Guilo mordeu o lábio inferior e, juntamente com suas duas dúzias de
guerreiros, examinou o vale. De seu ponto de observação a meio caminho nas
encostas das montanhas e escondido entre as rochas, o Covil do Valente parecia
uma caldeira que fervia e zumbia com miríades de espíritos negros, formando uma
neblina pululante e viva acima da aglomeração de prédios. O som de asas era um
cantochão constante, grave, cujo eco retornava sobre si dos penhascos rochosos
ao redor do vale. Nesse momento, os demônios estavam alvoroçados, à semelhança
de enraivecido enxame de abelhas.
—
Eles estão-se preparando para alguma coisa — observou um dos guerreiros.
—
Mesmo assim — disse Guilo — algo não me cheira bem, e eu me arriscaria a dizer
que se relaciona com ela.
Em todo o complexo, furgões e reboques estavam carregados com tudo, desde
equipamento de escritório até os troféus empalhados de Alexander M. Kaseph. O
pessoal repassava os dormitórios, empacotando os pertences e varrendo os
quartos. Excitação e antecipação permeavam tudo, e as pessoas se aglomeravam,
tagarelando em suas línguas nativas.
No casarão de pedra, segregada de toda a atividade, Susan Jacobson
trabalhava apressada em seu aposento particular, consolidando uma enorme caixa
de lançamentos, livros-razão, documentos, material impresso. Tentava eliminar
tudo o de que não tivesse absoluta necessidade, mas quase todos os itens
pareciam indispensáveis. Mesmo assim, tudo teria de caber em apenas uma mala,
que agora estava sobre a cômoda. Até aqui a carga era volumosa demais para
caber na mala, e pesada demais para Susan carregar mesmo que coubesse.
Com algumas orações, murmuradas às pressas, e mais alguns exames
rápidos, ela eliminou metade dos itens. A seguir, tomando o que sobrou, começou
a arranjar meticulosamente na mala, um livro aqui, alguns depoimentos ali, mais
documentos, algumas fotografias, outro livro-razão, um papel impresso no
computador, espessa resma de fotocópias, filmes não revelados.
Passos no corredor. Ela fechou depressa a mala,
apertando a tampa a fim de poder prender os trincos, e a seguir arrastou o
pesado objeto para a grande cama em baixo da qual a fez desaparecer
rapidamente. Então jogou os itens que não haviam cabido na mala de volta na caixa e
escondeu-a numa prateleira atrás das roupas de cama num pequeno armário.
Kaseph entrou no quarto sem bater. Vestia-se de modo
informal porque também estivera fazendo as malas e participando de toda aquela atividade.
Ela se dirigiu a ele e o abraçou.
—
Oi, como vão as coisas com você?
Ele devolveu-lhe brevemente o abraço, depois deixou cair os
braços e começou a olhar pelo quarto.
—
Estávamos sem saber que fim você havia levado — disse. — Estamos nos reunindo no sala de jantar, e estávamos contando com a sua
presença —. Havia algo estranho e sinistro no tom de voz dele.
—
Bem — disse ela, um tanto desconcertada com o comportamento dele — claro que
comparecerei. Nada me faria perder essa reunião.
—
Bem, bem — disse ele, ainda correndo os olhos pelo quarto. — Susan, posso
examinar a sua mala?
Ela olhou para ele curiosa.
—
O quê?
Ele se recusou a mudar ou suavizar a pergunta.
—
Quero examinar sua mala.
—
Para quê?
—
Traga-a aqui — disse ele em tom de quem não admitia contradição.
Ela se dirigiu ao guarda-roupa, tirou uma grande mala
azul cheia de roupas e colocou-a sobre a cama. Ele abriu os trincos e jogou
para trás a
tampa, então começou desfazê-la de modo rude e rápido, atirando o conteúdo
aqui e ali.
—
Ei — protestou ela — o que está fazendo? Levei horas para conseguir colocar
tudo aí dentro!
Ele esvaziou a mala completamente, abrindo cada bolsa
do forro, tirando e sacudindo cada peça de roupa. Quando ele terminou, ela estava furiosa.
—
Alex, o que significa isso?
Ele se voltou para ela com uma expressão muito sombria, e então
seu rosto abriu-se subitamente num sorriso.
