terça-feira, 25 de maio de 2021

Este mundo tenebroso - parte 2 - Capítulo 17


 Tom fez da ocasião um almoço. Convidou Mark e Cathy, Ben e Bev, e Wayne Corrigan. Corrigan estava no tribunal e não pôde ir, mas os outros foram correndo. Juntaram seus sanduíches, batatinhas fritas, saladas e refrigerantes e se reuniram com os dois de fora no quintal de Tom para um encontro das mentes, uma séria averiguação daquele Marshall Hogan. Claro, ele era cristão, e claro, ele próprio havia passado por interessante batalha espiritual, mas também era membro da imprensa, e a essa altura a imprensa não era considerada amistosa ou confiável.

Eles se sentaram num círculo de cadeiras no quintal, mastigando sanduíches e falando seriamente. Marshall contou em estilo conciso, jornalístico, a aventura que havia tido na cidade de Ashton. Eles ficaram pasmados. Naturalmente, a conspiração de base ocultista para controlar Ashton e o desmantelamento daquela conspiração não foi reportado na imprensa nacional. Ninguém dos que se sentavam no quintal aquele dia havia jamais ouvido falar do lugar e do que havia acontecido lá.

— E eu também jamais teria ouvido falar de vocês — disse ele — se a coisa toda não tivesse tanto potencial para escândalo. Olhem, este tipo de coisa a imprensa chama de notícia. Vende jornais, e foi assim que chegou a mim, via teletipo. Pelo que vi no material para publicação, lendo nas entrelinhas, naturalmente, vocês enfrentam a mesma coisa que nós enfrentamos, só que pior.

Mark perguntou:

— Então você não se decepcionou com os relatos de nosso "comporta­mento religioso chocante"?

— Talvez vocês sejam chocantes. Talvez sejam como tantos cristãos que vêm um demônio debaixo de cada toalhinha de crochê. Talvez mereçam a ação judicial e a publicidade que têm. — Marshall fitou cada um deles nos olhos ao falar. — Ou talvez toda essa coisa seja legitima. Se for, então eu poderia ficar por aqui e fazer o que puder para ajudá-los. Tenho uma moça que pode cuidar do jornal enquanto eu estiver fora; posso cuidar das minhas próprias despesas até certo ponto. Sou bom em bisbilhotice, sei como desenterrar coisas, e sei brigar. Se esta coisa for o que parece ser, então estou disposto a colocar-me à sua disposição, e Kate também.

Poderia ser essa uma resposta à oração? Mark se dispunha a explorar isso um pouco mais, e os outros concordaram. Resolveram contar a Marshall os detalhes da ação judicial e o estranho incidente com Amber Brandon que deu início a tudo. Marshall ouviu atentamente a história toda, e pareceu acreditar nela.

Então, Marshall perguntou:

— E daí, a Ametista apareceu alguma vez novamente? Tom pensou a respeito da pergunta.

— Não da mesma forma. Amber ficou quieta, mas andava realmente muito estranha... deprimida, nervosa, desatenta. Ela não conseguia parar durante as nossas devoções matutinas e não podia suportar ouvir a Palavra de Deus. Agora sabemos por quê. Ametista não podia mais manifestar-se na escola, mas nunca foi embora de vez.

— Um caso mais difícil do que você imaginou, talvez? Tom voltou-se para Cathy Howard.

— Por que não conta a ele o que Alice Buckmeier lhe disse?

— Alice Buckmeier é uma viúva que freqüenta a nossa igreja. É um amor — explicou Cathy. — Não faz muito tempo, quase na mesma época em que esta ação começou, Alice estava no Correio enviando um pacote quando ouviu uma grande comoção e viu Amber berrando com uma freguesa. Lucy Brandon, a agente, saiu da sala dos fundos e tentou aquietar Amber, mas a menina continuava berrando, e Alice disse que Amber empinava como um cavalo, correndo em círculos em torno da mulher e berrando com ela e quase matando-a de susto. A mulher saiu correndo realmente apavorada, e Alice ficou apenas... ela apenas ficou parada ali, realmente abismada.

— Quem era a mulher? Cathy deu de ombros.

— Alice não sabia; nunca a tinha visto antes. De qualquer forma, Lucy Brandon correu atrás de Amber pelo saguão do Correio por muito tempo, e acho que finalmente Amber se acalmou e agiu como se nada tivesse acontecido, como uma mudança total de personalidade. Ora, isso parece... bem...

Marshall deu um assobio ao ouvir a história.

