segunda-feira, 10 de maio de 2021

Este mundo tenebroso - parte 2 - Capítulo 03


  Já escurecia quando os dois carros-patrulha desceram rugindo pela entrada de pedriscos da casa dos Potters. O carro de socorro já se encontrava lá, as portas escancaradas, as luzes piscando. Fred e Cecília estavam fora na larga varanda da frente esperando a polícia, um agarrado ao outro. Eram pessoas fortes, vigorosas, mas essa noite se sentiam obviamente abaladas.

Mulligan travou as rodas e deslizou numa impressionante brecada, derrapando de leve para o lado nos pedriscos soltos, e então saltou do carro a tempo de emergir como um deus da nuvem de poeira que havia levantado. Leonardo esperou que a poeira assentasse antes de sair — não queria pó por todo o banco quando voltasse ao carro.

Ben encostou cuidadosamente atrás do primeiro carro e saiu de manei­ra calma, eficiente. Agia com extrema cautela, ciente de que suas emoções estavam à flor da pele.

Mulligan já falava com um dos paramédicos, obtendo os fatos. O paramédico havia acabado de chegar de uma casinha rural do outro lado do campo. Ben podia ver duas ou mais lanternas varrendo a escuridão lá. Fora isso, não havia outras luzes.

— Falecida — disse o paramédico. — Morta há pelo menos uma hora.

— Está bem — disse Mulligan, acendendo com um estalido sua grande lanterna prateada — vamos lá.

Ele dirigiu-se ao campo, cortando a grama alta com longas e poderosas passadas, o cassetete balançando no quadril, a barriga pulando acima da cinta. Leonardo e Ben o seguiram de perto.

— Deve ser aquela mulher Roe — disse Mulligan. — Sally Roe. Você sabe alguma coisa a respeito dela?

Leonardo deduziu que a pergunta lhe fora dirigida. — Muito pouco, Haroldo.

— Acho que é um desses tipos esquisitos, uma espécie de sobra dos hippies, uma derrotada. Acho que resolveu acabar com tudo.

Ben dava tratos à bola enquanto eles continuavam rumo à casa escura. Sally Roe. O nome não lhe dizia nada.

— Muito bem — disse Mulligan. — Ali está o cercado das cabras. Espalhem-se um pouco, gente. Nada de se esconder atrás de mim.

Eles saíram do campo, cruzaram uma estradinha abandonada, coberta de mato, e chegaram ao cercado das cabras. A cerca era rústica e velha, feita de arame enferrujado pregado a mourões de dormentes partidos, com um portão rangedor pendurado torto por uma dobradiça boa e uma que estava solta. O portão ainda se encontrava aberto; todas as cabras estavam fechadas agora no sítio dos Potters. Dois técnicos de emergência médica estavam em pé do lado de fora do cercado, guardando seu equipamento.

— Ela é toda sua — disse um deles.

Ben correu os olhos à volta do cercado, iluminando aqui e ali com a sua luz, apenas verificando se havia algo incomum, não querendo mexer em nada. Seu olho percebeu um balde de ração das cabras caído perto da porta do barracão dos animais.

— Ei, verifique aquilo - disse ele, apontando com a sua luz. Mulligan ignorou-o e investiu através do cercado, entrando no barracão velho, coberto de zinco, deixando uma grande pegada de estéreo no meio da ração derramada. Então, ele estacou. Havia encontrado alguma coisa. Leonardo e Ben chegaram por trás dele e olharam para dentro pelo vão da porta.

Lá estava ela. A morta. Ben não conseguia ver-lhe o rosto; Mulligan estava na frente. Mas ela estava toda vestida de preto, e deitada de costas na palha, o corpo e membros retorcidos e flácidos como se alguém a tivesse embolado e atirado ali.

Ben correu sua luz pela parte de dentro do barraco. O facho luminoso recaiu sobre uma blusa xadrez ao lado do corpo. Aparentemente, Mulligan não a tinha visto. Ele estendeu a mão e apanhou-a. Estava manchada de sangue.

— Ei, Haroldo, veja isto.

Mulligan rodopiou como que rudemente surpreendido. — Cole! Volte aos Potters e obtenha uma declaração deles!

— Sim, senhor, mas dê uma olhada nisto.

Mulligan não a pegou — ele a agarrou. — Ande, vá até lá. Podemos cuidar das coisas por aqui.