—
Estou certo de que você conseguirá fazer a mala com maior eficiência ainda da
segunda vez —. Ela sabia que não se atrevia a contradizê-lo nesse ponto. — Mas
precisei examiná-la por causa de uma coisa. Sabe, cara Susan, você esteve ausente
da movimentação normal do pessoal e ausente da minha presença durante muito
tempo — e pôs-se a andar lentamente em volta do quarto, os olhos percorrendo
todos os cantos. — E parece que estão faltando uns registros e arquivos muito
importantes, coisas de natureza muito delicada, coisas a que você, minha Serva,
teria acesso —. Ele sorriu, aquele mesmo velho sorriso que cortava como faca. —
Claro que sei que, a despeito das... dúvidas e temores mesquinhos que tem tido
ultimamente, seu coração está de fato unido ao meu.
Ela ergueu a cabeça bem alto e o olhou nos olhos.
—
Essas coisas são estritamente a fraqueza da minha condição humana, mas algo que ainda espero conquistar.
— A fraqueza da sua condição humana... — Ele pensou sobre isso por um momento. — Essa mesma pequena fraqueza que sempre a torna tão fascinante, porque
podia torná-la tão perigosa.
—
Está insinuando, então, que eu poderia traí-lo?
Ele se aproximou e descansou as mãos sobre os ombros dela.
Susan imaginou como as mãos dele não precisariam mover-se muito a fim de
agarrar-lhe o pescoço.
—
É possível — disse ele — que alguém esteja tentando trair-me, neste mesmo
instante. Posso ler isso na atmosfera —. Ele olhou para ela muito de perto,
seus olhos investigando os dela. — Poderia até mesmo ler traição nos seus
olhos.
Ela desviou o olhar e disse:
—
Eu não o trairia.
Ele se aproximou mais e disse friamente:
—
Nem ninguém mais... se soubesse o que o esperaria. Seria uma questão realmente
séria.
Ela sentiu as mãos dele apertarem-se com mais força.
—
Capitão! — chamou ele, mas Tal não se encontrava entre os demais. — Onde está o
capitão?
Mota respondeu:
—
Conduzindo outra reunião de oração na casa de Hank Busche. Cuidado para não
atrair atenção.
O mensageiro planou colina abaixo e flutuou silencioso
pelo labirinto de ruas e becos da cidade.
Na casa de Hank, Tal permanecia cuidadosamente
escondido dentro das paredes enquanto alguns de seus guerreiros executavam as
suas ordens, trazendo pessoas prontas para orar.
Hank e Andy Forsythe haviam convocado uma reunião de oração especial, mas
não esperavam o comparecimento de tanta gente. Mais e mais carros continuavam a
chegar, e mais e mais gente continuava a entrar pela porta: Os Colemans, Ron
Forsythe e Cynthia, o novo crente Bobby Corsi, seus pais Dan e Jean, os Jones,
os Coopers, os Smiths, os Bartons, alguns alunos da faculdade e seus amigos.
Hank trouxe para a sala todas as cadeiras que possuía. As pessoas começaram a
acomodar-se no chão. O aposento estava ficando abafado; tiveram de abrir as
janelas.
Tal olhou para a frente da casa e viu uma velha perua
encostar. Um grande sorriso abriu-lhe o rosto. Essa seria uma nova adição que Hank ficaria feliz
em ver.
Quando a campainha tocou, diversas pessoas gritaram:
—
Entre — mas quem quer que estivesse à porta não entrou. Hank passou por cima de
uma porção de gente a fim de chegar à porta e abri-la.
Lá estava Lou Stanley, juntamente com a esposa, Margie.
Estavam de mãos dadas. Lou sorriu timidamente e perguntou:
—
É aqui que estão fazendo a reunião de oração?
Hank acreditou novamente em milagres. Aqui estava o
homem que fora removido da igreja por causa de adultério, em pé diante dele,
reunido à esposa, e querendo orar com todos os outros!
—
É, sim — disse Hank — é sim! Entrem!
Lou e Margie entraram na lotada sala de estar, e foram
saudados com amor e aceitação.
Nesse exato momento, ouviu-se outra batida à porta. Hank, ainda por
perto, abriu a porta e viu um homem de meia-idade e a esposa em pé do lado de
fora. Ele ainda não tinha visto nenhum dos dois antes.
Mas Cecil Cooper sabia quem eram; de onde estava
assentado, ele os cumprimentou:
—
Ora, louvado seja o Senhor! Incrível! James e Diana Farrel! Hank olhou para
Cecil e depois para o casal à sua frente, e seu queixo caiu.
—
Reverendo Farrel?
