sexta-feira, 7 de maio de 2021

Este mundo tenebroso - volume 01 - Capítulo 28

Guilo mordeu o lábio inferior e, juntamente com suas duas dúzias de guerreiros, examinou o vale. De seu ponto de observação a meio caminho nas encostas das montanhas e escondido entre as rochas, o Covil do Valente parecia uma caldeira que fervia e zumbia com miríades de espíritos negros, formando uma neblina pululante e viva acima da aglomeração de prédios. O som de asas era um cantochão constante, grave, cujo eco retornava sobre si dos penhascos rochosos ao redor do vale. Nesse momento, os demônios estavam alvoroçados, à semelhança de enraivecido en­xame de abelhas.

— Eles estão-se preparando para alguma coisa — observou um dos guerreiros.

— Mesmo assim — disse Guilo — algo não me cheira bem, e eu me arriscaria a dizer que se relaciona com ela.

Em todo o complexo, furgões e reboques estavam carregados com tudo, desde equipamento de escritório até os troféus empalhados de Alexander M. Kaseph. O pessoal repassava os dormitórios, empacotando os pertences e varrendo os quartos. Excitação e antecipação permeavam tudo, e as pessoas se aglomeravam, tagarelando em suas línguas nativas.

No casarão de pedra, segregada de toda a atividade, Susan Jacobson trabalhava apressada em seu aposento particular, consolidando uma enorme caixa de lançamentos, livros-razão, documentos, material impresso. Tentava eliminar tudo o de que não tivesse absoluta ne­cessidade, mas quase todos os itens pareciam indispensáveis. Mesmo assim, tudo teria de caber em apenas uma mala, que agora estava sobre a cômoda. Até aqui a carga era volumosa demais para caber na mala, e pesada demais para Susan carregar mesmo que coubesse.

Com algumas orações, murmuradas às pressas, e mais alguns exa­mes rápidos, ela eliminou metade dos itens. A seguir, tomando o que sobrou, começou a arranjar meticulosamente na mala, um livro aqui, alguns depoimentos ali, mais documentos, algumas fotografias, outro livro-razão, um papel impresso no computador, espessa resma de fotocópias, filmes não revelados.

Passos no corredor. Ela fechou depressa a mala, apertando a tampa a fim de poder prender os trincos, e a seguir arrastou o pesado objeto para a grande cama em baixo da qual a fez desaparecer rapidamente. Então jogou os itens que não haviam cabido na mala de volta na caixa e escondeu-a numa prateleira atrás das roupas de cama num pequeno armário.

Kaseph entrou no quarto sem bater. Vestia-se de modo informal porque também estivera fazendo as malas e participando de toda aquela atividade.

Ela se dirigiu a ele e o abraçou.

— Oi, como vão as coisas com você?

Ele devolveu-lhe brevemente o abraço, depois deixou cair os braços e começou a olhar pelo quarto.

— Estávamos sem saber que fim você havia levado — disse. — Estamos nos reunindo no sala de jantar, e estávamos contando com a sua presença —. Havia algo estranho e sinistro no tom de voz dele.

— Bem — disse ela, um tanto desconcertada com o comportamento dele — claro que comparecerei. Nada me faria perder essa reunião.

— Bem, bem — disse ele, ainda correndo os olhos pelo quarto. — Susan, posso examinar a sua mala?

Ela olhou para ele curiosa.

— O quê?

Ele se recusou a mudar ou suavizar a pergunta.

— Quero examinar sua mala.

— Para quê?

— Traga-a aqui — disse ele em tom de quem não admitia contra­dição.

Ela se dirigiu ao guarda-roupa, tirou uma grande mala azul cheia de roupas e colocou-a sobre a cama. Ele abriu os trincos e jogou para trás a tampa, então começou desfazê-la de modo rude e rápido, ati­rando o conteúdo aqui e ali.

— Ei — protestou ela — o que está fazendo? Levei horas para conseguir colocar tudo aí dentro!

Ele esvaziou a mala completamente, abrindo cada bolsa do forro, tirando e sacudindo cada peça de roupa. Quando ele terminou, ela estava furiosa.

