— Quem vem lá? — gritou um dos homens, provavelmente
pensando que eu fosse um índio. Eu havia caído atrás de uma moita, por isso
eles não me podiam ver.
— Socorro — gritei. — Por favor, ajudem-me. Eles pararam o trabalho
e vieram ver-me.
— O que há com você? — perguntou um deles.
— Médico — foi tudo o que pude falar ofegante.
Eles se olharam com expressão de surpresa, depois me
ergueram e me recostaram numa árvore. Deram-me um bolinho de milho e um pouco
de açúcar. Abri a boca para lhes agradecer, mas vi que não podia falar. Levou
um tempo enorme para eu poder comer o bolinho. Eu estava demasiadamente fraco
para poder mastigar muito bem.
Os homens pegaram a mula, puseram-me sobre ela e me levaram
à casa mais próxima. A esposa de um deles trouxe-me um bocado de feijão
vermelho, muito gostoso, duas broinhas de milho e uma xícara de café, doce e
delicioso. Comecei a sentir-me mais forte. Enquanto eu socava a comida em minha
boca, perguntei a eles a que distância eu estava de Machiques.
— Machiques? Nunca ouvimos falar nisso.
Fiquei surpreso. Machiques era uma cidade bem conhecida.
— Qual é a cidade mais próxima daqui? — perguntei.
— Talamaque.
— A que distância fica? Nunca ouvi falar sobre ela.
— Dois dias de viagem ... andando.
— E qual é a maior cidade mais próxima?
— Rincon Honda.
— O quê? Colômbia? Estou na Colômbia?
Não parei para pensar nisso. Poucos minutos mais tarde eu
estava dormindo. Acordei numa cama, a primeira cama que via depois de mais de
um ano. O sol brilhava através da janela, no mesmo ângulo que brilhava quando
eu adormecera. Dormi apenas alguns minutos, pensei. E depois, então, compreendi
que devia ser o dia seguinte.
Levantei-me, lavei-me e me vesti. Sentia-me melhor, se bem
que ainda me sentisse bastante fraco. Olhei no espelho. Eu era igualzinho a um
espantalho! As minhas roupas — que eu recebera dos iucos, estavam em farrapos.
Não era para se admirar que os homens ficassem amedrontados.
Naquele dia repousei sem gastar muita energia. Meu corpo não
estava acostumado à alimentação, de modo que comi apenas pequenas porções.
Pois, caso contrário, eu ficaria doente. Apanhei um mapa e tentei calcular onde
é que eu estivera durante o ano passado.
No dia seguinte os colonos me levaram a Talamaque. Eu tinha
algum dinheiro venezuelano, que conseguira conservar durante todo o tempo que
estivera nas selvas. Troquei-o por pesos colombianos, fui a uma loja e comprei
um bom par de sapatos, um par de calças de brim, e uma camisa. Deixando, no
quarto de vestir da loja, as minhas roupas sujas e rasgadas, dirigi-me para a
rua, sentindo-me como um novo homem.
Eu desejava transpor a fronteira e ir a Bogotá, a capital da
Colômbia. Ali eu poderia decidir o rumo a tomar. Eu não possuía dinheiro
suficiente para chegar até lá, então comprei uma passagem de trem para parte do
caminho. Com isso, fiquei totalmente sem dinheiro. Mas não me preocupei como é
que eu faria o resto da viagem. De um jeito ou de outro, isso seria resolvido.
Que coisa maravilhosa estar sentado num trem e deixar que
ele me levasse, sem esforço algum, sem nenhuma preocupação. Jamais antes eu
achara tão gostoso andar de trem. A sua velocidade parecia inacreditável. Eu
estendi as pernas no banco da frente e me descontraí.
No meio da viagem o trem parou, e alguns soldados entraram.
Começaram a andar pelo vagão onde eu me encontrava, olhando os documentos de
todos os passageiros.
— Psiu, que é que eles estão fazendo? — perguntei a um homem
que estava no outro lado do corredor.
