Fiquei ali deitado na minha rede, olhando as baratas caminhando
pelo teto. Que iria eu fazer hoje? Por acaso poderia dar a minha contribuição a
alguma coisa... fazer algo que pelo menos pudesse ajudar esse povo?
Um garoto me trouxe um pouco de alimento. Desci da rede. Não
sentia vontade alguma de comer.
O menino olhou para mim com um largo sorriso — um sorriso
amistoso e eu me lembrei de que já o vira antes. Na verdade era ele que várias
vezes fora a pessoa indicada para me levar o alimento.
Pus-me de cócoras para comer, e ele ficou por ali. Fiz sinal
para que se sentasse, e ele se sentou. Era escuro, musculoso e tinha a
aparência de um menino de treze anos, pois ele ainda não tinha o fio-G, que era
o sinal entre os motilones de que já era homem feito.
Ofereci-lhe um pouco de minha comida, porém ele recusou.
— Qual é o seu nome? — perguntei.
— Cobaydra — ele disse.
O meu vocabulário só ia até aí. Eu já estava com os motilones
fazia quase um ano. Ficamos ali sentados, olhando um para o outro, enquanto eu
comia. O tempo todo ele mantinha aquele sorriso em seus lábios. Quase tive o
ímpeto de colocar os meus braços ao redor dele e abraçá-lo.
Era o dia da expedição de pesca para os motilones. Eu nunca
fora numa delas, mas desta vez, enquanto os homens e as mulheres se preparavam
para deixar a casa comunitária, Cobaydra veio e me pegou pelo braço e disse: —
Venha.
O rio ficava a uma distância de uns seis quilômetros. Quando
cheguei lá, estava exausto. O rio era largo e raso, dividido ao meio por um
banco de areia. Era um dia quente e um mergulho seria tão bom. Além disso, eu
estava sujo! Mas ninguém parou. Os homens foram rio acima e as mulheres rio
abaixo. Hesitei, mas depois segui os homens. Eles já estavam longe de meu
alcance. Abri caminho através dos ramos das amoreiras silvestres a fim de
chegar até um ponto onde pudesse ouvi-los gritar. Quando os vi novamente, eles
já estavam carregando enormes pedras e colocando-as no rio, a fim de fazer uma
represa.
Pensei em poder ajudar, por isso entrei pelo rio dentro e
tentei tirar uma pedra que parecia ser do mesmo tamanho daquelas que eles
estavam carregando. Nem sequer pude movê-la. Fiz uma força enorme, empurrei-a,
mas não consegui tirá-la de seu lugar.
Bem, pensei, essa deve ser mais pesada do que as pedras que
eles estão levando.
Enquanto olhava ao redor, procurando uma pedra menor, dei um
salto: logo ali atrás de mim, com o mesmo sorriso amistoso, estava Cobaydra.
Ele passou por mim, e com toda facilidade ergueu aquela pedra, levou-a e
colocou-a no seu lugar. Eu estava envergonhado, mas ele sorriu para mim,
flexionou os músculos, e deu uma gargalhada. Eu ri também. E começamos a
trabalhar juntos.
Levou quase a manhã toda para construir a represa. Quando
todas as pedras estavam nos seus lugares, pegamos enormes folhas de árvores e
cobrimos todas as pedras com elas. Isso fez com que a água fosse conduzida para
o outro lado do banco de areia. Nesse meio tempo, rio abaixo, as mulheres
haviam construído uma represa menor, para impedir que os peixes nadassem rio
abaixo.
Depois, brandindo longos arpões, finos como um lápis, os
homens arremetiam para baixo e para cima do rio, alvejando o peixe com
precisão. Gritavam e riam atirando-se contra a água, e surgindo com enormes
peixes na extremidade de seus arpões. Sentei-me na margem, olhando e deixando
secar a minha roupa.
Cobaydra aproximou-se e me ofereceu o seu arpão. Ele queria
que eu experimentasse.
Acenei com a cabeça. Não.
Cobaydra acenou com a cabeça. Sim. O seu sorriso era
divertido. Eu não podia recusá-lo.
Ele me acompanhou à água, que agora estava espessa e marrom,
por causa de todo aquele sapateado. Eu não via peixe em parte alguma.
Cobaydra me pegou pelo braço e apontou para o riacho. Olhei,
mas não vi coisa alguma. Ele continuou apontando. Finalmente, pude ver o peixe.
Ergui o arpão cuidadosamente, fiz pontaria e lancei-o. O arpão desequilibrou-se
e resvalou, caindo na água, mas não atingindo o peixe. Aborrecido, recuperei o
arpão e o entreguei a Cobaydra. Ainda sorrindo, ele mo devolveu. — Pegue-o —
ele disse. — Experimente de novo.
