Dubuque, Iowua - 1969
Era escuro como uma cripta naquele subsolo. Talvez porque
estivéssemos sentados num lugar bem junto a uma cripta, no porão, embaixo do
departamento de música da faculdade que eu freqüentava. Éramos cinco ou seis estudantes,
sentados em círculo no chão, com as pernas cruzadas, de mãos dadas, no escuro.
Invocávamos o espírito da mulher que estava sepultada do outro lado de duas
enormes portas de carvalho, naquele subsolo do departamento de música.
O líder do círculo na nossa pequena sessão espírita estava
um ano à minha frente na faculdade e, sem dúvida, havia se desenvolvido mais do
que eu em magia negra. Era Halloween, e nada melhor do que comemorá-lo
invocando o espírito de alguém que tinha sido uma das pessoas de maior destaque
naquela comunidade. A mulher fora sepultada no subsolo do departamento de
música porque seu marido contribuíra não só para a construção da capela situada
acima, como também para a edificação de vários outros edifícios no campus
universitário. Tal como acontecia com os benfeitores na Idade Média, foi desejo
seu que o túmulo da esposa ficasse instalado sob o altar principal da igreja
que ele havia construído.
Nosso líder, Dave (não é esse o seu verdadeiro nome),
clamou, em voz grave e bem fúnebre:
— Invocamos o espírito de F... W... . Queremos penetrar o
véu do além e falar com ela.
Nada ouvimos, a não ser o nosso coração batendo um pouco
mais forte do que o normal. Dave continuou:
— O F... , nós a invocamos. Rasgue esse véu e comunique-se
conosco! Isso é tudo o que queremos. Dê-nos um sinal de que há vida além da
morte.
O silêncio que se seguiu criou um ambiente agourento: as
trevas eram mais tangíveis a cada minuto. De repente, as enormes portas de
carvalho que nos separavam do jazigo começaram a trepidar. A princípio, um
tanto pausadamente, mas, depois de alguns segundos, nós, que nos encontrávamos
sentados em círculo, ouvimos um ruído alto e estrondoso.
Quase nos matamos, debandando, à toda, do porão, naquela
noite fria de Halloween. Lá fora, respiramos bem fundo e fomos a uma pizzaria
para avaliarmos nossa experiência parapsicológica. O que não sabíamos é que
estávamos prestes a receber a lição de que
“com certeza o seu pecado vai ser descoberto'’.
Eu era encarregado, na faculdade, de atender as pessoas na
biblioteca do departamento de música; possuía, assim, uma chave do local. Foi
desse modo que pudemos ir ao subsolo do departamento após o horário normal. Eu
tinha de permanecer naquele departamento boa parte do tempo depois do
expediente. Os estudantes de música costumavam vir a mim também com questões e
problemas.
Na semana seguinte à nossa “sessão espírita”, vários alunos,
que nada sabiam da nossa tentativa de invocar o espírito de uma pessoa morta —
pois mantivemos o caso em segredo entre nós —, vieram até mim para fazer
estranhas indagações, do tipo:
— Quem está tocando piano lá na sala 4?
Tinham ouvido nitidamente o som do piano e chegaram a ir à
sala 4 para verificar quem estava tocando, mas não encontraram ninguém.
Aparentemente, tratava-se sempre da mesma melodia.
Se isso não bastasse, certa noite eu estava na sala do chefe
do departamento fazendo cópias de fitas cassetes para ele quando,
inexplicavelmente, a mesma melodia surgiu nas fitas cassetes que eu estava
copiando, sem qualquer explicação de como isso poderia ter acontecido. O
departamento de música começou, então, a ganhar certa “reputação”.
Um dia, um estudante corpulento ao entrar no departamento,
foi imediatamente arremessado para fora por poderosas mãos invisíveis, com uma
força tal que chegou a deslocar os seus ombros.
De outra feita, uma freira viu uma mulher de baixa estatura,
mas bastante robusta, descendo pelos corredores, trajando um vestido verde de
cetim. Posteriormente, ficamos sabendo que a descrição da mulher coincidira com
o retrato oficial de F... W... !
Em outra ocasião, ainda, uma aparição atingiu-me em cheio.
Eu tinha o cuidado de nunca ficar nas salas com a luz
apagada. Por experiência, sabia que as pessoas que se aventurassem a entrar no
departamento de música com as luzes todas apagadas, normalmente sairiam dali
com lesões no corpo.
Mas, numa noite, tinha acabado de sair do departamento com
um casal de amigos, quando me dei conta de que havia esquecido alguma coisa.
Voltei ao recinto, estando as luzes apagadas, e nem me lembrei de acendê-las.
