Vivendo no Reino
"Se alguém quer vir apôs mim, a si mesmo se negue, tome
a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem
quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; e quem perder a vida por minha
causa, achá-lá-á." (Mt 16.24,25.)
Temos que fugir das trevas e do império do egoísmo, onde
cada um vive para si mesmo e faz a
própria vontade. Temos que entrar no Reino de Deus, onde todos vivem para Deus
e fazem sua vontade. O Reino de Deus tem
que se expandir, e ampliar muito até que o reino do mundo se torne de nosso Senhor e do seu
Cristo. (Ap 11.15.)
Para estarmos no Reino, temos que morrer para nós mesmos.
Mas muitas pessoas que já foram salvas
não entendem ainda que são escravas. Elas querem continuar a fazer sua
própria vontade. Isto não está certo.
Foi por isso que Jesus disse que temos que perder a vida a
fim de salvá-la. Muitas pessoas acorrem
à igreja na intenção de salvarem a própria vida. Mas isto implica em
ignorar a vontade de Jesus. E neste
Reino, ele é o Senhor.
Jesus disse em Mateus 13 que o Reino de Deus era como um
mercador que estava procurando finas
pérolas. E quando ele encontrou a pérola de grande valor, ele vendeu tudo
o que possuía a fim de adquiri-la.
Sei que alguns cristãos pensam que esta história ensina que
nós somos a pérola de grande preço, e
Cristo teve que abandonar tudo para nos redimir. Mas agora compreendemos que ele é a pérola de grande valor. Nós somos
os comerciantes, à cata de felicidade, segurança e vida eterna.
E quando encontramos Jesus, temos que entregar tudo. Ele tem
felicidade, alegria, paz, saúde,
segurança, eternidade — tudo. E então nós dizemos: "Quero esta pérola.
Quanto custa?"
"Bem", diz o joalheiro, "ela é muito
cara."
"Quanto é?" perguntamos.
"É uma soma bem considerável."
"O senhor acha que eu poderia comprá-la?"
"Ah, naturalmente. Qualquer pessoa pode."
"Mas o senhor não disse que era muito cara?"
"Disse."
"Quanto é, então?"
"Tudo que você possui", responde o vendedor.
Pensamos um pouco, e depois dizemos:
"Está bem; eu compro."
"Então vamos ver o que é que você possui. Vamos anotar
tudo aqui."
"Bem, tenho dez mil dólares no banco." "Dez
mil dólares, ótimo. E o que mais?" "Só isto. É tudo o que possuo." "Nada
mais?"
"Bem, tenho alguns trocados no bolso." "Quanto?"
Enfiamos a mão no bolso. "Bem, aqui
está, trinta, quarenta, sessenta, oitenta, cem, cento e vinte dólares."
"Ótimo. O que mais você tem?"
"Nada mais. Isto é tudo."
"Onde você mora?" indaga ele querendo sondar.
"Em minha casa. É. eu tenho uma casa."
"Então, dê a casa também", e acrescenta a casa na lista.
"Está querendo dizer que tenho que morar em minha tenda
de camping?" "Possui uma tenda
também? Ela também entra no negócio. O que mais?" "Terei que dormir no carro."
"Ah, possui um carro?"
"Dois."
"Todos os dois passam a ser meus. O que
mais?"
"Bem, o senhor já está com meu dinheiro, minha casa,
minha tenda, meus carros. O que mais
quer?"
"Você é só no mundo?"
"Não; tenho esposa e dois filhos..."
"Então a esposa e os filhos são meus também. O que
mais?"
"Não resta mais nada. Estou sozinho agora."
De repente o mercador exclama:
"Ah, quase me esquecia. Você também. Tudo agora é meu —
sua esposa, filhos, dinheiro, carros e
você também."
E depois continua:
"Agora escute: deixarei que você fique com estas coisas
por enquanto. Mas não se esqueça de que
elas são minhas assim como você também. E quando eu precisar de qualquer uma delas, você terá que entregá-las, pois eu
sou o proprietário."
E é assim que as coisas se passam, quando estamos sob o
domínio de Jesus Cristo. Depois que
começamos a pregar esta mensagem de discipulado em nossa igreja em Buenos Aires, nossa congregação mostrou-se
muito disposta a obedecer. Muitos dos membros
dedicaram seus lares e apartamentos à causa. (Em minha pátria, a
inflação é tão elevada que ninguém põe
dinheiro no banco, porque isto só traz prejuízo. O que fazem então é
comprar coisas, quaisquer coisas cujo
valor suba com a inflação. Nossos imóveis são nossas economias.)
