Na realidade, o Beje era o centro de um círculo
clandestino que agora alcançava pontos distantes da Holanda. Diariamente,
chegavam aqui dúzias de agentes, relatórios, apelos. Mais cedo ou mais tarde,
iríamos cometer um erro.
Eu me preocupava muito à hora das refeições. Era tanta
gente, agora, que tínhamos de dispor as cadeiras ao redor da mesa em sentido
diagonal. Nosso gato gostava muito desse arranjo. Eusie lhe tinha dado o nome
hebraico de Maher Shalal Hashbaz, cujo significado - aliás bem sugestivo
- era: "apressando-se em direção aos espólios, apressando-se a agarrar a
presa". Com as cadeiras assim juntas, M. S. Hashbaz saltava de ombro em
ombro, dando voltas, ronronando fortemente, rodando sem parar.
Eu estava inquieta por sermos tantos ali. A sala de
jantar ficava apenas cinco degraus acima do nível da rua. Quem passasse podia
ver-nos pela janela. Colocamos uma cortina branca que, conquanto não impedisse
a entrada da luz, vedava um pouco a visão. Ainda assim, eu só nos considerava
a salvo dos olhares curiosos, à noite, quando descíamos os grossos cortinados
para o blecaute.
Certo dia, ao almoço, olhando através da cortina rala,
pensei ter visto um vulto lá fora, no beco. Quando olhei de novo, um minuto
mais tarde, ainda estava lá. Não havia razão alguma para permanecer ali, a não
ser que estivesse querendo saber o que se passava no Beje. Levantei-me e afastei a cortina uns dois
centímetros.
De pé, a alguns passos de distância, aparentemente imobilizada
por uma forte emoção, estava Katrien, a velha amiga que morava em casa de
Nollie.
Corri à porta, abri-a apressadamente, e puxei Katrien
para dentro. Apesar de estar fazendo bastante calor naquele dia de agosto, suas
mãos estavam geladas.
- Katrien, o que está fazendo aqui? Por que estava ali parada?
- Ela ficou louca, soluçou. Sua irmã enlouqueceu.
- Nollie? O que aconteceu?
- Eles foram lá, respondeu. A polícia. Não sei o que eles
sabiam, nem quem contou para eles. Sua irmã e Annaliese estavam na sala e eu
escutei. Ela começou a soluçar. Eu a ouvi dizer...
- Ouviu-a dizer o quê? eu quase gritava.
- Ouvi-a contar para eles. Eles apontaram para Annaliese
e perguntaram: "Ela é judia?" e sua irmã disse: "É."
Senti meus joelhos tremerem. Annaliese. A jovem Annaliese,
loura e linda, com documentos perfeitos. E ela tinha confiado em nós. Ah!
Nollie, Nollie, que foi você fazer por causa de sua rígida honestidade?
- E daí? perguntei.
- Não sei. Saí correndo pela porta dos fundos. Ela ficou
louca.
Deixei Katrien na sala de jantar, rodei minha bicicleta
para fora do hall e saí pedalando o mais depressa que podia os dois quilômetros
até a casa de Nollie. Nesse dia, o céu não mais me parecia amplo. Ao chegar à
esquina da Rua Bos en Hoven, encostei a bicicleta a um poste, e parei ofegante,
com o coração aos pulos.
Depois, o mais calmamente que pude, subi na calçada,
seguindo em direção à casa. A não ser por um carro parado junto ao meio-fio,
tudo parecia enganosamente tranqüilo. Passei direto. Nenhum ruído escapava por
entre as cortinas brancas. Nada distinguia esta casa das outras casinhas
iguais, que havia de um e outro lado da rua.
Quando cheguei à esquina oposta, virei e comecei a voltar.
Naquele momento, a porta se abriu e Nollie apareceu. Atrás dela vinha um homem
de terno marrom. Um minuto depois, surgiu outro homem, meio puxando, meio
carregando Annaliese. O rosto da moça estava branco como cal. Enquanto iam
até o carro, duas vezes eu tive a impressão de que ela ia desmaiar. A porta do
velho carro bateu, o motor roncou e eles partiram.