— Alex, o que significa isso?

Ele se voltou para ela com uma expressão muito sombria, e então seu rosto abriu-se subitamente num sorriso.

— Estou certo de que você conseguirá fazer a mala com maior eficiência ainda da segunda vez —. Ela sabia que não se atrevia a contradizê-lo nesse ponto. — Mas precisei examiná-la por causa de uma coisa. Sabe, cara Susan, você esteve ausente da movimentação normal do pessoal e ausente da minha presença durante muito tempo — e pôs-se a andar lentamente em volta do quarto, os olhos percor­rendo todos os cantos. — E parece que estão faltando uns registros e arquivos muito importantes, coisas de natureza muito delicada, coisas a que você, minha Serva, teria acesso —. Ele sorriu, aquele mesmo velho sorriso que cortava como faca. — Claro que sei que, a despeito das... dúvidas e temores mesquinhos que tem tido ulti­mamente, seu coração está de fato unido ao meu.

Ela ergueu a cabeça bem alto e o olhou nos olhos.

— Essas coisas são estritamente a fraqueza da minha condição humana, mas algo que ainda espero conquistar.

— A fraqueza da sua condição humana... — Ele pensou sobre isso por um momento. — Essa mesma pequena fraqueza que sempre a torna tão fascinante, porque podia torná-la tão perigosa.

— Está insinuando, então, que eu poderia traí-lo?

Ele se aproximou e descansou as mãos sobre os ombros dela. Susan imaginou como as mãos dele não precisariam mover-se muito a fim de agarrar-lhe o pescoço.

— É possível — disse ele — que alguém esteja tentando trair-me, neste mesmo instante. Posso ler isso na atmosfera —. Ele olhou para ela muito de perto, seus olhos investigando os dela. — Poderia até mesmo ler traição nos seus olhos.

Ela desviou o olhar e disse:

— Eu não o trairia.

Ele se aproximou mais e disse friamente:

— Nem ninguém mais... se soubesse o que o esperaria. Seria uma questão realmente séria.

Ela sentiu as mãos dele apertarem-se com mais força.

 Um mensageiro riscou o céu e então disparou, ziguezagueou e serpeou através dos bosques acima de Ashton à procura de Tal.

— Capitão! — chamou ele, mas Tal não se encontrava entre os demais. — Onde está o capitão?

Mota respondeu:

— Conduzindo outra reunião de oração na casa de Hank Busche. Cuidado para não atrair atenção.

O mensageiro planou colina abaixo e flutuou silencioso pelo la­birinto de ruas e becos da cidade.

Na casa de Hank, Tal permanecia cuidadosamente escondido den­tro das paredes enquanto alguns de seus guerreiros executavam as suas ordens, trazendo pessoas prontas para orar.

Hank e Andy Forsythe haviam convocado uma reunião de oração especial, mas não esperavam o comparecimento de tanta gente. Mais e mais carros continuavam a chegar, e mais e mais gente continuava a entrar pela porta: Os Colemans, Ron Forsythe e Cynthia, o novo crente Bobby Corsi, seus pais Dan e Jean, os Jones, os Coopers, os Smiths, os Bartons, alguns alunos da faculdade e seus amigos. Hank trouxe para a sala todas as cadeiras que possuía. As pessoas come­çaram a acomodar-se no chão. O aposento estava ficando abafado; tiveram de abrir as janelas.

Tal olhou para a frente da casa e viu uma velha perua encostar. Um grande sorriso abriu-lhe o rosto. Essa seria uma nova adição que Hank ficaria feliz em ver.

Quando a campainha tocou, diversas pessoas gritaram:

— Entre — mas quem quer que estivesse à porta não entrou. Hank passou por cima de uma porção de gente a fim de chegar à porta e abri-la.

Lá estava Lou Stanley, juntamente com a esposa, Margie. Estavam de mãos dadas. Lou sorriu timidamente e perguntou:

— É aqui que estão fazendo a reunião de oração?

