sábado, 24 de abril de 2021

Foge Nick Foge - 14 - Glória



Capítulo 14

GLÓRIA

O VERÃO PASSADO EM NOVA YORK trans­formou minha vida, meus pensamentos e meus pontos de vista. Voltei à Califórnia resolvido a pregar.
Não tinha encontrado, porém, a maior bênção, senão quando cheguei à escola em La Puente — Glória voltara ao Instituto Bíblico. Não sabia quanto sentira a sua falta, até o momento em que a encon­trei de novo.
A situação na escola continuava ainda impossí­vel. Tudo parecia conspirar para nos separar. Os regulamentos eram os mesmos de dois anos antes, quando havíamos sentido a mesma frustração. A conversa à mesa era limitada a frases como “passe o sal, por favor”, e os professores com olhos de águia observavam cada um dos nossos movimentos no pátio. Embora eu detestasse trabalhar na cozi­nha, comecei a apresentar-me como voluntário para serviços extra, lavando pratos, com o propósito de ficar perto de Glória. A cozinha barulhenta era tudo, menos reservada, mas descobri que podíamos manter uma conversa semi-reservada, contanto que esti­véssemos ambos curvados sobre a pia — eu com os braços enterrados até os cotovelos em água quente e sabão, e Glória enxaguando e enxugando.
À medida que os meses voavam, cheguei à con­clusão de que estava apaixonado por ela. Minhas notas continuavam a melhorar, e eu tinha um ape­tite de leão, em parte, estou certo, por causa do exercício extra junto à pia da cozinha; mas sentia-me frustrado porque não podia expressar-lhe o meu amor. Toda vez que tínhamos alguns minutos a sós, alguém nos interrompia. Procurava chegar mais cedo à sala de aulas, mas invariavelmente alguns estudantes entravam ali, justamente na hora em que eu tentava falar a sério com Glória. A frustração estava me pondo louco. Mesmo levando em conta minha origem latina, achava quase impossível sentir-me romântico diante de uma pia repleta de pratos gordurosos, em uma cozinha cheia de estudantes a cantar hinos.
Numa quinta-feira à noite, recebi permissão para ir à cidade. Parei na primeira cabina telefô­nica que encontrei, e disquei o número do dormi­tório de Glória. Quando a conselheira atendeu, co­loquei um lenço sobre o fone e, em voz de baixo profundo, pedi para falar com a Srta. Steffani. Houve uma pausa, e ouvi a conselheira cochichar para Glória: “Penso que é o seu pai.”
Glória deu uma risadinha, quando me ouviu ga­guejando do outro lado da linha. Estava frustrado e desesperado. “Preciso encontrar-me com você”, murmurei.
“Nicky, o que é que você está procurando dizer?” cochichou Glória, lembrando-se de que pensavam que ela estava falando com o pai.
Gaguejei e enrolei as palavras, mas os termos certos não me vinham à mente. Todas as minhas associações com garotas haviam sido em termos de gang, e eu realmente não sabia como conversar com uma moça tão pura e doce como Glória.
“Penso que se pudesse vê-la pessoalmente, po­deria expressar-me melhor”, disse eu. “Talvez seja melhor voltar para o meu quarto e parar de abor­recer você.”
“Nickyyy!” escutei-a gritar, “não ouse colocar o fone no gancho.”
Ouvi as outras moças do quarto rindo. Não obstante, Glória estava resolvida a forçar-me a falar.
“Psiu, elas vão ficar sabendo que sou eu”, respondi.
“Não me importa que fiquem sabendo. Agora diga-me o que você está procurando dizer.”
Fiz um tremendo esforço para encontrar as pa­lavras certas, e finalmente disse: “Estou pensando que seria maravilhoso se você aceitasse andar co­migo.” Eu confessara. Finalmente, tinha consegui­do. Fiquei de respiração suspensa, esperando a reação  dela.
“Andar com você? Que significa “andar” com você?” Glória estava gritando e dessa vez ouvi as moças rindo alto.
“Significa isso mesmo”, disse meio acanhado. Senti meu rosto queimar embora estivesse sozinho na cabine, a um quilômetro de distância. “Queria que você saísse comigo.”
Glória voltou a cochichar: “Você quer dizer que quer. que eu seja a sua namorada?”
“É isso mesmo o que quero dizer”, disse eu, ainda vermelho e tentando encolher-me dentro da cabine telefônica.
Percebi que ela encostou bem a boca no fone quando suspirou: “Sim, Nicky, seria maravilhoso. Tenho sentido que Deus nos vem aproximando com um propósito. Vou escrever um bilhete bem com­prido e passá-lo a você na hora do café, amanhã cedo.”
Depois de colocar o fone no gancho, fiquei pa­rado na cabine durante muito tempo. A noite es­tava quente, mas eu estava alagado de suor frio, e minhas mãos tremiam como varas verdes.
Mais tarde, fiquei sabendo que depois que Gló­ria pôs o fone no gancho, a conselheira olhou para ela, dizendo com uma voz severa: “Glória, por que o seu pai haveria de telefonar a esta hora da noite, e pedir para você sair com ele?”
Uma das garotas falou entre risadas: “Porque o nome do pai dela é Nicky.” Embora bem morena, Glória ficou rubra, e todo o quarto explodiu em uma grande gargalhada. Não é todo o dia, que uma garota recebe um convite do homem dos seus sonhos para ser namorada dele, com quarenta colegas escutando tudo. A conselhei­ra ficou indignada, e deu-lhes três minutos para se aprontarem para dormir. Glória, porém, passou a metade da noite com a cabeça debaixo do traves­seiro, tendo só a tênue luz da rua como iluminação, escrevendo-me a sua primeira carta de amor. Esta ficou totalmente ilegível, mas foi a carta mais espe­rada que eu já recebi.
