Mulligan travou as rodas e deslizou numa impressionante
brecada, derrapando de leve para o lado nos pedriscos soltos, e então saltou do carro a tempo
de emergir como um deus da nuvem de poeira que havia levantado. Leonardo esperou
que a poeira assentasse antes de sair — não queria pó por todo o banco quando
voltasse ao carro.
Ben encostou cuidadosamente atrás do primeiro carro e saiu
de maneira calma, eficiente. Agia com extrema cautela, ciente de que suas
emoções estavam à flor da pele.
Mulligan já falava com um dos paramédicos, obtendo os fatos. O
paramédico havia acabado de chegar de uma casinha rural do outro lado do campo. Ben podia
ver duas ou mais lanternas varrendo a escuridão lá. Fora isso, não havia outras
luzes.
— Falecida
— disse o paramédico. — Morta há pelo menos uma hora.
—
Está bem — disse Mulligan, acendendo com um estalido sua grande lanterna
prateada — vamos lá.
Ele dirigiu-se ao campo, cortando a grama alta com
longas e poderosas passadas, o cassetete balançando no quadril, a barriga pulando acima da cinta.
Leonardo e Ben o seguiram de perto.
—
Deve ser aquela mulher Roe — disse Mulligan. — Sally Roe. Você sabe alguma
coisa a respeito dela?
Leonardo deduziu que a pergunta lhe fora dirigida. — Muito pouco, Haroldo.
—
Acho que é um desses tipos esquisitos, uma espécie de sobra dos hippies, uma
derrotada. Acho que resolveu acabar com tudo.
Ben dava tratos à bola enquanto eles continuavam rumo à casa escura.
Sally Roe. O nome não lhe dizia nada.
— Muito
bem — disse Mulligan. — Ali está o cercado das cabras. Espalhem-se um pouco,
gente. Nada de se esconder atrás de mim.
Eles saíram do campo, cruzaram uma estradinha abandonada, coberta de
mato, e chegaram ao cercado das cabras. A cerca era rústica e velha, feita de arame
enferrujado pregado a mourões de dormentes partidos, com um portão rangedor
pendurado torto por uma dobradiça boa e uma que estava solta. O portão ainda se
encontrava aberto; todas as cabras estavam fechadas agora no sítio dos Potters.
Dois técnicos de emergência médica estavam em pé do lado de fora do cercado,
guardando seu equipamento.
—
Ela é toda sua — disse um deles.
Ben correu os olhos à volta do cercado, iluminando aqui e ali com a sua
luz, apenas verificando se havia algo incomum, não querendo mexer em nada. Seu
olho percebeu um balde de ração das cabras caído perto da porta do barracão dos
animais.
—
Ei, verifique aquilo - disse ele, apontando com a sua luz. Mulligan ignorou-o e
investiu através do cercado, entrando no barracão velho, coberto de zinco, deixando uma grande pegada de estéreo no meio da ração
derramada. Então, ele estacou. Havia encontrado alguma coisa. Leonardo e Ben
chegaram por trás dele e olharam para dentro pelo vão da porta.
Lá estava ela. A morta. Ben não conseguia ver-lhe o rosto;
Mulligan estava na frente. Mas ela estava toda vestida de preto, e deitada de
costas na palha, o corpo e membros retorcidos e flácidos como se alguém a
tivesse embolado e atirado ali.
Ben correu sua luz pela parte de dentro do barraco. O
facho luminoso recaiu sobre uma blusa xadrez ao lado do corpo. Aparentemente,
Mulligan não a
tinha visto. Ele estendeu a mão e apanhou-a. Estava manchada de sangue.
—
Ei, Haroldo, veja isto.
Mulligan rodopiou como que rudemente surpreendido. — Cole! Volte aos Potters e
obtenha uma declaração deles!
—
Sim, senhor, mas dê uma olhada nisto.
Mulligan não a pegou — ele a agarrou. — Ande, vá até lá. Podemos
cuidar das coisas por aqui.
Leonardo dirigia a sua luz ao rosto da mulher e Ben
conseguiu vê-lo
de relance pela primeira vez. Ela era jovem e bela, mas morta - violentamente
morta. A expressão do rosto era vazia, os olhos secos e fixos, os cabelos
negros que chegavam à altura dos ombros como uma sombra emaranhada sobre a
palha.
Ben não sabia que olhava fixamente até que Mulligan berrou com
ele.
—
Cole! Viu o suficiente? Vá andando!
