segunda-feira, 10 de maio de 2021

O refugio secreto - Capítulo 15 - fim


 As Três Visões

             A beleza do rosto de Betsie me susteve durante os dias que se seguiram, quando fui de pessoa em pessoa, das que a ti­nham amado, falando-lhes da sua paz e gozo.

            Dois dias após a sua morte, a contagem, na hora da cha­mada, revelou a falta de uma prisioneira. Os outros aloja­mentos foram dispensados, mas o 28 permaneceu em forma­ção, olhos à frente. O alto-falante deu um estalido, e ouviu-se uma voz anunciar que uma mulher estava faltando: o alojamento todo ficaria de pé ali na Lagerstrasse até que ela fosse encontrada. Esquerda, direita, esquerda, direita - num marca-passo interminável para afugentar o frio das pernas can­sadas.

            O sol surgiu, um sol desmaiado de inverno, que mal dava para aquecer a gente. Olhei para baixo: minhas pernas e tornozelos estavam inchando grotescamente. Pelo meio-dia, já estava entorpecida. Como você é feliz hoje, Betsie! Nem frio, nem fome, nada separa você de Jesus agora!

            A ordem para dispersar veio somente à tarde. Viemos a saber depois que a mulher fora encontrada morta em uma das plataformas superiores.

            Na manhã seguinte, durante a chamada, ouvi meu nome pelo alto-falante: "Cornélia ten Boom".

            Por alguns instantes, fiquei ali parada, estupidamente. Eu fora apenas "Prisioneira 66730" durante tanto tempo, que quase não reagia à menção de meu nome. Adiantei-me.

            - Fique aí ao lado.

            O que iria acontecer? Por que eu fora destacada das ou­tras? Será que alguém havia delatado a existência da minha Bíblia?

            A chamada continuou a se arrastar. De onde estava, eu podia enxergar quase que toda a Lagerstrasse, dezenas de milhares de mulheres a perder de vista, o ar quente de sua respiração suspenso naquela atmosfera fria e escura.

            A sirene deu o sinal de dispersar. A guarda acenou-me para segui-la. Acompanhei-a, chapinhando pela neve semi-derretida, esforçando-me para me manter em passo com ela, com suas botas de cano longo. Minhas pernas e pés ainda estavam inchados e doloridos por causa do demora­do castigo do dia anterior - meus sapatos atados com pe­daços de barbante.

            Fui mancando, atrás da guarda, até o setor da adminis­tração, o qual ficava na Lagerstrasse, na extremidade oposta ao hospital. Várias prisioneiras encontravam-se em fila jun­to a uma mesa grande. O oficial que estava sentado à mesa, carimbou um documento e entregou-o à mulher à sua fren­te.

            - Entlassen! disse ele.

            Entlassen? Libertada? Então aquela mulher estava livre? Será que... nós todas?

            Ele falou outro nome, e outra prisioneira se chegou à mesa. Uma assinatura. Um carimbo.

            - Entlassen!

            Por fim, ele disse:

            - Cornélia ten Boom.

            Adiantei-me, firmando-me na mesa. Ele escreveu qualquer coisa no papel, bateu o carimbo, e depois entregou-me. Pe­guei-o: um pedaço de papel com meu nome, data de nascimento, e, no alto, em letras grandes: Certificado de Sol­tura.

            Estonteada, segui as outras, entrando por uma porta à esquerda. Na outra sala, foi-me entregue um passe de estra­da de ferro que me dava direito a transporte dentro da Ale­manha, até a fronteira da Holanda. Já fora do escritório, um guarda indicou-me um longo corredor e uma outra sala. As prisioneiras que me haviam precedido estavam tirando a rou­pa, e depois enfileirando-se junto à parede.

            - Roupas aqui, disse-me uma prisioneira auxiliar sorrin­do. Exame para libertação, informou-me.

            Tirei a Bíblia, juntamente com o vestido. Enrolei-a nele, e enfiei bem embaixo, no monte de roupas. Reuni-me às ou­tras, e senti a madeira áspera da parede contra minha pele. Era estranho como a palavra soltura tornara aquela burocra­cia da prisão ainda mais odiosa. Quantas e quantas vezes eu e Betsie tivéramos de ficar assim. No entanto o sentimento de liberdade já se apossara de mim, e a vergonha por essa inspeção era maior que qualquer das anteriores.

            Afinal, o médico chegou: um rapaz de rosto sardento, ves­tido de farda. Correu os olhos pela fila com indisfarçável des­prezo. Uma a uma tivemos que nos inclinar, virar, abrir os dedos. Quando chegou minha vez, ele examinou-me de alto a baixo, e deteve-se nos meus pés. Seus lábios se contraíram em desgosto.

            - Edema, disse. Hospital.

            E saiu. Enfiei o vestido de volta, e, juntamente com outra mulher que não fora aprovada, segui a encarregada para fora do prédio. Amanhecera. O céu cinzento e sombrio cuspia neve. Entramos pela Lagerstrasse, passando pelas intermináveis fi­leiras de alojamentos.

            - Então... não vamos ser libertas?

            - Acho que vão, respondeu a encarregada, logo que o inchaço das pernas ceder. Eles só soltam as prisioneiras quando estão em perfeitas condições de saúde.

            Vi-a observar a outra prisioneira: a pele e os olhos dela tinham uma coloração amarelada.

            A fila de doentes se estendia até o outro lado do hospital, mas nós entramos direto, indo para uma ala aos fundos. O quarto estava cheio, povoado de beliches. Designaram-me uma cama superior, perto de uma mulher cujo corpo estava coberto de pústulas. Estava porém, próxima à parede, e isto me possibilitava manter minhas pernas elevadas. Agora, aquilo era tudo que importava: conseguir que a inchação diminuís­se, para eu passar na inspeção.