Várias semanas depois, fui abordado por um dos professores, Esteben Castilho, que pediu-me para ajudá-lo a iniciar uma obra evangelística em S. Ga­briel, perto da escola. Disse que alistara mais sete alunos para trabalhar com ele nos fins de semana. Descobrira uma pequena capela que fora fechada e abandonada. Os alunos deveriam sair aos sábados, e bater em todas as portas da vizinhança, convi­dando o povo para os cultos na capela. Os alunos aju­dariam a lavar e preparar o pequeno edifício, e ensi­nariam na escola dominical. O Professor Castilho seria o pregador e pastor.
Senti-me honrado com o convite, e fiquei muito emocionado quando ele piscou um olho e me contou que Glória fora também convidada para servir no comitê, junto comigo. “O senhor é um professor muito sábio, Sr. Esteben”, disse-lhe sorrindo. “Creio que podemos fazer um bom trabalho para Cristo com o excelente comitê que escolheu.”
“Quem sabe se depois que terminarem o traba­lho sobrará algum tempo para outras coisas impor­tantes”, replicou ele.
Pude perceber que a notícia de que Glória con­cordara em ser minha namorada já se espalhara. Fiquei muito grato àquele mestre sábio e compreen­sivo, que nos ajudou a encontrar uma forma pela qual o nosso amor pudesse desenvolver-se e desabrochar de maneira natural, orientada por Deus.
No mês seguinte, trabalhamos todos os sábados na pequena capela, e saímos de casa em casa convi­dando o povo para os cultos de domingo. Final­mente, eu e Glória tivemos oportunidade de passar um dia juntos. Víamos um ao outro constantemen­te, mas sempre na companhia de outros. Naquele dia, porém, pela primeira vez, teríamos três horas gloriosas só para nós. Glória preparou um lanche de piquenique, e depois de uma atarefada manhã, convidando o pessoal para os cultos, fomos a um pequeno  parque para comer e conversar.
Começamos a falar ao mesmo tempo — e de­pois rimos um para o outro, embaraçados. “Você primeiro, Nicky.   Eu  ouço”,  disse  Glória.
Os minutos se fizeram horas, enquanto ficávamos ali sentados, conversando. Estivera tão ansioso para contar minha vida a ela com todos os detalhes. Falei interminavelmente, e ela ouviu com atenção, absorta, com as costas apoiadas em uma grande árvore. De repente, caí em mim: só eu estava fa­lando, e ela só fizera ouvir.
“Desculpe, Glória, mas há tanta coisa no meu coração, e eu quero que você saiba de tudo... todo o bem e todo o mal. Quero que saiba tudo o que me aconteceu no passado. Perdoe-me por ter fala­do tanto. Fale você agora. Conte-me o que está no seu coração.”
Ela começou, devagar a princípio, mas logo as palavras começaram a fluir facilmente, e ela derra­mou o coração diante de mim. Depois, retraiu-se e ficou em silêncio.
“O que foi, Glória? Continue.”
“Eu esfriei muito, Nicky. Compreendi isso quando voltei para a escola e vi sua transformação. Você está diferente. Você não é tolo nem inseguro, como era. Você cresceu, amadureceu, e tem grande espiritualidade. Vejo em você uma vida que foi en­tregue ao Senhor. Nicky...” e os seus olhos se encheram de lágrimas. “Eu-eu-eu quero isso para mim. Quero a paz, a segurança, a certeza que você tem na sua vida. Eu me sinto seca, espiritualmente. Embora Deus tenha me curado e mandado de volta à escola, espiritualmente sinto-me fria. Procuro orar, mas nada acontece. Estou vazia. Morta. De­sejo aquilo que vejo  em você.”
Ela baixou a cabeça e escondeu o rosto nas mãos. Aproximei-me e coloquei desajeitadamente o braço ao redor dos seus ombros, enquanto estáva­mos ali sob a ramada da árvore. Ela virou-se para mim e enterrou a cabeça no meu peito. Os meus braços rodearam seu corpo trêmulo, e alisei o seu cabelo com a mão. Glória voltou a face manchada de lágrimas em direção à minha, e nossos lábios se encontraram em um longo e hesitante beijo de amor.
“Eu amo você, Nicky.” As palavras derrama­ram-se da sua boca, bem dentro do meu ouvido. “Eu o amo de todo o coração.”
Não nos mexemos de nossa posição, e ficamos sentados ali, durante muito tempo, bem juntinhos, abraçados como duas videiras enlaçadas, subindo em direção aos céus.
“Glória, quero casar-me com você. Sei disso há muito tempo. Quero viver o resto da minha vida com você. Nada tenho a oferecer. Pequei muito, mas Deus me perdoou. E se você acha que o seu coração também pode perdoar, quero que seja minha esposa.”
Senti seus braços me enlaçarem ao redor da minha cintura, e ela deitou a cabeça no meu ombro.
“Sim, querido. Sim. Se Deus o permitir, eu serei sua para sempre.”
Ela levantou a cabeça, e nossos lábios se en­contraram em outro beijo. Deixei-me cair de costas, e puxei-a para mim. Ficamos deitados na grama, os braços ao redor um do outro, em um apertado abraço.
