terça-feira, 25 de maio de 2021

Este mundo tenebroso- parte 2 - Capítulo 11

A Fábrica de Portas Bergen era um lugar barulhento, em­poeirado, que empregava cerca de cem pessoas, a única indústria de verdade a ser encontrada em Baskon. Era manhã de sexta-feira, e durante o turno normal de trabalho as plainas, as lixas, as serras e as furadeiras produziam um alarido tão ensurdecedor que era preciso usar protetores nos ouvidos e também ler bastante os lábios.

Ben usava protetores nos ouvidos — pequenos tampões feitos de espuma de borracha — e também óculos de segurança ao atravessar a fabrica. Ele nunca havia estado ali antes, e achou o lugar fascinante, com o cheiro de pó-de-serra enchendo o ar, e portas, portas, portas por todos os cantos, algumas empilhadas, algumas em pé, algumas sendo transpor­tadas pela empilhadeira rumo à plataforma de embarque; portas pequenas, portas grandes, portas baratas, portas requintadas.

Ele percebia algumas olhadelas dos empregados ao passar por eles. A visão de um agente policial uniformizado freqüentemente despertava curiosidade, como se "alguma coisa" estivesse acontecendo. Ele apenas sorriu cordialmente às mulheres avantajadas, aos homens empoeirados, aos estudantes de tempo parcial, às mães solteiras. Reconheceu muitos deles, inclusive Donna Hemphile, ocupada supervisionando um grande projeto de classificação de materiais. Ela o reconheceu e acenou com a mão.

— Ei, Ben, o que está fazendo aqui? — berrou.

— Oh, apenas um negociozinho — respondeu ele, provavelmente não alto o bastante para que ela ouvisse. Hesitava em falar sobre o assunto.

Um pouco adiante, no centro de todo aquele rebuliço, estava o espaço fechado para escritório da supervisora de linha, Abby Grayson. Ela o viu através da janela do escritório e fez-lhe um aceno. A recepção já havia ligado, e ela esperava.

— Saia desse barulhão e entre aqui — disse ela, escancarando a porta. Ele entrou no pequeno cubículo e ela fechou a porta atrás dele, interceptando o ruído.

— Sente-se — disse ela. — Você deve ser o novo tira. Acho que não nos conhecemos, e talvez seja uma boa coisa, sabe?

Entregaram-se a apresentações amistosas. Abby era uma senhora quarentona, feia mas bem-apessoada; ela e o marido eram pessoas que haviam realmente feito carreira naquele lugar. Ela acabara de receber o distintivo de vinte anos de serviço, e ele o de vinte e cinco.

— Bem — disse ela — estamos todos muito chocados. Sally era uma boa operária. Pena que ela não se abria um pouco mais. Achamos que podia ter problemas sérios, mas... Olhe, tentamos fazer amizade; o que posso dizer?

— Diversas pessoas me disseram que ela se isolava — disse Ben.

— Sim, era quase uma eremita. Nós a convidamos para a festa de Natal do ano passado, e acho que ela quase veio, mas então arrumou uma desculpa e ficou em casa. Ela não saía muito, pelo que qualquer um de nós sabia.

— Você não teria algumas fotos dela, teria?

— Engraçado você ter mencionado isso. Acho que ela detestava ser fotografada. Todos nós íamos posar para uma foto da companhia... Quando foi isso? Acho que perto do começo de setembro, e lembro-me de que ela simplesmente se escondia atrás das pessoas ou virava o rosto. É, algumas pessoas são assim.

— E daí, que tipo de pessoa ela era realmente? Quais foram algumas de suas impressões?

Abby tirou um momento para considerar a pergunta.

— Ela era esperta e inteligente, boa com as mãos, e aprendeu a fazer o serviço imediatamente, muito fácil de treinar. Mas sempre houve algo meio esquisito a respeito dela. —Abby sorriu a um pensamento que lhe ocorreu. — Bem, acho que agora posso dizer. Sabe... acho que ela escondia alguma coisa. Uma porção de gente aqui pensava isso.

— Escondendo alguma coisa? Abby abanou a cabeça e riu.

— Oh, arrumamos todo o tipo de idéias bobas, falando de talvez ela ser uma fugitiva da lei, ou uma ex-presa, ou uma bruxa, ou uma prostituta, ou uma lésbica... Era muita tolice, mas quando as pessoas são tão reservadas assim, tão quietas, a gente fica pensando sobre elas um pouco. É apenas natural.

— E daí?

— Daí o quê?

— Ficou sabendo se ela era alguma dessas coisas? A mulher riu.

— Não. Era conversa, nada além de conversa.

— Mas mesmo assim você acha que ela escondia alguma coisa...

— Não sei. É que ela agia como se estivesse escondendo, acho eu. Ben riu a fim de manter a atmosfera descontraída.