            Não sei se aquele raio de liberdade revestira Ravensbruck de um aspecto de renovada crueldade, ou se aquela ala era mesmo o lugar mais terrível do campo; o certo é que o sofri­mento ali era inimaginável. Ao meu redor, estavam os sobre­viventes de um trem que fora bombardeado, quando se diri­gia para Ravensbruck. As mulheres estavam horrivelmente mutiladas, sofrendo dores atrozes, mas a cada gemido duas das enfermeiras zombavam delas, arremedando-as.

            Mesmo as próprias pacientes demonstravam essa indife­rença pétrea para com o sofrimento das outras, que era a "doença" mais fatal dos campos de concentração. Percebi que ela se alastrou e me atingiu também: como é que uma pessoa poderia sobreviver se se apegasse a qualquer forma de senti­mento? As que estavam inconscientes e as paralíticas esta­vam sempre caindo ao chão.

            Naquela primeira noite, quatro mulheres caíram de beliches superiores e morreram ali mes­mo. Era melhor a gente concentrar-se apenas nos próprios problemas e não ver nada, nem pensar.

            Entretanto não havia jeito de se isolar o som. A noite toda as mulheres gritavam uma palavra que eu não conhecia.

            - Schieber!

            Repetidas vezes ouvia-se aquele pedido, feito com voz ás­pera.

            - Schieber!

            Afinal, compreendi que estavam pedindo a aparadeira. Estava claro que a maioria das ocupantes dessa enfermaria não poderia ir ao sanitário imundo que servia à ala. Por fim, ainda relutando em abaixar as pernas, desci do meu catre e entreguei-me àquela tarefa. A gratidão delas era comovente.

            - Quem é você? Por que está fazendo isto?

            Era como se a crueldade e a dureza fossem a atitude nor­mal, o certo; e a decência e a bondade, a exceção, o errado.

            Quando raiou aquela madrugada de inverno, lembrei-me de que era o dia de Natal.

            Todas as manhãs eu ia à clínica, na parte fronteira do hos­pital. De lá eu ouvia a batida rítmica da Lagerstrasse. Todas as vezes, ouvia a mesma coisa: "Edema nos pés e nos torno­zelos". Muitos dos que iam à clínica eram, como eu, prisio­neiros com a ordem de soltura. Alguns já a haviam recebido há meses; seus documentos e passes da estrada de ferro esta­vam aos pedaços de tanto serem dobrados e desdobrados. E... se Betsie estivesse viva? Teríamos terminado nosso termo na prisão ao mesmo tempo. Ela, porém, nunca passaria no exame médico. E se ela estivesse aqui comigo? E se eu pas­sasse na inspeção e ela...

            Não há se no reino de Deus, ouvi sua voz suave murmurar. Ele faz tudo na hora certa. Sua vontade é como um refúgio.

            "Senhor, conserva-me dentro da tua vontade! Não me dei­xe ficar vagando fora dela, e me perder totalmente."

            Comecei a procurar alguém a quem dar a Bíblia. Seria tão fácil adquirir outras - várias outras - na Holanda. Não havia muitas holandesas naquela ala, mas, encontrei uma jovem de Utrecht, e passei o cordão do bornal pelo seu pescoço.

            Na sexta noite, as duas aparadeiras que havia no quarto sumiram. Duas ciganas húngaras ocupavam um beliche no centro do quarto, e seu matraquear era parte da babel de sons que enchia o lugar. Eu nunca chegava perto delas, pois uma estava com gangrena no pé, e gostava de esticá-lo para o rosto de quem passasse por ali.

            Alguém informou que as aparadeiras estavam com as ciganas, escondidas sob o cober­tor, para evitar-lhes a caminhada ao banheiro. Aproximei-me delas e roguei-lhes que as devolvessem, embora não estives­se certa de que entendessem alemão.

            Subitamente, no escuro, senti algo molhado e viscoso ba­ter-me contra o rosto. Uma delas retirara a bandagem do pé e a atirara em mim. Corri dali chorando, e fui ao banheiro para me lavar. Lavei-me e lavei. Nunca mais voltaria àquela ala. Que me importavam as aparadeiras? Eu não suporta­ria...

            Mas é lógico que eu voltei. Eu aprendera muita coisa, nes­se último ano, a respeito do que eu podia e não podia supor­tar. Quando as ciganas me viram descendo o corredor em sua direção, jogaram as aparadeiras no chão.

            Na manhã seguinte, o médico carimbou a aprovação clíni­ca em meu documento. Os eventos que antes se desenrola­vam com tanta lentidão, agora voavam. Numa coberta perto da saída do campo, deram-me roupas. Roupa de baixo, uma saia de lã, uma belíssima blusa de seda, sapatos de boa qua­lidade, quase novos, um chapéu e um casaco grosso. Deram-me um papel para assinar, no qual se afirmava que eu nunca estivera doente em Ravensbruck, não tivera nenhum aciden­te e que o tratamento fora bom. Assinei-o.

            Em outro prédio, recebi uma ração de pão para um dia e cupons de racionamento para mais três dias. Também recebi de volta meu relógio, meu dinheiro e a aliança de mamãe. Por fim, estávamos no portão; éramos dez ou doze pessoas.

            Os pesados portões de ferro giraram; seguindo uma guar­da, marchamos todos para fora. Subimos a colina; agora vía­mos o lago, todo congelado, naturalmente. Os pinheiros e a torre da igreja ao longe brilhavam ao sol de inverno, como num cartão de Natal antigo.

            Quase não acreditava no que me acontecia. Talvez estivés­semos apenas nos dirigindo para a fábrica da Siemens; à noite, regressaríamos ao acampamento. No topo da colina, po­rém, desviamo-nos para a esquerda, indo em direção à vila próxima. Senti meus pés se incharem novamente nos sapatos novos, mas apertei os lábios e forcei-me a continuar. Temia ver a guarda voltar-se e apontar desdenhosamente para mim: "Edema! Mande-a de volta para o campo."

