Dois dias após a sua morte, a contagem, na hora da chamada,
revelou a falta de uma prisioneira. Os outros alojamentos foram dispensados,
mas o 28 permaneceu em formação, olhos à frente. O alto-falante deu um
estalido, e ouviu-se uma voz anunciar que uma mulher estava faltando: o
alojamento todo ficaria de pé ali na Lagerstrasse até que ela fosse
encontrada. Esquerda, direita, esquerda, direita - num marca-passo interminável
para afugentar o frio das pernas cansadas.
O sol surgiu, um sol desmaiado de inverno, que mal dava
para aquecer a gente. Olhei para baixo: minhas pernas e tornozelos estavam
inchando grotescamente. Pelo meio-dia, já estava entorpecida. Como você é feliz
hoje, Betsie! Nem frio, nem fome, nada separa você de Jesus agora!
A ordem para dispersar veio somente à tarde. Viemos a
saber depois que a mulher fora encontrada morta em uma das plataformas
superiores.
Na manhã seguinte, durante a chamada, ouvi meu nome pelo
alto-falante: "Cornélia ten Boom".
Por alguns instantes, fiquei ali parada, estupidamente.
Eu fora apenas "Prisioneira 66730" durante tanto tempo, que quase não
reagia à menção de meu nome. Adiantei-me.
- Fique aí ao lado.
O que iria acontecer? Por que eu fora destacada das outras?
Será que alguém havia delatado a existência da minha Bíblia?
A chamada continuou a se arrastar. De onde estava, eu
podia enxergar quase que toda a Lagerstrasse, dezenas de milhares de
mulheres a perder de vista, o ar quente de sua respiração suspenso naquela
atmosfera fria e escura.
A sirene deu o sinal de dispersar. A guarda acenou-me
para segui-la. Acompanhei-a, chapinhando pela neve semi-derretida,
esforçando-me para me manter em passo com ela, com suas botas de cano longo.
Minhas pernas e pés ainda estavam inchados e doloridos por causa do demorado
castigo do dia anterior - meus sapatos atados com pedaços de barbante.
Fui mancando, atrás da guarda, até o setor da administração,
o qual ficava na Lagerstrasse, na extremidade oposta ao hospital. Várias
prisioneiras encontravam-se em fila junto a uma mesa grande. O oficial que
estava sentado à mesa, carimbou um documento e entregou-o à mulher à sua frente.
- Entlassen! disse ele.
Entlassen? Libertada? Então aquela mulher estava livre? Será que... nós
todas?
Ele falou outro nome, e outra prisioneira se chegou à
mesa. Uma assinatura. Um carimbo.
- Entlassen!
Por fim, ele disse:
- Cornélia ten Boom.
Adiantei-me, firmando-me na mesa. Ele escreveu qualquer
coisa no papel, bateu o carimbo, e depois entregou-me. Peguei-o: um pedaço de
papel com meu nome, data de nascimento, e, no alto, em letras grandes: Certificado
de Soltura.
Estonteada, segui as outras, entrando por uma porta à
esquerda. Na outra sala, foi-me entregue um passe de estrada de ferro que me
dava direito a transporte dentro da Alemanha, até a fronteira da Holanda. Já
fora do escritório, um guarda indicou-me um longo corredor e uma outra sala. As
prisioneiras que me haviam precedido estavam tirando a roupa, e depois
enfileirando-se junto à parede.
- Roupas aqui, disse-me uma prisioneira auxiliar sorrindo.
Exame para libertação, informou-me.
Tirei a Bíblia, juntamente com o vestido. Enrolei-a nele,
e enfiei bem embaixo, no monte de roupas. Reuni-me às outras, e senti a
madeira áspera da parede contra minha pele. Era estranho como a palavra soltura
tornara aquela burocracia da prisão ainda mais odiosa. Quantas e quantas vezes
eu e Betsie tivéramos de ficar assim. No entanto o sentimento de liberdade já
se apossara de mim, e a vergonha por essa inspeção era maior que qualquer das
anteriores.
Afinal, o médico chegou: um rapaz de rosto sardento, vestido
de farda. Correu os olhos pela fila com indisfarçável desprezo. Uma a uma
tivemos que nos inclinar, virar, abrir os dedos. Quando chegou minha vez, ele
examinou-me de alto a baixo, e deteve-se nos meus pés. Seus lábios se
contraíram em desgosto.
- Edema, disse. Hospital.
E saiu. Enfiei o vestido de volta, e, juntamente com
outra mulher que não fora aprovada, segui a encarregada para fora do prédio.
Amanhecera. O céu cinzento e sombrio cuspia neve. Entramos pela Lagerstrasse,
passando pelas intermináveis fileiras de alojamentos.
- Então... não vamos ser libertas?
- Acho que vão, respondeu a encarregada, logo que o
inchaço das pernas ceder. Eles só soltam as prisioneiras quando estão em
perfeitas condições de saúde.
Vi-a observar a outra prisioneira: a pele e os olhos dela
tinham uma coloração amarelada.
A fila de doentes se estendia até o outro lado do
hospital, mas nós entramos direto, indo para uma ala aos fundos. O quarto
estava cheio, povoado de beliches. Designaram-me uma cama superior, perto de
uma mulher cujo corpo estava coberto de pústulas. Estava porém, próxima à
parede, e isto me possibilitava manter minhas pernas elevadas. Agora, aquilo
era tudo que importava: conseguir que a inchação diminuísse, para eu passar na
inspeção.
Não sei se aquele raio de liberdade revestira Ravensbruck de um aspecto de renovada crueldade, ou se aquela ala era mesmo o lugar mais terrível do campo; o certo é que o sofrimento ali era inimaginável. Ao meu redor, estavam os sobreviventes de um trem que fora bombardeado, quando se dirigia para Ravensbruck. As mulheres estavam horrivelmente mutiladas, sofrendo dores atrozes, mas a cada gemido duas das enfermeiras zombavam delas, arremedando-as.