Ficamos sem saber o que fazer com tantas propriedades. Os
pastores se reuniram. "Talvez
devamos vender tudo isto e construir um grande templo na cidade", sugeriu
um deles.
"Não; não. Não é esta a vontade do Senhor",
disseram outros.
Após seis meses de oração, o Senhor nos mostrou o que
devíamos fazer. Reunimos todo o povo e
dissemos:
"Vamos devolver a cada um suas propriedades. O Senhor
nos revelou que não quer casas vazias.
Ele quer a casa, mas quer vocês dentro dela, cuidando de tudo. Ele quer os tapetes, o sistema de aquecimento, o ar
condicionado, as luminárias, o alimento, tudo pronto para ele. Também quer os carros de cada um, e
quer a nós como seus motoristas.
"Lembremo-nos, porém, de que tudo pertence a
ele."
Agora, todas as casas são abertas. Quando alguma pessoa
visita nossa igreja, nós não indagamos:
"Quem quer hospedar esta pessoa em sua casa?"
Nós nos dirigimos à determinada pessoa e dizemos:
"Irmão, você levará estas pessoas
para sua casa." Nós não pedimos, ordenamos, pois a casa já foi
entregue ao Senhor. E as pessoas ainda
agradecem a Deus por permitir-lhes morarem na casa dele.
Esta maneira de ser é totalmente diferente do convencional.
Mas depois que passamos a pensar em nós
mesmos como escravos do Reino de Deus, isso faz sentido. O Reino de Deus também é comparado a um
casamento. Quando uma moça se casa com
um rapaz, ela se torna dele. E todas as coisas que ele possui, passam a
pertencer a ela. Se ele possui um ou
dois carros, eles pertencem a ela também.
Mas nesse processo, ela perde a identidade própria.
Nós erramos muito no passado, por termos deixado de pregar a
mensagem completa. Nós dissemos aos
homens que tudo que pertence a Jesus passa a ser deles, mas esquecemos de mencionar que tudo que temos se torna do
Senhor. E, se não fizermos isto, não existe
senhorio.
Jesus disse: "Quem me dera fosses frio, ou quente!
Assim, porque és morno, e nem és frio
nem quente, estou a ponto de vomitar-te da minha boca." (Ap 3.15.16.)
Sabe o que isto significa? Permitam-me citar esta
ilustração, mas foi o próprio Jesus quem
a apresentou. Quais são as coisas que vomitamos? São coisas que ingerimos e não
são digeridas. Se comermos algo, e
aquilo for absorvido pelo nosso organismo, não volta a sair pela boca.
As pessoas vomitadas são aquelas que se recusam a ser
absorvidas pelo Senhor Jesus Cristo. E
este processo de absorção implica num dissolvimento pessoal, implica no fim
da vida própria. Somos transformados e
passamos a integrar Jesus. Somos associados a ele de forma inconfundível.
Na Argentina fazem-se bons churrascos. Suponhamos que eu
coma um bife. Ele cai no meu estômago e
os sucos gástricos se aproximam dele, para o digerirem. Então eles dizem para a carne:
"Boa noite! Como vai você?"
"Muito bem!" replica o bife. "O que
desejam?"
"Nós estamos aqui para dissolvê-lo, e integrá-lo no
organismo de Juan Carlos."
Suponhamos então que o bife replique.
"Ah, não. Espere um pouco. Já basta ele ter-me comido,
mas desaparecer completamente, isso
nunca. Estou no estômago dele, mas quero permanecer sendo bife. Não desejo perder minha individualidade. Quero
preservar minha cidadania como churrasco."
"Não. senhor. Você tem que ser dissolvido e passar a ser Juan Carlos."
"Não; quero permanecer sendo bife."
Aí começa a disputa. Se o bife vencer a briga, os sucos
gástricos terão que permitir que ele
continue a ser um pedaço de carne dentro do meu estômago.
Daí a pouco o bife será vomitado.
Mas se os sucos gástricos ganharem a briga, o bife perde sua
personalidade individual e se torna Juan
Carlos Ortiz. (Antes que eu comesse aquele churrasco, ele não passava de
uma rês qualquer, num pasto qualquer.
Ninguém lhe dava a mínima atenção. Mas depois que ele se dissolve e se integra ao meu organismo chega
até a escrever um livro.)