O reverendo James Farrel, ex-pastor da Igreja da
Comunidade de Ashton, estendeu a mão.
—
Pastor Henry Busche?
Hank assentiu com a cabeça, tomando-lhe a mão. O Reverendo Farrel prosseguiu:
—
Ouvimos dizer que ia haver uma reunião de oração aqui esta noite.
Hank, de braços abertos, convidou-os a entrar. Entrementes, o
mensageiro chegou e encontrou Tal.
—
Capitão, Guilo manda dizer que o tempo de Susan está chegando ao fim! Ela vai
ser descoberta. O senhor precisa vir agora!
Tal examinou rapidamente a cobertura de oração que havia reunido.
Tinha de ser suficiente para que o plano dessa noite funcionasse.
Hank dava início à reunião.
—
O Senhor nos fez sentir que precisamos orar por Ashton esta noite. Ora, ficamos
sabendo algumas coisas esta tarde, e estávamos certos quanto a Satanás ter
algum controle desta cidade. Precisamos orar pedindo para que Deus ate os
demônios que estão tentando assumir o controle, e precisamos pedir vitória para
o povo de Deus, e para os anjos de Deus...
Bom, bom! pensou Tal. Poderia bastar. Mas se o que o
mensageiro disse fosse a situação real no Covil do Valente, eles teriam de ir em frente com
o plano quer a cobertura de oração fosse suficiente, quer não.
Guilo não conseguia se descontrair, mas vigiava continuamente o
espaço acima dos cumes das montanhas a fim de divisar o raio de luz que
marcaria a chegada de Tal.
—
Onde estará Tal? — murmurou ele. — Onde estará? Eles sabem. Sabem!
Nesse momento, toda a equipe de Kaseph, a força implementadora por trás
da Omni S.A., estava reunida no salão de jantar para um banquete arranjado às
pressas e reunião final antes da grande mudança para a qual todos se haviam
preparado. Era um jantar informal, tipo bufê; tudo era bem à vontade, e o
ambiente era de descontração. O próprio Kaseph, geralmente distante de seus
inferiores, misturava-se livremente com eles, e mãos estendiam-se a ele como
que implorando uma bênção especial.
Susan, trajando novamente o conjunto preto de costume,
permanecia ao lado dele, e mãos também se estendiam para ela, buscando um toque especial,
um olhar especial ou um olhar de bênção. Esses ela dispensava livremente aos
seguidores agradecidos.
Quando a refeição foi servida, Kaseph e Susan tomaram os seus lugares
à mesa principal. Ela tentou agir com naturalidade e comer com gosto, mas seu
senhor ainda mantinha aquele sorriso, aquele estranho, cortante, maldoso
sorriso, que a deixava nervosa. Tinha de se perguntar quanto ele realmente
sabia.
Quase no fim do jantar, Kaseph ergueu-se, e como que a
um sinal, os presentes se calaram imediatamente.
—
Segundo fizemos em outras regiões, em outras partes deste nosso Mundo que se
está unindo rapidamente, assim faremos aqui — disse Kaseph, e todos aplaudiram.
— Como ferramenta decisiva e poderosa da Sociedade da Percepção Universal, a
Omni S.A. está prestes a estabelecer outro ponto de apoio para a futura Ordem
do Novo Mundo e o reinado do Cristo da Nova Era. Recebi mensagem de nossa
vanguarda de Ashton de que a compra da nova propriedade poderá ser finalizada
domingo, e irei pessoalmente antes de vocês a fim de fechar o negócio. Depois
disso, a cidade será nossa.
A sala toda explodiu em aplausos e vivas. Mas foi então que, com uma mudança um
tanto abrupta de disposição, Kaseph permitiu que seu sobrolho franzisse, e
todos os presentes responderam com igual sobriedade.
—
Naturalmente, durante todo este esforço maciço, temos muitas vezes sido
lembrados de quão sério é todo este negócio no qual estamos envolvidos, ao qual
juramos nossas vidas e nossa fidelidade. Muitas vezes ponderamos sobre como
seriam funestas as conseqüências para tudo em prol do que trabalhamos se algum
de nós se voltasse para o mal e respondesse ao persistente chamado da cobiça,
da temporalidade, ou mesmo — ele olhou para Susan — da fraqueza humana.
Subitamente a sala ficou mortalmente silenciosa. O
olhar de todos estava fito em Kaseph enquanto os olhos deste varriam lentamente
o grupo.