Ben saiu de lá e apressou-se a voltar pelo campo à casa dos Potters.
Sua mente estava disparada. Ia ser um caso maior do que havia esperado. A
aparência daquele corpo, a blusa ensangüentada, a ração derramada, a violência
óbvia...
Não era nenhum suicídio.
O pessoal de socorro foi embora no seu veículo, seu trabalho
terminara. Ben revestiu-se de uma aparência calma enquanto subia os degraus da
varanda. Os Potters ouviram-no chegando e imediatamente vieram à porta.
—
Alô. Sou o Agente Ben Cole.
Ben estendeu a mão e Fred a tomou.
Fred encarou Ben um pouquinho só. — Não nos vimos antes?
—
Não, senhor. Faz pouco tempo que cheguei a Baskon. Estou aqui há mais ou menos
quatro meses.
—
Oh... bem, seja bem-vindo à vizinhança. As coisas geralmente não são assim tão
emocionantes por aqui.
— Claro,
senhor. Uh, com a sua permissão, gostaria de obter uma declaração.
Cecília abriu a porta. — Por favor, entre... Ben, não é?
—
Sim, senhora. Obrigado.
Fred e Cecília tomaram seus lugares no sofá e ofereceram a Ben
uma cadeira que ficava de frente para eles. Ele tirou seu bloco de anotações.
—
Como estão passando? — perguntou o policial.
—
Oh... mais ou menos — respondeu Fred.
Cecília apenas meneou a cabeça. — Pobre Sally. — Lágrimas
retornaram aos seus olhos. — Isso é simplesmente horrível. É apavorante.
Ben falou gentilmente. — Eu... pelo que sei foi a senhora quem a viu primeiro?
Ela acenou que sim com a cabeça.
—
A senhora a tocou ou mexeu com ela de alguma forma? Cecília sentiu-se repelida
pela simples idéia. — Não. Não cheguei nem perto dela. Nem mesmo olhei o seu
rosto.
—
Cerca de que horas eram?
—
Mais ou menos 6.
Ben rabiscou esses itens no papel. — Bem, por que simplesmente
não me conta tudo o que aconteceu?
Ela pôs-se a contar-lhe a respeito das cabras terem escapado, e
sobre a mãe-cabra ter tentado atacá-la, e depois procurou lembrar-se do que
tinha feito para conseguir levar aquela cabra de volta ao cercado, e então uma
forte opinião assumiu precedência sobre a narrativa e ela não se conteve:
—
Acho que alguém a matou!
Fred ficou chocado com isso, naturalmente. — O quê? O que lhe dá essa
idéia?
Ben tinha de controlar a situação. — Uh... trataremos
disso quando chegar a hora. Mas agora a senhora precisa me contar o que viu...
apenas o que viu.
Ela lhe disse, e não era muito diferente do que ele mesmo havia visto.
—
Eu não queria vê-la daquela forma. Simplesmente não fiquei por lá.
—
Tudo bem. A senhora pode dizer-me o nome completo da vítima?
—
Sally Roe. Ela era um tipo muito quieto — disse Cecília, o rosto cheio de
sofrimento e perplexidade. — Ela nunca falava muito, mantinha-se afastada.
Gostávamos de tê-la como inquilina. Era limpa, responsável, nunca tivemos
nenhum problema com ela. Por que haveria alguém de querer machucá-la?
—
Então a senhora não consegue pensar em ninguém que pudesse... ter algum tipo de
queixa ou rancor contra ela?
—
Não. Ela era um tipo muito reservado. Não me lembro de jamais tê-la visto
recebendo alguém ou com visitas.
—A
senhora pode pensar em alguma outra coisa que possa ter parecido fora do
normal?
—
Você viu a ração derramada no chão?
—
Sim, senhora.
—
Alguém pode ter pulado e agarrado a Sally.
—
Uh-huh. Alguma outra coisa?
—
Vi um longo pedaço de corda na mão dela. Talvez fosse para amarrar as cabras,
não sei.
Ben anotou aquilo.
Ouviram-se fortes pisadas na varanda. Era o sargento
Mulligan. Ele abriu a porta e entrou, e tirou o chapéu.
—
Bem, pessoal, foi uma noite e tanto. Vimos uma verdadeira tragédia aqui.
Conseguiu uma declaração deles, Cole?
Ben ergueu-se e correu os olhos pelas anotações. — Apenas o que a Sra.
Potter viu inicialmente. Suponho...