Hank acreditou novamente em milagres. Aqui estava o homem que fora removido da igreja por causa de adultério, em pé diante dele, reunido à esposa, e querendo orar com todos os outros!

— É, sim — disse Hank — é sim! Entrem!

Lou e Margie entraram na lotada sala de estar, e foram saudados com amor e aceitação.

Nesse exato momento, ouviu-se outra batida à porta. Hank, ainda por perto, abriu a porta e viu um homem de meia-idade e a esposa em pé do lado de fora. Ele ainda não tinha visto nenhum dos dois antes.

Mas Cecil Cooper sabia quem eram; de onde estava assentado, ele os cumprimentou:

— Ora, louvado seja o Senhor! Incrível! James e Diana Farrel! Hank olhou para Cecil e depois para o casal à sua frente, e seu queixo caiu.

— Reverendo Farrel?

O reverendo James Farrel, ex-pastor da Igreja da Comunidade de Ashton, estendeu a mão.

— Pastor Henry Busche?

Hank assentiu com a cabeça, tomando-lhe a mão. O Reverendo Farrel prosseguiu:

— Ouvimos dizer que ia haver uma reunião de oração aqui esta noite.

Hank, de braços abertos, convidou-os a entrar. Entrementes, o mensageiro chegou e encontrou Tal.

— Capitão, Guilo manda dizer que o tempo de Susan está chegando ao fim! Ela vai ser descoberta. O senhor precisa vir agora!

Tal examinou rapidamente a cobertura de oração que havia reu­nido. Tinha de ser suficiente para que o plano dessa noite funcio­nasse.

Hank dava início à reunião.

— O Senhor nos fez sentir que precisamos orar por Ashton esta noite. Ora, ficamos sabendo algumas coisas esta tarde, e estávamos certos quanto a Satanás ter algum controle desta cidade. Precisamos orar pedindo para que Deus ate os demônios que estão tentando assumir o controle, e precisamos pedir vitória para o povo de Deus, e para os anjos de Deus...

Bom, bom! pensou Tal. Poderia bastar. Mas se o que o mensageiro disse fosse a situação real no Covil do Valente, eles teriam de ir em frente com o plano quer a cobertura de oração fosse suficiente, quer não.

 A nuvem demoníaca que pairava sobre o vale continuava a en­grossar e a rodopiar, e do seu ponto de observação Guilo e seus guerreiros podiam ver o coruscar de milhões de olhos amarelos.

Guilo não conseguia se descontrair, mas vigiava continuamente o espaço acima dos cumes das montanhas a fim de divisar o raio de luz que marcaria a chegada de Tal.

— Onde estará Tal? — murmurou ele. — Onde estará? Eles sabem. Sabem!

Nesse momento, toda a equipe de Kaseph, a força implementadora por trás da Omni S.A., estava reunida no salão de jantar para um banquete arranjado às pressas e reunião final antes da grande mu­dança para a qual todos se haviam preparado. Era um jantar informal, tipo bufê; tudo era bem à vontade, e o ambiente era de descontração. O próprio Kaseph, geralmente distante de seus inferiores, misturava-se livremente com eles, e mãos estendiam-se a ele como que im­plorando uma bênção especial.

Susan, trajando novamente o conjunto preto de costume, perma­necia ao lado dele, e mãos também se estendiam para ela, buscando um toque especial, um olhar especial ou um olhar de bênção. Esses ela dispensava livremente aos seguidores agradecidos.

Quando a refeição foi servida, Kaseph e Susan tomaram os seus lugares à mesa principal. Ela tentou agir com naturalidade e comer com gosto, mas seu senhor ainda mantinha aquele sorriso, aquele estranho, cortante, maldoso sorriso, que a deixava nervosa. Tinha de se perguntar quanto ele realmente sabia.

Quase no fim do jantar, Kaseph ergueu-se, e como que a um sinal, os presentes se calaram imediatamente.

