segunda-feira, 10 de maio de 2021

O refugio secreto - Capitulo 08


 Nuvens Escuras

             Embora nossos serões fossem agradáveis, os dias estavam se tornando cada vez mais cheios de tensão. O movimento crescera; o grupo era numeroso; a teia, muito espalhada. Há um ano e meio já estávamos levando essa existência dupla. Na aparência, ainda éramos uma família composta de um relojoeiro idoso e suas duas filhas solteironas, residindo na sobreloja da relojoaria.

            Na realidade, o Beje era o centro de um círculo clandestino que agora alcançava pontos distantes da Holanda. Diariamente, chegavam aqui dúzias de agentes, relatórios, apelos. Mais cedo ou mais tarde, iríamos cometer um erro.

            Eu me preocupava muito à hora das refeições. Era tanta gente, agora, que tínhamos de dispor as cadeiras ao redor da mesa em sentido diagonal. Nosso gato gostava muito desse arranjo. Eusie lhe tinha dado o nome hebraico de Maher Shalal Hashbaz, cujo significado - aliás bem sugestivo - era: "apressando-se em direção aos espólios, apressando-se a agarrar a presa". Com as cadeiras assim juntas, M. S. Hashbaz saltava de ombro em ombro, dando voltas, ronronando fortemente, rodando sem parar.

            Eu estava inquieta por sermos tantos ali. A sala de jantar ficava apenas cinco degraus acima do nível da rua. Quem passasse podia ver-nos pela janela. Colocamos uma cortina branca que, conquanto não impedisse a entrada da luz, veda­va um pouco a visão. Ainda assim, eu só nos considerava a salvo dos olhares curiosos, à noite, quando descíamos os gros­sos cortinados para o blecaute.

            Certo dia, ao almoço, olhando através da cortina rala, pen­sei ter visto um vulto lá fora, no beco. Quando olhei de novo, um minuto mais tarde, ainda estava lá. Não havia razão al­guma para permanecer ali, a não ser que estivesse querendo saber o que se passava no Beje. Levantei-me e afastei a corti­na uns dois centímetros.

            De pé, a alguns passos de distância, aparentemente imo­bilizada por uma forte emoção, estava Katrien, a velha amiga que morava em casa de Nollie.

            Corri à porta, abri-a apressadamente, e puxei Katrien para dentro. Apesar de estar fazendo bastante calor naquele dia de agosto, suas mãos estavam geladas.

            - Katrien, o que está fazendo aqui? Por que estava ali pa­rada?

            - Ela ficou louca, soluçou. Sua irmã enlouqueceu.

            - Nollie? O que aconteceu?

            - Eles foram lá, respondeu. A polícia. Não sei o que eles sabiam, nem quem contou para eles. Sua irmã e Annaliese estavam na sala e eu escutei. Ela começou a soluçar. Eu a ouvi dizer...

            - Ouviu-a dizer o quê? eu quase gritava.

            - Ouvi-a contar para eles. Eles apontaram para Annaliese e perguntaram: "Ela é judia?" e sua irmã disse: "É."

            Senti meus joelhos tremerem. Annaliese. A jovem Annalie­se, loura e linda, com documentos perfeitos. E ela tinha con­fiado em nós. Ah! Nollie, Nollie, que foi você fazer por causa de sua rígida honestidade?

            - E daí? perguntei.

            - Não sei. Saí correndo pela porta dos fundos. Ela ficou louca.

            Deixei Katrien na sala de jantar, rodei minha bicicleta para fora do hall e saí pedalando o mais depressa que podia os dois quilômetros até a casa de Nollie. Nesse dia, o céu não mais me parecia amplo. Ao chegar à esquina da Rua Bos en Hoven, encostei a bicicleta a um poste, e parei ofegante, com o coração aos pulos.

            Depois, o mais calmamente que pude, subi na calçada, seguindo em direção à casa. A não ser por um carro parado junto ao meio-fio, tudo parecia enganosa­mente tranqüilo. Passei direto. Nenhum ruído escapava por entre as cortinas brancas. Nada distinguia esta casa das ou­tras casinhas iguais, que havia de um e outro lado da rua.

