segunda-feira, 3 de maio de 2021

Por esta cruz te matarei - Capítulo 18


  A NOITE DO TIGRE

Eu estava deitado em minha rede depois da caçada feita pela manhã. As mulheres estavam cozinhando, e a fumaça causticante do fogo, misturada com o cheiro dos macacos que estavam assando, fazia-me sonolento. Logo seria a hora de comer. E eu estava com fome.

Ouvi uma agitação no outro lado da casa, e me ergui sobre os cotovelos para ver o que estava acontecendo. Num grupo, homens e mulheres estavam reunidos em torno de Abacuriana, um rapaz esbelto. Ouvi algumas das palavras: "Tigre. Eu não podia me afastar ..."Ele falava com bastante excitação.

Dois homens que estavam junto à minha rede se levantaram e foram em direção ao grupo. — Ei, Chanti — gritei para um dos homens. — O que está acontecendo?

Ele se aproximou de minha rede. Parecia nervoso.

— Você não ouviu? — perguntou ele roucamente. — O tigre falou.

— Que tigre? — eu disse, um tanto embaraçado. — O que ele falou? Que é que você está falando?

— O tigre falou! Ele falou!

Sacudi a cabeça. — Chanti, os tigres não falam. E também, se falassem, quem é que se importaria com o que eles dissessem?

— Oh — disse ele —, quando o tigre fala, nós estamos em grandes dificuldades. Dificuldades bem grandes mesmo.

Nessa hora seus olhos estavam rolando.— Pois bem, muito obrigado — e deixei que ele se fosse.

A casa toda estava sobressaltada. Todo o trabalho cessara. Aqueles que não podiam aproximar-se de Abacuriana ficavam em volta do grupo e conversavam ou iam rapidamente à porta e olhavam para fora.

Desci da rede. O chefe estava junto a uma das portas. Conduzi-o para um lado.

— Preciso falar com você — disse eu. — Que quer dizer que o tigre falou?

— Isso quer dizer que estamos próximos de um problema muito grande — ele disse.

— Mas, que espécie de problema? Que poderia um tigre falar que fosse tão perigoso assim?

— Eu vou à selva conversar com o tigre. E ele me dirá o que é.

— Mas chefe — eu disse —, os tigres não falam. Isso é fora de propósito.

Ele me deu um olhar rápido e duro. — Olhe aqui — disse ele —, você não sabe coisa alguma a respeito das selvas. Você não sabe caçar, não sabe o que comer. Você não pode acompanhar os que estão nas picadas. E que o faz pensar que saiba alguma coisa a respeito dos tigres?

Não havia muita coisa que eu pudesse falar. Olhei para ele com expressão de espanto, enquanto que ele olhava friamente para a selva. E depois, num esforço monumental, ele endireitou os ombros e saiu da casa. Observei-o enquanto atravessava a clareira e desaparecia sozinho entre as árvores. Voltei-me. Todos ali na casa estavam olhando para o ponto onde ele desaparecera.

Ele ficou fora até os últimos momentos da tarde. Todos estavam esperando pela sua volta. Ninguém trabalhou. Alguns homens tentaram fazer flechas, porém estavam sempre parando e olhando para o alto. Havia pouca conversa. As pessoas andavam impacientemente ao redor da casa, e a sua impaciência foi transferida para mim. Que é que estava acontecendo? Eu nunca vira coisa semelhante. A casa parecia estar sendo oprimida por mão invisível, muito pesada.

Quando o chefe voltou, imediatamente as pessoas se reuniram em volta dele. Esperou até que todos estivessem ao seu redor para depois falar. Tinha o rosto cansado e repuxado. Parecia ter envelhecido dez anos.

— O tigre disse que os espíritos sairão hoje à noite das rochas. Eles atacarão esta casa. As vidas serão extintas. As línguas cessarão. Haverá morte.

Num silêncio profundo o chefe se afastou e subiu para a sua rede. As pessoas se desviavam e andavam sós.

Que é que estava realmente acontecendo? comecei a pensar. De onde vinha todo esse temor? Que quer dizer, que o tigre fala e os espíritos sairão das rochas?

Era claro que alguma coisa realmente amedrontadora estava acontecendo. Normalmente, essas pessoas não eram supersticiosas, e eu nunca, nunca mesmo, as vira assim tão amedrontadas. Rotineiramente enfrentavam cobras venenosas e animais perigosos, e nunca mostravam sinal de medo. Se estavam com medo agora, com toda certeza havia alguma coisa digna desse medo. Mas, o que era? E como poderiam eles lutar contra ele?

Encontrei Bobby fora da casa, olhando ao longe. Ele olhou por cima de mim quando me aproximei.

— Bruchko, será que Jesus poderá ser tirado de minha boca? perguntou, mostrando quase um traço de medo em sua voz.

— Bobby, que é que está acontecendo? Que quer dizer que o tigre falou? E o que significa que os espíritos sairão das rochas?

— Os espíritos sairão das rochas — ele disse. — Eles tentam matar. Às vezes, morre apenas uma pessoa. Às vezes, muitas delas morrem. Dois meses atrás, lá em Ocbabuda, morreram sete pessoas.