Rodei de volta para o Beje tentando controlar
lágrimas de desespero. Pouco depois, soubemos que Nollie havia sido levada
para a delegacia próxima ao Beje, e colocada numa das celas ao fundo do
prédio. Annaliese, porém, fora encaminhada para o velho prédio do teatro
judeu, em Amsterdam, de onde eles eram transportados para os campos de
extermínio, na Alemanha e na Polônia.
Foi Mietje, a encurvada, acabada e pequena Mietje, cujo
oferecimento de ajuda havíamos desprezado, que nos conservou em contato com
Nollie. Ela está bem disposta, dizia-nos ela, cantando hinos e outras canções
com aquela sua vozinha doce de soprano.
Como é que ela podia cantar quando havia traído um ser
humano?
Betsie fazia pão todos os dias, e Mietje o entregava a
ela; também levou-lhe, a seu pedido, sua blusa de frio, azul, com flores
bordadas nos bolsos, de que ela tanto gostava.
Foi Mietje também quem nos trouxe outro recado de Nollie,
um que era dirigido especialmente a mim:
"Nada de mal acontecerá a Annaliese. Deus não vai
deixar que a levem para a Alemanha. Ele não vai deixar que ela sofra por eu ter
obedecido a ele."
Seis dias depois da prisão de Nollie, o telefone tocou.
Era Pickwick.
- Será que posso lhe pedir o incômodo de vir você mesma
trazer o relógio?
Entendi que era uma mensagem que não podia ser passada
pelo telefone. Parti imediatamente para Aerdenhout, levando comigo um relógio
de homem, como medida de segurança.
Ele esperou estarmos dentro de casa, com a porta fechada.
- O teatro judeu foi tomado ontem à noite. Conseguiram
libertar quarenta judeus. Um deles, uma jovem, insistiu em que o seguinte
recado fosse enviado a Nollie: "Annaliese foi liberta."
Pickwick fixou em mim um de seus olhos arregalados.
- Entendeu?
Assenti com a cabeça, invadida por uma alegria e alívio
grandes demais, para poder falar. Como é que Nollie soubera? Por que ela
sempre tivera tanta certeza?
Depois de passar dez dias na cadeia de Haarlem, Nollie
foi transferida para a prisão federal em Amsterdam.
Pickwick informou-nos que o médico alemão encarregado do
hospital da prisão era muito bondoso, e, de vez em quando, conseguia a soltura
de alguém alegando condições precárias de saúde. Resolvi ir imediatamente a
Amsterdam para vê-lo. Mas o que poderia dizer-lhe? indaguei-me enquanto
aguardava no hall de entrada de sua residência. Como poderia eu obter as boas
graças daquele homem?
Rodando por ali, farejando minhas mãos e pernas, estavam
três enormes cães, da raça dobermann. Lembrei-me do livro que estávamos
lendo à noite, à luz do farol da bicicleta: Como Fazer Amigos e Influenciar
Pessoas. Uma das técnicas defendidas por Dale Carnegie, o autor do livro,
era: "Descubra o hobby da pessoa que deseja influenciar." Hobby:
cães. Será que...?
Afinal, a empregada retornou e conduziu-me a uma saleta.
- Que idéia boa, doutor! disse em alemão, ao homem de
cabelos grisalhos sentado no sofá.
- Idéia boa?
- É; trazer estes cães maravilhosos consigo. Eles devem
lhe fazer companhia, agora que tem que estar distante de sua família.
O rosto do médico se iluminou.
- Gosta de cachorros?
Quase que os únicos cachorros que eu conhecia eram os
buldogues de Harry de Vries.
- Os de que mais gosto são os buldogues. Gosta deles?
- As pessoas em geral não sabem de uma coisa, respondeu
entusiasmado, mas os buldogues são os que se afeiçoam mais facilmente.