            Quando cheguei à esquina oposta, virei e comecei a vol­tar. Naquele momento, a porta se abriu e Nollie apareceu. Atrás dela vinha um homem de terno marrom. Um minuto depois, surgiu outro homem, meio puxando, meio carregan­do Annaliese. O rosto da moça estava branco como cal. En­quanto iam até o carro, duas vezes eu tive a impressão de que ela ia desmaiar. A porta do velho carro bateu, o motor roncou e eles partiram.

            Rodei de volta para o Beje tentando controlar lágrimas de desespero. Pouco depois, soubemos que Nollie havia sido le­vada para a delegacia próxima ao Beje, e colocada numa das celas ao fundo do prédio. Annaliese, porém, fora encaminha­da para o velho prédio do teatro judeu, em Amsterdam, de onde eles eram transportados para os campos de extermínio, na Alemanha e na Polônia.

            Foi Mietje, a encurvada, acabada e pequena Mietje, cujo oferecimento de ajuda havíamos desprezado, que nos con­servou em contato com Nollie. Ela está bem disposta, dizia-nos ela, cantando hinos e outras canções com aquela sua vo­zinha doce de soprano.

            Como é que ela podia cantar quando havia traído um ser humano?

            Betsie fazia pão todos os dias, e Mietje o entregava a ela; também levou-lhe, a seu pedido, sua blusa de frio, azul, com flores bordadas nos bolsos, de que ela tanto gos­tava.

            Foi Mietje também quem nos trouxe outro recado de Nollie, um que era dirigido especialmente a mim:

            "Nada de mal acontecerá a Annaliese. Deus não vai deixar que a levem para a Alemanha. Ele não vai deixar que ela sofra por eu ter obedecido a ele."

            Seis dias depois da prisão de Nollie, o telefone tocou. Era Pickwick.

            - Será que posso lhe pedir o incômodo de vir você mesma trazer o relógio?

            Entendi que era uma mensagem que não podia ser passa­da pelo telefone. Parti imediatamente para Aerdenhout, le­vando comigo um relógio de homem, como medida de segu­rança.

            Ele esperou estarmos dentro de casa, com a porta fecha­da.

            - O teatro judeu foi tomado ontem à noite. Conseguiram libertar quarenta judeus. Um deles, uma jovem, insistiu em que o seguinte recado fosse enviado a Nollie: "Annaliese foi liberta."

            Pickwick fixou em mim um de seus olhos arregalados.

            - Entendeu?

            Assenti com a cabeça, invadida por uma alegria e alívio grandes demais, para poder falar. Como é que Nollie soube­ra? Por que ela sempre tivera tanta certeza?

            Depois de passar dez dias na cadeia de Haarlem, Nollie foi transferida para a prisão federal em Amsterdam.

            Pickwick informou-nos que o médico alemão encarregado do hospital da prisão era muito bondoso, e, de vez em quan­do, conseguia a soltura de alguém alegando condições precá­rias de saúde. Resolvi ir imediatamente a Amsterdam para vê-lo. Mas o que poderia dizer-lhe? indaguei-me enquanto aguardava no hall de entrada de sua residência. Como pode­ria eu obter as boas graças daquele homem?

            Rodando por ali, farejando minhas mãos e pernas, estavam três enormes cães, da raça dobermann. Lembrei-me do livro que estávamos lendo à noite, à luz do farol da bicicleta: Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas. Uma das técnicas defendidas por Dale Carnegie, o autor do livro, era: "Descubra o hobby da pes­soa que deseja influenciar." Hobby: cães. Será que...?

            Afinal, a empregada retornou e conduziu-me a uma saleta.

            - Que idéia boa, doutor! disse em alemão, ao homem de cabelos grisalhos sentado no sofá.

            - Idéia boa?

            - É; trazer estes cães maravilhosos consigo. Eles devem lhe fazer companhia, agora que tem que estar distante de sua família.

            O rosto do médico se iluminou.

            - Gosta de cachorros?

            Quase que os únicos cachorros que eu conhecia eram os buldogues de Harry de Vries.