Senti em minhas pernas uma sensação de quei­madura, de comichão. Deus estava perto, mas o passado ainda estava dentro de mim. Surgiu na minha mente o pensamento de que aquela era uma das mais belas criaturas de Deus. Estava eu para contaminá-la com desejos pecaminosos? A sensação de fogo continuava a subir por minhas pernas. Tornou-se  mais aguda.
De repente, ergui-me de um salto, empurrando-a para trás. Ela rolou na grama. “Nicky”, gritou “o que   foi?”
“Formigas”, gritei. “Milhões de formigas! Estou coberto delas!”
Comecei a correr, batendo furiosamente nas pernas; chutei fora os sapatos. Não adiantou. Mi­nhas meias estavam cobertas de pequenos demônios vermelhos. Eu as sentia andando às centenas pelas minhas pernas. Por mais que batesse na calça, nada parecia interromper o seu ataque sem tréguas e o seu avanço para cima. Glória me olhava de olhos arregalados, com ar incrédulo, enquanto eu corria em círculo, dando tapas nas pernas e coçando-me.
“Vire-se! Vire-se!” gritei. “Olhe para o outro lado! Depressa.” Ela virou-me as costas e olhou para o parque. Lutei freneticamente com a fivela do meu cinturão, e soltei-a.
“Nicky...” começou ela, e fez menção de virar-se.
“Vire-se! Não olhe!” gritei, Ela compreendeu o que eu estava fazendo, e virou-se, obedientemente.
Levei muito tempo para afastar todas as for­migas. Algumas tentavam penetrar debaixo da minha pele.   Tive que bater as calças numa árvore, para fazê-las cair.   Finalmente, pude dizer a Glória que  ela podia  virar-se.
Voltamos para a escola. Ela foi andando, e eu coxeando. Tentei não perder a calma, pois ela es­tava rindo. Mas, palavra, que eu não conseguia ver nada  de engraçado  naquilo.
Deixei-a defronte ao dormitório das moças, e fui direto para meu quarto e para o chuveiro. De pé sob a água fria, e esfregando sabão nos vergões vermelhos que cobriam minhas pernas, agradeci a Deus por Glória — e pelo poder protetor do seu Espírito. “Senhor”, disse eu sob a cascata que se derramava do chuveiro, “sei que ela é para mim. As formigas foram uma prova. Louvo o teu nome por me teres provado, e peço que nunca mais pre­cises disciplinar-me  de novo.”
No dia seguinte, domingo à noite, fui escalado para pregar na missão de S. Gabriel. Senti o Espí­rito de Deus sobre mim, quando dei meu testemu­nho para o pequeno grupo de gente humilde que viera ao culto. No fim do culto, fiz o apelo. Obser­vei Glória quando ela escorregou do seu assento, ao fundo, ali naquela pequenina igreja, e veio à frente. Nossos olhos prenderam-se num abraço, quando ela se ajoelhou diante do altar e curvou a cabeça em oração. Ajoelhei-me ao lado dela, e o Sr. Castilho impôs as mãos sobre nós e orou. Senti a mão de Glória apertar meu cotovelo, enquanto o Espírito de Deus enchia seu coração. A mão de Deus estava sobre nós dois.
No Natal, fui para sua casa, em Oakland. Glória providenciara para que eu ficasse com amigos, visto os pais dela não simpatizarem com seus estudos no Instituto. Seu pastor, Rev. Sanchez, arranjou para eu falar em uma pequena igreja onde os cultos eram feitos em espanhol, a Missão Betânia. Eu passava os dias com Glória, e pregava à noite. Nada po­deria ter me feito mais feliz.
Na primavera do meu último ano, recebi outra carta de Davi.   Estava comprando uma grande casa velha na Av. Clinton, para abrir um centro para adolescentes e viciados em entorpecentes. Convida­va-me para voltar a Nova York depois de receber o diploma, e trabalhar no Centro Desafio Jovem.
Conversei àquele respeito com Glória. Parecia que o Senhor estava nos forçando a aceitar os seus planos. Pensávamos ter de esperar mais um ano, até que Glória terminasse o seu curso, antes de nos casarmos. Mas agora, as portas estavam se abrindo, e parecia que Deus queria que eu voltasse para Nova York. Eu sabia que não poderia voltar sem ela.
Escrevi a Davi, e disse-lhe que eu precisaria orar antes de tomar uma decisão. Disse-lhe também que Glória e eu queríamos nos casar. Respondeu que ficaria esperando minha decisão, e que Glória tam­bém  seria  bem-vinda.
Resolvemos casar em novembro, e um mês de­pois chegamos a Nova York, para aceitar o ofere­cimento de Davi, e começamos o nosso trabalho no Centro Desafio Jovem.
A enorme e velha mansão de três andares, na Av. Clinton, 416, ficava no coração de um velho bairro residencial do Brooklin, a poucos quarteirões do Conjunto Habitacional de Fort Greene. Naquele verão, alguns estudantes tinham ido ali e tinham da­do uma limpeza no edifício, a fim de começar o mi­nistério. Davi contratara os serviços de um jovem casal para morar no casarão, como supervisores. Eles prepararam um pequeno apartamento para mim e Glória em uma garagem, nos  fundos da casa.
Era muito pequeno e tosco. O chuveiro ficava do lado de fora, pegado ao edifício principal, e a única cama era um sofá; mas para nós era o céu. Nós nada tínhamos e de nada precisávamos. Tí­nhamos um ao outro, e um desejo abrasador de servir a Deus a qualquer custo. Quando Davi co­meçou a desculpar-se por nossas acomodações po­bres e pequenas, lembrei-lhe que servir a Jesus nunca era sacrifício — mas uma honra.