— Segundo fizemos em outras regiões, em outras partes deste nosso Mundo que se está unindo rapidamente, assim faremos aqui — disse Kaseph, e todos aplaudiram. — Como ferramenta decisiva e poderosa da Sociedade da Percepção Universal, a Omni S.A. está prestes a estabelecer outro ponto de apoio para a futura Ordem do Novo Mundo e o reinado do Cristo da Nova Era. Recebi mensagem de nossa vanguarda de Ashton de que a compra da nova propriedade poderá ser finalizada domingo, e irei pessoalmente antes de vocês a fim de fechar o negócio. Depois disso, a cidade será nossa.

A sala toda explodiu em aplausos e vivas. Mas foi então que, com uma mudança um tanto abrupta de dis­posição, Kaseph permitiu que seu sobrolho franzisse, e todos os presentes responderam com igual sobriedade.

— Naturalmente, durante todo este esforço maciço, temos muitas vezes sido lembrados de quão sério é todo este negócio no qual estamos envolvidos, ao qual juramos nossas vidas e nossa fidelidade. Muitas vezes ponderamos sobre como seriam funestas as conse­qüências para tudo em prol do que trabalhamos se algum de nós se voltasse para o mal e respondesse ao persistente chamado da cobiça, da temporalidade, ou mesmo — ele olhou para Susan — da fraqueza humana.

Subitamente a sala ficou mortalmente silenciosa. O olhar de todos estava fito em Kaseph enquanto os olhos deste varriam lentamente o grupo.

Susan começou a sentir um terror a formar-se em seu íntimo, um terror que sempre tentara afastar, evitar, controlar. Sentia que a coisa que mais temia se aproximava sorrateiramente dela.

Kaseph continuou:

— Apenas alguns de vocês sabem que durante o processo de trans­ferência dos arquivos do escritório central, descobrimos que diversas de nossas pastas mais importantes estavam faltando. Aparentemente alguém com altos privilégios e acesso interno achou que esses ar­quivos seriam valiosos... de alguma outra forma —. As pessoas sufocaram exclamações e puseram-se a murmurar. — Ah, não se alarmem. Esta história tem um final feliz. As pastas que faltavam foram encontradas! — Todos se mostraram aliviados, e riram entre si. Essa, pareciam pensar, era outra das provocações de Kaseph.

Kaseph fez sinal a uns guardas de segurança nos fundos da sala e um deles apanhou, o que seria? Susan ergueu-se na cadeira a fim de ver.

Uma caixa de papelão. Não! A caixa de papelão? A que ela havia escondido atrás da roupa de cama? O guarda a estava trazendo à frente, na direção da mesa principal.

Ela ficou onde estava, mas pensou que ia desmaiar. Todo o seu corpo tremia de medo. O sangue fugiu-lhe do rosto; suas entranhas foram crivadas de horríveis dores. Ela fora descoberta. Não havia como escapar. Era um pesadelo.

O guarda da segurança ergueu a pesada caixa e a colocou sobre a mesa, e Kaseph a abriu com força. Sim, ali se encontrava todo o material que ela havia tão penosamente separado e escondido. Ele o ergueu e segurou de modo que todos pudessem ver. Toda a mul­tidão reprimiu uma exclamação de assombro.

Kaseph atirou o material de volta à caixa e deixou que o guarda a levasse embora.

— Essa caixa — anunciou ele — foi encontrada escondida no rou­peiro da Serva.

Todos ficaram pasmados. Alguns permaneceram paralisados pelo choque. Alguns menearam a cabeça. Susan Jacobson orou. Orou furiosamente.

 O mensageiro voltou ao vale, encontrando Guilo ávido por notícias.

— Vamos, fale!

— Ele está reunindo uma cobertura de oração para a operação desta noite. Deve chegar a qualquer momento.

— Qualquer momento pode ser tarde demais —. Guilo olhou na direção dos prédios em baixo. — Susan pode morrer a qualquer momento.

 Tal observava enquanto o povo reunido orava fervorosamente à medida que o Espírito Santo guiava e dava poder. Oravam especi­ficamente para que os exércitos demoníacos fossem confundidos. Podia ser suficiente! Ele deslizou para fora, oculto na escuridão. Passaria depressa pela cidade e então iria voando ao Covil do Valente, na esperança de chegar a tempo de salvar a vida de Susan.