Susan começou a sentir um terror a formar-se em seu íntimo, um
terror que sempre tentara afastar, evitar, controlar. Sentia que a coisa que
mais temia se aproximava sorrateiramente dela.
Kaseph continuou:
—
Apenas alguns de vocês sabem que durante o processo de transferência dos arquivos
do escritório central, descobrimos que diversas de nossas pastas mais
importantes estavam faltando. Aparentemente alguém com altos privilégios e
acesso interno achou que esses arquivos seriam valiosos... de alguma outra
forma —. As pessoas sufocaram exclamações e puseram-se a murmurar. — Ah, não se
alarmem. Esta história tem um final feliz. As pastas que faltavam foram
encontradas! — Todos se mostraram aliviados, e riram entre si. Essa, pareciam
pensar, era outra das provocações de Kaseph.
Kaseph fez sinal a uns guardas de segurança nos fundos da sala e um
deles apanhou, o que seria? Susan ergueu-se na cadeira a fim de ver.
Uma caixa de papelão. Não! A caixa de papelão? A que ela havia escondido
atrás da roupa de cama? O guarda a estava trazendo à frente, na direção da mesa
principal.
Ela ficou onde estava, mas pensou que ia desmaiar. Todo
o seu corpo tremia de medo. O sangue fugiu-lhe do rosto; suas entranhas foram
crivadas de horríveis dores. Ela fora descoberta. Não havia como escapar. Era um pesadelo.
O guarda da segurança ergueu a pesada caixa e a colocou sobre a mesa, e
Kaseph a abriu com força. Sim, ali se encontrava todo o material que ela havia
tão penosamente separado e escondido. Ele o ergueu e segurou de modo que todos
pudessem ver. Toda a multidão reprimiu uma exclamação de assombro.
Kaseph atirou o material de volta à caixa e deixou que o
guarda a levasse embora.
—
Essa caixa — anunciou ele — foi encontrada escondida no roupeiro da Serva.
Todos ficaram pasmados. Alguns permaneceram paralisados
pelo choque. Alguns menearam a cabeça. Susan Jacobson orou. Orou furiosamente.
—
Vamos, fale!
—
Ele está reunindo uma cobertura de oração para a operação desta noite. Deve
chegar a qualquer momento.
—
Qualquer momento pode ser tarde demais —. Guilo olhou na direção dos prédios em
baixo. — Susan pode morrer a qualquer momento.
Mas mal havia colocado os pés na viela estreita e
esburacada atrás da casa quando sentiu uma dor aguda na perna. A espada
coriscou à vista num instante e, com um só movimento rápido, ele decepou a
cabeça de um pequeno espírito que se havia agarrado a ele. O demônio
dissolveu-se em um tufo de fumaça vermelho-sangue.
Outro espírito cravou-se às suas costas. Ele o arrancou. Outro às
costas, outra na perna, dois mais retalhando e mordiscando-lhe a cabeça!
—
É Tal! — ele os ouviu chiando e tagarelando. — É o Capitão Tal!
Muito mais desse barulho e eles atrairiam Rafar! Tal
sabia que teria de destruir a todos ou arriscar-se a ser exposto. Os demônios à volta da sua cabeça
foram aniquilados com suficiente rapidez. Ele passou a espada de baixo para
cima e de um lado para outro das costas e desmembrou o que estava agarrado a
elas.
Mas eles pareciam multiplicar-se. Alguns eram de bom
tamanho, e todos ambicionavam a recompensa que Rafar daria àquele que revelasse o
paradeiro de Tal.
Um grande espírito, rindo-se, veio voando para ver Tal de perto, e
depois arremeteu-se em linha reta ao céu. Tal seguiu-o em uma explosão de luz e
poder e agarrou-o pelos tornozelos. O espírito berrou e começou a unhá-lo. Tal
deixou-se cair de volta à Terra como uma pedra, arrastando consigo o espírito,
as asas do bicho batendo e adejando como guarda-chuva quebrado. Uma vez debaixo
da cobertura de árvores e casas, a espada de Tal mandou o espírito para o
abismo.
Mas outros demônios vinham sobre ele de todas as direções. A notícia
se estava espalhando.
Os guardas jogaram Susan numa cadeira e a seguraram com
todo o seu peso, evitando que ela escapasse. Kaseph fitou-a com um olhar longo
e glacial.
—
Susan — disse ele — minha cara Susan, não estou realmente chocado com o
acontecido. Esses problemas já ocorreram antes, com muitas outras pessoas,
muitas vezes. E todas as vezes tivemos de solucioná-lo. Como você sabe muito
bem, problemas como esse nunca perduram. Nunca.