Assim acontece também com o Senhor. Nós estamos "em
Cristo". Cabe a nós escolhermos se
permaneceremos nele ou não. Para ficarmos em Jesus, perdemos nossa vida. É como o escravo de que nos fala Lucas 17, todo
o nosso tempo passa a ser do Senhor — as oito
horas que trabalhamos; as oito horas que dormimos e as outras oito
também.
Às vezes um cristão fala consigo mesmo:
"Bem, acabei de trabalhar, agora vou para casa, tomar
um banho. Depois vou assistir televisão
e depois vou dormir. Bem, eu sei que temos culto hoje à noite, mas afinal de
contas, pastor, tenho direito a um
descanso..."
Direito a quê. Sr. Escravo? Não tem direito a nada. Você foi
comprado por Jesus Cristo, e ele é o dono
de todas as horas do seu dia. Quando o escravo da história contada por
Jesus acabou de arar a terra, ele não
pensou: Bem, o que vou preparar para o meu jantar? Mas o que ele pensou foi: Que será que vou preparar
para o jantar de meu amo? Arroz e feijão? Não. Fiz isso ontem. Bife com fritas? Não. Acho que
ele preferiria batata assada.
"Bem, acho que vou à igreja hoje à noite. Querida, quem
é que vai pregar hoje?" "Creio
que é o Fulano de Tal."
"Ah, então acho que vou ficar em casa."
Nós estamos com as posições invertidas. Os senhores se
assentam nos bancos. Tratamos a Jesus
como se ele fosse nosso escravo. Nós oramos assim: "Senhor (mas a atitude
é outra), vou sair agora. Por favor,
vigie a casa para mim para que nenhum ladrão entre aqui enquanto eu estiver fora. E, por favor, livra-me de
acidentes, enquanto dirijo."
Que é que esperamos que Jesus diga?!
"Sim, senhor", ou "Sim, senhora"?
Servos não dizem: "Senhor, faça isto e aquilo." Os
servos, em realidade, dizem:
"Senhor, que queres que eu faça?" A alegria do escravo é ver
seu Senhor satisfeito. Não é de se
admirar que nossas igrejas não estejam operando adequadamente. Ainda nem
começamos a pensar em como servir a
Jesus. Nossas orações são o seu jantar. Os hinos são a água que depositamos em sua mesa. E a oferta também é
parte de sua refeição.
Mas nós nos enganamos. Nós dizemos: "Vamos tirar uma
oferta para o Senhor com a finalidade de
instalarmos ar condicionado na igreja." O Senhor não precisa de ar condicionado. Ele se destina a nós. Muitas
das ofertas que levantamos para o Senhor, na
realidade, são para nós mesmos. As únicas ofertas que Jesus mencionou
como sendo dadas para ele são as que
damos para os pobres.
Qual é o principal prato de Jesus? Vidas humanas. Paulo diz
em Romanos 12.1 que o culto racional que
temos de apresentar a Deus é o nosso corpo. Quando o Senhor vê alguém conduzindo a ele uma outra pessoa, ele diz:
"Ótimo! Aí vem o meu servo com o meu
almoço." E assim outra pessoa se dissolve dentro do organismo de
Jesus.
E Cristo concluiu a sua história dizendo: "Assim também
vós, depois de haverdes feito quanto vos
foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que
devíamos fazer." (Lc 17.10.)
Será que nós podemos dizer que fizemos tudo que o Senhor nos
ordenou? Se assim for, podemos ter nossa
cerimônia de colação de grau. Ele nos conferirá um diploma com os dizeres: "Servos inúteis".
Mas nós estamos tão errados hoje que damos a estes servos
inúteis um diploma com os dizeres:
"Reverendo."
Certa vez eu me encontrava num culto, em que certo pregador
foi apresentado com grande
vibração.
O órgão tocou uma introdução, os holofotes foram acesos,
enquanto outra pessoa anunciava: “E
agora, o grande servo de Deus, Sr ...”
Se ele era grande, não era servo. E se era servo, não era
grande. Servos em geral compreendem que
não valem nada. Eles trabalham oito horas diariamente, e depois chegam em casa e preparam o jantar para seu Senhor —
e ao verem seu Senhor desfrutando daquela
refeição, eles se sentem felizes e revigorados.
Que Deus nos ajude a cumprir alegremente a tarefa de servos de seu Reino.