Mesmo as próprias pacientes demonstravam essa indiferença
pétrea para com o sofrimento das outras, que era a "doença" mais
fatal dos campos de concentração. Percebi que ela se alastrou e me atingiu
também: como é que uma pessoa poderia sobreviver se se apegasse a qualquer
forma de sentimento? As que estavam inconscientes e as paralíticas estavam
sempre caindo ao chão.
Naquela primeira noite, quatro mulheres caíram de
beliches superiores e morreram ali mesmo. Era melhor a gente concentrar-se
apenas nos próprios problemas e não ver nada, nem pensar.
Entretanto não havia jeito de se isolar o som. A noite
toda as mulheres gritavam uma palavra que eu não conhecia.
- Schieber!
Repetidas vezes ouvia-se aquele pedido, feito com voz áspera.
- Schieber!
Afinal, compreendi que estavam pedindo a aparadeira.
Estava claro que a maioria das ocupantes dessa enfermaria não poderia ir ao
sanitário imundo que servia à ala. Por fim, ainda relutando em abaixar as
pernas, desci do meu catre e entreguei-me àquela tarefa. A gratidão delas era
comovente.
- Quem é você? Por que está fazendo isto?
Era como se a crueldade e a dureza fossem a atitude normal,
o certo; e a decência e a bondade, a exceção, o errado.
Quando raiou aquela madrugada de inverno, lembrei-me de
que era o dia de Natal.
Todas as manhãs eu ia à clínica, na parte fronteira do hospital. De lá eu ouvia a batida rítmica da Lagerstrasse. Todas as vezes, ouvia a mesma coisa: "Edema nos pés e nos tornozelos". Muitos dos que iam à clínica eram, como eu, prisioneiros com a ordem de soltura. Alguns já a haviam recebido há meses; seus documentos e passes da estrada de ferro estavam aos pedaços de tanto serem dobrados e desdobrados. E... se Betsie estivesse viva? Teríamos terminado nosso termo na prisão ao mesmo tempo. Ela, porém, nunca passaria no exame médico. E se ela estivesse aqui comigo? E se eu passasse na inspeção e ela...
Não há se no reino de Deus, ouvi sua voz suave
murmurar. Ele faz tudo na hora certa. Sua vontade é como um refúgio.
"Senhor, conserva-me dentro da tua vontade! Não me
deixe ficar vagando fora dela, e me perder totalmente."
Comecei a procurar alguém a quem dar a Bíblia. Seria tão
fácil adquirir outras - várias outras - na Holanda. Não havia muitas holandesas
naquela ala, mas, encontrei uma jovem de Utrecht, e passei o cordão do bornal
pelo seu pescoço.
Na sexta noite, as duas aparadeiras que havia no quarto
sumiram. Duas ciganas húngaras ocupavam um beliche no centro do quarto, e seu
matraquear era parte da babel de sons que enchia o lugar. Eu nunca chegava
perto delas, pois uma estava com gangrena no pé, e gostava de esticá-lo para o
rosto de quem passasse por ali.
Alguém informou que as aparadeiras estavam com as
ciganas, escondidas sob o cobertor, para evitar-lhes a caminhada ao banheiro.
Aproximei-me delas e roguei-lhes que as devolvessem, embora não estivesse
certa de que entendessem alemão.
Subitamente, no escuro, senti algo molhado e viscoso bater-me
contra o rosto. Uma delas retirara a bandagem do pé e a atirara em mim. Corri
dali chorando, e fui ao banheiro para me lavar. Lavei-me e lavei. Nunca mais
voltaria àquela ala. Que me importavam as aparadeiras? Eu não suportaria...
Mas é lógico que eu voltei. Eu aprendera muita
coisa, nesse último ano, a respeito do que eu podia e não podia suportar.
Quando as ciganas me viram descendo o corredor em sua direção, jogaram as
aparadeiras no chão.
Na manhã seguinte, o médico carimbou a aprovação clínica
em meu documento. Os eventos que antes se desenrolavam com tanta lentidão,
agora voavam. Numa coberta perto da saída do campo, deram-me roupas. Roupa de
baixo, uma saia de lã, uma belíssima blusa de seda, sapatos de boa qualidade,
quase novos, um chapéu e um casaco grosso. Deram-me um papel para assinar, no qual
se afirmava que eu nunca estivera doente em Ravensbruck, não tivera nenhum
acidente e que o tratamento fora bom. Assinei-o.
Em outro prédio, recebi uma ração de pão para um dia e
cupons de racionamento para mais três dias. Também recebi de volta meu relógio,
meu dinheiro e a aliança de mamãe. Por fim, estávamos no portão; éramos dez ou
doze pessoas.
Os pesados portões de ferro giraram; seguindo uma guarda,
marchamos todos para fora. Subimos a colina; agora víamos o lago, todo
congelado, naturalmente. Os pinheiros e a torre da igreja ao longe brilhavam ao
sol de inverno, como num cartão de Natal antigo.
Quase não acreditava no que me acontecia. Talvez estivéssemos
apenas nos dirigindo para a fábrica da Siemens; à noite, regressaríamos ao
acampamento. No topo da colina, porém, desviamo-nos para a esquerda, indo em
direção à vila próxima. Senti meus pés se incharem novamente nos sapatos novos,
mas apertei os lábios e forcei-me a continuar. Temia ver a guarda voltar-se e
apontar desdenhosamente para mim: "Edema! Mande-a de volta para o
campo."
Ao chegarmos à estação, a guarda virou-se e nos deixou
sem ao menos olhar para trás. Parecia que todos iríamos até Berlim, depois,
cada um tomaria seu rumo. A espera foi longa, naqueles bancos frios de ferro batido.