Ele encolheu os ombros. — Eles estão procurando os guerrilheiros
comunistas. Às vezes eles os prendem nos trens.
Um soldado baixinho, atarracado, com um bigode basto e
grande, aproximou-se de mim. — Por favor, posso ver os seus documentos?
Eu sacudi a cabeça. — Sinto muito, mas não tenho nenhum.
— Você não tem nenhum? Por quê?
— Eu simplesmente estou vindo das selvas.
Muitas cabeças se voltaram em minha direção para me olharem.
O soldado tinha uma aparência inflexível. — Será melhor você me acompanhar —
disse.
Ele me levou ao seu comandante, que, por sua vez, também não
acreditou na minha história. Fui retirado do trem. O comandante telegrafou para
Bogotá, informando que havia capturado um expatriado, suspeito, que
aparentemente estivera foragido nas selvas.
Levaram-me para um posto militar, onde me serviram um bom
almoço, bastante farto. E então o comandante me informou que precisaria
enviar-me para Bogotá para um inquérito.
Tudo o que o fiz foi encolher os ombros. Intimamente eu
estava rindo. Eu não tinha mais dinheiro e somente a passagem que me levaria a
meio caminho de meu destino. Agora, a milícia militar estava me alimentando e
enviando para onde eu desejava ir! Eu tinha um Amigo excelente lá nos lugares
altos.
Contei a minha história, lá em Bogotá a um bom número de
oficiais de alta patente. Eles não acreditaram em tudo, mas eu os convenci de
que realmente estivera nas selvas. Telegrafaram para a embaixada
norte-americana, que naturalmente nunca ouvira falar de mim, visto que eu não
estava registrado na Colômbia. Não pude convencer os oficiais de que deveriam
investigar na Venezuela. Eles tinham a certeza de que aquela parte de minha
história era falsa.
— Ninguém — disseram eles — entra no território dos
motilones e sai vivo.
Tentando fazer-me cair em contradições, eles me enviaram ao
Dr. Gregorio Hernandez de Alba, chefe da comissão dos índios da Colômbia. O Dr.
Hernandez havia lido um artigo sobre os índios iucos, escrito por um
antropólogo e então ele me inquiriu a respeito da cultura deles. O que eu lhe
disse concordava, naturalmente.
— Pois bem — ele disse —, eu creio em você. Você esteve com
os iucos.
— Mas e a respeito dos motilones! — perguntei. — O senhor
não crê que eu estive com eles?
Ele encolheu os ombros e sorriu. — Jamais alguém esteve em
contato com os motilones, portanto não há jeito algum de comprovar a sua
história.
Ele estendeu a mão. — Não tem importância, mesmo assim eu
creio em você.
Ele se responsabilizou por mim, legalmente, de modo que eu
poderia conseguir os documentos oficiais para permanecer na Colômbia. Também me
deu algum dinheiro e me ajudou a achar uma pensão onde eu poderia ficar.
Alguns dias mais tarde encontrei-me numa igreja Batista, em
Bogotá, com um casal de norte-americanos, os Martin. Eles me convidaram a ficar
com eles, deram-me dinheiro para comprar roupas e outras coisas necessárias, e
me apresentaram a muitos de seus amigos.
Eu passava a maior parte de meu tempo andando por Bogotá.
Cada dia que passava, ia-me sentindo bem melhor. Era uma coisa extraordinária
poder comunicar-me livremente. Sentia-me em casa, e quanto mais pensava nisso,
menos vontade eu tinha de voltar aos motilones. A vida era dura nas selvas. Eu
havia passado quase dois anos no seu seio, e na maior parte do tempo estive
doente, comendo um alimento horrível, quando comia algum, e incapaz de me comunicar
muito bem: Portanto, por que deveria eu voltar? Que é que havia lá que me
atraía?
Bem, pensei, eu deveria estar falando aos índios a respeito
de Jesus. Foi para isso que Deus me enviou aqui.