            - Os de que mais gosto são os buldogues. Gosta deles?

            - As pessoas em geral não sabem de uma coisa, respon­deu entusiasmado, mas os buldogues são os que se afeiçoam mais facilmente.

            Conversamos sobre cães durante aproximadamente dez minutos, eu esquadrinhando minha mente para lembrar tudo que ouvira ou lera sobre estes animais. Depois, abruptamen­te, o médico ficou em pé.

            - Mas estou certo de que não veio aqui para falar de cães. O que é?

            Olhei-o de frente.

            - Tenho uma irmã na prisão aqui em Amsterdam. Eu es­tava pensando que... eu acho que ela não está bem.

            O médico sorriu.

            - Então você não está nem um pouco interessada em ca­chorros.

            .- Estou interessada agora, respondi sorrindo também; mas estou mais interessada em minha irmã.

            - Como é o nome dela?

            - Nollie van Woerden.

            Ele saiu da saleta e voltou depois com um caderninho marrom.

            - É. Ela chegou há pouco. Diga-me alguma coisa sobre ela. Por que está presa?

            Arriscando um pouco, disse-lhe que o crime de Nollie ha­via sido dar abrigo a uma judia. Disse-lhe também que ela tinha seis filhos, que, se deixados sem cuidados, se tornariam um peso morto para o Estado. (Não mencionei que o mais novo tinha agora dezessete anos.)

            - Bem, vamos ver. Ele dirigiu-se para a porta. Você vai me dar licença agora.

            No trem de volta para Haarlem, sentia-me esperançosa; não me sentia assim desde que minha irmã fora presa.

            Os dias se passavam; uma semana, duas, e não recebemos mais notícias. Voltei a Amsterdam.

            - Vim ver como estão os seus dobermanns, disse ao médi­co.      

            Ele não aderiu à minha brincadeira.

            - Você não deve me importunar. Sei que não veio aqui para falar sobre os cães. Tem que me dar tempo.

            Concluí que não havia nada mais a fazer senão esperar.

            Era um dia claro de setembro, e almoçávamos – dezessete pessoas apertadas em torno da mesa. De repente, Nils, que estava assentado diretamente à minha frente, empalideceu. Nils era um dos nossos, e viera nos comunicar que Katrien chegara sã e salva a uma fazenda ao norte de Alkmaar. Abai­xando a voz, ele falou:

            - Não se virem, mas há alguém espiando por sobre a cor­tina.

            Sobre a cortina? Mas isso é impossível! A pessoa teria que estar a três metros do solo. Um silêncio pesado caiu sobre a mesa.  

            - Está de pé numa escada lavando as janelas, informou Nils.

            - Mas eu não contratei ninguém para lavar as janelas, disse Betsie.

            O que quer que fosse, não podíamos ficar ali sentados, paralisados, numa quietude culposa. Eusie teve uma idéia.

            - Parabéns pra você! começou a cantar. Parabéns pra você!

            Nós compreendemos e nos unimos a ele com muita ani­mação.

            - Parabé - éns, vovô...

            A música ainda ecoava pelo Beje, quando saí para a rua, pela porta lateral e parei perto da escada, e olhei para o ho­mem que segurava um balde e uma esponja.

            - O que está fazendo? Nós não contratamos ninguém para lavar a janela, e ainda mais agora, durante a nossa festinha...

            O homem tirou um papel do bolso e deu uma olhada.

            - Não é aqui a residência dos Kuipers?

            - Não; é do outro lado da rua. Bom, entre e venha para a festa.

            Ele acenou que não. Agradeceu-me mas tinha que traba­lhar. Olhei-o, enquanto atravessava a Rua Barteljoris com sua escada e chegava à confeitaria dos Kuipers.

            - Deu certo? perguntou-me um coro de vozes, quando regressei à sala de jantar. Será que ele estava mesmo nos espionando?

            Não respondi. Eu não sabia.

            O mais difícil era justamente isto: nunca se podia ter a certeza. Uma das grandes incógnitas para mim era saber como eu me portaria sob o fogo do interrogatório. Se estivesse acor­dada não tinha dúvidas, mas, e se eles aparecessem à noite?