O senso de irrealidade ainda persistia. Só uma coisa parecia
verdade: o vazio de meu estômago. Atrasei o mais que pude o momento de comer o
pão, mas afinal enfiei a mão no bolso do casaco. O pacote sumira. Saltei do
banco, olhei embaixo dele, rememorando meus passos até a estação. Não sabia se
o perdera ou se me fora roubado; o fato é que não o tinha mais e nem os cupons
de racionamento.
Depois de muito tempo, um trem encostou na plataforma e
nós subimos a ele, mas era apenas para militares. De tardinha, recebemos
permissão para embarcar num trem do correio, somente para ter que descer duas
estações abaixo, para dar lugar a um carregamento de alimentos. A viagem
tornou-se um pesadelo. Chegamos à imensa terminal ferroviária de Berlim, furada
de bombas, depois da meia-noite.
Era o dia primeiro de janeiro de 1945. Betsie estava
certa; ela e eu estávamos fora da prisão...
Confusa e assustada, fiquei vagando pela estação sombria,
vendo a neve entrar por uma clarabóia quebrada. Eu sabia que devia procurar o
trem de Uelzen, mas depois de tanto tempo agindo apenas sob comando, eu perdera
toda a iniciativa. Finalmente, encontrei alguém que me indicou uma plataforma
distante. Cada passo, agora, era uma agonia, por causa dos sapatos novos.
Quando afinal alcancei a plataforma designada, a plaqueta de identificação
dizia Olsztyn, uma cidade da Polônia, que ficava exatamente na direção oposta.
Tive que atravessar aquela enorme área de concreto novamente.
À minha frente, vi um velhinho de rosto corado, ajuntando
entulho de bombardeio. Quando lhe pedi informação, pegou-me pelo braço e
conduziu-me ele mesmo à plataforma certa.
- Eu já fui à Holanda, disse-me com uma voz carregada de
recordações, quando minha esposa era viva. Ficamos à beira-mar.
Havia um trem parado ali, e eu subi a bordo. Passou-se
muito tempo antes que aparecesse alguém, mas não ousei sair, com receio de me
perder. Quando o trem partiu, eu já estava meio tonta pelo longo tempo sem
comer. Na primeira parada fora de Berlim, fui ao café da estação. Mostrei meu
dinheiro holandês, e disse à mulher que se achava ao balcão que perdera meus
cupons.
- Essa história é velha! Saia daqui antes que eu chame a
polícia!
A viagem foi interminável. Vários trechos foram percorridos
muito lentamente. Algumas partes estavam destruídas, e havia desvios longos e
muitas baldeações. Às vezes, por medo de bombardeios, não se parava numa
estação, e a carga e os passageiros eram desembarcados fora da cidade.
Durante todo o tempo, de minha janela, eu contemplava a
outrora linda Alemanha. Florestas enegrecidas pelo fogo, as costelas
descarnadas de uma igreja dominando uma vila em ruínas.
Lágrimas me vieram aos olhos, quando vi Bremen. Em toda
aquela imensidão devastada vi apenas um ser humano - uma velhinha à cata de
coisas em um monte de tijolos.
Chegando em Uelzen, tivemos que esperar durante muito
tempo a troca de trens. Era tarde, e a estação estava deserta. Comecei a
cochilar em um bar vazio, e minha cabeça caiu para a frente, descansando na
mesa à minha frente. Fui despertada por um tapa no ouvido que quase me mandou
ao chão.
- Isto aqui não é quarto de hotel! gritou o agente da
estação furiosamente. Não pode dormir nas mesas!
Trens iam e vinham. Eu embarcava e desembarcava. Por fim,
achei-me numa fila, diante de uma coberta da alfândega de uma pequena estação,
onde se lia Nieuwerschans. Quando saí, um operário que usava um macacão
azul e um boné da mesma cor, aproximou-se de mim.
- Olha, acho que não irá muito longe com a perna neste
estado! Apóie-se em mim.
Ele me falara em holandês.
Segurei-me a ele e atravessamos alguns trilhos - eu mancando
- e chegamos a um ponto onde havia outro trem parado, a máquina lançando
fumaça pela chaminé. Encontrava-me na Holanda!
O trem arrancou. Vastos campos, planos e cobertos de
neve, passavam diante dá janela. Minha terra! Ainda era a Holanda ocupada;
ainda víamos soldados alemães postados ao longo do percurso, mas era minha
terra.
O comboio iria somente até Groningen, uma cidade ainda
próxima à fronteira. Dali para a frente os trilhos estavam destruídos. Somente
oficiais do governo tinham permissão para viajar. Reunindo as poucas energias
que ainda me restavam, encaminhei-me para um hospital perto da estação.
Uma enfermeira de uniforme branco, imaculado, conduziu-me
a um pequeno escritório. Depois que lhe contei minha história, ela saiu. Após
alguns instantes, voltou com uma bandeja de chá e roscas.
- Não trouxe manteiga, disse-me. Você está subnutrida e
deve ter muito cuidado com o que come.
Lágrimas de alegria misturavam-se ao chá quente. Aqui
estava alguém que se preocupava comigo. Não havia vagas no hospital,
informou-me, mas uma das funcionárias estava ausente e eu poderia ficar com o
seu quarto.
- Já estou enchendo a banheira para você.
Segui-a por um corredor, como se estivesse sonhando. O
banheiro amplo estava cheio de vapor que subia de uma grande banheira. Nada em
minha vida foi tão bom quanto aquele banho. Fiquei muito tempo ali, com água
até o queixo, sentindo-a suavizar minha pele cheia de feridas.
- Só mais cinco minutos, dizia à enfermeira, cada vez que
ela batia à porta.