— Bem, que tal uma descrição? Que aparência tinha?

— Oh... — Os olhos de Abby vaguearam pela sala enquanto ela reconstruía uma imagem de Sally Roe na cabeça. — Mais ou menos da minha altura, e tenho um metro e sessenta e sete. Cabelos ruivos... longos... eu a vi escovando-os certa vez; chegavam até quase o meio das costas. Mas ela os mantinha presos num lenço xadrez quando trabalhava aqui, por isso a gente nunca via muita coisa.

— Cor dos olhos?

— Cor dos olhos... Puxa, nunca pensei muito sobre isso. Parece-me que eram castanhos.

— Que idade tinha ela?

— Trinta e tantos. Talvez um pouco mais velha.

— E que me diz do peso?

— Muito bom — e com esse comentário Abby riu. — Não sei, ela me parecia bem, pelo menos o suficiente para despertar ciúmes.

Ben havia ouvido o bastante por enquanto. Pôs-se de pé.

— Olhe, muito obrigado. Se eu tiver mais alguma pergunta darei uma telefonada. Oh... — Ele rabiscou o número do seu telefone num pedaço de papel. — Se se lembrar de alguma outra coisa que acha que eu gostaria de saber, pode me ligar lá em casa. Não tem problema.

— Claro. — Ela ergueu-se e apertou-lhe a mão. — Bem, foi um verdadeiro choque, uma noticia realmente dura.

Ele assentiu com a cabeça.

— E então essa notícia hoje de manhã a respeito da escola cristã e o que aquele professor fazia. Que mundo, hein? Nunca se sabe com relação às pessoas... É meio apavorante.

Ango não era nada importante, nada a que se curvar, adorar, venerar ou temer. Era pequeno, fininho como uma aranha, e feio. Oh, ele sabia. Vivia com aquilo. Ele agüentava os insultos dos outros espíritos que se faziam de donos dele, dando-lhe todo o tipo de ordem, tomando-lhe a glória, e dando-lhe a sua culpa. Ah, era tudo parte da guerra, tudo parte do plano do seu senhor para a terra, e cada espírito tinha o seu próprio papel, sua própria posição, seu próprio nível de poder. Ele sabia que a sua posição era baixa. Para o restante do reino demoníaco, o que era a Escola de Primeiro Grau de Baskon? Que importância tinha ao lado de todas as escolas do mundo?

Seus beiços se espicharam, abrindo-se, e os dentes pontiagudos bate­ram e rangeram quando ele sibilou uma risadinha. Oh, este lugar impor­tava sim, agora! Os outros espíritos haviam rido e censurado, mas em certo lugar, sentado altaneiro no pico do poder, o próprio Homem Forte havia escolhido aquele lugar para começar o Plano. Ele havia falado o nome de Ango como o espírito que seria colocado no comando! Agora o pequenino e feio Ango tinha o favor do Homem Forte — e a inveja dos outros espíritos!

Mas por que não? Ele merecia. Levou anos para conseguir controlar essa escola — para expulsar os que resistiam, implantar os simpatizantes, cegar os pais ao que acontecia a seus filhos. Não foi trabalho fácil.

Mas aconteceu, e tudo por causa de Ango! Os outros espíritos que o chamassem de pequeno e feio. Nessa escola, ele era Ba-al Ango, o belo e poderoso. Todos os enganadores que esvoaçavam, chispavam e sobrevoavam aquele lugar estavam sob o seu comando, e através deles muitos dos professores, bem como o diretor e o vice-diretor. Esse poder era precioso, uma titilação constante, uma recompensa maravilhosa por todos esses anos e todo esse trabalho. Sentado sobre os calcanhares na vasta cobertura de piche do teto, ele permitiu-se o prazer de umas risadas secas, sulfurosas.

Pensava em todas aquelas crianças pequenas, impressionáveis, senta­das em todas aquelas salas de aula lá embaixo, e o que deviam estar aprendendo naquele exato momento. Como de costume, a maioria de seus subalternos demoníacos se ocupava com a tarefa. Eram os melhores que havia, e ele se deleitava com o fato de que, nos últimos anos, desde que as leis haviam sido mudadas, seu trabalho tinha-se tornado muito mais fácil. Oh, com que facilidade os homens podiam aceitar as mentiras mais chocantes uma vez que a Verdade fosse tirada de consideração!

Sim, mas havia ainda uns santos de Deus corajosos escondidos por ali como teimosas ervas-daninhas nesse jardim outrora florescente, criando caso com seus protestos, conferências de pais e professores, tagarelices ao telefone, e bilhetes, bilhetes, e mais bilhetes aos professores, mas...