Mas mal havia colocado os pés na viela estreita e esburacada atrás da casa quando sentiu uma dor aguda na perna. A espada coriscou à vista num instante e, com um só movimento rápido, ele decepou a cabeça de um pequeno espírito que se havia agarrado a ele. O demônio dissolveu-se em um tufo de fumaça vermelho-sangue.

Outro espírito cravou-se às suas costas. Ele o arrancou. Outro às costas, outra na perna, dois mais retalhando e mordiscando-lhe a cabeça!

— É Tal! — ele os ouviu chiando e tagarelando. — É o Capitão Tal!

Muito mais desse barulho e eles atrairiam Rafar! Tal sabia que teria de destruir a todos ou arriscar-se a ser exposto. Os demônios à volta da sua cabeça foram aniquilados com suficiente rapidez. Ele passou a espada de baixo para cima e de um lado para outro das costas e desmembrou o que estava agarrado a elas.

Mas eles pareciam multiplicar-se. Alguns eram de bom tamanho, e todos ambicionavam a recompensa que Rafar daria àquele que revelasse o paradeiro de Tal.

Um grande espírito, rindo-se, veio voando para ver Tal de perto, e depois arremeteu-se em linha reta ao céu. Tal seguiu-o em uma explosão de luz e poder e agarrou-o pelos tornozelos. O espírito berrou e começou a unhá-lo. Tal deixou-se cair de volta à Terra como uma pedra, arrastando consigo o espírito, as asas do bicho batendo e adejando como guarda-chuva quebrado. Uma vez debaixo da co­bertura de árvores e casas, a espada de Tal mandou o espírito para o abismo.

Mas outros demônios vinham sobre ele de todas as direções. A notícia se estava espalhando.

 Dois guardas poderosos e musculosos, os mesmos homens que já haviam sido seus acompanhantes, arrastaram e carregaram Susan entre si, mal permitindo que ela usasse os próprios pés para se lo­comover, atravessando a área, subindo à varanda do casarão de pedra, entrando, subindo a escada ornamentada, e passando pelo corredor do andar superior até o quarto dela. Kaseph acompanhou-os, frio, composto, perfeitamente implacável.

Os guardas jogaram Susan numa cadeira e a seguraram com todo o seu peso, evitando que ela escapasse. Kaseph fitou-a com um olhar longo e glacial.

— Susan — disse ele — minha cara Susan, não estou realmente chocado com o acontecido. Esses problemas já ocorreram antes, com muitas outras pessoas, muitas vezes. E todas as vezes tivemos de solucioná-lo. Como você sabe muito bem, problemas como esse nunca perduram. Nunca.

Ele chegou perto, tão perto que suas palavras pareciam atingi-la como pequenos golpes.

— Jamais confiei em você, Susan, já lhe disse. Portanto, fiquei de olho em você, outras pessoas, a meu pedido, estavam de olho em você, e vejo agora que você reavivou sua amizade com meu... rival, o Sr. Weed. Tenho olhos e ouvidos por toda a parte, cara Susan. Desde o momento em que o seu Sr. Weed foi ao Clarim de Ashton, decidimos vigiar tudo o que ele faz: onde ele vai, com quem se encontra, a quem telefona, e o que diz. Quanto àquele apressado e descuidado telefonema que você lhe deu hoje... — Ele deu uma gargalhada. — Susan, você realmente pensou que não controlaríamos todas as chamadas saídas daqui? Sabíamos que você apresentaria a sua jogada mais cedo ou mais tarde. Tudo o que tínhamos de fazer era esperar e estar prontos. Um empreendimento como o nosso na­turalmente tem inimigos. Compreendemos isso.

Ele se inclinou sobre ela, os olhos frios e espertos.

— Mas de modo nenhum toleramos esse tipo de coisa. Não, Susan, tratamos desses problemas dura e rapidamente. Achei que uma pe­quena hostilidade silenciaria Weed, mas descubro agora que, graças a você, ele sabe demais. Portanto, será melhor cuidarmos de você e do seu Sr. Weed.