Por fim, peguei a camisola que me entregou e deixei-a
conduzir-me a um quarto com a cama já preparada. Lençóis! Lençóis brancos:
lençol e virol. Fiquei alisando-os com a ponta dos dedos durante algum tempo.
A enfermeira enfiou um travesseiro sob meus pés inchados. Esforcei-me para me
manter acordada: era pena dormir e esperdiçar aquela chance de gozar a alegria
de deitar numa cama limpa e receber os cuidados de alguém.
Permaneci no hospital de Groningen dez dias, sentindo as forças retornarem. Fazia a maioria das refeições com as enfermeiras, no seu próprio refeitório. Na primeira vez que vi a mesa posta com talheres e copos, dei para trás, assustada.
- Vocês estão dando uma festa? Não quero atrapalhar; levo
uma bandeja e como no quarto mesmo.
Ainda não me sentia preparada para risadas e bate-papo
informal. A moça que estava a meu lado, riu e afastou a cadeira para mim.
- Não é festa, não. É só um jantar - e bem pobre, aliás.
Sentei-me, olhando pasmada para a faca, garfo e toalha -
eu comera assim antes? todos os dias? Como se fosse um selvagem observando os
civilizados, imitei os gestos lentos das outras, ao passarem o pão e o queijo,
e mexerem o açúcar no café.
Estava ansiosa para rever Willem e Nollie, mas como conseguiria
chegar até eles com a proibição de viajar? O telefone estava mais limitado do
que nunca, mas afinal a operadora do PBX do hospital conseguiu falar com a
telefonista de Hilversum, e passar-lhe as notícias da minha soltura e da morte
de Betsie.
Nos meados da semana seguinte, a direção do hospital
conseguiu lugar para mim num caminhão de alimentos que ia para o sul. Essa
viagem clandestina foi feita à noite, de faróis apagados: o alimento havia sido
desviado de um carregamento que era destinado à Alemanha. Numa manhã cinzenta,
o veículo parou em frente ao Lar dos Velhinhos, de Willem. Uma moça alta, de
ombros largos, atendeu à porta e depois saiu correndo para avisar da minha
chegada.
No momento seguinte, eu abraçava Tine e duas de minhas
sobrinhas. Willem chegou vagarosamente, manquitolando corredor abaixo, apoiado
numa bengala. Ficamos abraçados um longo tempo, enquanto eu narrava os detalhes
da doença e morte de Betsie.
- Eu quase desejo que o mesmo tenha acontecido a Kik,
disse Willem devagar. Seria bom se ele estivesse com Betsie e papai agora.
Kik fora deportado para a Alemanha, e eles não tinham
notícias dele desde então. Recordei o toque de sua mão em meu ombro, ao
guiar-me, enquanto rodávamos pelas ruas escuras até a casa de Pickwick.
Lembrei-me de sua paciência ao dizer-me: "A senhora não tem cartões a
mais, Tia Corrie. Não há judeus aqui." Kik! Será que os jovens e corajosos
são tão vulneráveis quantos os velhos e vagarosos?
Fiquei duas semanas em Hilversum, tentando aceitar mentalmente
a verdade que meus olhos haviam constatado em meus primeiros momentos naquela
casa: Willem estava muito mal. Só ele parecia inconsciente deste fato, pois
vagava dificultosamente pelos longos corredores do abrigo, levando conforto e
aconselhamento aos doentes sob seus cuidados.
Havia mais de cinqüenta pacientes no presente momento. O
que mais me espantava era o grande número de moças que estavam servindo ali:
cozinheiras, enfermeiras, secretárias. Somente alguns dias depois foi que
descobri que a maioria daquelas "moças" era, na realidade, rapazes
disfarçados, fugindo ao recrutamento para os campos de trabalho forçado, o
qual estava cada vez mais rigoroso.
Entretanto parecia que eu não poderia descansar, enquanto
não chegasse a Haarlem. Nollie estava lá, naturalmente; mas era por causa do Beje
também. Alguma coisa naquela casa me atraía, me acenava dizendo-me para
voltar para casa.
E mais uma vez enfrentei o problema de como chegar lá.
Willem dispunha de um carro oficial para uso do abrigo, mas apenas dentro do
perímetro da cidade. Por fim, após várias chamadas telefônicas, ele me
comunicou que a viagem fora arranjada.
As estradas estavam desertas quando partimos; até o lugar
do encontro com o carro que viria de Haarlem, cruzamos apenas com dois
veículos. Um pouco adiante, parada no acostamento, sobre a neve, estava uma
limusine preta, com placa oficial, as vidraças vedadas por cortinas. Beijei
Willem em despedida, e depois entrei rapidamente no carro, pela porta traseira,
como havia sido instruída. Mesmo na meia escuridão interior, era difícil não
reconhecer aquele volumoso e desajeitado vulto a meu lado.
- Tio Herman! gritei.
- Cornélia!
Com sua mão enorme, segurou a minha.
- Deus permitiu-me vê-la novamente.
A última vez que eu o vira fora na prisão de Haia,
ladeado por dois soldados, tendo a cabeça ferida, coberta de sangue. Agora, ali
estava ele, dando de ombros às minhas palavras de pesar, como se aqueles
eventos tivessem sido um incidente trivial demais para ser mencionado.
Ele parecia-me - como sempre - muito bem informado sobre
tudo que ocorria em Haarlem, e enquanto o motorista fardado nos levava
rapidamente pelas estradas vazias, deu-me todos os detalhes que eu ansiava saber.
Todos os nossos judeus estavam a salvo, exceto Mary Itallie, que fora presa
numa rua, e enviada para a Polônia. Nosso grupo ainda estava em funcionamento,
embora muitos dos nossos jovens estivessem foragidos.