Ango resfolegou outra risada sulfurosa e rolou como um cãozinho brincalhão no piche preto. Não tinha importância. Eles perdiam. Que protestassem. Ele tinha todo o poder ali.

Mota, alto, forte, cor de bronze escuro, ficou com a espada na mão, seus olhos penetrantes na Escola de Primeiro Grau de Baskon, os pés submersos em mais de vinte centímetros de esterco de galinha. Seu amigo oriental e companheiro de armas, Signa, estava ao lado, afundado tanto quanto ele na mesma categoria. Não fossem eles espíritos angelicais, e teria sido muito desagradável. Por serem, não se perturbavam com seus arredo­res, e as oitocentas galinhas brancas cacarejantes não percebiam a sua presença naquele velho galinheiro.

Era sexta-feira, e quase a hora do almoço e do recreio do meio-dia.

— Ela está a caminho — avisou Signa.

— Agora — disse Mota. Eles sumiram.

A sineta tocou para o almoço. Ango podia ouvir as portas de todas as salas de aula se abrindo e as turbas de crianças enchendo os corredores. O recreio seria uma ocasião agradável, como sempre. A corrupção que os professores não conseguiam espalhar na sala de aula, as crianças podiam espalhar entre si no pátio do recreio.

— Salve! — soou uma voz retumbante atrás dele.

— Ahhhc! — A espada de Ango foi parar imediatamente em sua mão quando ele se voltou para enfrentar o guerreiro celestial. Oh, era um gigante! Um polinésio maciço, brilhante como relâmpago, com asas que espalhavam o fogo do sol Sua espada estava desembainhada, e refulgia com uma luz viva, mas ele a segurava abaixada, a ponta descansando sobre o teto.

— Tropas! — berrou Ango, e cinqüenta demônios surgiram através do teto como ratazanas assustadas dando grasnados e pios de surpresa e raiva. Eles circundaram o grande guerreiro.

— O que o traz aqui? — exigiu Ango.

Mas Mota queria um pouco mais de espaço. Ergueu a espada, segurou-a estirada à frente na altura da cintura, e pôs-se a brandi-la num amplo arco circular à sua volta. Os agitados e sibilantes espíritos recuaram quando a pontinha da espada passou debaixo de seus narizes resfolegantes.

Agora ele se sentia mais confortável, e falou.

— Procurava uma lagartixazinha insignificante chamada... Anco... Inco...

— Está procurando Ango!

Mota sorriu e ergueu o indicador.

— Sim! Ingo, é isso mesmo!

— Ango! — corrigiu o demônio.

Dois guardas estavam em seus postos ao lado da porta principal quando Signa mergulhou do céu como uma bola de relâmpago e lançou-os por terra apenas pela sua presença.

— Tropas! — berraram eles, esforçando-se para colocar-se em pé, agarrando as espadas. Vinte demônios se apresentaram imediatamente, espadas desembainhadas, olhos pasmados fitando aquele visitante.

Um espírito explodiu da escola em pressa descuidada, não querendo perder nada, a espada balançando, as asas farfalhando. Ele chegou perto demais do guerreiro.

Uuuuch! A espada moveu-se tão depressa que parecia um disco de luz. Partículas esfrangalhadas do espírito se agitaram e flutuaram em todas as direções, deixando uma trilha de fumaça vermelha dissolvendo-se até desaparecer. A ponta da espada estava agora posicionada e pronta para o próximo atacante atrevido.

Ninguém se sentia tão atrevido assim. Eles permaneceram como está­tuas, os olhos naquele guerreiro. Ele também permaneceu imóvel, observando-os com os olhos ardentes.

Sally Roe ergueu a mão e puxou o cordão da campainha. A pequena campainha na frente do ônibus fez ding, e o motorista diminuiu para a próxima parada ao longo da Rodovia Toe Springs-Claytonville. Ela podia ver a Escola de Primeiro Grau de Claytonville logo adiante. Nunca tinha estado lá dentro, mas teria de dar um jeito de chegar onde queria sem ser vista por muitas pessoas. Havia feito o máximo que podia para parecer diferente de Sally Roe; penteara os cabelos — agora pretos — numa trança e prendera atrás da cabeça; havia encontrado uns óculos de sol que podiam passar por óculos normais escurecidos, embora a incomodassem; sabia que suas velhas roupas de trabalho na fábrica não seriam uma boa idéia, por isso dera um jeito de comprar umas roupas esportivas — calças, blusa, mocassins. Fora isso, ela podia apenas esperar que ninguém nessa escolinha a tivesse visto antes alguma vez ou soubesse quem ela era.

O ônibus encostou no ponto, e ela desceu bem na frente da escola.

Mota ainda parecia incerto.

— Não... não pode ser Ango. Não vejo ninguém aqui que corresponda ao que ouvi falar dele. Procuro Ango, o pequeno, fraco e miserável.