Conversamos sobre cães durante aproximadamente dez
minutos, eu esquadrinhando minha mente para lembrar tudo que ouvira ou lera
sobre estes animais. Depois, abruptamente, o médico ficou em pé.
- Mas estou certo de que não veio aqui para falar de
cães. O que é?
Olhei-o de frente.
- Tenho uma irmã na prisão aqui em Amsterdam. Eu estava
pensando que... eu acho que ela não está bem.
O médico sorriu.
- Então você não está nem um pouco interessada em cachorros.
.- Estou interessada agora, respondi sorrindo também; mas
estou mais interessada em minha irmã.
- Como é o nome dela?
- Nollie van Woerden.
Ele saiu da saleta e voltou depois com um caderninho
marrom.
- É. Ela chegou há pouco. Diga-me alguma coisa sobre ela.
Por que está presa?
Arriscando um pouco, disse-lhe que o crime de Nollie havia
sido dar abrigo a uma judia. Disse-lhe também que ela tinha seis filhos, que,
se deixados sem cuidados, se tornariam um peso morto para o Estado. (Não
mencionei que o mais novo tinha agora dezessete anos.)
- Bem, vamos ver. Ele dirigiu-se para a porta. Você vai
me dar licença agora.
No trem de volta para Haarlem, sentia-me esperançosa; não
me sentia assim desde que minha irmã fora presa.
Os dias se passavam; uma semana, duas, e não recebemos
mais notícias. Voltei a Amsterdam.
- Vim ver como estão os seus dobermanns, disse ao
médico.
Ele não aderiu à minha brincadeira.
- Você não deve me importunar. Sei que não veio aqui para
falar sobre os cães. Tem que me dar tempo.
Concluí que não havia nada mais a fazer senão esperar.
Era um dia claro de setembro, e almoçávamos – dezessete pessoas apertadas em torno da mesa. De repente, Nils, que estava assentado diretamente à minha frente, empalideceu. Nils era um dos nossos, e viera nos comunicar que Katrien chegara sã e salva a uma fazenda ao norte de Alkmaar. Abaixando a voz, ele falou:
- Não se virem, mas há alguém espiando por sobre a cortina.
Sobre a cortina? Mas isso é impossível! A pessoa teria
que estar a três metros do solo. Um silêncio pesado caiu sobre a mesa.
- Está de pé numa escada lavando as janelas, informou
Nils.
- Mas eu não contratei ninguém para lavar as janelas,
disse Betsie.
O que quer que fosse, não podíamos ficar ali sentados,
paralisados, numa quietude culposa. Eusie teve uma idéia.
- Parabéns pra você! começou a cantar. Parabéns pra você!
Nós compreendemos e nos unimos a ele com muita animação.
- Parabé - éns, vovô...
A música ainda ecoava pelo Beje, quando saí para a
rua, pela porta lateral e parei perto da escada, e olhei para o homem que
segurava um balde e uma esponja.
- O que está fazendo? Nós não contratamos ninguém para
lavar a janela, e ainda mais agora, durante a nossa festinha...
O homem tirou um papel do bolso e deu uma olhada.
- Não é aqui a residência dos Kuipers?
- Não; é do outro lado da rua. Bom, entre e venha para a
festa.
Ele acenou que não. Agradeceu-me mas tinha que trabalhar.
Olhei-o, enquanto atravessava a Rua Barteljoris com sua escada e chegava à
confeitaria dos Kuipers.
- Deu certo? perguntou-me um coro de vozes, quando
regressei à sala de jantar. Será que ele estava mesmo nos espionando?
Não respondi. Eu não sabia.
O mais difícil era justamente isto: nunca se podia ter a certeza. Uma das grandes incógnitas para mim era saber como eu me portaria sob o fogo do interrogatório. Se estivesse acordada não tinha dúvidas, mas, e se eles aparecessem à noite?
Várias vezes, nosso pessoal tentou me ajudar nesse
sentido - Nils, Henk, Leendert - entravam de repente em meu quarto, sem aviso,
e sacudiam-me para me despertar, atirando-me perguntas ao mesmo tempo.