Mal havia dado alguns passos no hall de entrada quando senti uma coisa
repugnante agarrar a barriga da minha perna esquerda, prendendo-a com garras
abrasadoras.
Em toda a minha perna que latejava, senti como se a pele estivesse
queimando. Gritei e saí mancando do departamento, quase chorando de dor. O
exame médico constatou que havia uma lesão do tipo queimadura, aproximadamente
do tamanho de uma mão, na barriga da minha perna. Por várias semanas, depois
desse incidente, tive que andar visivelmente mancando.
Por estranho que pareça, durante cerca de dez anos não
cresceram pelos na região afetada.
Um dos episódios mais espantosos, com respeito a essas
coisas assombrosas, ocorreu quando a cidade de Dubuque foi atingida, certa
noite, por forte tempestade. O mau tempo causou a interrupção do fornecimento
de energia elétrica em todo o campus.
Como eu era o encarregado da biblioteca do departamento, o
deão dos alunos me pediu que ficasse vigiando as portas do departamento, trancadas.
Foi com relutância que acedi, pois tinha ouvido falar de acontecimentos muito
estranhos que ocorreram ali. Depois de algum tempo, o órgão começou a tocar
dentro do departamento, mas eu não estava nada disposto a ir investigar o que
estava acontecendo, pois teria de andar pelos corredores totalmente escuros.
Após alguns minutos, o deão desceu com uma lanterna e, muito
bravo, perguntou quem estava tocando o órgão. Respondi-lhe que as portas
estavam trancadas e — o que era mais espantoso — que o único órgão que havia no
departamento de música era um aparelho elétrico. Ele me disse que isso era um
absurdo, abriu a porta e, soltando uma imprecação, entrou. Assim que ele
penetrou a escuridão do departamento, sua lanterna, misteriosamente, se fez em
pedaços em sua mão. Saímos correndo de lá, enquanto o órgão continuava tocando.
Tal como um contágio, os acontecimentos sobrenaturais foram
se espalhando para as outras faculdades locais. Uma jovem, amiga de um dos
rapazes presentes na reunião que detonara todos esses acontecimentos, e que
agora considerávamos ignóbil, teve uma experiência e tanto. Ela sentiu a
presença de (e depois viu) uma enorme criatura, à semelhança de um lagarto,
arrastando-se até a sua cama, no seu dormitório, enquanto, paralisada, assistia
à coisa permanecer em cima do seu cobertor durante um período de tempo que
parecia uma eternidade. Sua companheira de quarto, ao chegar, deparando-se com
o intruso, gritou, assustada, e ele imediatamente desapareceu.
Toda essa agitação causada pelo sobrenatural, no entanto,
serviu apenas para alimentar o meu interesse pelo ocultismo. Decidi que, uma
vez que eu havia contribuído para a vinda do espírito, tinha a responsabilidade
de mandá-lo de volta para o seu “descanso”. Comprei, então, um manual de feitiçaria,
intitulado A Maior Chave de Salomão [em Inglês, The Greater Key of Solomon, que
continha rituais mágicos de exorcismo. Eu me dispunha a fazer o que fosse
necessário para lançar naquele espírito tudo o que estivesse no livro, a fim de
fazê-lo parar de vez.
No dia do aniversário da morte da referida mulher, diversos
amigos meus reuniram-se do lado de fora do porão da capela. Ali estavam para
ver o que iria acontecer comigo! Eu abri a porta do departamento de música e,
segurando o livro, fui até as terríveis portas de carvalho. Meu coração
disparava como uma britadeira.
Abri as portas que davam para o túmulo e entrei.
O jazigo, em mármore, atingia um metro de altura do piso do
subsolo. Eu já sabia disso, pois tinha feito previamente um reconhecimento do
local à plena luz do dia. Agora, porém, a única luz que havia era a da rua, que
vinha de um semicírculo de janelas que circundavam a enorme cripta. Fazia tanto
frio no local que dava para ouvir a minha respiração ofegante. Eu sabia, de
meus estudos, que um frio sobrenatural é sinal de um elevado grau de atividade
paranormal.
Andei, então, em volta do túmulo e comecei a recitar o
ritual de exorcismo do livro, com a voz mais firme e autoritária que eu
conseguia naquelas circunstâncias. Minha voz soava de modo sobrenatural e
reverberava no espaço vazio de pedra da cripta, mas não fui interrompido por
outros sons e movimentos.
Do lado de fora, meus amigos aguardavam os acontecimentos
com ansiedade; uma grande parte deles esperava ver-me arremessado para fora,
pelas janelas, fragmentado em pequenos pedaços, por ter ousado entrar no túmulo
da pobre mulher. Estavam também de guarda, pela segurança do campus.