Leonardo dirigia a sua luz ao rosto da mulher e Ben conseguiu vê-lo de relance pela primeira vez. Ela era jovem e bela, mas morta - violentamente morta. A expressão do rosto era vazia, os olhos secos e fixos, os cabelos negros que chegavam à altura dos ombros como uma sombra emaranhada sobre a palha.

Ben não sabia que olhava fixamente até que Mulligan berrou com ele.

— Cole! Viu o suficiente? Vá andando!

Ben saiu de lá e apressou-se a voltar pelo campo à casa dos Potters. Sua mente estava disparada. Ia ser um caso maior do que havia esperado. A aparência daquele corpo, a blusa ensangüentada, a ração derramada, a violência óbvia...

Não era nenhum suicídio.

O pessoal de socorro foi embora no seu veículo, seu trabalho terminara. Ben revestiu-se de uma aparência calma enquanto subia os degraus da varanda. Os Potters ouviram-no chegando e imediatamente vieram à porta.

— Alô. Sou o Agente Ben Cole.

Ben estendeu a mão e Fred a tomou.

Fred encarou Ben um pouquinho só. — Não nos vimos antes?

— Não, senhor. Faz pouco tempo que cheguei a Baskon. Estou aqui há mais ou menos quatro meses.

— Oh... bem, seja bem-vindo à vizinhança. As coisas geralmente não são assim tão emocionantes por aqui.

— Claro, senhor. Uh, com a sua permissão, gostaria de obter uma declaração.

Cecília abriu a porta. — Por favor, entre... Ben, não é?

— Sim, senhora. Obrigado.

Fred e Cecília tomaram seus lugares no sofá e ofereceram a Ben uma cadeira que ficava de frente para eles. Ele tirou seu bloco de anotações.

— Como estão passando? — perguntou o policial.

— Oh... mais ou menos — respondeu Fred.

Cecília apenas meneou a cabeça. — Pobre Sally. — Lágrimas retornaram aos seus olhos. — Isso é simplesmente horrível. É apavorante.

Ben falou gentilmente. — Eu... pelo que sei foi a senhora quem a viu primeiro?

Ela acenou que sim com a cabeça.

— A senhora a tocou ou mexeu com ela de alguma forma? Cecília sentiu-se repelida pela simples idéia. — Não. Não cheguei nem perto dela. Nem mesmo olhei o seu rosto.

— Cerca de que horas eram?

— Mais ou menos 6.

Ben rabiscou esses itens no papel. — Bem, por que simplesmente não me conta tudo o que aconteceu?

Ela pôs-se a contar-lhe a respeito das cabras terem escapado, e sobre a mãe-cabra ter tentado atacá-la, e depois procurou lembrar-se do que tinha feito para conseguir levar aquela cabra de volta ao cercado, e então uma forte opinião assumiu precedência sobre a narrativa e ela não se conteve:

— Acho que alguém a matou!

Fred ficou chocado com isso, naturalmente. — O quê? O que lhe dá essa idéia?

Ben tinha de controlar a situação. — Uh... trataremos disso quando chegar a hora. Mas agora a senhora precisa me contar o que viu... apenas o que viu.

Ela lhe disse, e não era muito diferente do que ele mesmo havia visto.

— Eu não queria vê-la daquela forma. Simplesmente não fiquei por lá.

— Tudo bem. A senhora pode dizer-me o nome completo da vítima?

— Sally Roe. Ela era um tipo muito quieto — disse Cecília, o rosto cheio de sofrimento e perplexidade. — Ela nunca falava muito, mantinha-se afastada. Gostávamos de tê-la como inquilina. Era limpa, responsável, nunca tivemos nenhum problema com ela. Por que haveria alguém de querer machucá-la?

— Então a senhora não consegue pensar em ninguém que pudesse... ter algum tipo de queixa ou rancor contra ela?

— Não. Ela era um tipo muito reservado. Não me lembro de jamais tê-la visto recebendo alguém ou com visitas.

—A senhora pode pensar em alguma outra coisa que possa ter parecido fora do normal?

— Você viu a ração derramada no chão?

— Sim, senhora.

— Alguém pode ter pulado e agarrado a Sally.

— Uh-huh. Alguma outra coisa?

— Vi um longo pedaço de corda na mão dela. Talvez fosse para amarrar as cabras, não sei.

Ben anotou aquilo.

Ouviram-se fortes pisadas na varanda. Era o sargento Mulligan. Ele abriu a porta e entrou, e tirou o chapéu.