Ango podia sentir os olhares fixos de seus subordinados. Naturalmente queriam ver o que ele faria. Ele ergueu a espada, e todos eles fizeram o mesmo. — O Ango que procura é poderoso! Ele é o Ba-al deste lugar!

— Ba-al? — inquiriu Mota. — Um espírito com apenas metade de coração e menos cérebro ainda?

— Gaaaa!! — gritou Ango, elevando a espada acima da cabeça. — Eu sou Ango!

Ele fez baixar a espada num borrão vermelho, ardente. A enorme espada do guerreiro surgiu no mesmo instante e aparou o golpe.

Mota surpreendeu-se. O demoniozinho podia golpear duro, com força muito maior do que havia esperado. Ele escondeu a sua preocupação, contudo, e apenas agiu como se finalmente percebesse a quem se dirigia.

— Ooohhhh...

— Tropas! — berrou Ango.

Mota enfiou a espada bem debaixo do nariz de Ango.

— Antes que você ataque... — Ango engoliu a ordem. — Gostaria de declarar o que me fez procurá-lo.

Signa tinha a atenção dos guardas na frente da escola e de pelo menos metade dos demônios de dentro dela.

— E agora — disse ele — gostaríamos de dar uma olhada dentro desta escola.

Os guardas cuspiram enxofre nele, e por um momento ele ficou cego. Ergueu a espada para defender-se e tentou limpar os olhos, cambaleando de costas sobre o gramado da escola. Os guardas seguiram-no, empurrando-o para trás, abanando as espadas. Os outros espíritos sentiram nova coragem, e se achegaram mais, sibilando, cuspindo, erguendo alto as suas espadas.

Não vigiavam a porta.

A passos enérgicos, Sally subiu a entrada da frente e passou pela porta. O relógio no corredor principal mostrava que ela chegara na hora; eram 11:50, hora do intervalo do almoço. Agora era achar a classe da Srta. Brewer, a Sala 105. Era ou à direita ou à esquerda, mas primeiro ela teria de passar pelo escritório da escola. Havia uma recepcionista em pé atrás do balcão, e diversos funcionários do escritório trabalhando em escriva­ninhas atrás dela. Bem, pensou ela, se eu simplesmente der a impressão de saber o que estou fazendo, talvez eles não se ofereçam para ajudar-me.

Ela dirigiu-se ao corredor, passando pelo balcão de recepção, olhando para a frente, não diminuindo a marcha, não parecendo desnorteada. Vamos lá, Sally, mostre-se convincente.

— Não se movam! — disse o demônio atrás do balcão. — Não cheguem perto de mim nem mais um passo!

Chimon e Scion haviam entrado com Sally, e estavam agora em pé diante do balcão, as asas desfraldadas, bloqueando totalmente qualquer visão do corredor. Suas espadas estavam desembainhadas, mas ao seu lado. Eles não falaram, mas apenas olharam para aquela criatura limbosa berran­do com eles.

— Como foi que entraram aqui? — exigiu o demônio. — Guardas! Subitamente a lamina ardente de Scion descansou bem entre as presas amarelas do demônio. Este achou melhor não pronunciar nenhuma outra palavra.

A recepcionista olhou o relógio. Hmmm. A Srta. Brewer esperava uma visita aquele dia; a recepcionista pensou ter ouvido alguém entrar, mas não havia ninguém no corredor. Bem, a visita deve estar um pouco atrasada.

Sally virou à esquerda no fim do corredor, desaparecendo ao contornar o canto. Tinha de ser um milagre a mulher atrás do balcão não tê-la visto. Oh, muito bem. Agora era encontrar a Sala 105.

Ótimo! Ali estava a Sala 103, e agora a Sala 104, e bingo! Sala 105!

Ela se colocou no vão da porta aberta e bateu no batente.

A Srta. Brewer, a jovem e bonita professora da quarta série, ergueu-se da escrivaninha com um sorriso de boas vindas e estendeu a mão.

— Alô! Deve ser a Sra. Jenson!

Sally tomou-lhe a mão e respondeu agradavelmente:

— E você deve ser a Srta. Brewer.

— Por favor, entre.

Não posso acreditar que estou fazendo isto, pensou Sally. Ela imedia­tamente parou de pensar esse tipo de coisa — poderia estragar sua encenação.

A Srta. Brewer indicou a Sally uma cadeira ao lado da escrivaninha e em seguida encaminhou-se à estante que ficava atrás.

— E então, como estão as coisas na Associação? Sally sentou-se e manteve os olhos na Srta. Brewer.

— Ora, simplesmente maravilhosas até agora. Estou realmente contente por estar trabalhando para eles agora.