Mulligan tomou as notas da mão de Ben e correu os olhos
por elas.
Ben terminou seu pensamento. — Suponho que assim que
examinarmos a casa e dermos uma busca na área teremos mais com o que
trabalhar.
Mulligan não pareceu ouvi-lo. — Umm. Está bem, farei com que elas
sejam incluídas quando o relatório for datilografado. — Ele enfiou as notas de
Ben no bolso e disse aos Potters: — Acho que ela se enforcou nos caibros do
barraco, sabe lá porquê.
—
Enforcou-se? — disse Cecília, surpresa.
—
Há algum bilhete de suicídio? A senhora encontrou qualquer coisa parecida por
aí?
Cecília ainda estava confusa. — Não... não, eu...
— Bem,
a gente estará examinando toda a área esta noite e talvez descubra alguma
coisa. — Ele se dirigiu à porta de novo. — Cole, pode ir e dar o dia por
encerrado. Eu e o Leonardo examinaremos a área e esperaremos pelo médico
legista.
—
Está dizendo que foi suicídio? — perguntou Ben, seguindo-o porta afora.
—
Nada mais, nada menos — respondeu Mulligan.
—
Bem... talvez.
—
O que você quer dizer com "talvez"? — retrucou Mulligan impaciente
com esse tipo de resposta.
—
Bem, o senhor viu como é que estavam as coisas lá dentro...
— É,
eu vi tudo, e você não.
—
Mas a Sra. Potter viu. O corpo não estava dependurado quando ela o encontrou,
mas caído na palha do mesmo jeito em que o vimos quando chegamos lá.
—
Vá para a casa, Cole — sugeriu Mulligan voltando-se para a casa alugada. — Não
se preocupe com coisas que não são de sua responsabilidade.
Mulligan dirigiu-se ao outro lado do campo, dando por
encerrada a conversa. Ben voltou ao seu carro e sentou-se dentro com a porta
aberta, virando as folhas de seu bloco de anotações. Ele fez sair a ponta da caneta e pôs-se a
rabiscar algumas notas para si mesmo, coisas de que desejava lembrar-se:
"blusa xadrez com sangue... posição do corpo sugere violência... ração
derramada... corda na mão, não em volta do pescoço... vítima não dependurada..."
Logo antes de chegar a Claytonville, Sally saiu da rodovia para uma estrada obscura, cheia de mato e sulcada por marcas de rodas que serpenteavam profundamente na floresta, curvando em torno de árvores e tocos, passando sob galhos baixos, afundando dentro de negros buracos de barro, e fazendo a velha caminhonete corcovear e balançar a cada novo buraco, sulco, ressalto e curva. Essa estrada — ou talvez fosse uma trilha — provavelmente fora usada por agrimensores e construtores, mas agora era utilizada apenas pela molecada em bicicletas sujas e talvez por um ou outro cavaleiro. Talvez nalgum canto ali dentro ela pudesse encontrar um bom lugar para abandonar a caminhonete.
Enfim encontrou ela o que parecia ser um retorno ou um
beco sem saída,
uma curta seção de uma área que já fora limpa e que os ciclistas das bicicletas
sujas ainda não haviam descoberto, e que depressa estava sendo retomada pela
espessa galharia. Ela virou o volante com força e deixou que a caminhonete
continuasse em frente, fendendo a vegetação e achatando os matinhos que se
erguiam à frente dos faróis dianteiros.
Já chegava. Desligou as luzes e o motor.
E então ficou sentada ali, os cotovelos no volante e a cabeça nas
mãos. Precisava manter-se imóvel por apenas um minuto. Tinha de pensar, de
avaliar a situação, de separar pensamento de sentimento. Não se moveu por um
minuto, e depois outro, e depois outro. O único som era o de sua própria
respiração — ela estava consciente de cada movimento respiratório — e o tique,
tique, tique cada vez mais vagaroso do motor esfriando. Percebeu o quanto
tudo permanecia imóvel nesse mato, e como estava escuro, e especialmente quanto
o lugar era solitário. Estava sozinha na escuridão, e ninguém sabia.
Muito poético, pensou. Muito apropriado.
Mas quanto ao negócio à mão: Como vai ser, Sally? Você continua em
frente ou desiste? Pode sempre chamá-los, ou mandar-lhes uma carta, e
simplesmente contar-lhes onde está afim de que possam vire terminar o servicinho.
Pelo menos então estará tudo terminado e você não terá de esperar tanto tempo
para morrer.