            Ao chegarmos à estação, a guarda virou-se e nos deixou sem ao menos olhar para trás. Parecia que todos iríamos até Berlim, depois, cada um tomaria seu rumo. A espera foi lon­ga, naqueles bancos frios de ferro batido.

            O senso de irrealidade ainda persistia. Só uma coisa pare­cia verdade: o vazio de meu estômago. Atrasei o mais que pude o momento de comer o pão, mas afinal enfiei a mão no bolso do casaco. O pacote sumira. Saltei do banco, olhei em­baixo dele, rememorando meus passos até a estação. Não sabia se o perdera ou se me fora roubado; o fato é que não o tinha mais e nem os cupons de racionamento.

            Depois de muito tempo, um trem encostou na plataforma e nós subimos a ele, mas era apenas para militares. De tardi­nha, recebemos permissão para embarcar num trem do cor­reio, somente para ter que descer duas estações abaixo, para dar lugar a um carregamento de alimentos. A viagem tornou-se um pesadelo. Chegamos à imensa terminal ferroviária de Berlim, furada de bombas, depois da meia-noite.

            Era o dia primeiro de janeiro de 1945. Betsie estava certa; ela e eu estávamos fora da prisão...

            Confusa e assustada, fiquei vagando pela estação sombria, vendo a neve entrar por uma clarabóia quebrada. Eu sabia que devia procurar o trem de Uelzen, mas depois de tanto tempo agindo apenas sob comando, eu perdera toda a inicia­tiva. Finalmente, encontrei alguém que me indicou uma pla­taforma distante. Cada passo, agora, era uma agonia, por causa dos sapatos novos. Quando afinal alcancei a platafor­ma designada, a plaqueta de identificação dizia Olsztyn, uma cidade da Polônia, que ficava exatamente na direção oposta.

            Tive que atravessar aquela enorme área de concreto nova­mente.

            À minha frente, vi um velhinho de rosto corado, ajuntando entulho de bombardeio. Quando lhe pedi informação, pe­gou-me pelo braço e conduziu-me ele mesmo à plataforma certa.

            - Eu já fui à Holanda, disse-me com uma voz carregada de recordações, quando minha esposa era viva. Ficamos à beira-mar.

            Havia um trem parado ali, e eu subi a bordo. Passou-se muito tempo antes que aparecesse alguém, mas não ousei sair, com receio de me perder. Quando o trem partiu, eu já estava meio tonta pelo longo tempo sem comer. Na primeira parada fora de Berlim, fui ao café da estação. Mostrei meu dinheiro holandês, e disse à mulher que se achava ao balcão que perdera meus cupons.

            - Essa história é velha! Saia daqui antes que eu chame a polícia!

            A viagem foi interminável. Vários trechos foram percorri­dos muito lentamente. Algumas partes estavam destruídas, e havia desvios longos e muitas baldeações. Às vezes, por medo de bombardeios, não se parava numa estação, e a carga e os passageiros eram desembarcados fora da cidade.

            Durante todo o tempo, de minha janela, eu contemplava a outrora linda Alemanha. Florestas enegrecidas pelo fogo, as costelas descarnadas de uma igreja dominando uma vila em ruínas.

            Lágrimas me vieram aos olhos, quando vi Bremen. Em toda aquela imensidão devastada vi apenas um ser humano - uma velhinha à cata de coisas em um monte de tijolos.

            Chegando em Uelzen, tivemos que esperar durante muito tempo a troca de trens. Era tarde, e a estação estava deserta. Comecei a cochilar em um bar vazio, e minha cabeça caiu para a frente, descansando na mesa à minha frente. Fui des­pertada por um tapa no ouvido que quase me mandou ao chão.

            - Isto aqui não é quarto de hotel! gritou o agente da esta­ção furiosamente. Não pode dormir nas mesas!

            Trens iam e vinham. Eu embarcava e desembarcava. Por fim, achei-me numa fila, diante de uma coberta da alfândega de uma pequena estação, onde se lia Nieuwerschans. Quando saí, um operário que usava um macacão azul e um boné da mesma cor, aproximou-se de mim.

            - Olha, acho que não irá muito longe com a perna neste estado! Apóie-se em mim.

            Ele me falara em holandês.

            Segurei-me a ele e atravessamos alguns trilhos - eu man­cando - e chegamos a um ponto onde havia outro trem para­do, a máquina lançando fumaça pela chaminé. Encontrava-me na Holanda!

            O trem arrancou. Vastos campos, planos e cobertos de neve, passavam diante dá janela. Minha terra! Ainda era a Holanda ocupada; ainda víamos soldados alemães postados ao longo do percurso, mas era minha terra.

            O comboio iria somente até Groningen, uma cidade ain­da próxima à fronteira. Dali para a frente os trilhos esta­vam destruídos. Somente oficiais do governo tinham per­missão para viajar. Reunindo as poucas energias que ainda me restavam, encaminhei-me para um hospital perto da estação.

            Uma enfermeira de uniforme branco, imaculado, condu­ziu-me a um pequeno escritório. Depois que lhe contei minha história, ela saiu. Após alguns instantes, voltou com uma ban­deja de chá e roscas.

            - Não trouxe manteiga, disse-me. Você está subnutrida e deve ter muito cuidado com o que come.

            Lágrimas de alegria misturavam-se ao chá quente. Aqui estava alguém que se preocupava comigo. Não havia vagas no hospital, informou-me, mas uma das funcionárias estava ausente e eu poderia ficar com o seu quarto.

            - Já estou enchendo a banheira para você.

            Segui-a por um corredor, como se estivesse sonhando. O banheiro amplo estava cheio de vapor que subia de uma gran­de banheira. Nada em minha vida foi tão bom quanto aquele banho. Fiquei muito tempo ali, com água até o queixo, sentindo-a suavizar minha pele cheia de feridas.