Ele advertiu-me quanto a mudanças no Beje. Depois
que a guarda policial fora retirada, famílias desabrigadas, uma após a outra,
haviam se instalado ali, embora ele cresse que, no momento, o lugar estivesse
desocupado. Mesmo antes de os selos do governo serem retirados, nossa leal Toos
havia retornado de Scheveningen e reabrira o negócio.
O Sr. Beukers, nosso vizinho do lado, cedera-lhe espaço
em sua ótica e ela estava recebendo pedidos de consertos e encaminhando-os aos
nossos relojoeiros em suas próprias casas.
Quando meus olhos se ajustaram à meia-luz, pude distinguir
melhor as feições de nosso amigo. Tinha um ou outro calombo na cabeça,
faltavam-lhe alguns dentes, mas o sofrimento não mudara em nada sua grande e
bondosa figura.
Agora, o carro já seguia pelas ruas estreitas de Haarlem.
Atravessou a ponte do Spaarne, depois a Praça Grote Markt, à sombra da catedral
de São Bavo, e, depois, entrou na Rua Barteljoris. Quase antes que o carro
parasse, eu já me encontrava fora dele; corri pela ruela lateral, entrei pela
porta, e abracei Nollie. Ela e as filhas tinham estado lá a manhã toda,
varrendo, lavando janelas, arejando os lençóis, preparando tudo para minha
chegada.
Por sobre o ombro de Nollie, vi Toos junto à porta
interna da loja, rindo e chorando ao mesmo tempo. Rindo porque eu estava de
volta, e chorando por papai e Betsie que nunca mais retornariam, e eles eram as
duas únicas pessoas do mundo a quem ela se permitira amar.
Fomos todos andando pela casa, olhando, tocando em tudo:
- Você se lembra como Betsie arranjava estas xícaras?
- Lembra-se como Meta zangou com Eusie por ele ter esquecido
o cachimbo aqui?
Parei no patamar diante da sala de jantar, e corri os
dedos pela madeira lisa do relógio frísio. Quase via papai parando ali, com
Kapteyn em seus calcanhares:
- Não podemos deixar o relógio parar!
Abri a tampa de vidro, acertei os ponteiros pelo meu relógio
de pulso, e, vagarosamente, puxei os pesos. Eu chegara em casa. A vida começou
de novo, como um relógio: de manhã, conserto de relógios na loja; à tarde,
quase sempre, rodando em minha bicicleta sem pneus até a Rua Bos en Hoven.
No entanto, inexplicavelmente, eu não me sentia em casa.
Ainda aguardava; ainda estava procurando alguma coisa. Durante alguns dias, dei
voltas pelas redondezas, pelas ruelas e margens dos canais, chamando nosso
gato pelo nome.
Uma velhinha que vendia verduras três portas abaixo, contou-me
que o ouvira miar ali perto, na noite de nossa prisão, e ela o fizera entrar.
Nos várias meses que se seguiram, disse-me, as crianças da vizinhança tinham se
revezado para trazer comida ao "gatinho do vovô". Traziam restos do
lixo, e mesmo pedacinhos de coisas furtados de sua magra alimentação, de sob
os olhos vigilantes de suas mães, e assim, Hashbaz se mantivera bem nutrido e
gordo.
Nos meados de dezembro, continuou ela, ele não aparecera
mais ao seu chamado e, depois disso, ela nunca mais o vira. Continuei a
procurar, mas com o coração pesado: naquele rigoroso inverno holandês, com a
fome que reinava, nenhum gato ou cachorro atendeu ao meu chamado.
Mas eu não estava sentindo falta apenas do gato; o Beje
precisava de gente para enchê-lo. Lembrei-me das palavras de papai ao chefe
da Gestapo em Haia: "Amanhã abro minhas portas para qualquer pessoa que
precisar de mim." Ninguém na cidade estava mais necessitado que os
retardados.
Desde o início da ocupação nazista, as famílias os haviam
encerrado em quartinhos traseiros, escondidos de um governo que dizia serem
eles inaptos para viver. Escolas e centros de treinamento especializado tinham
sido fechados. Pouco depois, havia um grupo deles morando no Beje. Ainda
não podiam sair às ruas, mas, pelo menos, tinham um ambiente novo, e um pouco
de organização e treinamento, quando eu podia me ausentar da loja.
Entretanto, minha inquietação perdurou. Eu me achava em
casa; estava trabalhando, e muito! - ou será que estava mesmo? Muitas vezes eu
dava comigo mesma sentada à banca de trabalho e via que estivera com os olhos
fixos no vácuo muito tempo. Os consertadores que Toos arranjara para nos
auxiliar - antigos aprendizes de papai - eram ótimos. Eu passava cada vez
menos tempo na oficina; o que quer ou quem quer que eu procurava não se
encontrava ali.
Nem na residência. Eu amava aquelas almas cândidas que se
achavam sob meus cuidados, mas a casa mesmo não era mais um lar. Por causa de
Betsie, comprei plantas para todas as janelas, mas esqueci-me de molhá-las, e
se secaram.
Talvez eu estivesse sentindo falta daquele desafio do movimento
clandestino. Quando a organização nacional me apareceu com um pedido, acedi
prontamente. Eles me entregaram um documento falso de soltura, para um
prisioneiro que estava na cadeia de Haarlem. Nada podia ser mais simples do que
dobrar aquela esquina e penetrar por aquela porta tão minha conhecida.
Contudo, quando as portas se cerraram às minhas costas,
meu coração disparou. E se eu não conseguisse sair? E se aquilo fosse uma
armadilha?
- Às ordens!
Um tenente de polícia, um jovem de cabelos vermelhos,
apresentou-se saindo de detrás da mesa.
- Tem hora marcada?
Era Rolf. Por que estaria agindo assim? Será que eu
estava sendo detida? Iriam colocar-me numa cela?
- Rolf, disse-lhe, não me reconhece?