Puxou um fôlego longo, cansado, e ergueu a cabeça do volante
recostando-se para trás. Que pensamentos, Sally, que pensamentos!
Não, finalmente admitiu ela a si mesma, não — eu quero viver.
Não sei porquê, mas quero. Não sei por quanto tempo mais, mas viverei. E é tudo
o que sei por enquanto.
Isso é tudo o que sei. Mas gostaria de saber mais. Gostaria de
saber como foi que me encontraram... e porque querem me matar.
Acendeu a luz do teto — seria apenas por um segundo — e enfiou a mão no bolso
da jaqueta à procura de um objeto pequeno. Era um anel, enfeitado,
provavelmente ouro puro. Ela olhou-o de perto e com cuidado, virando-o para
todos os lados em seus dedos, tentando entender o estranho desenho na parte de
cima. Não fazia nenhum sentido para ela, por mais que tentasse compreender o
que poderia significar. No momento, sabia apenas uma coisa ao certo
a respeito desse anel — já o havia visto antes, e as lembranças eram as piores que
tinha.
Desligou a luz do teto. Já ficara sentada o suficiente. Colocou o anel de volta
no bolso, tirou as chaves da ignição e abriu a porta. Nessa quietude profunda
que a cercava, as dobradiças secas, sujas, pareciam gritar em vez de gemer. O
som assustou-a.
A luz do teto acendeu-se de novo, mas a seguir piscou e
se apagou quando ela fechou a porta tão silenciosamente quanto possível, o que ainda assim
chegava a ser uma batida bem alta. Agora a única luz no meio daquela floresta
densa, abandonada, se fora. Ela mal podia ver, mas estava determinada a sair
daquele mato mesmo que tivesse de ir apalpando para achar o caminho. Tinha de
mexer-se, chegar a algum lugar seguro. Ela continuou em frente, lutando contra
a galharia que lhe agarrava as pernas, arranhava-a com espinhos, espetava-a do
escuro. Em algum lugar adiante encontrava-se o antigo caminho onde o chão ainda
estava limpo e passável. Precisava apenas encontrá-lo.
Debaixo de um tronco caído, bem no fundo de um bolsão escuro e podre, dois
olhos amarelos a observavam, duas mãos guarnecidas de garras crispadas de ódio.
A coisa deixou escapar uma risadinha de escárnio quando ela passou cambaleando.
No galho baixo e saliente de uma árvore, outro espírito se
agachava como uma coruja grotesca, as asas negras caídas dos lados como longas
cortinas pendentes, sua cabeça não mais do que uma maçaneta acima dos ombros.
Os olhos amarelos acompanhavam cada movimento da mulher.
Eles estavam ali para satisfazer os desejos de Terga;
esperavam aplacar Destruidor.
Ela conseguiu chegar ao velho caminho; podia sentir chão firme e limpo debaixo
dos pés, e distinguir um tantinho mais de luz adiante de si. Apertou o passo.
Começava de novo a se sentir como uma garotinha, com medo do escuro, com medo
de horrores invisíveis, andando por alguma luz que espantasse todos os
fantasmas.
Dois vultos negros pairando logo acima do caminho
esperavam que ela passasse debaixo deles. Eles vagueavam em pequenas idas e
vindas, flutuando em espectrais asas desfraldadas, os braços e pernas finos e
compridos pendendo como pernas de aranha, cada membro arrematado por longas
garras afiadas que se fechavam e crispavam em antecipação.
Sally estacou. A estrada fazia uma curva aqui? Vamos,
garota, não se
perca. Era só o que faltava.
Três outros espíritos, dos piores de Terga, velejaram adentro e
através das árvores, como três urubus reunindo-se para um banquete. Eles vieram
por trás dela, babando e cacarejando, empurrando uns aos outros para chegar
mais perto.
Sally pensou ter visto o caminho de novo, seguindo à sua esquerda.
Tentou aquela direção. Sim, ela o havia encontrado. Mas suas pernas se
enfraqueciam. O coração lhe batia contra as costelas como se quisesse sair. São,
por favor, não de novo, não mais...
Mas era medo mesmo, daquele tipo antigo — o tipo de medo com o qual
vivera por anos. Justo quando pensou haver-se livrado dele, escapado,
esquecido, aqui estava, de volta, com a mesma ferocidade de sempre,
afundando-se nela, confundindo-lhe os pensamentos, fazendo-a tremer, suar,
cambalear.
Seus velhos amigos estavam de volta.