            - Só mais cinco minutos, dizia à enfermeira, cada vez que ela batia à porta.

            Por fim, peguei a camisola que me entregou e deixei-a conduzir-me a um quarto com a cama já preparada. Lençóis! Lençóis brancos: lençol e virol. Fiquei alisando-os com a pon­ta dos dedos durante algum tempo. A enfermeira enfiou um travesseiro sob meus pés inchados. Esforcei-me para me man­ter acordada: era pena dormir e esperdiçar aquela chance de gozar a alegria de deitar numa cama limpa e receber os cui­dados de alguém.

            Permaneci no hospital de Groningen dez dias, sentindo as forças retornarem. Fazia a maioria das refeições com as enfermeiras, no seu próprio refeitório. Na primeira vez que vi a mesa posta com talheres e copos, dei para trás, assus­tada.

            - Vocês estão dando uma festa? Não quero atrapalhar; levo uma bandeja e como no quarto mesmo.

            Ainda não me sentia preparada para risadas e bate-papo informal. A moça que estava a meu lado, riu e afastou a ca­deira para mim.

            - Não é festa, não. É só um jantar - e bem pobre, aliás.

            Sentei-me, olhando pasmada para a faca, garfo e toalha - eu comera assim antes? todos os dias? Como se fosse um selvagem observando os civilizados, imitei os gestos lentos das outras, ao passarem o pão e o queijo, e mexerem o açú­car no café.

            Estava ansiosa para rever Willem e Nollie, mas como con­seguiria chegar até eles com a proibição de viajar? O telefone estava mais limitado do que nunca, mas afinal a operadora do PBX do hospital conseguiu falar com a telefonista de Hilversum, e passar-lhe as notícias da minha soltura e da morte de Betsie.

            Nos meados da semana seguinte, a direção do hospital conseguiu lugar para mim num caminhão de alimentos que ia para o sul. Essa viagem clandestina foi feita à noite, de faróis apagados: o alimento havia sido desviado de um carregamento que era destinado à Alemanha. Numa ma­nhã cinzenta, o veículo parou em frente ao Lar dos Velhi­nhos, de Willem. Uma moça alta, de ombros largos, aten­deu à porta e depois saiu correndo para avisar da minha chegada.

            No momento seguinte, eu abraçava Tine e duas de minhas sobrinhas. Willem chegou vagarosamente, manquitolando corredor abaixo, apoiado numa bengala. Ficamos abraçados um longo tempo, enquanto eu narrava os detalhes da doença e morte de Betsie.

            - Eu quase desejo que o mesmo tenha acontecido a Kik, disse Willem devagar. Seria bom se ele estivesse com Betsie e papai agora.

            Kik fora deportado para a Alemanha, e eles não tinham notícias dele desde então. Recordei o toque de sua mão em meu ombro, ao guiar-me, enquanto rodávamos pelas ruas escuras até a casa de Pickwick. Lembrei-me de sua paciência ao dizer-me: "A senhora não tem cartões a mais, Tia Corrie. Não há judeus aqui." Kik! Será que os jovens e corajosos são tão vulneráveis quantos os velhos e vagarosos?

            Fiquei duas semanas em Hilversum, tentando aceitar men­talmente a verdade que meus olhos haviam constatado em meus primeiros momentos naquela casa: Willem estava mui­to mal. Só ele parecia inconsciente deste fato, pois vagava dificultosamente pelos longos corredores do abrigo, levando conforto e aconselhamento aos doentes sob seus cuidados.

            Havia mais de cinqüenta pacientes no presente momento. O que mais me espantava era o grande número de moças que estavam servindo ali: cozinheiras, enfermeiras, secretárias. Somente alguns dias depois foi que descobri que a maioria daquelas "moças" era, na realidade, rapazes disfarçados, fu­gindo ao recrutamento para os campos de trabalho forçado, o qual estava cada vez mais rigoroso.

            Entretanto parecia que eu não poderia descansar, enquan­to não chegasse a Haarlem. Nollie estava lá, naturalmente; mas era por causa do Beje também. Alguma coisa naquela casa me atraía, me acenava dizendo-me para voltar para casa.

            E mais uma vez enfrentei o problema de como chegar lá. Willem dispunha de um carro oficial para uso do abrigo, mas apenas dentro do perímetro da cidade. Por fim, após várias chamadas telefônicas, ele me comunicou que a viagem fora arranjada.

            As estradas estavam desertas quando partimos; até o lu­gar do encontro com o carro que viria de Haarlem, cruzamos apenas com dois veículos. Um pouco adiante, parada no acos­tamento, sobre a neve, estava uma limusine preta, com placa oficial, as vidraças vedadas por cortinas. Beijei Willem em despedida, e depois entrei rapidamente no carro, pela porta traseira, como havia sido instruída. Mesmo na meia escuri­dão interior, era difícil não reconhecer aquele volumoso e desajeitado vulto a meu lado.

            - Tio Herman! gritei.

            - Cornélia!

            Com sua mão enorme, segurou a minha.

            - Deus permitiu-me vê-la novamente.

            A última vez que eu o vira fora na prisão de Haia, ladeado por dois soldados, tendo a cabeça ferida, coberta de sangue. Agora, ali estava ele, dando de ombros às minhas palavras de pesar, como se aqueles eventos tivessem sido um incidente trivial demais para ser mencionado.

            Ele parecia-me - como sempre - muito bem informado sobre tudo que ocorria em Haarlem, e enquanto o motorista fardado nos levava rapidamente pelas estradas vazias, deu-me todos os detalhes que eu ansiava saber. Todos os nossos judeus estavam a salvo, exceto Mary Itallie, que fora presa numa rua, e enviada para a Polônia. Nosso grupo ainda esta­va em funcionamento, embora muitos dos nossos jovens esti­vessem foragidos.

