Quando eu tinha dezesseis anos, a igreja interdenominacional,
da qual eu agora participava regularmente, realizou uma conferência
missionária. Era algo novo para mim, e eu estava intrigado. Missionários de
todas as partes do mundo se reuniram ali para relatar a respeito das regiões
nas quais estavam trabalhando. Pela primeira vez ouvi a frase "A Grande Comissão".
Havia um quê misterioso nela.
Um dos missionários, o Sr. Rayburn, "servira" na
Nova Guiné. Ele era um homem baixo, gordo, com uma expressão de surpresa
permanente em seu rosto. Na noite que ele falou, usou uma camisa verde,
brilhante, de bolinhas, calças pretas, e sapatos de tênis, sujos. Eu estava tão
surpreendido que alguém tão desleixado assim falasse na igreja, mas logo descobri
que ele possuía uma mensagem vigorosa.
A igreja estava repleta. Eu lera a respeito de Nova Guiné, e
antecipava com prazer um relatório em primeira mão.
O Sr. Rayburn exibiu alguns filmes que ele filmara. Numa das
cenas havia um homem comendo um rato. Podia-se ver o rabo de um rato ainda na
sua boca — e então — lá se fora ele.
— Aquele homem comendo o rato não é cristão — disse o Sr.
Rayburn.
Pobre coitado, pensei, lembrando-me de como eu fora infeliz
antes de me tornar cristão.
Havia outras cenas: algumas de extrema pobreza no meio das
cidades modernas, outras dos "nativos com suas roupas esquisitas, suas
casas e seus hábitos de alimentação. E então o Sr. Rayburn fez o seu apelo.
— Essas pessoas estão famintas, estão morrendo por causa das
doenças, vivendo na ignorância, comendo ratos. Mas, acima de tudo, estão
famintas pelo conhecimento de Jesus Cristo. Elas estão morrendo perdidas, sem
conhecer como Jesus Cristo pode salvá-las de seus pecados. Vocês podem ficar aí
sentados, confortavelmente, em seus lugares e aceitar tudo isso? Vocês se
preocupam por esses homens e mulheres que estão vivendo na esqualidez e
imundície? Eles estão morrendo, amaldiçoados pela condenação eterna. E o que é
que vocês fazem? Talvez, colocarão alguns centavos na salva, no domingo de
manhã. Talvez até ponham uma nota de um dólar para poder auxiliar aquelas
pessoas que estão famintas pelo Evangelho.
— Mas Jesus quer muito mais de vocês. Ele deseja alguma
coisa mais do que apenas uma adoração de lábios para a grande causa das
missões. É responsabilidade de todos aqui levar o Evangelho de Cristo a essas
pessoas. De outra forma, o sangue deles será exigido de vocês.
Naquela noite eu tive vários pesadelos. Sonhei que o homem
que comera o rato estava puxando o rabo do rato, para fora da boca. Ele se
transformara num chicote, e o homem o usava para me bater, enquanto gritava:
"O meu sangue é exigido de você."
Acordei banhado em suor.
Isso não está certo, pensei. Deus não é assim. Ele é um Deus
de amor. Ele me ama.
"Mas você o ama?" surgiu a pergunta em seguida.
"Sim, eu o amo. Naturalmente que eu o amo. Eu poderia
deixar de amá-lo?"
"Não quer servir a ele, então?"
"Servi-lo? Eu o estou servindo. Eu estudo a Palavra.
Partilhei com todos os meus amigos o que ele significa para mim. Isso não é
servi-lo?"
Na tarde seguinte conversei com o Sr. Rayburn. — Você está
perdendo o seu tempo aqui — disse ele —. O mundo todo está condenado, e a sua
responsabilidade é entregar a eles a verdade.
Durante várias semanas, após a conferência, eu me debati com
Deus.
"Afinal de contas, o que é que tu tencionas, fazer de
mim um missionário?" perguntei. "Por que é que não posso ser teu
servo aqui em Minneapolis?"
