Capítulo 14
GLÓRIA
O VERÃO PASSADO EM NOVA YORK transformou minha vida, meus
pensamentos e meus pontos de vista. Voltei à Califórnia resolvido a pregar.
Não tinha encontrado, porém, a maior bênção, senão quando
cheguei à escola em La Puente — Glória voltara ao Instituto Bíblico. Não sabia
quanto sentira a sua falta, até o momento em que a encontrei de novo.
A situação na escola continuava ainda impossível. Tudo
parecia conspirar para nos separar. Os regulamentos eram os mesmos de dois anos
antes, quando havíamos sentido a mesma frustração. A conversa à mesa era
limitada a frases como “passe o sal, por favor”, e os professores com olhos de
águia observavam cada um dos nossos movimentos no pátio. Embora eu detestasse
trabalhar na cozinha, comecei a apresentar-me como voluntário para serviços
extra, lavando pratos, com o propósito de ficar perto de Glória. A cozinha
barulhenta era tudo, menos reservada, mas descobri que podíamos manter uma
conversa semi-reservada, contanto que estivéssemos ambos curvados sobre a pia
— eu com os braços enterrados até os cotovelos em água quente e sabão, e Glória
enxaguando e enxugando.
À medida que os meses voavam, cheguei à conclusão de que
estava apaixonado por ela. Minhas notas continuavam a melhorar, e eu tinha um
apetite de leão, em parte, estou certo, por causa do exercício extra junto à
pia da cozinha; mas sentia-me frustrado porque não podia expressar-lhe o meu
amor. Toda vez que tínhamos alguns minutos a sós, alguém nos interrompia.
Procurava chegar mais cedo à sala de aulas, mas invariavelmente alguns
estudantes entravam ali, justamente na hora em que eu tentava falar a sério com
Glória. A frustração estava me pondo louco. Mesmo levando em conta minha origem
latina, achava quase impossível sentir-me romântico diante de uma pia repleta
de pratos gordurosos, em uma cozinha cheia de estudantes a cantar hinos.
Numa quinta-feira à noite, recebi permissão para ir à
cidade. Parei na primeira cabina telefônica que encontrei, e disquei o número
do dormitório de Glória. Quando a conselheira atendeu, coloquei um lenço
sobre o fone e, em voz de baixo profundo, pedi para falar com a Srta. Steffani.
Houve uma pausa, e ouvi a conselheira cochichar para Glória: “Penso que é o seu
pai.”
Glória deu uma risadinha, quando me ouviu gaguejando do
outro lado da linha. Estava frustrado e desesperado. “Preciso encontrar-me com
você”, murmurei.
“Nicky, o que é que você está procurando dizer?” cochichou
Glória, lembrando-se de que pensavam que ela estava falando com o pai.
Gaguejei e enrolei as palavras, mas os termos certos não me
vinham à mente. Todas as minhas associações com garotas haviam sido em termos
de gang, e eu realmente não sabia como conversar com uma moça tão pura e doce
como Glória.
“Penso que se pudesse vê-la pessoalmente, poderia
expressar-me melhor”, disse eu. “Talvez seja melhor voltar para o meu quarto e
parar de aborrecer você.”
“Nickyyy!” escutei-a gritar, “não ouse colocar o fone no
gancho.”
Ouvi as outras moças do quarto rindo. Não obstante, Glória
estava resolvida a forçar-me a falar.
“Psiu, elas vão ficar sabendo que sou eu”, respondi.
“Não me importa que fiquem sabendo. Agora diga-me o que você
está procurando dizer.”
Fiz um tremendo esforço para encontrar as palavras certas,
e finalmente disse: “Estou pensando que seria maravilhoso se você aceitasse
andar comigo.” Eu confessara. Finalmente, tinha conseguido. Fiquei de
respiração suspensa, esperando a reação
dela.
“Andar com você? Que significa “andar” com você?” Glória
estava gritando e dessa vez ouvi as moças rindo alto.
“Significa isso mesmo”, disse meio acanhado. Senti meu rosto
queimar embora estivesse sozinho na cabine, a um quilômetro de distância. “Queria
que você saísse comigo.”
Glória voltou a cochichar: “Você quer dizer que quer. que eu
seja a sua namorada?”
“É isso mesmo o que quero dizer”, disse eu, ainda vermelho e
tentando encolher-me dentro da cabine telefônica.
Percebi que ela encostou bem a boca no fone quando suspirou:
“Sim, Nicky, seria maravilhoso. Tenho sentido que Deus nos vem aproximando com
um propósito. Vou escrever um bilhete bem comprido e passá-lo a você na hora
do café, amanhã cedo.”
Depois de colocar o fone no gancho, fiquei parado na cabine
durante muito tempo. A noite estava quente, mas eu estava alagado de suor frio,
e minhas mãos tremiam como varas verdes.
Mais tarde, fiquei sabendo que depois que Glória pôs o fone
no gancho, a conselheira olhou para ela, dizendo com uma voz severa: “Glória,
por que o seu pai haveria de telefonar a esta hora da noite, e pedir para você
sair com ele?”
Uma das garotas falou entre risadas: “Porque o nome do pai
dela é Nicky.” Embora bem morena, Glória ficou rubra, e todo o quarto explodiu
em uma grande gargalhada. Não é todo o dia, que uma garota recebe um convite do
homem dos seus sonhos para ser namorada dele, com quarenta colegas escutando
tudo. A conselheira ficou indignada, e deu-lhes três minutos para se
aprontarem para dormir. Glória, porém, passou a metade da noite com a cabeça
debaixo do travesseiro, tendo só a tênue luz da rua como iluminação,
escrevendo-me a sua primeira carta de amor. Esta ficou totalmente ilegível, mas
foi a carta mais esperada que eu já recebi.