            Ele advertiu-me quanto a mudanças no Beje. Depois que a guarda policial fora retirada, famílias desabrigadas, uma após a outra, haviam se instalado ali, embora ele cresse que, no momento, o lugar estivesse desocupado. Mesmo antes de os selos do governo serem retirados, nossa leal Toos havia re­tornado de Scheveningen e reabrira o negócio.

            O Sr. Beukers, nosso vizinho do lado, cedera-lhe espaço em sua ótica e ela estava recebendo pedidos de consertos e encaminhando-os aos nossos relojoeiros em suas próprias casas.

            Quando meus olhos se ajustaram à meia-luz, pude distin­guir melhor as feições de nosso amigo. Tinha um ou outro calombo na cabeça, faltavam-lhe alguns dentes, mas o sofri­mento não mudara em nada sua grande e bondosa figura.

            Agora, o carro já seguia pelas ruas estreitas de Haarlem. Atravessou a ponte do Spaarne, depois a Praça Grote Markt, à sombra da catedral de São Bavo, e, depois, entrou na Rua Barteljoris. Quase antes que o carro parasse, eu já me encon­trava fora dele; corri pela ruela lateral, entrei pela porta, e abracei Nollie. Ela e as filhas tinham estado lá a manhã toda, varrendo, lavando janelas, arejando os lençóis, preparando tudo para minha chegada.

            Por sobre o ombro de Nollie, vi Toos junto à porta interna da loja, rindo e chorando ao mes­mo tempo. Rindo porque eu estava de volta, e chorando por papai e Betsie que nunca mais retornariam, e eles eram as duas únicas pessoas do mundo a quem ela se permitira amar.

            Fomos todos andando pela casa, olhando, tocando em tudo:

            - Você se lembra como Betsie arranjava estas xícaras?

            - Lembra-se como Meta zangou com Eusie por ele ter es­quecido o cachimbo aqui?

            Parei no patamar diante da sala de jantar, e corri os dedos pela madeira lisa do relógio frísio. Quase via papai parando ali, com Kapteyn em seus calcanhares:

            - Não podemos deixar o relógio parar!

            Abri a tampa de vidro, acertei os ponteiros pelo meu reló­gio de pulso, e, vagarosamente, puxei os pesos. Eu chegara em casa. A vida começou de novo, como um relógio: de ma­nhã, conserto de relógios na loja; à tarde, quase sempre, ro­dando em minha bicicleta sem pneus até a Rua Bos en Hoven.

            No entanto, inexplicavelmente, eu não me sentia em casa. Ainda aguardava; ainda estava procurando alguma coisa. Durante alguns dias, dei voltas pelas redondezas, pelas rue­las e margens dos canais, chamando nosso gato pelo nome.

            Uma velhinha que vendia verduras três portas abaixo, con­tou-me que o ouvira miar ali perto, na noite de nossa prisão, e ela o fizera entrar. Nos várias meses que se seguiram, disse-me, as crianças da vizinhança tinham se revezado para trazer comida ao "gatinho do vovô". Traziam restos do lixo, e mes­mo pedacinhos de coisas furtados de sua magra alimentação, de sob os olhos vigilantes de suas mães, e assim, Hashbaz se mantivera bem nutrido e gordo.

            Nos meados de dezembro, continuou ela, ele não aparece­ra mais ao seu chamado e, depois disso, ela nunca mais o vira. Continuei a procurar, mas com o coração pesado: na­quele rigoroso inverno holandês, com a fome que reinava, nenhum gato ou cachorro atendeu ao meu chamado.

            Mas eu não estava sentindo falta apenas do gato; o Beje precisava de gente para enchê-lo. Lembrei-me das palavras de papai ao chefe da Gestapo em Haia: "Amanhã abro mi­nhas portas para qualquer pessoa que precisar de mim." Nin­guém na cidade estava mais necessitado que os retardados.

            Desde o início da ocupação nazista, as famílias os haviam encerrado em quartinhos traseiros, escondidos de um gover­no que dizia serem eles inaptos para viver. Escolas e centros de treinamento especializado tinham sido fechados. Pouco depois, havia um grupo deles morando no Beje. Ainda não podiam sair às ruas, mas, pelo menos, tinham um ambiente novo, e um pouco de organização e treinamento, quando eu podia me ausentar da loja.

            Entretanto, minha inquietação perdurou. Eu me achava em casa; estava trabalhando, e muito! - ou será que estava mesmo? Muitas vezes eu dava comigo mesma sentada à ban­ca de trabalho e via que estivera com os olhos fixos no vácuo muito tempo. Os consertadores que Toos arranjara para nos auxiliar - antigos aprendizes de papai - eram ótimos. Eu pas­sava cada vez menos tempo na oficina; o que quer ou quem quer que eu procurava não se encontrava ali.

            Nem na residência. Eu amava aquelas almas cândidas que se achavam sob meus cuidados, mas a casa mesmo não era mais um lar. Por causa de Betsie, comprei plantas para todas as janelas, mas esqueci-me de molhá-las, e se secaram.

            Talvez eu estivesse sentindo falta daquele desafio do mo­vimento clandestino. Quando a organização nacional me apa­receu com um pedido, acedi prontamente. Eles me entrega­ram um documento falso de soltura, para um prisioneiro que estava na cadeia de Haarlem. Nada podia ser mais simples do que dobrar aquela esquina e penetrar por aquela porta tão minha conhecida.

            Contudo, quando as portas se cerraram às minhas costas, meu coração disparou. E se eu não conseguisse sair? E se aquilo fosse uma armadilha?

            - Às ordens!

            Um tenente de polícia, um jovem de cabelos vermelhos, apresentou-se saindo de detrás da mesa.

            - Tem hora marcada?