Ele me fitou fixamente, como se tentasse rememorar.
- Ah! Naturalmente! disse com voz suave. É a senhora da
relojoaria! Soube que sua loja esteve fechada por algum tempo!
Deixei cair o queixo. Ora, Rolf sabia perfeitamente... então
me lembrei de onde nos encontrávamos: no saguão da chefatura de polícia. E
havia cinco ou seis soldados alemães nos espiando. E eu havia chamado pelo nome
a um membro do nosso grupo, e havia praticamente admitido haver um certo
relacionamento entre nós, quando a regra de ouro do movimento era... Passei a
língua nos lábios. Como eu podia ser tão estúpida?
Minhas mãos tremiam. Rolf retirou os papéis de entre elas
e olhou-os rapidamente.
- Estes documentos têm que ser revistos pelo chefe de
polícia e pelo comandante militar, em conjunto, disse ele. Será que a senhora
pode trazê-los de novo amanhã, às quatro horas da tarde? O chefe está em
reunião e vai demorar até...
Não ouvi mais nada. Quando ele dissera "amanhã à tarde",
eu me dirigira para a porta. Fiquei parada na calçada até meus joelhos cessarem
de tremer. Se eu precisasse de uma prova de que não possuía nenhuma ousadia nem
sagacidade em mim mesma, eu a tinha agora. Qualquer momento de coragem ou
habilidade que eu tivesse tido, fora apenas um dom especial de Deus, uma
capacitação momentânea, por ele dada para que eu pudesse realizar uma
determinada tarefa. A ausência de tais qualidades agora mostrava claramente
que ele não desejava mais que eu recomeçasse este trabalho.
Retomei ao Beje lentamente. E então, no instante
que entrei na ruela lateral, fiquei sabendo o que era que eu procurava.
Era Betsie.
Fora de Betsie que eu sentira falta a cada minuto de cada
dia, desde que correra àquela janela de hospital e descobrira que ela deixara
Ravensbruck para sempre. Fora Betsie que eu pensara encontrar aqui em Haarlem,
na loja, na casa que ela tanto amara.
Mas ela não estava aqui. E agora, pela primeira vez
depois de sua morte, eu me lembrava de uma coisa.
"Temos que contar aos outros, Corrie. Temos que
dizer a eles o que aprendemos aqui..."
Naquela mesma semana eu comecei a falar disso. Se esse
era o novo trabalho de Deus para mim, então ele me daria a coragem necessária e
as palavras. Andei pelas ruas e subúrbios de Haarlem, sacolejando em minha
bicicleta, levando a todos a mensagem de que a alegria é maior que o desespero.
Era uma mensagem de que todos precisavam, naquela primavera
de 1945. Agora não havia mais a "Noiva de Haarlem", para encher o ar
com sua doce fragrância; dela só restava um toco, grande demais para ser
carregado e transformado em lenha. Não havia mais tulipas a cobrir o chão de um
tapete colorido; as batatas haviam sido comidas. Não havia família que não
tivesse sua tragédia. Naqueles dias de tanto desespero, falei em igrejas,
clubes e lares, a respeito do que eu e Betsie havíamos aprendido em
Ravensbruck.
Em todas as reuniões, eu contei do anseio de Betsie: uma
casa na Holanda, onde todos os que tivessem sido afetados de algum modo pela
guerra, pudessem se readaptar à vida. Após uma dessas palestras, uma senhora
elegante e de porte aristocrático veio até mim. Eu a conhecia de vista: era a
Sra. Bierens de Haan, cuja casa, situada no subúrbio de Bloemendaal, era
considerada uma das mais belas da Holanda. Eu nunca a vira; havia visto apenas
as árvores que a cercavam, pois fora construída num parque. Fiquei atônita
quando aquela mulher bem vestida perguntou-me se eu ainda morava na mesma casa
velha, na Rua Barteljoris.
- Como foi que... é... moro sim, mas...
- Minha mãe me falou muito dessa casa. Ela foi lá várias
vezes para ver uma tia sua que, segundo creio, trabalhava em obras de caridade.
No mesmo instante, recordei-me de tudo. A porta lateral
sendo aberta para dar entrada a um farfalhar de cetim, e um murmúrio de penas
de chapéu. Um vestido longo, plumas que tomavam toda a estreita escada. Depois,
a Tia Jans de pé à porta, olhando-nos com uma expressão grave que mataria em nós
qualquer desejo de bater uma bola, fazer um ruído ou algazarra...
- Sou viúva, estava dizendo a Sra. de Haan, mas tenho
cinco filhos trabalhando na resistência. Quatro deles estão bem. O outro foi
levado à Alemanha e nunca mais tivemos notícias dele. Quando você estava
falando, ouvi uma voz dentro de mim que dizia: "Jan vai voltar, e, em
gratidão, você vai dar seu lar para esse projeto de Betsie ten Boom."
Duas semanas mais tarde, um garotinho entregou-me um
envelope em nossa porta. Dentro havia um bilhete com apenas uma linha, escrita
em tinta roxa.
"Jan chegou."
A Sra. Bierens de Haan recebeu-me à entrada da propriedade.
Seguimos por um caminho ladeado de carvalhos, cujos ramos se entrelaçavam acima
de nossas cabeças, como um toldo. Dobrando a última curva, eu a vi: uma mansão
de cinqüenta e seis cômodos, no centro de um grande gramado. Dois jardineiros
idosos trabalhavam nos canteiros.
- Deixamos as plantas morrerem, informou-me a Sra. de
Haan, mas agora acho que devemos arranjar os jardins novamente. Você não acha
que observar as plantas se desenvolverem será uma boa terapia para os
ex-prisioneiros?
Não respondi. Estava olhando para os espigões do telhado
e para as janelas -janelas tão amplas...