Pouco antes do Natal, voltei a visitar a zona dos Mau-Maus. Meu coração sentira o peso da res­ponsabilidade por Hector Furacão, e queria encon­trá-lo e trabalhar com ele pessoalmente, agora que voltara para o Brooklin para ficar. Encontrei um grupo de Mau-Maus na confeitaria, e perguntei-lhes: “Onde está o Furacão?”
“Converse com Steve, o nosso presidente; ele contará o que aconteceu”, disse um deles e os ra­pazes se entreolharam.
Eu temia a verdade, mas fui ao apartamento de Steve.
“O que aconteceu a Hector?” perguntei-lhe.
“Vamos descer para a rua, e eu lhe contarei. Não quero que a minha velha escute.” Steve sa­cudiu a cabeça e olhou para a parede.
Descemos as escadas, e paramos no saguão do edifício, para nos resguardar do vento frio, e Steve me contou a história. “Depois que falou com você, naquela noite antes de sua volta para a Califórnia, ele ficou muito impaciente. Nunca o vira daquele jeito. Tivemos um grande “quebra-pau” com os Apa­ches, e ele portou-se como um selvagem, procurando matar todo mundo que atravessasse seu caminho, até os Mau-Maus. E então, três meses depois ele le­vou a dele.”
“Como foi que aconteceu?” perguntei, sentindo já a depressão borbulhar em meu coração e pul­mões, fazendo com que a minha respiração se tor­nasse ofegante e curta. “Quem foi ?”
“Furacão, Gilbert, mais dois rapazes e eu, fomos matar um Apache. Ele vivia sozinho no quinto andar de um prédio de apartamentos. Mais tarde, descobrimos que aquele não era o cara, mas Fura­cão resolvera matar aquele mesmo, e nós fomos com ele para ajudá-lo. Furacão estava com um revólver. Batemos à porta do sujeito. Estava escuro, mas o careta era esperto. Abrindo rapidamente a porta, viu Furacão com o revólver. Pulou para fora, para o  corredor,   brandindo   uma   baioneta de  sessenta centímetros. Havia uma lâmpada acesa, no teto, e ele a estourou com a baioneta. Não conseguíamos ver nada. Ele estava como um louco, brandindo a baioneta. e dando golpes para todos os lados. Fu­racão disparou o revólver três vezes, e depois ouvi­mos um grito terrível: “Ele me matou! Ele me matou!” Não sabíamos quem era, e pensamos que Furacão matara o Apache. Saímos correndo escada abaixo — cinco lances de degraus, e chegamos à rua.”
Steve virou-se e olhou escada acima, em direção ao seu apartamento, para ver se alguém estava pro­curando ouvir. “Vimos, então, que Furacão não es­tava conosco. Gilbert saiu correndo e subiu as es­cadas, indo encontrar Furacão em pé, encostado na parede, com aquela baioneta inteira cravada nele. Gilbert disse que a ponta estava aparecendo nas costas. O Apache voltara correndo para o quarto e trancara a porta. Hector estava com medo, e chorava. Ele se apoiara à parede, com aquela enor­me faca enterrada, atravessando seu ventre, e im­plorava a Gilbert que não o deixasse morrer. Disse que tinha medo de morrer. Gritou algo a respeito das batidas do relógio, e depois caiu no corredor, sobre a baioneta, e morreu.”
Minha garganta estava seca, e minha língua pa­recia como se eu tivesse enrolado algodão nela. Gaguejei: “Por que vocês o deixaram lá?”
“Porque estávamos todos amedrontados. Está­vamos em pânico. Nunca tínhamos visto ninguém morrer assim. Todos os rapazes se espalharam e fugiram. A polícia foi lá, mas não conseguiu provar nada, e soltaram o Apache. Ficamos muito choca­dos com tudo o que aconteceu.”
Virei-me para sair, e Steve me perguntou: “Nicky, o que você acha que ele quis dizer sobre o   relógio?”
Balancei a cabeça “Não sei. Até mais tarde.”
Estava atordoado enquanto voltava à Av. Clinton. A cada passo parecia ouvir as batidas do re­lógio da torre na Av. Flatbush e minha voz dizendo a Hector Furacão: “É tarde, Hector, mas não de­mais. Mas, se você não entregar seu coração a Cristo, eu nunca mais o verei.”
“Deus querido”, murmurei, “por favor, não me deixe afastar outra vez de um amigo, sem tentar um pouquinho mais.”
Meu salário inicial era de dez dólares por se­mana, além de quarto e comida. Dado o fato de que o pequeno apartamento na garagem não tinha cozinha, tomávamos as refeições na casa grande. Glória e eu gostávamos muito de comida espanhola apimentada. Mas no Centro, precisávamos comer alimento bem equilibrado. Por isso, esbanjávamos a maior parte dos nossos dez dólares, todas as se­manas, em comida. Era o nosso único prazer extra na vida.
Começamos o trabalho nas ruas. Davi Wilkerson escrevera um pequeno folheto que chamávamos “Folheto Galinha”. Continha mensagem para os jo­vens, desafiando-os a aceitarem a Cristo, deixando de ser “covardes” (galinhas). Distribuíamos aquele folheto aos milhares, nas ruas de Brooklin e de Harlem.
Ficou evidente, imediatamente, que a nossa obra mais importante seria entre os viciados em entor­pecentes. Muitos dos membros das quadrilhas, que outrora se satisfaziam em fumar maconha e beber vinho, haviam começado a fazer uso de heroína.