Várias semanas depois, fui abordado por um dos professores,
Esteben Castilho, que pediu-me para ajudá-lo a iniciar uma obra evangelística
em S. Gabriel, perto da escola. Disse que alistara mais sete alunos para
trabalhar com ele nos fins de semana. Descobrira uma pequena capela que fora
fechada e abandonada. Os alunos deveriam sair aos sábados, e bater em todas as
portas da vizinhança, convidando o povo para os cultos na capela. Os alunos
ajudariam a lavar e preparar o pequeno edifício, e ensinariam na escola
dominical. O Professor Castilho seria o pregador e pastor.
Senti-me honrado com o convite, e fiquei muito emocionado
quando ele piscou um olho e me contou que Glória fora também convidada para
servir no comitê, junto comigo. “O senhor é um professor muito sábio, Sr.
Esteben”, disse-lhe sorrindo. “Creio que podemos fazer um bom trabalho para
Cristo com o excelente comitê que escolheu.”
“Quem sabe se depois que terminarem o trabalho sobrará
algum tempo para outras coisas importantes”, replicou ele.
Pude perceber que a notícia de que Glória concordara em ser
minha namorada já se espalhara. Fiquei muito grato àquele mestre sábio e
compreensivo, que nos ajudou a encontrar uma forma pela qual o nosso amor
pudesse desenvolver-se e desabrochar de maneira natural, orientada por Deus.
No mês seguinte, trabalhamos todos os sábados na pequena
capela, e saímos de casa em casa convidando o povo para os cultos de domingo.
Finalmente, eu e Glória tivemos oportunidade de passar um dia juntos. Víamos
um ao outro constantemente, mas sempre na companhia de outros. Naquele dia,
porém, pela primeira vez, teríamos três horas gloriosas só para nós. Glória
preparou um lanche de piquenique, e depois de uma atarefada manhã, convidando o
pessoal para os cultos, fomos a um pequeno
parque para comer e conversar.
Começamos a falar ao mesmo tempo — e depois rimos um para o
outro, embaraçados. “Você primeiro, Nicky.
Eu ouço”, disse
Glória.
Os minutos se fizeram horas, enquanto ficávamos ali
sentados, conversando. Estivera tão ansioso para contar minha vida a ela com
todos os detalhes. Falei interminavelmente, e ela ouviu com atenção, absorta,
com as costas apoiadas em uma grande árvore. De repente, caí em mim: só eu
estava falando, e ela só fizera ouvir.
“Desculpe, Glória, mas há tanta coisa no meu coração, e eu
quero que você saiba de tudo... todo o bem e todo o mal. Quero que saiba tudo o
que me aconteceu no passado. Perdoe-me por ter falado tanto. Fale você agora.
Conte-me o que está no seu coração.”
Ela começou, devagar a princípio, mas logo as palavras
começaram a fluir facilmente, e ela derramou o coração diante de mim. Depois,
retraiu-se e ficou em silêncio.
“O que foi, Glória? Continue.”
“Eu esfriei muito, Nicky. Compreendi isso quando voltei para
a escola e vi sua transformação. Você está diferente. Você não é tolo nem
inseguro, como era. Você cresceu, amadureceu, e tem grande espiritualidade.
Vejo em você uma vida que foi entregue ao Senhor. Nicky...” e os seus olhos se
encheram de lágrimas. “Eu-eu-eu quero isso para mim. Quero a paz, a segurança,
a certeza que você tem na sua vida. Eu me sinto seca, espiritualmente. Embora
Deus tenha me curado e mandado de volta à escola, espiritualmente sinto-me
fria. Procuro orar, mas nada acontece. Estou vazia. Morta. Desejo aquilo que
vejo em você.”
Ela baixou a cabeça e escondeu o rosto nas mãos.
Aproximei-me e coloquei desajeitadamente o braço ao redor dos seus ombros,
enquanto estávamos ali sob a ramada da árvore. Ela virou-se para mim e
enterrou a cabeça no meu peito. Os meus braços rodearam seu corpo trêmulo, e
alisei o seu cabelo com a mão. Glória voltou a face manchada de lágrimas em
direção à minha, e nossos lábios se encontraram em um longo e hesitante beijo
de amor.
“Eu amo você, Nicky.” As palavras derramaram-se da sua
boca, bem dentro do meu ouvido. “Eu o amo de todo o coração.”
Não nos mexemos de nossa posição, e ficamos sentados ali,
durante muito tempo, bem juntinhos, abraçados como duas videiras enlaçadas,
subindo em direção aos céus.
“Glória, quero casar-me com você. Sei disso há muito tempo.
Quero viver o resto da minha vida com você. Nada tenho a oferecer. Pequei muito,
mas Deus me perdoou. E se você acha que o seu coração também pode perdoar,
quero que seja minha esposa.”
Senti seus braços me enlaçarem ao redor da minha cintura, e
ela deitou a cabeça no meu ombro.
“Sim, querido. Sim. Se Deus o permitir, eu serei sua para
sempre.”
Ela levantou a cabeça, e nossos lábios se encontraram em
outro beijo. Deixei-me cair de costas, e puxei-a para mim. Ficamos deitados na
grama, os braços ao redor um do outro, em um apertado abraço.