Tudo o que ela conseguia fazer era tremer; não conseguia pensar em nada. Sabia que era inútil pedir clemência.

— Você nunca compareceu a um dos nossos rituais de sangue, compareceu? — Kaseph começou a explicar-lhe como se apresen­tasse uma pequena palestra. — Os antigos adoradores de Isis, ou Moloque, ou Astarote, não estavam muito atrasados em suas práticas. Pelo menos compreendiam que a oferta de uma vida humana aos que chamavam de deuses parecia ganhar o favor do deus para eles. O que eles faziam em ignorância, continuamos a executar com ilu­minação. A força de vida que se entrelaça em nós e o Universo é cíclica, não tem fim, é autoperpetuadora. O nascimento do novo não pode ocorrer sem a morte do velho. O nascimento do bem é criado pela morte do mal. É este carma, cara Susan, o seu carma. Em outras palavras, ele ia matá-la.

 Um guerreiro perguntou a Guilo: — O que é aquilo? O que estão fazendo?

Ambos ouviam. A nuvem, movendo-se e rodopiando lentamente no vale, gotejava e balbuciava agora com um som estranho, um ruído indefinível que se ia elevando aos poucos em volume e tonalidade. A princípio parecia o reboar de ondas distantes, crescendo a seguir até atingir o rugido de uma turba incontável. Desse ponto, foi cres­cendo até transformar-se no lamento lúgubre de milhões de sirenas.

Guilo desembainhou lentamente a espada, e o metal da lâmina retiniu.

— O que está fazendo? — perguntou o guerreiro.

— Preparar! — ordenou Guilo, e a ordem espalhou-se entre o grupo. Retiniram as lâminas à medida que cada guerreiro sacava da espada.

— Estão rindo — disse Guilo. — Não podemos fazer nada a não ser entrar lá.

O guerreiro estava disposto, e contudo a idéia era inimaginável.

— Entrar? Entrar... naquilo?

Os demônios eram fortes, brutais, selvagens... e agora estavam rindo, o odor da morte próxima era doce perfume em suas narinas.

 Triskal e Krioni precipitaram-se vale adentro, espadas fulgurando e varrendo o espaço em arcos letais de luz à medida que demônios se desintegravam por todos os lados. Outros guerreiros arremeteram ao céu como chamas de um canhão, agarrando demônios em fuga pelo ar, silenciando-os.

Tal estava realmente em apuros, desejando dar vazão total ao seu poder de lutar, e contudo precisando reprimir-se a fim de não chamar atenção sobre si. Assim, ele não podia derrotar os espíritos que se aglomeravam sobre ele como abelhas enraivecidas em violento ata­que; antes, tinha de arrancá-los um a um, picando e dando golpes rápidos com a espada.

Mota entrou na briga e aproximou-se de Tal, girando a espada e arrancando demônios do seu capitão como morcegos da parede de uma caverna: — Tome lá! Outro! E mais outro!

Então chegou um momento infinitesimal em que Tal esteve livre de demônios. Mota deslizou rapidamente para o lugar dele enquanto Tal desaparecia no chão.

Os espíritos estavam enraivecidos com a luta, e a princípio con­tinuaram a aglomerar-se e circular pela área; mas então perceberam que, de alguma forma, Tal havia-se escapulido e que eles estavam apenas colocando-se nas mãos de guerreiros celestiais para serem destruídos sem motivo.

Seu número diminuiu depressa, seus gritos foram-se desvane­cendo, e logo eles desapareceram.

A diversos quilômetros de distância de Ashton, Tal arremeteu do chão como uma bala de um rifle, riscando o céu, uma trilha luminosa a segui-lo como a cauda de um cometa, a espada estendida à frente. Fazendas, campos, florestas e rodovias tornaram-se um borrão; as nuvens tornaram-se montanhas que passavam apressadas dos dois lados.