Nosso método era ousado. Aproximávamos de grupos de rapazes que estavam parados nas esqui­nas, e entabulávamos conversa.
“Ei, meu chapa, quer largar o vício?”
“Sim, meu chapa, mas como?” respondiam eles invariavelmente.
“Venha ao Centro Desafio Jovem, na Av. Clinton. Nós vamos orar por você. Cremos que Deus res­ponde às orações.   Você pode dar um pontapé no vício, pelo poder de Deus.” Dávamos-lhes um exem­plar do folheto “Galinha”.
“Puxa vida, só isso? Bem, talvez eu telefone para vocês, ou apareça lá algum dia.” Foi um co­meço muito vagaroso. A maior parte do tempo era gasta andando entre grupos de jovens que estavam pelas esquinas, conversando. Os viciados não tra­balham. Arranjam dinheiro em furtos, batendo car­teiras e pegando “otários” no conto do vigário, e outros “contos”. Eles entram em apartamentos fechados, roubam os móveis e vendem. Roubam bolsas de senhoras. Roubam roupas dos varais, leite das portas, de madrugada; enfim, qualquer coisa disponível para obter dinheiro suficiente para alimentar o vício. Por toda a parte em Williamsburg, há pequenas turmas de oito a dez pessoas pelas esquinas, planejando roubos ou procurando descobrir como se livrar de coisas roubadas.
Na época do Natal, tivemos o primeiro conver­tido no Centro.
Seu nome era Pedro. Fora um Mau-Mau. Era um rapaz alto, de cor, que vivera com uma mulher casada. Um dia o marido dela encontrou-o em um bar, e Pedro feriu-o com uma faca. O homem era membros dos Scorpions, uma gang do outro lado da cidade, e Pedro ouviu falar que estavam atrás dele. Conheci-o certa noite, ouvi sua história, e ofe­reci-lhe refúgio no Centro Desafio Jovem. Ele aceitou de boa vontade. Três dias depois que se mudou para o Centro, aceitou a Cristo, entregando sua vida ao Senhor.
Durante os três meses que se seguiram, vivemos e respiramos Pedro. Glória e eu passamos o nosso primeiro Natal depois de casados, em nosso peque­no apartamento de dois cômodos, tendo Pedro como nosso hóspede. Ele tomava todas as refeições co­nosco. Ia conosco a todos os lugares aonde fôsse­mos. Nos fins de semana, íamos de metrô a várias igrejas, para assistir cultos. Pedro sempre ia co­nosco .
Uma noite, em março, fui dormir tarde, como de costume. Glória já se havia aninhado em nosso sofá-cama, no quarto da frente. Pensei que ela es­tivesse dormindo, e me despi silenciosamente, para não acordá-la. Esgueirando-me para debaixo das cobertas, coloquei o braço em torno de seus ombros, quando percebi que ela estava chorando. Senti seu corpo sacudindo-se sob o meu braço, enquanto ela soluçava.
“Ei, menina, o que é que há ?”
Foi o bastante; as lágrimas vieram com solu­ços. Fiquei ao seu lado, massageando-lhe as costas e confortando-a, até que ela se acalmou suficientemen­te para podermos conversar. “O que há, Glória? Você não está se sentindo bem, o que foi ?”
“Não é nada, Nicky. Você não entende, e nunca entenderá.”
“Entender o quê?” Estava confuso diante da sua  atitude hostil.
“Aquele parasita!” Glória exclamou. “Aquele parasita do Pedro! Será que ele não compreende que quero passar um pouco de tempo sozinha com você ? Faz apenas quatro meses que estamos casa­dos, e ele tem de ir conosco a todos os lugares onde vamos ? Se no banheiro não coubesse só uma pes­soa, ele seria capaz de pedir para tomar banho co­nosco .”
“Ei, vamos”, acalmei-a, “nem parece que você é a minha Glória. Devia sentir-se orgulhosa. Ele é o nosso primeiro convertido. Você devia estar agra­decendo a Deus.”
“Mas, Nicky, eu não quero partilhar você com outras pessoas, o tempo todo. Eu me casei com você, e você é o meu marido. Pelo menos, devo poder passar algum tempo com você sem ter aque­le Pedro de dentes arreganhados por perto, dizendo o tempo todo: Glória a Deus!”
“Você não está falando sério;  está, Glória?”
“Nunca falei tão sério. Um de nós precisa ir embora.  Ou você está casado comigo,  ou você  vai dormir  com Pedro.  Estou falando  sério. Você não pode ter nós dois.”
“Ei, escute, querida. Se eu o mandar de volta para a rua, ele voltará diretamente para a quadri­lha, ou os Scorpions o matarão. Precisamos con­servá-lo aqui.”
“Bem, se ele voltar para a quadrilha, então há algo errado com o seu Deus. Que espécie de Deus Pedro tem, afinal de contas? Um Deus que o sol­tará no mundo, a primeira vez em que ele se en­contrar em dificuldades ? Não creio nisso. Creio que, se um homem tem uma experiência de conversão, Deus é suficientemente grande para guardá-lo para sempre. E se formos obrigados a bancar a ama-seca para todos esses rapazes que você está convidando a vir aqui, eu não quero saber desse negócio.” A voz de Glória alterou-se enquanto ela falava.
“Mas, Glória, ele é o meu primeiro convertido...”
“Talvez seja isto que está errado entre você e ele. Ele é o seu convertido. Se fosse um convertido do Senhor, você não precisaria ficar tão preocupado com o perigo dele voltar para a quadrilha.”