— Isso parece cada vez mais convincente. Tom, triste, apenas meneou a cabeça.

— Tente só convencer o resto do mundo.

— Certo. — Marshall tirou alguns recortes de notícias de sua pasta. — O jornal Estrela do Condado de Hampton parece saber tudo a respeito de vocês.

— E a maioria dos jornais grandes também — acrescentou Mark. — Foi transmitido via UPI e AP. Imagino que o país inteiro fale disso agora.

— Oh, claro. Vejo que eles exploram o ângulo de abuso infantil: "Crianças Vítimas de Comportamento Fundamentalista Bizarro." Bom. Ou que tal este aqui do litoral Leste: "Religião como Abuso: Por Trás das Portas de uma Escola Particular." Oh, eu ia perguntar-lhes a respeito deste aqui: "Escola Cristã Responde à Intimação do Tribunal." Diz aqui que vocês ainda não haviam resolvido se obedeceriam ou não à ordem do tribunal. Onde está aquela citação? Aqui. "Precisamos obedecer antes às leis de Deus do que às dos homens", disse o Pastor Mark Howard.

Mark assentiu com a cabeça e teve de dar uma risada.

— Sim, eu disse essas palavras, mas acho que minha declaração toda foi a de que havíamos ouvido gente dos dois lados da questão, e que alguns haviam dito que deveríamos obedecer às autoridades estabelecidas por Deus, e alguns haviam dito que deveríamos obedecer antes às leis de Deus do que às leis dos homens. Acho que eles pegaram a última parte da minha declaração, mas não a primeira.

— E então, o que resolveram?

— Por enquanto, nos submeteremos à ordem do tribunal. Achamos que seria melhor para nós até que essa ação seja resolvida. Depois então teremos apenas de examinar a questão novamente.

Bev falou:

— Isso só vem mostrar como as pessoas que têm o poder podem decidir o que sabemos e o que não sabemos. É a mesma coisa que aconteceu com o Ben.

— Isso não é nada... — começou Ben a dizer. Bev ficou furiosa.

— Nada? Deixou você sem emprego, e não chamo isso de nada! Cathy defendia Bev.

— Tem alguma trapaça acontecendo lá no Departamento de Polícia. Uma senhora foi morta algumas semanas atrás, e eles dizem que foi suicídio, mas Ben acha que foi assassinato, e agora eles escondem a coisa toda.

— E a Estrela também esconde — explicou Bev. — Você viu aquele artigozinho de nada dizendo que a coisa toda era suicídio? — Marshall apenas começou a menear a cabeça. — Aí, está vendo? Você também não o viu. Eles não queriam que ninguém visse.

Marshall conseguiu inserir uma pergunta.

— Ben, o que aconteceu com o seu emprego?

— Eles o puseram na rua — adiantou-se Bev. — Ele sabia demais. Ben riu e colocou o braço em torno da esposa.

— É como eu vejo a coisa, sim. Marshall considerou aquilo.

— Está bem. Talvez tenhamos de conversar mais a respeito disso depois. Mas voltemos agora ao cerne do problema, que é Amber. Tom, você mencionou algo a respeito de ela alegar ter aprendido todo esse negócio na classe da escola primária...

— Certo. A classe da Srta. Brewer. Posso acreditar nisso. As escolas têm experimentado uma porção de currículos novos. Pode ser que algum tipo de ocultismo mal disfarçado tenha vindo junto.

— O que você sabe a respeito da Srta. Brewer?

— Nada de nada. Acho que ela é nova este ano. Cathy confirmou.

— Sim, ela é nova. Tenho umas amigas que a conhecem.

— Muito bem, teremos de conversar com elas e ver o que sabem. A própria Srta. Brewer pode ter trazido um currículo ou talvez o conselho escolar esteja experimentando algo novo. De qualquer jeito, seria bom saber como Amber tornou-se no que é, e conseguir prová-lo. Que tal, Kate? Não está com vontade de fazer uma visitinha à Srta. Brewer?

Ela ergueu os olhos das suas anotações e sorriu ao pensar na aventura.

— Morrendo de vontade.

— Agora... pessoas de interesses parecidos tendem a agrupar-se, da mesma forma que fazemos agora, e isso é chamado de entrelaçamento. Uma vez entrelaçadas, as pessoas começam a trabalhar juntas, e isso lhes dá um poder que não tinham antes. Gostaria de saber o quanto esta cidade está interligada por quaisquer grupos de ocultismo ou do tipo cósmico. Eles podem já estar nas escolas. Talvez também se tenham infiltrado noutras áreas de poder.