— Bem, pessoal, foi uma noite e tanto. Vimos uma verdadeira tragédia aqui. Conseguiu uma declaração deles, Cole?

Ben ergueu-se e correu os olhos pelas anotações. — Apenas o que a Sra. Potter viu inicialmente. Suponho...

Mulligan tomou as notas da mão de Ben e correu os olhos por elas.

Ben terminou seu pensamento. — Suponho que assim que examinar­mos a casa e dermos uma busca na área teremos mais com o que trabalhar.

Mulligan não pareceu ouvi-lo. — Umm. Está bem, farei com que elas sejam incluídas quando o relatório for datilografado. — Ele enfiou as notas de Ben no bolso e disse aos Potters: — Acho que ela se enforcou nos caibros do barraco, sabe lá porquê.

— Enforcou-se? — disse Cecília, surpresa.

— Há algum bilhete de suicídio? A senhora encontrou qualquer coisa parecida por aí?

Cecília ainda estava confusa. — Não... não, eu...

— Bem, a gente estará examinando toda a área esta noite e talvez descubra alguma coisa. — Ele se dirigiu à porta de novo. — Cole, pode ir e dar o dia por encerrado. Eu e o Leonardo examinaremos a área e espera­remos pelo médico legista.

— Está dizendo que foi suicídio? — perguntou Ben, seguindo-o porta afora.

— Nada mais, nada menos — respondeu Mulligan.

— Bem... talvez.

— O que você quer dizer com "talvez"? — retrucou Mulligan impaciente com esse tipo de resposta.

— Bem, o senhor viu como é que estavam as coisas lá dentro...

— É, eu vi tudo, e você não.

— Mas a Sra. Potter viu. O corpo não estava dependurado quando ela o encontrou, mas caído na palha do mesmo jeito em que o vimos quando chegamos lá.

— Vá para a casa, Cole — sugeriu Mulligan voltando-se para a casa alugada. — Não se preocupe com coisas que não são de sua responsabili­dade.

Mulligan dirigiu-se ao outro lado do campo, dando por encerrada a conversa. Ben voltou ao seu carro e sentou-se dentro com a porta aberta, virando as folhas de seu bloco de anotações. Ele fez sair a ponta da caneta e pôs-se a rabiscar algumas notas para si mesmo, coisas de que desejava lembrar-se: "blusa xadrez com sangue... posição do corpo sugere violên­cia... ração derramada... corda na mão, não em volta do pescoço... vítima não dependurada..."

Logo antes de chegar a Claytonville, Sally saiu da rodovia para uma estrada obscura, cheia de mato e sulcada por marcas de rodas que serpenteavam profundamente na floresta, curvando em torno de árvores e tocos, passando sob galhos baixos, afundando dentro de negros buracos de barro, e fazendo a velha caminhonete corcovear e balançar a cada novo buraco, sulco, ressalto e curva. Essa estrada — ou talvez fosse uma trilha — provavelmente fora usada por agrimensores e construtores, mas agora era utilizada apenas pela molecada em bicicletas sujas e talvez por um ou outro cavaleiro. Talvez nalgum canto ali dentro ela pudesse encontrar um bom lugar para abandonar a caminhonete.

Enfim encontrou ela o que parecia ser um retorno ou um beco sem saída, uma curta seção de uma área que já fora limpa e que os ciclistas das bicicletas sujas ainda não haviam descoberto, e que depressa estava sendo retomada pela espessa galharia. Ela virou o volante com força e deixou que a caminhonete continuasse em frente, fendendo a vegetação e acha­tando os matinhos que se erguiam à frente dos faróis dianteiros.

Já chegava. Desligou as luzes e o motor.

E então ficou sentada ali, os cotovelos no volante e a cabeça nas mãos. Precisava manter-se imóvel por apenas um minuto. Tinha de pensar, de avaliar a situação, de separar pensamento de sentimento. Não se moveu por um minuto, e depois outro, e depois outro. O único som era o de sua própria respiração — ela estava consciente de cada movimento respiratório — e o tique, tique, tique cada vez mais vagaroso do motor esfriando. Percebeu o quanto tudo permanecia imóvel nesse mato, e como estava escuro, e especialmente quanto o lugar era solitário. Estava sozinha na escuridão, e ninguém sabia.

Muito poético, pensou. Muito apropriado.