            Várias vezes, nosso pessoal tentou me ajudar nesse sentido - Nils, Henk, Leendert - entravam de repente em meu quarto, sem aviso, e sacudiam-me para me despertar, atirando-me perguntas ao mesmo tempo.

            Da primeira vez que isto se deu, pensei ser a polícia mes­mo. Alguém batia fortemente à porta, depois o facho de uma lanterna feriu meus olhos.

            - De pé! Levante-se!

            Eu não conseguia ver a pessoa que me falava.

            - Onde estão escondidos aqueles nove judeus?

            - São somente seis agora.

            Seguiu-se um silêncio terrível. A luz do quarto foi acesa e vi Rolf com as mãos na cabeça em desespero.

            - Oh! não, não! dizia. Não é possível que esteja tão ruim assim!

            - Pense bem, disse-me Henk, de pé atrás dele. A Gestapo está tentando apanhá-la numa armadilha. A resposta é: "Que judeus? Não há judeu nenhum aqui."

            - Vamos tentar de novo?

            - Agora não dá mais, disse Rolf. Você está bem desperta. Alguns dias depois, tentaram novamente.

            - Os judeus que vocês escondem, de onde vêm eles? Sentei-me meio tonta.

            - Não sei; eles apenas aparecem aqui.

            Rolf atirou o chapéu no chão.

            - Não, não, não! gritou. Que judeus? Não há nenhum ju­deu aqui. Será que você não aprende?

            - Vou aprender, prometi. Eu vou melhorar.

            E assim foi. Na vez seguinte, eu acordei melhor. Seis ou sete vultos escuros rodeavam a cama.

            - Onde vocês escondem os cartões de racionamento? per­guntou uma voz.

            Dentro do primeiro degrau da escada, naturalmente, mas desta vez não me deixaria apanhar. Ocorreu-me outra res­posta engenhosa:

            - No relógio frísio, perto da escada.

            Kik sentou-se à beira da cama e passou o braço pelos meus ombros.

            - Foi bem melhor, Tia Corrie, disse. Desta vez, pelo me­nos a senhora tentou. Mas, lembre-se: não há nenhum cartão extra, só os dos três, da senhora, do vovô e Betsie. Não há atividade clandestina aqui; a senhora não sabe do que eles estão falando...

            Gradualmente, com a repetição dos treinos, eu melhorei, mas ainda assim, quando fosse para valer, quando viessem os agentes da Gestapo, policiais treinados em extrair a verdade dos outros, como agiria?

            Por causa de seu trabalho clandestino, Willem vinha a Haarlem freqüentemente. Seu rosto enrugado trazia agora uma expressão de algo semelhante ao desespero. Já houvera duas batidas ao seu abrigo de velhos, e, embora ele tivesse conseguido enganá-los a respeito da maioria dos judeus que ainda residiam lá, levaram uma velhinha cega e doente.

            - De noventa e um anos! disse-nos muitas vezes. Ela nem conseguia andar. Tiveram que carregá-la para o carro.

            Até então, a posição de Willem como ministro do evange­lho tinha impedido a ação direta contra ele e Tine; mas era muito vigiado, disse-nos, e cada vez mais de perto. Para ter um motivo real para suas visitas a Haarlem, ele começou a dirigir uma reunião semanal de oração no Beje, toda quarta-feira pela manhã.

            Entretanto Willem não era pessoa de fazer nada por roti­na - principalmente orar - e, daí a pouco, a reunião estava sendo assistida por dezenas de interessados, que se achavam sedentos para crer em alguma coisa, nesse quarto ano de ocu­pação. A maioria dos que vinham a esses cultos no Beje não tinham a mínima idéia da vida dupla que se levava ali.

            De certo modo, eles representavam mais perigo, pois esta­vam sempre cruzando com nossos auxiliares, e com mensa­geiros de outros grupos clandestinos que subiam ou desciam aquelas escadas estreitas. Por outro lado, poderia ser de grande vantagem estas pessoas desligadas do movimento estarem sempre por ali. Pelo menos, esperávamos que fosse.