Da primeira vez que isto se deu, pensei ser a polícia mesmo.
Alguém batia fortemente à porta, depois o facho de uma lanterna feriu meus
olhos.
- De pé! Levante-se!
Eu não conseguia ver a pessoa que me falava.
- Onde estão escondidos aqueles nove judeus?
- São somente seis agora.
Seguiu-se um silêncio terrível. A luz do quarto foi acesa
e vi Rolf com as mãos na cabeça em desespero.
- Oh! não, não! dizia. Não é possível que esteja tão ruim
assim!
- Pense bem, disse-me Henk, de pé atrás dele. A Gestapo
está tentando apanhá-la numa armadilha. A resposta é: "Que judeus? Não há
judeu nenhum aqui."
- Vamos tentar de novo?
- Agora não dá mais, disse Rolf. Você está bem desperta.
Alguns dias depois, tentaram novamente.
- Os judeus que vocês escondem, de onde vêm eles?
Sentei-me meio tonta.
- Não sei; eles apenas aparecem aqui.
Rolf atirou o chapéu no chão.
- Não, não, não! gritou. Que judeus? Não há nenhum judeu
aqui. Será que você não aprende?
- Vou aprender, prometi. Eu vou melhorar.
E assim foi. Na vez seguinte, eu acordei melhor. Seis ou
sete vultos escuros rodeavam a cama.
- Onde vocês escondem os cartões de racionamento? perguntou
uma voz.
Dentro do primeiro degrau da escada, naturalmente, mas
desta vez não me deixaria apanhar. Ocorreu-me outra resposta engenhosa:
- No relógio frísio, perto da escada.
Kik sentou-se à beira da cama e passou o braço pelos meus
ombros.
- Foi bem melhor, Tia Corrie, disse. Desta vez, pelo menos
a senhora tentou. Mas, lembre-se: não há nenhum cartão extra, só os dos três,
da senhora, do vovô e Betsie. Não há atividade clandestina aqui; a senhora não
sabe do que eles estão falando...
Gradualmente, com a repetição dos treinos, eu melhorei,
mas ainda assim, quando fosse para valer, quando viessem os agentes da Gestapo,
policiais treinados em extrair a verdade dos outros, como agiria?
Por causa de seu trabalho clandestino, Willem vinha a Haarlem freqüentemente. Seu rosto enrugado trazia agora uma expressão de algo semelhante ao desespero. Já houvera duas batidas ao seu abrigo de velhos, e, embora ele tivesse conseguido enganá-los a respeito da maioria dos judeus que ainda residiam lá, levaram uma velhinha cega e doente.
- De noventa e um anos! disse-nos muitas vezes. Ela nem
conseguia andar. Tiveram que carregá-la para o carro.
Até então, a posição de Willem como ministro do evangelho
tinha impedido a ação direta contra ele e Tine; mas era muito vigiado,
disse-nos, e cada vez mais de perto. Para ter um motivo real para suas visitas
a Haarlem, ele começou a dirigir uma reunião semanal de oração no Beje, toda
quarta-feira pela manhã.
Entretanto Willem não era pessoa de fazer nada por rotina
- principalmente orar - e, daí a pouco, a reunião estava sendo assistida por
dezenas de interessados, que se achavam sedentos para crer em alguma coisa,
nesse quarto ano de ocupação. A maioria dos que vinham a esses cultos no Beje
não tinham a mínima idéia da vida dupla que se levava ali.
De certo modo, eles representavam mais perigo, pois estavam
sempre cruzando com nossos auxiliares, e com mensageiros de outros grupos
clandestinos que subiam ou desciam aquelas escadas estreitas. Por outro lado,
poderia ser de grande vantagem estas pessoas desligadas do movimento estarem
sempre por ali. Pelo menos, esperávamos que fosse.
Estávamos assentados à mesa, certa noite, após o toque de recolher, os três ten Boom, nossos sete "hóspedes permanentes", e mais dois judeus para quem estávamos à procura de esconderijo, quando a campainha da porta da loja tocou.