Eu tinha um amigo. Daquele dia em diante as coisas começaram
a andar bem melhor. Praticamente, todos os dias Cobaydra trazia a minha comida,
e eu antecipava com certo prazer sentar-me ali com ele e comer. Ele me levava
consigo quando os homens iam caçar, e deste modo eu tinha mais coisas a fazer.
A caça era divertida, particularmente tendo Cobaydra para percorrer as picadas
comigo.
Desejava mostrar a Cobaydra e aos outros homens que eu
realmente estava interessado na caça. Eu não podia dizer-lhes diretamente, pois
não conhecia os termos necessários. Então dava uma grande demonstração,
gritando quando eles gritavam e seguindo atrás deles e imitando as suas frases.
Certa manhã fiquei com dor de garganta de tanto gritar. A
princípio eu mal podia falar. Mais tarde a minha voz tinha um tom mais baixo do
que usualmente. Naquela tarde fiquei com fome e fui falar com Cobaydra e lhe
pedi uma banana. Ele saiu e voltou com um machado. Fiquei surpreso. Tinha
certeza de que dissera a palavra exata para banana. Então voltei a pedir
novamente, e Cobaydra deu-me o machado outra vez.
De repente, tive uma idéia louca. Apertei o nariz e tornei a
pedir num tom mais alto. Desta vez Cobaydra me deu uma banana.
Os motilones têm um idioma tonal! Segundo os livros de linguística,
não existia na América do Sul nenhum idioma tonal. E agora eu estava tentando
aprender um; sem a minha flauta, eu não podia sequer acompanhar uma melodia.
Como é que eu iria me arrumar?
Mas Cobaydra era alguém com quem eu podia conversar sem me
sentir embaraçado. Passávamos horas deitados na rede, ou de cócoras dentro da
casa. Eu anotava as coisas que ele dizia, e aos poucos meu vocabulário ia
aumentando.
O pai de Cobaydra era um dos membros ilustres da tribo. Ele
era o único motilone com cabelos brancos. Sensível à nossa amizade, ele nos
encorajava a passar muito tempo juntos.
Certo dia ele se aproximou de mim e me pediu que eu o
seguisse. Saímos. Cobaydra nos esperava lá fora, olhando um tanto nervoso.
Dois motilones estavam com ele. Caminharam em direção à
selva, sem trocar uma palavra sequer. Eu os segui. Que é que estava
acontecendo? Andamos cerca de quinze minutos, e depois paramos numa pequena
clareira.
Solenemente o pai de Cobaydra exibiu o cordão-G, e compreendi,
com certo tremor de excitação, que essa era a cerimônia usada para determinar
que Cobaydra se tornara jovem. Eu não tinha idéia alguma do que acontecera.
Tudo o que eu sabia era que um dia um menino motilone era um menino, e no dia
seguinte ele estava usando o cordão-G, e daí para a frente era considerado
homem.
Houve uma pequena cerimônia, e depois Cobaydra colocou o
cordão-G. Ele estava sorrindo, quase rindo ... realmente orgulhoso.
Seu pai voltou-se para nós três que estávamos ali. — Seu
nome é Bobarishora —. Depois, voltando-se para mim, disse: — Agora que ele é
homem; não será mais chamado de Cobaydra. Ele se chamará Bobarishora.
Tentando repetir o nome, este se embaraçou todo em minha
língua.
— Bobarishora — lentamente seu pai o repetiu.
Olhei para Bobarishora. Ele estava sorrindo. Tentei dizer o
seu nome outra vez. "Bobbishow." Esse era o jeito que ele parecia
soar para mim. "Bobbishow." Então eu o tornei mais curto.
— Bobby — eu disse, e sorri. O nome parecia adaptar-se à sua
personalidade agradável e de coração sincero.
Os outros repetiram. Eles gostaram e mais tarde toda tribo o
adotou. Bobarishora ficou sendo conhecido como Bobby, se bem que Bobarishora
ainda fosse o seu nome completo.
O fato de ter sido convidado a participar da cerimônia de
iniciação de Bobby era algo muito significativo, porque somente aos membros
mais chegados da família e seus amigos era permitido assistir àqueles ritos. No
entanto, eu já conhe¬cia muita coisa da cultura dos motilones para saber que alguma
coisa estava faltando. Usualmente era feito um pacto com a pessoa convidada. No
meu caso, não houve.
O sistema social dos motilones é baseado nos pactos entre as
famílias. Se se fizer um pacto com alguém, significa que se concorda em
compartilhar tudo: alimento, abrigo e família. Mas vai além do que isso. As
pessoas se tornam irmãos.