- Aqui tem... minha garganta estava seca. Acaso o piso é
todo taqueado, e tem uma escadaria ladeando o hall central, e estátuas em baixo
relevo na parede?
Ela fitou-me, surpresa.
- Ah! você já esteve aqui, então. Não me lembro...
- Não, respondi. Ouvi alguém falar sobre ela...
Parei. Como poderia explicar algo que eu mesma não
compreendia?
- Alguém que já veio aqui, completou ela sem entender meu
assombro.
- É, disse-lhe. Alguém que já esteve aqui.
Na segunda semana de maio, os aliados tomaram a Holanda. A bandeira holandesa drapejava em todas as janelas, e o Wilhelmus era tocado, dia e noite, em nossas rádios, agora operando livremente. O exército canadense transportou para as cidades o alimento que havia sido armazenado ao longo da fronteira.
Em junho, chegaram ao nosso Lar, em Bloemendaal, os
primeiros de centenas de refugiados que viriam a morar ali. Alguns eram
silenciosos, outros falavam incessantemente de suas perdas; uns arredios,
outros fortemente agressivos, cada um era um ser humano ferido. Nem todos
haviam estado em campos de concentração; alguns tinham ficado dois, três e até
quatro anos escondidos em sótãos e quartinhos de despejo.
Um dos primeiros foi a Sra. Kan, viúva do proprietário da
relojoaria que ficava na mesma rua que a nossa. O marido morrera no
esconderijo; ela veio sozinha. Estava velhinha, de cabelos brancos, encurvada e
se assustava ao menor ruído. Outros estavam feridos na alma e no corpo, pelos
bombardeios ou perda de entes queridos, ou pelos intermináveis deslocamentos
durante a guerra. Em 1947, começamos a receber holandeses que tinham sido
prisioneiros dos japoneses na Indonésia.
Embora não fosse feito de propósito, isto provou ser um
dos melhores arranjos para os que tinham estado em prisões na Alemanha.
Entregues a si mesmos, eles tinham a tendência de reviver seus sofrimentos; em
Bloemendaal, estavam sempre sendo relembrados de que não eram os únicos que
haviam sofrido. Contudo o segredo da cura completa era o mesmo para todos. Cada
um tinha uma mágoa que precisava perdoar: o vizinho que o delatara, um guarda
brutal, um soldado sádico.
O mais estranho, porém, era que os mais difíceis de serem
perdoados não eram os japoneses e alemães, mas, sim, um compatriota que se
tinha bandeado para o inimigo. Eu via muitos nazistas holandeses nas ruas -
cabeças raspadas, olhares furtivos. Estes colaboracionistas estavam em
condições tristes. Eram despejados de suas casas ou apartamentos, recusados em
empregos e vaiados nas ruas.
A princípio, pensei convidá-los para vir para
Bloemendaal, e viver lado a lado com as pessoas que eles próprios haviam
prejudicado, a fim de procurar criar um sentimento novo de ambas as partes.
Descobri, porém, que ainda era muito cedo para se tentar tal coisa com pessoas
que ainda estavam se desfazendo de suas mágoas.
Duas tentativas nossas terminaram em atritos. Assim,
logo que as escolas e centros para retardados foram reabertos, dediquei o Beje
para abrigo dos ex-nazistas.
E assim foi, naqueles primeiros anos após a guerra:
experimentando aqui e ali, cometendo erros, aprendendo. Os médicos,
psiquiatras e nutricionistas que davam consultas grátis a organizações que
cuidavam de vítimas da guerra, muitas vezes expressavam espanto pela nossa
disciplina frouxa.
Pessoas entravam e saíam nos devocionais matutinos e
noturnos; o comportamento à mesa era horrível; havia um homem que dava uma
caminhada pela cidade, todos os dias às três horas da madrugada. Eu não
conseguia ser severa bastante para trilar um apito ou fazer reprimendas, nem
considerar a hipótese de trancar portas e estabelecer horários rígidos.
Uma coisa, porém, era certa: cada um deles, à sua própria
maneira e em seu tempo próprio, acabava se livrando da dor profunda que o
atormentava. Na maioria das vezes, o processo se iniciava, como Betsie havia
previsto, no jardim e na horta.
As flores se abriam; as verduras e legumes cresciam, a
conversa girava cada vez menos em torno daquele passado amargo, e mais sobre as
condições do tempo no dia seguinte. Assim que a mente de uma pessoa se
alargava, eu lhe falava dos que estavam no Beje; gente que nunca recebia
uma visita, nem uma linha de correspondência.
Quando a menção de um nazista deixava de provocar uma
erupção de raiva, eu sabia que a cura não demoraria muito. No dia em que a pessoa
dizia: "Aquela gente de quem você falou, será que eles gostariam de umas
cenouras de nossa horta?" então eu sabia que o milagre se dera.
Ao mesmo tempo, eu continuei a fazer minhas palestras, em parte, porque o abrigo era sustentado por contribuições, e em parte porque parecia haver um grande interesse pela história de Betsie. Viajei por toda a Holanda, e fui a outras partes da Europa e aos Estados Unidos.
Contudo esse interesse era maior na Alemanha que em
qualquer outro lugar. A Alemanha era uma terra em ruínas; as cidades eram
cinzas e detritos, mas ainda mais terrível era ver os corações e mentes em
cinzas. Bastava cruzar a fronteira para se sentir o grande peso que pairava
sobre aquele país.
Em uma igreja de Munique eu o vi: o antigo oficial da SS
que estivera de guarda diante do chuveiro, no centro de triagem de
Ravensbruck. Era o primeiro de nossos algozes que eu reencontrava.
Repentinamente, a recordação me assaltou, e senti-me de
volta ali: a sala cheia de homens zombeteiros, o monte de roupas, Betsie com o
rosto branco de dor.