Mas quanto ao negócio à mão: Como vai ser, Sally? Você continua em frente ou desiste? Pode sempre chamá-los, ou mandar-lhes uma carta, e simplesmente contar-lhes onde está afim de que possam vire terminar o servicinho. Pelo menos então estará tudo terminado e você não terá de esperar tanto tempo para morrer.

Puxou um fôlego longo, cansado, e ergueu a cabeça do volante recostando-se para trás. Que pensamentos, Sally, que pensamentos!

Não, finalmente admitiu ela a si mesma, não — eu quero viver. Não sei porquê, mas quero. Não sei por quanto tempo mais, mas viverei. E é tudo o que sei por enquanto.

Isso é tudo o que sei. Mas gostaria de saber mais. Gostaria de saber como foi que me encontraram... e porque querem me matar.

Acendeu a luz do teto — seria apenas por um segundo — e enfiou a mão no bolso da jaqueta à procura de um objeto pequeno. Era um anel, enfeitado, provavelmente ouro puro. Ela olhou-o de perto e com cuidado, virando-o para todos os lados em seus dedos, tentando entender o estranho desenho na parte de cima. Não fazia nenhum sentido para ela, por mais que tentasse compreender o que poderia significar. No momento, sabia apenas uma coisa ao certo a respeito desse anel — já o havia visto antes, e as lembranças eram as piores que tinha.

Desligou a luz do teto. Já ficara sentada o suficiente. Colocou o anel de volta no bolso, tirou as chaves da ignição e abriu a porta. Nessa quietude profunda que a cercava, as dobradiças secas, sujas, pareciam gritar em vez de gemer. O som assustou-a.

A luz do teto acendeu-se de novo, mas a seguir piscou e se apagou quando ela fechou a porta tão silenciosamente quanto possível, o que ainda assim chegava a ser uma batida bem alta. Agora a única luz no meio daquela floresta densa, abandonada, se fora. Ela mal podia ver, mas estava determinada a sair daquele mato mesmo que tivesse de ir apalpando para achar o caminho. Tinha de mexer-se, chegar a algum lugar seguro. Ela continuou em frente, lutando contra a galharia que lhe agarrava as pernas, arranhava-a com espinhos, espetava-a do escuro. Em algum lugar adiante encontrava-se o antigo caminho onde o chão ainda estava limpo e passável. Precisava apenas encontrá-lo.

Debaixo de um tronco caído, bem no fundo de um bolsão escuro e podre, dois olhos amarelos a observavam, duas mãos guarnecidas de garras crispadas de ódio. A coisa deixou escapar uma risadinha de escárnio quando ela passou cambaleando.

No galho baixo e saliente de uma árvore, outro espírito se agachava como uma coruja grotesca, as asas negras caídas dos lados como longas cortinas pendentes, sua cabeça não mais do que uma maçaneta acima dos ombros. Os olhos amarelos acompanhavam cada movimento da mulher.

Eles estavam ali para satisfazer os desejos de Terga; esperavam aplacar Destruidor.

Ela conseguiu chegar ao velho caminho; podia sentir chão firme e limpo debaixo dos pés, e distinguir um tantinho mais de luz adiante de si. Apertou o passo. Começava de novo a se sentir como uma garotinha, com medo do escuro, com medo de horrores invisíveis, andando por alguma luz que espantasse todos os fantasmas.

Dois vultos negros pairando logo acima do caminho esperavam que ela passasse debaixo deles. Eles vagueavam em pequenas idas e vindas, flutuando em espectrais asas desfraldadas, os braços e pernas finos e compridos pendendo como pernas de aranha, cada membro arrematado por longas garras afiadas que se fechavam e crispavam em antecipação.

Sally estacou. A estrada fazia uma curva aqui? Vamos, garota, não se perca. Era só o que faltava.

Três outros espíritos, dos piores de Terga, velejaram adentro e através das árvores, como três urubus reunindo-se para um banquete. Eles vieram por trás dela, babando e cacarejando, empurrando uns aos outros para chegar mais perto.

Sally pensou ter visto o caminho de novo, seguindo à sua esquerda.

Tentou aquela direção. Sim, ela o havia encontrado. Mas suas pernas se enfraqueciam. O coração lhe batia contra as costelas como se quisesse sair. São, por favor, não de novo, não mais...

Mas era medo mesmo, daquele tipo antigo — o tipo de medo com o qual vivera por anos. Justo quando pensou haver-se livrado dele, escapado, esquecido, aqui estava, de volta, com a mesma ferocidade de sempre, afundando-se nela, confundindo-lhe os pensamentos, fazendo-a tremer, suar, cambalear.