O meu alvo era tornar-me professor de línguas, conseguir o
meu doutorado em filosofia. Mas alguma coisa dentro de mim me dizia: "Mas
isso não é o que Deus quer que você faça."
"Ouve, Deus, esses missionários são ridículos",
objetei. "Eles usam sapatos de tênis, lá no púlpito. As suas cartas com
pedidos de oração nem são escritas num inglês correto. E a teologia deles? Eles
estão sempre falando em inferno e condenação. Onde é que está o amor deles
pelas pessoas com quem estão convivendo? Eles são uns fracassos. Eles não conseguem
vencer na vida normal, e então se tornam missionários."
"Mas, eu posso vencer aqui, Pai. Todo mundo concorda
comigo. Por que é que devo ir trabalhar com pessoas nuas e famintas?"
Deus nunca me disse por que. Porém ele realmente mudou o meu
coração. Gradualmente o meu sonho sensato e agradável de me tornar professor de
linguística foi-se desfazendo numa idéia ridícula de ir a outros países e falar
com os selvagens a respeito de Deus. Eu tinha certeza de que isso não fazia
sentido para os meus pais e também não fazia muito sentido para mim. Mas com o
passar dos meses, enquanto eu andava para a escola, sentava na classe e sonhava
acordado, enquanto lia a Bíblia, ele me deu algo que eu nunca havia esperado
receber compaixão.
Eu não podia lutar contra ela. Deus não fazia nenhuma
exigência. Ele não me forçava. Porém eu me achei irresistivelmente interessado
em outros países, em outras culturas. À medida que ia lendo, a América do Sul
prendia a minha atenção, e comecei a identificar-me com os povos daquele continente.
Dentro de pouco tempo eu me encontrava sonhando com aquela terra encantadora e
com seu povo. Entreguei os pontos a Deus.
Eu disse a Kent Lange que eu fora "chamado" para
ser missionário na América do Sul.
— Você? Você? Missionário? — O rosto de Kent se abriu num
sorriso. — Bruce, isso é inacreditável. Você não se lembra de quando éramos
escoteiros — que grande aventureiro você era?
Sorri juntamente com ele. Meus pais me deixavam em frente da
igreja metodista, onde a tropa dos escoteiros se reunia. Eu entrava pela igreja
dentro e saía pela porta do fundo, indo à Farmácia do Rei, onde comprava um
livro e o lia até à hora de ir para casa. A vida ao ar livre nunca me
interessara.
Amigos, só de nome, também me censuraram. Eles me fizeram
lembrar das minhas incapacidades físicas. Quando mais novo, eu sofrera de
bronquite, e eu ainda não era muito forte.
— E Bruce — eles me disseram —, você tem um futuro brilhante
à sua frente, como professor de linguística. Não jogue fora as suas
capacidades.
Era um argumento bem convincente. No entanto, eu estava
mudando de idéia a respeito da envergadura dos missionários. Quando examinei os
requisitos da junta de missões, descobri, para surpresa minha, que era
necessário que se tivesse o preparo de um instituto bíblico (ou o equivalente a
ele, de uma faculdade) a fim de poder ser aceito. Então, adiei a minha decisão
e no outono de 1959 fui ao Estado de Pensilvânia. Para qualquer das vocações —
catedrático de linguística ou missionário — eu precisaria do preparo de uma
faculdade.
Mas eu não podia fugir à minha fascinação pelo povo da
América do Sul. Sentia-me obrigado a ler livros sobre a sua história e cultura,
e tornei-me profundamente interessado em dois países: Colômbia e Venezuela.
Gostei de minhas aulas lá em Pensilvânia, e fui muito bem
nos estudos. Mas eu me sentia solitário. Havia feito poucos amigos. Mas no
íntimo de minha mente, apoquentando-me, estava a idéia de que eu deveria estar
planejando ir, num futuro próximo, à Colômbia ou Venezuela.