Senti em minhas pernas uma sensação de queimadura, de
comichão. Deus estava perto, mas o passado ainda estava dentro de mim. Surgiu
na minha mente o pensamento de que aquela era uma das mais belas criaturas de
Deus. Estava eu para contaminá-la com desejos pecaminosos? A sensação de fogo
continuava a subir por minhas pernas. Tornou-se
mais aguda.
De repente, ergui-me de um salto, empurrando-a para trás.
Ela rolou na grama. “Nicky”, gritou “o que
foi?”
“Formigas”, gritei. “Milhões de formigas! Estou coberto
delas!”
Comecei a correr, batendo furiosamente nas pernas; chutei
fora os sapatos. Não adiantou. Minhas meias estavam cobertas de pequenos
demônios vermelhos. Eu as sentia andando às centenas pelas minhas pernas. Por
mais que batesse na calça, nada parecia interromper o seu ataque sem tréguas e
o seu avanço para cima. Glória me olhava de olhos arregalados, com ar
incrédulo, enquanto eu corria em círculo, dando tapas nas pernas e coçando-me.
“Vire-se! Vire-se!” gritei. “Olhe para o outro lado!
Depressa.” Ela virou-me as costas e olhou para o parque. Lutei freneticamente
com a fivela do meu cinturão, e soltei-a.
“Nicky...” começou ela, e fez menção de virar-se.
“Vire-se! Não olhe!” gritei, Ela compreendeu o que eu estava
fazendo, e virou-se, obedientemente.
Levei muito tempo para afastar todas as formigas. Algumas
tentavam penetrar debaixo da minha pele.
Tive que bater as calças numa árvore, para fazê-las cair. Finalmente, pude dizer a Glória que ela podia
virar-se.
Voltamos para a escola. Ela foi andando, e eu coxeando.
Tentei não perder a calma, pois ela estava rindo. Mas, palavra, que eu não
conseguia ver nada de engraçado naquilo.
Deixei-a defronte ao dormitório das moças, e fui direto para
meu quarto e para o chuveiro. De pé sob a água fria, e esfregando sabão nos
vergões vermelhos que cobriam minhas pernas, agradeci a Deus por Glória — e
pelo poder protetor do seu Espírito. “Senhor”, disse eu sob a cascata que se
derramava do chuveiro, “sei que ela é para mim. As formigas foram uma prova.
Louvo o teu nome por me teres provado, e peço que nunca mais precises
disciplinar-me de novo.”
No dia seguinte, domingo à noite, fui escalado para pregar
na missão de S. Gabriel. Senti o Espírito de Deus sobre mim, quando dei meu
testemunho para o pequeno grupo de gente humilde que viera ao culto. No fim do
culto, fiz o apelo. Observei Glória quando ela escorregou do seu assento, ao
fundo, ali naquela pequenina igreja, e veio à frente. Nossos olhos prenderam-se
num abraço, quando ela se ajoelhou diante do altar e curvou a cabeça em oração.
Ajoelhei-me ao lado dela, e o Sr. Castilho impôs as mãos sobre nós e orou.
Senti a mão de Glória apertar meu cotovelo, enquanto o Espírito de Deus enchia
seu coração. A mão de Deus estava sobre nós dois.
No Natal, fui para sua casa, em Oakland. Glória providenciara
para que eu ficasse com amigos, visto os pais dela não simpatizarem com seus
estudos no Instituto. Seu pastor, Rev. Sanchez, arranjou para eu falar em uma
pequena igreja onde os cultos eram feitos em espanhol, a Missão Betânia. Eu
passava os dias com Glória, e pregava à noite. Nada poderia ter me feito mais
feliz.
Na primavera do meu último ano, recebi outra carta de
Davi. Estava comprando uma grande casa
velha na Av. Clinton, para abrir um centro para adolescentes e viciados em
entorpecentes. Convidava-me para voltar a Nova York depois de receber o
diploma, e trabalhar no Centro Desafio Jovem.
Conversei àquele respeito com Glória. Parecia que o Senhor
estava nos forçando a aceitar os seus planos. Pensávamos ter de esperar mais um
ano, até que Glória terminasse o seu curso, antes de nos casarmos. Mas agora,
as portas estavam se abrindo, e parecia que Deus queria que eu voltasse para
Nova York. Eu sabia que não poderia voltar sem ela.
Escrevi a Davi, e disse-lhe que eu precisaria orar antes de
tomar uma decisão. Disse-lhe também que Glória e eu queríamos nos casar.
Respondeu que ficaria esperando minha decisão, e que Glória também seria
bem-vinda.
Resolvemos casar em novembro, e um mês depois chegamos a
Nova York, para aceitar o oferecimento de Davi, e começamos o nosso trabalho
no Centro Desafio Jovem.
A enorme e velha mansão de três andares, na Av. Clinton,
416, ficava no coração de um velho bairro residencial do Brooklin, a poucos
quarteirões do Conjunto Habitacional de Fort Greene. Naquele verão, alguns
estudantes tinham ido ali e tinham dado uma limpeza no edifício, a fim de
começar o ministério. Davi contratara os serviços de um jovem casal para morar
no casarão, como supervisores. Eles prepararam um pequeno apartamento para mim
e Glória em uma garagem, nos fundos da
casa.
Era muito pequeno e tosco. O chuveiro ficava do lado de
fora, pegado ao edifício principal, e a única cama era um sofá; mas para nós
era o céu. Nós nada tínhamos e de nada precisávamos. Tínhamos um ao outro, e
um desejo abrasador de servir a Deus a qualquer custo. Quando Davi começou a
desculpar-se por nossas acomodações pobres e pequenas, lembrei-lhe que servir
a Jesus nunca era sacrifício — mas uma honra.