Um freguês? A esta hora, depois de fechada a loja? E era
um freguês muito corajoso, para andar pela Rua Barteljoris depois do toque de
recolher. Tirei as chaves do bolso e desci para o hall; abri a porta da
oficina, atravessei a loja apalpando no escuro. Parei à porta e fiquei à
escuta.
- Quem está aí? gritei.
- Lembra-se de mim?
Era uma voz masculina falando em alemão.
- Quem é? perguntei na mesma língua.
- Um velho amigo que vem visitar. Abra a porta!
Girei a chave e entreabri a porta. Era um soldado alemão
fardado. Antes que eu pudesse alcançar o botão de alarme situado atrás da
porta, ele empurrou-a e entrou. Tirou o chapéu, e, na meia escuridão de um
entardecer de outubro, reconheci o relojoeiro alemão que papai tinha despedido
há quatro anos.
- Otto! gritei.
- Capitão Altschuler, corrigiu-me. Nossa posição agora
está invertida, não é mesmo, minha senhora?
Olhei para suas insígnias. Ele não era capitão, nem nada
parecido, mas deixei passar. Ele correu os olhos pela loja.
- O mesmo lugarzinho atulhado, disse.
Estendeu o braço para acender a luz mas eu pus minha mão
sobre o interruptor.
- Não! Não temos cortinado para o blecaute aqui.
- Bom, vamos para cima para recordar os velhos tempos.
Aquele velho limpador de relógios ainda está por aí?
- Christofells? Morreu no inverno passado, com a falta de
combustível.
Otto encolheu os ombros.
- Não foi grande perda. E o nosso santo ledor de Bíblia?
Eu estava me aproximando aos poucos do balcão onde havia outro botão.
- Papai vai bem, obrigada.
- Não vai me convidar para subir e cumprimentá-lo? Por
que ele estava tão interessado em subir? Será que esse rapaz maldoso tinha
vindo só para gozar seu triunfo, ou suspeitava mesmo de alguma coisa? Meu dedo
encontrou a campainha.
- Que foi isso? Otto virou-se desconfiado.
- Isso o quê?
- Esse barulho. Ouvi uma espécie de cigarra.
- Não ouvi nada.
Otto já se encaminhava para a oficina.
- Espere, gritei. Deixe-me trancar a porta que eu quero
subir com você. Quero ver quanto tempo eles vão levar para reconhecê-lo.
Demorei na porta o máximo que pude. Definitivamente: ele
estava mesmo desconfiado. Depois, segui-o atravessando a porta e entrando no
hall. Não vinha ruído algum da sala de jantar, nem das escadas. Passei na
frente dele e bati à porta.
- Papai, Betsie, gritei numa voz que esperava que soasse
em tom de brincadeira. Dou a vocês três... não... seis chances de adivinhar
quem está aqui.
- Sem adivinhações. Otto adiantou-se e abriu a porta
bruscamente.
Papai e Betsie ergueram o rosto do prato. A mesa estava
posta para três, meu prato com a refeição não terminada, do outro lado da mesa.
Estava tudo tão perfeito que, até eu que vira doze pessoas comendo ali, quase
não podia acreditar que havia apenas um velho inofensivo jantando com as
filhas.
O cartaz do relógio "Alpina" estava sobre o
armário: eles não haviam esquecido nada.
Sem esperar convite, Otto puxou uma cadeira.
- Bem, exultou ele, foi como eu disse, não foi?
- É; parece, respondeu papai suavemente.
- Betsie, disse eu, sirva chá ao capitão Altschuler.
Otto provou o líquido que Betsie colocara para ele e
olhou para nós.
- Onde conseguiram chá? Ninguém na Holanda tem chá de
verdade.
Que tolice minha! Arranjáramos o chá com Pickwick.
- Se quer mesmo saber, respondi, foi com um oficial alemão;
mas não pergunte mais nada.
Tentei dar a impressão de que lidávamos com os altos comandos
da ocupação. Otto ficou mais uns quinze minutos. Depois, sentindo talvez que já
enfatizara sua vitória bastante diante de nós, saiu para a rua vazia.
