Eu estava amedrontado. Porventura ele tentaria me matar?
Observei-o mais de perto. Abaratatura não trazia arma alguma.
— Pensávamos que você tivesse morrido — disse ele — e que os urubus haviam levado o seu corpo. Mas Deus o conservou.
— Sim — respondi. — Realmente, ele me conservou. Permaneci na casa de Abaratatura. Ele acabara de crer que eu não o enganaria e tampouco ao seu povo. Então fui aceito da parte dos motilones. Mandei um recado a Bobby e ele veio ter comigo.
Aquela curta permanência no meio da civilização me convencera, mais do que nunca, de que eu pertencia às selvas. Trouxera comigo, da civilização, algo que faria com que a minha vida fosse mais confortável: uma coleira para afastar as pulgas. Tais coleiras haviam chegado à Colômbia pouco tempo antes de eu ir para o hospital. Vi uma delas no pescoço de um cachorro e perguntei ao Dr. Landinez o que era aquilo.
— Aquilo é uma coleira à prova de pulga — disse ele.— É a última novidade. Você a coloca no pescoço de seu cachorro, e todas as pulgas morrem e durante seis meses o cachorro está livre delas.
— Que coisa formidável — eu disse. — Preciso comprar uma delas.
O Dr. Landinez olhou um tanto espantado para mim. — Vocês têm cachorros lá nas selvas?
— Não, oh não — eu disse, e desandei a rir. — Não, não temos cachorros mas com toda certeza temos pulgas! — Ri novamente, e essas foram as últimas palavras sensatas que ele ouviu a respeito desse assunto. Agora tenho uma coleira ao redor de meu pescoço, e não sinto tanta coceira.
Porém, a minha mente estava preocupada com os remédios que trouxera. Os motilones estavam morrendo constantemente por causa de uma ou outra doença, e eu sabia que os remédios que trouxera haviam de curar muitos deles. Porém, os motilones já tinham o seu próprio método de cura, e não tinham razão alguma para crer que o meu método fosse melhor do que o deles. Várias vezes oferecera os meus remédios aos doentes, porém eles o recusavam.
— Deixe isso com a médica feiticeira — diziam. — Ela conhece os nossos costumes e a nossa maneira de curar.
E às vezes eles saravam. Então vinham para mim com um sorriso zombeteiro, como se dissessem: — Está vendo? não somos tão tolos como você pensa.
Porém, quando uma epidemia de conjuntivite se alastrou entre eles eu tinha algo bem concreto, pois conjuntivite é curada com antibióticos. Dentro de pouco tempo, quase todos os motilones tinham os olhos infeccionados, e andavam a cocá-los, sentindo-se infelizes. A médica feiticeira começou a cantar as suas canções de sortilégio, dia após dia, cantando até vinte horas por dia. Era profundamente dedicada ao seu povo.
Após uma semana, era evidente que as suas canções de encantamento não estavam ajudando. Fui falar com ela. Ela estava deitada na esteira descansando. O seu rosto demonstrava um cansaço intenso.
— Tenho uma poção chamada terramicina — disse-lhe. — Ela poderá curar a doença se a senhora a puser nos olhos dos doentes."
— Eu já usei poções — ela disse. — Não surtiram efeito.
— Porém essa é uma poção diferente — eu disse. — E funciona. Já vi o resultado dela muitas vezes.
Ela olhou para mim com um leve interesse. — De onde é que vem essa poção?
— É uma que os médicos feiticeiros de meu povo usam. Ela perdeu todo interesse. Encolheu os ombros. — Você é branco. O seu jeito é diferente do nosso —. Ela se levantou, voltou as costas para mim e começou a cantar novamente.
Fui andar um pouco a fim de pensar sobre o caso. Conjuntivite, em si, não era uma doença perigosa, mas a infecção poderia transformar-se em algo muito mais sério. Ela precisava ser curada, e eu tinha a cura.
A única coisa que poderia fazer era tentar convencer alguém que me deixasse experimentar o remédio nele. Então teria a prova necessária de que o meu método funcionava, e os da médica feiticeira não.
Mas então estaria competindo com ela. E nesse caso tiraria a sua autoridade e o seu papel na tribo, ou ela teria que me expulsar.