Ela passou debaixo dos dois demônios flutuantes.
—
IAAAC! — berraram eles, envolvendo-a em enxofre.
Os espíritos seguindo atrás estapearam-lhe a alma com suas asas
negras.
UPA! A moça caiu de rijo para a frente, atingindo o chão, um grito
abafado na garganta. Ela lutou para fazer com que as pernas a sustentassem de
novo, para continuar andando. Onde estava aquela estrada?
Os espíritos pousaram-lhe nas costas e enterraram as garras
profundamente.
Ela tapou fortemente a boca com as mãos, tentando manter dentro
de si um grito, tentando manter-se quieta. Não conseguia equilibrar-se. Havia
algo perseguindo-a. Tinha de escapar. Ainda tentava erguer-se.
Os demônios deram-lhe uma espetadela e um pontapé, cacarejando e
gritando de prazer, e então a soltaram.
Ela estava em pé novamente. Conseguindo ver o caminho, correu, os
braços à frente do rosto a fim de bloquear os galhos da floresta que a feriam e
agarravam. Começava a ouvir alguns veículos na rodovia. Quanto ainda faltava?
Os espíritos sombrios adejavam e se agitavam atrás dela,
tagarelando e cuspindo. Era um jogo maravilhoso, cruel.
Mas havia guerreiros observando. Afundados na textura
da floresta, aqui e ali no meio das árvores, dos troncos, da galharia espessa, havia
profundos olhos dourados observando tudo, e braços fortes sobre espadas
prontas.
A Igreja Comunitária do Bom Pastor tinha uma corrente de orações, um sistema simples de espalhar pedidos de oração por toda a igreja via telefone. Cada participante tinha uma lista de todos os demais participantes e os números de seus telefones. Quando alguém precisava de oração por algum motivo, ligava para a próxima pessoa na lista depois do seu nome, que por sua vez ligava para a próxima pessoa na lista, que então chamava a próxima, e assim por diante. A igreja toda podia estar orando por um pedido em questão de horas a qualquer dia da semana.
O pedido de oração de Tom fez as linhas zunirem com a novidade acerca de Rute e Josias, c a cada telefonema, mais santos punham-se a
orar. No topo da lista encontrava-se Donna Hemphile, uma supervisora na Fábrica de Portas Bergen; a
seguir, na lista, vinha a família Waring, depois os Jessups, seguidos por
Lester Sutter e a esposa Dolly, depois os Farmers, depois os Ryans, depois a
viúva Alice Buckmeier, depois os presbíteros no conselho da igreja — Jack
Parmenter e seu filho Doug, Bob Heely e Vic Savan. E se continuava pela lista
até que todos os números tivessem sido chamados.
Aquilo deu inicio a um alvoroço de preces, naturalmente,
mas também a um alvoroço de telefonemas a Tom para saber mais notícias. Para
grande tristeza sua, Tom nada mais tinha a lhes contar; e, para sua frustração,
muitas das informações passadas através da corrente estavam erradas..
Ele tentou telefonar ao Departamento de Proteção à Criança, mas estava
fechado.
Tentou encontrar o número do telefone da casa de Irene Bledsoe; não
constava da lista telefônica.
Tentou o gabinete do Investigador Estadual. A mulher lá lhe disse que chamasse o
DPC ou que tentasse o Departamento de Serviços Sociais e Sanitários.
Ligou para o DSSS e eles lhe disseram para entrar em
contato com o DPC pela manhã. Eles não tinham nenhum número para contato com Irene
Bledsoe, mas também não estavam autorizados a fornecer os números nem que
tivessem.
O pastor Mark Howard e Cathy, sua esposa, não estavam na cidade, mas
estariam de volta a qualquer hora no dia seguinte.
Ben Cole cumpriu o que prometera e ligou, mas a essa
altura nada havia que ele pudesse fazer até a manhã seguinte.
Após uma última ligação a um deputado estadual que não atendeu,
Tom deixou o telefone cair no gancho e ocultou o rosto nas mãos. Ele tinha de
parar, respirar, acalmar-se. Não podia ser tão horrível quanto parecia. Em
algum lugar, em algum momento, ele tinha de encontrar Rute e Josias.
Simplesmente não podia ser tão difícil.
O silêncio, o vazio de sua casinha era estranho, quase insultante.
Nesse exato momento, ele deveria estar acomodando Rute e Josias para dormir.
Mas ele estava sozinho, e muito cansado.