— Temos o CírculoVital — informou Mark.

— Algum tipo de comunidade ocultista?

— Oh, sim, a gente ouve falar muito deles pela cidade, e eles vendem ervas e literatura mística, holística, lá na Mercearia. Eles se dizem algo como "um círculo de apoio de amigos devotados ao crescimento e evolução pessoais".

— Quem pertence a esse bando?

Todos.eles começaram a se entreolhar. Ninguém sabia ao certo quem estava envolvido naquilo.

— Não sei de ninguém assim de pronto — explicou Mark. — Eles não funcionam muito em público; não ficam muito visíveis.

— E a Srta. Brewer? Ninguém sabia.

— E Lucy Brandon? Não houve resposta.

— Bem, é melhor descobrirmos então. Não podemos ver nada ainda, e pode não ser exatamente esse grupo Círculo Vital, mas o que procuramos é algum tipo de conexão, algum tipo de ligação entre esses sujeitos da ACAL, Claire Johanson, Lucy Brandon, a Srta. Brewer e, finalmente, Amber. Temos de conhecer o inimigo antes que possamos enfrentá-lo. — Marshall terminou com as últimas gotas do seu refrigerante. — E acho que vocês sabem que esta é uma batalha espiritual. Como andam as coisas nesse departamento? Vocês têm bons guerreiros de oração?

A reação não foi imediatamente afirmativa. Havia dúvida à volta toda, em cada rosto.

Mark tentou explicar.

— Tem sido duro por causa da ação judicial, por causa das acusações atiradas contra Tom. As pessoas aqui presentes hoje estão todas orando, mas a igreja está de fato tendo dificuldades com a coisa toda, e temos muitas pessoas aborrecidas. Ainda tento dar um jeito de controlar toda a conversa que tem saído por aí.

— Então, o pessoal conversa e não ora? Mark assentiu com a cabeça.

— É mais ou menos isso.

Marshall pensou sobre aquilo e moveu a cabeça afirmativamente.

— Parece uma estratégia de Satanás. Sc ele puder dividir a igreja e separar vocês em campos, seu trabalho será um piquenique.

— Bem — propôs Mark — podemos certamente orar agora, só nós. Sei que nós estamos juntos neste negócio.

— É, vamos fazer isso — concordou Ben.

Eles oraram, e demoraram bastante tempo fazendo-o. Marshall e Kate se uniram a eles, e isso significou muito para todos. Havia definitivamente uma união ali, uma unidade de espírito. Aquele homenzarrão vindo de tão longe e a esposa não pareciam estranhos de forma alguma, mas compa­nheiros de combate. Isso era a mão de Deus.

Não muito depois de Mark ter dito o último "Amém", Marshall fez a pergunta final.

— E então, o que lhes parece? Querem deixar a gente entrar nessa, e ver o que acontece?

Agora eles estavam prontos. Mark estendeu a mão e ele e Marshall selaram o acordo com um aperto.

— Temos comunhão, irmão.

— Muito bem, então. Já tenho alguns projetos em mente. Cathy, veja o que as suas amigas podem nos dizer acerca da Srta. Brewer, e depois Kate irá fazer-lhe uma visita em pessoa. Bev, precisaremos conversar com Alice Buckmeier a respeito daquele incidente no Correio, e, se possível, obter mais detalhes com ela; talvez então possamos descobrir onde foi que Amber conseguiu esse amigo cavalinho e com que realmente estamos tratando. Verei se consigo averiguar esse Círculo Vital e descobrir quem está envolvido.

Pareceu muito bem a todos.

O grupo começou a se desfazer. Cathy e Bev puseram-se a tirar os pratos da mesa de piquenique. Mark e Tom a dobrar as cadeiras.

— Oh, Ben... — chamou Marshal, e Ben reuniu-se a ele junto da cerca dos fundos. Marshall recostou-se na cerca e correu os olhos por um pasto verde, largo, que dava para o quintal de Tom. — Você era um tira, não era?

— Sim. Era. Eles me mandaram embora há duas semanas.

— Por que chegou perto demais de algo que eles tentavam esconder? Ben sorriu, desculpando-se.

— Bem... em retrospecto, não sei ao certo. É só que a coisa me parecia suspeita.

— Digamos que você descobriu alguma coisa. Conte-me o que foi. Ben olhou umas vacas malhadas pastando preguiçosamente à distância.