Foi somente meia hora
depois que tivemos coragem de dar o sinal de que tudo estava bem para aqueles
nove, que estavam doloridos e ainda tremendo de susto.
Na segunda semana de outubro, em meio a uma manhã cheia da confusão dos problemas do nosso movimento clandestino, o telefone tocou embaixo no hall. Apressei-me a atendê-lo; somente eu, papai ou Betsie atendíamos o telefone.
- Hei! disse a voz. Não vem me buscar? Era Nollie.
- Nollie! Quando... como... onde está você?
- Na estação de Amsterdam! Só que não tenho dinheiro para
a passagem.
- Fique aí. Nós vamos agora mesmo.
Pedalei até a casa dela, e, juntamente com Flip e com os
filhos que se encontravam em casa no momento, fomos para Amsterdam. Vimos
Nollie antes mesmo de o trem parar. Sua blusa de frio, de um azul brilhante,
era como um pedaço do céu naquela estação sombria.
Após quase dois meses de prisão, Nollie parecia muito
pálida, mas era a mesma Nollie de sempre. O médico da prisão, contou-nos,
tinha considerado sua condição de saúde como precária, por causa de sua baixa
pressão arterial, o que poderia prejudicá-la permanentemente, deixando seus
seis filhos a cargo da sociedade. Ao relatar isto, seu rosto honesto tinha uma
expressão de admiração, mas para mim, suas palavras tinham o sabor
perfeitamente permissível de um abuso da verdade.
O Natal de 1943 estava se aproximando. A neve que caíra era o único elemento festivo da ocasião. Parecia que cada família tinha um ente querido na cadeia, ou num campo de trabalhos forçados, ou então, foragido. Desta vez, o significado religioso do dia, era o ponto alto para todos nós.
No Beje, tínhamos que comemorar não somente o Natal, mas
também o Chanucah, a "Festa das Luzes".
Betsie arranjou um candelabro próprio para a celebração
entre as coisas que estavam guardadas detrás do armário do canto da sala de
jantar. Diariamente, nós acendíamos uma vela, e Eusie lia uma parte da história
dos Macabeus. Depois, cantávamos os tormentosos e melancólicos hinos do
deserto. Naqueles dias, éramos todos judeus.
Na quinta noite da Festa, encontrávamo-nos ao redor do
piano, quando a campainha da porta lateral tocou. Abri-a, e vi a Sra. Beukers,
esposa do dono da ótica ao lado, de pé sobre a neve. A Sra. Beukers era gorda e
calma, enquanto seu marido era magro e tenso. Nesta noite, porém, seu rosto redondo
tinha uma expressão de preocupação.
- Será que os seus judeus poderiam cantar um pouco mais
baixo? sussurrou ela. Estamos ouvindo tudo através da parede e... bem, tem
gente de todo tipo nesta rua...
Voltei ao quarto de Tia Jans, e ali comentamos a comunicação
dela bem consternados. Já que a família Beukers sabia de tudo sobre nossas
atividades, outras pessoas deveriam saber também.
Pouco depois, descobrimos que uma dessas pessoas era o
próprio chefe de polícia. Numa manhã sombria de janeiro, quando parecia que
iria nevar novamente, Toos irrompeu no "escritório" do movimento
clandestino, um dos quartos da Tia Jans, com uma carta na mão. No envelope, vi
o selo da polícia de Haarlem.
Rasguei o canto do envelope. Dentro, em papel timbrado do
chefe, havia uma mensagem escrita à mão. Li-a em silêncio e depois em voz
alta.
"Favor comparecer em meu gabinete esta tarde, às
3:00h."
Ficamos uns vinte minutos tentando entender aquilo. Alguns
pensavam que não poderia ser um aviso de prisão. Por que a polícia me daria uma
chance de escapar? Mesmo assim, era bom preparar-nos para uma possível busca e
detenção.