Eu vira antes a elaboração de outros pactos. Parte da
cerimônia consistia na troca de flechas pelas pessoas. Eu desejava estabelecer
um pacto com Bobby, e sentia que ele também o desejava. Mas eu não podia fazer
flechas muito bem, e a troca das flechas era uma parte muito importante para o
início desse relacionamento.
Pedi ao irmão de Bobby que fizesse algumas flechas para mim,
e que providenciasse a cerimônia do pacto. A medida que o dia para a cerimônia
do pacto se aproximava, eu me tomava bastante nervoso. Desejava tanto que Bobby
ficasse satisfeito com ela, e eu tinha receio de cometer algum erro.
Mas tudo correu bem. Entreguei minhas flechas a Bobby, ele
as pegou, e com uma grande demonstração examinou-as cuidadosamente. — Estas
flechas são muito bonitas — disse ele com toda solenidade. — Eu o aceito como
meu irmão.
Recebi as flechas que ele estava me entregando. Eram longas,
pesadas, e muito lindas. Eu podia ver que Bobby, que sempre fizera flechas,
havia tomado um cuidado todo especial ao fazer essas.
Cantamos o hino tradicional da fraternidade, e então o meu
corpo se descontraiu. "Somos irmãos", cantei, olhando para Bobby, e
no meu rosto havia um sorriso tão largo e tão franco quanto o que estava no
rosto de Bobby. "Somos irmãos, e não há nada neste mundo que nos possa
separar."
Cada vez mais passávamos o tempo juntos. Quando eu saía da
casa comunitária para caminhar pelos trilhos dos motilones, Bobby me seguia sem
dizer uma palavra. Para mim isso tinha um significado muito profundo.
Significava que ele me aceitava como seu guia, como o seu chefe pessoal.
Freqüentemente íamos caçar juntos. Um dia lá na selva pisei num enorme espinho.
Quando retirei o pé do sapato de tênis, o sangue começou a jorrar por toda
parte. Bobby começou a correr em volta, dando pequenos gritos de choro até que
eu pudesse parar de gritar e fazer com que o sangue estancasse. Os motilones
nunca demonstram sintoma algum de dor, no entanto, Bobby demonstrara a sua
compaixão e demonstrara que desejava ajudar.
Algumas semanas mais tarde, quando andávamos pela selva,
Bobby parou atrás de mim, sem dizer uma palavra sequer. Por uns instantes não
notara que ele havia parado, porque ele andava tão mansamente. Quando percebi,
eu me virei. Ele estava um tanto trêmulo, e sua boca estava aberta como se
estivesse tentando dizer alguma coisa.
— Bobby — eu disse — o que há com você?
— Nada — ele disse num murmúrio bem baixo. Encolhi os ombros
e continuei a caminhar pela picada. Continuamos andando e nenhum de nós
proferia palavra alguma. O silêncio era enervante. Eu desejava saber o que
havia de errado.
Então ouvi a sua voz atrás de mim.— Bruchko, o meu nome é
"Nos Céus".
Voltei-me espantado. Ele estava ali parado, com a boca
semi-aberta, como se tivesse visto um fantasma. Eu podia perceber que aquilo
era extremamente importante para ele. Mas não compreendia.
— Aquele é o meu nome — ele disse.
— E o que há com Bobarishora?
Ele sacudiu a cabeça. — Não, o meu verdadeiro nome é
"Nos Céus". Esse é o meu nome secreto.
Então ele explicou que cada índio motilone tem um nome
secreto, que é a sua verdadeira identidade. Apenas seus pais e, algumas vezes,
mais alguns, conhecem esse nome. É um segredo, porque se alguém o souber, ele
terá pleno domínio sobre a pessoa. — E você está me contando o seu nome? —
perguntei. — Você está me contando o seu nome secreto, e dando-me poder sobre a
sua vida?
Ele assentiu com a cabeça. Ficamos ali olhando um para o
outro. Foi um dos momentos mais sérios de minha vida.
Então o rosto de Bobby se abriu num sorriso, novamente.
Estendi-lhe as mãos e o peguei pelos ombros. Eu estava chorando. Eu viera à
América do Sul, à Colômbia, e agora à selva, precisando de algo que realmente
eu não esperava encontrar: um amigo verdadeiro. Alguém que fosse meu irmão. Um
irmão de sangue. Eu o havia encontrado. As nossas idades, os nossos idiomas, a
cor de nossas peles, as nossas crenças, tudo, enfim, era diferente. Mas
tínhamos uma coisa em comum: um amor de irmão muito profundo. Eu não sabia para
onde aquilo nos levaria. Mas Deus havia colocado esse amor em nossos corações.