            Estávamos assentados à mesa, certa noite, após o toque de recolher, os três ten Boom, nossos sete "hóspedes perma­nentes", e mais dois judeus para quem estávamos à procura de esconderijo, quando a campainha da porta da loja tocou.

            Um freguês? A esta hora, depois de fechada a loja? E era um freguês muito corajoso, para andar pela Rua Barteljoris depois do toque de recolher. Tirei as chaves do bolso e desci para o hall; abri a porta da oficina, atravessei a loja apalpan­do no escuro. Parei à porta e fiquei à escuta.

            - Quem está aí? gritei.

            - Lembra-se de mim?

            Era uma voz masculina falando em alemão.

            - Quem é? perguntei na mesma língua.

            - Um velho amigo que vem visitar. Abra a porta!

            Girei a chave e entreabri a porta. Era um soldado alemão fardado. Antes que eu pudesse alcançar o botão de alarme situado atrás da porta, ele empurrou-a e entrou. Tirou o cha­péu, e, na meia escuridão de um entardecer de outubro, re­conheci o relojoeiro alemão que papai tinha despedido há quatro anos.

            - Otto! gritei.

            - Capitão Altschuler, corrigiu-me. Nossa posição agora está invertida, não é mesmo, minha senhora?

            Olhei para suas insígnias. Ele não era capitão, nem nada parecido, mas deixei passar. Ele correu os olhos pela loja.

            - O mesmo lugarzinho atulhado, disse.

            Estendeu o braço para acender a luz mas eu pus minha mão sobre o interruptor.

            - Não! Não temos cortinado para o blecaute aqui.

            - Bom, vamos para cima para recordar os velhos tempos. Aquele velho limpador de relógios ainda está por aí?

            - Christofells? Morreu no inverno passado, com a falta de combustível.

            Otto encolheu os ombros.

            - Não foi grande perda. E o nosso santo ledor de Bíblia? Eu estava me aproximando aos poucos do balcão onde havia outro botão.

            - Papai vai bem, obrigada.

            - Não vai me convidar para subir e cumprimentá-lo? Por que ele estava tão interessado em subir? Será que esse rapaz maldoso tinha vindo só para gozar seu triunfo, ou sus­peitava mesmo de alguma coisa? Meu dedo encontrou a cam­painha.

            - Que foi isso? Otto virou-se desconfiado.

            - Isso o quê?

            - Esse barulho. Ouvi uma espécie de cigarra.

            - Não ouvi nada.

            Otto já se encaminhava para a oficina.

            - Espere, gritei. Deixe-me trancar a porta que eu quero subir com você. Quero ver quanto tempo eles vão levar para reconhecê-lo.

            Demorei na porta o máximo que pude. Definitivamente: ele estava mesmo desconfiado. Depois, segui-o atravessan­do a porta e entrando no hall. Não vinha ruído algum da sala de jantar, nem das escadas. Passei na frente dele e bati à porta.

            - Papai, Betsie, gritei numa voz que esperava que soasse em tom de brincadeira. Dou a vocês três... não... seis chances de adivinhar quem está aqui.

            - Sem adivinhações. Otto adiantou-se e abriu a porta bruscamente.

            Papai e Betsie ergueram o rosto do prato. A mesa estava posta para três, meu prato com a refeição não terminada, do outro lado da mesa. Estava tudo tão perfeito que, até eu que vira doze pessoas comendo ali, quase não podia acreditar que havia apenas um velho inofensivo jantando com as filhas.

            O cartaz do relógio "Alpina" estava sobre o armário: eles não haviam esquecido nada.

            Sem esperar convite, Otto puxou uma cadeira.

            - Bem, exultou ele, foi como eu disse, não foi?

            - É; parece, respondeu papai suavemente.

            - Betsie, disse eu, sirva chá ao capitão Altschuler.

            Otto provou o líquido que Betsie colocara para ele e olhou para nós.

            - Onde conseguiram chá? Ninguém na Holanda tem chá de verdade.

            Que tolice minha! Arranjáramos o chá com Pickwick.