Os nossos auxiliares saíram sorrateiramente, um a um. Os
residentes esvaziaram cestas de lixo e recolheram restos de costura, em
preparação para uma fuga rápida para o quarto secreto. Queimei, em nossa estufa
de carvão da sala de jantar alguns papéis que poderiam me incriminar. O gato
compreendeu que havia uma certa tensão no ar e mergulhou para debaixo do
guarda-comida.
Depois, tomei um banho - que talvez fosse o meu último
banho durante meses - e preparei uma maleta de prisão, seguindo as instruções
de Nollie e de outras pessoas: Bíblia, lápis, agulha e linha, sabão (ou o que
chamávamos de sabão naqueles dias), escova e pente.
Vesti minhas roupas mais grossas, várias peças de roupa
de baixo e uma segunda blusa de frio. Pouco antes de três horas, abracei papai
e Betsie e me encaminhei para a Rua Smede, andando por sobre a neve
parcialmente derretida.
O policial de serviço era um velho conhecido meu. Olhou
para a carta e depois para mim com uma expressão de curiosidade.
- Por aqui, disse-me.
Bateu em uma porta onde se lia: "Chefe".
O homem que estava sentado à mesa tinha cabelos vermelhos,
grisalhos, e os penteava para a frente, a fim de disfarçar a calvície. O rádio
estava ligado. Ele estendeu o braço e girou o botão do volume, não para
diminuir, mas para aumentar.
- Cornélia ten Boom, disse, entre.
- Como vai o senhor?
Ele levantou-se para fechar a porta.
- Sente-se, falou. Sei tudo a seu respeito, sabe? Sobre o
seu trabalho.
- O senhor se refere à relojoaria. Provavelmente, está
pensando mais no meu pai do que em mim.
Ele sorriu.
- Não; falo do seu trabalho.
- Ah! Quer dizer do meu trabalho com crianças retardadas?
Deixe-me contar-lhe alguma coisa...
- Não, minha senhora, ele abaixou a voz. Não estou falando
de seu trabalho com retardados, e, sim, do "outro" trabalho. Quero
que a senhora saiba que alguns de nós aqui nos solidarizamos com seus esforços.
Agora, ele sorria abertamente. Eu também sorri.
- Tenho um pedido a lhe fazer.
Ele sentou-se na ponta da mesa, e olhou-me fixamente.
Abaixou a voz a um ponto que mal dava para ouvir. Ele também trabalhava com a
resistência, disse-me, mas havia ali um homem, no departamento de polícia, que
estava passando informações para a Gestapo.
- Não temos outro jeito senão matá-lo. Um arrepio
correu-me pela espinha.
- Não temos outra alternativa, continuou ele sussurrando.
Não podemos prendê-lo - todas as prisões estão controladas pelos alemães. Se
ele continuar livre, outros morrerão. Eis o que pensei: será que no seu
movimento, a senhora conhece alguém que possa...
- Matá-lo?
Recostei-me na cadeira. Seria aquilo uma armadilha para
fazer-me admitir a existência de um grupo mencionando nomes?
- Senhor, disse-lhe afinal, vendo-o piscar impacientemente,
eu sempre acreditei que minha função é salvar vidas, não tirá-las. Todavia
entendo seu problema, e quero fazer-lhe uma sugestão. O senhor ora?
- Acho que nestes dias todos nós oramos.
- Então, vamos orar agora e pedir que Deus toque o
coração deste homem para que não continue a trair seus concidadãos.
Houve uma longa pausa. Depois, ele inclinou a cabeça em
aprovação.
- Eu gostaria muito de fazer isto.
E foi assim que, ali, bem no coração da chefatura de polícia,
com o rádio a berrar as últimas posições conseguidas pelos avanços alemães,
começamos a orar. Pedimos a Deus que aquele holandês pudesse ver o seu próprio
valor e o dos outros seres humanos diante de Deus.
Quando terminamos, ele se levantou e apertou minha mão.
- Obrigado, minha senhora, muito obrigado. Agora estou
vendo que errei em pedir-lhe aquilo.