No ano seguinte eu me transferi para a Universidade de
Minesota. Tinha a esperança de que estando em casa novamente, a situação da
família melhoraria. Mas não melhorou em nada. Eu orara pedindo a Deus que
mudasse a atitude de meus pais a meu respeito e a minha atitude para com eles.
Eu sabia que não os ajudava em nada. Porém, meu pai, particularmente,
permanecia rigoroso e era uma tensão demasiadamente pesada para mim. Estávamos
sempre numa alternativa, ignorando-nos friamente, ou nos debatendo abertamente.
De qualquer jeito, eu não era aos olhos deles considerado como uma pessoa adulta.
Com tudo isso, a minha compaixão pelas pessoas da América do
Sul continuava a crescer. O que inicialmente fora um compromisso um tanto
morno, tornara-se agora numa ânsia impulsionadora. Finalmente, uma tarde,
decidi que não esperaria até terminar a faculdade. Eu iria visitar a América do
Sul agora. Talvez eu achasse paz para o meu coração assim que chegasse lá.
Iniciei o processo de candidatar-me a uma junta de missões
muito bem conhecida, lá na Venezuela. Era um processo cacete, lento, e eu
sentia que a escola me irritava. Uma vez que eu tomara a decisão de deixar os
Estados Unidos, não via razão para continuar a frequentar a escola. E a idéia
de ir à Venezuela estava-se tornando cada vez mais e mais excitante.
Também sentia uma paz íntima a esse respeito. Sabia, que
apesar de parecer absurdo, eu estava fazendo a coisa certa. Estava obedecendo a
Deus.
E então, um dia, recebi a resposta da junta de missões, tão
ansiosamente esperada. Numa grande excitação abri o envelope. Encontrei apenas
uma folha de papel.
"Prezado Sr. Olson: Lamentamos muito informá-lo que não
podemos aceitá-lo, no momento, para os serviços missionários. O senhor
compreende, eu espero que ..."
Nem sequer terminei de ler a carta. Não podia. Parecia que
as palavras haviam perdido todo o seu sentido — como se tivessem sido escritas
em hieróglifos. Eu olhava espantado para elas. Minha mãe entrou no quarto
naquele momento e percebeu que havia algo errado.
— O que é que há, Bruce? — perguntou, pondo sua mão na minha
testa, examinando para ver se eu estava com febre.
Fechei os olhos e respirei profundamente. — Não é nada,
mamãe — eu disse —. Simplesmente algumas notícias más.
Ela olhou para mim interrogativamente, mas eu não podia
explicar. Especialmente naquele momento. Virei-me e saí do quarto.
Mais tarde, ultrapassado o choque, eu me senti melhor. Bem,
pelo menos isto já está terminado e não tenho mais nada com o assunto, pensei.
Não preciso mais me preocupar a respeito de Deus querendo que eu vá, pelo menos
por certo tempo, à América do Sul.
Por alguns dias eu me senti aliviado. Matriculei-me em novas
classes na Universidade de Minesota e realmente antecipava os meus estudos. Meu
sonho de ser professor de línguas havia retornado. Eu podia reiniciar onde
havia deixado, e esquecer tudo a respeito da América do Sul, como se esquece um
pesadelo depois de acordar.
Porém, muitas vezes enquanto estudava na biblioteca, sentia
Deus me acotovelando. "Bruce, eu quero você na América do Sul."
"Mas, Senhor, eu já tentei isso. Tu não te lembras? Fui
recusado."
"Foi recusado por quem?"
"Ora, pela junta de missões, naturalmente."
Era como se Deus estivesse sorrindo para mim, divertindo-se
e tolerando. "Bruce, eu não o recusei. Quero você na América do Sul.
Siga-me."
"Deus, isso é ridículo. Como é que posso ir até lá sem
uma junta de missões? Queres que eu vá para lá sem ter ninguém para cuidar de
mim? Quero dizer — sem nenhum protocolo e tudo mais?"