            - Se quer mesmo saber, respondi, foi com um oficial ale­mão; mas não pergunte mais nada.

            Tentei dar a impressão de que lidávamos com os altos co­mandos da ocupação. Otto ficou mais uns quinze minutos. Depois, sentindo talvez que já enfatizara sua vitória bastante diante de nós, saiu para a rua vazia.

Foi somente meia hora depois que tivemos coragem de dar o sinal de que tudo estava bem para aqueles nove, que estavam doloridos e ainda tremendo de susto.

            Na segunda semana de outubro, em meio a uma manhã cheia da confusão dos problemas do nosso movimento clan­destino, o telefone tocou embaixo no hall. Apressei-me a atendê-lo; somente eu, papai ou Betsie atendíamos o telefo­ne.

            - Hei! disse a voz. Não vem me buscar? Era Nollie.

            - Nollie! Quando... como... onde está você?

            - Na estação de Amsterdam! Só que não tenho dinheiro para a passagem.

            - Fique aí. Nós vamos agora mesmo.

            Pedalei até a casa dela, e, juntamente com Flip e com os filhos que se encontravam em casa no momento, fomos para Amsterdam. Vimos Nollie antes mesmo de o trem parar. Sua blusa de frio, de um azul brilhante, era como um pedaço do céu naquela estação sombria.

            Após quase dois meses de prisão, Nollie parecia muito páli­da, mas era a mesma Nollie de sempre. O médico da prisão, contou-nos, tinha considerado sua condição de saúde como pre­cária, por causa de sua baixa pressão arterial, o que poderia prejudicá-la permanentemente, deixando seus seis filhos a car­go da sociedade. Ao relatar isto, seu rosto honesto tinha uma expressão de admiração, mas para mim, suas palavras tinham o sabor perfeitamente permissível de um abuso da verdade.

            O Natal de 1943 estava se aproximando. A neve que caíra era o único elemento festivo da ocasião. Parecia que cada família tinha um ente querido na cadeia, ou num campo de trabalhos forçados, ou então, foragido. Desta vez, o significa­do religioso do dia, era o ponto alto para todos nós.

            No Beje, tínhamos que comemorar não somente o Natal, mas também o Chanucah, a "Festa das Luzes".

            Betsie arran­jou um candelabro próprio para a celebração entre as coisas que estavam guardadas detrás do armário do canto da sala de jantar. Diariamente, nós acendíamos uma vela, e Eusie lia uma parte da história dos Macabeus. Depois, cantávamos os tormentosos e melancólicos hinos do deserto. Naqueles dias, éramos todos judeus.

            Na quinta noite da Festa, encontrávamo-nos ao redor do piano, quando a campainha da porta lateral tocou. Abri-a, e vi a Sra. Beukers, esposa do dono da ótica ao lado, de pé sobre a neve. A Sra. Beukers era gorda e calma, enquanto seu marido era magro e tenso. Nesta noite, porém, seu rosto re­dondo tinha uma expressão de preocupação.

            - Será que os seus judeus poderiam cantar um pouco mais baixo? sussurrou ela. Estamos ouvindo tudo através da pare­de e... bem, tem gente de todo tipo nesta rua...

            Voltei ao quarto de Tia Jans, e ali comentamos a comuni­cação dela bem consternados. Já que a família Beukers sabia de tudo sobre nossas atividades, outras pessoas deveriam saber também.

            Pouco depois, descobrimos que uma dessas pessoas era o próprio chefe de polícia. Numa manhã sombria de janeiro, quando parecia que iria nevar novamente, Toos irrompeu no "escritório" do movimento clandestino, um dos quartos da Tia Jans, com uma carta na mão. No envelope, vi o selo da polícia de Haarlem.

            Rasguei o canto do envelope. Dentro, em papel timbrado do chefe, havia uma mensagem escrita à mão. Li-a em silên­cio e depois em voz alta.

            "Favor comparecer em meu gabinete esta tarde, às 3:00h."

            Ficamos uns vinte minutos tentando entender aquilo. Al­guns pensavam que não poderia ser um aviso de prisão. Por que a polícia me daria uma chance de escapar? Mesmo as­sim, era bom preparar-nos para uma possível busca e deten­ção.