Seus velhos amigos estavam de volta.

Ela passou debaixo dos dois demônios flutuantes.

— IAAAC! — berraram eles, envolvendo-a em enxofre.

Os espíritos seguindo atrás estapearam-lhe a alma com suas asas negras.

UPA! A moça caiu de rijo para a frente, atingindo o chão, um grito abafado na garganta. Ela lutou para fazer com que as pernas a sustentassem de novo, para continuar andando. Onde estava aquela estrada?

Os espíritos pousaram-lhe nas costas e enterraram as garras profunda­mente.

Ela tapou fortemente a boca com as mãos, tentando manter dentro de si um grito, tentando manter-se quieta. Não conseguia equilibrar-se. Havia algo perseguindo-a. Tinha de escapar. Ainda tentava erguer-se.

Os demônios deram-lhe uma espetadela e um pontapé, cacarejando e gritando de prazer, e então a soltaram.

Ela estava em pé novamente. Conseguindo ver o caminho, correu, os braços à frente do rosto a fim de bloquear os galhos da floresta que a feriam e agarravam. Começava a ouvir alguns veículos na rodovia. Quanto ainda faltava?

Os espíritos sombrios adejavam e se agitavam atrás dela, tagarelando e cuspindo. Era um jogo maravilhoso, cruel.

Mas havia guerreiros observando. Afundados na textura da floresta, aqui e ali no meio das árvores, dos troncos, da galharia espessa, havia profundos olhos dourados observando tudo, e braços fortes sobre espadas prontas.

A Igreja Comunitária do Bom Pastor tinha uma corrente de orações, um sistema simples de espalhar pedidos de oração por toda a igreja via telefone. Cada participante tinha uma lista de todos os demais participan­tes e os números de seus telefones. Quando alguém precisava de oração por algum motivo, ligava para a próxima pessoa na lista depois do seu nome, que por sua vez ligava para a próxima pessoa na lista, que então chamava a próxima, e assim por diante. A igreja toda podia estar orando por um pedido em questão de horas a qualquer dia da semana.

O pedido de oração de Tom fez as linhas zunirem com a novidade acerca de Rute e Josias, c a cada telefonema, mais santos punham-se a orar. No topo da lista encontrava-se Donna Hemphile, uma supervisora na Fábrica de Portas Bergen; a seguir, na lista, vinha a família Waring, depois os Jessups, seguidos por Lester Sutter e a esposa Dolly, depois os Farmers, depois os Ryans, depois a viúva Alice Buckmeier, depois os presbíteros no conselho da igreja — Jack Parmenter e seu filho Doug, Bob Heely e Vic Savan. E se continuava pela lista até que todos os números tivessem sido chamados.

Aquilo deu inicio a um alvoroço de preces, naturalmente, mas também a um alvoroço de telefonemas a Tom para saber mais notícias. Para grande tristeza sua, Tom nada mais tinha a lhes contar; e, para sua frustração, muitas das informações passadas através da corrente estavam erradas..

Ele tentou telefonar ao Departamento de Proteção à Criança, mas estava fechado.

Tentou encontrar o número do telefone da casa de Irene Bledsoe; não constava da lista telefônica.

Tentou o gabinete do Investigador Estadual. A mulher lá lhe disse que chamasse o DPC ou que tentasse o Departamento de Serviços Sociais e Sanitários.

Ligou para o DSSS e eles lhe disseram para entrar em contato com o DPC pela manhã. Eles não tinham nenhum número para contato com Irene Bledsoe, mas também não estavam autorizados a fornecer os números nem que tivessem.

O pastor Mark Howard e Cathy, sua esposa, não estavam na cidade, mas estariam de volta a qualquer hora no dia seguinte.

Ben Cole cumpriu o que prometera e ligou, mas a essa altura nada havia que ele pudesse fazer até a manhã seguinte.

Após uma última ligação a um deputado estadual que não atendeu, Tom deixou o telefone cair no gancho e ocultou o rosto nas mãos. Ele tinha de parar, respirar, acalmar-se. Não podia ser tão horrível quanto parecia. Em algum lugar, em algum momento, ele tinha de encontrar Rute e Josias. Simplesmente não podia ser tão difícil.

O silêncio, o vazio de sua casinha era estranho, quase insultante. Nesse exato momento, ele deveria estar acomodando Rute e Josias para dormir. Mas ele estava sozinho, e muito cansado.

