nos deram mil dólares, para iniciar o nosso trabalho. Usei esse dinheiro
com duas experiências. A primeira, chamada "Operação Saturação", era
um programa de literatura que tinha como alvo alcançar cada aluno nas escolas
dos bairros necessitados da cidade.
Em nossa literatura abordamos problemas como drogas,
promiscuidade, bebida, masturbação e violência de quadrilhas, oferecendo ajuda
na Bíblia. Trabalhamos muito nesse programa, levando centenas de jovens das
igrejas locais a participar da operação, distribuindo folhetos.
Entretanto, ao final de três meses, tínhamos um número
insignificante de rapazes e meninas realmente convertidos como resultado desse
trabalho.
Voltamos a nossa atenção para outra experiência — televisão.
Reuni cem rapazes e moças que haviam achado o caminho, e formamos um coro de
jovens que fizeram uma apresentação todas as semanas, durante treze semanas. O
programa era simples — os jovens cantavam, depois um dos rapazes ou moças
contava a sua história.
Ficamos animados com a audição que essa apresentação recebeu,
tornamo-nos bem populares entre os jovens da cidade. Mas havia um grande
problema — apresentação na televisão custa caro. Os jovens de toda a redondeza
mandavam-nos seu dinheirinho, para ajudar na apresentação do programa, mas
mesmo assim, ao final das treze semanas, estávamos com uma dívida de 4.500
dólares.
— Parece que vai ser preciso cancelar a série antes de
chegarmos a verificar os resultados, disse eu à nossa comissão reunida
especialmente para considerar a crise.
Todos pareciam concordar. Gostaríamos de continuar a experiência
por outras treze semanas, mas parecia simplesmente impossível.
De repente um homem pôs-se de pé, lá atrás. Nunca o vira
antes, e pensei que fosse pastor da Igreja Episcopal, devido ao seu colete
clerical.
— Gostaria de fazer uma sugestão, disse aquele senhor. Apresentou-se
— era o Reverendo Harald Bredesen, ministo da Igreja Holandesa Reformada de
Mount Vernon, Nova Iorque.
— Já vi o seu programa. Tem uma vitalidade que muito me
atraiu. Antes de resolver cancelá-lo definitivamente, gostaria que viesse
conversar com um amigo meu.
Concordei, sem saber o que estava acontecendo, mas conhecendo
bastante os métodos, às vezes estranhos, do Espírito Santo, para ter um
pressentimento de que talvez novas portas se estivessem abrindo.
No dia seguinte, Harald e eu fomos visitar Chase Walker,
redator de uma revista. O Sr. Walker ouviu atentamente a história do
nosso trabalho e de como começou. Parecia interessado, mas ao final da conversa
parecia também perplexo.
— E o que é que vocês querem que eu faça? perguntou ele.
— Serei sincero com você, respondeu Harald. Queremos 10.000
dólares.
O Sr. Walker empalideceu e eu também, mas logo ele começou a
rir e disse:
— Bem, aprecio o elogio, mas certamente não tenho essa
quantia; e não sei fazer campanha. Mas afinal, por que pensou em mim, em
conexão com essa necessidade?
— Na verdade, não posso responder a essa pergunta, disse
Harald. Mas desde que soube que esse programa talvez fosse cancelado, sinto,
sem saber por que, que você teria a chave para o caso. Cada vez que penso no
problema, penso também: Chase Walker! Não há nada mais específico; só isso.
Harald fez uma pausa esperançosa. O Sr. Walker nada disse.
— Bem, disse Harald desconsolado, desta vez errei, mas esses
pressentimentos, principalmente quando tão insistentes, geralmente significam
alguma coisa.
O Sr. Walker levantou-se, dando por terminada a entrevista,
— Se tiver alguma idéia, eu os avisarei. Por enquanto,
obrigado por terem me contado sua história.
Já havíamos saído do escritório, quando subitamente o Sr.
Walker nos chamou:
— Ei, Harald, David, esperem. Voltamos para o escritório de
Walker.
— Lembrei-me agora de uma coisa engraçada. Recebi hoje um
telegrama que não entendo.
Procurou entre os seus papéis e achou-o. Era de W. Clement
Stone, Presidente da Companhia de Seguros de Chicago, e amigo de Walker. Dizia:
"Cancelado telegrama anterior, estarei no Savoy Hilton,
quarta-feira".
— É hoje, disse o Sr. Walker, mas acontece que não recebi
nenhum telegrama anterior, e por que haveria ele de me informar que está na
cidade, quando não havíamos feito nenhum plano para nos encontrarmos? Será que
sua secretária confundiu o meu nome com o de alguma outra pessoa?
Walker olhou para Harald, curiosamente, por um instante,
depois, tomando uma caneta, escreveu um bilhete.
— Vão até o Savoy, disse ele, entregando-me o bilhete. Peçam
para falar com o Sr. Clement Stone. Se ele estiver lá, use o bilhete como
apresentação e vamos ver o que acontece. Leia-o, se quiser.
Lemos enquanto esperávamos o elevador. Dizia o seguinte:
"Caro Clem, apresento-lhe David Wilkerson, que está fazendo um trabalho
notável entre os jovens, nesta cidade. Ele precisa de 10.000 dólares. Ouça a
sua história atenciosamente e, se ela o interessar, ajude-o. Chase".
— Nunca ouvi falar de situação mais tola, disse eu para Harald.
Você pensa que devemos mesmo visitar esse homem?
— Claro, disse Harald.
Não havia a mínima dúvida em sua mente.
Vinte minutos depois, estávamos batendo à porta de um
apartamento no Savoy. Já eram 5:30h da tarde. Um senhor atendeu à porta,
colocando uma gravata borboleta. Estava aparentemente vestindo-se para o
jantar.
— Sr. Stone?
O homem acenou que sim.
— Com licença, temos um bilhete de Chase Walker para o
senhor.
O Sr. Stone leu o bilhete antes de nos convidar para entrar.
Parecia tão perplexo quanto eu, diante da situação. Disse que dispunha de
apenas alguns minutos, mas que se quiséssemos falar, enquanto ele acabava de se
vestir, gostaria de ouvir.
Quinze minutos mais tarde, o Sr. Stone estava pronto para
sair e eu nem tinha começado a falar direito sobre o "Evangelismo
Jovem".
— Preciso sair agora, disse o Sr. Stone cortesmente, mas se
você tem o apoio de Chase Walker, para mim é o suficiente. Gostei do que me
contou a respeito do seu trabalho. Mande-me suas contas. Pagarei até 10.000
dólares.
Harald e eu nos entreolhamos estupefatos.
— E agora, vocês vão me dar licença. O Sr. Stone caminhava
para a porta. Por que você não termina a sua história num gravador e manda-me a
fita? Da próxima vez que estiver em Nova Iorque vou visitá-lo... acertaremos os
pormenores. E saiu.
Esse dinheiro deu para pagar nossa dívida, mais treze semanas
de televisão, e ainda para um filme Um Abutre em Minhas Veias, sobre o
vício de entorpecentes entre os jovens de Nova Iorque.
Mas esse dinheiro comprou muito mais do que apenas filme e
horário na televisão — criou um novo respeito por esse ministério. Estava se
tornando cada vez mais óbvio que a mão do Senhor estava no nosso trabalho. Se
realmente deixássemos que ele nos dirigisse, veríamos grandes milagres em todo
nosso caminho.