            Os nossos auxiliares saíram sorrateiramente, um a um. Os residentes esvaziaram cestas de lixo e recolheram restos de costura, em preparação para uma fuga rápida para o quarto secreto. Queimei, em nossa estufa de carvão da sala de jantar alguns papéis que poderiam me incriminar. O gato compre­endeu que havia uma certa tensão no ar e mergulhou para debaixo do guarda-comida.

            Depois, tomei um banho - que talvez fosse o meu último banho durante meses - e preparei uma maleta de prisão, se­guindo as instruções de Nollie e de outras pessoas: Bíblia, lápis, agulha e linha, sabão (ou o que chamávamos de sabão naqueles dias), escova e pente.

            Vesti minhas roupas mais gros­sas, várias peças de roupa de baixo e uma segunda blusa de frio. Pouco antes de três horas, abracei papai e Betsie e me encaminhei para a Rua Smede, andando por sobre a neve parcialmente derretida.

            O policial de serviço era um velho conhecido meu. Olhou para a carta e depois para mim com uma expressão de curio­sidade.

            - Por aqui, disse-me.

            Bateu em uma porta onde se lia: "Chefe".

            O homem que estava sentado à mesa tinha cabelos verme­lhos, grisalhos, e os penteava para a frente, a fim de disfarçar a calvície. O rádio estava ligado. Ele estendeu o braço e girou o botão do volume, não para diminuir, mas para aumentar.

            - Cornélia ten Boom, disse, entre.

            - Como vai o senhor?

            Ele levantou-se para fechar a porta.

            - Sente-se, falou. Sei tudo a seu respeito, sabe? Sobre o seu trabalho.

            - O senhor se refere à relojoaria. Provavelmente, está pen­sando mais no meu pai do que em mim.

            Ele sorriu.

            - Não; falo do seu trabalho.

            - Ah! Quer dizer do meu trabalho com crianças retarda­das? Deixe-me contar-lhe alguma coisa...        

            - Não, minha senhora, ele abaixou a voz. Não estou fa­lando de seu trabalho com retardados, e, sim, do "outro" tra­balho. Quero que a senhora saiba que alguns de nós aqui nos solidarizamos com seus esforços.

            Agora, ele sorria abertamente. Eu também sorri.

            - Tenho um pedido a lhe fazer.

            Ele sentou-se na ponta da mesa, e olhou-me fixamente. Abaixou a voz a um ponto que mal dava para ouvir. Ele tam­bém trabalhava com a resistência, disse-me, mas havia ali um homem, no departamento de polícia, que estava passan­do informações para a Gestapo.

            - Não temos outro jeito senão matá-lo. Um arrepio correu-me pela espinha.

            - Não temos outra alternativa, continuou ele sussurran­do. Não podemos prendê-lo - todas as prisões estão controla­das pelos alemães. Se ele continuar livre, outros morrerão. Eis o que pensei: será que no seu movimento, a senhora co­nhece alguém que possa...

            - Matá-lo?

            Recostei-me na cadeira. Seria aquilo uma armadilha para fazer-me admitir a existência de um grupo mencionando no­mes?

            - Senhor, disse-lhe afinal, vendo-o piscar impacientemente, eu sempre acreditei que minha função é salvar vidas, não tirá-las. Todavia entendo seu problema, e quero fazer-lhe uma sugestão. O senhor ora?

            - Acho que nestes dias todos nós oramos.

            - Então, vamos orar agora e pedir que Deus toque o coração deste homem para que não continue a trair seus concidadãos.

            Houve uma longa pausa. Depois, ele inclinou a cabeça em aprovação.

            - Eu gostaria muito de fazer isto.

            E foi assim que, ali, bem no coração da chefatura de polí­cia, com o rádio a berrar as últimas posições conseguidas pelos avanços alemães, começamos a orar. Pedimos a Deus que aquele holandês pudesse ver o seu próprio valor e o dos outros seres humanos diante de Deus.

            Quando terminamos, ele se levantou e apertou minha mão.