— Como é que morrem? — perguntei. — Quem é que os mata?

— Os espíritos os matam, Bruchko — disse ele. — Eles morrem em suas redes, porque os espíritos maus retiram deles a sua fala.

— Bobby, sempre morre alguém?

— Sempre — ele disse.

O ar parecia pesado. Que significava tudo aquilo? E o que sentia eu sob tanta pressão?

— Será que Jesus pode ser retirado de minha boca? — perguntou Bobby novamente, olhando em direção da selva.

Eu não sabia como lhe responder. Nunca antes eu lidara com poderes demoníacos. Eu me sentia amedrontado, também.

— Será que o diabo pode matar-me agora que ando no caminho de Jesus? — continuou. — Bruchko, que devo eu fazer?

— Não sei Bobby. Você mesmo deve conversar com Jesus. Ele é o único que tem todas as respostas para as suas perguntas. Ele falará com você, em seu coração.

Ele hesitou, e então se retirou, indo para a selva. Imediatamente senti certo remorso. Por que não lhe dei alguns conselhos? Que espécie de pai espiritual era eu?

Porém, eu não tinha conselho algum para lhe dar.

Saí para uma longa caminhada pela selva. Eu não estava apenas amedrontado, mas também confuso. "Os tigres não podem falar", eu disse a Deus. "O que está acontecendo aqui?"

Quando voltei para a casa, era quase noite. Assim que me aproximei da clareira, podia ouvir lamentos estranhos, cantos de sortilégio e feitiçarias. A casa se balançava de um lado para outro, como se ela mesma estivesse possuída pelo próprio demônio. As canções eram embaralhadas. Elas aumentavam e diminuíam, ganhavam força e de repente caíam de volume. O ar parecia cheio de eletricidade. Eu estava quase com medo de entrar ali.

Lá dentro, os fogos lançavam um brilho vermelho assustador. Vi que realmente a casa se balançava. Todos os homens, lá no alto, em suas redes, se balançavam e cantavam a fim de afastar o demônio. As mulheres estavam no chão, batendo pedras enormes, uma na outra. Seus olhos, como os olhos dos homens, estavam fechados e bem apertados.

Onde estava Bobby? Ele se achava ali naquele lugar? De repente senti certo temor por ele. Ele era o único motilone que começara a andar na trilha de Jesus. Será que ele se havia entregue a esse temor e superstição?

Então vi a sua rede. Ele estava nela, balançando. Quase virei as costas e voltei para a selva. Mas alguma coisa me impediu. Ele era meu irmão.

Agarrei um dos mastros que suportavam a casa, e comecei a subir em direção à rede de Bobby que estava a quase seis metros acima do chão. O bambu curvou-se sob o meu peso e comecei a pensar se porventura me aguentaria.

Mas, naquele instante, o bem-estar de Bobby era a coisa mais importante do mundo para mim. Quando subi o suficiente, olhei para a rede de Bobby. Seus olhos estavam abertos. Ele tinha um largo sorriso em seu rosto. A canção que ele estava cantando era diferente:

 

"Jesus está em minha boca;

Eu tenho uma nova fala.

Jesus está em minha boca;

ninguém poderá tirá-lo de mim.

Eu falo as palavras de Jesus.

Eu ando nos passos de Jesus.

Eu sou um dos jovens de Jesus;

Ele encheu o meu estômago e não sinto mais fome."

 

Enquanto eu permanecia agarrado ao poste de palmeira, Bobby olhou diretamente para mim. Ele estava salvo. Ele conhecia Jesus. Ele estava fazendo aquilo que eu deveria ter tido a visão de sugerir. Ele estava afastando os espíritos maus cantando a canção de Jesus.

Comecei a cantar com ele. Cantamos a noite toda. Quando a alvorada surgiu, ninguém havia morrido. Era a primeira vez, na lembrança de todos eles, em que os espíritos haviam passado e ninguém havia falecido.

Ninguém comentou a respeito da canção de Bobby, no entanto, eu podia sentir que os outros motilones tinham um interesse totalmente novo em relação a Bobby e na sua relação com Jesus. Não era algo particularmente externo; pois essa não era a maneira dos motilones. Mas as evidências eram claras.

E Bobby começou a mudar. Nos meses seguintes, após a sua entrega a Jesus, ele se tornou menos orgulhoso. Quando visitava as outras casas comunitárias, aceitava o alimento imediatamente, em vez de se forçar a ficar sem alimento, afim de demonstrar a sua força. Aquela teimosia não o fizera muito popular entre os outros homens, se bem que eles o respeitassem por causa dela. Agora, eles notavam sua nova atitude, e ficavam imaginando o que é que a causara.

Eu estava ansioso para que Bobby lhes contasse. Eu tinha certeza de que poderia fazê-lo com as suas experiências, e fiquei desapontado quando ele não quis fazê-lo. Seria por que ele não se preocupava suficientemente com outros motilones? Eu não tinha muita certeza.