"Bruce, eu também estou na América do Sul."
E então, lentamente, com má vontade, comecei a ver o que Deus
estava tentando me ensinar. Ele não me havia chamado para ser missionário como
o Sr. Rayburn. Ele me havia chamado para si mesmo, para ser como o seu Filho
Jesus Cristo. Ele queria que eu o seguisse até à América do Sul. Agora.
Eu sabia que os meus pais nunca aceitariam isso. Até mesmo a
idéia de ir, sob os cuidados de uma junta de missões já em função, os havia
perturbado. E ir por mim mesmo, só ... eles julgariam aquilo impossível.
Então fui a Chicago de trem, a fim de providenciar o meu
passaporte e o visto de entrada, sem dizer-lhes coisa alguma. Eu tinha dinheiro
apenas para a passagem de trem de ida e volta: nada para as refeições ou para
um lugar onde dormir. Durante a viagem fui orando, pedindo a Deus que tomasse
conta de tudo que eu fosse precisar.
Estava faminto quando cheguei a Chicago. Eu tinha perto de
trinta centavos no bolso. Consegui abrir caminho através daquela estação
enorme, alvoroçada, e cheia de barulho, indo para a rua. Parei uns instantes a
fim de orientar-me. Estava quente e o vento soprava. Olhei para baixo e pelo
canto dos olhos vi algo verde. Parecia ser dinheiro.
Peguei-o e o desdobrei. Era uma nota de dez dólares!
"Oba! Obrigado, Deus", sussurrei. Olhei em volta,
esperando que alguém viesse reclamar. Não havia ninguém ali por perto. Não
havia jeito algum de descobrir quem o havia deixado cair. Eu podia ficar com
aquele dinheiro.
Mais tarde um amigo me deu o nome e o endereço de um
missionário na Venezuela. Escrevi a ele e lhe perguntei se estava disposto a me
esperar no aeroporto. Contei-lhe que era estudante e estava interessado em
missões. Ele me respondeu entusiasticamente, dizendo que faria todo o possível
para estar lá no aeroporto e que me mostraria Caracas e me ajudaria a achar um
lugar onde eu pudesse ficar. Aquilo ajudou a acalmar os temores de minha mãe.
Mostrei aos meus pais fotografias de Caracas e contei-lhes a
respeito de seu alto padrão de vida e de sua cultura bem desenvolvida nos
moldes da civilização do Ocidente. Nada, porém, os convencia. Eles tinham a
certeza de que qualquer outro lugar, além dos Estados Unidos ou Europa, era
bárbaro, e que eu estava desperdiçando a minha vida.
Mas deixaram-me ir. Deram-me dinheiro suficiente para a
minha viagem de avião até Caracas, e mais setenta dólares para as despesas. Eu
esperava que isso fosse suficiente.
Quase perdi o avião. Eu perdera a passagem lá na igreja,
numa grande festa de despedida, e alguém a achara e a entregara na hora certa.
Quando a recebi, havia apenas alguns minutos para uma despedida muito rápida
com os meus pais e os Lange. E então subi a rampa e entrei no avião. A comissária
de bordo mostrou-me o lugar, e eu me sentei e tentei relaxar.
Por uns momentos o pânico me invadiu. O que estava eu
fazendo? Eu tinha dezenove anos. Possuía setenta dólares, não sabia uma palavra
de espanhol e não tinha nenhum plano concreto. Apenas um impulso interno vindo
de Deus, que quase todo mundo julgava ser uma coisa louca.
Pelo menos, o Sr. Saunders, o missionário a quem eu havia
escrito, estaria no aeroporto à minha espera.
Recostei-me no meu assento e observei enquanto o avião
deixava o solo para trás. Os campos quadriculados e as árvores gradualmente
eram como se fossem pequenas manchas verdes e logo depois os perdi de vista,
assim que o avião foi envolto pelas nuvens.