“Bem, pode ser que você esteja certa. Mas assim mesmo, temos a obrigação de providenciar um lu­gar para ele ficar. E lembre-se, Glória, que o Senhor me chamou para esta obra, e você concordou em vir comigo.”
“Mas, Nicky, o que eu não quero é partilhar você com os outros, o tempo todo. Só isto.”
“Você não precisa me partilhar com ninguém agora. E amanhã eu vou falar com Pedro, e ver se ele pode encontrar alguma coisa para fazer, em vez de ficar atrás de nós o tempo todo. Certo?” Abracei-a carinhosamente.
“Certo”, murmurou ela, ao mesmo tempo que deitava a cabeça no meu ombro e aconchegava-se a mim.
Sonny chegou no último dia de abril — junto com uma predição de neve  em maio.  Era  o  primeiro viciado em entorpecentes com quem eu tra­balharia .
Entrei na capela, aquela noite, e notei um rapaz de rosto muito pálido, sentado num canto. Percebi logo que ele era viciado; dirigi-me a ele e sentei ao seu lado. Passando o braço por sobre os seus om­bros, comecei a falar-lhe francamente. Ficou com a cabeça curvada, olhando para o chão, enquanto eu falava.
“Sei que você é viciado... é um farrapo. Percebo que já está “fisgado” há muito tempo, e que não é capaz de livrar-se do vício. Pensa que ninguém se importa com você. Deixe-me dizer-lhe uma coisa, Deus se importa. Ele pode ajudá-lo.”
O rapaz levantou a cabeça e olhou-me inexpressivamente. Finalmente, disse que o seu nome era Sonny. Fiquei sabendo mais tarde que fora criado em um lar religioso, mas fugira de casa e fora parar na cadeia vezes sem conta, por uso de droga e por roubo. Teve de deixar o vício “na marra” nas várias vezes que passou pela cadeia, mas ao sair, voltava aos entorpecentes. Estava “fisgado” irremediavelmen­te.
Sonny era um viciado que tinha um meio sin­gular de conseguir dinheiro para alimentar seu ví­cio. Seu companheiro saía correndo pela rua, e ar­rebatava a bolsa de uma senhora. Quando ela co­meçava a gritar, Sonny aproximava-se dela e dizia: “Não grite, minha senhora. Conheço aquele ladrão. Vou buscar sua bolsa. Espere aqui, que eu volto em um minuto.” A senhora parava de gritar cha­mando a polícia, e enquanto ela ficava esperando, Sonny saía correndo para juntar-se ao amigo e di­vidir o despojo.
Ajoelhado a seu lado, na capela, eu disse : “Que­ro orar por você. Você precisa de Jesus em sua vida.” Senti uma onda de compaixão encher meu coração, e comecei a chorar enquanto orava : “Se­nhor, ajuda este rapaz.  Ele está  morrendo. Só  tu podes ajudá-lo. Ele precisa de esperança, de amor. Por misericórdia, ajuda-o.”
Quando terminei, Sonny disse : “Preciso ir para casa.”
“Eu levo você.”
“Não”, respondeu com expressão de pânico no rosto.  “Você não pode fazer isso.”
Eu sabia que ele estava dando um jeito de escapar para tomar uma “picada”. Então, vamos ficar com você aqui”, disse eu.
“Não”, respondeu, “preciso ir ao tribunal amanhã cedo. Eles vão me sentenciar a prisão. Nem sei mes­mo por que estou aqui.”
“Você está aqui porque Deus o mandou”, disse eu. “Deus está me usando para ajudá-lo. Fique co­nosco aqui no Centro esta noite; amanhã irei ao tribunal com você.” Ele insistiu em ir para casa, e eu prometi encontrar-me com ele às oito da ma­nhã.
No dia seguinte, fui com ele ao tribunal. Quan­do estávamos subindo os degraus do grande edifí­cio, eu lhe disse: “Sonny, vou orar para que Deus faça com que o juiz adie o seu julgamento por dois meses, para que você possa deixar o vício e co­nhecer a Cristo. Depois disso, pode ser até que ele absolva você.”
“Vai ser difícil. Aquele juiz sem-vergonha nunca adia nada. Ele me porá na cadeia antes do meio-dia. Espere para ver.” Sorriu.
Parei nos degraus do tribunal e comecei a orar em voz alta: “Senhor, eu te peço em nome de Jesus que mandes o teu Espírito Santo tocar aquele juiz, fazendo com que adie o julgamento do caso de Son­ny, para que ele possa tornar-se crente. Muito obri­gado por responderes à minha oração. Amém.”
Sonny olhou para mim como se eu estivesse louco. Tomei-o pelo braço: “Vamos, vamos ouvir o juiz dizer que vai adiar o seu caso.”
Entramos na sala de audiência, e Sonny apre­sentou-se ao oficial  de justiça.  Depois, ficou junto aos outros acusados, e eu me sentei no fundo da sala.
O juiz ouviu três casos, e sentenciou os rapazes a prolongados períodos de prisão. O terceiro rapaz que foi julgado começou a gritar quando o juiz pronunciou sua sentença. Trepou na mesa e tentou pegar o juiz, gritando que ia matá-lo. Todos os que estavam na sala de audiência ficaram de pé, enquan­to os policiais derrubavam o rapaz e o algemavam. Quando o arrastaram para fora, por uma porta la­teral, ele gritava e dava pontapés, e o juiz enxugou a testa e disse: “O seguinte.” Sonny pôs-se de pé nervosamente, enquanto o magistrado folheava seu processo. Olhando por cima dos óculos, finalmente ele disse : “Por alguma razão, sua investigação pre­liminar não está completa. Quero que você se apre­sente de novo daqui a sessenta dias.”