Pouco antes do Natal, voltei a visitar a zona dos Mau-Maus.
Meu coração sentira o peso da responsabilidade por Hector Furacão, e queria
encontrá-lo e trabalhar com ele pessoalmente, agora que voltara para o
Brooklin para ficar. Encontrei um grupo de Mau-Maus na confeitaria, e
perguntei-lhes: “Onde está o Furacão?”
“Converse com Steve, o nosso presidente; ele contará o que
aconteceu”, disse um deles e os rapazes se entreolharam.
Eu temia a verdade, mas fui ao apartamento de Steve.
“O que aconteceu a Hector?” perguntei-lhe.
“Vamos descer para a rua, e eu lhe contarei. Não quero que a
minha velha escute.” Steve sacudiu a cabeça e olhou para a parede.
Descemos as escadas, e paramos no saguão do edifício, para
nos resguardar do vento frio, e Steve me contou a história. “Depois que falou
com você, naquela noite antes de sua volta para a Califórnia, ele ficou muito
impaciente. Nunca o vira daquele jeito. Tivemos um grande “quebra-pau” com os
Apaches, e ele portou-se como um selvagem, procurando matar todo mundo que
atravessasse seu caminho, até os Mau-Maus. E então, três meses depois ele levou
a dele.”
“Como foi que aconteceu?” perguntei, sentindo já a depressão
borbulhar em meu coração e pulmões, fazendo com que a minha respiração se tornasse
ofegante e curta. “Quem foi ?”
“Furacão, Gilbert, mais dois rapazes e eu, fomos matar um
Apache. Ele vivia sozinho no quinto andar de um prédio de apartamentos. Mais
tarde, descobrimos que aquele não era o cara, mas Furacão resolvera matar
aquele mesmo, e nós fomos com ele para ajudá-lo. Furacão estava com um
revólver. Batemos à porta do sujeito. Estava escuro, mas o careta era esperto.
Abrindo rapidamente a porta, viu Furacão com o revólver. Pulou para fora, para
o corredor, brandindo
uma baioneta de sessenta centímetros. Havia uma lâmpada
acesa, no teto, e ele a estourou com a baioneta. Não conseguíamos ver nada. Ele
estava como um louco, brandindo a baioneta. e dando golpes para todos os lados.
Furacão disparou o revólver três vezes, e depois ouvimos um grito terrível: “Ele
me matou! Ele me matou!” Não sabíamos quem era, e pensamos que Furacão matara o
Apache. Saímos correndo escada abaixo — cinco lances de degraus, e chegamos à
rua.”
Steve virou-se e olhou escada acima, em direção ao seu
apartamento, para ver se alguém estava procurando ouvir. “Vimos, então, que
Furacão não estava conosco. Gilbert saiu correndo e subiu as escadas, indo
encontrar Furacão em pé, encostado na parede, com aquela baioneta inteira
cravada nele. Gilbert disse que a ponta estava aparecendo nas costas. O Apache
voltara correndo para o quarto e trancara a porta. Hector estava com medo, e
chorava. Ele se apoiara à parede, com aquela enorme faca enterrada,
atravessando seu ventre, e implorava a Gilbert que não o deixasse morrer.
Disse que tinha medo de morrer. Gritou algo a respeito das batidas do relógio,
e depois caiu no corredor, sobre a baioneta, e morreu.”
Minha garganta estava seca, e minha língua parecia como se
eu tivesse enrolado algodão nela. Gaguejei: “Por que vocês o deixaram lá?”
“Porque estávamos todos amedrontados. Estávamos em pânico.
Nunca tínhamos visto ninguém morrer assim. Todos os rapazes se espalharam e
fugiram. A polícia foi lá, mas não conseguiu provar nada, e soltaram o Apache.
Ficamos muito chocados com tudo o que aconteceu.”
Virei-me para sair, e Steve me perguntou: “Nicky, o que você
acha que ele quis dizer sobre o
relógio?”
Balancei a cabeça “Não sei. Até mais tarde.”
Estava atordoado enquanto voltava à Av. Clinton. A cada
passo parecia ouvir as batidas do relógio da torre na Av. Flatbush e minha voz
dizendo a Hector Furacão: “É tarde, Hector, mas não demais. Mas, se você não
entregar seu coração a Cristo, eu nunca mais o verei.”
“Deus querido”, murmurei, “por favor, não me deixe afastar
outra vez de um amigo, sem tentar um pouquinho mais.”
Meu salário inicial era de dez dólares por semana, além de
quarto e comida. Dado o fato de que o pequeno apartamento na garagem não tinha
cozinha, tomávamos as refeições na casa grande. Glória e eu gostávamos muito de
comida espanhola apimentada. Mas no Centro, precisávamos comer alimento bem
equilibrado. Por isso, esbanjávamos a maior parte dos nossos dez dólares, todas
as semanas, em comida. Era o nosso único prazer extra na vida.
Começamos o trabalho nas ruas. Davi Wilkerson escrevera um
pequeno folheto que chamávamos “Folheto Galinha”. Continha mensagem para os jovens,
desafiando-os a aceitarem a Cristo, deixando de ser “covardes” (galinhas).
Distribuíamos aquele folheto aos milhares, nas ruas de Brooklin e de Harlem.
Ficou evidente, imediatamente, que a nossa obra mais importante
seria entre os viciados em entorpecentes. Muitos dos membros das quadrilhas,
que outrora se satisfaziam em fumar maconha e beber vinho, haviam começado a
fazer uso de heroína.