Eu sabia que os missionários, muitas vezes, achavam que o médico-feiticeiro era como um elemento demoníaco, e que precisava ser eliminado. A médica feiticeira não fazia as suas preces aos demônios. Ela tentava ajudar o seu povo orando a Deus, da melhor maneira que sabia. Eu não desejava destruir o que ela estava fazendo. Eu desejava ajudá-la.
De repente, tive uma idéia. Voltei para a casa comunitária e dirigi-me a um dos homens, um que estava muitíssimo atacado da doença. Esfreguei meu dedo no canto de um de seus olhos, e depois esparramei o pus no meu próprio olhos.
Em cinco dias estava com conjuntivite. Fui à médica feiticeira e disse-lhe que precisava de seus cuidados. Ela cantou as suas canções de sortilégios, da mesma maneira que o fizera para os outros. Naturalmente aquilo não me ajudou, assim como não ajudara as outras pessoas.
Então eu voltei a visitar a médica -feiticeira. Disse-lhe que desejava que ela colocasse terramicina nos meus olhos, enquanto cantava seus encantamentos. Olhou para mim um tanto duvidosa, mas depois se prontificou a experimentar alguma coisa nova. Pegou o tubo de terramicina e esfregou um pouco da pomada em meus olhos enquanto cantava as suas orações, para que Deus me curasse.
Em três dias meus olhos estavam limpos e eu me sentia perfeitamente bem. E, naturalmente, todos os demais ainda estavam em condições miseráveis. A médica feiticeira continuava cantando seus cânticos e suas orações.
Aguardei a oportunidade certa para voltar a falar com ela. Não desejava insultá-la, de maneira alguma. Certa tarde eu a vi sair de casa, com os ombros caídos de tanto cansaço. Segui-a até onde estava escuro e a segurei pelo braço. Ela se voltou para mim.
Segurei o tubo de terramicina — Por que não experimenta essa poção? — perguntei. — Você curou os meus olhos com ela. Talvez produza o mesmo efeito com o seu povo.
Dentro de três dias havia curado todas as pessoas. Isso fez valorizar a sua posição na comunidade. Ela se sentia muito orgulhosa de obter tão bom resultado com as suas canções e a sua nova pomada, e nos tornamos muito bons amigos — e esse foi um novo caminho para novas curas.
Tendo a possibilidade de usar os antibióticos mais simples, através da médica feiticeira dei um grande passo em relação ao meu alvo de ajudar os motilones. Porém, havia tantos germes nas sujeiras acumuladas ao redor das casas, e na maneira anti-higiênica como os motilones viviam, que era quase impossível não haver outras doenças pela falta de higiene. Algumas delas estavam além do alcance dos remédios que eu possuía.
— Qual é a causa de todas essas doenças? — perguntei à médica feiticeira. — Parece que não há fim para elas.
Ela ficou surpresa com a minha ignorância. — São os espíritos maus mostrando o seu poder. É por isso que usamos as canções de sortilégio. Nós pedimos a Deus que expulse os espíritos maus.
— E por que ele nem sempre, faz isso? — perguntei.
O seu rosto ficou abatido e ela se voltou para outro lado.
— Nós decepcionamos a Deus — ela disse, numa voz triste e submissa.
Fiquei atrás dela, surpreso, sentindo que por trás do que ela dissera havia algo que eu precisava compreender.
— Como é que vocês decepcionaram a Deus? — perguntei.
— Um homem chegou aqui e se apresentou como profeta — ela disse. — Ele disse que nos poderia levar além do horizonte, para uma terra onde havia uma caçada melhor. O seu nome era Sacamaydodji. Nós abandonamos a Deus e o seguimos.
— Quando foi que tudo isso aconteceu? — perguntei suavemente.
Por uns momentos ela ficou calada; depois estendeu o braço. — Há muitos, e muitos anos. Nós apenas ouvimos contar a história. Mas sabemos que nos decepcionou. Estamos muito longe de Deus.
Mais tarde fui falar com ela e lhe disse que desejava, que ela visse alguns dos espíritos maus que provocavam as doenças e a morte. Tirei o meu microscópio e pus um pouco de sujeira na lâmina. E mandei que ela olhasse através da lente ocular.