            Era Rolf. Por que estaria agindo assim? Será que eu estava sendo detida? Iriam colocar-me numa cela?

            - Rolf, disse-lhe, não me reconhece?

            Ele me fitou fixamente, como se tentasse rememorar.

            - Ah! Naturalmente! disse com voz suave. É a senhora da relojoaria! Soube que sua loja esteve fechada por algum tem­po!

            Deixei cair o queixo. Ora, Rolf sabia perfeitamente... en­tão me lembrei de onde nos encontrávamos: no saguão da chefatura de polícia. E havia cinco ou seis soldados alemães nos espiando. E eu havia chamado pelo nome a um membro do nosso grupo, e havia praticamente admitido haver um certo relacionamento entre nós, quando a regra de ouro do movi­mento era... Passei a língua nos lábios. Como eu podia ser tão estúpida?

            Minhas mãos tremiam. Rolf retirou os papéis de entre elas e olhou-os rapidamente.

            - Estes documentos têm que ser revistos pelo chefe de polícia e pelo comandante militar, em conjunto, disse ele. Será que a senhora pode trazê-los de novo amanhã, às qua­tro horas da tarde? O chefe está em reunião e vai demorar até...

            Não ouvi mais nada. Quando ele dissera "amanhã à tar­de", eu me dirigira para a porta. Fiquei parada na calçada até meus joelhos cessarem de tremer. Se eu precisasse de uma prova de que não possuía nenhuma ousadia nem sagacidade em mim mesma, eu a tinha agora. Qualquer momento de coragem ou habilidade que eu tivesse tido, fora apenas um dom especial de Deus, uma capacitação momentânea, por ele dada para que eu pudesse realizar uma determinada tare­fa. A ausência de tais qualidades agora mostrava claramente que ele não desejava mais que eu recomeçasse este trabalho.

            Retomei ao Beje lentamente. E então, no instante que entrei na ruela lateral, fiquei sabendo o que era que eu procurava.

            Era Betsie.

            Fora de Betsie que eu sentira falta a cada minuto de cada dia, desde que correra àquela janela de hospital e descobrira que ela deixara Ravensbruck para sempre. Fora Betsie que eu pensara encontrar aqui em Haarlem, na loja, na casa que ela tanto amara.

            Mas ela não estava aqui. E agora, pela primeira vez depois de sua morte, eu me lembrava de uma coisa.

            "Temos que contar aos outros, Corrie. Temos que dizer a eles o que aprendemos aqui..."

            Naquela mesma semana eu comecei a falar disso. Se esse era o novo trabalho de Deus para mim, então ele me daria a coragem necessária e as palavras. Andei pelas ruas e subúrbios de Haarlem, sacolejando em minha bicicleta, levando a todos a mensagem de que a alegria é maior que o desespero.

            Era uma mensagem de que todos precisavam, naquela pri­mavera de 1945. Agora não havia mais a "Noiva de Haarlem", para encher o ar com sua doce fragrância; dela só restava um toco, grande demais para ser carregado e transformado em lenha. Não havia mais tulipas a cobrir o chão de um tapete colorido; as batatas haviam sido comidas. Não havia família que não tivesse sua tragédia. Naqueles dias de tanto desespe­ro, falei em igrejas, clubes e lares, a respeito do que eu e Betsie havíamos aprendido em Ravensbruck.

            Em todas as reuniões, eu contei do anseio de Betsie: uma casa na Holanda, onde todos os que tivessem sido afetados de algum modo pela guerra, pudessem se rea­daptar à vida. Após uma dessas palestras, uma senhora elegante e de porte aristocrático veio até mim. Eu a conhe­cia de vista: era a Sra. Bierens de Haan, cuja casa, situada no subúrbio de Bloemendaal, era considerada uma das mais belas da Holanda. Eu nunca a vira; havia visto apenas as árvores que a cercavam, pois fora construída num parque. Fiquei atônita quando aquela mulher bem vestida pergun­tou-me se eu ainda morava na mesma casa velha, na Rua Barteljoris.

            - Como foi que... é... moro sim, mas...

            - Minha mãe me falou muito dessa casa. Ela foi lá várias vezes para ver uma tia sua que, segundo creio, trabalhava em obras de caridade.

            No mesmo instante, recordei-me de tudo. A porta lateral sendo aberta para dar entrada a um farfalhar de cetim, e um murmúrio de penas de chapéu. Um vestido longo, plumas que tomavam toda a estreita escada. Depois, a Tia Jans de pé à porta, olhando-nos com uma expressão grave que mataria em nós qualquer desejo de bater uma bola, fazer um ruído ou algazarra...

            - Sou viúva, estava dizendo a Sra. de Haan, mas tenho cinco filhos trabalhando na resistência. Quatro deles estão bem. O outro foi levado à Alemanha e nunca mais tivemos notícias dele. Quando você estava falando, ouvi uma voz den­tro de mim que dizia: "Jan vai voltar, e, em gratidão, você vai dar seu lar para esse projeto de Betsie ten Boom."

            Duas semanas mais tarde, um garotinho entregou-me um envelope em nossa porta. Dentro havia um bilhete com ape­nas uma linha, escrita em tinta roxa.

            "Jan chegou."

            A Sra. Bierens de Haan recebeu-me à entrada da proprie­dade. Seguimos por um caminho ladeado de carvalhos, cujos ramos se entrelaçavam acima de nossas cabeças, como um toldo. Dobrando a última curva, eu a vi: uma mansão de cin­qüenta e seis cômodos, no centro de um grande gramado. Dois jardineiros idosos trabalhavam nos canteiros.

            - Deixamos as plantas morrerem, informou-me a Sra. de Haan, mas agora acho que devemos arranjar os jardins nova­mente. Você não acha que observar as plantas se desenvolve­rem será uma boa terapia para os ex-prisioneiros?

            Não respondi. Estava olhando para os espigões do telhado e para as janelas -janelas tão amplas...