Mas eu estava tentando forçá-lo a encaixar-se em "um molde" e não conseguia. As notícias não têm significado real para os motilones, até que elas sejam dadas numa cerimônia formal. Na minha excitação a respeito da experiência espiritual de Bobby, eu queria que ele fizesse as coisas como são feitas na América do Norte. Queria que ele convocasse uma reunião e contasse a respeito de Jesus, ou então, que pegasse os seus amigos e explicasse a eles o que é que Jesus agora significava para ele. Mas, graças a Deus, ele esperou até que pudesse fazê-lo à moda dos motilones.

Logo se espalhou a notícia de que em breve haveria outro Festival das Flechas. Houve excitação pela casa. A única vez quando todos os motilones se reuniam, era por ocasião desse festival.

Formavam-se novos pactos. Havia troca de flechas, e os homens que formavam os pactos tinham um concurso de cânticos. Subiam em suas redes e cantavam seguidamente durante o tempo todo, tanto quanto podiam, relatando lendas, histórias, e notícias de acontecimentos recentes. Às vezes, as suas canções chegavam a durar até doze horas, sem interrupção em busca de alimento, água, ou descanso.

As pessoas fluíam pela casa dentro. Havia muito barulho e muita comida. Os velhos amigos se cumprimentavam e trocavam histórias. As pessoas olhavam para Bobby sob um novo prisma. A notícia correra a respeito da noite quando os espíritos haviam saído, e ninguém falecera. Ele era olhado com respeito e certa curiosidade. Ele se casara e era aceito como homem.

Um dos chefes mais velhos, chamado Adjibacbayra, sentiu um interesse todo especial por Bobby. O seu ar reservado fazia com que ele parecesse estar cheio de dignidade. No entanto, ele possuía uma boa dose de curiosidade, e no primeiro dia do Festival, imediatamente desafiou a Bobby para o concurso das canções. Bobby ficou satisfeito e aceitou o desafio.

Ambos subiram na mesma rede, a seis metros de altura, e começaram a balançar-se de um lado para outro. Bobby cantou primeiro, e Adjibacbayra imitou-o, acompanhando linha por linha. Outros homens haviam feito outros desafios, e também estavam cantando.

A canção de Bobby era sobre a maneira como os motilones haviam sido enganados e haviam perdido o caminho de Deus. Ele falara como, antigamente, conheceram a Deus, mas haviam sido gananciosos e seguido um falso profeta. Então ele começou a cantar a respeito de Jesus. Assim que começou a cantar, os outros homens que também estavam cantando, pararam os seus cânticos. Todos ficaram silenciosos a fim de poderem ouvir.

— Jesus Cristo foi encarnado como homem — Bobby cantou. — Ele andou pelas nossas picadas. Ele é Deus, contudo, mesmo assim podemos conhecê-lo.

A casa estava num silêncio mortal, com exceção do cântico lamentoso de Bobby e a repetição de Adjibacbayra. As pessoas estavam aguçando os ouvidos para poderem ouvir.

Dentro de mim, no entanto, havia uma luta espiritual. Eu estava odiando aquela canção. Ela parecia tão pagã. A música, cantada num tom menor, soava como a música dos feiticeiros. Parecia que ela estava rebaixando o Evangelho. No entanto, quando olhei para as pessoas ao meu redor, e para cima, para o chefe que se balançava em sua rede, pude ver que eles ouviam como se suas vidas dependessem daquilo. Bobby estava dando a eles a verdade espiritual através da canção.

No entanto, eu ainda queria fazer à minha moda... até que ouvi Bobby cantar como Jesus lhe dera uma nova fala.

"Você não pode ver a realidade do que ele está dando ao seu povo?" parecia que Deus me perguntava.

"Mas Senhor", repliquei, "por que eu sinto tanta repulsa pelo modo como eles se expressam?"

Então percebi que era por ser eu um pecador. Eu podia amar a maneira de viver dos motilones, mas quando se relacionava com os assuntos espirituais, eu julgava ter a única maneira correta. Porém, ela não era a maneira de Deus. Deus está dizendo: "Eu também amo o modo como os motilones vivem. Fui eu que o fiz. E eu vou contar a eles a respeito de meu Filho, à minha moda."

Eu me descontraí e finalmente pude sentir uma verdadeira alegria no cântico de Bobby. Ele continuou durante mais oito horas, dez horas. A atenção do grupo não diminuíra. A casa ficara às escuras. Os fogos foram acesos. Finalmente, após catorze horas, eles pararam de cantar e, fatigados, desceram de sua rede.

Adjibacbayra olhou para Bobby. — Você comunicou uma notícia completamente nova — ele disse. — Eu também quero estar suspenso em Jesus. Quero esparramar o seu sangue sobre a minha decepção.

Naquela noite deu-se uma revolução espiritual com aquele povo. Ninguém recusou a novidade a respeito de Jesus. Todos eles queriam que ele os levasse além do horizonte. Houve uma alegria intensa, tremenda. Às vezes havia silêncio, e as pessoas conversavam entre si em pequenos grupos. Outras vezes, a alegria rompia espontaneamente através de cânticos. Isso prosseguiu até tarde da noite.

Deus havia falado. Ele havia falado na língua dos motilones e através da cultura deles. E ele nem sequer tivera que me usar.