— Bem — disse a Srta. Brewer, puxando uma pasta de folhas soltas da prateleira — nós certamente gostamos deste currículo, e a criançada se deu muito bem com ele. A maior parte dos nossos pais está muito satisfeita.

Ela colocou a pasta sobre a escrivaninha na frente de Sally, e Sally sorriu ao apanhá-la. Na capa encontravam-se as palavras: "Compreensão Sexual e Vida em Família, Quarta Série." No fim da capa encontrava-se o nome da editora, Associação Educacional Homem Livre. Ela se pôs a folhear as páginas.

— Será que posso ajudá-la a encontrar o que está procurando?

— Oh, não perca o seu horário de almoço para ajudar-me. Tenho toda uma lista de revisões... Deixe-me ver, esta é a última edição, não é? Muito bem, isso deve facilitar, não muita coisa para verificar de novo.

— Exatamente qual foi o problema? Sally havia ensaiado bem a sua história.

— Bem, as citações são razoavelmente corretas, mas as fontes não acharam que as atribuições haviam sido especificadas com suficiente clareza, portanto agora tenho de preparar uma resposta e... imagine só, deixei minha cópia na última cidade. Bem, faz parte dos riscos de se viajar de cidade em cidade.

— Entretanto, deve ser emocionante prestar assistência a tantas escolas em todo o estado. O currículo tem sido bem recebido nos outros distritos escolares?

— Na maioria, sim.

A Srta. Brewer parou para pensar, depois deu uma risada, sentando-se na beirada da escrivaninha.

— Tendo problemas com os fundamentalistas da direita? Sally devolveu a risada e acenou que sim com a cabeça.

— Essa é uma das razões pelas quais tenho de revisar todas as atribui­ções, para ter certeza de que todas estejam cobertas legalmente.

— Oh, que mundo! Sally arriscou.

— Falando de problemas fundamentalistas, parece que Amber Brandon estava na sua classe?

A Srta. Brewer sorriu curiosa.

— Ora, como ficou sabendo?

— Bem, a sua é a única classe de quarta série, e o jornal disse que a criança envolvida na ação judicial estava na quarta série, e fiquei sabendo em algum lugar que a criança era Amber, por isso...

A ex-professora de Amber assentiu com tristeza.

— Que coisa horrível, não? Estou contente por eles estarem levando essa coisa à justiça. Temos de pôr um paradeiro em todo esse assédio e censura. Já passou da conta.

— Ouça, não vá perder o seu almoço por minha causa! A Srta. Brewer caminhou até à porta.

— Posso trazer-lhe alguma coisa?

— Oh, não, não se preocupe comigo. Não me demorarei, de qualquer jeito.

— Tudo bem. Não se apresse.

E dizendo isso, ela saiu e seguiu pelo corredor.

Sally esperou apenas um momento, depois fechou a pasta e a colocou na prateleira de onde havia saído. Em seguida, olhou entre as outras pastas, livros e materiais para achar o título que procurava. A garotada da classe havia desenhado figuras de faces estranhas, animais esquisitos, deuses, e bizarros personagens de desenhos animados, e os desenhos ainda estavam em exibição nas paredes, juntamente com diversos padrões hipnotizantes e complexos de estudo. O currículo tinha de estar ali.

Ela o encontrou.

***

Ango pôs-se a maldizer Mota enquanto seus guerreiros demoníacos se tornavam cada vez mais corajosos.

— Fora! Caia fora, você! Este território é nosso, e você nada tem a fazer aqui!

Mota resolveu provocar um pouquinho aquele demônio.

— Oh, é isso o que você pensa?

Ele fez um movimento na direção do telhado, pronto a passar através dele e invadir o quartel general dos demônios.

— Atacar! — berrou Ango, e todos os demônios se adiantaram com ímpeto, lâminas vermelhas rebrilhando. — liquidem-no!

Mota arremeteu rumo ao céu, atraindo uma horda de espíritos atrás de si. Ele estacou, deu um salto mortal, enfrentou-os. Sua espada tornou-se uma fita ininterrupta de luz.

O primeiro demônio tornou-se duas metades que passaram pelos dois lados de Mota e a seguir mergulharam no esquecimento. O segundo e o terceiro ele espalhou a pancadas. Chutou e fez sair rolando um grupinho de oito. Mas eles simplesmente continuavam chegando, mais e mais depressa, golpeando e retalhando com mais e mais força. Mota havia planejado fazer uma encenação para mantê-los no seu encalço, mas de repente descobriu que já não simulava. Essa luta era real.

A próxima leva de espíritos jorrou para cima. Ele recuou, suas asas estendendo-se mais e mais alto. Não podia permitir que a coisa acabasse cedo demais, mas começava a desejar que pudesse.