Ele chegou perto, tão perto que suas palavras pareciam atingi-la como
pequenos golpes.
—
Jamais confiei em você, Susan, já lhe disse. Portanto, fiquei de olho em você,
outras pessoas, a meu pedido, estavam de olho em você, e vejo agora que você
reavivou sua amizade com meu... rival, o Sr. Weed. Tenho olhos e ouvidos
por toda a parte, cara Susan. Desde o momento em que o seu Sr. Weed foi ao Clarim
de Ashton, decidimos vigiar tudo o que ele faz: onde ele vai, com
quem se encontra, a quem telefona, e o que diz. Quanto àquele apressado e
descuidado telefonema que você lhe deu hoje... — Ele deu uma gargalhada. —
Susan, você realmente pensou que não controlaríamos todas as chamadas saídas
daqui? Sabíamos que você apresentaria a sua jogada mais cedo ou mais tarde.
Tudo o que tínhamos de fazer era esperar e estar prontos. Um empreendimento
como o nosso naturalmente tem inimigos. Compreendemos isso.
Ele se inclinou sobre ela, os olhos frios e espertos.
—
Mas de modo nenhum toleramos esse tipo de coisa. Não, Susan, tratamos desses
problemas dura e rapidamente. Achei que uma pequena hostilidade silenciaria
Weed, mas descubro agora que, graças a você, ele sabe demais. Portanto, será
melhor cuidarmos de você e do seu Sr. Weed.
Tudo o que ela conseguia fazer era tremer; não conseguia pensar em
nada. Sabia que era inútil pedir clemência.
—
Você nunca compareceu a um dos nossos rituais de sangue, compareceu? — Kaseph
começou a explicar-lhe como se apresentasse uma pequena palestra. — Os antigos
adoradores de Isis, ou Moloque, ou Astarote, não estavam muito atrasados
em suas práticas. Pelo menos compreendiam que a oferta de uma vida humana aos
que chamavam de deuses parecia ganhar o favor do deus para eles. O que eles
faziam em ignorância, continuamos a executar com iluminação. A força de vida
que se entrelaça em nós e o Universo é cíclica, não tem fim, é
autoperpetuadora. O nascimento do novo não pode ocorrer sem a morte do velho. O
nascimento do bem é criado pela morte do mal. É este carma, cara Susan, o seu
carma. Em outras palavras, ele ia matá-la.
Ambos ouviam. A nuvem, movendo-se e rodopiando
lentamente no vale, gotejava e balbuciava agora com um som estranho, um ruído indefinível que se ia
elevando aos poucos em volume e tonalidade. A princípio parecia o reboar de
ondas distantes, crescendo a seguir até atingir o rugido de uma turba
incontável. Desse ponto, foi crescendo até transformar-se no lamento lúgubre
de milhões de sirenas.
Guilo desembainhou lentamente a espada, e o metal da lâmina retiniu.
—
O que está fazendo? — perguntou o guerreiro.
—
Preparar! — ordenou Guilo, e a ordem espalhou-se entre o grupo. Retiniram as
lâminas à medida que cada guerreiro sacava da espada.
—
Estão rindo — disse Guilo. — Não podemos fazer nada a não ser entrar lá.
O guerreiro estava disposto, e contudo a idéia era inimaginável.
—
Entrar? Entrar... naquilo?
Os demônios eram fortes, brutais, selvagens... e agora estavam
rindo, o odor da morte próxima era doce perfume em suas narinas.
Tal estava realmente em apuros, desejando dar vazão total ao seu poder de
lutar, e contudo precisando reprimir-se a fim de não chamar atenção sobre si.
Assim, ele não podia derrotar os espíritos que se aglomeravam sobre ele como
abelhas enraivecidas em violento ataque; antes, tinha de arrancá-los um a um,
picando e dando golpes rápidos com a espada.
Mota entrou na briga e aproximou-se de Tal, girando a
espada e arrancando demônios do seu capitão como morcegos da parede de uma caverna: — Tome lá! Outro! E mais outro!
Então chegou um momento infinitesimal em que Tal esteve livre de
demônios. Mota deslizou rapidamente para o lugar dele enquanto Tal desaparecia
no chão.