Lá dentro, finalmente, concluí todo o ritual, um tanto
enfadonho. Então, “conjurei” o espírito a que fosse embora e que nunca mais
retornasse. Contive minha respiração por um instante, para ver se algo
acontecia.
Nada aconteceu.
Finalmente, num ato de triunfalismo jovem, subi no túmulo e
desafiei a temível F... W... a fazer alguma coisa.
Nada.
Depois de alguns minutos, fechei o livro, deixei calmamente
a cripta, saí e tranquei a porta do departamento de música. Meus amigos se
alegraram quando me viram, mas, no fundo do meu coração, eu achava que eles
estivessem esperando uma manifestação visível e espetacular, com raios e luzes
saindo do lugar.
Pelo que sei, isso foi o fim das ocorrências paranormais no
departamento de música. Fiquei conhecido como o “exorcista” da faculdade.
Toda essa minha experiência contribuiu para apoiar ainda
mais minha crença nos poderes da magia e do ocultismo. Minha carreira como
feiticeiro tinha, oficialmente, começado.
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Minha esposa (que era grande sacerdotisa) e eu fomos
chamados para resolver a situação de uma casa que era muito grande e de alto
valor, mas que estava mal-assombrada. Será que as pessoas pedem a bruxos que as
livrem de espíritos em suas casas?
Bem, elas o fazem sim, quando se encontram num estado
desesperador. O casal que morava na casa tinha visto o bastante para quase
serem levados à morte. A mulher era católica, e o marido, completamente ateu.
Mas os acontecimentos na casa lhes causaram um enorme terror. Na verdade, o
homem chegou ao ponto de dizer que, se não conseguíssemos livrar a casa daquele
mal, poderiam os fica r com ela. Já havia, inclusive começado a fazer planos
para a mudança.
A mulher havia telefonado para a arquidiocese católica, mas
tudo o que puderam fazer foi enviar um sacerdote para benzer a casa. Ao
terminar a benzedura, enquanto o padre saía, risos de zombaria irrompiam por
todo canto. A senhora tinha ouvido falar de nós por meio de alguém que nos
conhecia (pois era um de nossos melhores alunos da escola de bruxaria que então
mantínhamos) e nos chamou. Isso ocorreu há cerca de 12 anos antes do filme Os
Caça-Fantasmas.
Fazíamos parte da alta hierarquia da feitiçaria, como
sacerdotes, e éramos druidas. Fomos, então, convocados para enfrentar aquela
casa infestada de espíritos malignos e poderosos, situada no alto de uma
colina, de onde se descortinava toda a cidade de Dubuque.
Os proprietários nos relataram a difícil situação que
estavam vivendo, e decidimos ajudá-los. Tínhamos sido recentemente treinados e
chegado ao nível de alto sacerdócio; assim, achávamos estar preparados para
enfrentar qualquer tipo de fantasma.
O casal tinha se apavorado, principalmente porque um dos
fantasmas ameaçava as crianças. Elas se queixavam de pesadelos e 25 de verem
coisas assustadoras no quarto. O pai, apático e materialista, tinha sido
acordado numa noite por algo que puxava as cobertas da sua cama. Viu uma
aparição branca pairando no ar, aos pés da cama. Tinha garras afiadas, que
começaram a puxar as cobertas. Quando ele se levantou da cama para acossá-la,
ela deslizou pelo corredor de um modo tão suave que parecia ter rolamentos nos
pés. O homem a perseguiu passando pelos quartos das crianças e escada abaixo. O
vulto o levou pela grande sala, à cozinha e, alcançando a porta dos fundos,
passou por ela. O homem tentou alcançá-lo, mas, quando abriu a porta, teve um
enorme choque: no lugar do seu quintal, havia um abismo infinito de estrelas!
Ele sentiu o vento da eternidade roçando seu rosto e voltou correndo para
dentro de casa, tomado de terror. Foi então que fomos chamados.
Visitamos a casa, discutimos o problema e nos inteiramos do
histórico da mansão. Em seguida, pedimos aos proprietários permissão para ver o
“coração” da casa. Os ocultistas e os parapsicólogos acreditam que as casas
mal-assombradas, em sua maioria, têm um “coração”, ou seja, um centro
espiritual do qual provém toda a ação sobrenatural. Geralmente é um lugar
bastante frio.
No caso deles, rapidamente descobrimos que era o quarto
principal, o do casal.
Esse quarto era gelado. Dava para sentir a própria
respiração.