Nosso método era ousado. Aproximávamos de grupos de rapazes
que estavam parados nas esquinas, e entabulávamos conversa.
“Ei, meu chapa, quer largar o vício?”
“Sim, meu chapa, mas como?” respondiam eles invariavelmente.
“Venha ao Centro Desafio Jovem, na Av. Clinton. Nós vamos
orar por você. Cremos que Deus responde às orações. Você pode dar um pontapé no vício, pelo
poder de Deus.” Dávamos-lhes um exemplar do folheto “Galinha”.
“Puxa vida, só isso? Bem, talvez eu telefone para vocês, ou
apareça lá algum dia.” Foi um começo muito vagaroso. A maior parte do tempo
era gasta andando entre grupos de jovens que estavam pelas esquinas,
conversando. Os viciados não trabalham. Arranjam dinheiro em furtos, batendo
carteiras e pegando “otários” no conto do vigário, e outros “contos”. Eles
entram em apartamentos fechados, roubam os móveis e vendem. Roubam bolsas de
senhoras. Roubam roupas dos varais, leite das portas, de madrugada; enfim,
qualquer coisa disponível para obter dinheiro suficiente para alimentar o
vício. Por toda a parte em Williamsburg, há pequenas turmas de oito a dez pessoas
pelas esquinas, planejando roubos ou procurando descobrir como se livrar de
coisas roubadas.
Na época do Natal, tivemos o primeiro convertido no Centro.
Seu nome era Pedro. Fora um Mau-Mau. Era um rapaz alto, de
cor, que vivera com uma mulher casada. Um dia o marido dela encontrou-o em um
bar, e Pedro feriu-o com uma faca. O homem era membros dos Scorpions, uma gang
do outro lado da cidade, e Pedro ouviu falar que estavam atrás dele. Conheci-o
certa noite, ouvi sua história, e ofereci-lhe refúgio no Centro Desafio Jovem.
Ele aceitou de boa vontade. Três dias depois que se mudou para o Centro,
aceitou a Cristo, entregando sua vida ao Senhor.
Durante os três meses que se seguiram, vivemos e respiramos
Pedro. Glória e eu passamos o nosso primeiro Natal depois de casados, em nosso
pequeno apartamento de dois cômodos, tendo Pedro como nosso hóspede. Ele
tomava todas as refeições conosco. Ia conosco a todos os lugares aonde fôssemos.
Nos fins de semana, íamos de metrô a várias igrejas, para assistir cultos.
Pedro sempre ia conosco .
Uma noite, em março, fui dormir tarde, como de costume.
Glória já se havia aninhado em nosso sofá-cama, no quarto da frente. Pensei que
ela estivesse dormindo, e me despi silenciosamente, para não acordá-la.
Esgueirando-me para debaixo das cobertas, coloquei o braço em torno de seus
ombros, quando percebi que ela estava chorando. Senti seu corpo sacudindo-se
sob o meu braço, enquanto ela soluçava.
“Ei, menina, o que é que há ?”
Foi o bastante; as lágrimas vieram com soluços. Fiquei ao
seu lado, massageando-lhe as costas e confortando-a, até que ela se acalmou
suficientemente para podermos conversar. “O que há, Glória? Você não está se
sentindo bem, o que foi ?”
“Não é nada, Nicky. Você não entende, e nunca entenderá.”
“Entender o quê?” Estava confuso diante da sua atitude hostil.
“Aquele parasita!” Glória exclamou. “Aquele parasita do
Pedro! Será que ele não compreende que quero passar um pouco de tempo sozinha
com você ? Faz apenas quatro meses que estamos casados, e ele tem de ir
conosco a todos os lugares onde vamos ? Se no banheiro não coubesse só uma pessoa,
ele seria capaz de pedir para tomar banho conosco .”
“Ei, vamos”, acalmei-a, “nem parece que você é a minha
Glória. Devia sentir-se orgulhosa. Ele é o nosso primeiro convertido. Você
devia estar agradecendo a Deus.”
“Mas, Nicky, eu não quero partilhar você com outras pessoas,
o tempo todo. Eu me casei com você, e você é o meu marido. Pelo menos, devo
poder passar algum tempo com você sem ter aquele Pedro de dentes arreganhados
por perto, dizendo o tempo todo: Glória a Deus!”
“Você não está falando sério; está, Glória?”
“Nunca falei tão sério. Um de nós precisa ir embora. Ou você está casado comigo, ou você
vai dormir com Pedro. Estou falando
sério. Você não pode ter nós dois.”
“Ei, escute, querida. Se eu o mandar de volta para a rua,
ele voltará diretamente para a quadrilha, ou os Scorpions o matarão.
Precisamos conservá-lo aqui.”
“Bem, se ele voltar para a quadrilha, então há algo errado
com o seu Deus. Que espécie de Deus Pedro tem, afinal de contas? Um Deus que o
soltará no mundo, a primeira vez em que ele se encontrar em dificuldades ?
Não creio nisso. Creio que, se um homem tem uma experiência de conversão, Deus
é suficientemente grande para guardá-lo para sempre. E se formos obrigados a
bancar a ama-seca para todos esses rapazes que você está convidando a vir aqui,
eu não quero saber desse negócio.” A voz de Glória alterou-se enquanto ela
falava.
“Mas, Glória, ele é o meu primeiro convertido...”
“Talvez seja isto que está errado entre você e ele. Ele é o
seu convertido. Se fosse um convertido do Senhor, você não precisaria ficar tão
preocupado com o perigo dele voltar para a quadrilha.”