A oeste, ele viu Signa envolvido no mesmo tipo de escaramuça, levando uns ataques sérios, brandindo rapidamente a espada e atraindo os guardas para longe da escola. Ele recuava, prestes a ser cercado.

Chimon e Scion podiam ouvir o rebuliço por toda a parte do lado de fora da escola. Os demônios pareciam bem exultantes.

— IAAA! — Subitamente quatro enormes rufiões explodiram através das paredes em todos os lados, os dentes à mostra, as garras prontas a lacerar.

Chimon e Scion arremeteram através do telhado da escola como dois foguetes, batendo em retirada, totalmente surpresos e danados da vida.

— De onde foi que eles vieram?

Scion estava demasiadamente ocupado para responder. Ele se defendia das espadas e dos dentes afiados dos atacantes. Era como escapar para cima de uma árvore enorme acuado por matilha espumejante de cães rápidos.

Eles foram recuando, cada vez mais alto, tentando manter-se longe daquelas lâminas vermelhas a zunir. Em que horrível situação haviam-se metido?

As mãos de Sally tremiam e ela estava com medo de abrir o fichário de três argolas agora em seu colo. O título parecia suficientemente inofensivo: Descobrindo o Verdadeiro Eu Estudos em Auto-Estima e Realização Pessoal para Alunos da Quarta Série.

Ela voltou a capa, abrindo o fichário, e examinou rapidamente o frontispício. Não reconheceu o nome do autor, mas o nome da editora imediatamente revirou-lhe o estômago: Centro Ômega de Estudos Educa­cionais. Com grande esforço, folheou diversas outras páginas, correndo os olhos pelo conteúdo. Encontrou uma certa lingüeta de índice e pulou adiante para um capítulo posterior.

O coração batia com força como se ela tivesse subido um monte correndo, e as mãos ficassem escorregadias de suor. Estavam tremendo.

Os velhos tormentos! Sua mente começava a disparar novamente. Ela podia ouvir as vozes chamando, zombando, xingando. Havia espíritos na sala!

Ela tinha de sair dali.

Carregou o fichário à prateleira e tentou colocá-lo de volta. Um grande atlas caiu, tapando o buraco. Quase choramingou alto enquanto os dedos se enterravam no atlas caído, tentando agarrá-lo. Ela o ergueu, ele escorregou dos seus dedos, ela ergueu-o de novo, tentou segurá-lo no lugar enquanto enfiava o fichário ali O fichário ficou preso a um gordo envelope amarelo e não entrava; ela empurrou o envelope de lado com a palma da mão.

O fichário escorregou no lugar. Assim que seus dedos o largaram, a náusea que sentia começou a melhorar.

Tenho de sair daqui. Agora mesmo!

Disparou para o corredor e depois correu rumo à entrada norte, saindo com fúria como se estivesse fugindo de um incêndio.

Acima e à volta de toda a escola, os demônios acabavam de voltar de gloriosa debandada. Haviam enfim expulsado aqueles irritantes guerreiros dos Céus, e agora o território do glorioso Ango estava seguro novamente.

Bem alto acima da escola, a uma distância segura, Mota, Signa, Chimon e Scion se reuniram para atualização mútua.

— O que aconteceu lá em baixo? — quis saber Chimon.

— Ango e seus demônios nunca foram tão fortes assim! — disse Signa, ainda esfregando os olhos para livrá-los do enxofre ardido.

Scion examinava um corte de bom tamanho na perna enquanto disse:

— Fizemos todos papel de bobos ao nos meter nessa pensando apenas em criar uma distração. Eles não brincavam!

Lá embaixo, parecendo tão pequenina quanto um inseto no vasto terreno verde, Sally corria de volta à Rodovia Toe Springs — Claytonville. Provavelmente correria até o ponto seguinte do ônibus ao invés de esperar em frente da escola onde poderia ser vista. Pelo menos cinco espíritos insultantes, torturadores, a seguiam, zumbindo em torno de sua cabeça como marimbondos zangados.

— Eles a seguirão até seu próximo destino — disse Signa.

— Quando estiverem longe deste lugar, daremos um jeito neles — disse Mota. — Não podemos lutar com eles aqui.

— Cree e Si já estão em Ômega. Não têm a menor idéia do que os aguarda! Todos eles sabiam qual era o problema sem que ninguém tivesse de dizer. Por fim, Mota disse.

— A cobertura de oração. Estamos perdendo-a!

Tom Harris empurrou seu carrinho de supermercado para cima e para baixo dos comedores no supermercado Bom Preço, fazendo suas rondas semanais. Havia certa dificuldade com sua lista de compras; com Rute e Josias longe, ele não tinha certeza sobre quais itens precisaria repor e quais deveria esquecer por enquanto. Ele riscou o cereal para o café da manhã — ainda havia bastante em casa. O leite na geladeira já azedava. Resolveu jogá-lo na pia e apenas comprar um litro hoje ao invés dos quatro litros de sempre.