Os demais cômodos, porém, eram agradáveis e aquecidos. Um
grande espelho, na porta do closet daquele quarto, não tinha mais uma ótica
perfeita, tornando-se todo ondulado, como um espelho de parque de diversões, e
que tremia assustadoramente quando olhávamos para ele.
Prosseguimos, então, com os procedimentos que havíamos
aprendido. Sentamo-nos e fizemos uma pesquisa espiritual naquele quarto
principal da casa. Conseguimos determinar que havia aparentemente dois
espíritos: o primeiro era de um velho cruel, com tendências para a pedofilia; o
outro era um espírito de mulher bem mais velha, que era boa. Possivelmente, ela
estaria querendo informar os pais, de algum modo, sobre os propósitos daquele
outro espírito para com as crianças. Essa informação nos foi dada por nossos
“espíritos guias”, que também eram seres desencarnados, mas bons sujeitos
(assim pensávamos).
Vimos que a casa estava realmente bastante assombrada, de
modo que decidimos trazer conosco, na noite seguinte, todos os feiticeiros do
nosso grupo. Pedimos-lhes que fizessem círculos de proteção em torno da
família, para que nenhum dos familiares fosse possuído pelos espíritos em fuga
que esperávamos expulsar.
Minha esposa e eu levamos para o andar de cima os dois
principais feiticeiros do nosso grupo (uma mulher e um homem), e ali realizamos
nossos feitiços de forma a incrementar, por algum tempo, o poder que achávamos
que os nossos bruxos possuíam.
Mas, mesmo com a experiente liderança de minha esposa, nada
estava dando muito certo. Em determinado momento, ela brandiu ostensivamente o
seu punhal de feiticeira e perseguiu m dos espíritos escada abaixo até a porta
dos fundos. Viu-se,
também, diante da abertura de um abismo cheio de estrelas,
em vez do quintal!
Finalmente, num ato de desespero, fez uso do nome que bem
poucos feiticeiros terão coragem de até mesmo pronunciar. Ela gritou:
— Em nome de Jesus Cristo, ordeno que todos os espíritos
saiam daqui!
Foi como se um estrondo sobrenatural atingisse toda a casa,
e imediatamente a opressão desapareceu. Foi como sentir de novo o sol no rosto
depois de uma tempestade.
Como cada um de nós estava trabalhando num quarto diferente
da casa, eu não tinha ciência do que exatamente Sharon tinha feito.
Naturalmente, presumi que nossos rituais tinham tido êxito e nem me preocupei
mais com o assunto. Nós dois e os demais do grupo fomos, então, para o andar
térreo, e o casal proprietário nos disse sentir que a casa estava ótima.
Naturalmente acharam ter sido pelos nossos “poderes místicos” altamente
desenvolvidos que a opressão desaparecera.
Mas aquela noite ainda não terminara. Sentamo-nos na sala de
estar para tomar um chá, enquanto nos deliciávamos com o sabor da nossa
vitória, quando de repente um som de um uivo, horripilante, irrompeu naquela
noite. Seguiu-se a ele o barulho de um forte impacto, como se alguém tivesse
dado um tiro de canhão na porta de entrada. Corremos até a porta e a abrimos.
Vimos à nossa frente o gato da casa, tremendo de forma incontrolável, tomado de
um terrível pavor. Olhando com atenção para a porta, pareceu-nos que alguém (ou
alguma coisa) tinha arremessado o gato com uma incrível violência contra a
porta.
O pobre gato estava tão aterrorizado que tinha se arranhado
todo. A dona da casa nos informou que o bichano era tão bravo que já tinha até
enfrentado cães duas vezes maiores do que ele. Ela, então, o pegou e, quando o
colocou no chão, ele disparou e foi esconder-se debaixo do sofá, tremendo de
medo, e ali permaneceu por muitos dias.
Uma pequena camada de neve cobria o gramado lá fora, mas não
havia pegadas humanas sobre a neve em parte alguma nas proximidades da entrada
da casa, tampouco pegadas do gato. Assim, concluímos que os espíritos, ao
saírem da casa, vingaram-se no gato da família, arremessando-o contra a porta.
Não obstante esse pequeno incidente, tanto nós como a
família nos sentimos satisfeitos com o final de tudo. Os espíritos nunca
retornaram, e o casal nos enviou um cheque de valor mais que suficiente para o
pagamento de nossos serviços.
Mudamos o nosso “ministério” de Dubuque para Milwaukee, em
1974, porque mais de 80 pessoas haviam solicitado que ministrássemos cursos
sobre feitiçaria com iniciações e estabelecêssemos novos grupos de bruxos
naquela cidade. Começamos, então, a dar
aulas de modo regular a candidatos à feitiçaria.