“Bem, pode ser que você esteja certa. Mas assim mesmo, temos
a obrigação de providenciar um lugar para ele ficar. E lembre-se, Glória, que
o Senhor me chamou para esta obra, e você concordou em vir comigo.”
“Mas, Nicky, o que eu não quero é partilhar você com os
outros, o tempo todo. Só isto.”
“Você não precisa me partilhar com ninguém agora. E amanhã
eu vou falar com Pedro, e ver se ele pode encontrar alguma coisa para fazer, em
vez de ficar atrás de nós o tempo todo. Certo?” Abracei-a carinhosamente.
“Certo”, murmurou ela, ao mesmo tempo que deitava a cabeça
no meu ombro e aconchegava-se a mim.
Sonny chegou no último dia de abril — junto com uma predição
de neve em maio. Era
o primeiro viciado em
entorpecentes com quem eu trabalharia .
Entrei na capela, aquela noite, e notei um rapaz de rosto
muito pálido, sentado num canto. Percebi logo que ele era viciado; dirigi-me a
ele e sentei ao seu lado. Passando o braço por sobre os seus ombros, comecei a
falar-lhe francamente. Ficou com a cabeça curvada, olhando para o chão,
enquanto eu falava.
“Sei que você é viciado... é um farrapo. Percebo que já está
“fisgado” há muito tempo, e que não é capaz de livrar-se do vício. Pensa que
ninguém se importa com você. Deixe-me dizer-lhe uma coisa, Deus se importa. Ele
pode ajudá-lo.”
O rapaz levantou a cabeça e olhou-me inexpressivamente.
Finalmente, disse que o seu nome era Sonny. Fiquei sabendo mais tarde que fora
criado em um lar religioso, mas fugira de casa e fora parar na cadeia vezes sem
conta, por uso de droga e por roubo. Teve de deixar o vício “na marra” nas
várias vezes que passou pela cadeia, mas ao sair, voltava aos entorpecentes.
Estava “fisgado” irremediavelmente.
Sonny era um viciado que tinha um meio singular de
conseguir dinheiro para alimentar seu vício. Seu companheiro saía correndo
pela rua, e arrebatava a bolsa de uma senhora. Quando ela começava a gritar,
Sonny aproximava-se dela e dizia: “Não grite, minha senhora. Conheço aquele
ladrão. Vou buscar sua bolsa. Espere aqui, que eu volto em um minuto.” A
senhora parava de gritar chamando a polícia, e enquanto ela ficava esperando,
Sonny saía correndo para juntar-se ao amigo e dividir o despojo.
Ajoelhado a seu lado, na capela, eu disse : “Quero orar por
você. Você precisa de Jesus em sua vida.” Senti uma onda de compaixão encher
meu coração, e comecei a chorar enquanto orava : “Senhor, ajuda este
rapaz. Ele está morrendo. Só
tu podes ajudá-lo. Ele precisa de esperança, de amor. Por misericórdia,
ajuda-o.”
Quando terminei, Sonny disse : “Preciso ir para casa.”
“Eu levo você.”
“Não”, respondeu com expressão de pânico no rosto. “Você não pode fazer isso.”
Eu sabia que ele estava dando um jeito de escapar para tomar
uma “picada”. Então, vamos ficar com você aqui”, disse eu.
“Não”, respondeu, “preciso ir ao tribunal amanhã cedo. Eles
vão me sentenciar a prisão. Nem sei mesmo por que estou aqui.”
“Você está aqui porque Deus o mandou”, disse eu. “Deus está
me usando para ajudá-lo. Fique conosco aqui no Centro esta noite; amanhã irei
ao tribunal com você.” Ele insistiu em ir para casa, e eu prometi encontrar-me
com ele às oito da manhã.
No dia seguinte, fui com ele ao tribunal. Quando estávamos
subindo os degraus do grande edifício, eu lhe disse: “Sonny, vou orar para que
Deus faça com que o juiz adie o seu julgamento por dois meses, para que você
possa deixar o vício e conhecer a Cristo. Depois disso, pode ser até que ele
absolva você.”
“Vai ser difícil. Aquele juiz sem-vergonha nunca adia nada.
Ele me porá na cadeia antes do meio-dia. Espere para ver.” Sorriu.
Parei nos degraus do tribunal e comecei a orar em voz alta: “Senhor,
eu te peço em nome de Jesus que mandes o teu Espírito Santo tocar aquele juiz,
fazendo com que adie o julgamento do caso de Sonny, para que ele possa
tornar-se crente. Muito obrigado por responderes à minha oração. Amém.”
Sonny olhou para mim como se eu estivesse louco. Tomei-o
pelo braço: “Vamos, vamos ouvir o juiz dizer que vai adiar o seu caso.”
Entramos na sala de audiência, e
Sonny apresentou-se ao oficial de
justiça. Depois, ficou junto aos outros
acusados, e eu me sentei no fundo da sala.
O juiz ouviu três casos, e sentenciou os rapazes a
prolongados períodos de prisão. O terceiro rapaz que foi julgado começou a
gritar quando o juiz pronunciou sua sentença. Trepou na mesa e tentou pegar o
juiz, gritando que ia matá-lo. Todos os que estavam na sala de audiência
ficaram de pé, enquanto os policiais derrubavam o rapaz e o algemavam. Quando
o arrastaram para fora, por uma porta lateral, ele gritava e dava pontapés, e
o juiz enxugou a testa e disse: “O seguinte.” Sonny pôs-se de pé nervosamente,
enquanto o magistrado folheava seu processo. Olhando por cima dos óculos,
finalmente ele disse : “Por alguma razão, sua investigação preliminar não está
completa. Quero que você se apresente de novo daqui a sessenta dias.”