— Ei, Sr.Harris!

Oh! Era Jody Jessup, uma alunazinha da quinta série. Era estranho vê-la no supermercado durante o horário das aulas, mas Tom normalmente também não ia lá durante o horário de aulas. De qualquer forma, ele ficou contente em ver o sorriso alegre da garotinha de novo.

— Oi, Jody! Como vai?

Ela veio correndo pelo corredor, passando pelos flocos de milho e de aveia, os longos cabelos castanhos voando.

— Estou com minha mãe. Vim ajudar a fazer as compras.

Ela recostou-se contra o lado dele, e ele deu-lhe um aperto em torno dos ombros.

— Bem, é ótimo ver você.

— Parece esquisito o senhor não estar mais na escola. Tom concordou.

— É, parece mesmo.

Então veio uma voz alarmada da outra ponta do corredor.

— Jody! Venha cá!

Era Andrea Jessup, mãe de Jody, empurrando seu carrinho de compras, com o irmão mais novo de Jody, Brian, ao seu lado. Tom ficou chocado e incrédulo ante a frieza em seus olhos.

Ele acenou.

— Oi, Andrea. Prazer em vê-la. Oi, Brian! Andrea ignorou-o.

— Jody! Venha cá agora mesmo! Não quero vê-la falando com o Sr. Harris! — Jody apressou-se em voltar para junto da mãe. Andrea inclinou-se e ganiu a ordem diretamente no rosto da menina. — Você fica comigo agora e não fala com estranhos!

Jody começou a protestar:

— Mas é o Sr. Harris!

— Não discuta comigo!

E então desapareceram à volta do canto; Tom podia ouvir sua conversa percorrendo o outro corredor.

— Fique longe daquele homem — dizia a mãe. — Não chegue nem perto dele! E isso vale para você também, Brian!

Brian começou a fazer perguntas, mas Andrea silenciou as duas crianças e continuou pelo corredor.

A vida de Tom estacou, bem ali ao lado dos cereais para o café matutino.

Os Jessups costumavam ser tão bons amigos, e apoiavam-no tanto! Ele havia jantado com eles em diversas ocasiões, brincado com seus filhos, ido Junto com eles em excursões de toda a escola. Jody e Brian eram — costumavam ser — dois de seus melhores alunos.

Acabou. Tudo havia mudado. Tom tentou pensar em um bom motivo, mas não conseguiu. Tentou pensar no que comprar a seguir, mas não conseguiu pensar nisso também.

Senhor, orou ele em silêncio finalmente, não fiz nada! Por que Andrea me tratou desse jeito?

Então ele pôs-se a imaginar quantos outros de seus próprios irmãos e irmãs no Senhor sentiam-se da mesma forma com relação a ele.

Andrea continuou empurrando o seu carrinho, agarrando picles e condimentos das prateleiras, mal olhando o que pegava, e continuando em frente. Ela queria sair desse lugar antes que visse aquele homem novamente, antes que seus filhos o vissem. Ela jamais havia ficado tão aborrecida com alguém em toda a sua vida. Que cara de pau!

Um espiritozinho, Contenda, seguia Andrea. Tinha asas nervosas, agitadas, que nunca paravam de tremer, e uma boca clangorejante que mais do que compensava o tamanho. Ele correu pelas tampas dos vidros e caixas, trans­pondo os biscoitos água e sal e saltando por cima das toalhas de papel.

Ele mentiu a você o tempo todo! gritou ele à mulher. E sabe, o Pastor Mark está mentindo também, tentando protegê-lo! Você não sabe me­tade do que acontecia naquela escola!

Do outro lado do corredor, correndo através da farinha de trigo e do açúcar e dando saltos mortais por cima do óleo de cozinha, Mexerico preenchia todas as pausas de Contenda. Sexual! Ele tem problema com sexo! Tem de ser sexual! É melhor você perguntar por aí para descobrir se alguém sabe alguma coisa! Nunca se sabe a respeito dessa gente! Fale com Judy Waring! Ela poderia saber!

Andrea foi ficando mais enraivecida, quanto mais pensava em todo esse escândalo da escola cristã. Aquele Tom Harris precisa de oração, pensou ela.

Mas ela não tinha estado orando muito.

As orelhas de Mulligan estavam tão vermelhas que quase resplande­ciam.

— Cole! desta forma você corre o risco de ser despedido!

Mulligan se alteava sobre a escrivaninha de Ben como uma árvore podre prestes a desabar, e Ben sentia que devia erguer-se a fim de evitar ser esmagado, exceto que Mulligan poderia interpretar esse movimento como sendo agressivo.