            - Aqui tem... minha garganta estava seca. Acaso o piso é todo taqueado, e tem uma escadaria ladeando o hall central, e estátuas em baixo relevo na parede?

            Ela fitou-me, surpresa.

            - Ah! você já esteve aqui, então. Não me lembro...

            - Não, respondi. Ouvi alguém falar sobre ela...

            Parei. Como poderia explicar algo que eu mesma não compreendia?

            - Alguém que já veio aqui, completou ela sem entender meu assombro.

            - É, disse-lhe. Alguém que já esteve aqui.

            Na segunda semana de maio, os aliados tomaram a Ho­landa. A bandeira holandesa drapejava em todas as janelas, e o Wilhelmus era tocado, dia e noite, em nossas rádios, ago­ra operando livremente. O exército canadense transportou para as cidades o alimento que havia sido armazenado ao longo da fronteira.

            Em junho, chegaram ao nosso Lar, em Bloemendaal, os primeiros de centenas de refugiados que viriam a morar ali. Alguns eram silenciosos, outros falavam incessante­mente de suas perdas; uns arredios, outros fortemente agressivos, cada um era um ser humano ferido. Nem to­dos haviam estado em campos de concentração; alguns tinham ficado dois, três e até quatro anos escondidos em sótãos e quartinhos de despejo.

            Um dos primeiros foi a Sra. Kan, viúva do proprietário da relojoaria que ficava na mesma rua que a nossa. O marido morrera no esconderijo; ela veio sozinha. Estava velhinha, de cabelos brancos, encurvada e se assustava ao menor ruí­do. Outros estavam feridos na alma e no corpo, pelos bom­bardeios ou perda de entes queridos, ou pelos intermináveis deslocamentos durante a guerra. Em 1947, começamos a re­ceber holandeses que tinham sido prisioneiros dos japoneses na Indonésia.

            Embora não fosse feito de propósito, isto provou ser um dos melhores arranjos para os que tinham estado em prisões na Alemanha. Entregues a si mesmos, eles tinham a tendên­cia de reviver seus sofrimentos; em Bloemendaal, estavam sempre sendo relembrados de que não eram os únicos que haviam sofrido. Contudo o segredo da cura completa era o mesmo para todos. Cada um tinha uma mágoa que precisava perdoar: o vizinho que o delatara, um guarda brutal, um sol­dado sádico.

            O mais estranho, porém, era que os mais difíceis de serem perdoados não eram os japoneses e alemães, mas, sim, um compatriota que se tinha bandeado para o inimigo. Eu via muitos nazistas holandeses nas ruas - cabeças raspadas, olha­res furtivos. Estes colaboracionistas estavam em condições tristes. Eram despejados de suas casas ou apartamentos, re­cusados em empregos e vaiados nas ruas.

            A princípio, pensei convidá-los para vir para Bloemendaal, e viver lado a lado com as pessoas que eles próprios haviam prejudicado, a fim de procurar criar um sentimento novo de ambas as partes. Descobri, porém, que ainda era muito cedo para se tentar tal coisa com pessoas que ainda estavam se desfazendo de suas mágoas.

            Duas tentativas nossas termina­ram em atritos. Assim, logo que as escolas e centros para retardados foram reabertos, dediquei o Beje para abrigo dos ex-nazistas.

            E assim foi, naqueles primeiros anos após a guerra: experi­mentando aqui e ali, cometendo erros, aprendendo. Os médi­cos, psiquiatras e nutricionistas que davam consultas grátis a organizações que cuidavam de vítimas da guerra, muitas ve­zes expressavam espanto pela nossa disciplina frouxa.

            Pessoas entravam e saíam nos devocionais matutinos e noturnos; o comportamento à mesa era horrível; havia um homem que dava uma caminhada pela cidade, todos os dias às três horas da madrugada. Eu não conseguia ser severa bastante para trilar um apito ou fazer reprimendas, nem considerar a hipótese de trancar portas e estabelecer horários rígidos.

            Uma coisa, porém, era certa: cada um deles, à sua própria maneira e em seu tempo próprio, acabava se livrando da dor profunda que o atormentava. Na maioria das vezes, o proces­so se iniciava, como Betsie havia previsto, no jardim e na horta.

            As flores se abriam; as verduras e legumes cresciam, a conversa girava cada vez menos em torno daquele passado amargo, e mais sobre as condições do tempo no dia seguinte. Assim que a mente de uma pessoa se alargava, eu lhe falava dos que estavam no Beje; gente que nunca recebia uma visi­ta, nem uma linha de correspondência.

            Quando a menção de um nazista deixava de provocar uma erupção de raiva, eu sabia que a cura não demoraria muito. No dia em que a pes­soa dizia: "Aquela gente de quem você falou, será que eles gostariam de umas cenouras de nossa horta?" então eu sabia que o milagre se dera.

            Ao mesmo tempo, eu continuei a fazer minhas palestras, em parte, porque o abrigo era sustentado por contribuições, e em parte porque parecia haver um grande interesse pela história de Betsie. Viajei por toda a Holanda, e fui a outras partes da Europa e aos Estados Unidos.

            Contudo esse interesse era maior na Alemanha que em qualquer outro lugar. A Alemanha era uma terra em ruínas; as cidades eram cinzas e detritos, mas ainda mais terrível era ver os corações e mentes em cinzas. Bastava cruzar a frontei­ra para se sentir o grande peso que pairava sobre aquele país.

            Em uma igreja de Munique eu o vi: o antigo oficial da SS que estivera de guarda diante do chuveiro, no centro de tria­gem de Ravensbruck. Era o primeiro de nossos algozes que eu reencontrava.

            Repentinamente, a recordação me assaltou, e senti-me de volta ali: a sala cheia de homens zombeteiros, o monte de roupas, Betsie com o rosto branco de dor.