Ele podia sentir suas forças aumentarem com as orações dos santos; sua espada começou a queimar com poder, fulgurando. Ele quase se sentia como se ela o estivesse puxando pelo céu.

A velocidade cada vez maior, o vento zunindo, a distância dimi­nuindo, as asas um rugir invisível, ele voou ao Covil do Valente.

 Um pequenino guru de cabelos longos, aparência muito estranha, ostentando manto preto e contas, vindo de alguma terra sombria e pagã, obedecendo a um sinal de Kaseph, entrou no quarto de Susan. Curvou-se em deferência a seu senhor e mestre.

— Prepare o altar — disse Kaseph. — Haverá uma oferta especial pelo sucesso de nosso empreendimento.

O pequeno sacerdote pagão saiu. Kaseph voltou a atenção para Susan. Golpeou-a com as costas da mão.

— Pare com isso! — gritou. — Pare de orar!

A força da bofetada quase a derrubou da cadeira, mas um dos guardas a segurou com firmeza. A cabeça da moça caiu e ela começou a soluçar, a respiração breve e rápida, entrecortada pelo terror.

Kaseph, como um conquistador, postava-se acima dela e vanglo­riava-se sobre o vulto frouxo e trêmulo da moça.

— Você não tem Deus a quem clamar! Com a aproximação da morte, você se desintegra, voltando aos velhos mitos e tolices reli­giosas!

A seguir, quase bondosamente, ele disse:

— O que você não percebe é que, na verdade, estou-lhe fazendo um favor. Talvez na próxima vida sua compreensão seja mais pro­funda, suas fraquezas tenham desaparecido. A dádiva sacrificial que nos fará agora acumulará carma maravilhoso para você nas vidas futuras. Você verá.

Então ele ordenou aos guardas. — Amarrem-na!

Eles agarraram os pulsos da moça e os seguraram às suas costas; ela ouviu um estalido, sentiu o aço frio das algemas, e ouviu o próprio grito.

Kaseph dirigiu-se ao escritório, agora vazio exceto por alguns cai­xotes que seriam despachados e malas de viagem. Ele se dirigiu diretamente a um pequeno estojo coberto de fino couro antigo e colocou-o debaixo do braço.

A seguir, desceu pela grande escadaria ao andar inferior, passou por imponente porta de madeira e, descendo outra escada, chegou ao fundo porão embaixo da casa. Virando um canto, ele passou por outra porta e entrou num sombrio aposento de pedra, iluminado por velas. O estranho sacerdote já se encontrava ali, acendendo velas e gemendo palavras estranhas, ininteligíveis, em incessante repetição. Alguns dos confidentes mais íntimos de Kaseph estavam presentes, esperando em silêncio. Kaseph entregou o pequeno estojo ao sacer­dote, que o colocou ao lado de um grande e rústico banco que ficava num canto do cômodo. O sacerdote abriu o estojo e começou a colocar em ordem as facas, facas de Kaseph, adornadas, enfeitadas com pe­drarias, delicadamente forjadas, afiadas como navalhas.

 Tal podia ver as montanhas adiante. Teria de ficar perto de suas encostas rochosas. Não devia ser visto.

Guilo e seus guerreiros permaneciam na escuridão, apagados, des­cendo às ocultas pé ante pé na direção do conjunto, escondendo-se atrás de pedras e saliências. Acima deles, fervilhando e elevando-se como o prenúncio de trovoada, a nuvem de espíritos maliciosos, rindo, continuava a rodopiar. Guilo sentia certa cobertura de oração; certamente os demônios já os teriam descoberto a essa altura, mas a visão deles achava-se estranhamente diminuída.

Lá em baixo, estacionado muito próximo ao prédio principal da administração estava um grande furgão. Guilo encontrou um lugar de onde podia enxergar o veículo claramente, então mandou que seus guerreiros se espalhassem por toda a área, mantendo um deles perto de si a fim de lhe dar instruções especiais.

— Vê a janela de cima da grande casa de pedra? — perguntou-lhe Guilo.

— Sim.

— É lá que ela está. Quando eu der o sinal, vá sozinho e traga-a para fora.