Sonny virou-se e olhou para mim com os olhos cheios de
incredulidade. Sorri e fiz sinal para que ele viesse comigo. Tínhamos uma
tarefa difícil pela frente, e precisávamos iniciá-la.
Deixar a heroína “na marra” é uma das experiências mais
agonizantes que se pode imaginar. Preparei um quarto para Sonny no terceiro
andar do Centro. Eu sabia que seria necessária constante supervisão. Por isso,
avisei a Glória que passaria os três dias seguintes com Sonny. Arrumei uma
vitrola com discos evangélicos, e resolvi ficar sentado ao lado dele naquele
quarto, até que passasse pela prova.
No primeiro dia ele ficou desassossegado, andando pelo
quarto e falando rapidamente. Naquela noite ele começou a tremer. Fiquei
sentado a seu lado noite a dentro, enquanto terríveis crises de calafrio se
sucediam e seu corpo era violentamente sacudido, os dentes castanholavam,
chegando até a fazer vibrar o quarto todo. Às vezes ele conseguia escapar de
mim e corria para a porta, mas eu a trancara, e ele não podia sair.
Na madrugada do segundo dia, seu tremor diminuiu, e eu o
levei para baixo, para tomar um lanche. Sugeri que déssemos uma volta no
quarteirão. Nem bem havíamos saído do Centro, quando ele começou a vomitar.
Curvou-se sobre a calçada, apertando o estômago com ânsias de vômito. Levantei-o,
mas ele safou-se de mim e foi cambaleando até o meio da rua, onde caiu.
Arrastei-o de volta até a calçada, e segurei sua cabeça no meu colo, até que os
tremores passassem, e ele recuperasse as forças. Voltamos, então ao nosso
quarto no terceiro andar, para esperar e orar.
Quando a noite se aproximava, ele começou a gritar: “Nicky,
eu não consigo. Fui longe demais, não dá para largar o vício. Preciso de uma “picada.”
“Não, Sonny, vamos atravessar juntos esta prova. Deus lhe
dará forças para vencer.”
“Não quero força nenhuma. Quero uma “picada”. Preciso dela.
Por favor, por favor, Nicky. Não me segure aqui. Pelo amor de Deus, deixe-me
ir. Deixe-me ir.”
“Não, Sonny. Pelo amor de Deus eu não deixo você ir. Você é
precioso para ele. Ele quer usá-lo, mas não pode fazê-lo enquanto este demônio
possuir você. Pelo amor de Deus, vou segurá-lo aqui até que esteja bom de
novo.”
Sentei-me com ele, e passamos ali a noite inteira. Ele suou
frio e teve náuseas terríveis, a ponto de eu pensar que o seu estômago ia virar
pelo avesso. Banhei sua cabeça com toalhas molhadas, liguei a vitrola no
último volume, e cantei para ele, acompanhando os cantores dos discos.”
No dia seguinte eu estava morrendo em pé. Tentei outra vez
fazê-lo engolir algum alimento, mas devolveu tudo na mesma hora. Sentei-me ao
lado da sua cama, e orei até o por do sol.
Ele caiu num sono espasmódico, gemendo, sobressaltado, e
dando repelões. Duas vezes levantou-se agitadamente e tentou alcançar a porta.
Da última vez tive de agarrá-lo e arrastá-lo de volta para o leito.
Por volta de meia noite, sentado na cadeira ao lado da cama,
senti a nuvem negra do sono cair sobre mim. Tentei lutar para afastá-la, mas
havia quarenta e duas horas que eu não dormia. Sabia que se caísse no sono,
Sonny poderia escapar, e desaparecer. Estávamos perto da vitória, mas eu não
tinha mais forças, e senti meu queixo cair sobre o peito. “Talvez se fechar os
olhos só uns minutinhos...”
Acordei assustado. O brilho melancólico das lâmpadas da rua
refletiam-se no grande quarto simples do terceiro andar do prédio. Não pensava
que tivesse dormido mais do que alguns segundos, mas algo dentro de mim me
advertia de que dormira muito mais do que isso. Olhei para a cama de Sonny.
Estava vazia. Os cobertores estavam em desordem, e jogados de lado. Ele fora
embora!
Meu coração pulou para a garganta. Levantei-me de um pulo, e
saí em direção à porta, quando o vi ajoelhado no assoalho, ao lado da janela.
Senti uma onda de alívio, e me aproximei devagar da janela, ajoelhando-me nas
tábuas nuas, ao lado dele. Uma nevada primaveril caía suavemente, e refletia na
calçada a luz dos postes. A rua e a calçada confundiam-se debaixo de um só
tapete de um branco imaculado, e os ramos das árvores, perto da janela, com
seus minúsculos brotos delicados que começavam a surgir, brilhavam devido à
neve branca e fofa que os cobria. Cada floco macio reluzia individualmente,
quando flutuava diante da luz das lâmpadas, caindo ao chão. Faziam-me lembrar
de uma figura de cartão de Natal.
“É maravilhoso. É indescritível. Nunca vi coisa mais bela; e
você?” disse Sonny.
Eu olhava para ele. Seus olhos estavam claros, e a voz
firme. Sua face mostrava-se radiante; sua língua não estava grossa, nem sua
fala pastosa.
Ele sorriu para mim : “Deus é bom, Nicky. Ele é maravilhoso.
Esta noite ele me libertou de um destino pior do que o próprio inferno. Ele me
libertou da escravidão.”