— Oh sim, posso vê-los dançando ao redor — ela disse e começou a cantar as suas canções de sortilégio.
Então eu pus um pouco de desinfetante sobre a sujeira, e disse a ela para olhar novamente. Ela viu que o desinfetante havia matado todos os germes. Isso abalou-a. Ela vira que os germes não haviam morrido com os seus cânticos.
Dentro de pouco tempo, ela estava apresentando o desinfetante em todas as cerimônias normais dos motilones. Houve, por exemplo, um cerimonial de limpeza, quando uma nova casa comunitária foi construída. Todos os motilones que vão residir naquela casa se reúnem e cantam sortilégios, e batem nas paredes com varas, a fim de expulsar os espíritos maus. A médica feiticeira, influenciada pela minha sugestão, fez com que eles usassem desinfetantes juntamente com o cerimonial, e as pessoas observaram que a saúde melhorara consideravelmente. Também fez com que as parteiras começassem a usar desinfetantes quando as mães tivessem os seus bebês, e o índice de mortalidade diminuiu.
As medidas de saúde se espalharam por outras casas, e eu me sentia profundamente grato ao Dr. Landinez pela sua boa vontade em nos fornecer os remédios. A alimentação dos motilones também melhorara, por causa de novas colheitas. Eles dependiam, até então, somente da caça e de plantas silvestres para a sua alimentação. No entanto, trabalhando com Abaratatura, fui capaz de mostrar-lhes como se criava o gado e se plantava o milho.
Dentro de poucos anos, havia oito postos de saúde (um em cada casa), que forneciam antibióticos, davam injeções, e outros medicamentos. Esses postos também tinham a responsabilidade de verificar se as casas estavam livres dos germes. Cada casa também desenvolveu o seu próprio sistema agronômico e, finalmente, abriram-se escolas.
Os postos de saúde, as fazendas e as escolas não foram iniciados ou auxiliados pelos brancos civilizados. Os próprios motilones é que trabalhavam nos postos. Eu era a única pessoa de fora em toda aquela área dos motilones. As injeções eram dadas pelos motilones. Os remédios, de acordo com as necessidades, eram fornecidos pelos motilones.
Para muitas pessoas, esse impulso tem sido considerado como o exemplo mais rápido de desenvolvimento que tem ocorrido no seio de uma tribo primitiva. Como é que tudo isso aconteceu? Como foi possível realizar tudo isso?
Há duas razões. A primeira é muito simples: não foi exigido dos motilones que abandonassem a sua cultura e se tornassem homens brancos. Tudo que foi introduzido foi baseado naquilo que eles já conheciam. A vacinação, por exemplo, foi introduzida pela médica feiticeira, como uma nova forma de sangria tradicional, que os motilones praticavam quando alguém estava doente, porque o fato de deixar o sangue correr dava uma dor que se sobrepunha à grande dor da doença ou da morte. Explicada daquele modo, administrada pela médica feiticeira, que era conhecida e em quem tinham confiança, ela era aceita muito rapidamente, e em pouco tempo estava espalhada por toda a tribo, tão depressa quanto era possível conseguir agulhas e as próprias vacinas. E porque a médica feiticeira vira os germes, e compreendera o seu grande perigo, foram introduzidos métodos sanitários adequados.
A agricultura não era uma idéia nova, tanto quanto a medicina, porém não teria sido aceita se ela se opusesse às maneiras tradicionais de se fazer as coisas. Mas, visto que Abaratatura e os outros chefes eram tradicionalmente responsáveis pela provisão dos alimentos, uma vez que a idéia era introduzida, ela era rapidamente aceita, sem o desmembramento da sociedade, que sempre acontece quando há o desenvolvimento econômico. Não havia demonstração de revolta contra os antigos métodos dos mais idosos; eles próprios é que introduziam os novos métodos.
Porém, eu disse que havia duas razões. A segunda foi o Espírito Santo. Sem ele, não teria havido nenhum real ou duradouro desenvolvimento.
Como já mencionei, parecia que os motilones não se importavam de maneira alguma uns com os outros. Cada homem era responsável por si mesmo, por sua família e por mais ninguém. Essa era uma coisa que eu dificilmente aceitava em relação a Bobby.