Como é que eu iria fazer isso? Eu não devia voltar às selvas
e transformá-los em norte-americanos, como alguns dos missionários parece que
estavam fazendo. E com todos aqueles mitos e histórias indígenas, lendas e
ritos estranhos, onde e como é que Jesus Cristo poderia apelar para eles?
Mas um homem não abandona a sua esposa simplesmente porque é
penoso alimentá-la. Apesar do quanto desejava estar longe das selvas, eu sabia
que iria voltar lá. Eu precisava voltar. Era lá que Deus desejava que eu
estivesse. Ele afirmara isso tantas vezes que eu não podia ter dúvida alguma.
E, o mais importante, ele despertara em mim um amor pelos motilones, apesar de
tudo o que eu passara, enquanto estivera com eles, que parecia inacreditável.
Eu sabia que isso não fazia sentido, mas quando me perguntavam acerca das
minhas aventuras, descobria que mais e mais eu falava a respeito dos motilones,
da maneira que viviam, e gastava menos tempo, todas as vezes, em falar no que
me acontecera. Eu amava aquele povo. Sentia orgulho dele.
No entanto, Bogotá tinha uma atração. Eu sentia prazer em
estar ali. Desejava ficar ali tanto tempo quanto me fosse possível.
"Pois bem, Senhor, voltarei", eu disse. "Mas
não tenho meio algum para poder ir lá. Quando quiseres que eu volte, tu darás
um jeito para que eu possa ir."
O casal com quem eu morava, os Martin, trabalhava para a
companhia de Petróleo Texaco. Eles estavam interessados na minha história, e o
Sr. Martin desejava que eu a contasse ao superintendente da Companhia
Petrolífera Colombiana, que está associada à Texaco e Mobil. Concordei em fazer
isso, devido à bondade do Sr. Martin para comigo.
Frank Lerory, o superintendente, ouviu a minha história com
toda atenção. Quando terminei, ele se recostou na cadeira e franziu a testa,
como se fosse me dar más noticias.
— Sr. Olson, nós contratamos dois excelentes antropólogos
para entrarem em contato com a tribo conhecida como dos motilones. Como sem
dúvida o senhor já ouviu, parece que são os motilones que atacam os nossos
funcionários.
— Os antropólogos, contudo, em ambas as ocasiões, se
comunicaram com os índios iucos, e afirmaram que eles eram conhecidos como os
motilones —. Ele encolheu os ombros e ergueu as mãos para o alto. — Por que,
então, devemos aceitar o que o senhor está falando?
Mencionei algumas das diferenças na maneira de viver entre
os motilones e os iucos.
— Oh, pois bem — disse ele. — Creio que o senhor sobrevoou
aquela área. E qualquer pessoa pode fazer isso.
Isso me enraiveceu. — Não estou interessado em que o senhor
creia ou não em mim — eu disse. — Eu simplesmente vim aqui porque o Sr. Martin
me pediu para fazê-lo.
Ele demonstrou certo aborrecimento. — Então, que é que o
senhor espera receber de nós?
— Não desejo coisa alguma do senhor — eu disse. "Eu
simplesmente vim a pedido de um amigo."
Ele abanou a mão. — Pois bem, o senhor veio. Muito obrigado.
Levantei-me e virei-me para sair, sem sequer dar-lhe um
aperto de mão.
— Espere um minuto — disse ele. — O senhor deseja voltar ao
território dos motilones?
Eu me virei. Imediatamente me lembrei do que havia orado
alguns dias atrás.
— Sim — eu disse simplesmente.
— Temos um DC-3 que partirá depois de amanhã para o rio de
Ouro — ele disse — ; creio que poderei arranjar para que o senhor vá junto, se
quiser ir. Ali é o ponto mais próximo que poderá chegar até o território deles.
Lentamente sacudi a cabeça. — Muito obrigado. Sei que é. Eu
gostaria imensamente de poder ir.