Sonny virou-se e olhou para mim com os olhos cheios de incredulidade. Sorri e fiz sinal para que ele viesse comigo. Tínhamos uma tarefa difícil pela frente, e precisávamos iniciá-la.
Deixar a heroína “na marra” é uma das expe­riências mais agonizantes que se pode imaginar. Pre­parei um quarto para Sonny no terceiro andar do Centro. Eu sabia que seria necessária constante su­pervisão. Por isso, avisei a Glória que passaria os três dias seguintes com Sonny. Arrumei uma vitro­la com discos evangélicos, e resolvi ficar sentado ao lado dele naquele quarto, até que passasse pela prova.
No primeiro dia ele ficou desassossegado, an­dando pelo quarto e falando rapidamente. Naquela noite ele começou a tremer. Fiquei sentado a seu lado noite a dentro, enquanto terríveis crises de ca­lafrio se sucediam e seu corpo era violentamente sacudido, os dentes castanholavam, chegando até a fazer vibrar o quarto todo. Às vezes ele conseguia escapar de mim e corria para a porta, mas eu a tran­cara, e ele não podia sair.
Na madrugada do segundo dia, seu tremor di­minuiu, e eu o levei para baixo, para tomar um lanche. Sugeri que déssemos uma volta no quartei­rão. Nem bem havíamos saído do Centro, quando ele começou a vomitar. Curvou-se sobre a calçada, apertando o estômago com ânsias de vômito. Le­vantei-o, mas ele safou-se de mim e foi cambalean­do até o meio da rua, onde caiu. Arrastei-o de volta até a calçada, e segurei sua cabeça no meu colo, até que os tremores passassem, e ele recuperasse as for­ças. Voltamos, então ao nosso quarto no terceiro an­dar, para esperar e orar.
Quando a noite se aproximava, ele começou a gritar: “Nicky, eu não consigo. Fui longe demais, não dá para largar o vício. Preciso de uma “picada.”
“Não, Sonny, vamos atravessar juntos esta prova. Deus lhe dará forças para vencer.”
“Não quero força nenhuma. Quero uma “picada”. Preciso dela. Por favor, por favor, Nicky. Não me segure aqui. Pelo amor de Deus, deixe-me ir. Deixe-me ir.”
“Não, Sonny. Pelo amor de Deus eu não deixo você ir. Você é precioso para ele. Ele quer usá-lo, mas não pode fazê-lo enquanto este demônio pos­suir você. Pelo amor de Deus, vou segurá-lo aqui até que esteja bom de novo.”
Sentei-me com ele, e passamos ali a noite in­teira. Ele suou frio e teve náuseas terríveis, a ponto de eu pensar que o seu estômago ia virar pelo aves­so. Banhei sua cabeça com toalhas molhadas, liguei a vitrola no último volume, e cantei para ele, acom­panhando os cantores dos discos.”
No dia seguinte eu estava morrendo em pé. Tentei outra vez fazê-lo engolir algum alimento, mas devolveu tudo na mesma hora. Sentei-me ao lado da sua cama, e orei até o por do sol.
Ele caiu num sono espasmódico, gemendo, so­bressaltado, e dando repelões. Duas vezes levantou-se agitadamente e tentou alcançar a porta. Da última vez tive de agarrá-lo e arrastá-lo de volta para o leito.
Por volta de meia noite, sentado na cadeira ao lado da cama, senti a nuvem negra do sono cair so­bre mim. Tentei lutar para afastá-la, mas havia qua­renta e duas horas que eu não dormia. Sabia que se caísse no sono, Sonny poderia escapar, e desapa­recer. Estávamos perto da vitória, mas eu não tinha mais forças, e senti meu queixo cair sobre o peito. “Talvez se fechar os olhos só uns minutinhos...”
Acordei assustado. O brilho melancólico das lâm­padas da rua refletiam-se no grande quarto simples do terceiro andar do prédio. Não pensava que tives­se dormido mais do que alguns segundos, mas algo dentro de mim me advertia de que dormira muito mais do que isso. Olhei para a cama de Sonny. Esta­va vazia. Os cobertores estavam em desordem, e jo­gados de lado. Ele fora embora!
Meu coração pulou para a garganta. Levantei-me de um pulo, e saí em direção à porta, quando o vi ajoelhado no assoalho, ao lado da janela. Senti uma onda de alívio, e me aproximei devagar da janela, ajoelhando-me nas tábuas nuas, ao lado dele. Uma nevada primaveril caía suavemente, e refletia na cal­çada a luz dos postes. A rua e a calçada confun­diam-se debaixo de um só tapete de um branco ima­culado, e os ramos das árvores, perto da janela, com seus minúsculos brotos delicados que come­çavam a surgir, brilhavam devido à neve branca e fofa que os cobria. Cada floco macio reluzia indivi­dualmente, quando flutuava diante da luz das lâm­padas, caindo ao chão. Faziam-me lembrar de uma figura de cartão de Natal.
“É maravilhoso. É indescritível. Nunca vi coisa mais bela; e você?” disse Sonny.
Eu olhava para ele. Seus olhos estavam claros, e a voz firme. Sua face mostrava-se radiante; sua língua não estava grossa, nem sua fala pastosa.
Ele sorriu para mim : “Deus é bom, Nicky. Ele é maravilhoso. Esta noite ele me libertou de um destino pior do que o próprio inferno. Ele me liber­tou da escravidão.”