Eu desejava ver que todas as tribos recebessem os remédios de que precisavam, e que soubessem como cuidar das plantas que haviam sido introduzidas. Bobby ia comigo nas minhas viagens de inspeção. Tínhamos horas alegres durante o percurso, visitando muitos dos lugares onde antes estivéramos. Falávamos profundamente a respeito da vida e daquilo que desejávamos para nós mesmos e para os outros. Bobby desejava ser um líder guerreiro dos motilones, semelhante a Abaratatura. Eu desejava guiar os motilones ao caminho verdadeiro. Nós compartilhávamos essas coisas, caçávamos juntos, e cantávamos juntos. Podíamos compreender os sentimentos um do outro, sem proferir palavra alguma.
Porém, Bobby não compartilhava as minhas preocupações pelos outros membros tribais. Certa vez houve uma doença muito séria em duas casas comunitárias, afastadas uma da outra por grande distância. Ambas necessitavam de remédios imediatamente.
— Bobby — eu disse — você vai a Iquicarora com um pouco de medicamento, e eu vou à outra, nas terras altas. Nós nos encontraremos novamente aqui.
Ele parecia ofendido. — Quero ir com você, Bruchko.
Franzi o cenho.— Bobby, você não pode. Não temos tempo para irmos juntos aos dois lugares.
— Então, vamos juntos a um só deles.
Finalmente, Bobby foi só, porque eu lhe dissera que fosse. Ele não teria ido por vontade própria. Isso me entristecera, e eu não podia compreender por quê.
Todos os demais compartilhavam a mesma atitude de Bobby. As pessoas morriam numa casa porque a casa vizinha não se preocupava em levar-lhes medicamentos. Uma vaca morreria se o seu guarda estivesse doente e não pudesse cuidar dela, pois ninguém mais o faria. Era uma luta cada vez maior para mim, estar em todas as partes onde havia necessidade de auxílio, e Bobby me daria uma mãozinha, se eu lhe pedisse, mas somente por causa de nossa amizade.
Eu estava exausto. Já estava com os motilones havia quatro anos. Algumas das coisas que eu fora capaz de introduzir eram boas. Porém, eu precisava lutar para que elas continuassem a ser usadas. Comecei, então, a perguntar a mim mesmo a razão de tudo aquilo. Por que deveria eu preocupar-me se alguns motilones ficassem mais ou menos doentes? Qual era o valor de suas vidas? Para o resto do mundo, todos eles poderiam morrer, até ao último homem, e nunca sentiriam a sua falta.
No entanto, um dia, enquanto eu estava sentado à porta da casa comunitária, pensando, eu sabia que a resposta deveria ser a mesma que fora há quatro anos. O valor da vida dos motilones, e aquilo que eu estava fazendo, não era o que o povo estava pensando. Lembrei-me do que Deus me dissera: "Todo o mundo poderá rejeitá-lo, porém eu não o rejeitarei." Ele os amava. Era por isso que eu viera às selvas: para deixá-los ver e experimentar o amor de Deus.
Porém, eu ainda não podia ver como é que poderia fazer isso. Já sabia muita coisa a respeito das crenças dos motilones. Nada do que eu dissesse a respeito de Jesus Cristo faria sentido para eles. Seria o "jeito do homem branco". Nunca seria o jeito dos motilones. O que aconteceria se alguém entregasse a sua vida a Jesus Cristo? Por ventura terminaria como os índios lá no Orinoco, trazendo uma divisão entre os motilones, destruindo as suas estruturas sociais?
Mesmo assim eles precisavam de Jesus. Como é que eu poderia apresentá-lo a eles, pelo que ele realmente era, independente de minha própria cultura e personalidade?
Jesus teria que fazer isso para mim. Não havia outro jeito qualquer. Nada do que eu dissesse levaria a mensagem certa, com o impacto correto. Mas Jesus poderia falar através de mim, e ele poderia mostrar-me a ocasião certa para falar.
Curvei a cabeça. O sol estava quente no meu pescoço. "Ó Jesus, esse povo necessita de ti. Mostra-te a eles. Tira-me do caminho, e fala na sua própria língua, de modo que eles te vejam assim como tu és. Ó Jesus, transforma-te num motilone."