Um dia, durante o quarto semestre daquela escola de bruxaria,
recebemos de uma de nossas alunas do segundo ano um frenético telefonema por
volta da meia-noite. Ela estava num bar e tinha bebido bastante. Sentia que
demônios haviam se apoderado dela.
Julgava-se totalmente possuída por eles! Como fazia pouco
tempo que estávamos na cidade, não sabíamos onde ficava o bar. Assim, sugerimos
que ela viesse até nossa casa.
Levou uma hora para a aluna chegar. Nesse ínterim, ela foi
atormentada incessantemente. Disse-nos que mãos invisíveis ficavam agarrando
suas mãos no volante, tentando desviar o carro para a contramão. Ela escapou
por um triz da morte, uma ou duas vezes.
Inicialmente, conversamos com ela do lado de fora de nossa
casa, porque tinha medo de entrar. Por fim, começou a ficar violenta, de modo
que tivemos de arrastá-la até o nosso templo de magia, onde tínhamos
estabelecido um Círculo de Bruxos. Ela ia chutando, berrando e espumando pela
boca.
A mulher estava totalmente fora de si, espumando e gemendo
lamuriante como uma banshee [bruxa que, na crença popular irlandesa, prevê a
morte de uma família]. Pegamos as nossas cordas de bruxaria e a amarramos,
conforme prescrito pelos feiticeiros, para não nos atingir nem se machucar.
Àquela altura, eu me sentia bastante confiante, pois, como parte do meu
treinamento ocultista, havia iniciado meus estudos de preparo para o sacerdócio
da Igreja Católica Romana Antiga [Igreja existente nos Estados Unidos — Old
Roman Catholic Church, que se declara sucessora da Igreja Católica histórica,
não sendo ligada ao Vaticano], e já recebido o grau menor de ordenação.
Significa que eu havia recebido a “Santa Ordenação” de exorcista e com ela,
supostamente, o poder de expelir demônios. Considerando todo o nosso
treinamento em magia, nosso poder de grande sacerdote na feitiçaria e os manuais
que consultávamos, achamos que a nossa tarefa seria extremamente fácil.
Quatro horas depois, no entanto, nossa aluna continuava se
retorcendo, chutando e proferindo pragas malignas contra nós. Tínhamos colocado
um “círculo mágico” em torno dela, dentro dos limites do nosso templo, e
tentado de tudo, para expelir os demônios que a atormentavam. Lançamos mão dos
rituais de exorcismo do livro A Maior Chave de Salomão e dos manuais e textos
de bruxaria de que dispúnhamos. Cheguei até mesmo a ler todo o ritual católico
romano de exorcismo, rezando em nome de Jesus Cristo e borrifando sobre ela um
pouco de água benta. Mas tudo isso só fez aumentar sua fúria (dela ou deles).
O dia já ia amanhecer e nos encontrávamos exaustos, mas não
os demônios. Eu havia praticado todo o ritual de exorcismo duas ou três vezes,
assim como outros rituais e atos simbólicos — mas tudo foi totalmente inútil.
Finalmente, minha esposa, Sharon, suspirou, desesperada, pondo para trás o
cabelo que lhe caía sobre os olhos, e me olhou como quem dissesse: “Neste caso,
nada funciona!” Sharon, então, pôs as mãos sobre a cabeça da mulher, depois de
já ter feito isso inúmeras vezes, mas agora dizendo:
— Em nome de Jesus Cristo, eu ordeno que todos os demônios
que estão nesta mulher saiam agora!
A infeliz mulher deu um berro tão forte que por pouco não
levantou o teto da casa. Seu corpo se levantou, arqueando-se, retesado, mas, em
seguida, ela desmaiou, caindo inerte no chão como morta. Pela primeira vez,
depois de várias horas, houve silêncio naquele quarto em penumbra.
Voltei-me para Sharon, um tanto ofendido. Ela sacudiu os
ombros, como que dizendo: “E daí?”, e curvou-se para ajudar a mulher, que
começava a voltar a si, recuperando a consciência.
Meia hora depois, ao nascer do sol, pudemos, então,
despedi-la advertindo-a de que deveria manter-se longe de bares do tipo daquele
que freqüentara.
Contudo, meu ego, como homem, fora atingido. Não conseguia
entender — mesmo que houvesse alguma magia no uso do nome de Jesus Cristo — por
que esse nome funcionara de imediato, sem esforço algum, quando Sharon o
mencionou, mas não tivera efeito algum quando eu o tinha usado, várias vezes,
dentro de um grande e bem elaborado ritual de exorcismo.