Olhei para fora, admirei o quadro delicado de beleza pura que estava diante de mim, e murmu­rei : “Obrigado, Senhor, obrigado.” E ouvi Sonny murmurar : “Muito obrigado.”
Pela primeira vez deixei Sonny a sós, atravessei o pátio coberto de neve fofa, em direção ao meu apartamento. Tinha a cabeça descoberta, e a neve gélida, que caía tão mansamente, cobriu meu cabelo e rangia suavemente debaixo dos meus pés, enquan­to eu subia os degraus exteriores.
Bati de leve, e Glória abriu a porta. “Que horas são ?” perguntou ela estremunhada.
“Quase três da manhã”, respondi. Encontramo-nos na soleira da porta, e apertei-a amorosamente contra mim, enquanto observávamos a neve suave e fofa amontoar-se silenciosamente no chão, cobrin­do tudo o que era escuro e feio com um lençol ma­ravilhosamente branco, como a inocência.
“Sonny encontrou-se com Cristo”, disse eu. “Uma nova vida nasceu para o reino.”
“Eu te agradeço, Jesus”, disse Glória de manso. Houve uma longa pausa, e ficamos na soleira da porta, admirando o maravilhoso quadro diante de nós. Então, senti o braço de Glória apertar minha cintura. “Sonny não é a única nova vida que pas­sou a existir. Não tenho tido tempo de falar com você, porque tem estado tão ocupado nestes últimos três dias, mas há uma vida nova em mim, também, Nicky. Vamos ter um nenê.”
Puxei-a para mim e estreitei-a junto ao meu peito, cheio de amor e alegria. “Oh, Glória, eu amo você! Eu a amo muito, muito!” Suavemente, cur­vei-me, passei os braços por trás dos joelhos dela, e vagarosamente levantei-a no colo. Dei um pontapé na porta, que se fechou com um estalido, mergu­lhando o quarto em completa escuridão. Carreguei-a para o sofá, e coloquei-a carinhosamente na cama. Sentando-me ao lado dela, pousei a cabeça suave­mente no seu ventre macio, aconchegando-me ao má­ximo à  nova vida  que  estava ali dentro. Com as mãos ela acariciou meu rosto e minha cabeça. A exaustão me dominou e caí num sono profundo e sossegado.
Depois de sua conversão, Sonny levou-nos a co­nhecer o escuro submundo da grande cidade, e in­troduziu-nos no reino dos viciados, das prostitutas, e dos criminosos.
Glória e eu passamos muitas horas nas ruas, distribuindo folhetos, e o número de pessoas que eram atendidas no Centro cresceu. Tínhamos con­tudo, bem poucos adolescentes. A maioria era cons­tituída de adultos. Abrimos o terceiro andar para recolher as mulheres. Glória ajudava a cuidar das moças, e eu trabalhava com os rapazes, embora co­mo diretor estivesse  encarregado dos dois  grupos.
Davi mudara-se para uma casa em Staten Island, e vinha ao Centro todos os dias, quando estava na cidade, para supervisionar o trabalho.
Compramos uma Kombi. Glória e um dos ra­pazes saíam duas vezes por semana para apanhar membros de gangs e trazê-los ao Centro, para os cultos.
Pedro alugou um apartamento em Jersey, e mu­dou-se, mas Sonny ficou até setembro, quando viajou para La Puente, onde foi cursar o Instituto Bíblico. Naquele mesmo verão, o apartamento do segundo andar do Centro foi desocupado, e eu e Glória mu­damo-nos para lá. O dormitório dos homens ficava nos fundos do segundo andar. No primeiro, havia o escritório, a cozinha, o refeitório e uma sala grande que usávamos como capela. Esperava que depois que nos mudássemos para o casarão, isto ajudaria a diminuir a tensão que Glória sentia. Não obstante, a necessidade de viver na mesma casa com quaren­ta viciados em psicotrópicos não propiciava uma vida de  calma e paz.
A tensão continuou. Glória e eu tínhamos bem poucos momentos a sós, pois eu passava todas as horas disponíveis com os viciados. No outono de 1962, tive de fazer uma viagem de emergência a Porto Rico. Mamãe enviara um cabograma a Frank. Papai morrera. Frank, Gene e eu voamos para Porto Rico com nossas esposas, onde eu dirigi um culto, por oca­sião do sepultamento do meu pai. Eu retornava como pastor evangélico, e embora papai jamais tivesse acei­tado abertamente a Cristo como filho de Deus, reali­zei aquela cerimônia com a certeza de que houvera uma transformação na sua vida, e que Deus, na sua misericórdia, seria capaz de julgá-lo de acordo com o seu coração. O “Grande” estava morto — mas as re­cordações de um pai que eu aprendera a amar, con­tinuaram vivendo no meu coração.
Alicia Ann nasceu em janeiro de 1963. Ajudou a preencher um vazio na vida solitária de Glória, visto que agora ela possuía alguém com quem repartir seu amor, durante os longos dias que passava sozinha. Eu ansiava por ficar algumas horas com elas, mas o desejo dominante de ministrar aos farrapos humanos viciados em entorpecentes, afastava-me do lar desde o alvorecer até a meia-noite. Recomendei-lhe que não deixasse ninguém pegar o bebê, pois embora eu amas-se os viciados, sabia que suas mentes severamente prejudicadas pelas drogas eram capazes de qualquer coisa.
Mas nunca fiquei sabendo quantas noites Glória ficou chorando sozinha até dormir, na solidão de nos­so apartamento. Ela fora, sem dúvida, a escolha certa de Deus para mim. Nenhuma outra mulher teria po­dido agüentar uma vida daquelas.