Os espíritos estavam enraivecidos com a luta, e a princípio continuaram
a aglomerar-se e circular pela área; mas então perceberam que, de alguma forma,
Tal havia-se escapulido e que eles estavam apenas colocando-se nas mãos de
guerreiros celestiais para serem destruídos sem motivo.
Seu número diminuiu depressa, seus gritos foram-se desvanecendo,
e logo eles desapareceram.
A diversos quilômetros de distância de Ashton, Tal arremeteu do chão
como uma bala de um rifle, riscando o céu, uma trilha luminosa a segui-lo como
a cauda de um cometa, a espada estendida à frente. Fazendas, campos, florestas
e rodovias tornaram-se um borrão; as nuvens tornaram-se montanhas que passavam
apressadas dos dois lados.
Ele podia sentir suas forças aumentarem com as orações dos santos; sua espada
começou a queimar com poder, fulgurando. Ele quase se sentia como se ela o
estivesse puxando pelo céu.
A velocidade cada vez maior, o vento zunindo, a distância diminuindo, as asas
um rugir invisível, ele voou ao Covil do Valente.
—
Prepare o altar — disse Kaseph. — Haverá uma oferta especial pelo sucesso de
nosso empreendimento.
O pequeno sacerdote pagão saiu. Kaseph voltou a atenção para Susan. Golpeou-a
com as costas da mão.
—
Pare com isso! — gritou. — Pare de orar!
A força da bofetada quase a derrubou da cadeira, mas um dos
guardas a segurou com firmeza. A cabeça da moça caiu e ela começou a soluçar, a
respiração breve e rápida, entrecortada pelo terror.
Kaseph, como um conquistador, postava-se acima dela e
vangloriava-se sobre o vulto frouxo e trêmulo da moça.
—
Você não tem Deus a quem clamar! Com a aproximação da morte, você se
desintegra, voltando aos velhos mitos e tolices religiosas!
A seguir, quase bondosamente, ele disse:
—
O que você não percebe é que, na verdade, estou-lhe fazendo um favor. Talvez na
próxima vida sua compreensão seja mais profunda, suas fraquezas tenham
desaparecido. A dádiva sacrificial que nos fará agora acumulará carma
maravilhoso para você nas vidas futuras. Você verá.
Então ele ordenou aos guardas. — Amarrem-na!
Eles agarraram os pulsos da moça e os seguraram às suas
costas; ela ouviu um estalido, sentiu o aço frio das algemas, e ouviu o próprio
grito.
Kaseph dirigiu-se ao escritório, agora vazio exceto
por alguns caixotes que seriam despachados e malas de viagem. Ele se dirigiu
diretamente a um pequeno estojo coberto de fino couro antigo e colocou-o
debaixo do braço.
A seguir, desceu pela grande escadaria ao andar
inferior, passou por imponente porta de madeira e, descendo outra escada,
chegou ao fundo porão embaixo da casa. Virando um canto, ele passou por outra porta e entrou
num sombrio aposento de pedra, iluminado por velas. O estranho sacerdote já se
encontrava ali, acendendo velas e gemendo palavras estranhas, ininteligíveis,
em incessante repetição. Alguns dos confidentes mais íntimos de Kaseph estavam
presentes, esperando em silêncio. Kaseph entregou o pequeno estojo ao sacerdote,
que o colocou ao lado de um grande e rústico banco que ficava num canto do
cômodo. O sacerdote abriu o estojo e começou a colocar em ordem as facas, facas
de Kaseph, adornadas, enfeitadas com pedrarias, delicadamente forjadas,
afiadas como navalhas.
Guilo e seus guerreiros permaneciam na escuridão, apagados, descendo às
ocultas pé ante pé na direção do conjunto, escondendo-se atrás de pedras e
saliências. Acima deles, fervilhando e elevando-se como o prenúncio de
trovoada, a nuvem de espíritos maliciosos, rindo, continuava a rodopiar. Guilo
sentia certa cobertura de oração; certamente os demônios já os teriam
descoberto a essa altura, mas a visão deles achava-se estranhamente diminuída.
Lá em baixo, estacionado muito próximo ao prédio principal da
administração estava um grande furgão. Guilo encontrou um lugar de onde podia
enxergar o veículo claramente, então mandou que seus guerreiros se espalhassem
por toda a área, mantendo um deles perto de si a fim de lhe dar instruções
especiais.
—
Vê a janela de cima da grande casa de pedra? — perguntou-lhe Guilo.
—
Sim.
— É lá que ela está. Quando eu der o sinal, vá sozinho e traga-a para fora.