Ainda carregando minha maleta de prisão atravessei o
vestíbulo e saí à rua; virei a esquina e me encaminhei para o Beje.
Em casa, todos me rodearam querendo saber como havia
sido, mas não contei tudo. Não queria que papai e Betsie soubessem que nos
haviam pedido a morte de alguém. Seria uma carga a mais para eles, totalmente
desnecessária.
A entrevista com o chefe de polícia deveria ter me dado mais ânimo. Aparentemente, tínhamos amigos em cargos elevados. Na realidade, porém, essa notícia teve efeito contrário em nós. Ali estava um exemplo de que nosso segredo não era segredo nada. Toda a cidade parecia ter conhecimento de nossas atividades.
Sabíamos que tínhamos de parar; mas como? Quem manteria
aquela rede de suprimentos e informações, da qual dependia a segurança de
tantas pessoas? Se tivéssemos que abandonar um dos nossos esconderijos - o que
acontecia freqüentemente - quem se encarregaria de coordenar a mudança para outro
local? Tínhamos que continuar, apesar de sabermos que o momento da derrota não
demoraria a chegar.
E acabou chegando em primeiro lugar para Jop, nosso
aprendiz de dezessete anos que havia se mudado para o Beje, justamente
em busca de mais segurança.
No fim de janeiro de 1944, de tardezinha, Rolf entrou furtivamente
na loja. Olhou para Jop. Acenei com a cabeça afirmativamente. Jop estava a par
de tudo que se passava ali.
- Hoje à noite vão dar uma batida numa casa que fica em
Ede. Há alguém aqui que possa ir lá avisá-los?
Não. Não havia ninguém. Não havia nenhum mensageiro,
nenhum dos nossos acompanhantes àquela hora da tarde.
- Eu vou, disse Jop.
Abri a boca para protestar e dizer que ele era
inexperiente, e também podia ser apanhado para o trabalho forçado. Depois,
lembrei-me daquelas pessoas ali naquela casa, totalmente desavisadas. Tínhamos
muitos vestidos e lenços femininos em casa...
- Então, ande depressa, rapaz, disse Rolf. Você tem que
ir imediatamente.
Deu-lhe todas as explicações necessárias, e depois saiu
apressadamente. Alguns minutos mais tarde, Jop estava pronto -uma atraente
mocinha morena, vestindo um casaco comprido, de lenço nos cabelos e um regalo
de peles cobrindo as mãos. Será que ele estava com um pressentimento? Quando chegou
à porta, para minha surpresa, ele virou-se e me beijou.
Jop deveria regressar às 7:00h - toque de recolher. Deu
7:00h, e nada. Talvez ele tivesse atrasado e resolvera voltar no dia seguinte.
Na manhã seguinte, realmente tivemos uma visita, mas não
era Jop. Era Rolf. No minuto em que entrou percebi que vinha com más notícias.
- É sobre o Jop, não é?
- Sim.
- O que aconteceu?
Rolf soubera tudo pelo sargento que ficara no turno da
noite. Quando Jop chegara à casa, a Gestapo já se encontrava lá. Ele tocou a
campainha e a porta foi aberta. Fingindo-se ser o dono da casa, o agente da
polícia mandou-o entrar.
- Agora, Corrie, continuou Rolf, temos que enfrentar os
fatos. A Gestapo vai extrair informações dele. Já o levaram para Amsterdam.
Quanto tempo ele vai conseguir ficar de boca fechada, eu não sei.
Mais uma vez pensamos em fechar o trabalho, e outra vez
concluímos que não poderíamos.
Naquela noite, eu, papai e Betsie oramos durante muito
tempo depois que os outros já haviam ido dormir. Sabíamos que, apesar dos
riscos que aumentavam dia a dia, não tínhamos outra escolha - era seguir em
frente. Esta era a hora das trevas: não podíamos fugir a ela. Talvez a verdade
fosse que Deus só poderia revelar seu poder total quando nosso esforço humano
atingisse o seu limite máximo, e fracassasse.