— Senhor Deus — orou ele — Senhor Deus, por favor, proteja os meus filhos. Traga-os de volta para mim. Por favor, faça terminar este pesadelo!

Manhã de quarta-feira.

A Escola de Primeiro Grau de Baskon fedia a demônios. Enquanto Natã e Armoth voavam bem alto acima dela, podiam senti-los, percebê-los, muitas vezes vê-los, zumbindo e rodopiando para dentro e para fora daquela novíssima estrutura de tijolos e concreto de que a comunidade tanto se orgulhava. O pátio do recreio fervilhava de crianças, cerca de duzentas, correndo, brincando, e gritando antes que o primeiro sinal indicasse o início das aulas. Então elas se reuniriam em todas aquelas classes onde os espíritos estariam ocupados, mais do que nunca.

Os dois guerreiros passaram sobre a escola, continuaram em frente por mais de um quilômetro, então inclinaram-se bruscamente e deslizaram de lado rumo à terra, caindo como pedras, rolando devagar até ficarem de frente para a direção de onde tinham vindo. A seguir, diminuindo a velocidade, voaram rente aos campos de feno e milho novo, através de estradas secundárias cobertas de pedregulhos, bem pelo meio de uns esguichos, chegando por fim ao velho galinheiro de um sítio próximo à escola.

Suas asas se abriram como pára-quedas, e eles passaram pelas velhas paredes de ripas do galinheiro com os pés à frente do corpo. Ali dentro, um coro cacarejante de oitocentas galinhas brancas continuou soando, bicando a ração, soltando ovos, alheio à sua presença.

Eles se apressaram na direção de uma das pontas da longa construção, movendo-se através de penas brancas flutuantes, fina poeira marrom, e galinhas, galinhas por toda a parte.

Tal encontrava-se postado a uma janela, olhando rumo à escola.

Armoth gracejou: — A gente poderia questionar porque o senhor escolheu este lugar.

— Por causa da vista — disse Tal. Em seguida, ele olhou na direção da escola novamente. — Eles estão levando a efeito um projeto e tanto lá, bem estabelecido.

— Os santos estão alvoroçados com a notícia dos filhos de Tom. Estão orando — disse Natã.

— E o Senhor está respondendo, por isso estamos bem cobertos por enquanto. Mas o verdadeiro ataque ainda está por chegar hoje de manhã. Coloque uma guarda à volta de Tom. Já vai ser bastante duro para ele; não quero saber de maiores amolações contra ele enquanto estiver mal.

— Certo.

— Onde está Sally agora?

— Ela conseguiu chegar a Claytonville, e arrumou um quarto de hotel. Chimon e Scion a estão vigiando, mas os espíritos de Terga a estão atormentando na esperança de reaver a aprovação de Destruidor.

Tal encolerizou-se ao ouvi-lo.

— Que espíritos?

Armoth tinha uma lista mental:

— Medo, Morte, Loucura. Eles, e alguns outros a atormentaram na noite passada, e a seguiram hoje também, tentando abater seu estado de ânimo.

— E o que me diz de Desespero?

— Terga o enviou para informar o Homem Forte.

— Como é corajoso! — exclamou Tal, achando graça. Ele olhou na direção da escola novamente. — Quero que Signa e Mota abram caminho naquela escola, criem certa proteção, algumas distrações. Precisamos entrar e sair de lá sem que toda a rede demoníaca descubra. Quanto a Cree e Si, eles terão de fazer a mesma coisa em Ômega, o que significa que precisarão do dobro de guerreiros apenas para fazer Sally entrar e sair de lá viva.

Armoth puxou um fôlego longo, profundo.

— Um negócio arriscado, capitão.

— E ficando cada vez mais arriscado a cada passo que damos. E o quarto no Hotel Schrader em Fairwood?

— Temos guerreiros lá agora, mantendo-o aberto — relatou Nathan. — E o antigo esconderijo do anel ainda está intacto.

Tal tirou um momento para pensar.

— Então essas frentes estão cobertas. Agora tudo o que podemos fazer é tocar o jogo para diante, uma jogada cuidadosa de cada vez. Então — ele sorriu divertido — suponho que o Homem Forte deva estar sendo informa­do por Desespero a qualquer momento agora.

— E quem está aquartelado lá?

— Guilo.

Natã e Armoth assentiram com a cabeça. Isso não era surpresa.