            Ele dirigiu-se a mim, sorridente para me cumprimentar, quando a congregação já se dispersava.

            - Muito obrigado por sua mensagem, D. Corrie, disse ele. E pensar que, como a senhora disse: "Ele apagou todos os meus pecados!"

            Sua mão estendia-se em minha direção. E eu, que falara tantas vezes em Bloemendaal sobre a necessidade do per­dão, conservei a mão abaixada.

            Ao mesmo tempo que esses pensamentos me queimavam, percebi o pecado que cometia. Jesus Cristo tinha morrido por este homem; poderia eu exigir mais?

            "Senhor Jesus", orei, "perdoa-me e ajuda-me a perdoá-lo."

            Tentei sorrir; lutei para estender a mão. Não conseguia. Não sentia nada, nem a menor centelha de calor humano ou caridade. Orei de novo, em silêncio.

            "Jesus, não consigo perdoá-lo. Dá-me do teu perdão."

            Logo que apertei sua mão, um fato incrível aconteceu. Uma espécie de corrente elétrica pareceu passar de mim para ele, brotando de meu ombro e descendo pelo meu braço até ele, e, de meu coração, nasceu um amor tão grande por aquele homem, que quase me sufocou.

            Foi assim que aprendi que não é em nosso perdão, nem em nossa justiça própria, que repousa a sorte do mundo, mas nos do Senhor. Quando ele nos ordena que amemos os nos­sos inimigos, ele nos dá, juntamente com a ordem, o seu amor.

            Era preciso muito amor. A necessidade mais premente da Alemanha de após guerra era lares. Dizia-se haver nove mi­lhões de pessoas desabrigadas. Elas viviam em escombros, em construções semi-destruídas, e em caminhões do exército que haviam sido abandonados.

            Uma igreja convidou-me para falar a cem famílias de refugiados que estavam vivendo numa fábrica abandonada. Eles penduravam lençóis e cobertas a fim de se isolarem em família. Contudo não havia jeito de se isolar o som: o choro de um bebê, o alarido dos rádios, as palavras ásperas de uma briga entre irmãos... Como poderia eu falar-lhes da realidade de Deus, e depois voltar ao meu quarto tranqüilo, na hospedaria da igreja, nos arredores da cidade? Não; antes de poder falar a este povo, eu tinha de viver entre eles.

            Foi durante os meses que passei naquela fábrica que o diretor de uma organização assistencial veio falar comigo. Tinham ouvido falar de meu trabalho de reabilitação, na Holanda, disse-me, e gostariam de saber... eu já estava abrin­do a boca para informar-lhe que não tinha treinamento pro­fissional no assunto, mas suas palavras seguintes me silen­ciaram.

            - Já temos o local, disse ele. É um campo de concentra­ção que foi recentemente liberado pelo governo.

            Fomos até Darmstadt para ver o local. Rolos e rolos de arame farpado enferrujado ainda o circundavam. Caminhei por uma estradinha de cascalho, por entre alojamentos cin­zentos. Abri uma porta e ela rangeu. Passei por entre as ca­mas de metal.

            - Precisamos de flores nas janelas, disse. Poremos caixas de flores em todas elas. Teremos que tirar o arame farpado, lógico; depois vamos pintar tudo. De verde. Verde-claro bri­lhante - a cor das plantinhas novas, quando ressurgem na primavera...

            Juntamente com uma comissão da Igreja Luterana Alemã, Corrie abriu o campo de Darmstadt, em 1946, para ser abrigo e centro de reabilitação. Funcionou assim até 1960, quando foi demolido para dar lugar a outras construções, na nova Alemanha em desenvolvimento.

            O Lar de Bloemendaal abrigou exclusivamente ex-prisio­neiros e outras vítimas da guerra até 1950, quando então passou a receber qualquer um que precisasse de descanso e cuidados. Ainda hoje encontra-se em operação, com um novo prédio, tendo pacientes de todas as partes da Europa. De 1967 para cá, está sob a orientação da Igreja Reformada Holande­sa.

            Willem morreu em dezembro de 1946, de tuberculose es­pinhal. Seu último livro, um estudo sobre os sacrifícios do Velho Testamento, ele o escreveu de pé, pois a dor que sentia, causada pela enfermidade, não lhe permitia sentar-se.

            Instantes antes de morrer, ele abriu os olhos para dizer a Tine:

            "Kik está bem; ele está muito bem."

            Foi somente em 1953 que a família veio a saber que o rapaz morrera em 1944, no campo de concentração de Berger-Belsen. Hoje existe em Hilversum uma rua de nome ten Boom, em homenagem a Kik.

            Após suas experiências na guerra, Peter van Woerden de­dicou seu dom musical a Deus. Ele já compôs muitos hinos, tendo musicado muitos salmos e provérbios. Ele, a esposa e seus cinco filhos viajam por toda a Europa e Oriente Médio, transmitindo a mensagem do amor de Deus, através da músi­ca.

            Em 1959, Corrie voltou a Ravensbruck, com um grupo que fora ali para homenagear as 96.000 mulheres que morreram naquele campo. Ali, Corrie veio a saber que sua soltura se deveu a erro burocrático: uma semana depois, todas as prisi­oneiras de sua idade foram levadas às câmaras de gás.

            Com mais de oitenta anos, Corrie ten Boom continuava suas infatigáveis viagens, em obediência ao desejo de Betsie de que "deviam contar aos outros". Ela visitou e falou em dezenas de países, dentro e fora da Cortina de Ferro. Todos os seus ouvintes: sejam estudantes africanos, plantadores de cana-de-açúcar em Cuba, prisioneiros de uma penitenciária da Inglaterra, operários poloneses, etc, ouviram a mesma mensagem - a que ela aprendeu em Ravensbruck: Jesus trans­forma a derrota em vitória, e a perda em ganho.