— Não tenho a menor idéia, Marshall. Era simplesmente que a falecida, uma mulher chamada Sally Roe, foi morta de forma bem violenta — pelo menos foi assim que a evidência me pareceu. Havia sinais de luta, uma blusa manchada de sangue, um pouco de ração de cabras derramada. O corpo, encontrado num cercado de cabras, jazia no chão como se uma luta violenta tivesse ocorrido. O médico legista atribuiu a morte a asfixia por enforcamento, o mesmo que a conclusão inicial do sargento Mulligan, mas não acho que essa conclusão se encaixe na situação encontrada na cena. Quando a senhoria, dona Potter, encontrou o corpo, ele não estava dependurado dos caibros; não estava com uma corda em torno do pesco­ço, nem havia corda alguma amarrada aos caibros. A falecida tinha uma corda na mão. E o corpo jazia no capim, do mesmo jeito que o encontra­mos. Também me perturba o fato de que quando recebemos o chamado, o sargento Mulligan se referiu a ele como suicídio antes mesmo de ter ido lá, e eu sei que não lhe dei nenhuma informação na ocasião que dissesse isso.

Ben continuou:

— Acrescente a isso algo inquietante que descobri ao conversar com gente que conhecia a Roe antes que esta morresse: a descrição que me deram de Sally Roe não se encaixa com a descrição da mulher que encontramos no cercado das cabras, o que faz surgir algumas implicações assustadoras. A coisa toda não faz sentido algum, e ainda estou perturbado por isso.

— Vejo que vocês têm toupeiras nesta parte do país também — disse Marshall, apontando alguns montinhos novos no quintal.

Ben ficou um tanto desapontado. Aparentemente as suas preocupações não eram importantes para esse homem que se dizia tão interessado nos problemas que ele e seus amigos enfrentavam.

— Bem... sim. É difícil ficar livre delas. Quando surgem no meu quintal, fico só tirando os montinhos para que não matem a grama. Não há muito que a gente possa fazer.

Puxa, pensou Ben, que conversa idiota isto está virando.

— Parece que os vizinhos também têm o mesmo problema. — Marshall apontou diversos montinhos no pasto.

— É, elas dão suas voltas — explicou Ben, pronto para pôr um fim naquela conversa desapontadora, pondo-se a olhar em volta.

— Duas propriedades diferentes aqui — disse Marshall, olhando para cima e para baixo da cerca. — Tom tem uma toupeira, e aquele sitiante tem uma toupeira. — Então Marshall olhou para Ben um momento, esperando pela atenção total deste. — Quanto você quer apostar que os montinhos deste quintal e os montinhos daquele pasto foram feitos pela mesma toupeira?

Ben reteve todos os outros pensamentos e prestou atenção. Esse sujeito queria dizer alguma coisa que parecia interessante. Marshall enfatizou seu ponto.

— Ben, daqui de cima do chão, pensamos em termo de limites de propriedades, de domínios separados. Tom tem o seu quintal, o sitiante tem o seu pasto, e as duas propriedades se dividem por esta cerca. Mas e aquela toupeira? A cerca não a detém; ela apenas vai onde quer que queira ir e faz subir seus montinhos de terra, e, no que lhe diz respeito, é tudo apenas um grande pedaço de chão.

— Continue — pediu Ben.

Marshall sorriu, os olhos fechando-se um pouquinho por causa do sol, a brisa soprando seu cabelo ruivo.

— A Academia do Bom Pastor tem um problema e você tem um problema. A Academia tem uma toupeira, e você tem uma toupeira. Estou sugerindo que poderia ser a mesma toupeira. Falamos de guerra espiritual aqui; os espíritos não querem nem saber de quem é o quintal, ou onde as nossas cercas possam estar.

— E então, o que diz você?

— Digo que me sentirei muito melhor se você e eu conseguirmos descobrir tudo o que for possível a respeito dessa tal Sally Roe.

Ben sentiu-se melhor.

— Sabe, eu esperava que alguém visse a coisa dessa maneira.

— Acho que Bev já viu.

Ben considerou isso com cuidado.

— Viu mesmo. — Então ele desencavou uma idéia enterrada. — Eu ia fazer uma averiguação criminal da Roe antes de ser despedido. Acho que ainda poderia fazer uma averiguação; tenho um amigo na polícia de Westhaven que poderia fazer isso para mim.

Marshall examinou de novo os montinhos de terra.

— Mal posso esperar para ver.