            - Obrigado, minha senhora, muito obrigado. Agora estou vendo que errei em pedir-lhe aquilo.

            Ainda carregando minha maleta de prisão atravessei o vestíbulo e saí à rua; virei a esquina e me encaminhei para o Beje.

            Em casa, todos me rodearam querendo saber como havia sido, mas não contei tudo. Não queria que papai e Betsie soubessem que nos haviam pedido a morte de alguém. Seria uma carga a mais para eles, totalmente desnecessária.

            A entrevista com o chefe de polícia deveria ter me dado mais ânimo. Aparentemente, tínhamos amigos em cargos ele­vados. Na realidade, porém, essa notícia teve efeito contrário em nós. Ali estava um exemplo de que nosso segredo não era segredo nada. Toda a cidade parecia ter conhecimento de nossas atividades.

            Sabíamos que tínhamos de parar; mas como? Quem manteria aquela rede de suprimentos e informações, da qual dependia a segurança de tantas pessoas? Se tivésse­mos que abandonar um dos nossos esconderijos - o que acontecia freqüentemente - quem se encarregaria de coor­denar a mudança para outro local? Tínhamos que continu­ar, apesar de sabermos que o momento da derrota não demoraria a chegar.

            E acabou chegando em primeiro lugar para Jop, nosso aprendiz de dezessete anos que havia se mudado para o Beje, justamente em busca de mais segurança.

            No fim de janeiro de 1944, de tardezinha, Rolf entrou fur­tivamente na loja. Olhou para Jop. Acenei com a cabeça afir­mativamente. Jop estava a par de tudo que se passava ali.

            - Hoje à noite vão dar uma batida numa casa que fica em Ede. Há alguém aqui que possa ir lá avisá-los?

            Não. Não havia ninguém. Não havia nenhum mensageiro, nenhum dos nossos acompanhantes àquela hora da tarde.

            - Eu vou, disse Jop.

            Abri a boca para protestar e dizer que ele era inexperiente, e também podia ser apanhado para o trabalho forçado. De­pois, lembrei-me daquelas pessoas ali naquela casa, totalmente desavisadas. Tínhamos muitos vestidos e lenços femininos em casa...

            - Então, ande depressa, rapaz, disse Rolf. Você tem que ir imediatamente.

            Deu-lhe todas as explicações necessárias, e depois saiu apres­sadamente. Alguns minutos mais tarde, Jop estava pronto -uma atraente mocinha morena, vestindo um casaco compri­do, de lenço nos cabelos e um regalo de peles cobrindo as mãos. Será que ele estava com um pressentimento? Quando chegou à porta, para minha surpresa, ele virou-se e me beijou.

            Jop deveria regressar às 7:00h - toque de recolher. Deu 7:00h, e nada. Talvez ele tivesse atrasado e resolvera voltar no dia seguinte.

            Na manhã seguinte, realmente tivemos uma visita, mas não era Jop. Era Rolf. No minuto em que entrou percebi que vinha com más notícias.

            - É sobre o Jop, não é?

            - Sim.

            - O que aconteceu?

            Rolf soubera tudo pelo sargento que ficara no turno da noite. Quando Jop chegara à casa, a Gestapo já se encontra­va lá. Ele tocou a campainha e a porta foi aberta. Fingindo-se ser o dono da casa, o agente da polícia mandou-o entrar.

            - Agora, Corrie, continuou Rolf, temos que enfrentar os fatos. A Gestapo vai extrair informações dele. Já o levaram para Amsterdam. Quanto tempo ele vai conseguir ficar de boca fechada, eu não sei.

            Mais uma vez pensamos em fechar o trabalho, e outra vez concluímos que não poderíamos.

            Naquela noite, eu, papai e Betsie oramos durante muito tempo depois que os outros já haviam ido dormir. Sabíamos que, apesar dos riscos que aumentavam dia a dia, não tínha­mos outra escolha - era seguir em frente. Esta era a hora das trevas: não podíamos fugir a ela. Talvez a verdade fosse que Deus só poderia revelar seu poder total quando nosso esforço humano atingisse o seu limite máximo, e fracassasse.