—
Senhor Deus — orou ele — Senhor Deus, por favor, proteja os meus filhos.
Traga-os de volta para mim. Por favor, faça terminar este pesadelo!
Manhã de quarta-feira.
A Escola de Primeiro Grau de Baskon fedia a demônios. Enquanto Natã e
Armoth voavam bem alto acima dela, podiam senti-los, percebê-los, muitas vezes
vê-los, zumbindo e rodopiando para dentro e para fora daquela novíssima estrutura de tijolos e concreto de que a comunidade tanto se
orgulhava. O pátio do recreio fervilhava de crianças, cerca de duzentas,
correndo, brincando, e gritando antes que o primeiro sinal indicasse o início
das aulas. Então elas se reuniriam em todas aquelas classes onde os espíritos
estariam ocupados, mais do que nunca.
Os dois guerreiros passaram sobre a escola, continuaram
em frente por mais de um quilômetro, então inclinaram-se bruscamente e deslizaram de lado
rumo à terra, caindo como pedras, rolando devagar até ficarem de frente para a
direção de onde tinham vindo. A seguir, diminuindo a velocidade, voaram rente
aos campos de feno e milho novo, através de estradas secundárias cobertas de
pedregulhos, bem pelo meio de uns esguichos, chegando por fim ao velho
galinheiro de um sítio próximo à escola.
Suas asas se abriram como pára-quedas, e eles passaram
pelas velhas paredes de ripas do galinheiro com os pés à frente do corpo. Ali
dentro, um coro cacarejante de oitocentas galinhas brancas continuou soando,
bicando a ração, soltando ovos, alheio à sua presença.
Eles se apressaram na direção de uma das pontas da
longa construção, movendo-se através de penas brancas flutuantes, fina poeira
marrom, e galinhas, galinhas por toda a parte.
Tal encontrava-se postado a uma janela, olhando rumo à escola.
Armoth gracejou: — A gente poderia questionar porque o senhor escolheu
este lugar.
—
Por causa da vista — disse Tal. Em seguida, ele olhou na direção da escola
novamente. — Eles estão levando a efeito um projeto e tanto lá, bem
estabelecido.
—
Os santos estão alvoroçados com a notícia dos filhos de Tom. Estão orando —
disse Natã.
—
E o Senhor está respondendo, por isso estamos bem cobertos por enquanto. Mas o
verdadeiro ataque ainda está por chegar hoje de manhã. Coloque uma guarda à
volta de Tom. Já vai ser bastante duro para ele; não quero saber de maiores
amolações contra ele enquanto estiver mal.
—
Certo.
—
Onde está Sally agora?
—
Ela conseguiu chegar a Claytonville, e arrumou um quarto de hotel. Chimon e
Scion a estão vigiando, mas os espíritos de Terga a estão atormentando na
esperança de reaver a aprovação de Destruidor.
Tal encolerizou-se ao ouvi-lo.
—
Que espíritos?
Armoth tinha uma lista mental:
—
Medo, Morte, Loucura. Eles, e alguns outros a atormentaram na noite passada, e
a seguiram hoje também, tentando abater seu estado de ânimo.
—
E o que me diz de Desespero?
—
Terga o enviou para informar o Homem Forte.
—
Como é corajoso! — exclamou Tal, achando graça. Ele olhou na direção da escola
novamente. — Quero que Signa e Mota abram caminho naquela escola, criem certa
proteção, algumas distrações. Precisamos entrar e sair de lá sem que toda a
rede demoníaca descubra. Quanto a Cree e Si, eles terão de fazer a mesma coisa
em Ômega, o que significa que precisarão do dobro de guerreiros apenas para
fazer Sally entrar e sair de lá viva.
Armoth puxou um fôlego longo, profundo.
—
Um negócio arriscado, capitão.
—
E ficando cada vez mais arriscado a cada passo que damos. E o quarto no Hotel
Schrader em Fairwood?
—
Temos guerreiros lá agora, mantendo-o aberto — relatou Nathan. — E o antigo
esconderijo do anel ainda está intacto.
Tal tirou um momento para pensar.
—
Então essas frentes estão cobertas. Agora tudo o que podemos fazer é tocar o
jogo para diante, uma jogada cuidadosa de cada vez. Então — ele sorriu
divertido — suponho que o Homem Forte deva estar sendo informado por Desespero
a qualquer momento agora.
—
E quem está aquartelado lá?
—
Guilo.
Natã e Armoth assentiram com a cabeça. Isso não era surpresa.