Ele dirigiu-se a mim, sorridente para me cumprimentar,
quando a congregação já se dispersava.
- Muito obrigado por sua mensagem, D. Corrie, disse ele.
E pensar que, como a senhora disse: "Ele apagou todos os meus
pecados!"
Sua mão estendia-se em minha direção. E eu, que falara
tantas vezes em Bloemendaal sobre a necessidade do perdão, conservei a mão
abaixada.
Ao mesmo tempo que esses pensamentos me queimavam,
percebi o pecado que cometia. Jesus Cristo tinha morrido por este homem;
poderia eu exigir mais?
"Senhor Jesus", orei, "perdoa-me e
ajuda-me a perdoá-lo."
Tentei sorrir; lutei para estender a mão. Não conseguia.
Não sentia nada, nem a menor centelha de calor humano ou caridade. Orei de
novo, em silêncio.
"Jesus, não consigo perdoá-lo. Dá-me do teu
perdão."
Logo que apertei sua mão, um fato incrível aconteceu. Uma
espécie de corrente elétrica pareceu passar de mim para ele, brotando de meu
ombro e descendo pelo meu braço até ele, e, de meu coração, nasceu um amor tão
grande por aquele homem, que quase me sufocou.
Foi assim que aprendi que não é em nosso perdão, nem em
nossa justiça própria, que repousa a sorte do mundo, mas nos do Senhor. Quando
ele nos ordena que amemos os nossos inimigos, ele nos dá, juntamente com a
ordem, o seu amor.
Era preciso muito amor. A necessidade mais premente da
Alemanha de após guerra era lares. Dizia-se haver nove milhões de pessoas
desabrigadas. Elas viviam em escombros, em construções semi-destruídas, e em
caminhões do exército que haviam sido abandonados.
Uma igreja convidou-me para falar a cem famílias de
refugiados que estavam vivendo numa fábrica abandonada. Eles penduravam lençóis
e cobertas a fim de se isolarem em família. Contudo não havia jeito de se
isolar o som: o choro de um bebê, o alarido dos rádios, as palavras ásperas de
uma briga entre irmãos... Como poderia eu falar-lhes da realidade de Deus, e
depois voltar ao meu quarto tranqüilo, na hospedaria da igreja, nos arredores
da cidade? Não; antes de poder falar a este povo, eu tinha de viver entre eles.
Foi durante os meses que passei naquela fábrica que o
diretor de uma organização assistencial veio falar comigo. Tinham ouvido falar
de meu trabalho de reabilitação, na Holanda, disse-me, e gostariam de saber...
eu já estava abrindo a boca para informar-lhe que não tinha treinamento profissional
no assunto, mas suas palavras seguintes me silenciaram.
- Já temos o local, disse ele. É um campo de concentração
que foi recentemente liberado pelo governo.
Fomos até Darmstadt para ver o local. Rolos e rolos de
arame farpado enferrujado ainda o circundavam. Caminhei por uma estradinha de
cascalho, por entre alojamentos cinzentos. Abri uma porta e ela rangeu. Passei
por entre as camas de metal.
- Precisamos de flores nas janelas, disse. Poremos caixas
de flores em todas elas. Teremos que tirar o arame farpado, lógico; depois
vamos pintar tudo. De verde. Verde-claro brilhante - a cor das plantinhas
novas, quando ressurgem na primavera...
Juntamente com uma comissão da Igreja Luterana Alemã, Corrie abriu o campo de Darmstadt, em 1946, para ser abrigo e centro de reabilitação. Funcionou assim até 1960, quando foi demolido para dar lugar a outras construções, na nova Alemanha em desenvolvimento.
O Lar de Bloemendaal abrigou exclusivamente
ex-prisioneiros e outras vítimas da guerra até 1950, quando então passou a
receber qualquer um que precisasse de descanso e cuidados. Ainda hoje
encontra-se em operação, com um novo prédio, tendo pacientes de todas as partes
da Europa. De 1967 para cá, está sob a orientação da Igreja Reformada Holandesa.
Willem morreu em dezembro de 1946, de tuberculose espinhal. Seu
último livro, um estudo sobre os sacrifícios do Velho Testamento, ele o
escreveu de pé, pois a dor que sentia, causada pela enfermidade, não lhe
permitia sentar-se.
Instantes antes de morrer, ele abriu os olhos para dizer
a Tine:
"Kik está bem; ele está muito bem."
Foi somente em 1953 que a família veio a saber que o
rapaz morrera em 1944, no campo de concentração de Berger-Belsen. Hoje existe
em Hilversum uma rua de nome ten Boom, em homenagem a Kik.
Após suas experiências na guerra, Peter van
Woerden dedicou seu dom musical a Deus. Ele já compôs muitos hinos, tendo
musicado muitos salmos e provérbios. Ele, a esposa e seus cinco filhos viajam
por toda a Europa e Oriente Médio, transmitindo a mensagem do amor de Deus,
através da música.
Em 1959, Corrie voltou a Ravensbruck, com um grupo
que fora ali para homenagear as 96.000 mulheres que morreram naquele campo.
Ali, Corrie veio a saber que sua soltura se deveu a erro burocrático: uma
semana depois, todas as prisioneiras de sua idade foram levadas às câmaras de
gás.
Com mais de oitenta anos, Corrie ten Boom continuava suas infatigáveis viagens, em obediência ao desejo de Betsie de que "deviam contar aos outros". Ela visitou e falou em dezenas de países, dentro e fora da Cortina de Ferro. Todos os seus ouvintes: sejam estudantes africanos, plantadores de cana-de-açúcar em Cuba, prisioneiros de uma penitenciária da Inglaterra, operários poloneses, etc, ouviram a mesma mensagem - a que ela aprendeu em Ravensbruck: Jesus transforma a derrota em vitória, e a perda em ganho.