Mulligan apontou o dedo — este também parecia um tanto vermelho — bem ao rosto de Ben.

— Você esteve lá no sítio dos Potters outro dia?

— Quarta-feira à tarde, senhor — replicou Ben, notando que havia chamado Haroldo de "senhor". Puxa, devo estar amedrontado.

— E quem foi que lhe disse para ir lá?

— A visita foi voluntária, senhor. Eu tinha um certo tempo livre, por isso...

— Por isso achou que xeretaria por lá sem autorização, não é verdade? Ben inspirou e depois expirou lentamente antes de dizer outra palavra.

Ele tinha de tomar cuidado porque estava transtornado.

— Não era do meu conhecimento, senhor, que a residência dos Potters fosse terreno proibido para um agente da lei, especialmente quando sua presença ali ocorreu com o pleno convite e boas vindas da própria Sra. Potter.

— Então o que me diz daquela visitinha à fabrica de portas? Que me diz dela?

— Eles não acharam ruim de eu ter ido lá.

— E eu digo que abusou do seu distintivo. Agora Ben colocou-se de pé, alto e ereto.

— O senhor talvez se interessasse em saber o que descobri, Sargento Mulligan, senhor.

— Se for a respeito de Sally Roe, pode esquecer! Esse caso está encerrado porque eu disse que estava!

— As descrições de Sally Roe que obtive da Sra. Potter e de Abby Grayson na Fábrica de Portas Bergen foram coerentes. Sally Roe tinha trinta e tantos anos de idade, cerca de um metro e sessenta e sete, com longos cabelos ruivos.

— E daí?

— A mulher que encontramos no barracão das cabras era mais jovem, e tinha cabelos pretos, provavelmente até os ombros, não mais compridos que isso.

Mulligan sorriu um sorriso de piedade. Ele colocou sua grande mão no ombro de Ben e falou em tom condescendente.

— Cole... deixe disso. Estava escuro lá dentro. Você viu o corpo por apenas um segundo. Não sei que bicho o picou.

— Haroldo... por que a casa foi saqueada? Você autorizou aquilo?

— Claro que sim. Eles procuravam evidência.

— Evidência do quê? Você disse que foi suicídio.

— Procedimento padrão. Seu turno já não está terminando?

— Eu tenho uma mensagem para você da Sra. Potter. Ela gostaria que quem fez aquela bagunça desse um jeito nela.

— Já cuidei disso... Sua cabecinha não precisa preocupar-se.

— E o que aconteceu com a caminhonete de Sally Roe? Mulligan olhou para ele de maneira apenas um tantinho esquisito.

— Que caminhonete?

— Sally Roe sempre dirigia uma caminhonete azul, ano 65. Deixei a Sra. Potter repassar nosso álbum de identificação de veículos ontem, e ela indicou a marca e modelo para mim. A caminhonete não está em parte alguma da propriedade. Roe deve tê-la dirigido do trabalho para a casa na noite em que supostamente se matou. Acho que a mesma gente que saqueou a casa pode ter dado um sumiço na caminhonete.

Mulligan ficou um pouco preocupado.

— Não sei coisa alguma a respeito.

— E já que estamos falando nisso, ainda estou pensando naquela blusa suja de sangue que encontramos. O legista chegou a verificar o tipo do sangue? A cena estava cheia de sinais de violência. E o corpo... Aquela mulher não se enforcou!

Mulligan voltou as costas a Ben, dirigiu-se pisando duro até seu escri­tório, e voltou com alguns papéis na mão. Ele deu com os papéis na escrivaninha de Ben.

— Aí! está o relatório do legista municipal sobre a morte de Sally Roe! Leia você mesmo! Morte por asfixia de enforcamento. Nada de homicídio, nada de uma luta, nada de nada! Agora, se não concorda com o legista, por que não descobre outro corpo para ele examinar?

— Pode ser que haja mesmo.

Mulligan chegou a agarrar a camisa de Ben em seus punhos. Seus olhos estavam desvairados, e ele sibilou as palavras através do queixo travado de raiva.

— Pare aí mesmo! Nem mais uma palavra! — Ben nada disse, mas também não voltou atrás. Mulligan não gostou nem um pouco. — Seu turno terminou por hoje, agente Cole, e se eu ouvir mais uma palavra sobre isto de sua parte, seu emprego vai terminar, entendeu bem?

Mulligan soltou o uniforme de Ben com um empurrãozinho agressivo. Ben fez o que pôde para tirar as rugas.

— Estarei de olho em você, cara, e quero dizer realmente de olho. Desista desse negócio da Sally Roe, ouviu? Mais um passo em falso que dê e vou ter um prazer imenso em arrancar esse distintivo do seu peito!