Olhei para fora, admirei o quadro delicado de beleza pura
que estava diante de mim, e murmurei : “Obrigado, Senhor, obrigado.” E ouvi
Sonny murmurar : “Muito obrigado.”
Pela primeira vez deixei Sonny a sós, atravessei o pátio
coberto de neve fofa, em direção ao meu apartamento. Tinha a cabeça descoberta,
e a neve gélida, que caía tão mansamente, cobriu meu cabelo e rangia suavemente
debaixo dos meus pés, enquanto eu subia os degraus exteriores.
Bati de leve, e Glória abriu a porta. “Que horas são ?”
perguntou ela estremunhada.
“Quase três da manhã”, respondi. Encontramo-nos na soleira
da porta, e apertei-a amorosamente contra mim, enquanto observávamos a neve
suave e fofa amontoar-se silenciosamente no chão, cobrindo tudo o que era
escuro e feio com um lençol maravilhosamente branco, como a inocência.
“Sonny encontrou-se com Cristo”, disse eu. “Uma nova vida
nasceu para o reino.”
“Eu te agradeço, Jesus”, disse Glória de manso. Houve uma
longa pausa, e ficamos na soleira da porta, admirando o maravilhoso quadro
diante de nós. Então, senti o braço de Glória apertar minha cintura. “Sonny não
é a única nova vida que passou a existir. Não tenho tido tempo de falar com
você, porque tem estado tão ocupado nestes últimos três dias, mas há uma vida
nova em mim, também, Nicky. Vamos ter um nenê.”
Puxei-a para mim e estreitei-a junto ao meu peito, cheio de
amor e alegria. “Oh, Glória, eu amo você! Eu a amo muito, muito!” Suavemente,
curvei-me, passei os braços por trás dos joelhos dela, e vagarosamente
levantei-a no colo. Dei um pontapé na porta, que se fechou com um estalido,
mergulhando o quarto em completa escuridão. Carreguei-a para o sofá, e
coloquei-a carinhosamente na cama. Sentando-me ao lado dela, pousei a cabeça
suavemente no seu ventre macio, aconchegando-me ao máximo à nova vida
que estava ali dentro. Com as
mãos ela acariciou meu rosto e minha cabeça. A exaustão me dominou e caí num
sono profundo e sossegado.
Depois de sua conversão, Sonny levou-nos a conhecer o
escuro submundo da grande cidade, e introduziu-nos no reino dos viciados, das
prostitutas, e dos criminosos.
Glória e eu passamos muitas horas nas ruas, distribuindo
folhetos, e o número de pessoas que eram atendidas no Centro cresceu. Tínhamos
contudo, bem poucos adolescentes. A maioria era constituída de adultos.
Abrimos o terceiro andar para recolher as mulheres. Glória ajudava a cuidar das
moças, e eu trabalhava com os rapazes, embora como diretor estivesse encarregado dos dois grupos.
Davi mudara-se para uma casa em Staten Island, e vinha ao
Centro todos os dias, quando estava na cidade, para supervisionar o trabalho.
Compramos uma Kombi. Glória e um dos rapazes saíam duas
vezes por semana para apanhar membros de gangs e trazê-los ao Centro, para os
cultos.
Pedro alugou um apartamento em Jersey, e mudou-se, mas
Sonny ficou até setembro, quando viajou para La Puente, onde foi cursar o
Instituto Bíblico. Naquele mesmo verão, o apartamento do segundo andar do
Centro foi desocupado, e eu e Glória mudamo-nos para lá. O dormitório dos
homens ficava nos fundos do segundo andar. No primeiro, havia o escritório, a
cozinha, o refeitório e uma sala grande que usávamos como capela. Esperava que
depois que nos mudássemos para o casarão, isto ajudaria a diminuir a tensão que
Glória sentia. Não obstante, a necessidade de viver na mesma casa com quarenta
viciados em psicotrópicos não propiciava uma vida de calma e paz.
A tensão continuou. Glória e eu tínhamos bem poucos momentos
a sós, pois eu passava todas as horas disponíveis com os viciados. No outono de
1962, tive de fazer uma viagem de emergência a Porto Rico. Mamãe enviara um
cabograma a Frank. Papai morrera. Frank, Gene e eu voamos para Porto Rico com
nossas esposas, onde eu dirigi um culto, por ocasião do sepultamento do meu
pai. Eu retornava como pastor evangélico, e embora papai jamais tivesse aceitado
abertamente a Cristo como filho de Deus, realizei aquela cerimônia com a
certeza de que houvera uma transformação na sua vida, e que Deus, na sua
misericórdia, seria capaz de julgá-lo de acordo com o seu coração. O “Grande”
estava morto — mas as recordações de um pai que eu aprendera a amar, continuaram
vivendo no meu coração.
Alicia Ann nasceu em janeiro de 1963. Ajudou a preencher um
vazio na vida solitária de Glória, visto que agora ela possuía alguém com quem
repartir seu amor, durante os longos dias que passava sozinha. Eu ansiava por
ficar algumas horas com elas, mas o desejo dominante de ministrar aos farrapos
humanos viciados em entorpecentes, afastava-me do lar desde o alvorecer até a
meia-noite. Recomendei-lhe que não deixasse ninguém pegar o bebê, pois embora
eu amas-se os viciados, sabia que suas mentes severamente prejudicadas pelas
drogas eram capazes de qualquer coisa.
Mas nunca fiquei sabendo quantas noites Glória ficou
chorando sozinha até dormir, na solidão de nosso apartamento. Ela fora, sem
dúvida, a escolha certa de Deus para mim. Nenhuma outra mulher teria podido
agüentar uma vida daquelas.
